Um grande CD deste desconhecido Westhoff, que produziu uma imensa obra que simplesmente se perdeu. Pela amostra deste disco, a perda foi enorme. O violinista David Plantier e o trio Les Plaisirs Du Parnasse dão uma verdadeira aula de senso de estilo e compreensão ao remontarem Westhoff. Há amor pela arte neste disco.
Johann Paul von Westhoff (1656-1705) foi um compositor e violinista barroco alemão. Tornou-se um dos membros mais importantes da fundamental escola de violino de Dresden. Estava entre os instrumentistas mais considerados de sua época e compôs algumas das primeiras músicas conhecidas para violino solo. Trabalhou como músico e compositor como membro da Hofkapelle de Dresden (1674-1697) e na corte de Weimar (1699-1705). A obra sobrevivente de Westhoff compreende seis obras para violino e baixo contínuo e seis para violino solo, todas publicadas durante sua vida. Outros trabalhos, particularmente uma coleção de música para violino solo de 1682, são considerados perdidos. Juntamente com Heinrich Ignaz Franz Biber e Johann Jakob Walther, influenciou bastante a geração subsequente de violinistas alemães, e as seis partitas para violino solo inspiraram as famosas sonatas e partitas de violino de Johann Sebastian Bach.
Johann Paul von Westhoff (1656-1705): Sonatas para Violino e Baixo Contínuo Dresden 1694
Suite N°4 En Ré Mineur
1 Aria : Largo 2:40
2 Allegro 1:40
3 Aria : Andante 2:38
4 Allegro 1:02
5 Arioso 2:37
Suite N°3 En Ré Mineur
6 Grave 2:23
7 Largo 3:27
8 Imitatione Delle Campane 3:30
9 Adagio 1:45
10 Allegro 2:22
Sonate N°2 En La Mineur
11 Largo 2:15
12 Presto 2:33
13 Imitatione Del Liuto 3:30
14 Aria : Grave 1:45
15 Finale 0:59
Tenho um carinho muito especial pelo selo Olympia. Lembro de comprar CDs deles em uma livraria na Av. Paulista, quase esquina com a Rua da Consolação, creio que se chamava Livraria Belas Artes, lá nos idos dos inícios dos anos 90. Comprei algumas pérolas ali, de músicos dos quais nunca tinha ouvido falar até naquele momento, como Moura Lympani e Tatiana Nikolayeva, e ali no meio ainda encontrava os medalhões Leonid Kogan, Emil Gilels e Sviatoslav Richter ou David Ostrakh. Esses nomes russos sempre me fascinaram. Esses Cds eram muito baratos, com o equivalente a R$ 50,00 saia dali com vários cds. Eu os escolhia em um balaio de vime. Muita gente deve se lembrar deste endereço, pois essa Livraria estava sempre aberta, sábados, domingos, feriados, não importa, sempre era um ponto de parada para quem ia a uma sessão de cinema ou ali nos Cines Belas Artes, ou então em alguma outra sala ali na Av. Paulista.
Não creio que seja necessário apresentar Tatiana Nikolayeva, ela é figurinha carimbada aqui no PQPBach, e vai aparecer ainda mais nos próximos dias, graças ao incansável Vassily Grienrikovich, que está fazendo um trabalho hercúleo ao recuperar antigas postagens.
Mas Nikolayeva era uma artista extremamente versátil, e um de seus compositores favoritos foi nosso Papai Bach. Gravou tudo o que ele compôs para teclados. A gravação que ora vos trago foi realizada em 1977, e apresenta uma das melhores interpretações que já ouvi destas Invenções e Sinfonias. Para quem não conhece, sugiro baixarem esse CD para melhor poderem apreciar o talento desta excepcional musicicista, que faleceu em 1993, aos 69 anos de idade. Os senhores poderão encontrar maiores informações sobre essa lenda do piano no site http://www.tatiana-nikolayeva.info/.
O grande Slava Rostropovich, músico fenomenal e extraordinário ser humano, provavelmente me desculparia se eu lhe dissesse que o húngaro János Starker (1924-2013) foi, para mim, o maior violoncelista de seu tempo. Sua técnica assombrosa garantia interpretações enérgicas e impecáveis para um repertório imenso. Starker foi, afinal, o sujeito que tinha tenros quinze anos quando tocou a famigerada Sonata de Kodály para o compositor e ouviu dele que, se corrigisse alguns pequenos detalhes (de andamento – nada de mundanas dificuldades técnicas!), sua interpretação ser “a Bíblia”. A técnica, entretanto, era para Starker apenas um veículo para a expressividade, e não há disso prova mais cabal que as cinco versões que ele nos legou destas preciosas Suítes para violoncelo solo.
O que ora lhes apresento é a última dessas versões, registrada em 1992, mas lançada somente em 1997. Diferentemente das anteriores, nesta gravação Starker acata todas as repetições indicadas por Bach, e os andamentos são, em geral, mais lentos. Ainda que tenha, talvez, menos do que se convencionou chamar de “brilho”, essa versão recheada de sabedoria, ponto culminante de quase oitenta anos de música, é uma de minhas gravações preferidas das Suítes, a impressão final de um mestre sobre as obras que tanto amava.
J. S. BACH – SUITES FOR SOLO CELLO – JÁNOS STARKER
Mariss Jansons considerava Dmitri Shostakovich um dos compositores mais sérios e sinceros de todos os tempos e pensava que suas quinze sinfonias eram particularmente emocionantes e cativantes. Ele via aquela música como uma testemunha esmagadora de uma era traumática de escuridão política, enquanto mantinha uma expressão atemporal de sentimento e de experiência humana existencial. Durante dezessete anos, Mariss Jansons gravou todas as sinfonias de Shostakovich, juntamente com a orquestra com a qual ele estava artisticamente associado no momento. Seis das apresentações foram com o Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks. A estupenda gravação deste post foi gravada ai vivo. Em 2006, o ciclo foi concluído a tempo do centenário do nascimento do compositor.
Shostakovich: Symphony No. 10 in E minor, Op. 93 53:44
I. Moderato (Live) 23:24
II. Allegro (Live) 4:42
III. Allegretto – Largo (Live) 12:12
IV. Andante – Allegro (Live) 13:26
Symphonie-Orchester des Bayerischen Rundfunks
Mariss Jansons
Publicada originalmente em novembro de 2015, reativada em dezembro de 2019, atualizada em maio de 2022
Rostropovich pode ter tido mais fama – merecidíssima, aliás, pela assombrosa técnica e enorme musicalidade, pela importância como pedagogo e pedra fundamental de toda uma escola violoncelística, e, como não se bastasse isso tudo, também pelo ser humano formidável que foi -, mas, se vocês fizessem uma enquete entre o panteão do violoncelo do século XX, provavelmente constatariam que o mais querido entre os violoncelistas era o parisiense Paul Tortelier (1914-1990).
Este “violoncelista dos violoncelistas” foi, como Rostropovich, um grande pedagogo e ativista político, além de ávido ciclista e muito bom flautista – em seus encontros com amigos, o violoncelo normalmente calava-se para a flauta falar. Ao contrário do hiperativo, calvo e bonachão Slava, Tortelier era um sujeito de calma proverbial, vasta cabeleira e muito poucas palavras. Rostropovich gargalhava ao contar como eram comparados a Quixote e Panza, e dedicou várias páginas de sua biografia a uma apologia do amigo. Numa delas, conta que ele costumava, ao tocar para amigos as Suítes de J. S. Bach, cantarolar sobre alguns movimentos vocalises improvisados, ao estilo do que Gounod fizera ao transformar um prelúdio do “Cravo bem Temperado” em sua famosa “Ave Maria”, e que sua voz, incrivelmente, impressionava mais do que seu instrumento.
Ainda que Slava muito lamentasse que seu colega não tivesse registrado para a posteridade seu talento como cellista-canoro, nós outros não podemos lamentar: mesmo com a boca fechada, Tortelier deixou-nos essa belíssima gravação das Suítes, repleta do timbre nobre e fraseado elegante que o fizeram tão admirado por seus pares. Ah, e aumentem o volume, porque a EMI resolveu deixar tudo bem baixinho, talvez para que escutemos o mestre no silêncio que merece.
Nota de Vassily em 2022: o texto acima refere-se à gravação de 1961, a primeira das duas que o mestre faria em estúdio. Quando o publicamos originalmente, em 2015, ele fazia parte duma série com todas as gravações que tenho das suítes, e eventualmente chegaria à segunda gravação, feita em 1982, que é muito superior e aclamada como uma das melhores jamais feitas dessas preciosas obras. Para que os leitores-ouvintes também possam conhecê-la e compará-la à irmã mais velha, resolvi também deixá-la disponível.
ooOoo
BACH – LES 6 SUITES POUR VIOLONCELLE – PAUL TORTELIER
O 250º aniversário de Beethoven está chegando em 2020, mas os maiores craques, orquestras e gravadoras estão comemorando antes. Pela DG, Andris Nelsons já lançou uma extraordinária integral das sinfonias e Ehnes vem a passos largos gravando as Sonatas. Talvez isso acabe esvaziando a data de 17 de dezembro de 2020. Nós, por exemplo, postaremos a integral de Nelsons em 17 de dezembro de 2019… Este disco é excelente, apesar dessas primeiras Sonatas não serem tudo aquilo. Mas gosto muito da alegria da Sonata Nº 2 e das 12 Variações sobre um tema de Mozart. Tudo muito lindinho.
Beethoven (1770-1827): Sonatas para Violino de 1 a 3 (Op. 12) – Variações sobre ‘Se vuol’ballare’
Beethoven: Violin Sonata No. 1 in D major, Op. 12 No. 1 20:19
I. Allegro con brio 8:47
II. Tema con Variazioni 6:42
III. Rondo – Allegro 4:50
Beethoven: Violin Sonata No. 2 in A major, Op. 12 No. 2 16:57
I. Allegro vivace 6:45
II. Andante, piu tosto Allegretto 5:00
III. Allegro piacevole 5:12
Beethoven: Violin Sonata No. 3 in E flat major, Op. 12 No. 3 18:19
I. Allegro con spirito 8:21
II. Adagio con molt’ espressione 5:37
III. Rondo – Allegro molto 4:21
Beethoven: Variations (12) for piano & violin in F major on Mozart’s ‘Se vuol’ballare’, WoO 40 10:41
Não sei o que parece para os senhores, mas em minha modesta opinião, a abertura do Prelúdio op. 28 nº2 lembra quase uma marcha fúnebre. O andamento lembra o trote dos cavalos, e o lento andar das pessoas que acompanham. A genialidade de Chopin não encontrava limites ou barreiras.
Hoje temos mais um conjunto de pequenas peças, os Prelúdios, sensiveis e delicados por vezes, intensos e nervosos em outros momentos. Basta fecharmos os olhos enquanto Nikita Magaloff faz a sua mágica. A música flui com naturalidade.
P.S. de Pleyel ao revalidar a postagem em 2023: Nikita Magaloff (1912-1992) estudou em Paris com Isidore Philipp, o mesmo professor de Guiomar Novaes. Embora ela fosse quase vinte anos mais velha que ele, tanto o Chopin de Novaes como o de Magaloff se caracterizam por uma certa naturalidade: tocavam como respiravam ou bebiam água, as escolhas interpretativas pareciam intuitivas, sem busca de virtuosismo performático. Ao mesmo tempo, em vários momentos eles interpretam no sentido forte da palavra, ou seja, fazem escolhas em termos de tempo rubato, de pedal, etc. Sobre o rubato sutil de Madame Novaes, Ranulfus afirmava: “para que sublinhar o que já é intenso por si?”
O mesmo vale para Magaloff.
Estreei aqui no PQP Bach com um relato bastante palavroso do meu primeiro contato com estas obras que amei imediatamente – muito embora, como bem apontaram os leitores-ouvintes, a gravação que o acompanhou não fosse lá grande coisa.
Pretendo, aos poucos, redimir-me e postar por aqui todas as gravações que tenho dessas preciosas suítes. Sim: todas, todinhas, com todos os intérpretes e em todos os arranjos que colecionei ao longo dos anos – o que, na justa medida desse amor incomensurável, é um senhor montão de coisas.
Se hoje dispomos de uma carta tão variada de gravações, e se todo violoncelista que se preza inclui as Suítes de Bach em seu repertório, nós o devemos a um cidadão chamado Pau Carles Salvador Casals i Defilló, catalão de nascimento, que ficou conhecido mundo afora como Pablo Casals.
Casals teve uma longa (96 anos!) e prolífica vida. Depois de estudar piano, violino e flauta, seu primeiro contato com o que deveria ser um violoncelo foi ao assistir um músico itinerante tocando um cabo de vassoura com cordas (!!). Depois de muito insistir com o pai, este lhe construiu um instrumento que tinha uma cabaça como caixa de ressonância (!!!). Foi só aos onze anos que viu um violoncelo de verdade, adquiriu um instrumento de criança e começou a estudá-lo a sério.
Aos treze anos, num sebo próximo ao porto de Barcelona, fez a descoberta mais importante de sua vida: uma surrada partitura das Suítes para violoncelo de Johann Sebastian Bach, até então largamente esquecidas e, se tanto, relegadas a meras peças de estudo. Casals passou os treze anos seguintes a estudá-las meticulosamente antes de criar a coragem de tocá-las em público pela primeira vez. Contrariamente ao costume da época, que era o de incluir em recitais apenas movimentos isolados das obras instrumentais de Bach, Casals fez questão de executar as Suítes integralmente, com todas as repetições indicadas pelo compositor. Ciente de que uma execução inteiramente satisfatória de tais obras geniais escapava à capacidade humana, o grande músico catalão relutou em gravá-las, e só o fez, finalmente, em 1936, quando já tinha sessenta anos.
Além da exigente carreira de solista e pedagogo, Casals ainda teve tempo de ser um ativo camerista (especialmente com o Trio Thibaud-Cortot-Casals), um ardente republicano, ferrenho opositor à ditadura de Francisco Franco, e compositor do Hino das Nações Unidas (com letra – vejam só – de W. H. Auden).
Do exílio voluntário, que prometera encerrar somente após a destituição de Franco, organizou um festival anual de música na cidade catalã de Prades/Prada de Conflent, cujos proventos destinou a um hospital para refugiados catalães espanhóis do regime fascista de Franco [moltes gràcies, David!]. Morreu em 1973, dois anos antes de Franco, e foi sepultado em Porto Rico, terra natal de sua mãe, onde vivera seus últimos anos.
Durante sua vida, Casals foi incensado como um músico de estirpe incomparável, acima de qualquer crítica. De fato, parece difícil criticar um cidadão tão talentoso e engajado, de vida tão longa e rica. No entanto, caem de tacape em cima destas gravações, acusando-as de mal articuladas, apressadas e, mesmo, bizarras. Com os ouvidos repletos de versões modernas, ainda mais aquelas em violoncelo barroco que costumam ser as minhas preferidas, meu primeiro veredito também não foi muito favorável. Durante um bom tempo pensei que a gravação de Casals fosse respeitada tão só pela reverência que bem cabia ao grande homem, como nome fundamental não só do instrumento como também da história de performance dessas obras que são o pináculo de seu repertório.
Pretendia, pois, postar esta versão também por reverência, interesse histórico e, dado seu pioneirismo, por achá-la adequada à abertura desta série. Ao escutá-la novamente, enquanto preparo esta postagem, eu me surpreendi ao apreciá-la. Por mais que o som de Casals não seja opulento, e em que pese a tecnologia de quase oitenta anos atrás, achei que a “abordagem rapsódica” alegada pelos críticos carrega também, entre evidentes deslizes, os frutos de muita musicalidade.
Infelizmente, o som deste álbum da EMI não tem a qualidade daquele lançado pela Naxos anos depois e que ouvi na FM Cultura de Dogville (nos tempos, claro, em que a emissora se prestava a radiodifundir algo de Bach). Se algum dia eu conseguir o álbum da Naxos, substituirei os links.
Fantasias jocosas, mas cheias de sentimentos! É assim que o livreto deste disco começa. E, acredite, você ouvirá um excelente disco!
O pianista Paul Lewis já é frequentador de nossas páginas, onde foram postados as Sonatas e os Concertos para Piano de Beethoven, assim como as Variações Diabelli. Realmente, estas gravações são espetaculares e ganharam louvores de críticos ao redor do mundo.
Lewis iniciou na música tocando violoncelo, o único instrumento para o qual sua escola poderia oferecer uma bolsa de estudos. Assim que foi aceito em uma escola de música em Manchester, tornou-se aluno de piano, estudando com Ryszard Bakst, depois com Joan Havill na Guildhall School of Music and Drama. Estudou também com Alfred Brendel, que ele considera seu mentor. E justamente, eu acredito, pois o disco que apresentamos nesta postagem traz Sonatas para Piano de Haydn, obras típicas do repertório de Brendel.
Lewis dando uma palhinha para o pessoal do PQP Bach
Duas das sonatas são do período em que Haydn estava a serviço da família Esterházy e duas são mais tardias, consequências de suas viagens a Londres. É música clássica ainda com um cheiro de música galante, que demanda muito do intérprete, para realizar todo seu potencial e apresentar todo o seu bom humor e charme. Na minha opinião, é isso o que consegue com aparente total facilidade o pianista Paul Lewis.
Apesar de Haydn ser famoso por suas composições de quartetos, trios e sinfonias, seu biógrafo Georg August Griesinger relata como ele trabalhava em suas composições. ‘Eu me sentava [ao piano] e começava a fantasiar, de acordo com o meu humor – triste ou alegre, sério ou brincalhão. Uma vez que encontrava uma ideia, meu esforço concentrava-se em desenvolvê-la e mantê-la dentro das regras da arte’.
Assim ele nos deixou também várias sonatas para piano, das quais as quatro deste disco são significativas representantes.
Dia destes nosso guru PQPBach repostou uma antiga postagem minha com estas magníficas peças intituladas ‘Impromptus’, nas mãos mágicas de Maria João Pires. Não por acaso, aquele CD se chama ‘La Voyage Magnifique’, e foi meu primeiro contato com esta pianista.
A proposta de hoje é diferente. Trago um pianista reconhecido por sua dedicação à obra de Schubert, já a gravou algumas vezes, o húngaro András Schiff. Mas os grandes mestres nunca estão satisfeitos, né? e sempre voltam àquele repertório, talvez acreditando que possam dar uma contribuição maior, afinal, os anos se passaram e hoje eles são intérpretes maduros, e não apenas jovens com técnicas apuradíssimas. Mas Schiff, além de regravar algumas destas obras, resolveu inovar e tocar em um fortepiano, e não em um piano moderno. Para quem não consegue diferenciar, basta prestar atenção no som, que sai mais seco, não tão encorpado quanto se fosse em um Steinway moderno. O instrumento que Schiff utiliza nesta gravação foi fabricado em 1820, em Viena, então, provavelmente Schubert se utilizou de um parecido para as suas composições. Trata-se, claro, de uma opção do solista, mostrar como a obra deveria soar há quase duzentos anos. O texto abaixo foi retirado do booklet do CD:
“The instrument, a magnificient piece of cabinet-making with its walnut veneer, was in the possession of the Austro-Hungarian imperial family. The last Austrian Emperor and Hungarian King, Karl I, took it with him when he was exiled to Switzerland in 1919. In 1965 it was restored with what for the time was unusual care by Martin Scholz in Basel.Fora long time it was owned by Jörg Ewald Dähler. In 2010 it was acquired by Andras Schiff, who loaned it to the Beethoven-Haus in Bonn, of which he is an honorary member.”
Os ‘Impromptus’ são minhas obras favoritas deste genial compositor. É impressionante a maturidade artística destas obras, não parece que foram compostas por um jovem na casa de seus vinte e poucos anos de idade. Lembro que a primeira vez que ouvi estas obras foi com Murray Perahia, em uma fita cassete que arrebentou de tanto que ouvi, e esta gravação até hoje é a minha favorita. Qualquer dia destes a trago para os senhores conhecerem.
1 Schubert: 4 Impromptus, Op. 90, D. 899 – 1. Allegro molto moderato
2 Schubert: 4 Impromptus, Op. 90, D. 899 – 2. Allegro
3 Schubert: 4 Impromptus, Op. 90, D. 899 – 3. Andante
4 Schubert: 4 Impromptus, Op. 90, D. 899 – 4. Allegretto
5 Schubert: Piano Sonata No. 19 in C Minor, D. 958 – 1. Allegro
6 Schubert: Piano Sonata No. 19 in C Minor, D. 958 – 2. Adagio
7 Schubert: Piano Sonata No. 19 in C Minor, D. 958 – 3. Menuetto (Allegro)
8 Schubert: Piano Sonata No. 19 in C Minor, D. 958 – 4. Allegro
9 Schubert: 3 Klavierstücke, D. 946 – 1. Allegro assai
10 Schubert: 3 Klavierstücke, D. 946 – 2. Allegretto
11 Schubert: 3 Klavierstücke, D. 946 – 3. Allegro
12 Schubert: Piano Sonata No. 20 in A Major, D. 959 – 1. Allegro
Schubert: Piano Sonata No. 20 in A Major, D. 959 – 2. Andantino
14 Schubert: Piano Sonata No. 20 in A Major, D. 959 – 3. Scherzo (Allegro vivace)
15 Schubert: Piano Sonata No. 20 in A Major, D. 959 – 4. Rondo (Allegretto)
Nossa série sobre clavicórdios traz o mago Keith Jarrett improvisando por um bom tempo num deles. Se houvesse uma delegacia especializada em maus tratos a instrumentos frágeis, talvez pudéssemos denunciar Jarrett – não pelo produto de sua improvisação, que é muito bom, mas pela pouca delicadeza com que, muitas vezes, percute as delicadas tangentes. Os leitores-ouvintes acostumados à sua magia pianística perceberão que boa parte do primeiro volume soa como uma “aclimatação” ao timbre e aos recursos peculiares ao clavicórdio – e que a coisa decola, mesmo, no segundo volume.
Toda época tem direito de dar sua interpretação para os clássicos, mas muita gente pensa que, nesses dias de historicamente informados, não há mais espaço para os concertos de violino de Mozart serem gravados em instrumentos modernos. Esta versão é uma tabefe sonoro em quem pensa assim. Há muito que sou um grande fã de James Ehnes, embora raramente o tenha ouvido no repertório pré-século XIX. Seu conjunto de concertos de Mozart é um deleite: cheio de personalidade, cheio de ideias musicais, casando o melhor do estilo do período com o melhor do que os instrumentos modernos podem trazer. E ele ainda escreveu cadenzas próprias. A primeira coisa que impressiona é como seu som é leve. A música salta dos alto-falantes como uma lufada de ar fresco, com o violino cantando sobre a orquestra. A Mozart Anniversary Orchestra (uma orquestra escolhida entre amigos de Ehnes, tô por dentro) soa pequena em escala, mas grande em termos de personalidade. As cordas vêm brilhantes, frescas e ágeis.
Os Concertos de Nº 3 e 5 são extraordinários, mas o restante não é tudo aquilo dentre a produção de Mozart. Uma pena. O grande destaque destas versões — e isto ocorre em todos os concertos — é não apenas a cultura e o senso de estilo de Ehnes, mas suas cadenzas: UMA MAIS LINDA QUE A OUTRA.
W. A. Mozart (1756-1791): The Complete Violin Concertos
Violin Concerto No.1 in B flat major K207
1. Allegro moderato 7.16
2. Adagio 8.38
3. Presto 5.31
Violin Concerto No.2 in D major K211
4. Allegro moderato 8.54
5. Andante 7.47
6. Rondeau – Allegro 4.39
7. Adagio in E major K261 8.27
8. Rondo in B flat major K269 (K261a) 7.17
9. Rondo in C major K373 5.53
Total CD1 64.57
Violin Concerto No.3 in G major K216
10. Allegro 9.26
11. Adagio 8.28
12. Rondeau – Allegro 6.34
Violin Concerto No.4 in D major K218
13. Allegro 8.55
14. Andante cantabile 7.34
15. Rondeau – Andante grazioso 7.10
Violin Concerto No.5 in A major K219 ‘Turkish’
16. Allegro aperto 10.04
17. Adagio 10.48
18. Rondeau – tempo di Menuetto 8.27
Total CD2 78.14
Cadenzas: James Ehnes
James Ehnes, violino
Mozart Anniversary Orchestra
COMPACT DISC 1 “Preise, Jerusalem, den Herrn” BWV 119
1 Chorus: “Preise, Jerusalem, den Herrn”
2 Recitative (Tenor): “Gesegnet Land!”
3 Aria (Tenor): “Wohl dir, du Volk der Linden”
4 Recitative (Bass): “So herrlich stehst du, liebe Stadt!”
5 Aria (Alto): “Die Obrigkeit ist Gottes Gabe”
6 Recitative (Soprano): “Nun! wir erkennen es und bringen dir”
7 Chorus: “Der Herr hat Guts an uns getan”
8 Recitative (Alto): “Zuletzt!”
9 Chorale: “Hilf deinem Volk, Herr Jesu Christ”
“Ein Herz, das seinen Jesum lebend weiß” BWV 134
Easter Tuesday
10 Recitative (Tenor, Alto): “Ein Herz, das seinen Jesum lebend weiß”
11 Aria (Tenor): “Auf, Gläubige, singet die lieblichen Lieder”
12 Recitative (Dialogue: Tenor, Alto): “Wohl dir, Gott hat an dich gedacht”
13 Aria (Duet: Alto, Tenor): “Wir danken und preisen dein brünstiges Lieben”
14 Recitative (Tenor, Alto): “Doch wirke selbst den Dank in unserm Munde”
15 Chorus: “Erschallet, ihr Himmel”
“Sie werden euch in den Bann tun” BWV 44
Sunday after Ascension
16 Duet (Tenor, Bass): “Sie werden euch in den Bann tun”
17 Chorus: “Es kömmt aber die Zeit”
18 Aria (Alto): “Christen müssen auf der Erden”
19 Chorale: “Ach Gott, wie manches Herzeleid”
20 Recitative (Bass): “Es sucht der Antichrist”
21 Aria (Soprano): “Es ist und bleibt der Christen Trost”
22 Chorale: “So sei nun, Seele”
“Herr, wie du willt, so schicks mit mir” BWV 73
3rd Sunday after Epiphany
23 Chorus and recitative (T, B, S): “Herr, wie du willt, so schicks mit mir”
24 Aria (Tenor): “Ach, senke doch den Geist der Freuden”
25 Recitative (Bass): “Ach, unser Wille bleibt verkehrt”
26 Aria (Bass): “Herr so du willt”
27 Chorale: “Das ist des Vaters Wille”
COMPACT DISC 2
“O Ewigkeit, du Donnerwort” BWV 20
1st Sunday after Trinity
01 Chorale: “O Ewigkeit, du Donnerwort”
02 Recitative (Tenor): “Kein Unglück ist in aller Welt zu finden”
03 Aria (Tenor): “Ewigkeit, du machst mir bange”
04 Recitative (Bass): “Gesetzt, es daurte der Verdammten Qual”
05 Aria (Bass): “Gott ist gerecht in seinen Werken”
06 Aria (Alto): “O Mensch, errette deine Seele”
07 Chorale: “Solang ein Gott im Himmel lebt”
08 Aria (Bass): “Wacht auf, wacht auf, verloren Schafe”
09 Recitative (Alto): “Verlaß, o Mensch! die Wollust dieser Welt”
10 Aria (Duet: Alto,Tenor): “O Menschenkind”
11 Chorale: “O Ewigkeit, du Donnerwort”
“Ach Gott, vom Himmel sieh darein” BWV 2
2nd Sunday after Trinity
12 Chorus: “Ach Gott, vom Himmel sieh darein”
13 Recitative (Tenor): “Sie lehren eitel falsche List”
15 Recitative (Bass): “Die Armen sind verstört”
16 Aria (Tenor): “Durchs Feuer wird das Silber rein”
17 Chorale: “Das wollst du, Gott, bewahren rein”
“Nimm von uns, Herr, du treuer Gott” BWV 101
10th Sunday after Trinity
18 Chorus: “Nimm von uns, Herr du treuer Gott”
19 Aria (Tenor): “Handle nicht nach deinen Rechten”
20 Recitative and chorale (Soprano): “Ach! Herr Gott, durch die Treuedein”
21 Aria (Bass): “Warum willst du so zornig sein?”
22 Recitative and chorale (Tenor): “Die Sünd hat uns verderbet sehr”
23 Aria (Duet: Soprano, Alto): “Gedenk an Jesu bittern Tod”
24 Chorale: “Leit uns mit deiner rechten Hand”
COMPACT DISC 3
“Schmücke dich, o liebe Seele” BWV 180
20th Sunday after Trinity
01 Chorus: “Schmücke dich, o liebe Seele”
02 Aria (Tenor): “Ermuntre dich: dein Heiland klopft”
03 Recitative (Soprano) and chorale: “Wie teuer sind des heilgen Mahles Gaben!”
04 Recitative (Alto): “Wein Herz fühlt in sich Furcht und Freude”
05 Aria (Soprano): “Lebens Sonne, Licht der Sinnen”
06 Recitative (Bass): “Herr, laß an mir dein treues Lieben”
07 Chorale: “Jesu, wahres Brot des Lebens”
“Herr Gott, dich loben alle wir” BWV 130
Michaelmas
08 Chorus: “Herr Gott, dich loben alle wir”
09 Recitative (Alto): “Ihr heller Glanz und hohe Weisheit zeigt”
10 Aria (Bass): “Der alte Drache brennt vor Neid”
11 Recitative (Duet: Soprano, Tenor): “Wohl aber uns”
12 Aria (Tenor): “Laß, o Fürst der Cherubinen”
13 Chorale: “Darum wir billig loben dich”
“Die Zeit, die Tag und Jahre macht” BWV 134a
Tribute to the princely house of Anhalt-Cöthen, New Year 1719
14 Recitative (Tenor, Alto): “Die Zeit, die Tag und Jahre macht”
15 Aria (Tenor): “Auf, Sterbliche, lasset ein Jauchzen ertönen”
16 Recitative (Tenor, Alto): “So bald, als dir die Sternen hold”
17 Aria (Duet: Tenor, Alto): “Es streiten, es prangen”
18 Recitative (Tenor, Alto): “Bedenke nur, beglücktes Land”
19 Aria (Alto): “Der Zeiten Herr hat viel vergnügte Stunden”
20 Recitative (Tenor, Alto): “Hilf, Höchster, hilf”
21 Aria (Tenor, Alto) and chorus: “Ergötzet auf Erden”
CAROLINE STAM soprano
MICHAEL CHANCE alto
PAUL AGNEW tenor
KLAUS MERTENS bass
THE AMSTERDAM BAROQUE ORCHESTRA & CHOIR
TON KOOPMAN
Qualquer oportunidade de ouvir um pianista tão maravilhoso e pouco afeito a gravações quanto Radu Lupu é uma preciosidade que não se pode desperdiçar – ainda mais quando ele está, como aqui, a tocar Schubert, de quem é um dos maiores intérpretes. Acompanhado do incansável e multiúso [corrigido, Fábio!] Daniel Barenboim, Lupu brinda-nos com uma generosa porção da obra do vienense para duo pianístico. O filé, claro, é a Sonata em Dó maior, conhecida como “Grand Duo”, praticamente uma sinfonia para piano a quatro mãos.
Ainda que a combinação entre dois músicos de personalidades tão diferentes possa-nos fazer presumir o contrário, o duo Lupu-Barenboim dá muita liga, embora seja bem fácil, para quem conhece suas respectivas gravações, identificar a quem cabe cada uma das partes. O cantabile de Lupu e a limpidez de sua execução sempre o denunciam, enquanto o enérgico Barenboim – grande admirador de seu colega romeno – segue reverentemente o mestre.
Daniel Barenboim & Radu Lupu – SCHUBERT Grand Duo – Variations D813 – Marches Militaires
Franz Peter SCHUBERT (1797-1828)
Três Marchas Militares para piano a quatro mãos, D. 733 (Op. 51)
01 – No. 1 em Ré maior: Allegro vivace
02 – No. 2 em Sol maior: Allegro molto moderato
03 – No. 3 em Mi bemol maior: Allegro moderato
Oito Variações em Lá bemol maior sobre um Tema Original, D. 813 (Op. 35)
04 – Allegretto
Sonata em Dó maior para piano a quatro mãos, D. 812 (Op. Post. 140), “Grand Duo”
05 – Allegro moderato
06 – Andante
07 – Scherzo: Allegro vivace
08 – Allegro vivace
Álbum publicado em 2001 em uma das muitas reedições dos extraordinários trabalhos de Miles Davis. O disco viu a luz pela primeira vez em 1954 com 8 faixas, foi foi relançado em 1957 com 11 e ganhou mais uma em 1971. Os anos 50 trouxeram um novo estilo de jazz, o cool, que separou do bebop em declínio. O nascimento do cool é marcado pela colaboração de Miles Davis e do compositor Gil Evans. As raízes dessa música estão incluídas neste disco gravado em três sessões diferentes entre 1949 e 1950. A peça causou uma profunda impressão entre os críticos e foi um marco e inovador no música jazz. Davis e um grupo de nove músicos sob seu comando foram responsáveis por lançar as bases deste novo conceito.
Miles Davis: Birth of the Cool
1. Move
2. Jeru
3. Moon dreams
4. Venus de Milo
5. Budo
6. Deception
7. Godchild
8. Boplicity
9. Rocker
10. Israel
11. Rouge
12. Darn that dream
Alto Saxophone – Lee Konitz
Baritone Saxophone – Gerry Mulligan
Bass – Al McKibbon, Nelson Boyd
Drums – Kenny Clarke, Max Roach
French Horn – Junior Collins, Sandy Siegelstein
Leader, Trumpet – Miles Davis
Piano – Al Haig, John Lewis
Trombone – J.J. Johnson, Kai Winding
Tuba – John Barber
Fã que sou do clã Marsalis já há bastante tempo, assim que esse LP foi lançado, lá no final dos anos 80, não tive dúvidas em comprá-lo. E o ouvi à exaustão. Passava dias só virando o lado do LP no velho 3×1. Um prazer só. E assim que foi lançado em CD, já imediatamente o adquiri. E também o ouvi à exaustão. Muito.
Para quem não o conhece, Brandord Marsalis é o irmão saxofonista do genial trompetista Wynton Marsalis, do trombonista Delfayo, que produz esse disco, e filho do lendário pianista de New Orleans, Ellis Marsalis. Branford não se expõe tanto na mídia tanto quanto Wynton, nem tem uma discografia tão extensa quanto o irmão. Mas cada CD seu é uma pequena obra prima, em se tratando de improvisação, qualidade técnica de gravação, e claro, produção. Esses caras se uniram a um grupo de músicos igualmente talentosos e nos brindaram com grandes gravações, principalmente no final dos anos 80 e início dos 90. Depois disso, perdi um pouco o contato com ele.
Essa pequena jóia que vos trago hoje, tem um convidado muito especial, o lendário contrabaixista Milton Hinton, um cara que tocou com todo mundo que você possa imaginar, desde Duke Ellington, Louis Armstrong, Charlie Parker, Ben Webster, Aretha Franklin, só para citar alguns. Desenvolveu uma técnica quase percussiva para tocar o contrabaixo, leiam o explicativo texto do próprio Delfayo que o apresenta no booklet em anexo.
O outro ‘monstro’ do disco é o companheiro de longa data do clã Marsalis, Jeff ‘Tain’ Watts, um dos maiores bateristas de sua geração. Gravou muito com eles, e com muitos outros músicos do mesmo nível.
‘Trio Jeepy” é um dos grandes momentos da carreira de Branford Marsalis, uma verdadeira aula de interpretação, de swing, de improvisação. Podemos sentir em cada nota, em cada solo, o quanto o músico está envolvido, concentrado. Enfim, um dos melhores discos de Jazz de minha modesta discoteca, e um dos melhores que já tive a oportunidade de ouvir.
P.S. É necessário lembrar aqui que Branford Marsalis é o um dos músicos envolvidos naqueles dois ou três primeiros discos de Sting, sim, aquele mesmo do The Police, inclusive naquele que considero um dos melhores discos ao vivo já gravados, ‘Bring on The Night’, do próprio Sting.
Com os senhores, ‘Trio Jeepy” ..
01. Housed from Edward
02. The Nearness of You
03. Three Little Words
04. Makin’ Whoopee
05. UMMG
06. Gutbucket Steepy
07. Doxy
08. Makin’ Whoopee (Reprise)
09. Peace
10. Random Abstract (Tain’s Rampage)
É bem sabido que Herr von Karajan não é unanimidade aqui na equipe do PQP. Ainda assim, acho suas gravações de Strauss soberbas, e esta sua terceira versão para o “Don Quixote’, meu poema sinfônico favorito do bávaro, é a melhor delas.
Nas gravações anteriores, com Rostropovich e Pierre Fournier, o caráter era mais concertístico, com ênfase no solista. Nesta, o recifense Antonio Meneses e os solistas Wolfram Christ e Leon Spierer incorporam-se mais à grande massa sonora da Filarmônica de Berlim (acrescida de uma máquina de vento!) com resultados melhores. O som suntuoso e megatrabalhado de Karajan, que muitas vezes falha miseravelmente, especialmente no repertório barroco e clássico, serve aqui muito bem a complicada partitura com que Strauss acompanha as desventuras do Cavalheiro da Triste Figura e seu escudeiro Sancho Panza, representados respectivamente pelo violoncelo e viola solistas.
Pablo Picasso, 1955
A gravação de “As Alegres Travessuras de Till Eulenspiegel”, que fecha o CD, apesar de boa, pareceu-me redondinha demais. Faltou-lhe, acho, um pouquinho do delírio do Quixote.
Richard Georg STRAUSS (1864-1949)
01-12 – Don Quixote, Variações Fantásticas sobre um Tema de Caráter Cavaleiresco, Op. 35
01 – Introdução: Mäßiges Zeitmaß. Thema mäßig. “Don Quichotte verliert über der Lektüre der Ritterromane seinen Verstand und beschließt, selbst fahrender Ritter zu werden” (“Dom Quixote perde sua sanidade após ler romances sobre cavaleiros, e decide tornar-se um cavaleiro-errante”) – Tema: Mäßig. “Don Quichotte, der Ritter von der traurigen Gestalt” (“Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura”) – Maggiore: “Sancho Panza”
02 – Variation I: Gemächlich. “Abenteuer an den Windmühlen” (“Aventura nos Moinhos de Vento”)
03 – Variation II: Kriegerisch. “Der siegreiche Kampf gegen das Heer des großen Kaisers Alifanfaron” (“A Luta Vitoriosa contra o Exército do Grande Imperador Alifanfarrão”)
04 – Variation III: Mäßiges Zeitmaß. “Gespräch zwischen Ritter und Knappen” (“Diálogo entre Cavaleiro e Escudeiro”)
05 – Variation IV: Etwas breiter. “Unglückliches Abenteuer mit einer Prozession von Büßern” (“Aventura Infeliz com uma Procissão de Peregrinos”)
06 – Variation V: Sehr langsam. “Die Waffenwache” (“A Vigília do Cavaleiro”)
07 – Variation VI: Schnell. “Begegnung mit Dulzinea” (“Encontro com Dulcineia”)
08 – Variation VII: Ein wenig ruhiger als vorher. “Der Ritt durch die Luft” (“A Cavalgada pelo Ar”)
09 – Variation VIII: Gemächlich. “Die unglückliche Fahrt auf dem venezianischen Nachen” (“A Aventura Infeliz na Gôndola Veneziana”)
10 – Variation IX: Schnell und stürmisch. “Kampf gegen vermeintliche Zauberer” (“Batalha com os Magos”)
11 – Variation X: Viel breiter. “Zweikampf mit dem Ritter vom blanken Mond” (“Duelo contra o Cavaleiro da Lua Branca”)
12 – Finale: Sehr ruhig. “Wieder zur Besinnung gekommen” (“Voltando aos seus sentidos” – Morte de Dom Quixote)
Antonio Meneses, violoncelo Wolfram Christ, viola Leon Spierer, violino Orquestra Filarmônica de Berlim Herbert von Karajan, regência
13 – Till Eulenspiegels lustige Streiche (“As Alegres Travessuras de Till Eulenspiegel”), após uma velha lenda picaresca – em forma de rondó, Op. 28
Berliner Philharmoniker Herbert von Karajan, regência
Sandor Végh foi um violinista. Teria sido pianista, mas seus pais explicaram que o violino era muito mais barato. Só para contrariar, anos mais tarde ele comprou o Stradivarius que pertencera a Paganini, não se sabe por quanto…
Nascido em uma cidade da Transilvânia, era Austro-Húngaro de nascimento, mas tornou-se um cidadão do mundo. Foi membro do Hungarian String Quartet até fundar o Végh Quartet, cujas gravações dos quartetos de Bártok e Beethoven são justamente lendárias. Algumas delas podem ser encontradas nos vaults do PQP.
De seu encontro com Pablo Casals em 1952 resultou em grande colaboração e despertou seu interesse pela regência. Atuou com várias orquestras, mas foi com a Camerata Academica do Mozarteum de Salzburg que ele deixou alguns importantes registros. Entre eles este disco da postagem, com duas sinfonias de Schubert.
Schubert é conhecido por suas composições para piano e para piano e voz – seus Lieder. Também é muito conhecido por suas composições de câmera, como o Quinteto ‘A Truta’ e o Quinteto de Cordas. Mas Schubert foi também um ótimo sinfonista. Sabendo das reduzidas chances de ver suas obras sinfônicas sendo apresentadas pelas grandes orquestras de Viena, concentrou seus esforços nas outras peças, mas ainda sim temos algumas lindas obras sinfônicas para apreciar.
A Sinfonia No. 5, em si bemol maior, foi composta em 1816 e chegou a ser interpretada por uma orquestra amadora na casa de Otto Hatwig, músico do Burgtheater de Viena. A orquestra era amadora, mas competentíssima, pois interpretava também obras de Beethoven, Cherubini e Spontini.
Depois desta apresentação, a sinfonia só foi ouvida novamente em 1841, por uma orquestra profissional.
A Sinfonia No. 6, em dó maior, foi ouvida em 14 de dezembro de 1828, em um concerto em memória de Schubert, que morrera algumas semanas antes. A outra sinfonia em dó maior, denominada ‘A Grande’, deveria ser tocada em seu lugar, mas foi considerada ‘intocável’ pelos músicos.
Estas duas sinfonias são muito bonitas e certamente merecem ser divulgadas ao lado das mais famosas ‘Inacabada’ e ‘Grande Sinfonia’. Eu gosto muito da Sinfonia No. 5. E vocês, qual delas preferem?
“The ninth volume of this complete recording of Bach’s cantatas continues the series of cantatas from the first Leipzig cycle. Cantata 173a is the sole exception: a secular cantata composed by Bach at Cöthen, it was reworked as a church cantata (BWV 173) for the first Leipzig cycle and is included in Volume 7 (CD 3). BWV 66 is also based on an original work from Bach’s Cöthen period.”
COMPACT DISC 1 19th Sunday after Trinity
01 Chorus: “Ich elender Mensch”
02 Recitative (Alte): “O Schmerz, o Elend”
03 Chorale: “Solls ja so sein”
04 Aria (Alto): “Ach lege das Sodom der sündlichen Glieder”
05 Recitative (Tenor): “Hier aber tut des Heilands Hand”
06 Aria (Tenor): “Vergibt mir Jesus meine Sünden”
07 Chorale: “Herr Jesu Christ, einiger Trost”
“Mein liebster Jesus ist verloren” BWV 154
1st Sunday after Epiphany
08 Aria (Tenor): “Mein liebster Jesus ist verloren”
09 Recitative (Tenor): “Wo treff ich meinen Jesum an”
10 Chorale: “Jesu, mein Hort und Erretter”
11 Aria (Alto): “Jesu, laß dich finden”
12 Arioso (Bass): “Wisset ihr nicht”
13 Recitative (Tenor): “Dies ist die Stimme meines Freundes”
14 Aria (Duet: Alto, Tenor): “Wohl mir, Jesus ist gefunden”
15 Chorale: “Meinen Jesum laß ich nicht”
“Warum betrübst du dich, mein Herz?” BWV 138
15th Sunday after Trinity
16 Chorus and Recitative (Alto): “Warum betrübst du dich, mein Herz?”
17 Recitative (Bass, Soprano, Alto) and Chorale: “Ich bin veracht”
18 Recitative (Tenor): “Ach süßer Trost!”
19 Aria (Bass): “Auf Gott steht meine Zuversicht”
20 Recitative (Alto): “Ei nun!”
21 Chorale: “Weil du mein Gott und Vater bist”
“Durchlauchtster Leopold” BWV 173a
For the birthday of Leopold of Anhalt-Köthen
22 Recitative (Soprano): “Durchlauchtster Leopold”
23 Aria (Soprano): “Güldner Sonnen frohe Stunden”
24 Aria (Bass): “Leopolds Vortrefflichkeiten”
25 Aria (Soprano, Bass): “Unter seinem Purpursaum”
26 Recitative (Soprano, Bass): “Durchlauchtigster, den Anhalt Vater nennt”
27 Aria (Soprano): “So schau dies holden Tages Licht”
28 Aria (Bass): “Dein Name gleich der Sonnen geh”
29 Chorus (duet: Soprano, Bass): “Nimm auch, großer Fürst”
COMPACT DISC 2
“Wer da gläubet und getauft wird” BWV 37
Ascension – Himmelfahrt
01 Chorus: “Wer da gläubet und getauft wird”
02 Aria (Tenor): “Der Glaube ist das Pfand der Liebe”
03 Chorale (Soprano, Alto): “Herr Gott Vater, mein starker Held”
04 Recitative (Bass): “Ihr Sterblichen”
05 Aria (Bass): “Der Glaube schafft der Seele Flügel”
06 Chorale: “Den Glauben mir verleihe” 1’01
“Schau, lieber Gott wie meine Feind” BWV 153 13’03
Sunday after New Year
07 Chorale: “Schau, lieber Gott, wie meine Feind”
08 Recitative (Alto): “Mein liebster Gott”
09 Arioso (Bass): “Fürchte dich nicht, ich bin mit dir”
10 Recitative (Tenor): “Du sprichst zwar, lieber Gott”
11 Chorale: “Und ob gleich alle Teufel”
12 Aria (Tenor): “Stürmt nur, stürmt, ihr Trübsalswetter”
13 Recitative (Bass): “Getrost! mein Herz”
14 Aria (Alto): “Soll ich meinen Lebenslauf”
15 Chorale: “Drum will ich, weil ich lebe noch” l’20
“Wo gehest du hin?” BWV 166
4th Sunday after Easter
16 Aria (Bass): “Wo gehest du hin?”
17 Aria (Tenor): “Ich will an den Himmel denken”
18 Chorale (Soprano): “Ich bitte dich, Herr Jesu Christ”
19 Recitative (Bass): “Gleichwie die Regenwasser bald verfließen”
20 Aria (Alto): “Man nehme sich in acht”
21 Chorale: “Wer weiß, wie nahe mir mein Ende” 1’00
“Wahrlich, wahrlich, ich sage euch” BWV 86
Rogation Sunday
22 Arioso (Bass). “Wahrlich, wahrlich, ich sage euch”
23 Aria (Alto): “Ich will doch wohl Rosen brechen”
24 Chorale (Soprano): “Und was der ewig gütig Gott”
25 Recitative (Tenor): “Gott macht es nicht gleichwie die Welt”
26 Aria (Tenor): “Gott hilft gewiß”
27 Chorale: “Die Hoffnung wart der rechten Zeit” 0’56
“Wachet! betet! betet! wachet!” BWV 70
26th Sunday after Trinity
28 Chorus: “Wachet! betet! betet! wachet!”
29 Recitative (Bass): “Erschrecket, ihr verstockten Sünder!”
30 Aria (Alto): “Wenn kommt der Tag, an dem wir ziehen”
31 Recitative (Tenor): “Auch bei dem himmlischen Verlangen”
32 Aria (Soprano): “Laßt der Spötter Zungen schmähen”
33 Recitative (Tenor): “Jedoch bei dem unartigen Geschlechte”
34 Chorale: “Freu dich sehr, o meine Seele”
35 Aria (Tenor): “Hebt euer Haupt empor”
36 Recitative (Bass) and Chorale: “Ach, soll nicht dieser große Tag”
37 Aria (Bass): “Seligster Erquickungstag”
38 Chorale: “Nicht nach Welt, nach Himmel nicht” 0’45
COMPACT DISC 3
“Erfreut euch, ihr Herzen” BWV 66
Easter Day 2
01 Chorus: “Erfreut euch, ihr Herzen”
02 Recitative (Bass): “Es bricht das Grab”
03 Aria (Bass): “Lasset dem Höchsten ein Danklied erschallen”
04 Recitative and Arioso (Alto, Tenor): “Bei Jesu Leben freudig sein”
05 Duetto (Alto, Tenor): “Ich furchte zwar des Grabes Finsternissen”
06 Chorale: “Alleluja!”
“Höchsterwünschtes Freudenfest” BWV 194
Dedication of the organ at Störmthal near Leipzig
07 Chorus: “Höchsterwünschtes Freudenfest”
08 Recitative (Bass): “Unendlich großer Gott”
09 Aria (Bass): “Was des Höchsten Glanz erfüllt”
10 Recitative (Soprano): “Wie könnte dir, du höchstes Angesicht”
11 Aria (Soprano): “Hilf Gott, daß es uns gelingt”
12 Chorale: “Heilger Geist ins Himmels Throne”
13 Recitative (Tenor): “Ihr Heiligen, erfreuet euch”
14 Aria (Tenor): “Des Höchsten Gegenwart allein”
15 Recitative (Bass, Soprano): “Kann wohl ein Mensch zu Gott im Himmel steigen?”
16 Aria (Soprano, Bass): “O wie wohl ist uns geschehn”
17 Recitative (Bass): ‘Wohlan demnach, du heilige Ge meine” 0’45
18 Chorale: “Sprich Ja zu meinen Taten”
SIBYLLA RUBENS CAROLINE STAM (BWV 138) LISA LARSSON (BWV 173a) soprano
BERNHARD LANDAUER alto
CHRISTOPH PRÉGARDIEN tenor
KLAUS MERTENS bass
THE AMSTERDAM BAROQUE ORCHESTRA & CHOIR
TON KOOPMAN
Uma pequena homenagem a esse grande maestro letão que foi Mariss Jansons, falecido neste último dia do mês de novembro de 2019, aos 76 anos de idade.
Músico sensível e também muito requisitado, regeu as principais orquestras do mundo. Estudou regência no Conservatório de Leningrado, tendo sido assistente de Evgeny Mravinsky, além de também ter sido aluno de Hans Swarowsky e de Herbert von Karajan. Também teve um longo relacionamento com a Orquestra do Concertgebow de Amsterdam. Atualmente, era diretor da Orquestra da Rádio Bávara. Em outras palavras, o homem só frequentava altos círculos.
Desde 1996 já lutava contra problemas do coração.
Faço uma pequena homenagem a este grande maestro trazendo um registro seu lá de 2006, com sua querida Orquestra do Concertgebow de Amsterdam, com quem gravou muito, e tocando uma de suas especialidades, Mahler, a saber, sua Sinfonia Titã.
Um grande registro ao vivo, com a melhor orquestra do mundo dos últimos 50 anos, fama que ele ajudou a construir.
1. Langsam, schleppend (Wie ein Naturlaut) – Im Anfang sehr gemächlich
2. Kräftig bewegt, doch nicht zu schnell – Trio Recht gemächlich
3. Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen
4. Stürmisch bewegt
Se alguém aí achava que a série “A Família das Cordas” traria mais uma interpretação das Suítes de Bach no violoncelo, haha, se enganou. O que trazemos é a demoníaca, espumante, lúbrica Sonata para violoncelo solo de Zoltán Kodály, que carrega tanto a distinção de conseguir dizer algo num nicho em que as Suítes de Bach reinam supremas há séculos, quanto a de parecer esgotar todas as capacidades técnicas do instrumento, bem como o próprio instrumento, partindo-lhe as cordas e incendiando a crina dos arcos.
O intérprete aqui é o colosso János Starker (1924-2013), conterrâneo do compositor, e longamente associado a essa sonata. Ele gravou-a diversas vezes e tocou-a diante do próprio Kodály em várias ocasiões (a primeira com meros quinze anos – sim, eu lhes disse que o homem era um colosso). Na última, em 1967, Kodály disse a Starker que, se ele corrigisse detalhes agógicos no terceiro movimento, sua performance seria “Bíblica”. Starker o fez e, em 1970, realizou a gravação considerada definitiva da obra – precisamente esta que eu ora alcanço a vocês.
Completam o álbum um duo para violino e violoncelo, também da lavra de Kodály, e as variações do violoncelista Hans Bottermund sobre o tema do Capricho no. 24 de Paganini, que Starker fez questão de adaptar para seu gosto e virtuosismo, complicando-as ainda mais. Comparando-as com apocalíptica Sonata op. 8, elas parecem um couvert e o cafezinho.
STARKER PLAYS KODÁLY
Hans BOTTERMUND (1892-1949) arranjo de János Starker (1924-2013)
01 – Variações sobre um tema de Paganini, para violoncelo solo
Zoltán KODÁLY (1882-1967)
Sonata para violoncelo solo, Op. 8
02 – Allegro maestoso ma appassionato
03 – Adagio con gran espressione
04 – Allegro molto vivace
János Starker, violoncelo
Zoltán KODÁLY
Duo para violino e violoncelo, Op. 7
05 – Allegro serioso, non troppo
06 – Adagio
07 – Maestoso e largamente, ma non troppo lento
Olá pessoal voltei com mais este texto, que é o quinto, em que estamos homenageando a vida e obra do grande maestro Leopold Stokowski. Vamos voltar aos idos e turbulentos anos que compreendem 1912 até 1920. Leopold e sua esposa Olga passaram os verões de 1912, 1913 e 1914 em uma casa nos subúrbios de Munique, onde ele iniciou suas primeiras transcrições orquestrais de Bach. Músicos estavam por toda parte na Baviera durante os meses de verão naqueles anos. Em 28 de junho de 1914, o arquiduque Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro, foi assassinado, provocando a grande guerra duas semanas depois. Olga e Leopold tiveram uma fuga angustiante, levando apenas algum dinheiro e a partitura da Sinfonia nº 8 de Mahler na mala. Em 1914, Stokowski solicitou cidadania americana recebendo-a em 1915.
Stokowski com a Mary Louise Bok e Edward Bok antes de 1920
Um importante trunfo para o maestro durante a maior parte de seus anos na américa e em particular na Filadélfia não foi apenas os inúmeros admiradores fervorosos que ele atraiu por seu estilo, carisma e boa musicalidade, mas também por seus principais apoiadores. O maior mecenas foi Edward Bok fundamental no apoio financeiro para expandir a orquestra, dar tranquilidade ao maestro para ensaiar além da importante autonomia para escolher o repertório, realizar seus ensaios e seus programas.
Então, em 1917, ocorreria um evento que marcaria a carreira de Leopold Stokowski. Na quarta-feira, 24 de outubro de 1917, Stokowski e a Orquestra da Filadélfia fizeram suas primeiras gravações fonográficas. Eram as Danças Húngaras Brahms número 5 e 6, orquestradas por Albert Parlow. Estes foram os primeiros de mais de 450 lados de gravações acústicas em 78 RPM que Stokowski e a Orquestra fizeram para Victor. As gravações de Stokowski e da Orquestra da Filadélfia foram as primeiras gravações de Victor de uma orquestra sinfônica completa. To be continued…..A capa deste disco é o retrato mais estranho de Stokowski que eu já vi. Foi feito em 1934 por Dorothy Brett. Ela chamou de “Invocação”. Stokowski parece em êxtase como se estivesse participando de um encontro de terceiro grau ou algo parecido (mais apropriado para a capa da revista UFO), porém, contudo, no entanto, se você necessita de algum tipo de prova mostrando que Stokowski atingiu seu ápice sonoro através de algum tipo de poder oculto, este é o retrato certo. Confesso que gostei um “cadinho”, é estranho, mas charmoso.
Leopold Stokowski era um organista antes de ser um maestro e Bach era seu compositor favorito. Portanto, não é de surpreender que, ao longo de sua carreira como regente, Stokowski tenha escolhido transcrever muitas das composições de Bach para orquestra. Criando uma tendência que ficou muito popular: a de maestros transcreverem obras para grande orquestra, na maioria das vezes o pessoal do barroco soa como Tchaikovsky, desvirtuando totalmente do original. Virou modismo na época. Inicialmente, alguns críticos sentiram que Stokowski estava profanando a música de Bach. Mas, ao longo dos anos, as notáveis transcrições de Bach de Stokowski ganharam considerável respeito e vários outros maestros agora as executam. Mas ninguém fez essas transcrições com tanto conhecimento como Stokowski, as gravações deste ábum ilustram brilhantemente. Ouvindo essas peças, você reconhece que o maestro manjava muito das obras para órgão e com criatividade as reescreveu. Este foi o instrumento original de Stokowski quando ele migrou para os Estados Unidos. Naqueles primeiros anos ele frequentemente transcrevia música orquestral para o órgão. Quando veio fazer o contrário, Stokowski criou um som parecido com um órgão só que para orquestra.
Stokowski e a moçada da AAYO em 1941
O que é realmente surpreendente sobre este disco é que, em pouco tempo, Stokowski transformou este jovem conjunto em uma orquestra profissional a “All-American Youth Orchestra” (“Lado A” e Faixa 17 do “Lado B”). Ao longo dos anos, esse período na carreira de Stokowski foi lamentavelmente negligenciado. Stoki gravou a maioria dessas peças no início dos anos 1930, a Orquestra Juvenil oferece uma ou duas cargas adicionais de adrenalina … bem … o brio da juventude, obviamente respondendo com entusiasmo as indicações do maestro. Apesar de algumas sobrecargas nas passagens do fortíssimo e tutti, as gravações soam notavelmente boas. A conhecida “Toccata e Fuga em Re menor” pode ser ouvida com grau de comprometimento mefistofélico dos músicos. “Ein Feste Burg” soa realmente grandioso. A “Passacaglia e a Fuga”, que conclui o programa, também alcançam uma estatura colossal. Era uma cultura musical mais animada naqueles dias inebriantes da primeira metade do século XX. Assim como no post anterior das transcrições de Wagner o pessoal que curte mais a fidelidade das execuções com instrumentos de época podem não gostar, mas não podemos negar a propriedade e autenticidade das transcrições de Stokowski. As gravações estão divididas em “Lado A” com a sonoridade melhor e “Lado B” com o ruído da matriz as vezes atrapalhando muito. De quebra podemos comparar algumas transcrições de Bach que se tornaram febre entre os maestros e compositores na época. Nas faixas de 18 a 23 são gravações mais modernas e sem ruído, são as transcrições de John Barbirolli (1899-1970) faixas18 e 19, Lucien Caillet (1891-1985) faixa 20, Frederick Stock (1872-1942) faixa 21 e Ottorino Respighi (1879-1936) faixa 22.
Vamos colocar as cartas na mesa, sendo sincerão: este disco é principalmente para os aficionados na arte de Stokowski. Quem gosta do Bach “raiz” pode atirar várias pedras. Mas eu acredito que a música clássica teve relativa popularidade na primeira metade do século XX nos EUA por iniciativas como as que Stokowski fez, alterando o original para agradar as massas.
Lado A
J. S. BACH – Orchestral Transcriptions
All-American Youth Orchestra
Por Leopold Stokowski, gravações feitas entre 1931 – 1950
1 – Toccata and Fugue in D Minor
2 – Ein’ feste Burg
3 – Schmelli Song Book BWV 487: Mein Jesu
4 – Little Fugue in G Minor BWV 578
5 – Schmelli Song Book BWV 478: Komm susser Tod
6 – Orchestral Suite No. 3 BWV 1068: Air on the G String
7 – Violin Partita No. 3 BWV 1006: Preludio in E
8 – Cantata No. 156: Arioso
9 – The Well-Tempered Clavier: Prelude in E-Flat Minor
10 – Violin Sonata No. 3 BWV 1003: Andante Sostenuto
11 – Passacaglia and Fugue in C Minor BWV 582
Por Leopold Stokowski, gravações Victor 78rpm (faixas 1 a 17)
1 – Chaconne
The Philadelphia Orchestra
Recorded November 30, 1934
2 – Chorale Prelude, “Nun komm der Heiden Heilend”
The Philadelphia Orchestra
Recorded April 7, 1934
3 – Adagio from Toccata in C Minor
The Philadelphia Orchestra
Recorded October 28, 1933
4 – Siciliano (From C Minor Sonata for Violin and Cembalom)
The Philadelphia Orchestra
Recorded October 28, 1933
5 – Komm Süsser Tod (Come Sweet Death) (From “Geistliche Lieder”)
The Philadelphia Orchestra
Recorded October 28, 1933
6 – Sarabande (From Third English Suite for Piano)
The Philadelphia Orchestra
Recorded April 7, 1934
7 – Passacaglia and Fugue in C Minor
The Philadelphia Orchestra
Recorded November 16, 1936
8 – My Soul is Athirst (From Passion according to St. Matthew)
The Philadelphia Orchestra
Recorded November 28, 1936
9 – My Jesus in Gethsemane
The Philadelphia Orchestra
Recorded November 28, 1936
10 – Chorale from Easter Cantata (No. 4 “Christ lag im Todesbanden”)
The Philadelphia Orchestra
Recorded April 4, 1931
11 – Sarabande (from Partita No. 1, in B Minor)
The Philadelphia Orchestra
Recorded November 16, 1936
12 – Sonata in E-flat Major for Pedal Clavier; First Movement
(No. 1 of Six Sonatas composed for Wilhelm Friedemann Bach)
The Philadelphia Orchestra
Recorded in 1936
13 – PALESTRINA: Adoramus Te
The Philadelphia Orchestra
Recorded November 12, 1934
14 – Ich ruf’ zu Dir, Herr Jesu Christ (Chorale Prelude)
The Philadelphia Orchestra
Recorded in November 27, 1939
15 – Prelude and Fugue in E Minor (No. 3 of Acht kleine Praeludium und Fugen, for Organ)
The Philadelphia Orchestra
Recorded in December 12, 1937
16 – St. John Passion: No. 58, Es ist Vollbracht (All is Fullfilled)
The Philadelphia Orchestra
Recorded in October 22, 1934
17 – Passacaglia and Fugue in C Minor
The All-American Orchestra
Recorded July 4, 1941
Por JOHN BARBIROLLI, gravações Columbia 78rpm (faixas 18 e 19)
18 – Sheep May Safely Graze (From “The Birthday Cantata”)
New York Philhamonic
John Barbirolli, conductor
Recorded November 16, 1940
Por DIMITRI MITROPOULOS, gravações Columbia 78rpm (faixa 19)
19 – Fantasia and Fugue in G Minor (Peters Vol. II, No. 4)
Minneapolis Symphony Orchestra
Dimitri Mitropoulos, conductor
Recorded in 1942
Por LUCIEN CAILLET gravações Columbia 78rpm (faixa 20)
20 – Fugue in G Minor
Pittsburgh Symphony Orchestra
Fritz Reiner, conductor
Recorded in 1946
Por FREDERICK STOCK gravações Victor 78rpm (faixa 21)
21 – Prelude and Fugue in E-flat Major (St. Anne)
Chicago Symphony Orchestra
Frederick Stock, conductor
Recorded Dec. 22, 1941
Por HERMAN BOESSENROTH gravações Columbia 78rpm (faixa 22)
22 – Chorale-Prelude, “Wir glauben all’ an einen Gott” (Peters Vol. VII, No. 60)
Minneapolis Symphony Orchestra
Dimitri Mitropoulos, conductor
Por OTTORINO RESPIGHI gravações Victor 78rpm (faixa 23):
23 – Passacaglia and Fugue in C Minor
San Francisco Symphony Orchestra
Pierre Monteux, conductor
Recorded in 1949
Mantendo firme nossa tradição de publicar a cada sexta-feira uma nova gravação das inestimáveis Suítes para violoncelo solo de Johann Sebastian Bach, e enquanto prometemos material para pelo menos mais oitenta sextas-feiras, trazemos ao PQP Bach um instrumento que, provavelmente, seja desconhecido para a maior parte de vocês: o chitarrone.
Ok, talvez seja desconhecido só pelo nome: o chitarrone é essencialmente o mesmo que uma tiorba/teorba. A principal diferença é que, assim como a tiorba é o alaúde baixo, o chitarrone é o baixo de uma guitarra italiana – aquela com a caixa de ressonância convexa, diferentemente da espanhola, que tem o fundo chato. Depois de um longo período como sinônimos (o frontispício de algumas obras indicava-as para “Chitarone, ò Tiorba che si dica”), com alguns estultos piorando ainda mais a confusão ao chamarem o chitarrone de “teorbo italiano”, o termo tiorba/teorba foi ganhando preferência e chitarrone/guitarrón/guitarrão acabou denominando instrumentos completamente diferentes.
O espanhol Juan Carlos Rivera toca o que, definitivamente, é um chitarrone, pois foi assim assinado por seu luthier, de timbre delicado como o do alaúde. Talvez lhe faltasse intensidade para uma suíte clamorosa como, por exemplo, a sexta em Ré maior, mas nestas três primeiras o resultado é muito bonito. Silenciem o recinto, ponham as crianças e o gato (a não ser que se aquietem!) para fora da sala, e caprichem no volume.
Johann Sebastian Bach – Suites BWV 1007, 1008, 1009 Juan Carlos Rivera, Chitarrone
Sabem que, no início do século XX, estas obras eram consideradas como, talvez, as melhores de todos os tempos? Pois é, depois, assim como o órgão (falo daquele instrumento das igrejas), estas obras foram sumindo do repertório e até dentre as maiores obras de Bach. Uma injustiça completa, porque são música de primeiríssima linha, melhores do que muitas peças mais consideradas.
E que estão aqui interpretadas fantasticamente pelo genial e compreensivo Benjamin Alard, que dá uma banho nas velhas gravações. Coitados dos meus vinis de Helmut Walcha, melhor jogá-los logo no lixo. (Alguém tem que trabalhar pela música e não por uma secundária História das Gravações, né?)
Originária da Itália, a trio sonata se impôs como uma das principais formas musicais do século XVIII. Formalizado por movimentos nitidamente contrastantes por Corelli, seduziu compositores que encontravam nele meios para desenvolver suas idéias temáticas e se libertar da estrutura do conjunto de danças em um novo espírito estético, o da música de câmara. Normalmente, a trio sonata era composta e executada por pelo menos três músicos — duas vozes e contínuo. Bach, no entanto, nunca fazia as coisas como os outros, e compôs uma série de seis sonatas para o órgão, — dois teclados e pedais — adaptando o estilo da música de câmara a este instrumento de igreja por excelência.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Trio Sonatas para Órgão a 2 Clav. & Pedal – BWV 525-530
Achar um nome inambíguo em português para este instrumento é um pouquinho complicado. Seu nome húngaro (cimbalom) remete tanto ao italiano cembalo (“cravo”, coisa que ele não é) quanto ao grego “kymbalon” (“pratos” de percussão – não, tampouco). Há quem o chame de “cítara”, com a qual guarda semelhança superficial, mas esta se toca com plectros. Em inglês, ele é chamado de “Hungarian hammered dulcimer”, porque é um dulcimer (que, por sua vez, deriva do saltério através do santur persa) cujas cordas são percutidas com baquetas. Um cimbalom, pois, vem a ser um dulcimer de concerto, do tamanho de um piano pequeno, apoiado em quatro pés, com extensão maior e um pedal de abafamento. Independentemente do nome que lhe escolhamos, ele é essencial à música de várias regiões da Europa Central e fundamental à música folclórica húngara, de tal maneira que há uma cátedra de cimbalom na conceituada Academia de Música Ferenc Liszt em Budapest, onde se formaram e lecionam as duas musicistas que ouvirão nesta gravação.
Sim, o cabeludo sentado é Liszt
Se tocar as Goldberg em qualquer instrumento é uma temeridade considerável, abrir mão do conforto das teclas e tocar esta obra-prima com baquetas parece-me insano. Claro que a gente não pode esperar um produto semelhante ao de uma gravação feita ao teclado, e que as variações mais rápidas escancaram as grandes dificuldades de articulação que o cimbalom traz ao executante. Ainda assim, nem que pelo inusitado, é um CD muito interessante.
Recomendo fortemente aos que forem a Budapest que garimpem o acervo da Hungaroton local, repleto de pérolas que, uma a uma, deixarei por aqui – e que esqueçam o sítio internacional, a não ser que dominem o diabólico magiar!
JOHANN SEBASTIAN BACH – GOLDBERG-VARIATIONEN ON TWO CIMBALOMS ÁGNES SZÁKALY – RÓZSA FARKAS
Johann Sebastian BACH (1685-1750)
Ária com diversas Variações para cravo com dois manuais, BWV 988, “Variações Goldberg”
01 – Aria
02 – Variação no. 1 a 1 Clav.
03 – Variação no. 2 a 1 Clav.
04 – Variação no. 3 a 1 Clav. – Canone All’Unisuono
05 – Variação no. 4 a 1 Clav.
06 – Variação no. 5 a 1 ovvero 2 Clav.
07 – Variação no. 6 a 1 Clav. – Canone alla Seconda
08 – Variação no. 7 a 1 ovvero 2 Clav.
09 – Variação no. 8 a 2 Clav.
10 – Variação no. 9 a 1 Clav. – Canone alla Terza
11 – Variação no. 10 a 1 Clav. – Fughetta
12 – Variação no. 11 a 2 Clav.
13 – Variação no. 12 – Canone alla Quarta
14 – Variação no. 13 a 2 Clav.
15 – Variação no. 14 a 2 Clav.
16 – Variação no. 15 a 1 Clav. – Canone alla Quinta – Andante
17 – Variação no. 16 – Ouverture a 1 Clav.
18 – Variação no. 17 a 2 Clav.
19 – Variação no. 18 a 1 Clav. – Canone alla Sesta
20 – Variação no. 19 a 1 Clav.
21 – Variação no. 20 a 2 Clav.
22 – Variação no. 21 – Canone alla Settima
23 – Variação no. 22 a 1 Clav. – Alla Breve
24 – Variação no. 23 a 2 Clav.
25 – Variação no. 24 a 1 Clav. – Canone all’Ottava
26 – Variação no. 25 a 2 Clav.
27 – Variação no. 26 a 2 Clav.
28 – Variação no. 27 a Clav. – Canone alla Nona
29 – Variação no. 28 a 2 Clav.
30 – Variação no. 29 a 1 ovvero 2 Clav.
31 – Variação no. 30 a 1 Clav. – Quodlibet
32 – Aria da capo