
Com o trio “Arquiduque”, que coroa aquilo que se convencionou chamar de período intermediário na produção de Beethoven, nossa travessia de sua obra aproximou-se da admirável guirlanda de obras-primas visionárias que ele compôs na última década e tanto de sua vida. No entanto, dentro da intenção de alcançarmos aos leitores-ouvintes a obra completa do renano turrão, nós não poderíamos – sob pena de criar um anticlímax – fazer os últimos quartetos de cordas serem seguidos, tão só por deveres completistas, por alguma outra composição menos inspirada. Assim, daremos uma guinada em nossa série em direção àquelas obras que, a despeito do menor valor artístico, ajudam a completar e melhor entender a incrível trajetória que transformou o garoto que escreveu uma canção para um poodle num dos maiores nomes da Arte.
Começaremos com as diversas obras comissionadas pelo escocês George Thomson, um endinheirado colecionador e editor de música em Edinburgh, com o qual Beethoven teve uma relação (para variar) conturbada. Teremos outras (muitas outras, asseguro!) oportunidades de falar sobre as rusgas dos dois, de modo que prossigo a contar-lhes que estas dezenas de obras basearam-se em canções folclóricas de diversos paíse, com ênfase, evidentemente, nas ilhas britânicas. A imensa maioria delas consistiu de arranjos de canções para conjuntos vocais com acompanhamento de piano, violino e violoncelo. As notáveis exceções – os dois conjuntos de variações publicados sob os Opp. 105 e 107 – são as obras que lhes apresentarei hoje.
Compostas a pedido de Thomson para a execução por músicos diletantes, consistem de variações sobre temas folclóricos britânicos e continentais. Originalmente escritas para piano, elas continham, se não altos voos de virtuosidade, alguns trechos que estavam fora do alcance do dândi médio. Assim, o editor pediu a Beethoven que simplificasse algumas variações mais complicadas de modo a não aturdir seus consumidores. Ademais, para aumentar o apelo entre os amadores que faziam música em casa, e possivelmente para a irritação de Beethoven – que, como sabemos, tinha bem mais com o que se preocupar e odiava editores – Thomson também solicitou que fosse adicionada uma parte opcional para um instrumento melódico, como flauta ou violino. Ludwig acedeu, escrevendo linhas melódicas agradáveis e quase completamente prescindíveis, que hoje são mais frequentemente executadas com flauta. Quando as duas séries foram à prensa, ganharam o título de “temas variados para piano com acompanhamento opcional de flauta ou violino”, que dá a exata medida do que esperar. Apesar de nada haver de memorável, ainda assim, achei interessante conhecer a grande capacidade de Beethoven de compor, ainda que fosse só para pagar contas, com simplicidade e despojamento. Entre o bom número de gravações que há no mercado, que incluem figurões como Rampal e Buchbinder, preferi apresentar-lhes este álbum da Naxos, feito com a competência costumeira da gravadora nos registros de música de câmara, em que o ótimo flautista Patrick Gallois elabora a frugal parte que Ludwig compôs para seu instrumento com ornamentações e improvisações, competentemente acompanhado pela pianista búlgara Maria Prinz. Se não lhes for uma delícia, garanto que pelo menos passarão uma hora divertidinha.
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Seis temas folclóricos com variações para piano com flauta ou violino, Op. 105
Compostas entre 1818-19
Publicadas em 1819
1 – Air écossais (The Cottage Maid). Andantino quasi allegretto
2 – Air écossais (Of Noble Stock was Shinkin). Allegretto scheroso
3 – Air autrichien (A Schüsserl und a Reindel). Andantino
4 – Air écossais (Sad and luckless was the season). Andante espressivo assai
5 – Air écossais (Put round the bright wine). Allegretto spiritoso
6 – Air écossais (English Bulls). Allegretto più tosto vivace
Dez temas folclóricos com variações para piano com flauta ou violino, Op. 107
Compostas entre 1818-19
Publicadas em 1820
7 – Air tirolien (I bin a Tiroler Bua). Moderato
8 – Air écossais (Bonny Laddie, Highland Laddie). Allegretto, quasi vivace
9 – Air de la petite Russie. Vivace
10 – Air écossais (The Pulse of an Irishman). Allegretto scherzo
11 – Air tirolien (A Madel, ja a Madel). Moderato
12 – Air écossais (Merch Megan). Andante commodo
13 – Air russe (Schöne Minka). Andante
14 – Air écossais (O Mary, at thy Window Be). Andantino quasi allegretto
15 – Air écossais (Oh, Thou art the Lad of my Heart). Allegretto più tosto vivace
16 – Air écossais (The Highland Watch). Spirituoso e marciale
Patrick Gallois, flauta
Maria Prinz, piano

Vassily
Entre todos patronos de Beethoven, nenhum lhe foi mais querido que o arquiduque Rudolph, filho caçula do imperador. Apesar dumas poucas rusgas, a relação entre o compositor e a única pessoa a quem ensinou a sério composição foi de admiração mútua e, a despeito de todo desespero financeiro do primeiro e da fortuna do segundo, muito genuína. A correspondência entre ambos foi abundante e calorosa, e Beethoven retribuiu a generosa devoção do arquiduque com um rol de composições que, provavelmente, o tornam o dedicatário mais privilegiado da história. Contando somente as obras mais importantes, Rudolph recebeu as dedicatórias dos concertos nos. 4 e 5 para piano, da Grande Fuga para quarteto de cordas, das sonatas para piano “Lebewohl”, “Hammerklavier” e Op. 111, da Missa Solemnis e, por último mas não menos importante, o maravilhoso trio que hoje conhecemos como “Arquiduque”.
Trio em Si bemol maior para piano, violino e violoncelo, Op. 97, “Arquiduque”
Dois trios para piano, violino e violoncelo, Op. 70
Dos Três Trios para piano, violino e violoncelo, Op. 1:
Dos Três Trios para piano, violino e violoncelo, Op. 1:


A chegada de Mahler a Viena coincidiu com a eclosão, naquela capital, do movimento multicêntrico conhecido como Secessão, em que artistas plásticos, rompidos com o 






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A Sinfonia no. 7 foi, como já sabemos, um clamoroso sucesso e teve várias reapresentações nos meses que se seguiram à sua 
Talvez o disco mais interessante da série “Beethoven Resound”, que já apresentamos quando de nossa 



Todo Marlon Brando tem seu dia de Alberto Roberto, e todo Beethoven tem sua “Vitória de Wellington”.
Depois de parir petardos como a “Waldstein” (Op. 53) e a “Appassionata” (Op. 57) e romper todas as costuras da sonata para piano, Beethoven voltou-se bissextamente para seu meio favorito de expressão. Em franco contraste com as onze notáveis sonatas que lhe brotaram da pena nos cinco anos que antecederam a Op. 57, houve um hiato de cinco anos entre a “Appassionata” e a sonata seguinte, Op. 78. E, se é verdade que as três sonatas seguintes (Opp. 78, 79 e 81a) vieram ao mundo ao longo de meros dois anos, também não se nega que elas sejam, em duração e escopo, muito mais sucintas que suas antecessoras.

Já que nos debruçamos sobre a ótima música para instrumentos de sopro que Beethoven escreveu em sua juventude, permitam-me dar um salto em seu catálogo de obras para apresentar-lhes o Op. 103, seu único octeto.
Como mencionamos ontem, as duas peças que Beethoven dedicou ao incomum conjunto de dois oboés e um corne inglês tinham destinatários específicos. Sabendo que a instrumentação era tão atraente quanto esdrúxula, Ludwig escreveu sua composição em quatro pentagramas: um para cada oboé e outro para corne inglês, todos em clave de sol, e um em clave de Dó, com material muito semelhante à parte do corne inglês, mas mais desenvolvida. Assim, ao propor uma parte para viola e supor que os violinistas não teriam dificuldades de tocar as partes dos oboés, o compositor não só autorizou, como também prescreveu a execução da obra pelo conjunto muito mais encontradiço de dois violinos e viola.
Ao chegar a Viena em 1792 para estudar com Hadyn, Beethoven já tinha composto e esboçado obras em quase todos os gêneros frequentados pelo Mestre de Rohrau. Em poucos deles ele fora mais prolífico que na Harmoniemusik, a escritura para conjuntos de sopros a serviço de membros da aristocracia. A corte do Eleitor de Colônia em Bonn, em cuja orquestra Ludwig tocara viola, tinha um notável grupo de sopristas que certamente ajudou o compositor a familiarizar-se com os timbres e particularidades técnicas dos instrumentos, enquanto fermentava ideias, estudos e coragem para enfim escrever sua primeira sinfonia.
Ao aceitar em 1807 a encomenda do príncipe Nikolaus Esterházy II para compor uma missa para o onomástico da esposa, Beethoven receava ter que calçar, com pezinhos de criança, sandálias que lhe seriam por demais grandes. A casa de Esterházy, afinal, estava acostumada a ouvir uma missa nova composta para a princesa a cada 12 de setembro, e nos dez anos anteriores as obras lhe tinham sido providas por Johann Nepomuk Hummel e, claro, aquele com quem Beethoven mais temia ser comparado: Joseph Haydn, seu antigo professor, de quem Nikolaus tinha sido o último mecenas.

Já lhes falei que não sou um grande fã do único oratório de Beethoven, mas o fato é que, até agora, a melhor versão da obra não tinha sido publicada por aqui. Resolvido: se não será esta gravação a colocar Ludwig no patamar – posição que ele, aliás, nunca almejou – dos grandes oratoristas, acho que o canto impecável de James King e Elizabeth Harwood, ambos no auge de suas capacidades vocais, sob a condução segura do já veteraníssimo Bernhard Klee deixa o Christus am Ölberge tão bonito quanto ele pode ser. E mais não lhes conto, porque eu já lhes
Quando o Burgtheater de Viena, em 1809, decidiu fazer uma nova montagem do “Egmont” de Johann Wolfgang Goethe, estreado vinte anos antes, não poderiam ter feito melhor escolha para o autor de sua música incidental. Beethoven idolatrava Goethe e respondeu à encomenda com grande entusiasmo, dedicação e, no que lhe era realmente incomum, rigoroso cumprimento dos prazos combinados. A montagem foi um sucesso e, ainda mais importante para Ludwig, Goethe adorou a música, que, nas palavras do mestre das Letras, evocou o caráter de seu drama com “notável gênio”.
Se Viena em 1810 estava uma baderna, imaginem então como estava a abadernada vida de Ludwig van Beethoven. Sem dinheiro, e com dificuldades de negociar a venda de suas obras, recorreu àquele velho golpe, que tantas vezes aqui apontamos, de requentar suas obras antigas e atingir novos editores. E se lhe faltava foco para as tarefas mais essenciais da vida, que se diria então das suas filigranas? Naturalmente, assim, o outrora meticuloso catálogo de suas composições publicadas também foi tragado pelo vórtex da zorra em que sua vida mergulhou. O resultado foi que Beethoven tocou o ficken Sie sich para seu próprio catálogo e acabou por publicar duas obras como Opus 81, o que levou a posteridade a considerar a sonata Lebewohl como Op. 81a, e o requentado sexteto para trompas e quarteto de cordas como o Op. 81b.
Beethoven ficou tiririca ao saber que seu editor resolveu dar à sonata para piano, Op. 81a, um subtítulo em francês. Apesar de ser amplamente conhecida como “Les Adieux”, em deferência ao compositor nós não a chamaremos assim. Bastaria mencionar que o título original, “Lebewohl” (“Adeus”), aparece acompanhando as três primeiras notas do movimento de abertura, mas vamos além: naquele turbulento 1809, o francês era provavelmente o último idioma que Ludwig gostaria de ouvir. Napoleão, que invadira novamente a Áustria, bombardeou Viena em 11 de maio, muito para o desespero de Beethoven, que passou a noite em claro, afogando-se em travesseiros, temendo que o ruído dos canhões detonasse ainda mais sua já precária audição. No dia seguinte, os franceses tomaram a capital austríaca, num déjà vu muito indigesto para quem já tinha visto sua única ópera fracassar na estreia porque o público era quase todo de invasores franceses. Ademais, o adeus a que o título se refere só poderia ser dito em alemão, pois foi certamente neste idioma que Beethoven despediu-se de seu aluno e patrono, o arquiduque Rudolph, que deixara Viena um mês antes para refugiar-se com a família imperial na Hungria. Instigado pelos sinceros sentimentos despertados pela partida daquele seu grande amigo, Ludwig dedicou-lhe uma sonata para piano, sob cujo primeiro movimento anotou “O Adeus (“Lebewohl”) – Viena, 4 de maio de 1809 – por ocasião da partida de Sua Alteza Imperial, o venerável arquiduque Rudolph”. Os dois movimentos restantes foram iniciados mais tarde, no mesmo ano, talvez até depois do armistício que levou os franceses a deixarem a Áustria, depois de abocanharem vários nacos de seu território. O arquiduque só voltaria a Viena em janeiro de 1810, e a sonata em sua homenagem iria a prensa um ano depois, com os subtítulos gálicos que enfureceram o compositor. Beethoven, que sempre se referiu à sonata como “Lebewohl, Abwesenheit und Wiedersehen” (“Adeus, Ausência e Reencontro”), assim expressou seu descontentamento ao editor:

Depois de tanto lhes escrever – e de tanto vocês me aguentarem -, permitir-me-ei ser muito sucinto e direto.
O brontossáurico concerto de 22 de dezembro de 1808, ao qual já nos referimos várias vezes ao longo da série e que será objeto duma postagem específica, foi certamente um dos mais memoráveis de todos os tempos. Beethoven, não satisfeito com as três horas e meia de sua música que já programara, incluindo as estreias públicas das sinfonias nos. 5 e 6, do quarto concerto para piano e de dois movimentos da missa em Dó maior, decidiu oferecer à já assoberbada audiência um grand finale que reunisse as forças vocais e instrumentais envolvidas nos números pregressos – ainda que tivesse, como de fato aconteceu, que lhes raspar com vigor o fundo do tacho da energia, certamente quase toda despendida na execução de tanta e tão exigente música.