Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concertos para Flauta No. 1 & 2 / Concerto para Harpa e Flauta (Lizzio…, Jancovic, Modron, Mozart Festival Orchestra)

Imaginemos que Lizzio existiu. Não o maestro de carne e osso que posou para as capas de selos econômicos nos anos oitenta, mas um verdadeiro regente italiano, nascido em Merano numa primavera de 1926, formado em Milão entre violino, composição e batuta, com uma biografia que incluía um casamento, a perda trágica de um filho num acidente de automóvel em 1980 e uma morte discreta em Dresden, em outubro de 1999. Imaginemos que esse Lizzio, com essa vida inteira por trás, entrou em estúdio para gravar Mozart com a Mozart Festival Orchestra e os solistas Peter Jancovic na flauta e Renata Modron na harpa. O resultado, editado originalmente pela Pilz e depois circulando por selos como Digital Concerto e Point Classics, é um disco que reúne três obras nas quais Mozart, com maior ou menor entusiasmo, escreveu para a flauta.

O programa abre com o Concerto para Flauta nº 1, K. 313, encomendado por Ferdinand Dejean em 1778, num episódio em que Mozart aceitou o trabalho sobretudo pelos duzentos gulden prometidos e depois reclamou amargamente de ter de escrever para um instrumento que não apreciava. A música, porém, não traz qualquer desdém. O Allegro maestoso inicial tem uma elegância que não depende de virtuosismo, e Lizzio, na direção, parece compreender que o melhor serviço que pode prestar a Mozart é não se interpor. A orquestra sustenta, respira, deixa a flauta cantar. O Adagio ma non troppo é o coração do concerto, um movimento de uma serenidade quase suspensa, onde Jancovic encontra um tom doce sem se tornar melífluo. O Rondo final, com seu tema de minueto, fecha a obra com uma leveza que disfarça a complexidade da escrita.

Segue-se o Concerto nº 2, K. 314, que carrega uma história curiosa. Trata-se, na verdade, de uma adaptação do Concerto para Oboé que Mozart escrevera um ano antes para Giuseppe Ferlendis. Dejean havia encomendado três concertos novos, mas Mozart, atrasado e desinteressado, entregou apenas um inteiramente novo e reaproveitou o concerto do oboé, transpondo-o e reescrevendo passagens para acomodar a flauta. Dejean recusou-se a pagar pela obra adaptada, alegando que não era original. O disco de Lizzio não resolve esse imbróglio histórico, mas oferece uma leitura que trata o K. 314 como música de pleno direito. O Allegro aperto tem uma vivacidade contida, o Andante ma non troppo é uma página de lirismo discreto, e o Allegro final corre com uma alegria que faz esquecer as circunstâncias contratuais de sua origem.

O disco se encerra com o Concerto para Flauta, Harpa e Orquestra, K. 299, encomendado em Paris pelo duque de Guînes para ser tocado por ele e por sua filha harpista. É a única partitura de Mozart que inclui harpa, e a escrita para o instrumento revela as limitações técnicas da época: a parte da harpa parece, em vários momentos, uma adaptação de uma parte de piano, e Mozart nunca voltou a compor para o instrumento. Ainda assim, o resultado é encantador. O Allegro inicial tem uma conversa fluida entre flauta e harpa, o Andantino é um dos movimentos mais delicados de todo Mozart, e o Rondo final fecha com uma alegria solar. Renata Modron na harpa e Peter Jancovic na flauta encontram um equilíbrio raro, e Lizzio conduz com a mão leve que o repertório exige.

A questão, evidentemente, é que Lizzio não existiu. O nome foi inventado por Alfred Scholz, produtor austríaco que, entre os anos sessenta e noventa, construiu um império de gravações econômicas atribuídas a maestros fictícios, regravando fitas antigas, muitas vezes de origem obscura, e rebatizando-as com nomes que soavam plausíveis: Alberto Lizzio, Cesare Cantieri, Denis Zsoltay. A Mozart Festival Orchestra, nesse contexto, é uma designação tão inventada quanto o maestro, e as gravações que chegaram ao mercado sob essa capa têm origens que a documentação raramente esclarece por completo. Saber disso não invalida necessariamente a experiência de escuta, mas muda a natureza do que se ouve. Não estamos diante de um maestro italiano que deixou um legado, mas de um produto fonográfico construído para preencher prateleiras de selos baratos, com créditos que prometem uma autenticidade que não existe.

Ainda assim, há algo a dizer em favor do disco. As gravações, quaisquer que sejam suas origens reais, são competentes. Jancovic toca com um som claro e ágil, Modron tem uma harpa de timbre adequado, e a orquestra, seja lá quem for, acompanha sem tropeços. Não é uma leitura de referência — quem busca Mozart nesses concertos encontrará em Frans Brüggen, na Orpheus Chamber Orchestra ou em Peter-Lukas Graf versões mais reveladoras. Mas é um Mozart funcional, honesto dentro de suas limitações, e para quem topa com o disco numa loja de usados ou num streaming qualquer, sem expectativas grandiosas, pode render uma escuta agradável. O problema é que o nome na capa, aquele Alberto Lizzio com biografia inventada e trágica, existe justamente para que o ouvinte não faça perguntas. E talvez a pergunta mais interessante que este disco suscite não seja sobre Mozart, mas sobre a economia estranha que fez um maestro fictício gravar, sob um nome falso, música que um compositor real escreveu a contragosto.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concertos para Flauta No. 1 & 2 / Concerto para Harpa e Flauta (Lizzio…, Jancovic, Modron, Mozart Festival Orchestra)

Flötenkonzert Nr. 1 G-Dur KV 313 – Flute Concerto No. 1 In G Major KV 313
1 Allegro Maestoso 8:30
2 Adagio Ma Non Troppo 8:17
3 Rondo: Tempo Di Menuetto 6:50

Flötenkonzert Nr. 2 D-Dur KV 314 – Flute Concerto No. 2 In D Major KV 314
4 Allegro Aperto 8:02
5 Andante Ma Non Troppo 5:26
6 Allegro 5:30

Konzert Fur Flöte, Harfe Und Orchester C-Dur KV 299 – Concerto For Flute, Harp And Orchestra In C Major KV 299
7 Allegro 10:52
8 Andantino 8:35
9 Rondo: Allegro 10:52

Conductor – Alberto Lizzio
Flute – Peter Jancovic
Harp – Renata Modron
Orchestra – Mozart Festival Orchestra

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Alberto Lizzio

PQP

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