Composto entre 1974 e 1977, este extraordinário ciclo de 24 canções para barítono e piano parece, à primeira escuta, uma espécie de retorno ao romantismo: melodias delicadas, harmonias tonais, longos silêncios, uma atmosfera de nostalgia. Mas a simplicidade é enganosa. Silvestrov foi um dos nomes importantes da vanguarda ucraniana nos anos 1960 e, justamente quando a música soviética experimentava novas linguagens, encontrou uma radicalidade própria naquilo que parecia ser o contrário da radicalidade: voltar a cantar. O compositor dizia que o elemento avant-garde não havia desaparecido, mas simplesmente se tornado invisível, infiltrado na música como uma pitada de sal.
A voz de Sergey Yakovenko quase nunca se impõe. Ele canta como quem confidencia alguma coisa a alguém sentado muito perto. O piano de Ilya Scheps, por sua vez, não acompanha tanto a voz quanto a envolve, com arpejos delicadíssimos e acordes que parecem permanecer suspensos no ar. Durante quase duas horas, Silvestrov evita deliberadamente o clímax convencional, a explosão dramática, o gesto grandioso. A tensão nasce justamente dessa contenção: é uma música que parece imóvel, mas está permanentemente à beira de alguma coisa.
E talvez seja essa a grande beleza de Silent Songs: Silvestrov não procura inventar uma música que rompa com o passado, mas uma música que recorde o passado como quem recorda alguma coisa que já não pode voltar. Pushkin, Liermontov, Shevchenko, Mandelstam e Keats tornam-se parte de uma espécie de memória musical coletiva. A melodia parece familiar, mas não conseguimos descobrir de onde a conhecemos.
A gravação da ECM tem uma importância especial. Realizada em 1986 e só lançada em 2004, ela preserva uma interpretação de extraordinária concentração, com Yakovenko e Scheps encontrando a difícil combinação de fragilidade e tensão que a obra exige. O disco inclui ainda as Four Songs after Osip Mandelstam, nas quais o próprio Silvestrov acompanha Yakovenko ao piano.
Silent Songs é, enfim, uma música sobre a memória — e talvez sobre a impossibilidade de recuperar aquilo que a memória guarda. Sua beleza não é exuberante; é uma beleza que se aproxima do ouvido e espera que nós nos aproximemos também. Poucos discos fazem do silêncio uma presença tão intensa.Silvestrov é também um poeta. Dos grandes.
Valentin Silvestrov (1937): Silent Songs
CD1
01. Song Can Tend The Ailing Spirit (Baratynsky)
02. There Were Some Storms And Blizzards (Baratynsky)
03. La Belle Dame Sans Merci (Keats)
04. O Melancholy Time (Pushkin)
05. Farewell, O World, O Earth (Shevchenko)
06. What Meaning Has My Name For You (Pushkin)
07. I Will Tell You With Unswerving Frankness (Mandelstam)
08. I’m Drinking To Mary (Pushkin)
09. Winter Journey (Pushkin)
10. White, A Solitary Sail (Liermontov)
11. I Met You (Tyutchev)
12. The Isle (Shelley)
CD2
01. Eleven Songs. Something tender, blue, unspoken (Yesenin)
02. Autumn Song (Yesenin)
03. Swamps and marshes (Yesenin)
04. Winter Evening (Pushkin)
05. Three Songs. When the cornfield, yellowing, stirs (Lermontov)
06. I set out on the road alone (Lermontov)
07. Mountain summits (Lermontov)
08. Five songs. Elegy. Verses Composed at Night, at a Time of Insomnia (Pushkin)
09. Choral. A vengeful God (Tyutchev)
10. Meditation. It’s time, my friend, it’s time (Pushkin)
11. Ode. Schubert on water (Mandelstam)
12. Postludium. Those sweet companions (Zhukovsky)
13. Four songs. My lashes are pricking (Mandelstam)
14. I don’t know when (Mandelstam)
15. For the thunderous grandeur of ages to come (Mandelstam)
16. The oaks drink from a cold vessel (Mandelstam)
Sergey Yakovenko – Baritone
Ilya Scheps – Piano
Valentin Silvestrov – Piano

PQP
Belíssimo álbum!
Ei, esse cara é o Falcão!
Bá, é mesmo!
A aparente simplicidades de suas canções e sua beleza são desconcertantes. Maravilhoso compositor. Grato!