Uma pena eu não ter meus alfarrábios aqui no escritório. Escrever sobre Schütz sem eles, confiando na Wiki e na rede? Nunca! Prefiro confiar na memória. Schütz escreveu três volumes de Symphoniæ Sacræ, o primeiro nos anos 20 do século XVII, o segundo anos 40 e o terceiro, que é de 1649, tenho certeza. Schütz nasceu cem anos antes de Bach e é o fundador da música alemã tanto no sentido de austeridade como no de sua abertura para o sol e a alegria meridionais. Refiro-me aos italianos, claro. Era um homem de seu tempo. A música era considerada ainda uma ciência e estava curiosamente fora das humanidades, sendo estudada como a matemática, a química, etc. Schütz, por revolucionário que fosse — e era! — utilizava modelos matemáticos em suas obras, mas era um erudito humanista que usava de liberalidades que criaram coisas tão maravilhosas como o Saul, Saul, was verfolgst du mich, SWV 415, música pela qual sou fascinado. Em comum com Bach, o luterano Schütz possuia a aspiração ecumênica dos crentes sinceros e procurava fugir do que era imposto pela religião alemã.
Aqui, pouco sol italiano brilha, o que se vê é a luz das catedrais do barroco. Mas não são catedrais vazias, são catedrais lotadas de povo e de apelos.
Álbum duplo de qualidade incomum, gravado só para variar pela Harmonia Mundi, vem com capa de libreto que são também arte.
Heinrich Schütz (1585-1672): Symphoniæ Sacræ III (Junghänel)
1. Der Herr ist mein Hirt SWV 398
2. Ich hebe meine Augen auf SWV 399
3. Wo der Herr nicht das Haus bauet SWV 400
4. Mein Sohn, warum hast du uns das getan SWV 401
5. O, Herr, hilf SWV 402
6. Siehe, es erschien der Engel des Herren SWV 403
7. Feget den alten Sauerteig aus SWV 404
8. O süßer Jesu Christ SWV 405
9. O Jesu süß, wer dein gedenkt SWV 406
10. Lasset uns doch den Herren, unsern Gott, loben SWV 407
11. Es ging ein Sämann aus SWV 408
12. Seid barmherzig SWV 409
13. Siehe, dieser wird gesetzt zu einem Fall SWV 410
14. Vater unser SWV 411
15. Siehe, wei fein und lieblich SWV 412
16. Hütet Euch SWV 413
17. Meister, wir wissen, dass du wahrhaftig bist SWV 414
18. Saul, Saul, was verfolgst du mich SWV 415
19. Herr, wie lang willst du mein so gar vergessen SWV 416
20. Komm heliger Geist, Herre Gott SWV 417
21. Nun danket alle Gott SWV 418
Johanna Koslowsky
Monika Mauch
Wilfried Jochens
Hans-Jorg Mammel
Stephan Schreckenberger
Wolf Matthias Friedrich
Ainda que esta gravação, lançada no centenário do Genocídio Armênio, chegue-lhes com dez anos de atraso, não se pode dela reclamar: a hoje diminuta Armênia é terra de rica música, o repertório faz abrangente justiça ao último século e tanto de sua longa tradição, e os irmãos Khachatryan tocam com brio, brilho e evidente amor a música do pago. Tampouco se a pode chamar inoportuna, pois, quando esta postagem for ao ar, os armênios – tanto em sua terra ancestral quando em sua imensa diáspora – estarão a honrar as vítimas do monstruoso aparato de extermínio brandido pelos turcos contra seus ancestrais.
Não há família armênia que não tenha sido marcada a sangue e trauma por tão imenso crime. Os Khachatryan não foram exceção: o bisavô dos músicos, Daniel, era uma criança quando viu seus pais e irmãos serem despedaçados. Tampouco foram os compositores das obras do álbum. Do mais célebre entre eles, Khachaturian (cujo sobrenome armênio é exatamente Khachatryan, apenas transliterado de forma diferente através do russo), ouve-se a criação mais famosa, a Dança de Sabres, no arranjo ebuliente de Jascha Heifetz, e também uma grata surpresa, o Poema-Canção, repleto das angulosidades de que a música da Armênia é tão pródiga quando os semblantes estatuescos de sua gente. Já o maior entre eles, Soghomon Soghomonyan, estava entre as centenas de intelectuais armênios presos em Constantinopla em 24 de abril de 1915 e deportados, através da primeira entre inúmeras “marchas da morte” pelo inclemente deserto sírio, no que se considera o marco zero do Genocídio e levou à escolha da data para comemorar suas vítimas. Soghomonyan, mais conhecido por seu nome eclesiástico, Komitas, já teve sua história contada neste blog pelo colega Wellbach, que nunca aparece por aqui sem nos deixar algo de memorável. Sua obra como compositor e legado como pioneiro da etnomusicologia merecerão nossa revisita. Até ela, espero que a beleza acachapante de Krunk e das Sete Danças Folclóricas – dignas de Bartók, ninguém menos! – marque os leitores-ouvintes com seu toque de gênio. Acima de tudo, desejo que dediquem hoje um instante de meditação e solidariedade aos armênios e seus ancestrais, e – se não for lhes pedir muito – evocar-lhes também a denúncia e indignação colérica contra todos os genocídios, tanto os do passado quanto aqueles em curso.
KOMITAS Vardapet (1869-1935)
1 – Krunk (“A Garça”), para violino e piano (arranjo de Sergei Aslamazyan)
2 – Tsirani Tsar(“O Damasqueiro”), para violino e piano (arranjo de Avet Gabrielyan)
Sete Danças Folclóricas, para piano
3 – Manushaki
4 – Yerangi
5 – Unabi
6 – Marali
7 – Shushiki
8 – Het u Aradj
9 – Shoror
10 – Garun-a (“É Primavera”), para piano (arranjo de Robert Andreasyan)
EduardBAGHDASARYAN (1922 -1987)
11 – Rapsódia, para violino e piano
12 – Noturno, para violino e piano
Edvard Mik’aeli MIRZOYAN (1921-2012)
13 – Introdução e Moto Perpétuo, para violino e piano
Aram KHACHATURIAN (1903-1978)
14 – Poema-canção, para violino e piano
Duas Danças do balé Gayaneh, para violino e piano
15 – Usundara (arranjo de Mikhail Fichtenholz)
16 – Suserov par (“Dança de sabres”) (arranjo de Jascha Heifetz)
Arno HarutyuniBABADJANIAN (1921-1983)
Seis Quadros, para piano solo
17 – Improvisação
18 – Dança folclórica
19 – Toccatina
20 – Intermezzo
21 – Coral
22 – Dança de Sassoun
Sergey Khachatryan, violino Lusine Khachatryan, piano
Gravado no Stadtcasino da Basileia, Suíça, de 4 a 7 de agosto de 2014
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Esta jovem, Arshaluys Mardiganyan, tinha 14 anos quando testemunhou o massacre de sua família, foi forçada a atravessar o deserto da Síria e repetidamente torturada e violentada. Foi vendida num mercado de escravizados, fugiu de um harém e conseguiu, com apoio de refugiados armênios, chegar a Nova York. Sob o nome Aurora, publicou em 1918 suas memórias, intituladas “Armênia Devastada”, que chegaram ao cinemas, com grande repercussão e tendo a própria autora como protagonista, no ano seguinte. A incrível história de Aurora e seu filme trouxeram imensa visibilidade ao Genocídio Armênio e ajudaram a arrecadar o equivalente a 2 bilhões de dólares de hoje para o apoio às suas vítimas.
Depoimento de Aurora Mardiganyan sobre o Genocídio Armênio. Somente em idade avançada ela revelou que a violência mostrada no filme – incluindo a crucifixão de meninas – foi muito abrandada. “Os turcos não faziam suas cruzes assim. Os turcos faziam pequenas cruzes pontiagudas. Tiravam as roupas das meninas. Faziam com que elas se abaixassem e, depois de estuprá-las, as faziam sentar na madeira pontiaguda, que lhes atravessava as vaginas. Era assim que eles matavam, os turcos. Os americanos fizeram isso de uma forma mais civilizada. Eles não podem mostrar coisas tão terríveis”
Situação do reconhecimento do Genocídio Armênio mundo afora. Em verde, os países que o reconhecem oficialmente, a maioria com chancelas de seus parlamentos e chefes de Estado (nosso querido hermanito Uruguai, de influente comunidade armênia, foi o primeiro a fazê-lo, em 1965). Em laranja, os três países que negam explicitamente o Genocídio: a Turquia, estado sucessor do Império Otomano, onde há monumentos que insinuam que foram os armênios que cometeram genocídio contra os turcos; o Azerbaijão, aliado incondicional da Turquia e, como ela, arqui-inimiga da Armênia; e o Paquistão, que sequer reconhece a Armênia como nação soberana.A Iniciativa Humanitária Aurora, ONG sem fins lucrativos, recebeu o nome da heroína-emblema das vítimas do Genocídio Armênio e, suportada em grande parte pela diáspora armênia, apoia o enfrentamento de desafios humanitários mundo afora, incluindo genocídios em curso. Estimulo fortemente aqueles que de alguma forma se sensibilizaram pela causa que conheçam mais sobre a iniciativa e, se lhes for possível, lhe façam uma contribuição:O Instituto Nacional Armênio dedica-se ao estudo, à pesquisa e a reasserção da ocorrência do Genocídio Armênio contra todas as forças que o pretendem negar. Seu sítio dispõe de abundantes fontes de estudo, em vários idiomas, disponíveis àqueles que desejarem aprofundar-se sobre o tema.O Escritório de Prevenção de Genocídio e da Responsabilidade de Proteger é o organismo das Nações Unidas dedicado à causa autoevidente. Sabemos muito bem a quem interessa desmoralizar organismos internacionais enquanto viola todas as convenções, sejam as diplomáticas, sejam as de mínima decência. Somente o estudo crítico sobre a causa nos protege do triste fim de sermos omissos ou, pior ainda, de servirmos de massa de manipulação. Não sejam.Placa na entrada do Museu Estatal Auschwitz-Birkenau, em Oświęcim, Polônia. A citação original de George Santayana (1863-1952) difere das duas versões mostradas na imagem: “Aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”. Para tatuar nas retinas. E já.
A música do padre veneziano leva alegria e uma pitada de bom humor onde quer que vá e como o PQP Bach Corp. se espalhou por todos os confins do mundo, que então leve por aí essas belezuras.
Esse ótimo disquinho reúne uma coleção de sete (conta de mentiroso) concertos duplos para instrumentos de sopros. A mentirinha vai por conta de que um dos concertos é uma sinfonia, ou será mesmo um concerto? Aposto que você nem liga para isso. Além disso, um dos concertos é para dois pares de instrumentos de sopros, oboés e clarinetes.
NK
Isso nos traz o assunto de quais tipos de instrumentos são usados na gravação. Fossem os intérpretes radicais adeptos do historicamente informado teríamos possivelmente a palavra chalumeaux por aqui. Mas, os intérpretes aqui são músicos da City of London Sinfonia, orquestra fundada pelo grande Richard Hickox e usa instrumentos modernos. Nada que possa lhe trazer preocupações, desde que você goste de música barroca. Na direção o regente Nicholas Kraemer, que também toca instrumentos de teclas no contínuo e sabe das coisas, atua também com grupos HIP. Kraemer é o quarto cravista na pioneira gravação dos concertos para cravo de Bach feita pelo Trevor Pinnock para o selo Archiv Produktion. Ele já deu as caras aqui pelos nossos costados regendo sinfonias de Haydn num disquinho que foi devidamente apreciado pelos frequentadores assíduos ou casuais do blog.
Antonio Vivaldi (1678 – 1741)
Concerto in F major for two horns, RV 539
Allegro
Larghetto
Allegro
Concerto in C major for two flutes, RV 533
Allegro Molto
Largo
Allegro
Concerto (Sinfonia) in D major, RV 122
Allegro
Largo
Presto
Concerto in C major for two trumpets, RV 537
Allegro
Largo
Allegro
Concerto in C major for two oboes and two clarinets, RV 560
Nicholas aproveitando um momento de suavidade no naipe de sopros da PQP Bach Sinfonietta
Seção ‘The Book is on the Table’: Yes, a wonderful music, as always with Vivaldi. Vivaldi is ENDLESS,different, magnificent, every time new and special, however always recognisable. In the Wind collection i was greatly impressed with Concerti for two Horns, light, fresh and harmonious. Great Music and brilliant performance.
Aproveite!
René Denon
Quizz PQP Bach: Em qual dos concertos no disco da postagem foi usado o instrumento de sopros da figura a seguir?
Se você gostou dessa postagem, pode querer visitar essa outra aqui:
Foi com grande surpresa que me dei conta de que esse disco não constava no acervo de mais de 8 mil posts da casa. Horowitz in Moscow documenta nada menos que o retorno do colossal pianista Vladimir Horowitz à União Soviética, sua terra natal, depois de 61 anos. 61 anos! Uma vida…
O recital aconteceu no dia 20 de abril de 1986, na Grande Sala do Conservatório Tchaikovsky, em Moscou, mesmo palco onde Horowitz havia se apresentado pela última vez na URSS, em 1925. O mestre, agora, tinha 82 anos e queria ver sua pátria-mãe Rússia mais uma vez antes de morrer.
O encarte do disco, lançado com o selo amarelo da Deutsche Grammophon, reproduz um texto de Charles Kuralt para a CBS News que capta um pouco da atmosfera em torno do recital:
“Um simples pôster apareceu numa manhã de primavera na parede amarelo-pálido do Conservatório de Música de Moscou. Ele dizia que um recital de piano seria dado por “Vladimir Horowitz (USA). Apenas um pôster, mas que disparou uma descarga elétrica de surpresa e alegria pela capital soviética. Aqueles que viram o pôster, ou que ouviram dizer sobre ele, sabiam que era um concerto para ser lembrado eternamente. E foi.
Ah, você tinha que ter estado lá! Mas como? Menos de 400 ingressos foram colocados à venda para o público, e uma longa fila de russos amantes da música passaram a noite toda em pé para conseguí-los assim que a bilheteria abrisse. O resto dos 1800 lugares da bela Grande Sala do Conservatório estavam reservados para funcionários do governo e membros de corpos diplomáticos.
Chovia quando chegou a hora do concerto. 20 de abril de 1984, 4 da tarde, hora de Moscou. Centenas de pessoas se aglomeraram sob guarda-chuvas na rua do lado de fora do auditório. Eles sabiam que não iam conseguir escutar uma única nota; queriam apenas poder dizer que estavam presentes nesse dia. (…)”
“Na tarde da sexta-feira que antecedeu o concerto, Horowitz veio até a sala para ensaiar, em frente a uma platéia lotada de estudantes e professores de música. Ele checou meticulosamente a luz e o posicionamento do piano no palco, e brincou um pouco com os fotógrafos. Então, sensível à expectativa dos estudantes, começou a tocar seriamente. Um silêncio profundo se instalou na sala. O ensaio então virou um concerto, prelúdio para o recital formal. Muitos estudantes fecharam os olhos para se concentrar no que estavam ouvindo. Um membro da entourage de Horowitz, radiante, disse que aquele ensaio foi uma das melhores performances do pianista que ele ouviu na vida, um presságio maravilhoso para o concerto de domingo, que seria televisionado para a Europa e os Estados Unidos. Os alunos aplaudiram Horowitz por longos minutos e o seguiram até o pátio do Conservatório, cercando seu carro em uma explosão de amor e admiração. Apesar dos esforços de um cordão policial, a limusine levou quase meia hora para andar os cerca de 15 metros até a rua. Mesmo após o carro ter escapado da multidão, os estudantes permaneceram ali em pequenos grupos, discutindo maravilhados o que haviam escutado.
Na tarde do concerto oficial, dois dias mais tarde, muitos daqueles estudantes voltaram querendo mais. Sem ingressos, eles burlaram a segurança disposta ao redor do prédio e conseguiram escapulir até as galerias superiores, no início do concerto. O barulho que você consegue escutar no início da primeira sonata de Scarlatti é o som da polícia soviética tentando, em vão, retirar os estudantes do terraço. Eles, no entanto, permaneceram firmes, a polícia recuou e o concerto prosseguiu — com um grande número de estudantes ‘bicões’ presentes.
Horowitz e a esposa Wanda dando uma conferidinha num manuscrito de um certo Piotr Ilitch Tchaikovsky
O repertório é uma daquelas maravilhosas viagens horowitzianas, prestando reverência a mestres que habitaram as máximas alturas da literatura pianística, com uma inevitável queda para aquele pedaço do planeta que o viu nascer: Scarlatti, Mozart, Rachmaninov, Scriabin, Liszt (incluindo um d’après Schubert), Chopin, Schumann e Moszkowski.
Senhoras e senhores, sem mais delongas, o histórico retorno de Vladimir Horowitz a Moscou, em 1986. Веселитесь!
Piano Sonata in C major, K. (330) (300 h) 2 – I. Allegro moderato
3 – II. Andante cantabile
4 – III. Allegreto
Sergei Rachmaninov (1873-1943)
5 – Prelude in G major, op. 32 nº 5 6 – Prelude in G sharp minor, op. 32 nº 12
Alexander Scriabin (1872-1915)
7 – Etude in C sharp minor, op. 2 nº 1 8 – Etude in D sharp minor, op. 8 nº 12
Franz Liszt (1811-1886) d’après Franz Schubert (1797-1828)
9 – Soirées de Vienne – Valse-Caprice nº 6
Franz Liszt (1811-1886)
10 – Sonetto 104 del Petrarca
Frédéric Chopin (1810-1849)
11 – Mazurca in C sharp minor, op. 30 nº 4 12 – Mazurka in F minor, op. 7 nº 3
Robert Schumann (1810-1856)
13 – Träumerei (from Kinderszenen)
Moritz Moszkowski (1854-1925)
14 – Étincelles, op. 36 nº 6
Sergei Rachmaninov (1873-1943)
15 – Polka de W.R.
Vladimir Horowitz, piano
Gravado ao vivo na Grande Sala do Conservatório de Música de Moscou em 20 de abril de 1986.
PS: Você pode assistir ao concerto, com um filme mostrando os preparativos e o clima, aqui:
PPS: Você também pode ouvir uma digitalização de uma fita cassete mexicana do concerto aqui, uma daquelas coisas insólitas que só o Internet Archive faz por você.
Ganhando flores de ninguém menos que uma sobrinha-neta de Tchaikovsky
Dom Óscar Arnulfo Romero Galdámez (1917-1980) tornou-se arcebispo de San Salvador, capital de El Salvador, em 1977. Nomeado por Roma por seu perfil conservador, Monsenhor Romero, como ficou conhecido, passou a conviver mais de perto com os fiéis e a observar pela ótica deles os abusos do exército salvadorenho, que temia um golpe de estado por parte de guerrilhas esquerdistas.
Com as incômodas denúncias – em suas homilias, à imprensa e a quem quer que fosse – de violação aos direitos humanos, incluindo assassinatos de clérigos, começou a receber ameaças de morte. Em 24 de março de 1980, “finalmente” (pro conforto dos militares), Monsenhor Romero tomou um tiro mortal no coração, de um milico anônimo, durante uma missa numa capela perto da Catedral de San Salvador, e virou mártir de imediato.
A notícia da morte de Monsenhor Romero atraiu milhares de pessoas a seu velório, para insatisfação do exército salvadorenho. Os militares dispersaram a multidão ao custo de 42 outras mortes. Dali, deflagrou-se oficialmente a Guerra Civil de El Salvador, que durou até 1992. Até hoje, o crime não foi solucionado, graças às oligarquias que ainda comandam o país, mas a peregrinação ao túmulo de Monsenhor Romero desde então tem sido a maior da América Central.
***
Jorge Antunes – carioca radicado em Brasília, ativista de esquerda, autor do hino do PSol e de um Hino Nacional Alternativo, professor da UNB e um dos mais representativos (e polêmicos) expoentes da vanguarda brasileira – ganhou um prêmio da Sociedade de Música Contemporânea Israelense e viajou para a Terra Santa em 1980, onde passou quatro meses (em Jerusalém e num kibutz), desenvolvendo os rascunhos do tributo que estava concebendo ao arcebispo assassinado.
A referência à cor violeta advém da teoria cromofonética de Jorge Antunes, que relaciona uma cor do espectro solar a cada uma das notas diatônicas. De acordo com essa teoria o violeta equivale à nota mi, que predomina também em Ritual Violeta.
A Elegia violeta para Monsenhor Romero é uma das peças mais impactantes da música clássica nacional. Esta gravação péssima, que me parece ser a única, e o coral não tão bem ensaiado não reduzem a força da obra, desde a simulação do peso do tiro mortal em Monsenhor Romero, no acorde inicial do piano, e os gritos de desespero simulado nas cordas, até a última frase que o coral canta (a do título do CD).
“Não se mata a Justiça!” foi a resposta que o arcebispo deu a um repórter da TV Globo que o entrevistou em San Salvador, o qual perguntou-lhe se não tinha medo de morrer devido às denúncias contundentes que fazia.
***
Falo en passant somente da obra mais importante – e, de longe, a mais atrativa – desse CD de Jorge Antunes; para saber sobre as demais, dêem uma olhada no encarte. Muito engenhosa, para se mencionar, é a Cromorfonética, que você pode confundir com uma obra eletroacústica, mas, com uma segunda ouvida, perceberá que é para coro misto.
Estou aqui em Brasília, tentando achar o Café do Rato Preto através do endereço que meu gerente me deu, já que nunca estive na capital federal:
Quadra SHIS Trecho 50 Lote 200
Acontece que o Google Earth acusou “galáxia não localizada” e não sei o que fazer no momento. Acho que daqui mesmo do aeroporto JK vou-me embora pra… Pra não sei onde… Talvez Santa Catarina, talvez Recife, talvez Rio, talvez Buenos Aires…
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Jorge Antunes (1942): ¡No se mata la Justicia!
1. Elegia violeta para Monsenhor Romero (1980), para dois solistas infantis, coro infantil, piano obligato e orquestra de câmara
Coro Infantil do Kibutz Hatzerim e do Conservatório de Música de Beer-Sheva
Solistas: Hagit Shapira e Ruth Halifa
Piano obligato: Mariuga Lisbôa Antunes
The Israel Sinfonietta
Regente: Jorge Antunes
2. Cromorfonética (1969), para coro a capella
Coro Pro-Arte Ensemble Graz
Regente: Karl Emst Hofmann
3. Proudhonia (1972), para coro misto e fita magnética
Coro: Les Douze Solistes des Choeurs de l’ORTF
Regente: Marcel Couraud
Gravação: 16/04/1973, no Festival de La Rochelle 1973 – Rencontres Internationales d’Art Contemporain Salle Oratoire, La Rochelle, France
Rimbaudiannisia MCMXCV (1994), para jovens cantores solistas, coro infanto-juvenil, orquestra de câmara, luzes e máscaras.
4. Rimbaudiannisia MCMXCV – I. Expiation pour Cumiqoh
5. Rimbaudiannisia MCMXCV – II. Voyelles
6. Rimbaudiannisia MCMXCV – III. Ditirambus
Choeur La Maîtrise de Radio France Orchestre Philharmonique de Radio France Regente: Arturo Tamayo
7. Ritual violeta (1999), para saxofone tenor e sons eletrônicos
Dando prosseguimento às gravações de Karl Richter com sua Münchener Bach Orchestra, FDP Bach traz mais uma joia de sua coroa: o concerto para Flauta, Harpa e Orquestra de Mozart.
A dupla Richter / Nicolet está em segundo lugar na lista dos nossos downloads. Desde que foi postado, creio que há uns 7 ou 8 meses atrás, sua gravação das Sonatas para Flauta e Cravo de nosso pai já tiveram um total de 571 downloads, atrás apenas do primeiro volume das bachianas.
Espero o mesmo sucesso com esses dois concertos maravilhosos, com a mesma dupla, e com uma excelente harpista, Rose Stein. Na verdade, esse concerto para flauta e harpa já havia sido postado com o Rampal, portanto eis uma ótima oportunidade para serem feitas as devidas comparações.
Não canso de indicar para meus amigos o andantino do segundo movimento desse concerto. Em minha opinião trata-se de uma das mais belas páginas da obra de Mozart, quiçá da história da música. O trio Nicolet / Richter / Stein está afinadíssimo.
E a dupla Richter / Nicolet volta com tudo no Concerto para Flauta de Haydn.
Enfim, um cd pelo que tenho muito carinho e cuidado. Infelizmente encontra-se fora do catálogo da Teldec.
FDP Bach possivelmente não fará mais postagens até o final do Carnaval, está planejando uma viagem, e para complicar ainda mais seu computador resolveu falhar, portanto, não terei acesso ao meu acervo por alguns dias. Felizmente foi um problema elétrico, queimou a fonte, e o conteúdo dos meus HDs está garantido. De qualquer forma, ele já estava sendo negociado, e vai demorar um pouco para transferir o conteúdo para outro computador ainda a ser adquirido.
Ou seja, tenham todos um excelente Carnaval, e com certeza voltaremos com gás total na próxima semana..
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concerto for Flauta e Harpa, K299 / Franz Joseph Haydn (1732-1809): Concerto para Flauta, Hob VIIf: D1 (Nicolet, Richter)
1 – Mozart – Concert for flute, Harp e Orchestra – Allegro
2 – Mozart – Concert for flute, Harp e Orchestra – Andantino
3 – Mozart – Concert for flute, Harp e Orchestra – Rondo – Allegro
4 – Haydn – Concert for flute and Orchestra – Allegro Moderato
5 – Haydn – Concert for flute and Orchestra – Adagio
6 – Haydn – Concert for flute and Orchestra – Allegro molto
Munich Bach Orchestra
Karl Richter – Conductor
Aurele Nicolet – Flute
Rose Stein – Harpe
Uma excelente gravação da esplêndida Sinfonia Nº 7 vem desde um primeiro movimento colossal, passa através de dois movimentos Nachtmusik em ambos os lados de um scherzo. São esses três movimentos centrais que deram origem à obra sendo às vezes conhecida como ‘Canção da Noite’, que não é um apelido de Mahler. Dito isso, não é um apelido injustificado, pois até mesmo o primeiro movimento tem um sentimento noturno em sua abertura e em muitos de seus episódios. É apenas no final que finalmente emergimos para a luz do dia. A primeira Nachtmusik, após os chamamentos de trompas e a evocação de cantos de pássaros, traz novamente a marcha, no que parece a evocação de um caminhar pelo mistério da noite. A ambientação noturna reaparece no Scherzo, mas desta vez através das lembranças algo fantasmagóricas da valsa vienense. Antes de atingir o brilho, no último movimento, a obra atravessa a segunda Nachtmusik: lirismo, transparência, orquestra reduzida – nos metais, apenas as trompas –, mas com a acréscimo do bandolim para essa verdadeira serenata noturna. No Rondo – Finale, a explosão de luz e a energia do tema inicial têm efeito arrebatador. Uma vez mais, o compositor estabelece o diálogo com a tradição – desta vez, com o tema de Os Mestres Cantores, de Wagner. A alternância com seções transparentes, as transformações do tema principal e até a reminiscência do tema que abre o primeiro movimento conduzem a Sinfonia a um final luminoso. Se atentarmos para a diversidade temática da Sétima e mesmo para a expressão particular de cada um de seus movimentos, estaremos diante de uma riqueza de expressões humanas em que não faltam a dor, a nostalgia, a desesperança, mas também a ironia, a raiva, o amor e o encantamento diante da natureza.
Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 7 (Halász)
Symphony No. 7 in E Minor
1 I. Langsam – Allegro con fuoco 20:55
2 II. Nachtmusik I: Allegro moderato 16:59
3 III. Scherzo: Schattenhaft 09:46
4 IV. Nachtmusik II: Andante amoroso 14:05
5 V. Rondo-Finale 17:25
Total Playing Time: 01:19:10
Conductor(s): Halász, Michael
Orchestra(s): Polish National Radio Symphony Orchestra
O post de hoje dá início a uma série de nove discos que reúnem a integral das obras orquestrais (as óperas estão de fora, à exceção de versões suíte, mas os concertos estão dentro) de um daqueles que, afinal, melhor soube criar mundos cintilantes e imaginativos a partir da paleta sonora da orquestra sinfônica moderna: o alemão Richard Strauss (1864-1949). Um repertório que compreende algumas das estrelas mais brilhantes da literatura de concerto do século XX.
Os nove discos da caixa trazem o registro de um encontro muito feliz entre um regente visionário e uma orquestra com muito talento e orgulho de sua tradição, Rudolf Kempe e a mítica Staatskapelle Dresden. Ele foi diretor artístico da orquestra e da Semperoper Dresden entre 1949 e 1952, quando a cidade era apenas ruínas e dor, mas a parceria — concertos, turnês, festivais e muitas gravações — se estendeu para o resto da vida do maestro. As gravações aqui reunidas foram feitas entre 1970 e 1975, já nos últimos anos da vida de Kempe, que viria a falecer em 1976, em Zurique, na Suíça.
Kempe regendo a Staatskapelle Dresden, 1975
O primeiro disco da caixa traz duas das mais importantes, conhecidas, tocadas e influentes obras de Strauss: Assim Falou Zaratustra (Also Sprach Zarathustra), Op. 30, e Morte e Transfiguração (Tod und Verklärung), Op. 24. Completam o álbum duas versões de concerto de trechos de óperas: a Suíte de Valsas de O Cavaleiro da Rosa, Op. 59, e a Música de Luar, de Capriccio, Op. 85.
Aproveitando as comemorações pascoais do próximo domingo, faço retornar uma bela postagem — pela música, jamais por meu texto — alusiva à efeméride, escrita entre a compra de um ovo de chocolate e outro. Como chocólatra incondicional, amo a Páscoa! Este é CD lindamente interpretado por este conjunto que desconhecia. Claro, Pachelbel não é Bach, mas não julgo possível que os pequepianos mais afeitos ao barroco torçam seus sensíveis narizes para estas peças muito difíceis de se encontrar por aí. O CD é excelente! Bom Coelhinho para todos!
Johann Pachelbel (1653-1706): Cantatas de Páscoa (La Capella Ducale, Musica Fiata, Roland Wilson)
1. Deus In Adjutorium
2. Christ Lag In Todesbanden
3. Halleluja! Lobet Den Herrn
4. Christ Ist Erstanden
5. Jauchzet Dem Herrn
6. Magnificat In C Major
“There is in Poulenc a bit of monk and a bit of hooligan.” Claude Rostand
Este disco ganhou quatro em cinco estrelas da coluna Lebrecht Weekly e basta ouvi-lo para entender o porquê. O programa é formado principalmente pelas sonatas para violino e piano e para violoncelo e piano. O resto são lindas peças para essas mesmas combinações, mas também algumas surpresas, como você poderá perceber ao ouvir o disco ou reparar na lista dos créditos, logo a seguir.
Eu me encanto sempre com a canção Les chemins de l’amour e aqui você poderá ouvir dois arranjos dela: para violino e piano e para violoncelo e piano.
Para fechar o disco um número do balé Les Mariés de la tour Eiffel, chamado Le discours du Général. Os diversos números musicais do balé foram compostos pelos compositores do Grupo do Seis.
Veja trechos dos comentários da coluna do Lebrecht: The music performed here is from the 1940s, not the happiest of decades, but Poulenc was adept at shutting out headline news. […] Here he engages in confidential conversation between violin and piano, cello and piano, and something called a ‘pipeau’, which calls to mind a medical laboratory. Nowhere does Poulenc harbour dark thoughts. The players – violinist Tatiana Samuil, cellist Justus Grimm and pianist David Lively – keep it light and wistful.
A música tocada aqui é da década de 1940, não a mais feliz das décadas, mas Poulenc era adepto de bloquear as manchetes. […] Aqui ele se envolve em uma conversa confidencial entre violino e piano, violoncelo e piano, e algo chamado de “pipeau”, que lembra um laboratório médico. Em nenhum lugar Poulenc abriga pensamentos sombrios. Os músicos — a violinista Tatiana Samuil, o violoncelista Justus Grimm e o pianista David Lively — mantêm o ambiente leve e melancólico.
Francis Poulenc (1899 – 1963)
Sonate pour violon et piano, FP 119:
Allegro con fuoco
Intermezzo
Presto Tragico
Léocadia
Les chemins de l’amour (Arr. for violin & piano by Francis Poulenc)
Sonate pour Violoncelle et Piano, FP 143:
Allegro – Tempo di Marcia
Cavatine
Ballabile
Finale
Souvenir pour violoncelle et piano
Souvenir
Villanelle pour pipeau et piano
Villanelle
Léocadia
Les chemins de l’amour (Arr. for Cello & Piano by Francis Poulenc)
The titular ‘Chemins de l’Amour’ is a song Poulenc wrote for an Yvonne Printemps show in December. Who would know Paris was under German occupation? Poulenc kept his window shut.
Estreada em Paris em 1911, L’heure espagnole é uma ópera cômica, e só isso já a diferencia das grandiosas e sérias óperas de Wagner e Verdi e dos one-hit-wonders de Bizet e Debussy nos palcos. Passada na Espanha como boa parte das obras de Ravel (Alborada del gracioso, Rapsodie Espagnole…), a ópera tem apenas um ato e, sem grandes acrobacias vocais, talvez o maior destaque seja para a originalíssima orquestração que remete ao tema dos relojoeiros com vários tipos de tic-tacs, carrilhões, sinos, cucos, etc.
O libretto é de Franc-Nohain, poeta amigo de Alfred Jarry, este último o autor de Ubu rei, obra-prima do teatro do absurdo. Não vou entrar em detalhes aqui mas a cena se passa em Toledo, Espanha, e a única mulher tem diálogos mais ou menos sedutores com alguns dos homens… enfim, o mais importante é a orquestra de Ravel, que aparece nesta gravação em primeiro plano ao contrário de discos antigos de maestros como B. Maderna, E. Ansermet e A. Cluytens nos quais os detalhes orquestrais ficavam um tanto abafados.
Já em Shéhérazade o ambiente é o do orientalismo, é claro, que também interessou a outros compositores do mesmo período como Rimsky-Korsakov e Richard Strauss (Salomé). Ravel completou 150 anos de nascimento em março deste ano, logo após o carnaval, e a data passou batida aqui neste blog, então deixo, mesmo atrasada, essa lembrança acompanhada de obras menos frequentemente gravadas do que outras como La Valse, Gaspard de la nuit e os dois Concertos para Piano.
Maurice Ravel (1875–1937):
Shéhérazade
(Três Poemas para voz e orquestra)
Stéphanie D’Oustrac (soprano)
L’heure espagnole
(Ópera cômica em um ato)
Concepción – Stéphanie D’Oustrac (soprano)
Torquemada – Jean-Paul Fouchécourt (tenor)
Ramiro – Alexandre Duhamel (barítono)
Don Inigo Gomez – Paul Gay (baixo)
Gonzalve – Yann Beuron (tenor)
Radio-Sinfonieorchester Stuttgart des SWR
Stéphane Denève
Recorded: 2014-2015
Mais um excelente CD trazendo o soprano Miriam Feuersinger, aquela cujo sobrenome diz tudo. Na enorme obra de cantatas de Johann Sebastian Bach, as “cantatas de diálogo” ocupam uma posição muito especial: como se em um diálogo pessoal, a ‘alma cristã’ (soprano) e ‘Cristo’ (baixo) entram em diálogo, quase como em uma ópera. Bach se refere às palavras de Martinho Lutero, segundo as quais “a fé une a alma a Cristo como uma noiva ao seu noivo”, e assim se vincula à ideia medieval do misticismo nupcial. Esse diálogo se torna um “dueto de amor” espiritual, por assim dizer, que Miriam Feuersinger e Klaus Mertens — ambos estão entre os grandes intérpretes de Bach do nosso tempo — interpretam aqui da maneira mais íntima. As duas cantatas “Ich geh und suche mit Verlangen” BWV 49 e “Liebster Jesu, mein Verlangen” BWV 32 são complementadas pelo Concerto para Oboé em Dó maior GWV 302 de Christoph Graupner, interpretado pela oboísta Elisabeth Grümmer.
J. S. Bach (1685-1750): Cantatas BWV 49 & 32 / C. Graupner (1683-1760): Concerto para Oboé (Feuersinger, Grümmer, Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«)
Bach, J S: Cantata BWV49 ‘Ich geh und suche mit Verlangen’ 26:22
I. Sinfonia 6:57
II. Aria (Bass): Ich geh und suche mit Verlangen 4:59
III. Rezitativo – Dialog (Sopran & Bass): Mein Mahl ist zubereit‘ 2:05
IV. Aria (Sopran): Ich bin herrlich, ich bin schön 5:47
V. Rezitativo – Dialog (Sopran & Bass): Mein Glaube hat mich selbst 1:44
VI. Duetto (Sopran & Bass): Dich hab ich je und je geliebet 4:50
Miriam Feuersinger (soprano), Klaus Mertens (bass-baritone)
Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«
Graupner: Oboe d’Amore Concerto in C major, GWV302 11:02
I. Vivace 4:53
II. Tempo giusto 2:14
III. Allegro 3:55
Elisabeth Grümmer (oboe)
Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«
Bach, J S: Cantata BWV32 ‘Liebster Jesu, mein Verlangen’ 23:58
I. Aria (Sopran): Liebster Jesu, mein Verlangen 6:24
II. Recitativo (Bass): Was ists, dass du mich gesuchet? 0:27
III. Aria (Bass): Hier, in meines Vaters Stätte 7:16
IV. Recitativo Dialogo (Sopran & Bass): Ach! heiliger und großer Gott 2:52
V. Aria Duetto (Sopran & Bass): Nun verschwinden alle Plagen 5:35
VI. Choral: Mein Gott, öffne mir die Pforten 1:24
Miriam Feuersinger (soprano), Klaus Mertens (bass-baritone)
Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«
A cultura não é meramente conhecimento, não é algum tipo de realização artística, mas sim um modo de vida.
László Németh
Tudo culpa de Bartók. O cara me deixou tão curioso sobre o folclore húngaro que simplesmente tento ouvir tudo o que passa por mim. O Muzsikás é um grupo de Budapeste que surgiu do movimento “Tanchaz” (literalmente, “casa de dança”) da década de 1970, quando os húngaros começaram a se interessar profundamente por sua herança folclórica, aprendendo a dançar e tocar músicas antigas. Os músicos do grupo, assim como Bartók e Kodály, fizeram viagens fantásticas para a Transilvânia e coletaram canções com a última geração de autênticos músicos e dançarinos folclóricos. Neste disco, testemunhamos o respeito e o amor que ligam os jovens aos músicos mais velhos e que ainda os conectam até hoje. Na Transilvânia, a música parece brotar espontaneamente. O Muzsikás consiste em violinos, um contrabaixo de três cordas tocado com um arco curto e a voz etérea de Marta Sebyesten. Como disse, a música em “The Prisoner’s Song” consiste em grande parte de composições folclóricas da Transilvânia. Lembre-se, a Transilvânia era parte da Hungria e, mais tarde, do Império Austro-Húngaro até depois da Primeira Guerra Mundial. Hoje, ela faz parte de Romênia e é conhecida por suas cidades medievais, fronteiras montanhosas e castelos como o de Bran, uma fortaleza gótica associada à lenda do Drácula. Bem, embora todas as músicas tenham sido compostas independentemente umas das outras, o Muzsikás as arranjou neste álbum para contar uma espécie de conto: uma história de desejo, amor e liberdade. A música é autêntica, nunca datada e não “modernizada” em nenhuma extensão. Mihaly Csipos toca seu violino como um velho cigano, Marta Sebyesten é angelical. Os Muzsikás são bastante populares na Hungria, e o movimento Tanchaz continua com força total.
Muzsikás: The Prisoner’s Song
A1 Rabnóta = Prisoner’s Song 4:12
A2 Eddig Vendég = The Unwelcome Guest 3:49
A3 Azt Gondoltam, Esö Esik = I Thought It Was Raining 4:02
A4 Hidegen Fújnak A Szelek = Cold Winds Are Blowing 3:10
A5 Bujdosódal = Outlaw’s Song 5:06
B1 Repülj Madár, Repülj = Fly Bird, Fly 3:32
B2 Régen Volt, Soká Lesz = It Was Long Ago 4:06
B3 Szerelem, Szerelem = Love, Love 4:30
B4 Én Scak Azt Csodálom = I Am Only Wondering 4:47
B5 Elment A Madarka = The Bird Has Flown 4:15
“Começou de forma muito simples: apenas uma pulsação no registro mais baixo. Então, de repente, bem acima, soou uma única nota no oboé, que ficou ali, inabalável, me perfurando, até que a respiração não conseguiu mais segurá-la, e um clarinete a tirou de mim e a adoçou em uma frase de tal deleite que me fez tremer. A luz tremeluziu na sala. Meus olhos ficaram nublados… pareceu-me que eu tinha ouvido uma voz de Deus…” Peter Shaffer: Amadeus
Mozart claramente amava instrumentos de sopro: eles geralmente são como cantores lado a lado das vozes reais em suas óperas e são os verdadeiros cantores em sua música instrumental. Richard Bratby
Eu adorei esse disco, que tem como peça principal a Serenata em si bemol maior K 361, mais conhecida como a Gran Partita. Quando Mozart a compôs em 1781, em Munique, dispunha de excelentes músicos do naipe de sopros, que estavam a serviço da Corte Bávara e eram originários da famosa Orquestra de Mannheim. A Gran Partita foi composta para 13 instrumentos de sopros, sendo que um contrabaixo é geralmente usado na parte do contrafagote. A genialidade de Mozart produziu uma obra prima em um gênero considerado menor.
Música para conjuntos de sopros com seis, oito instrumentos, era muito comum e servia para acompanhar a vida social dos nobres e abastados. Esse tipo de música era chamado de harmoniemusik e seu repertório contava com peças originais, divertimentos, serenatas, assim como arranjos de óperas de sucesso.
Além da obra prima de Mozart, o disco nos brinda com outras duas composições que exemplificam essa forma musical. Johnn Nepomuk Wendt fez um arranjo de oito trechos de O Rapto do Serralho para um conjunto de instrumentos de sopros. Esse arranjo certamente é reflexo do sucesso dessa primeira ópera composta por Mozart após sua mudança de Salzburgo para Viena. É uma delícia reconhecer os momentos correspondentes da ópera, como o dueto de Blonde e Osmin ou o último movimento, outro cômico momento envolvendo o malvado Osmin e o esperto Pedrillo.
Joan Enric Lluna, fundador do excelente conjunto Moonwinds
Na última parte da maravilhosa Don Giovanni há um jantar para o libertino cavaliere para o qual uma orquestra de sopros, uma harmonie, é contratada. Essa orquestra toca exatamente trechos de óperas de sucesso. Mozart coloca nesse momento um trecho de uma ópera de um ‘rival’, Vicente Martín y Soler, Lo Spagnulo, como os vienenses o chamavam. Soler era um músico que peregrinou por várias cidades europeias e por um certo período viveu em Viena. Ele fez sucesso compondo óperas, ao lado de Mozart e Salieri. Assim como no caso de Mozart, Soler produziu três óperas com libretos de Lorenzo da Ponte. Entre elas, Una cosa rara, a ópera que mereceu uma citação de Mozart. No disco, um arranjo de trechos dessa ópera feito pelo próprio Soler. Se você baixar o disco e ouvir até o fim, vai lembrar-se do trecho da ópera Don Giovanni no qual Una cosa rara é citada…
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Serenata em si bemol maior K.361 Gran Partita
Largo – Molto Allegro
Menuetto – Trio I – Trio II
Adagio
Menuetto: Allegretto – Trio I – Trio II
Romance: Adagio – Allegretto
Tema con 6 variazioni (Andante)
Finale (Molto Allegro)
El Rapto En El Serrallo
Arranjo de Johann Nepomuk Wendt (1745-1801)
Presto – Abertura (Presto)
Hier Soll Ich Dich Sehen
Ich Gehe, Doch Rate Ich Dir
Durch Zärtlichkeit Und Schmeichein
Wenn Der Freude Tränen Fliessen
Ha, Wie Will Triumphieren
Welche Wonne, Welche Lust
Viva Bacchus, Bacchus Lebe
Vicente Martín y Soler (1754-1806)
Divertimento para octeto de sopros sobre temas de ‘Una cosa rara’
Moonwinds was born from the artistic initiative of Joan Enric Lluna with the desire to bring together outstanding wind instruments to form a stable group of chamber music
O grupo Sopros da Lua
Seção ‘The Book is on the Table’: Moonwinds show a more balanced approach, play all the repeats, and give us, in the two extra items, a vivid impression of the scope of Viennese wind music in the 1780s. JN Wendt’s arrangement of eight numbers from Die Entführung is imaginative and professional, and the Martín y Soler, drawn from his operatic hit Una cosa rara, has a third movement that’s the very piece Mozart quoted in Don Giovanni (using Martín’s own wind arrangement). Moonwinds play all this with spirit and finesse (the oboe solo in the second movement of the Martín is especially fine).
Trago uma pequena colaboração à série de posts que o patrão PQP Bach tem feito com o resgate da monumental obra de J. S. Bach pelas mãos de um dos maiores pianistas de todos os tempos, o canadense Glenn Gould (1932-1982). Essa aqui é uma gravação curiosa e pouco conhecida da obra que definiu os rumos de sua carreira, as Variações Goldberg, BWV 988, e que não é nem a pioneira de 1955, que o alçou ao estrelato, nem o seu canto do cisne gravado em 1981.
(spoiler: mês que vem tem outra)
A versão que trazemos hoje é anterior à primeira — esta é de 1954, o ano em que Gould passou a tocar a obra em público. Aliás, salvo engano, esta é a gravação mais antiga de Gould a sobreviver até os dias de hoje: uma transmissão ao vivo da rádio CBS de um recital em Toronto, no dia 21 de junho de 1954. Ou seja, praticamente exatamente um ano antes da histórica gravação nos estúdios da Columbia na 30th Street, em Nova Iorque, que aconteceu entre 10 e 16 de junho de 1955.
Gould durante a gravação das Goldberg em NY, 1955
O som da gravação contém problemas e é irregular, como se poderia esperar, já que essa é uma gravação particular em discos de acetato de 33 rpm feita pelos Gould em casa, a partir da transmissão radiofônica. Isso à parte, é um documento interessantíssimo, de valor inestimável, da gênese de um dos artistas mais discutidos e influentes da era de ouro das gravadoras, profundamente inquieto e sempre original. Completam o disco quatro prelúdios e fugas do segundo livro de O Cravo Bem Temperado.
J. S. Bach (1685-1750) Variações Goldberg, BWV 988
1 a 32 – Ária e 30 variações
O Cravo Bem Temperado, vol. II
33, 34 – Prelúdio e Fuga no. 14, em fá sustenido menor, BWV 883
35, 36 – Prelúdio e Fuga no. 7, em mi bemol maior, BWV 786
37, 38 – Prelúdio e Fuga no. 22, em si bemol menor, BWV 891
39,40 – Prelúdio e Fuga no. 9, em mi maior, BWV 878
Glenn Gould, piano
Transmissão radiofônica de recital do dia 21 de junho de 1954, em Toronto, no Canadá.
Post publicado originalmente em 1º de janeiro de 2012
Um bom modo de começar o ano. Sem exageros e já fazendo a desintoxicação pós-festa. Uns russos que tocam muito bem fazem um repertório bastante conhecido dos pequepianos. Um disco consistente para que deve ser baixado e ouvido tranquilamente neste começo de 2012, ano em que o Internacional vencerá mais uma Copa Libertadores da América. Peço sinceras desculpas aos gremistas e corintianos. Sei que o mundo vai acabar este ano e, como parece que o mundo acaba cedo em dezembro, espero não ter que enfrentar o Barcelona. Menos um problema.
Ah, não esqueçam que, se o mundo acabar, o Michel Teló acaba junto.
W. A. Mozart (1756-1791): Concerto para Piano Nº 23 e para Violino Nº 3
Piano Concerto No.23 in A major, K 488
I.Allegro
II.Adagio
III.Allegro assai
Violin Concerto No.3 in G major, K 216
I.Allegro
II.Adagio
III.Rondo
Veronika Reznikovskaya, piano
Mikhail Gantvarg, violin
Solist of St.Petersburg Chamber Ensemble
Artistic director Mikhail Gantvarg
Recorded by Petersburg Recording Studio, 1994
Um absurdo de bom este Hamilton de Holanda. Tudo é bom neste CD ao vivo. As interpretações, as composições — das 8 faixas, 4 são de Hamilton — e, vocês sabem, quando é Milton é bom. Hamilton tem uma longa discografia seja suas próprias composições ou homenagens a alguns de seus ídolos. Ele lançou suas gravações em sua própria gravadora independente, Brasilianos, ou em parceiros mundiais como Universal, ECM, MPS, Adventure Music. Ele entende que a indústria musical precisa de definições de categorias para a música que toca, como por exemplo Jazz, Brazilian Jazz, Brazilian Popular Music; mas para ele a inspiração transcende os rótulos, é algo que cresce livremente sem a necessidade de ser definido. Gosta de se explicar como um explorador musical em busca de beleza e espontaneidade. Dividiu o palco ou gravou com Wynton Marsalis, Chick Corea, The Dave Mathews Band, Paulinho da Costa, Chucho Valdes, Egberto Gismonti, Ivan Lins, Milton Nascimento, Joshua Redman, Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Richard Galliano, John Paul Jones, Bela Fleck, Stefano Bollani entre muitos outros.
.: interlúdio :. Hamilton de Holanda: 01 byte 10 cordas
1 . No Rancho Fundo — Ary Barroso , Lamartine Babo
2 . Ainda Me Recordo — Pixinguinha , Benedito Lacerda
3 . O Sonho — Hamilton de Holanda
4 . 01 Byte 10 Cordas — Hamilton de Holanda
5 . Pedra Sabão — Hamilton de Holanda
6 . Flor Da Vida — Hamilton de Holanda
7 . Disparada — Théo de Barros , Geraldo Vandré
8 . Adiós Nonino — Astor Piazzolla
Hamilton de Holanda, bandolim solo (gravado ao vivo no Rio Design Leblon, Rio de Janeiro (RJ), nos dias 16/12/2004 e 13/01/2005).
Não sei de onde saiu este CD. Não sei de quem ganhei. Não conheço o All your gardening needs, não sei é uma pessoa ou um grupo. É algo super pirata, bastante bom e divertido, que veio num CD vagabundo da MultiLaser. Mas o conteúdo não é nada vagabundo. (Vagabundo é Bolsonaro). São trabalhos bastante ousados sobre canções e falas de Adoniran Barbosa (1910-1982). Um Adoniran elétrico, computadorizado, um pogréssio, enfim. Creio que eu não precise dizer quem foi Adoniran. O brasileiro que veio aqui e desconhece este gênio está convidado a sair deste blog. Imediatamente! O brasileiro que não conhece “Trem das Onze”, “Tiro Ao Álvaro”, “Saudosa Maloca”, “Prova de Carinho” e “Samba do Arnesto” não merece o ar que respira.
Pogréssio: All your gardening needs encontra Adoniran Barbosa
1. Milonga de pampa a sampa
2. Ponte aérea 2099
3. Animado baile jovem no conjunto habitacional Vila Ibiza
4. Por aí
5. `ceridade
6. Apara o casamento
7. Vagabundos / Roubando bolinhas
8. Alfred Hitchcock`s Av. Paulista
9. Carnaval é disco
10. As Chaves
Em 1894, o oficial de artilharia do exército francês Alfred Dreyfus foi levado a julgamento e condenado a prisão perpétua em um tribunal marcial a portas fechadas, acusado de alta traição num processo baseado em documentos falsos e provas forjadas. Depois, novos documentos apontam o verdadeiro culpado. Em um novo julgamento em 1899, contra todas as evidências, outro tribunal referenda a condenação anterior. Indignado, o escritor Émile Zola publica uma carta aberta ao presidente da República, provocando comoção popular. A carta – J’accuse! (Eu acuso!) – se tornou um clássico. Zola recebeu muitos apoios, mas também ameaças antisemitas e xenófobas (seu pai era italiano) e foi processado por difamação pelo Estado francês, se exilando por 11 meses.
Dreyfus foi solto por indulto presidencial e anos mais tarde, já em 1906, foi declarado inocente.*
O romancista Marcel Proust foi um dos melhores cronistas do caso Dreyfus:
“Aconteceu com o dreyfusismo (defensores da liberdade de Dreyfus) o mesmo que com o casamento de Saint-Loup com a filha de Odette, casamento que chocou muitos. Hoje, ao vermos todas as pessoas conhecidas frequentando a casa dos Saint-Loups, aprovamos tudo como se sua esposa fosse uma nobre viúva. O dreyfusismo é hoje integrado a uma série de coisas respeitáveis e habituais. Quanto a se perguntar o que ele valia em si próprio, ninguém pensava nisso, nem para inocentá-lo agora nem para condená-lo antigamente.” (O Tempo Redescoberto)
Em seu romance sobre a passagem do tempo, ele mostra que os gostos e os humores mudam com os anos, que o culpado de hoje é o herói de amanhã e que é um erro delimitar a sociedade em classes estanques:
“De certa maneira as manifestações sociais (muito inferiores aos movimentos artísticos, às crises políticas, à evolução que leva o gosto do público em direção ao teatro de ideias, depois à pintura impressionista, depois à música alemã e complexa, depois à música russa e simples, ou em direção às ideias sociais, às ideias de justiça, à reação religiosa, ao ataque patriótico) são o reflexo distante, rachado, incerto, nebuloso, mutável, desses movimentos. De forma que as pessoas não podem ser descritas em uma imobilidade estática.”
(Sodoma e Gomorra)
Da mesma forma, as estreias da 1ª Sinfonia e do 1º Concerto para Piano de Rachmaninoff foram completos fiascos, que levaram o compositor à depressão e à perda da sua autoestima. Alguns anos depois, em 1901, o 2º Concerto para Piano teve grande sucesso e sua autoestima voltou. Pouco depois vieram os 10 Prelúdios opus 23.
O som de sinos – típico das igrejas russas – era uma obsessão de Rachmaninoff, desde seu Prelúdio em dó # menor op.3, reaparecendo em quase todas suas obras para piano e até em The Bells (1913) para coro e orquestra.
Os críticos xingaram a música de Rach com os adjetivos mais feios da época: romântica demais, acessível, superficial, barata. Era música russa e simples, desse tipo que Proust menciona mais acima. Stravinsky o desprezava.
No entanto, o tempo passa e muitos dos vanguardistas da época hoje viraram nota de rodapé, quase não são ouvidos nas salas de concerto, enquanto a música de Rach ainda é tocada e tem seu público.
Em 1915 Rachmaninoff programou um recital de piano em homenagem a Scriabin (1872-1915), seu compatriota e colega de Conservatório. Os críticos, pra variar, detestaram: o pianista Rach não entendia o estilo de Scriabin e “Enquanto a música de Scriabin flutuava nas nuvens, Rach trouxe-a para a terra”. Essa oposição descreve bem os dois russos: o místico, leve Scriabin e o pesado e depressivo Rach.
Eu pessoalmente gosto da música de Rach para piano e tenho horror a sua escrita orquestral: aquelas cordas exageradamente emotivas dos concertos, aquelas sinfonias previsíveis… Mas há quem goste e, como diria Proust, as modas e os gostos mudam. Nunca diga nunca.
Sergei Rachmaminoff: 10 Preludes op. 23
1) F♯ minor (Largo)
2) B♭ major (Maestoso)
3) D minor (Tempo di minuetto)
4) D major (Andante cantabile)
5) G minor (Alla marcia)
6) E♭ major (Andante)
7) C minor (Allegro)
8) A♭ major (Allegro vivace)
9) E♭ minor (Presto)
10) G♭ major (Largo)
5 Morceaux de Fantaisie op. 3
11) Elegie in E♭ minor
12) Prelude in C♯ minor
13) Melody in E major
14) Polichinelle in F♯ minor
15) Serenade in B♭ minor
Idil Biret tem mais de 3 milhões de CD’s vendidos. A maioria provavelmente de Chopin e Rachmaninoff
Pleyel e o piano russo, parte 1 *Qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência. Ou não. [postagem original de 2018, época do Vampirão na presidência…]
Nada como terminar a semana com uma grande obra-prima numa clássica interpretação que já recebeu três capas diferentes da EMI. Quem não se arrepiar no Kyrie inicial ou não gosta de música ou acabou de deixar de gostar. CD obrigatório, com Leppard em perfeita forma e Kiri nem se fala. Esta nasceu para cantar Mozart. A orquestra é enorme, mas Leppard (1927-2019) era um sujeito que sabia dosar as coisas. Ele não economiza nos tutti, mas aqui eles têm função. A Grande Missa K. 427 é tida como uma de suas maiores obras de Mozart. Ele a compôs em Viena em 1782 e 1783, após seu casamento, quando se mudou de Salzburgo para Viena. É uma missa solene composta para dois solistas soprano , um tenor e um baixo, coro duplo e grande orquestra. Permaneceu inacabada, faltando grandes partes do Credo e do Agnus Dei.
W. A. Mozart (1756-1791): Grande Missa em Dó Menor K. 427 (Cotrubas, Kiri Te Kanawa, New Philharmonia, Leppard)
1 I. Kyrie 8:05
2 II. Gloria: Gloria In Excelsis 2:52
3 II. Gloria: Laudamus Te 4:53
4 II. Gloria: Gratias Agimus Tibi 1:30
5 II. Gloria: Domine Deus 2:52
6 II. Gloria: Qui Tollis Peccata Mundi 6:27
7 II. Gloria: Quoniam Tu Solus Sanctus 4:18
8 II. Gloria: Jesu Christe 0:46
9 II. Gloria: Cum Sancto Spiritu 4:09
10 III. Credo: Credo In Unum Deum 3:59
11 III. Credo: Et Incarnatus Est 8:25
12 IV. Sanctus: Sanctus 2:03
13 IV. Sanctus: Osana 2:16
14 V. Benedictus 6:30
Ilena Cotrubas
Kiri te Kanawa
Werner Krenn
Hans Sotin
John Aldis Choir
New Philharmonia Orchestra
Raymond Leppard
Como eu já falei aqui e aqui, para os meus ouvidos o som mais intimista dos instrumentos de época combina com o espírito romântico de Schubert… esse tipo de romantismo contido, sem exageros nem de alegria nem de melancolia.
Neste álbum gravado nos Países Baixos em 2018, os intérpretes escolheram gravar alguns dos pequenos ciclos de canções publicados por Schubert, por isso mesmo com números de Opus (enquanto os números “D” foram atribuídos depois por pesquisadores). São muito comuns as gravações de canções avulsas, e não há nada de errado nisso, pois no século XIX também era comum cantarem obras avulsas e não necessariamente o ciclo inteiro. Mas aqui Markus e Zvi buscaram apresentar os ciclos na ordem que foi decidida por Schubert em conjunto com os editores de suas partituras. O encarte do álbum explica:
That these have remained for a long time totally unknown can be explained by the decisions and choices made by nineteenth-century music publishers. In the Old Schubert Edition, publication of the Lieder was based on their chronological order, whilst in the complete Peters edition the order was determined by the popularity of the works. The smaller song cycles arranged by Schubert himself were thus broken up completely. Only in the Neue Schubert-Ausgabe, edited by Walther Dürr, were the songs published according to the opus numbers.
The view held by Markus Schäfer and Zvi Meniker about these cycles is that “they were not planned on purpose, like Die schöne Müllerin or Winterreise, but were mostly songs that he wrote at different times and then found connections between them. He always composed according to his mood, without planning in advance. Not like Mozart, who worked on commission or with the prospect of a performance, or like Beethoven with an eye on publishing, but simply by inspiration. Schubert got the spark, and then he wrote. Therefore, every song, no matter how short, is a gem. Hence the many unpublished songs; and he often grouped the songs together quite a long time after their composition, just for publication. There is a clear development in each cycle, each one has a direction, a beginning and an end. Each cycle has a theme, even if it’s a bit hidden sometimes.” That said, there are a number of opera which were conceived as cycles from the outset, for example the Drei Gesänge des Harfners (Op. 12), with texts drawn from Goethe’s novel Wilhelm Meisters Lehrjahre. This is also the case of the Refrainlieder (Op. 95), which were probably composed in June 1828 and were published on August 13 in the same year.
A good number of these smaller song cycles were developed by Schubert around a particular subject. For example, the Op. 5 set consists of five songs to poems by Goethe whose central theme is love. Whilst this opus was put together in 1821 for the publishers Cappi and Diabelli, the Lieder which make it up were composed in 1815 and 1816.
Franz Schubert (1797-1828):
1-5. Fünf Lieder op. 5 (1821), sobre poemas de Johann Wolfgang von Goethe
6-8. Drei Lieder op. 12 (1822), Drei Gesänge des Harfners aus “Wilhelm Meister”, sobre poemas de Johann Wolfgang von Goethe
9-12. Vier Lieder op. 59 (1826), sobre poemas de August von Platen e Friedrich Rückert
13-15. Drei Lieder op. 65 (1826), sobre poemas de Johann Mayrhofer e Friedrich von Schlegel
16-18. Drei Lieder op. 80 (1827), sobre poemas de Johann Gabriel Seidl
19-22. Vier Refrain-Lieder op. 95 (1828), sobre poemas de Johann Gabriel Seidl
MARKUS SCHÄFER tenor
ZVI MENIKER fortepiano after Conrad Graf, Vienna 1819, by Paul McNulty, Divisov 2012
Uma obra prima haydniana nas mãos de Trevor Pinnock e seu English Concert & Choir. Esplêndida versão, com corais magníficos, para se ajoelhar e ficar em adoração, mesmo sendo ateu. Meu irmão PQP já se declarou fã ardoroso destas missas, então irei postar uma série delas, para seu deleite. Para uma análise mais apurada da obra, sugiro este link.
Franz-Joseph Haydn (1732-1809) -Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor, Te Deum In C Major – Hob.Xxiiic:2
1. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Kyrie
2. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Gloria: Gloria In Excelsis Deo
3. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Gloria: Qui Tollis
4. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Gloria: Quoniam
5. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Credo: Credo In Unum Deum
6. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Credo: Et Incarnatus Est
7. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Credo: Et Resurrexit
8. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Sanctus
9. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Benedictus
10. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Agnus Dei: Agnus Dei Qui Tollis
11. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Agnus Dei: Dona Nobis Pacem
12. Te Deum In C Major – Hob.Xxiiic:2 – “Te Deum Laudamus” Allegro
13. Te Deum In C Major – Hob.Xxiiic:2 – “Te Ergo Quaesumus” Adagio
14. Te Deum In C Major – Hob.Xxiiic:2 – “Aeterna Fac Cum Sanctis Tuis -…Allegro Moderato “Aet
Felicity Lott · Carolyn Watkinson Maldwyn Davies David Wilson-Johnson The English Concert and Choir Trevor Pinnock
E não é que os dois letões se entendem? Sem medo de serem invadidos pela Rússia, Skride e Nelsons fazem um Shostakovich absolutamente entusiasmante! Sem exageros ou firulas desnecessárias, a dupla mostra-se perfeita junto à ótima BSO. Em uma demonstração de virtuosismo e musicalidade, os dois letões se unem para uma performance eletrizante do Primeiro Concerto para Violino de Shostakovich. Ambos os concertos são executados com ousadia e podemos imaginar um Nelsons curvado pulando e dançando no pódio enquanto a solista e a orquestra unificados seguem suas deixas. A química entre é inegável. A orquestra e o solista funcionam como uma unidade coesa, sem que um sobrepuje o outro. Skride foi capaz de trazer esplendidamente a Passacaglia para o grandioso final de Shostakovich. O final da peça — diabolicamente sincopado e rápido — torna esta peça especialmente difícil de executar. Mais uma vez, Skride e Nelsons lidaram com este desafio sem esforço. No final da peça, eu já estava na ponta da cadeira implorando que a coisa jamais terminasse. Quanto ao Segundo Concerto, nunca gostei muito dele.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concertos para Violino Nº 1 e 2 (Skride, Nelsons)
Violin Concerto No.1 in A minor, Op.99 (formerly Op.77)
01 I. Nocturne. Moderato 14:46
02 II. Scherzo. Allegro 06:59
03 III. Passacaglia. Andante 16:04
04 IV. Burlesque. Allegro con brio – Presto 05:19
Violin Concerto No.2 Op.129
05 I. Moderato 15:54
06 II. Adagio 12:16
07 III. Adagio – Allegro 09:33
Baiba Skride
Boston Symphony Orchestra
Andris Nelsons
Friedrich Gulda disse numa entrevista que queria morrer no dia do aniversário de seu compositor predileto, Mozart. Conseguiu o feito; e aparentemente sem provocá-lo! Morreu em 27 de janeiro de 2000. Mas este não é o maior milagre de Gulda. O pianista não era nada ortodoxo e demonstrava um enorme desprezo pelas autoridades da Academia de Viena e outras. Uma vez foi-lhe oferecido o prêmio “Beethoven Ring”, pelas suas interpretações do compositor, mas o prêmio foi recusado por Gulda. Além disso, ele gravou um disco de jazz com Chick Corea, escreveu um Prelúdio e Fuga em ritmo de jazz que foi interpretado por Emerson, Lake & Palmer, compôs Variações sobre Light My Fire, de The Doors. Também gravou standards do jazz no álbum As You Like It.
Mas nem só de estrepolias é feito o austríaco. Ele foi profe de Martha Argerich e Claudio Abbado e é com seu pupilo que realizou estas gravações seminais dos maiores concertos de Mozart. Eu concordo com a escolha. Quem não gostar dela que reclame nos comentários. Será inútil mas pode ser divertido. Talvez eu me irrite se começarem a citar concertos mais jovens. Aliás, já estou ficando meio puto. Vão se fuder.
W. A. Mozart (1756-1791): Os Maiores Concertos para Piano (mesmo?) (Gulda, Abbado, VP)
1. Concerto No.20 In D Minor, K 466 / Allegro
2. Concerto No.20 In D Minor, K 466 / Romance
3. Concerto No.20 In D Minor, K 466 / Rondo
4. Concerto No.21 In C Major, K.467 / Allegro
5. Concerto No.21 In C Major, K.467 / Andante
6. Concerto No.21 In C Major, K.467 / Allegro Vivace
7. Concerto No.25 In C Flat Major, K.503 / Allegro Maestoso
8. Concerto No.25 In C Flat Major, K.503 / Andante
9. Concerto No.25 In C Flat Major, K.503 / Allegretto
10. Concerto No.27 In B Flat Major, K.595 / Allegro
11. Concerto No.27 In B Flat Major, K.595 / Larghetto
12. Concerto No.27 In B Flat Major, K.595 / Allegro
Friedrich Gulda, Piano
Vienna Philharmonic Orchestra
Claudio Abbado, Conductor
Beyond the Limits (Além dos Limites) é o título deste álbum e qualquer um que imagine CPE Bach como um trabalhador diligente na corte de Frederico, o Grande, vai levar um susto quando descobrir estas suas Sinfonias (de Hamburgo) para cordas. Este é o CPE desimpedido, seguindo o exemplo de seu igualmente inventivo padrinho Telemann. As seis sinfonias, encomendadas em 1773 pelo infatigável Gottfried van Swieten (o da Criação de Haydn) são mini-obras-primas extravagantemente originais, perfeitamente calculadas para emocionar um patrono que era simultaneamente especialista e entusiasta. Há muito de alegria nessas performances de instrumentos de época por Gli Incogniti sob sua diretora-fundadora Amandine Beyer. Os andamentos são rápidos, às vezes sensacionais, e Beyer aproveita ao máximo os contrastes dinâmicos de CPE. O conjunto é ressonante e encorpado – soando como se fosse maior do que os 14 músicos listados – e não há escassez de virtuosismo. Van Swieten supostamente instruiu Bach a escrever desconsiderando as dificuldades que os músicos possam enfrentar e o Gli Incogniti justifica essa confiança – mesmo que o contínuo do cravo seja às vezes quase inaudível sob os tuttis torrenciais e agressivos do grupo. Os movimentos lentos são bem feitos e poéticos. Beyer vai além das seis sinfonias de van Swieten para incluir uma obra anterior, o Wq177. Esta nova gravação de Amandine Beyer pode muito bem se tornar minha favorita deste repertório, embora eu ainda tenha em alta estima pela leitura de Pinnock. Beyer é conhecida por sua execução enérgica, e esta música se encaixa nela como uma luva. Os contrastes de tempo são perfeitamente realizados, e os músicos não têm medo de explorar ao máximo. O que é especialmente importante é que uma versão que faz justiça à imprevisibilidade dessas sinfonias, e aqui Beyer e seus colegas têm sucesso com louvor.
Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788): Beyond The Limits: Complete String Symphonies (Gli Incogniti, Amandine Beyer)
Symphony No. 1 In G Major H.657
1 I. Allegro Di Molto 3:14
2 II. Poco Adagio 3:16
3 III. Presto 3:43
Symphony No.6 In E Major H.662
4 I. Allegro Di Molto 2:08
5 II. Poco Andante 2:50
6 III. Allegro Spirituoso 3:36
Symphony No.5 In B Minor H.661
7 I. Allegretto 3:55
8 II. Larghetto 2:28
9 III. Presto 3:32
Symphony No.4 In A Major H.660
10 I. Allegro Ma Non Troppo 4:14
11 II. Largo Ed Innocentemente 3:07
12 III. Allegro Assai 4:07
Symphony No.3 In C Major H.659
13 I. Allegro Assai 2:23
14 II. Adagio 2:45
15 III. Allegretto 4:53
Sinfonia Wq. 177 (H652)
16 I. Allegro Assai 3:49
17 Ii. Andante Moderato 3:06
18 III. Allegro 3:24
Symphony No.2 In Bb Major H.658
19 I. Allegro Di Molto 3:07
20 II. Poco Adagio 2:56
21 III. Presto 4:29
Conductor – Amandine Beyer
Ensemble – Gli Incogniti