Gavin Bryars (1943): Dido and Orfeo (After Purcell and Gluck)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Esse é um disco belíssimo e bastante singular. Gavin Bryars não faz arranjos convencionais de Purcell e Gluck. Ele cria uma espécie de meditação sobre essas obras, preservando sua essência emocional enquanto as desloca para uma paisagem sonora contemporânea. Poucos compositores atuais transitam com tanta naturalidade entre o passado e o presente quanto Bryars. Em Dido and Orfeo (After Purcell and Gluck), ele não procura reescrever Purcell e Gluck nem competir com eles. Sua intenção é outra, muito mais delicada: ouvir o que permanece ressoando dessas obras quando o tempo parece ter apagado seus contornos. Claro, para ouvir o CD, é bom conhecer Dido e Eneas (Purcell) assim como Orfeu e Eurídice (Gluck).

As duas figuras míticas reunidas no disco — Dido e Orfeu — compartilham um destino comum. Ambos conhecem a perda irreparável. Ambos vivem a experiência da despedida. Bryars transforma essa afinidade numa longa reflexão musical sobre a memória, o luto e a permanência do amor. Em vez de reconstruir as partituras originais, o compositor trabalha com fragmentos, harmonias e repetições quase hipnóticas. Melodias familiares surgem como lembranças distantes, envolvidas por uma atmosfera de extraordinária serenidade. É música que parece existir entre o silêncio e a recordação.

A escrita de Bryars aproxima-se frequentemente do minimalismo, mas sem a pulsação insistente de Steve Reich. Sua música respira lentamente. Cada nota parece ocupar um espaço preciso, convidando o ouvinte a escutar o tempo em vez do acontecimento. A interpretação faz justiça a esse universo contemplativo. As vozes evitam qualquer excesso dramático e preservam uma nobre simplicidade, onde cada detalhe encontra seu lugar sem romper o equilíbrio. O resultado não é uma ópera reduzida nem uma reconstrução histórica, mas uma nova obra que dialoga respeitosamente com seus modelos.

Há momentos em que reconhecemos claramente o lamento de Dido ou a atmosfera de Orfeo e Euridice. Em outros, resta apenas uma sombra melódica, suficiente para despertar a memória do ouvinte. Bryars parece sugerir que as grandes obras nunca desaparecem completamente, elas continuam existindo como vestígios que cada geração reaprende a ouvir. Dido and Orfeo não é um disco para impressionar pelo virtuosismo nem pela grandiosidade. Sua força reside justamente na contenção. É uma música de penumbra, de silêncio e de contemplação, que exige escuta paciente e recompensa o ouvinte com uma beleza discreta e profundamente comovente.

Não, nada de atualizar os clássicos, Gavin Bryars escolhe o caminho oposto: reduz, simplifica, desacelera. E, nesse gesto de delicadeza, revela uma verdade rara. Às vezes, a maneira mais profunda de homenagear o passado não é repeti-lo, mas escutar os ecos que ele ainda produz em nosso presente.

Ah, Ida Toninato é um MONSTRO de saxofonista!

Gavin Bryars: Dido and Orfeo (After Purcell and Gluck)

After Purcell: Dido and Aeneas
1 Overture 2:02
2 Banish Sorrow 2:05
3 Ah, Belinda 2:03
4 To The Hills 1:29
5 Prelude For The Witches 3:49
6 In Our Deep Vaulted Cell 1:56
7 Haste Haste 3:17
8 The Triumphing Dance 1:35
9 Thanks To The Lonesome Vales 2:38
10 Cupid Only 2:44
11 Dance B (After Gluck: Orfeo Et Euridice) 4:11
12 With Drooping Wings 2:30
13 Dido’s Lament 4:24

After Gluck: Orfeo Et Euridice
14 Air 2:00
15 Pantomime 1:51
16 Ah, Si Intorno 3:18
17 Dance Of The Furies 2:57
18 Ah Quale Incognito 1:36
19 Dance A 1:25
20 Vieni A Regni 2:06
21 Sposa 5:31
22 Men Tiranne 3:44
23 Trio 5:54

Cello – Jean-Christophe Lizotte
Piano, Music Director – Njo Kong Kie
Soprano Saxophone, Alto Saxophone, Baritone Saxophone – Ida Toninato
Viola – Jennifer Thiessen

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Gavin Bryars

PQP

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