Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 5 (Nelsons, Orquestra Filarmônica de Viena)

A versão de Andris Nelsons que inaugura seu ciclo das gravações das Sinfonias de Mahler com a Filarmônica de Viena é muito digna de nota. É uma abordagem recomendada para ouvintes que valorizam interpretações ousadas, intelectualmente elaboradas e tecnicamente impecáveis — mesmo que isso venha às custas de um certo calor visceral. Não é recomendada para puristas que desejam uma Quinta Sinfonia tradicional, com um Adagietto romântico e uma narrativa dramática mais linear. Mahler linear? Ficaram loucos? A Quinta Sinfonia de Mahler é uma das obras mais monumentais e difíceis do repertório sinfônico — uma jornada de quase 80 minutos que parte da escuridão de uma marcha fúnebre e avança, através de tormentas e danças, rumo a um finale radiante. O problema é que Mahler não facilita: cada intérprete precisa decidir como contar essa história.

A sinfonia abre com a famosa fanfarra do trompete solo — um chamado que anuncia a Trauermarsch (marcha fúnebre). Nelsons conduz este movimento insistindo na solenidade do ritual fúnebre, sem pressa. O segundo movimento é uma explosão de fúria que contrasta com a marcha inicial. Aqui, Nelsons demonstra domínio da orquestração mahleriana — os metais soam poderosos e o diálogo entre seções é cuidadosamente esculpido. Uma joia. O terceiro movimento, um Scherzo vienense gigantesco para orquestra (com destaque para as trompas), é frequentemente um ponto polêmico. Mahler exige uma Viena dançante e vertiginosa — mas também um senso de estrutura para sustentar mais de quinze minutos de música. Nelsons inicia com leveza e alegria de viver, mas acho que essa energia se dissipa ao longo do movimento. Ou não? O famoso Adagietto para cordas e harpa é, para muitos, a alma da sinfonia — uma declaração de amor a Alma Mahler. Nelsons, porém, recusa uma leitura romântica. Ele o apresenta não como uma canção de amor, porém mais como uma tranquila meditação. Seu tempo é lento (cerca de dez minutos) e o tom é profundo e comovente, realçando a fragilidade e a introspecção. O Rondo-Finale é uma explosão de energia, com citações de temas anteriores que precisam soar como uma espécie de vitória. Nelsons conduz este movimento com “alegria e vivacidade”, e os últimos acordes são retumbantes.

Como considero Mahler um romântico tardio, herdeiro da tradição germânica, expressão extrema e obsessão pelos temas da morte e da transcendência, talvez Nelsons seja meio traidor, mas acho que não muito. Está tudo lá, só que sem derramamentos desnecessários.

P.S. — Para mim, esta sinfonia está muito associada ao covid. Em fevereiro de 2020, em nossa última viagem internacional, eu e minha mulher estávamos em Roma e vimos o último concerto na Academia Nacional de Santa Cecília antes de fechar em razão da pandemia. O grande Daniele Gatti foi o regente. As primeiras máscaras já apareciam. Quando chegamos em Porto Alegre, ninguém usava ainda.

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 5 (Nelsons, Orquestra Filarmônica de Viena)

1 I. Trauermarsch: A. In Gemessenem Schritt 1:15
2 I. Trauermarsch: B. Etwas Gehaltener 2:02
3 I. Trauermarsch: C. Wieder Etwas Gehaltener 2:44
4 I. Trauermarsch: D. Plötzlich Schneller 0:48
5 I. Trauermarsch: E. A Tempo. F. Tempo I. 1:49
6 I. Trauermarsch: G. Schwer (15). H. Klagend 5:47

7 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: A. Sturmisch Bewegt 1:28
8 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: B. Bedeutend Langsamer 2:29
9 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: C. Tempo I Subito 0:53
10 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: D. Langsam Aber Immer 1:19
11 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: E. Tempo Moderato 1:36
12 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: F. Plötzlich Wieder Bedeutend Langsamer 1:36
13 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: G-J. Tempo I Subito. Etwas Langsamer. Nicht Eilen. Wuchtig 3:55
14 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: K. Pesante 1:29
15 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: L. Tempo I Subito 1:50

16 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: A-B. Kräftig, Nicht Zu Schnell 2:33
17 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: C. Etwas Ruhiger 1:05
18 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: D-E. Tempo I. Lansamer 1:50
19 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: F. Etwas Zurückhaltend 1:31
20 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: G-H. Molto Moderato. Nicht Eilen 3:28
21 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: I. A Tempo Molto Moderato 1:14
22 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: J-L. Poco Rit. A Tempo I. Nicht Eilen – Vorwärts Drängen 4:13
23 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: M-N. Tempo I. A Tempo Moderato 1:56
24 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: O. Tempo I Subito 0:59

25 IV. Adagietto. Sehr Langsam: A-B. Sehr Langsam. Wieder äußerst Langsam 4:47
26 IV. Adagietto. Sehr Langsam: C. Fliessender 1:57
27 IV. Adagietto. Sehr Langsam: D. Fliessend 0:52
28 IV. Adagietto. Sehr Langsam: E. Zurückhaltend 2:21
29 IV. Adagietto. Sehr Langsam: F. Zögernd 2:28

30 V. Rondo-Finale. Allegro: A-B. Allegro. Allegro Giocoso 1:19
31 V. Rondo-Finale. Allegro: C-D. Sempre L’Istesso Tempo. Grazioso 1:34
32 V. Rondo-Finale. Allegro: E. A Tempo I 0:35
33 V. Rondo-Finale. Allegro: F. Sempre L’Istesso Tempo 1:19
34 V. Rondo-Finale. Allegro: G. A Tempo 1:21
35 V. Rondo-Finale. Allegro: H-I. Sempre L’Istesso Tempo. Nicht Eilen 2:15
36 V. Rondo-Finale. Allegro: J. Nicht Eilen. A Tempo 1:31
37 V. Rondo-Finale. Allegro: K-L. Plötzlich Wieder Wie Zu Anfang. Unmerklich Etwas Einhaltend 2:36
38 V. Rondo-Finale. Allegro: M. Grazioso 2:08
39 V. Rondo-Finale. Allegro: N. Sehr Drängend 1:45

Wiener Philharmoniker
Andris Nelsons

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Nelsons: preocupadíssimo por ter sido retirado de Boston

PQP

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