Postagem originalmente realizada em 2016, algumas semanas antes do falecimento do meu sogro, então a situação estava bem complicada em casa. Minha esposa tinha de se desdobrar entre cuidar do pai e ir trabalhar. Estou atualizando os links por se tratar de Georges Szell regendo Beethoven, creio que este seja um bom motivo, não acham?
Hoje eu acordei ansiando por Beethoven. E meio que me veio às mãos este CD de George Szell, mas nada é por acaso. Ainda mais quando se trata da Quinta Sinfonia. Claro que corri para colocar o CD para tocar, e nos primeiros acordes da própria Quinta Sinfonia pensei comigo mesmo: era isso mesmo que eu queria ouvir nesta manhã de feriado cristão, o Corpus Christi.
Enquanto esteve frente a Sinfônica de Cleveland, George Szell era constatemente convidado para reger as mais diversas orquestras. E neste Cd temos o grande maestro húngaro à frente de duas das principais destas orquestras européias: a do Concertgebow de Amsterdam e a Filarmônica de Viena.
Aliás, temos neste CD uma obra que poucas vezes apareceu por aqui na sua íntegra, na verdade creio que nunca a trouxemos: a música que Beethoven fez para a peça de Goethe, Egmont.
Como não poderia deixar de ser, temos dois grandes registros fonográficos, realizados nos últimos anos de vida do maestro, nos anos 60.
Para se ouvir à exaustão., afinal de contas é Beethoven, ora bolas !!!
1- Beethoven Symphony No.5 in C minor, Op.67 – I. Allegro con brio
2 – Symphony No.5 in C minor, Op.67 – II. Andante con moto
3 – Beethoven Symphony No.5 in C minor, Op.67 – III. Allegro
4 – Beethoven Symphony No.5 in C minor, Op.67 – IV. Allegro
Concertgebouw Orchestra, Amsterdam
George Szell – Conductor
5 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – I. Overture
6 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – II. Lied. Vivace ‘Die Trommel geruhret’
7 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – III. Zwischenakt I. Andante
8 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – IV. Zwischenakt II. Larghetto
9 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – V. Lied. Andante con moto ‘Freudvoll und leidvoll’
10 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – VI. Zwischenakt III. Allegro – Marcia
11 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – VII. Zwischenakt IV. Poco sostenuto e risoluto
12 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – VIII. Clarchens Tod. Larghetto
13 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – IX. Melodrama. Poco sostenuto
14 – Beethoven Incidental Music to Egmont, Op.84 – X. Siegessymphonie. Allegro con brio
Pilar Lorengar – Soprano
Klaus-Jürgen Wussow – Narrator
Wiener Philharmoniker
Nascido na França e filho de pais suíços, Arthur Honegger estudou no Conservatório de Zurich (1910-11), imerso na tradição alemã do contraponto e na música mais moderna de Wagner, R. Strauss e Reger. Após se mudar para Paris (onde foi aluno de Widor e seguiu estudando contraponto), ele escreveria em 1915 em uma carta para seus pais: minhas simpatias pela nova música francesa crescem a cada dia. Conheci e apreciei Reger e Strauss na Suíça, e continuo a gostar deles, mas percebi que compositores como Debussy, Dukas, d’Indy, Florent Schmitt e outros são mais novos e mais originais, e sobretudo têm mais sentimentos do que os alemães modernos.
A influência de Debussy e de Fauré é evidente na linguagem harmônica de Honegger, mas sua música costuma ter muito mais passagens em contraponto e imitação do que a da maioria dos franceses, provavelente por influência de Beethoven e Bach. Em 1925, Honegger escreveu: Pode-se facilmente encontrar Bach na origem de todas as minhas obras.
Entre essas obras, se destacam os três Movimentos Sinfônicos da década de 1920, incluindo Pacific 231, que imita o movimento de um trem (obra que estreou no Rio de Janeiro ainda em 1929 e que Villa-Lobos certamente ouviu, no Rio ou em Paris, antes de compor o seu Trenzinho do Caipira das Bachanias nº 2, de 1930-34). Nos anos 1930, não conseguindo emplacar muitos sucessos nas salas de concerto, Honegger compôs música incidental para rádio, música de cabaré, música de partido de esquerda e 24 trilhas sonoras de filmes. Finalmente em 1938 ele voltou a fazer sucesso como compositor sério, com a estreia do oratório Joana d’Arc na fogueira, a partir do libreto do poeta Paul Claudel. No fim da década de 30 e sobretudo na de 40, Honegger compôs suas Sinfonias nº 2, 3, consideradas por muitos como suas obras-primas. Na 3ª e na 4ª, para orquestra sinfônica, passagens em contraponto alternam com uma orquestração que às vezes soa como música de filme, e lembra nesse sentido Shostakovich, por usar alguns efeitos orquestrais simples, às vezes apelando para clichês, mas com efeitos que sempre chamam a atenção e fazem as passagens atonais soarem palatáveis. Honegger, como Shostakovich, mistura a tradição com a inovação (aliás, além de ambos terem composto música de filme, ambos se destacam como compositores de sinfonias, forma musical que revolucionários como Debussy, Schoenberg e Boulez julgavam antiquada). Mais uma citação de Honegger: “Minha inclinação e meu esforço sempre foram no sentido de escrever música que fosse compreensível para o grande público e ao mesmo tempo suficientemente livre de banalidade para interessar aos genuínos amantes da música… Quis impressionar a esses dois públicos: os especialistas e a multidão.” (Citado por Keith Waters)
Na 2ª Sinfonia, para cordas com uma pequena participação de um trompete, a orquestração com menos instrumentos faz com que o desenvolvimento temático apareça de forma mais explícita, como também é o caso da Música para cordas, percussão e celesta de Bartók. Ambas as obras, assim como a 4ª de Honegger, foram encomendadas e estreadas pelo bilionário Paul Sacher e sua orquestra de câmara da Basileia (Basler Kammerorchester). Vamos nos concentrar aqui em algumas grandes gravações das sinfonias nº 2 e 3.
Para a 2ª Sinfonia, composta durante a 2ª Guerra, veremos logo abaixo que as interpretações se dividem em dois grupos: as que enfatizam a tensão e nervosismo e as que soam menos nervosas e mais pendendo para o luto e a reflexão. Em todo caso, embora seja famosa como uma das “sinfonias de guerra” do repertório do século XX, não é uma obra programática: o autor afirmou que, se a sinfonia gera certas emoções, é simplesmente porque essas emoções estavam presentes naquele momento histórico. O fim da sinfonia é mais alegre e um tanto wagneriano, mas não daremos spoilers para quem ainda não conhece…
Na 3ª, composta poucos meses após o fim da 2ª Guerra e estreada por Charles Munch em 1946, já há um programa mais explícito: o autor deu a cada movimento um subtítulo em latim proveniente da liturgia cristã, daí o nome “Sinfonia Litúrgica”, embora não haja outra conotação especialmente religiosa ou melodias cristãs emprestadas. O 1º movimento é um allegro (Dies iræ), o 2º um adagio (De profundis) e o 3º um andante (Dona nobis pacem), que se abre com uma espécie de Marcha Fúnebre, especialidade dos franceses desde a Symphonie fantastique de Berlioz e a 2ª Sonata de Chopin. Sobre essa marcha, Honneger escreveu que queria retratar “justamente a ascensão da estupidez coletiva… A vingança da besta contra o espírito…” Lembrando que se tratava de um pós-guerra no qual a estupidez tinha realmente atingido níveis supremos. Mas, assim como na 2ª sinfonia, também aqui o final é alegre, só que em vez do clímax wagneriano da sinfonia anterior, aqui temos um clima bucólico que lembra Debussy: as nuvens pesadas vão embora e os pássaros cantam de forma nada mecânica. Vamos às comparações:
Ansermet e o Honegger intelectual
Espero que vocês tenham gostado das homenagens aos 160 anos de Debussy. Para mim, foi a oportunidade de ouvir novamente alguns grandes intérpretes de Debussy, como Toscanini, Martinon, e alguns nomes menos óbvios como Svetlanov, Baudo e Hewitt. Hoje seguimos com outro grande mensageiro da música de Debussy, Ernest Alexandre Ansermet (1883-1969), que esteve aqui no blog há algumas semanas na (re)postagem de FDP Bach.
Ansermet também foi um grande intérprete de Stravinsky e Honegger, estreando obras dos dois e tendo em comum com este último o fato de ter passado a vida entre a França e a Suíça. Nesse disco com as duas “sinfonias de guerra” além da 4ª sinfonia, Ansermet e seus músicos suíços parecem enfatizar menos as emoções das “sinfonias de guerra” e mais a genialidade de Honneger em seus desenvolvimentos de temas, contrapontos e orquestração cuidadosa. Com uma gravação de alta qualidade, podemos ouvir com clareza alguns detalhes sutis, por exemplo os baixos no início do 2º mov. da 2ª sinfonia ou o solo de cello no momento mais calmo do 3º mov. da 3ª sinfonia (p.ex. aos 8m20s). São interpretações calmas, intelectuais, podemos até lembrar que os mais velhos entre aqueles músicos suíços devem ter passado a 2ª Guerra em segurança naquele país neutro, sem o nervosismo que vivia, por exemplo, o francês Charles Munch como veremos logo abaixo.
Arthur Honegger (1892-1955):
1-3. Symphony no.2 For Trumpet And Strings: I. Molto moderato – allegro; II. Adagio mesto; III. Vivace, non troppo
4-6. Symphony no.3, “Liturgique”: I. “Dies Irae” Allegro marcato; II. “De Profundis Clamavi” Adagio; III. “Dona Nobis Pacem” Andante
7-9. Symphony no.4, “Deliciæ Basilienses”: I. Lento e misterioso – Allegro; II. Larghetto; III. Allegro
Orchestre de la Suisse Romande
Ernest Ansermet
Recorded at Victoria Hall, Geneva: 1961 (Symphony No. 2), 1968 (Symphonies No. 3-4)
Provavelmente esse é o disco com mais notas levemente desafinadas ou pizicatti desencontrados postado neste blog nos últimos meses. Mas nesses tempos em que cantores da moda exageram no autotune e tudo tem que soar perfeitinho, é importante conhecermos algumas gravações ao vivo como essas feitas por Charles Munch (1891-1968) em turnê pela Europa (França, Suíça, Espanha e Finlândia) em 1962 e 64. Os eventuais desencontros entre as cordas são compensados pela tensão fortíssima da orquestra tocando em andamentos bem mais rápidos do que os de Ansermet. Mais rápidos também do que a Orchestre de Paris na gravação posterior da 2ª Sinfonia que Munch faria no seu último ano de vida. Aqui nessa apresentação ao vivo em 1964, a Orchestre National de France corre em todos os movimentos e sobretudo no último, com um Presto final loucamente acelerado que dura apenas 4m51s (a faixa é mais longa por causa dos aplausos). É um tipo de tensão que também combina com uma sinfonia conhecida como “de guerra”, e lembremos ainda que Charles Munch regeu a segunda apresentação dessa sinfonia em 1942 em Paris ainda sob ocupação nazista. E nessas gravações ao vivo temos uma amostra daquele tipo de nervosismo: a sensação de que o campo é minado, com um passo em falso, tudo pode dar errado, a orquestra corre muitos riscos e viver é desenhar sem borracha (frase do Millôr Fernandes).
Em 1969, Karajan/Berlin P.O. fariam um último movimento igualmente acelerado, mas algumas gravações seguintes – Plasson/O.C. Toulouse (1979), Rozhdestvensky/USSR M.C.S.O. (1986) e Leducq-Barôme/Baltic C.O. (2018) – seriam um pouco mais lentas e bem comportadas, menos incisivas.
Arthur Honegger (1892-1955):
1. Le Chant de Nigamon
2. Pastorale d’été
3-5. Symphony no.2 For Trumpet And Strings: I. Molto moderato – allegro; II. Adagio mesto; III. Vivace, non troppo
6-8. Symphony no.5: I. Grave; II. Allegretto; III. Allegro marcato
Orchestre National de France
Charles Munch
Recorded live: Paris, 1962 (Chant), Basel, 1962 (Pastorale d’été), San Sebastian, 1964 (Symphony no. 2), Helsinki, 1964 (Symphony no. 5)
Jean Fournet e a lenta marcha da estupidez coletiva
Jean Fournet (1913-2008) foi um regente francês mais associado a ópera, mas que também regeu muita música instrumental de seus contemporâneos como Messiaen, de Falla e Ibert. Sua única gravação de Honegger foi esta, aos 80 anos – ao contrário de Ansermet e Munch, íntimos do compositor e dessas obras desde a estreia – mas ele mostra uma boa familiaridade com Honegger e o disco é talvez a melhor introdução para quem não conhece o compositor, por trazer obras de diferentes períodos, como a Pastorale d’été (1920), obra com climas debussystas, feita por um jovem em busca de sua voz, e Pacific 231 (1923), primeiro grande sucesso de Honegger e já com suas características típicas. Como descreveu o compositor: “A obra inicia com uma contemplação subjetiva, o respirar quieto de uma máquina em descanso, [a seguir] seu esforço para começar, a velocidade que aumenta gradativamente […] Musicalmente, eu compus uma espécie de um grande e diversificado coral, repleto de contraponto à maneira de J. S. Bach”
E na 3ª Sinfonia, Jean Fournet e seus músicos holandeses fazem a marcha do 3º movimento de forma muito lenta, grandiosa, uma marcha da estupidez coletiva com toda a pompa e sem perder nenhum detalhe. E o primeiro flautista brilha no final, com um som fluido, irregular, em tudo o oposto da marcha que tinha a precisão de uma máquina.
Arthur Honegger (1892-1955):
1. Rugby, mouvement symphonique
2. Pacific 231, mouvement symphonique
3. Concerto da Camera
4. Pastorale d’eté
5. Symphonie no. 3, “Liturgique” (I. “Dies Irae” 0:00-7:02; II. “De Profundis” 7:03-21:19; III. “Dona Nobis Pacem” 21:20-35:15)
Netherlands Radio Philharmonic Orchestra
Jean Fournet
Recorded: 1993
Mariss Jansons (1943-2019), quando jovem, foi assistente grande maestro soviético Y. Mravinsky, e parece ter herdado dele as chaves interpretativas de uma 3ª sinfonia de Honegger extremamente emotiva, também soando como uma sinfonia “de guerra”, mas sob o ponto de vista do front oriental. A marcha do 3º movimento é rápida como a de Mravinsky (em Moscou, 1965, infelizmente com qualidade de som não tão boa), e com um clima de grande tensão, colocando os ouvintes em uma atmosfera de quem perdeu amigos e parentes por causa da estupidez coletiva que Honegger mencionou no programa da sinfonia. Ao mesmo tempo, as cordas do Concertgebouw brilham no 2º movimento, como era de se esperar. O disco tem como complemento o Gloria composto por Poulenc em 1959-1961, já bem depois da guerra. Poulenc, como Honegger, fez parte do chamado “grupo dos seis” na Paris do entreguerras, embora Honegger tivesse como principal amigo no mesmo grupo o compositor Darius Milhaud.
Nesta gravação ao vivo temos uma mistura eclética de tradições: um regente de origem judaica, formado na escola soviética, com uma orquestra holandesa fazendo a sinfonia “litúrgica” de Honegger (de família protestante) junto com a liturgia católica repensada por Poulenc. O clima geral mistura por um lado o nervosismo “in tempore belli” (para lembrarmos a grandiosa missa de Haydn) e por outro lado a busca perfeccionista pelos timbres raros e detalhes como os momentos em que o piano se sobressai na orquestração: os músicos nos envolvem na encruzilhada entre a tensão interior e o brilho exterior. A encruzilhada, símbolo da ambivalência e da imprevisibilidade, traz possibilidades de vida brotando nas frestas da estupidez coletiva.
Francis Poulenc (1899-1963):
1-6. Gloria: I. Gloria in excelsis Deo – II. Laudamus te – III. Domine Deus, Rex coelestis – IV. Domine Fili, Domine Deus – V. Domine Deus, Agnus Dei – VI. Qui sedes ad dexteram Patris Arthur Honegger (1892-1955):
7-9. Symphonie no. 3, “Liturgique”: I. “Dies Irae” Allegro marcato – II. “De Profundis” Adagio – III. “Dona Nobis Pacem” Andante)
Royal Concertgebouw Orchestra, Amsterdam
Mariss Jansons
Luba Orgonasova, soprano; Netherlands Radio Choir
Recorded live: Amsterdam, 2004 (Honegger), 2005 (Poulenc)
* Certamente, o maestro Laurence Siegel é fictício, assim como a Orquestra da Rádio da bela cidade de Liubliana só existe em gravações. Mas onde quer que o produtor e ladrão Alfred Scholz tenha comprado esta gravação, ela é boa.
Rimsky-Korsakov é um genial orquestrador que influenciou compositores como Ravel e Stravinsky. Sobre Sherazade, ele evitou descrições literais: “São meras sugestões para despertar a imaginação do ouvinte”. Já Borodin teve uma carreira dupla bastante incomum: foi químico e compositor de destaque, mas também tinha ligações com o ambiente militar devido à sua formação. Ele era filho ilegítimo de um príncipe georgiano e foi registrado como “filho de um servo” para evitar escândalos. Isso o impediu de ter acesso a educação tradicional, mas ingressou na Academia Médico-Cirúrgica, que tinha vínculos com o Ministério da Guerra russo. Formou-se em medicina e química, e sua tese foi sobre compostos de arsênio.
Rimsky-Korsakov / Borodin: Sherazade / Danças Polovetsianas (Orq. da Rádio de Liubliana *, Siegel *)
Rimsky-Korsakov: Shéhérazade, Suite Symphonique , Op. 35
La Mer Et Le Bâteau De Sinbad Le Marin (Largo E Maestoso) 10:03
L’Histoire Du Prince Kalender (Lento – Adagio) 12:11
Le Jeune Prince Et La Jeune Princesse (Andotino Quasi Allegretto) 10:10
La Fête A Bagdad – la Mer – Le Bâteau… Finale (Allegro Molto) 13:13
Borodin: Danse Polovtsienne N°1 (Extrait Du ‘Prince Igor’) 2:17 Danse Polovtsienne N°2 (Extrait Du ‘Prince Igor’) 11:29
A Sinfonia do Órgão (ou Sinfonia Nº 3, Op. 78) é uma famosa obra do compositor francês Camille Saint-Saëns, escrita em 1886. Ela é conhecida por sua grandiosidade e pelo uso inovador do órgão em uma sinfonia orquestral. Apesar de ser chamada de “Sinfonia Nº 3”, ela é na verdade a quinta e última sinfonia de Saint-Saëns, mas foi numerada como a terceira porque ele considerou apenas três de suas sinfonias dignas de publicação. Ela foi estreada em Londres também em 1886. Saint-Saëns dedicou a obra à memória de Franz Liszt, seu amigo e grande influência. Claro, o uso do órgão não era comum em sinfonias, e essa inovação ajudou a consolidar a reputação da obra, que é grandiosa. Por falar em órgão e em grandeza, a Bacchanale é uma peça explosiva, sensual e exótica, que aparece como um interlúdio orquestral no ato final da ópera Samson et Dalila (1877). É o trecho mais popular da ópera — e com razão: ela incendeia a orquestra, mistura timbres orientais com ritmos dançantes e cria um clima de êxtase coletivo que faz jus ao título: uma celebração dionisíaca descontrolada. A Dança Macabra (Danse Macabre, Op. 40) é outra das obras mais famosas de Saint-Saëns. Composta em 1874, é um poema sinfônico que retrata uma cena sobrenatural em que esqueletos dançam numa noite. A coisa toda é baseada em um poema de Henri Cazalis, que descreve a Morte (representada por um violino solo) tocando à meia-noite, chamando os mortos para dançar até o amanhecer. Quando o galo canta, os esqueletos retornam aos seus túmulos. Normal.
Conductor – Daniel Barenboim
Orchestra – Chicago Symphony Orchestra (tracks: 1 to 3), Orchestre De Paris (tracks: 4 to 6)
Organ – Gaston Litaize (tracks: 1 to 3)
Violin – Alain Moglia (tracks: 5), Luben Yordanoff (tracks: 6)
Ouvi 5 vezes este CD. Em todas as vezes, gostei do Concerto de Glazunov. E o de Dvořák passou em branco. Apenas não o percebi. Notava apenas que a música (ou o CD) acabava. Sim, tenho problemas com alguns compositores românticos. O Concerto do russo Glazunov traz a orquestra polonesa tocando com frescor e precisão. A grande melodia da segunda seção é rica e calorosa, sem nenhum toque de sentimentalismo, e os ritmos galopantes do final são contagiantes ao serem interpretados em uma velocidade bem calculada, repleta de diversão. Alexander Glazunov (1865–1936) foi professor de Dmitri Shostakovich (1906–1975) no Conservatório de Leningrado (atual Conservatório de São Petersburgo). Essa relação teve um impacto significativo na formação de Shostakovich, embora fosse marcada por contrastes geracionais e estéticos. Glazunov apoiou a entrada de Shostakovich — mesmo estando ele abaixo da idade mínima requerida para o ingresso — no conservatório e reconheceu sua genialidade, mas tinha reservas em relação à linguagem modernista que o jovem começava a explorar.
Glazunov / Dvořák: Concertos para Violino (Kaler, Polish National Radio Symph Orch, Kolchinsky)
1 Glazunov: Violin Concerto In A Minor, Op. 82: Moderato – Andante Sostenuto – Allegro 20:11
Dvořák: Violin Concerto In A Minor, Op. 53
2 Allegro Ma Non Troppo 10:32
3 Adagio Ma Non Troppo 10:10
4 Allegro Giocoso, Ma Non Troppo 9:07
5 Dvořák: Romance For Violin And Orchestra In F Minor, Op. 11 12:46
Conductor(s): Kolchinsky, Camilla
Orchestra(s): Polish National Radio Symphony Orchestra
Artist(s): Kaler, Ilya
Sim, esse disco tem que ir para o pódio. A Sonata para Piano, a Sonatina e principalmente a Sonata para Dois Pianos e Percussão são peças que não podem ser deixadas de lado. E a interpretação a cargo ou chefiada por Tiberghien, se tornará certamente referência. A Sonata para Dois Pianos e Percussão recebeu, desde a estreia, em 1938, críticas entusiasmadas. Bartók e sua esposa também tocaram as partes do piano para a estreia americana que aconteceu em Nova York em 1940. Desde então, tornou-se uma das obras mais reverenciadas de Bartók. A partitura requer quatro artistas: dois pianistas e dois percussionistas, os quais que tocam sete instrumentos. Bartók deu instruções altamente detalhadas para os percussionistas, estipulando, por exemplo, qual parte de um prato suspenso deve ser atingido por que determinado tipo de baqueta. Deve ter dado certo pois… Que música, meus senhores!
PS: Links reativados para toda essa coleção de Bartók por Tiberghien. Os outros discos estão aqui e aqui.
Piano Sonata Sz80[14’12]
1 Allegro moderato[4’53]
2 Sostenuto e pesante[5’30]
3 Allegro molto[3’49]
Three Hungarian Folksongs from the Csík District Sz35a[3’47]
4 Rubato[1’42]
5 L’istesso tempo[1’14]
6 Poco vivo[0’51]
Sonatina Sz55[4’24]
7 Movement 1, Bagpipers: Molto moderato[1’37]
8 Movement 2, Bear Dance: Moderato[0’42]
9 Movement 3, Finale: Allegro vivace[2’05]
Three Rondos on Slovak folk tunes Sz84[9’09]
10 Andante – Allegro molto[3’03]
11 Vivacissimo[2’55]
12 Allegro molto[3’11]
Études Sz72 Op 18[8’40]
13 Allegro molto[2’29]
14 Andante sostenuto[3’41]
15 Rubato[2’30]
Sonata for two pianos and percussion Sz110[25’24] with François-Frédéric Guy (piano), Colin Currie (percussion), Sam Walton (percussion)
16 Assai lento – Allegro molto[12’32]
17 Lento, ma non troppo[6’23]
18 Allegro non troppo[6’29]
Beatrice Rana completou 24 anos neste ano da graça de 2017. Em seu segundo lançamento em CD, a jovem pianista italiana resolveu enfrentar um pináculo do repertório de teclado solo e o compositor que descreveu como seu “primeiro amor”, Johann Sebastian Bach. Sua interpretação é muito boa, sem chegar ao nível de gente como Gould, Hewitt, Hantaï e Leonhardt, é claro. O Le Monde adorou: “Beatrice Rana certamente não tem mais nada a provar quando se trata de técnica, mas o que impressiona é a sua maturidade e senso de arquitetura”, e a grande e querida Gramophone inglesa tascou que ela é “Uma artista totalmente desenvolvida, de uma estatura que desmente sua idade”. Bach foi o compositor que mais obcecou Beatrice Rana quando criança e, em uma entrevista recente, ela confessou que a obra de Bach seria a que escolheria se tivesse que dedicar sua vida a um único compositor. E citou especialmente as Variações Goldberg, como sua obra preferida.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Variações Goldberg
01. Goldberg Variations, BWV 988: Aria
02. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 1 à 1 clav
03. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 2 à 1 clav
04. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 3 Canone all Unisuono à 1 clav.
05. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 4 à 1 clav.
06. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 5 à 1 o vero 2 clav
07. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 6 Canone alla seconda à 1 clav.
08. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 7 à 1 o vero 2 clav.
09. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 8 à 2 clav.
10. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 9 Canone alla terza à 2 clav.
11. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 10 Fughetta à 1 clav.
12. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 11 à 2 clav.
13. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 12 Canone alla quarta
14. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 13 à 2 clav.
15. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 14 à 2 clav.
16. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 15 Canone alla Quinta à 1 clav.
17. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 16 à 1 clav. Ouvertura
18. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 17 à 2 clav.
19. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 18 Canone alla sexta à 1 clav.
20. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 19 à 1 clav.
21. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 20 à 2 clav.
22. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 21 canone alla settima à 1 clav.
23. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 22 à 1 clav. alla breve
24. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 23 à 2 clav.
25. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 24 Canone alla Ottava à 1 clav.
26. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 25 à 2 clav.
27. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 26 à 2 clav.
28. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 27 Canone alla Nona à 2 clav.
29. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 28 à 1 clav.
30. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 29 à 1 o vero 2 clav.
31. Goldberg Variations, BWV 988: Variatio 30 à 1 clav. Quodlibet
32. Goldberg Variations, BWV 988: Aria da capo e fine
O conjunto de câmara italiano “I Musici” tornou-se mundialmente famoso por suas interpretações do repertório barroco italiano. Suas versões de “As Quatro Estações” de Vivaldi são famosíssimas e muito vendidas. Um de seus principais solistas foi o espanhol Felix Ayo, mas diversos outros passaram por lá. Só que o tempo bateu forte nestas gravações. A verdade é que as interpretações historicamente informadas enterraram o passado recente. Independente disso, as interpretações do grupo são referência fonográfica, com certeza.
FDP Bach estará postando algumas gravações deles da obra de Vivaldi. Começamos por “La Stravaganza”, Trata-se de uma série de 12 concertos para violino e cordas, e catalogados sob o op. 4. Belíssima música, de fácil assimilação, que com certeza encantará a todos àqueles que ainda não a conhecem.. O solista, claro, é Felix Ayo.
Uma pequena observação: quando baixei esta coleção estranhei a forma em que foi “empacotada”: cada concerto é um arquivo. Mas isso não atrapalha em nada a beleza da música e a clareza da interpretação. Além disso, quem fez a conversão optou por seguir outra catalogação das obras de Vivaldi. Para quem se interessar, posso passar um site canadense que relaciona as devidas obras com as respectivas catalogações existentes. São 5 ou 6, não estou bem certo.
Mas vamos ao que interessa:
Antonio Vivaldi (1678-1741): 12 Concerti, Op. 4 “La Stravaganza” (Ayo, I Musici)
CD 1 (426 936-2)
Concerto No. 1 In B Flat, RV 383a
1-1 Allegro 3:07
1-2 Largo, e cantabile 3:10
1-3 Allegro 2:36
Concerto No. 2 In E Minor, RV 279
1-4 Allegro 4:16
1-5 Largo 3:02
1-6 Allegro 3:20
Concerto No. 3 In G, RV 301
1-7 Allegro 3:20
1-8 Largo 3:51
1-9 Allegro assai 2:00
Concerto No. 4 In A Minor, RV 357
1-10 Allegro 3:02
1-11 Grave 3:27
1-12 Allegro 2:52
Concerto No. 5 In A, RV 347
1-13 Allegro 3:42
1-14 Largo 3:14
1-15 Allegro 3:22
Concerto No. 6 In G, RV 316a
1-16 Allegro 2:33
1-17 Largo 3:24
1-18 Allegro 4:01
CD 2 (426 937-2)
Concerto No. 7 In C For 2 Violins and Cello Obbligato, RV 185
2-1 Largo 2:31
2-2 Allegro 2:13
2-3 Largo 2:06
2-4 Allegro 2:12
Concerto No. 8 In D Minor, RV 249
2-5 Allegro – Adagio – Presto 2:47
2-6 Adagio 1:32
2-7 Allegro 3:11
Concerto No. 9 In F, RV 284
2-8 Allegro 2:51
2-9 Largo 2:52
2-10 Allegro 2:39
Concerto No. 10 In C Minor, RV 196
2-11 Spiritoso 2:57
2-12 Adagio 3:06
2-13 Allegro 2:47
Concerto No. 11 In D, RV 204
2-14 Allegro 3:05
2-15 Largo 2:16
2-16 Allegro assai 1:53
Concerto No. 12 In G, RV 298
2-17 Spiritoso, e non presto 2:49
2-18 Largo 4:51
2-19 Allegro 3:42
Há tanta coisa que eu gostaria de compartilhar com os senhores mas infelizmente o tempo hábil para fazer postagens está cada vez mais reduzido, e para piorar a situação, nosso armazenador de arquivos está nos deixando nas mãos, mesmo que paguemos uma boa grana para mantê-los guardados. E para complicar um pouco mais, alguns HDs externos onde guardo meus arquivos também estão querendo me deixar na mão, e é muita coisa. Por exemplo, o HD de onde estou tirando essa belíssima série do Beaux Arts Trio está começando a me preocupar, só nele tenho quase 2 TB de música armazenada, nem sei dizer quantos mil cds tenho armazenados ali. Mas enfim, esse não é um problema dos senhores, apenas meu, e lamentarei muito se perder esse material, como bem podem imaginar.
Muito já falamos deste excepcional trio aqui no PQPBach, talvez o melhor conjunto de câmera nesta formação que já foi formado. Atravessou décadas e deixou uma discografia impecável. Nosso querido e precocemente falecido Antonio Menezes tocou com eles por algum tempo, e seu líder, o pianista já quase centenário Menahen Pressler continuava na ativa até pouco tempo atrás.
Esta série que estou trazendo foi lançada pelo selo Philips em 2003, e traz a produção do grupo gravada entre 1967 – 1974. Temos aqui obras de Schumann e Mendelssohn, até Shostakovich, passando também por Chopin e Smetana e Charles Ives. Romântico inveterado que sou, destaco os registros dos trios de Mendelssohn, obras primas da inventividade e sensibilidade humana. Ouçam o comovente Andante Con Moto Tranquillo do Trio nº1 op. 49 para entenderem o que falo.
Talvez o que mais me chame a atenção deste grupo de músicos tão especiais é sua coerência e coesão musicais. Eles sempre tocam como se fossem um só instrumento, tamanha a cumplicidade que sentimos em sua interpretação. Em nenhum momento podemos destacar este ou aquele instrumento, pois quase que soam como se fossem um só.
Trata-se de uma série de quatro cds, vou trazê-los em duas postagens para melhor poderem ser apreciados, ou melhor, degustados. Nestes dois primeiros, o foco é o romantismo, principalmente Mendelssohn e Schumann e encerrando com Chopin.
Com diria nosso querido Carlinus, uma boa apreciação.
Piano Trio No.1 In D Minor, Op.49
Composed By – Felix Mendelssohn-Bartholdy
1-1 1. Molto Allegro Ed Agitato
1-2 2. Andante Con Moto Tranquillo
1-3 3. Scherzo (Leggiero E Vivace)
1-4 4. Finale (Allegro Assai Appassionato)
Piano Trio No.2 In C Minor, Op.66
Composed By – Felix Mendelssohn-Bartholdy
1-5 1. Allegro Energico E Con Fuoco
1-6 2. Andante Espressivo
1-7 3. Scherzo (Molto Allegro Quasi Presto)
1-8 4. Finale (Allegro Appassionato)
Piano Trio No.3 In G Minor, Op.110
Composed By – Robert Schumann
1-9 1. Bewegt, Doch Nicht Zu Rasch
1-10 2. Ziemlich Langsam
1-11 3. Rasch
1-12 4. Kräftig, Mit Humor
Piano Trio No.1 In D Minor, Op.63
Composed By – Robert Schumann
2-1 1. Mit Energie Und Leidenschaft
2-2 2. Lebhaft, Doch Nicht Zu Rasch
2-3 3. Langsam, Mit Inniger Empfindung
2-4 4. Mit Feuer
Piano Trio No.2 In F, Op.80
Composed By – Robert Schumann
2-5 1. Sehr Lebhaft
2-6 2. Mit Innigem Ausdruck
2-7 3. In Mäßiger Bewegung
2-8 4. Nicht Zu Rasch
Piano Trio In G Minor, Op.17
Composed By – Clara Schumann
2-9 1. Allegro Moderato
2-10 2. Scherzo (Tempo Di Menuetto)
2-11 3. Andante
2-12 4. Allegretto
Beaux Arts Trio:
Menahem Pressler – Piano
Daniel Guillet – Violino (Faixas 1 a 8 do Cd 1)
Isidore Cohen – Violino
Bernard Greenhouse – Violoncelo
Nessas obras para voz e piano, Grieg pode ser colocado na companhia de Schubert, Schumann, Fauré e Debussy entre os autores de melodias íntimas. Leif Ove Andsnes executa com competência no piano os diferentes fraseados que são bem mais do que simplesmente acompanhamento.
Uma curiosidade sobre Grieg é sua relação com o brasileiro Alberto Nepomuceno (1864-1920), compositor que viveu alguns anos na Europa antes de voltar para o Brasil. Pois Nepomuceno se casou com a pianista norueguesa Walborg Bang, aluna de Edvard Grieg, o que levou o compositor brasileiro a frequentar por certo tempo a casa do norueguês, que o incentivou a dedicar-se às melodias e ritmos típicos do seu país, no caso, o Brasil.
Impressão minha ou o Grieg tinha um jeitão de comediante da turma do Chaves ou da Praça é Nossa?
Para uma outra bela gravação desse pianista em repertório romântico, confira aqui:
https://pqpbach.ars.blog.br/2015/09/18/robert-schumann-1810-1856-piano-quintet-in-e-flat-major-op-44-johannes-brahms-1833-1897-piano-quintet-in-f-minor-op-34/
Meu objetivo sempre é permitir que o violão cante. Muitas coisas na música começam com uma canção. O violão é um intermediário entre o público e eu, permitindo-me cantar e transmitir emoção.
O selo amarelo sempre teve um guitarrista ‘da casa’, um artista capaz de tocar o Concerto de Aranjuez e peças solo, como Recuerdos de Allambra, com galhardia e competência – e extremo bom gosto – há que se reconhecer. Isso sem contar a música barroca para cordas pinicadas, como a obra de Bach, Weiss e os concertos de Vivaldi.
Passaram pela casa nomes de peso como Andrés Segóvia e Narciso Yepes. Este último, talvez, tenha deixado o legado gravado mais extenso. Lembro-me de um LP no qual ele interpreta apenas músicas de Tarrega, com uma capa linda, uma paisagem com um castelo em ruínas com o sol lhe batendo direto gerando cores de tons ocres e alaranjados. Isso se você desse sorte com a impressão da capa. Outros nomes menos ibéricos também aparecem na galeria dourada, como Siegfried Behrend, que eu não conhecia e foi uma grata surpresa, e o mais recente, Göran Söllscher, bem conhecido.
Mas hoje a coluna aqui é da renovação e das novidades. Trazemos uma das novas contratações do selo amarelo nessa seara – o violinista Raphaël Feuillâtre, nascido em Djibouti, que fica no nordeste da Costa Africana. Ele cresceu em Cholet, na França. Apesar de que seus pais não fossem músicos, cedo reconheceram seu talento e ele começou com guitarras de brinquedo. Iniciou a estudar música em Cholet, depois Nantes e finalmente Paris, onde estudou no Conservatório entre 2015 e 2020. Ganhou diversos prêmios e já tem seu lugar garantido no circuito de grandes eventos.
O álbum da postagem é abrangente, tem figurinhas carimbadas como Recuerdos de Allambra e Concerto de Aranjuez (com a Verbier Festival Chamber Orchestra regida por Gábor Tackács-Nagy) e algumas outras peças menos conhecidas. Por exemplo, algumas canções folclóricas catalãs, de Miguel Llobet, que foi aluno de Tarrega e professor de Segóvia. Adorei uma das Danzas Españolas de Granadas, com violino e guitarra – adaptação de Feuillâtre, da primeira adaptação de Fritz Kreisler, para violino e piano… Enfim, um delicioso pacote de belezuras que ainda traz o Capricho Árabe, de Tarrega, e a Torre Bermeja, de Albeniz.
Esse é o segundo disco de Raphaël Feuillâtre para a Deutsche Grammophon, com música de Espanha, que eu adoro. O seu primeiro tem como repertório música barroca e é excelente. Em breve no seu distribuidor PQP Bach mais próximo, não perdes por esperar.
Isaac Albéniz (1860 – 1909)
Suite española No. 1, Op. 47
Asturias. Leyenda (Transc. Feuillâtre for Guitar)
Francisco Tárrega (1852 – 1909)
Recuerdos de la Alhambra
Miguel Llobet (1878 – 1938)
Catalan Folk Songs
7, El testament d’Amelia
6, Lo fill del rei
13, Cançó del lladre
15, El noi de la mare
Isaac Albéniz
Espagne
Capricho Catalan (Transc. Feuillâtre for Guitar)
Enrique Granados (1867 – 1916)
Danzas españolas, Op. 37
10, Danza triste. Melancólica (Transc. Llobet for Guitar)
Joaquin Rodrigo (1901 – 1999)
Concierto de Aranjuez
Allegro con spirito
Adagio
Allegro gentile
Enrique Granados – Fritz Kreisler
12 Danzas españolas, Op. 37
5, Andaluza. Playera (Transc. Feuillâtre for Guitar & Violin)
Guitarist Raphaël Feuillâtre releases his album Spanish Serenades, on which he presents Spanish masterworks performed on the original 19th-century guitars of Albéniz, Solés, and Tárrega.
The guitarist has established himself as one of the world’s leading guitar virtuosos. Yet given his young age he approaches these famous pieces from a fresh and passionate perspective. Also a prolific scorer, Feuillâtre created his own new arrangements of many of the tracks, synthesizing them into a uniquely personal and passionate artistic style. As the artist notes, recording iconic Spanish works is a rite of passage for any leading guitarist.
Grande compositor e notável orquestrador, Rimsky-Korsakov foi o principal membro do Grupo dos Cinco (os outros eram Balakirev, Borodin, Cui e Mussorgsky), que buscava a produção de música autenticamente russa. Ele possuía uma certa queda por utilizar temas de contos de fada e isto, aliada a sua habilidade orquestral, nos deu obras de peculiar colorido sonoro. Gosto demais das obras deste CD. Fico devendo A Grande Páscoa Russa.
Sherazade é uma suíte escrita em 1888 e baseada no livro das Mil e Uma Noites. Este belo trabalho orquestral combina duas características comuns seja à música russa, seja à de Rimsky-Korsakov: o colorido da orquestração e um imenso interesse pelo Oriente, sempre muito presente na história da Rússia imperial. É considerada a obra mais popular de Rimsky-Korsakov. Capriccio espagnol, Op. 34, é o título ocidental para outra fantástica suíte orquestral de Korsakov. Em cinco movimentos, baseada em melodias folclóricas espanholas, ela foi composta em 1887. O compositor originalmente pretendia escrever a obra para violino solo com orquestra, mas depois decidiu que uma obra puramente orquestral faria mais justiça às melodias animadas. O título russo é, literalmente, Capricho sobre Temas Espanhóis.
Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908): Sherazade e Capricho Espanhol (Royal Philharmonic Orchestra, Wordsworth)
Scheherazade, symphonic suite for orchestra, Op. 35
Composed by Nikolay Andreyevich Rimsky-Korsakov
1. Scheherezade – Symphonic Suite, Op.35: The Sea and Sinbad’s Ship
2. Scheherezade – Symphonic Suite, Op.35: The Story of the Kalandar Prince
3. Scheherezade – Symphonic Suite, Op.35: The Young Prince and Princess
4. Scheherezade – Symphonic Suite, Op.35: The Festival of Bagdad – The Sea – The Ship goes to pieces on a rock summounted by a bronze warrior
Capriccio espagñol (Kaprichchio na ispankskiye temï), for orchestra, Op. 34
Composed by Nikolay Andreyevich Rimsky-Korsakov
Não sei se eu ouvi este CD de forma desatenta… Será? O fato é que a única coisa que eu posso dizer dele é que Savall é ótimo, mas Rosenmüller é rotineiro, comum. Acusado de homossexualidade, crime grave na época, Rosenmüller fugiu para Veneza para evitar prisão e possível execução. Na Itália, trabalhou como trombonista na Basílica de São Marcos e absorveu influências de compositores como Monteverdi e Cavalli. Ao final da vida, foi perdoado e voltou à Alemanha, onde suas obras instrumentais “italianas” passaram a ser referência para outros compositores, talvez maiores… Vou ouvir novamente hoje à noite. Vamos ver se o perdoo.
Johann Rosenmuller (1619-1684): Sonatas de Câmara e Sinfonias (Hesperion XX, Savall)
1 Sinfonia Seconda, Venezia 1667 8:04
2 Sonata VII, Nürnberg 1682 8:19
3 Sinfonia Quarta, Venezia 1667 8:28
4 Suite I, Leipzig 1654 14:13
5 Sonata XI, Nürnberg 1682 6:07
6 Sinfonia Prima, Venezia 1667 10:29
7 Sonata IX, Nürnberg 1682 6:15
Conductor – Jordi Savall
Cornett – Bruce Dickey, Jean-Pierre Canihac
Ensemble – Hespèrion XX
Organ, Harpsichord – Willem Jansen*
Theorbo – Robert Clancy
Trombone – Charles Toet, Harry Ries, Richard Lister
Viol – Carol Lewis (2), Jordi Savall, Paolo Pandolfo, Roberto Gini, Sergi Casademunt
Violin – Chiara Banchini, Monica Huggett
Violone – Bela Zedlak
Ronald Brautigam com certeza é um dos maiores pianistas da atualidade, seja tocando Beethoven em um pianoforte, vide suas gravações das sonatas que postei há algum tempo atrás, ou então atrás de um piano de cauda, em suas gravações dos Concertos do gênio de Bonn, ou então agora, novamente com um pianoforte, tocando os concertos para piano de Mozart. Esqueci de comentar que ele também gravou as sonatas de Haydn e do próprio Mozart também em um pianoforte… Ah, essas sonatas de Mozart já estão a caminho.
Eu diria que coerência e regularidade fazem parte de sua personalidade musical. Difícil dizer qual seu CD é mais ou menos bom. Tudo o que ouvi até hoje é ótimo. E estes Concertos para Piano de Mozart não fogem a regra. Coisa de gente grande. Obras da maturidade mozartiana, são tão perfeitos e completos que nem precisamos falar muito sobre eles. Basta ouvirmos. Os mais tradicionais vão sentir falta da sonoridade de um bom piano de cauda, mas o instrumento que Brautigam usa aqui está bem equilibrado, e nele o pianista pode demonstrar todas as suas possibilidades.
P.S. de Pleyel ao respostar em 2025: Ronald Brautigam parece um domador de grandes felinos ou de serpentes ao gravar Mozart e Beethoven nesses pianofortes – réplicas meticulosas daqueles da época dos compositores. Esses instrumentos às vezes são difíceis de lidar, mas as mãos experientes de Brautigam fazem tudo soar mais fácil do que realmente é.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Piano Concertos nº 24 & 25
01 – Piano Concerto No.24 in C minor, K491 – I. Allegro
02 – Piano Concerto No.24 in C minor, K491 – II. Larghetto
03 – Piano Concerto No.24 in C minor, K491 – III. Allegretto
04 – Piano Concerto No.25 in C major, K503 – I. Allegro maestoso
05 – Piano Concerto No.25 in C major, K503 – II. Andante
06 – Piano Concerto No.25 in C major, K503 – III. Allegretto
Ronald Brautigam – Pianoforte
Die Kölner Akademie
Michael Alexander Willens – Conductor
Recording: 2010 at the Immanuelskirche, Wuppertal, Germany
O que aproxima esses dois discos tão diferentes é a presença de naipes de sopros liderados por um pianista. Ou big bands, em inglês: conjuntos com sonoridade orquestral, diferentes do jazz feito por um trio ou quarteto.
O álbum ao vivo de Ray Charles eu conheço por um LP bem antigo lá em casa e, do meu ponto de vista, é mais interessante do que as suas gravações de estúdio por aquela dinâmica dos shows ao vivo com público. Alguns dos seus grandes hits estão presentes em arranjos com banda de metais e com uma ou duas cantoras que acompanham a voz de Ray Charles.
Já o álbum de McCoy Tyner, gravado em estúdio, apresenta arranjos mais suaves com destaque para as flautas… Há outros discos gravados por McCoy nos anos 1970 com grupos maiores e nos quais os arranjos não me agradaram tanto assim, mas neste aqui o balanço parece perfeito entre uma certa orquestração leve influenciada pela bossa nova e os momentos solo do piano, do baixo (Jooney Booth) e da bateria (Alphonse Mouzon). As notas do disco dizem que os arranjos são de McCoy, representando a sua primeira experiência escrevendo partituras para um grupo desse tamanho.
Ray Charles: Live in Concert (1965)
Opening 0:35
Band: Swing A Little Taste 3:35
I Gotta Woman 6:10
Margie 2:29
You Don’t Know Me 3:14
Hide Nor Hair 2:57
Baby, Don’t You Cry 2:35
Makin’ Whoopee 6:17
Hallelujah I Love Her So 2:55
Don’t Set Me Fee 3:58
What’d I Say 4:30
Finale 1:55
Então vamos encerrar mais uma coleção. E claro que em grande estilo, com o imortal Amadeus Quartet com dois convidados, o violoncelista William Pleeth e o violista Cecil Aronowitz em duas históricas gravações realizadas lá na década de 1960, 1966 e 1968, respectivamente. Creio que estas gravações, juntamente com as dos trios com Tamás Vasary, são as únicas que fazem parte daquela famosa caixa que comentei lá na primeira postagem.
Então, relembrando o simpático porquinho mencionado em outra postagem, posso dizer ‘É, é, isso aí, pe-pe-ssoal …!!!
CD 11
01. String Sextet no.1 in B flat major,op.18 Allegro ma non troppo
02. Andante ma moderato
03. Scherzo,Allegro molto
04. Rondo,Poco Allegretto e grazioso
05. String Sextet no.2 in G major,op.36 Allegro non troppo
06. Scherzo,Allegro non troppo – Presto gocoso – Tempo I
07. Adagio
08. Poco Allegro
Compostas quando o compositor tinha ainda apenas 23 anos, a coleção de 12 danças divididas em quatro volumes de três danças cada, oferece uma mistura da tradição musical espanhola incluindo as danças regionais, como Galante, Fandango, Aragonesa, Arabesca e outras mais.
Angela Hewitt é um fenômeno, todos nós sabemos. Ela gravou um disco com peças de Bach interpretadas ao piano para a Deutsche Grammophon que volta e meia está na agulha da minha vitrola. Não sei qual foi a história, talvez o selo amarelo goste que seus pianistas gravem apenas um disco com música de Bach – Argerich, Maria João, Pogorelich são exemplos – e moça queria muito mais… O fato é que ela mudou de gravadora, para a Hyperion, e todas as peças de Bach foram parar nesses maravilhosos CDs que tanto ouvimos – algumas delas gravadas duas vezes – depois que ela começou a usar os pianos da Fazioli. alem de gravar as peças de Bach, a incansável Angela gravou Beethoven, Debussy, Ravel e mais alguns outros compositores franceses, sempre com muita beleza, muita maestria.
Pois foi com esse panorama em mente que avistei este disco aqui na repartição – PQP Bach Corp – quase não a reconheci fantasiada de espanhola, assim com um ar de cigana. Eu que tenho predileção por esse repertório, agarrei-me logo ao disco, que desde então tem me dado muito prazer. As gravações são do tempo em que ela era canadense, nos remotos idos de 1994, feitas pela CBC Records, gravadora ligada à Radio Canada.
E, como os nossos assíduos leitores do blog sabem, o que eu gosto, eu posto. Eis aqui uma gravação das Danzas Españolas para fazer companhia àquela outra maravilhosa feita pela excelente Alicia de Larrocha.
Enrique Granados (1867 – 1916)
12 Danzas Espanolas , Op. 37
Minuetto
Oriental
Zarabanda
Villanesca
Andalusa
Rondalla Aragonesa
Valenciana
Asturiana
Mazurca
Danza Triste
Zambra
Arabesca
Quejas O La Maja Y El Ruisenor, Op. 11 No. 4
Queixas ou A Donzela e o Rouxinol
El Pelele, Op. 11 No. 7
O Manequim de Palha
Angela Hewitt, piano
Selo: CBC Records – MVCD 1074, Les Disques SRC – MVCD 1074
Texto da Página Gulbenkian Música: Angela Hewitt gravou as “Danças Espanholas” de Enrique Granados, com uma interpretação elogiada pela sua sensibilidade ao tom, contraste dinâmico, ritmo vibrante e feeling para a atmosfera. A crítica da Gramophone destacou sua técnica e expressividade, especialmente na execução de obras como “Goyescas”. O álbum, disponível em plataformas como Apple Music, foi descrito como belíssimo e tocado com um toque, clareza e expressividade de tirar o fôlego.
Eu concordo…
Aproveite!
René Denon
Enrique Granados
O disco também está na plataforma de streaming Tidal:
PUBLICADO ORIGINALMENTE POR PQP BACH EM 28/5/2007, RESTAURADO POR RANULFUS EM 4/7/2015 E POR VASSILY EM 12/12/2019 (E NOVAMENTE POR PQP BACH EM 19/08/2025). Uma loucura.
Publicação original: 28.05.2007
Nota de Ranulfus: Esta postagem do nosso grão-mestre PQP foi a primeira de seis postagens dos Prelúdios e Fugas do Shosta que apareceram aqui — e precisamente a que me conquistou. Depois o próprio PQP publicou a de Nikolayeva, tida como a referência nesta obra, em áudio (2009) e em vídeo (2010), a de Keith Jarrett (de que ele gostou e eu não gostei) em 2012, a de Melnikov em 2013. Além disso, o Carlinus publicou a de Ashkenazy em 2010. Pois mal: devido aos acidentes a que o compartilhamento tem estado sujeito, nenhuma delas chegou a 2015 no ar — o que foi trágico, pois avalio esta obra como um clássico maior, ainda insuficientemente conhecido, mas digno de ficar para sempre – e desde já!
Então está aqui de novo a versão de Scherbakov — e quem sabe os colegas se animem a revalidar também alguma(s) das outras!
Um Shostakovich atrás do gato.
Texto de Anderson Paiva (fragmento). Em 1950, comemorava-se o bicentenário da morte de Johann Sebastian Bach, em Leipzig. O festival foi o palco da Competição Internacional Bach de Piano, que requeria a execução de qualquer um dos 48 Prelúdios e Fugas do Cravo Bem-Temperado. Entre os jurados, estava Dmitri Shostakovich.
A vencedora do concurso foi Tatiana Nikolayeva, que tocou não apenas um dos prelúdios e fugas do Cravo Bem-Temperado, conforme requeria a competição, mas executou todos os 48 Prelúdios e Fugas. Ela ganhou a medalha de ouro.
Dmitri Shostakovich, que entregou o prêmio à vencedora de 26 anos (na condição de presidente do júri), ficou impressionado com a interpretação da jovem pianista.
A última atração do evento foi o Concerto em Ré Menor para Três (cravos) Pianos, de J. S. Bach, tendo Maria Youdina, Pavel Serebriakov e Tatiana Nikolayeva como solistas. Incrivelmente, após Youdina machucar o dedo, Shostakovich, sem nenhuma preparação, e de última hora, tomou o seu lugar ao piano.
O mestre russo havia sido convidado para participar do festival de Leipzig em uma época que sua música silenciara na União Soviética, após o Decreto de Zhdanov (1948). Mas em meio ao silêncio, ele prosseguia compondo. E após retornar de Leipzig, contagiado pelo espírito de Bach – num primeiro momento, pretendia escrever apenas exercícios de técnica polifônica –, resolveu compor os seus próprios Prelúdios e Fugas. A partir daí, nasceria uma das maiores obras para piano do século XX: os 24 Prelúdios e Fugas Op. 87.
O trabalho é um verdadeiro monumento à arte de J. S. Bach. Shostakovich admirava-o grandemente, e a música do mestre de Leipzig é um dos pilares de sua obra. Aos 44 anos, e a exemplo de compositores como Mozart, Beethoven e Brahms, que em sua fase outonal voltaram-se para o passado em uma justa reverência ao mestre barroco, aqui Shostakovich aprofunda-se no estudo do contraponto e faz música polifônica da mais alta qualidade.
Por que vinte e quatro? São 24 os Prelúdios e Fugas do CBT I, e são 24 os Prelúdios e Fugas do CBT II, de J. S. Bach – que integram os 48 prelúdios e fugas do Cravo Bem-Temperado. Vinte e quatro são os Prelúdios de Chopin, e são vinte e quatro os Caprichos de Paganini. O número 24 não é por acaso – ele corresponde aos vinte e quatro tons da música ocidental: doze maiores e doze menores.
Na Idade Média e em todo o Renascentismo, não havia música tonal. A música era modal. Predominavam os modos antigos (modos gregos), que eram sete. A partir do sistema tonal, que se consolidou no barroco, passaram a existir somente dois modos: o modo maior e o modo menor. Antes, haviam os complicados sistemas de afinação (temperamento), a fim de fazer os “ajustes das comas”. A coma é a nona parte de um tom inteiro, e é considerado o menor intervalo perceptível ao ouvido humano. Os físicos e músicos divergiam sobre o semitom diatônico e o semitom cromático. Para os músicos, o semitom cromático (de dó para dó sustenido) possuía 5 comas, e o diatônico (de dó sustenido para ré) possuía 4. Os físicos afirmavam o contrário. Durante muito tempo persistiu esse dilema, e os diferentes sistemas de afinação. O cravo precisava ser afinado (temperado) constantemente, de acordo com o modo da música que se estava a tocar. Até que surgiu a idéia de afinar o cravo em doze semitons iguais, com um sistema de afinação fixa, de modo que o intervalo entre cada semitom ficasse ajustado em 4 comas e meia (diferença imperceptível ao ouvido humano), quando o teórico Andreas Werckmeister publicou um documento com essa teoria, em 1691. Desse modo, qualquer peça poderia ser transposta para qualquer tonalidade sem precisar fazer constantes “reajustes” de afinação.
Essa idéia foi recebida com polêmica, mas Johann Sebastian Bach foi um dos primeiros a reconhecer a importância da inovação. Em 1722, publicou sua coleção de 24 Prelúdios e Fugas, para cada uma das doze tonalidades maiores e menores, e a chamou “Cravo Bem-Temperado, ou Prelúdios e Fugas em todos os Tons e Semitons”, provando que era possível tocar e transpor uma música para qualquer tonalidade, com o sistema temperado, sem precisar alterar a afinação. Em 1744, vinte e dois anos depois, publicaria o segundo volume (agora chamado Cravo Bem-Temperado, Livro II). Portanto, cada um dos volumes do CBT foram escritos em épocas distintas de sua vida, e é notável o fato de que a primeira parte foi escrita no mesmo ano em que Jean-Philippe Rameau publicou o seu Tratado de Harmonia (1722), com o mesmo objetivo. Ambos trabalhos foram decisivos para a consolidação do sistema tonal, que revolucionou a Harmonia e as técnicas de composição. O Cravo Bem-Temperado é considerado a “bíblia do pianista”, e permaneceu reconhecido mesmo após a morte de Bach, quando todas as suas outras obras foram esquecidas, de modo que o sistema tonal que prevaleceu até a época de Schöenberg, e que ainda é uma vital referência em nossos dias, é o legado de Johann Sebastian Bach.
A combinação entre o Prelúdio e a Fuga (considerada, mais do que uma forma musical, uma técnica de composição) é um casamento perfeito entre duas “formas” distintas, duas forças, dois opostos. A fuga é provavelmente a técnica de composição mais complexa da música ocidental. Ápice da música polifônica, e com regras que submetem o tratamento dos elementos musicais a padrões extremamente rígidos, reúne arte e ciência.
O Prelúdio é uma “forma” musical de caráter extremamente livre, como a Fantasia e o Noturno, e também de caráter improvisatório, como a Toccata e o Impromptu. Remonta à era da Renascença, desde as composições para alaúde, passando a ser utilizado como introdução das suítes francesas no século XVII. O “prato de entrada”, com a função de Abertura, como as antigas Sinfonias barrocas, e de curta duração, com passagens de difícil execução, sempre fazendo improvisar o virtuose (como a Toccata), com o objetivo de chamar a atenção da platéia, antes da execução da “peça principal”. Johann Pachelbel foi um dos primeiros a combinar Prelúdios e Fugas, e a partir de J. S. Bach, o Prelúdio adquiriu grande importância, sendo utilizado depois mesmo individualmente, por compositores como Beethoven, Chopin, Debussy, Rachmaninoff, Hindemith, Ginastera, etc.
A Fuga é utilizada desde o período medieval, e é uma técnica de composição polifônica que segue o princípio de imitação, como o Canon, porém muito mais complexa do que esse. Toda fuga começa com uma voz sem acompanhamento expondo o tema, que é o sujeito. A seguir, entra a segunda voz repetindo o sujeito na dominante (uma quinta acima ou uma quarta abaixo da tônica), enquanto a primeira voz prossegue, agora dando início a um segundo tema contrastante, que é o contra-sujeito. Os temas devem ser independentes, (como melodias distintas que se combinam), e a distinção entre as vozes, clara. Mas devem “afinar” entre si – e esse é o ponto de desafio que alia a estética da arte à engenharia da ciência. Os temas se contrapõem na direção da música polifônica, que é considerada “horizontal”, ao contrário da música homofônica, em que as partes são dependentes e simultâneas, considerada “vertical”. O contraponto é muito complexo, restrito a muitas regras de consonância e direcionamento de vozes, e, da sua complexidade, a fuga é a expressão máxima. Após todas as vozes exporem o sujeito (a fuga pode ser a duas, três, quatro ou a cinco vozes, etc.) e o contra-sujeito, segue-se um complexo desenvolvimento de temas e
motivos que culminam no ponto alto e de tensão da fuga: o stretto. É onde as vozes se aproximam, cada vez mais – e as vezes ocorrem entradas paralelas –, produzindo a impressão de que uma voz está perseguindo a outra, daí o nome fuga.
Palestrina e outros compositores utilizaram a fuga no Renascentismo. Teve o seu ápice no Barroco, sendo usada por compositores como Sweelinck, Froberger, Corelli, Pachelbel, Buxtehude e Händel. Mas foi através de Bach, com o Cravo Bem-Temperado e A Arte da Fuga, que essa magistral arte e ciência do contraponto atingiu o seu ponto culminante. Depois ela cairia em parcial esquecimento, mas sendo aproveitada por compositores como Haydn, Mozart e Beethoven, no Classicismo; Mendelssohn, Brahms, Schumman, Rmski-Korsakov, Saint-Saëns, Berlioz, Richard Strauss, Rachmaninoff e Glazunov, no Romantismo; e, no século XX, por Max Reger, Kaikhosru Sorabji, Bártok, Weinberger, Barber, Stravinsky, Hindemith, Charles Ives e Dmitri Shostakovich.
Ah! Quão belos e magistrais são os 24 Prelúdios e Fugas Op. 87 de Shostakovich! Elaborados, profundos, sinceros, é arte que desabrocha, ora sutil, ora retumbante, do mais íntimo e abissal silêncio. É música que, uma vez expandida, repreendida e calada, retorna a si, ao íntimo do compositor, e tácita e reflexiva, espera a sua hora, para irromper como um monumento, colosso perpétuo para as gerações futuras que ouvirão, ao seu tempo, os pensamentos calados e as palavras não ditas. Shostakovich, de mão dadas a Bach, como um furacão transcende o momento, atravessa o tempo, e chega como brisa aos nossos ouvidos. Quando ela foi executada pelo pianista soviético Svyatoslav Richter, um crítico que estava presente disse: “Pedras preciosas derramaram-se dos dedos de Richter, refletindo todas as cores do arco-íris”. Essa obra, Shostakovich iniciou após retornar do festival de Leipzig, trabalhando rapidamente, levando apenas três dias em média para escrever cada peça. O trabalho completo foi escrito entre 10 de outubro de 1950 e 25 de fevereiro de 1951. Após concluir a obra, Shostakovich dedicou-a a Tatiana Nikolayeva, a pianista que o inspirou, e que brilhou vencendo a competição do festival do bicentenário de Bach em Leipzig, executando os prelúdios e fugas do Cravo Bem-Temperado. Assim que ele completou o ciclo, ele a chamou ao seu apartamento em Moscou para lhe mostrar o seu trabalho. Shostakovich tocou a obra na União dos Compositores Soviéticos, em maio de 1951, e Nikolayeva estreou-a em Leningrado, à 23 de dezembro de 1952.
Mas os 24 Prelúdios e Fugas não foram bem recebidos pelos críticos soviéticos, a princípio, especialmente na União dos Compositores. Desagradaram-lhes a dissonância de algumas fugas, e eles também a reprovaram por a considerarem “ocidental” e “arcaica”. E essa obra, hoje acessível, permanece ainda, por muitos, desconhecida.
Tatiana Petrovna Nikolayeva, pianista russa, como Shostakovich, e também compositora, foi uma das maiores pianistas soviéticas do século XX. Nasceu em 1924 e começou a aprender piano aos três anos de idade. Depois entrou para o Conservatório de Moscou e estudou com Alexander Goldenweiser e Yevgeny Golubev. Após vencer a Competição Internacional Bach de Piano de Leipzig, acumulou um imenso repertório, abrangendo Beethoven, Bártok e diversos compositores. Foi uma das grandes intérpretes de Bach. Enquanto muitos pianistas escolhiam tocar em instrumentos de época, Nikolayeva preferia tocar Bach no moderno piano Steinway, sempre com grande sucesso. Suas composições incluem um concerto para piano em si maior, executado e gravado em 1951 e publicado em 1958, um trio para piano, flauta e viola, gravado pela BIS Records, prelúdios para piano e um quarteto de cordas. A partir de 1950, ela passaria a ser uma das grandes amizades de Dmitri Shostakovich.
Após Nikolayeva gravar os 24 Prelúdios e Fugas Op. 87, surgiram outras grandes gravações. Vladimir Ashkenazy, pela Decca, Keith Jarret, pela ECM, Konstantin Scherbakov, pela Naxos, e Boris Petrushansky, pela Dynamic, estão entre os poucos discos que disputam no mercado. Keith Jarret, mais conhecido como músico de jazz, afirmou o seu nome na música clássica pela ECM, com o seu toque de impecável técnica. Vladimir, Scherbakov e Petrushansky fizeram gravações notáveis, cada um com a sua interpretação única. E o próprio Shostakovich também gravou os seus 24 Prelúdios e Fugas, pela EMI. Dessas gravações, a que possuo, até o momento, é somente a de Sherbakov, a qual considero uma pérola musical.
Mas é Tatiana Nikolayeva a maior intérprete dessa obra cheia de nuanças, e quem desvenda com toque de perfeição o universo musical de Shostakovich. Ela gravou a obra por três vezes: duas pela BGM-Melodya, em 1962 e 1987, e a terceira pela Hyperion, em 1990. Todas as gravações supracitadas (exceto a primeira de Nikolayeva pela Melodya) encontram-se na internet.
Essa obra completa dura mais de duas horas. Os pianistas costumam executá-la em duas apresentações, tocando metade do ciclo em cada uma.
A ordem dos prelúdios e fugas não é aleatória, nem escolhida por um critério extra-musical qualquer. Partindo de dó maior, percorre um ciclo de progressões harmônicas. Os prelúdios e fugas de Bach, no paralelo maior/menor, seguem a ordem da escala cromática ascendente (dó maior, dó menor, dó sustenido maior, dó sustenido menor, etc.). Mas Shostakovich, a exemplo dos 24 Prelúdios de Chopin, com a relação do par maior/menor, segue o ciclo das quintas (dó maior, lá menor, sol maior, mi menor, ré maior, si menor, etc.). E se a obra é construída em torno das 24 tonalidades, quer dizer que a música é tonal. Sim, Shostakovich faz música tonal em plena era do atonalismo, mas com incursões atonais, abuso de dissonâncias e domínio da técnica com diferentes assimilações que sustentam o seu estilo singular e “poliestilista”. Nos Prelúdios e Fugas de Shostakovich há citações de Bach. Mas a substância dessa obra é a expressão musical única e interior do próprio compositor, Shostakovich, que com grande capacidade eclética e assimilativa, e sendo, ao mesmo tempo, profundamente original, percorre os mais diversos climas e variações de humor, com modulações ora bruscas e desconcertantes, ora tênues e elegantes. Serena, como na fuga n.º. 1 ou na fuga n.º. 13, brincalhona, como na fuga n.º. 3 ou no prelúdio n.º 21, a música de Shostakovich permeia os mais distintos aspectos da expressão musical. Estranhas são as fugas n.º 8 e n.º 19, misteriosas; cômica é a fuga n.º 11, ousada é a fuga n.º 6, luminosa é a fuga n.º 7. Os prelúdios de Shostakovich às vezes combinam-se perfeitamente com as fugas, e eles se atraem; e às vezes se contrastam. As fugas magnificamente elaboradas são emolduradas pelos belos prelúdios que, no entanto, não devem ser considerados obras menores. Cada peça, além de ser parte essencial de um todo, é também uma pequena obra-prima à parte, de modo que o conjunto de 24 Prelúdios e Fugas Op. 87 formam, na verdade, uma coleção de 48 obras agrupadas em torno de um trabalho monumental e único.
Dmitri Shostakovich 24 Preludes and Fugues, Op. 87
Konstantin Scherbakov, piano
CD 1
Prelude No. 1 in C major: Moderato 02:50
Fugue No. 1 in C major: Moderato 04:02
Prelude No. 2 in A minor: Allegro 00:52
Fugue No. 2 in A minor: Allegretto 01:33
Prelude No. 3 in G major: Moderato non troppo 01:51
Fugue No. 3 in G major: Allegro molto 01:56
Prelude No. 4 in E minor: Andante 01:57
Fugue No. 4 in E minor: Adagio 05:35
Prelude No. 5 in D major: Allegretto 01:44
Fugue No. 5 in D major: Allegretto 02:01
Prelude No. 6 in B minor: Allegretto 01:42
Fugue No. 6 in B minor: Allegro poco moderato 04:00
Prelude No. 7 in A major: Allegro poco moderato 01:24
Fugue No. 7 in A major: Allegretto 02:47
Prelude No. 8 in F sharp minor: Allegretto 01:18
Fugue No. 8 in F sharp minor: Andante 07:10
Prelude No. 9 in E major: Moderato non troppo 02:36
Fugue No. 9 in E major: Allegro 01:36
Prelude No. 10 in C sharp minor: Allegro 01:52
Fugue No. 10 in C sharp minor: Moderato 05:43
Prelude No. 11 in B major: Allegro 01:22
Fugue No. 11 in B major: Allegro 02:10
Prelude No. 12 in G sharp minor: Andante 03:13
Fugue No. 12 in G sharp minor: Allegro 03:28
CD 2
Prelude No. 13 in F sharp major: Moderato con moto 01:56
Fugue No. 13 in F sharp major: Adagio 04:55
Prelude No. 14 in E flat minor: Adagio 03:33
Fugue No. 14 in E flat minor: Allegro non troppo 02:17
Prelude No. 15 in D flat major: Moderato non troppo 03:03
Fugue No. 15 in D flat major: Allegretto 01:54
Prelude No. 16 in B flat minor: Allegro molto 02:37
Fugue No. 16 in B flat major: Andante 06:46
Prelude No. 17 in A flat major: Allegretto 01:57
Fugue No. 17 in A flat major: Allegretto 03:51
Prelude No. 18 in F minor: Moderato 02:21
Fugue No. 18 in F minor: Moderato con moto 02:54
Prelude No. 19 in E flat major: Allegretto 02:13
Fugue No. 19 in E flat major: Moderato con moto 02:34
Prelude No. 20 in C minor: Adagio 03:47
Fugue No. 20 in C minor: Moderato 05:08
Prelude No. 21 in B flat major: Allegro 01:16
Fugue No. 21 in B flat major: Allegro non troppo 02:59
Prelude No. 22 in G minor: Moderato non troppo 02:08
Falecido em 18 de julho de 2025, o maestro inglês Roger Norrington foi um dos principais nomes ligados às interpretações historicamente informadas nas últimas décadas. Ele chamava o vibrato uma “droga moderna” e insistia que no século XIX os naipes de cordas das orquestras não utilizavam essa técnica, tese da qual alguns discordam, mas não entremos tão a fundo nessa polêmica hoje. O que importa é que Norrington fundou em 1978 a orquestra London Classical Players, que se especializou em obras do século XIX e fim do XVIII, em uma época em que o repertório de Monteverdi até Vivaldi e Bach já era usualmente tocado por orquestras menores e andamentos e trejeitos menos românticos, mas ainda era bastante polêmico fazer o mesmo com Beethoven.
E Norrington foi além: gravou bastante coisa de românticos como Schumann, Bruckner e Brahms, estes últimos principalmente com a Radio-Sinfonieorchester Stuttgart, orquestra da qual ele foi regente titular após a dissolução dos London Classical Players em 1997, quando estes se fundiram com a Orchestra of the Age of Enlightenment, orquestra sem maestro titular, mas que também convidava Norrington com frequência.
Então Norrington – que era também um acadêmico com passagens nas Universidades de Cambridge e Oxford e ligado ao Oxford Bach Choir – especializou-se sobretudo nessas obras românticas de Beethoven, Schubert, Schumann, alemães que ele conhecia como a palma de sua mão e buscava extrair de suas partituras o suco e jogar fora o bagaço representado em resumo pelo vibrato. E há também Berlioz, francês que, como sabemos, foi um dos principais continuadores do estilo orquestral de Beethoven. Como eu recordei aqui, em 1828, um ano após a morte de Beethoven, a célebre 5ª Sinfonia estreou em Paris, com Berlioz presente naquele evento que iniciava, no país do croissant, um culto a Beethoven. Dois anos depois, em 1830, Berlioz compôs a Symphonie Fantastique que, como a Pastoral de Beethoven, tem um programa poético e cinco movimentos ao invés de quatro.
Essa sinfonia foi gravada por Norrington tanto em Londres como em Stuttgart. Fazendo uma certa combinação em que sai o vibrato mas ficam as emoções românticas, Norrington alcança belos resultados, como provavelmente alcança também no Requiem de Berlioz, gravação lançada em 2006 com a orquestra de Stuttgart e o coro Rundfunkchor Leipzig, mas que ainda não ouvi.
Note-se ainda que Norrington parece ter sido um sujeito mais ou menos discreto, fiel às mesmas orquestras com que se apresentava (além dessas citadas, a London Philharmonic – LPO, com quem gravou Vaughan Williams, a Royal Scottish National Orchestra, a Camerata Salzburg e a Tonhalle Zürich) e distante de grandes polêmicas, de solistas laureados e golpes de marketing.
Hector Berlioz (1803-1869): Symphonie Fantastique
The London Classical Players, Roger Norrington
Recorded: Abbey Road Studios, 1988
Enquanto meu irmão PQP encara a série da obra para órgão de nosso pai, dou continuidade à integral da Obra de Câmera de Brahms, desta vez o vol. 9. Fiquei feliz com o sucesso da postagem anterior, 97 downloads em dois dias, e me propus terminar essa série. É um projeto antigo, que iniciei logo que iniciamos o blog, e que agora, por estar se arrastando tanto, decidir concluir.
A dupla Pieterson / Menuhin continua junta, desta vez tocando a bela e melancólica Sonata para clarinete op. 120, enquanto que o Quarteto Italiano inicia o ciclo dos quartetos de corda.
Johannes Brahms (1833-1897): Complete Chamber Music (CD 9 de 11) Clarinet Sonata No.2, Op.120 No.2, String Quartet No.1, Op.51 no.1 (Pieterson, H. Menuhin, Quartetto Italiano)
01 Clarinet Sonata No.2 in E flat, op.120 No.2 – I. Allegro amabile
02 Clarinet Sonata No.2 in E flat, op.120 No.2 – II. Appassionata, ma non troppo allegro
o3 Clarinet Sonata No.2 in E flat, op.120 No.2 – III. Andante con moto
04 Clarinet Sonata No.2 in E flat, op.120 No.2 – IV. Allegro non troppo
George Pieterson – Clarinet
Hephzibah Menuhin – Piano
05 String Quartet No.1 in C minor, op.51 no.1 – I. Allegro
06 String Quartet No.1 in C minor, op.51 no.1 – II. Romanze. Poco adagio
07 String Quartet No.1 in C minor, op.51 no.1 – III. Allegretto molto moderato e comodo
08 String Quartet No.1 in C minor, op.51 no.1 – IV. Allegro
Polinizar beleza pela cyberesfera é padecer no paraíso, sabemos bem, e manter-se vivo é um fenômeno, sabemos melhor ainda. Por isso, a Irmandade Mundial de Polinizadores Culturais aprecia por demais constatar que, em sua contagem anual das cabeças, e a despeito da crescente cavalaria do Apocalipse, a maior parte delas siga em riste. E eu, humilde chapeiro-sênior neste blogue já penalmente maior, saúdo que há já dez anos esteja entre elas a do inestimável Instituto Piano Brasileiro.
Fundado em 17 de agosto de 2015 pelo incansável, imparável, inesgotável Alexandre Dias, o Instituto Piano Brasileiro, doravante chamado IPB, busca pesquisar o piano brasileiro em suas múltiplas faces e inúmeras camadas, dedicando-se a investigar discografias e repertórios, a recompor trajetórias de pianistas e compositores, a recuperar e digitalizar acervos, e divulgar suas descobertas ao público através das plataformas de polinização da cyberesfera. Mantido desde sua criação tão só por financiamento coletivo de seus assinantes no Brasil e no exterior, o manancial com que o IPB nos provê é tão generoso quanto imenso é o trabalho que dá a seu fundador. Nas palavras do próprio:
Nosso trabalho é calcado na compreensão de que o Brasil possui uma das culturas mais ricas do mundo, e isso se reflete na cultura pianística. Todos os dias aparecem coisas incríveis em nosso trabalho, e confesso que essa sensação de realização anda lado a lado com um certo desespero por ver tantas coisas desaparecendo, como partituras, gravações, e documentos de nossa história pianística. Uma boa parte de nosso trabalho é dar sobrevida para este material, para que ele se multiplique nas mãos de pianistas, professores e pesquisadores interessados.
Entre momentos surreais, como o resgate de um acervo de Guiomar Novaes duma caçamba de lixo, e a glória de ter um recital do titã Nelson Freire generosamente dedicado ao IPB, além do reconhecimento e do abraço de Minha-Nossa-Sua Majestade, a Rainha, o legado construído ao longo desses dez anos é fruto dum trabalho indispensável que devemos não só reconhecer e homenagear, mas também apoiar. Além de sermos, o IPB e o PQP, sócios de carteirinha da Irmandade Polinizadora supracitada, sinto-me muito próximo do Instituto desde sua criação. Alexandre é nosso leitor-ouvinte há muitos anos, e eu mal tinha completado minhas primeiras semanas como chapeiro na PQP Corp. quando ele surgiu nos comentários duma postagem minha, com um IPB de sete dias no colo, oferecendo apoio para nossa empreitada de resgatar do esquecimento o mestre Antonio Guedes Barbosa. Hoje, para nossa felicidade, o acervo fonográfico de Antonio, doado pela família, está integralmente disponibilizado para a cyberesfera, totalizando horas de gravações inéditas – muitas a mais que sua infelizmente minúscula discografia – a provarem que seu repertório era muito maior e mais complexo do que sabíamos.
Os números do IPB impressionam: em dez anos, foram 7.300 vídeos vídeos postados no canal do YouTube, dos quais cerca de 5.000 vídeos-partituras), com mais de 62 mil inscritos e 14 milhões de visualizações; no Instagram, são 48 mil seguidores e 1628 postagens, e, no Facebook, 38 mil seguidores e milhares de publicações. Sem desejar restringir os caminhos dos leitores-ouvintes na navegação dessa exuberância amazônica, listaremos a seguir alguns pontos especialmente altos do acervo do Instituto para que com eles se deleitem enquanto vocês escolhem seus igarapés:
Arnaldo Estrella – Tchaikovsky: Concerto no. 1 – Bruno Walter/Filarmônica de Nova York (1943)
Entre tantas relíquias, há vários candidatos a Santo Graal – e este é, para mim, o mais forte entre elas: Arnaldo Estrella sob o legendário Bruno Walter a tocar o primeiro movimento do Concerto no. 1 de Tchaikovsky, em pleno Carnegie Hall, com a Filarmônica de Nova York. Difícil algo mais épico.
Guiomar Novaes – Beethoven: Sonata para piano, Op. 111 e Andante Favori – Ao vivo na Sala Cecília Meirelles (1967)
Um dos mais importantes acervos digitalizados pelo IPB é o de Frank Justo Acker. Gaúcho radicado no Rio de Janeiro, Frank capturou ao longo de décadas o som da crème de la crème da Música em palcos cariocas. Suas gravações têm uma calidez e um senso de proximidade do artista que a tornam ímpares entre os registros de sua época. Um exemplo sensacional do talento de Frank é este registro de Guiomar Novaes tocando a derradeira sonata de Beethoven no mesmo ano em que realizou sua única gravação comercial da mesma:
Do mesmo recital, e igualmente preciosa, é a gravação de Frank para a única leitura deixada por Guiomar do Andante favori, WoO 57, de Beethoven – obra que ela nunca gravou comercialmente:
Nelson Freire: entrevistas (2015 e 2019) e recital em prol do Instituto Piano Brasileiro (2019)
Nosso saudoso gigante colaborou intensamente com Alexandre Dias desde antes da fundação do IPB e lhe concedeu duas memoráveis entrevistas. A primeira delas, algumas semanas antes da inauguração do Instituto, foi gravada na casa do Mestre no Rio de Janeiro, e chama a atenção pela extensão, ademais impensável para o mineirinho taciturno, que denota a cumplicidade com o entrevistador e o tamanho de seu amor em comum pelo piano brasileiro. Publicada em texto em 2015, teve seu áudio divulgado pela primeira vez em novembro de 2021, enquanto nós (e o mundo) ainda tentávamos nos recolocar de pé depois daquele dia primeiro tão triste:
A segunda entrevista aconteceu durante a última visita de Nelson a Brasília, especialmente para dar, num imenso gesto de generosidade, um recital em prol do IPB. Produzido por Alexandre Dias e realizado em 17 de janeiro de 2019, o presente de Nelsim ao Instituto foi gravado e – claro – disponibilizado para a cyberesfera. Sempre que tento imaginar o que passou pela mente de Alexandre enquanto um dos maiores pianistas do mundo tocava em prol de seu sonho, eu fracasso clamorosamente -em seu lugar, acho, eu teria virado suco. O que sei lhes dizer é que, sob as mãos de Nelson, a Barcarola de Chopin (a partir de 25:04) acaricia cada fibra do miocárdio, e que há algo entre a preparação para a coda e o acorde final que faz meus olhos suarem sempre:
Logo após o recital, Nelson – feliz como poucas vezes o veríamos diante de uma câmera – conversou descontraidamente com Alexandre na sede do Instituto:
Projeto Nelson Freire
A generosidade de Nelson para com o IPB também refletiu-se na transferência, ainda em vida, de seu acervo pessoal para digitalização. Ele forma a base do colossal Projeto Nelson Freire, ora em andamento, que levará a integral das gravações de seu imenso repertório para a cyberesfera na forma de vídeo-partituras. A vastidão do material já publicado é proporcional à facilidade com que Nelson e sua memória eidética expandiam repertórios. Ainda tenho muita coisa para conhecer, mas poucas descobertas me impressionaram tanto quanto essa gravação do prelúdio Ondine de Debussy, realizada no quarto do garoto de 15 anos durante seus difíceis anos de estudo em Viena sob Bruno Seidlhofer – uma demonstração de sua assombrosa capacidade de leitura à primeira vista, que derrubou o queixo até da Rainha em pessoa, sua alma-gêmea por mais de sessenta anos:
Essa Balada no. 4 de Chopin, gravada ao vivo no Rio de Janeiro por Frank Justo Acker, é a melhor leitura que conheço para essa peça tão visionária quanto difícil de realizar duma maneira convincente:
Nelson dificilmente é lembrado como camerista, fato que gravações como a desse Trio no. 1 de Mendelssohn praticamente nos berram para lamentar:
Esses dois temas recorrentes – o talento de Nelson como camerista e sua generosidade – combinam-se nessa outra gravação rara: um recital com Antonio Meneses, então estudante na Europa, em prol do custeio de seus estudos. Se sua preparação envolveu emergências violoncelísticas, relatadas na descrição do vídeo, a interpretação desse duo em nada as deixou transparecer:
Martha Argerich – Gravações inéditas: em casa em Buenos Aires (1955) – Peças brasileiras com Nelson Freire – Concerto em São Paulo (1979)
Algumas vezes a enxurrada de descobertas do IPB transborda para pianistas de outros países. Da Rainha Martha, orgulhosamente argentina e ligada ao Brasil por muitos amigos (sobretudo por Nelson, seu alter-ego ao piano, como ela conta aqui), surgiu essa gravação doméstica entremeada por conversas com seu pai, Juan Manuel, e seu irmão de mesmo nome, apelidado Cacique (e, sim, é um descalabro o que ela já tocava aos 14 anos):
Apesar da forte ligação com brasileiros, Martha tocou muito poucas obras de nossos compositores. O IPB publicou duas peças de Francisco Mignone em duo com Nelson Freire – a segunda, até então, inédita:
O nocaute do ano, óbvio, também veio de Martha: o combo Prokofiev 3/Chopin 1 sob a regência da fera Eleazar de Carvalho, que não deixou a Rainha, aparentemente alada e em chamas naquele dia, escapar da orquestra nos dois vertiginosos finales. É ouvir para crer:
Eleazar de Carvalho – Villa-Lobos: Choros no. 10 (1976)
Além das eventuais surpresas estrangeiras, o IPB volta e meia rasga corações com publicações sem a participação do piano. Essa dilacerante gravação ao vivo do Choros no. 10 de Villa-Lobos sob Eleazar de Carvalho no Rio de Janeiro entrou para minha Antologia de Coisas Impressionantes que Todos Deveríamos Ouvir. Escutem e tentem manter-se num só pedaço (porque eu nunca consegui):
Sonia Rubinsky – Villa-Lobos: Suíte para piano e orquestra – primeira gravação mundial
Como pôde uma obra do naipe dessa Suíte para piano e orquestra de Villa-Lobos, estreada há mais de cem anos, não ter sido gravada até o ano passado? Quem sabe um pouco do modus vivendi de Heitor e da consideração que seu país costuma ter para com a preservação do seu patrimônio cultural provavelmente já sabe a resposta. Graças ao IPB, que articulou para que uma extensa lista de autorizações fosse concedida, ela foi tirada do limbo:
Acervo de Jacques Klein(1930-1982)
Um dos mais importantes acervos doados ao IPB foi o do filho mais brilhante de Aracati, cujo punhado de gravações comerciais não dá ideia com a vastidão de seu repertório. Os registros publicados pelo Instituto permitem, com toda tranquilidade, colocar Jacques entre os maiores pianistas de seu tempo no mundo todo. Escutem esse monstro a tocar Beethoven – e com especial carinho o finale da Appassionata – e tentem não concordar comigo:
Acervo de Antonio Guedes Barbosa (1943-1993)
Levei anos para concluir a integral da discografia do gênio paraibano por aqui, e levaria outros tantos para comentar suas gravações que o IPB ajudou a trazer à tona. Pouparei os leitores-ouvintes de tanta delonga, limitando-me a compartilhar duas delas que provam que, quando tudo dava certo, Antonio nada devia a qualquer lenda do piano, viva ou morta. No Concerto de Chopin, o primeiro ré bemol da entrada do solista já anuncia a grandeza que vem a seguir; para a Totentanz, a única descrição possível é (as maiúsculas e o negrito se justificam) ÉPICA:
Recital de José Vieira Brandão (1952)
A posteridade registrou a importante trajetória de Brandão como compositor e regente, enquanto sua grandeza como pianista, que eu desconhecia completamente, viveu somente na memória de algumas testemunhas, até seu filho doar seu acervo para o IPB e este recital vir à tona. Meu já enorme sombrero de ignorante cresceu inda mais com a descoberta de que houve no Brasil um pianista desses e que dele eu nunca tinha ouvido falar. Atenção especial às peças de Chopin, com leituras especialmente inventivas e marcantes, entre as melhores que escutei na vida:
Fritz Jank – Brahms: Concerto no. 2 (1962)
Nossa já muito longa lista se encerra com um talento alemão adotado pelo piano brasileiro: Fritz Jank, que se notabilizou por gravar a primeira integral brasileira das sonatas de Beethoven, era ainda maior ao vivo, como atesta este registro absolutamente destemido do Concerto no. 2 de Brahms, sob a batuta de outra lenda cujo acervo foi digitalizado pelo IPB, o pianista, compositor, maestro e pedagogo João de Souza Lima:
Além da cornucópia de tesouros como os que mostramos acima, Alexandre, o Imparável, trouxe para a realidade outro antigo projeto: o lançamento do Selo IPB, que estreou em maio passado com o primeiro dos doze álbuns que dedicará ao Calendário do Som composto pelo Bruxo, Demiurgo, Mestre dos Magos, [insira aqui sua alcunha hiperbólica favorita e provavelmente insuficiente] pelo CampeãoHermeto Pascoal, hoje com mais aniversários na conta do que há teclas no piano, seu velho amigo, que trata como ninguém mais sabe tratar no Universo conhecido.
Hermeto, a Joia d’Olho d’Água Grande, compôs o Calendário entre os junhos de 1996 e 1997, como uma “homenagem a todos os aniversariantes do mundo, indistintamente”, escrevendo uma peça para cada dia do calendário, sem esquecer de quem nasceu em 29 de fevereiro de anos bissextos. Cada partitura de Hermeto, com sua caligrafia característica e ocupação da pauta tão livre quanto é o gênio do Campeão, é uma obra de arte à parte. A responsabilidade de transpor esses 366 jorros de desenfreada criatividade para o teclado coube a alguém à altura dela: o brilhante pianista paraibano Uaná Barreto, que os arranjará e gravará especialmente para o Selo IPB. Nas palavras do comunicado de imprensa divulgado quando do lançamento do primeiro álbum, Janeiro, “com liberdade criativa plena, Uaná soube valorizar cada detalhe presente nas partituras, transformando-as em interpretações vivas e singulares, em sintonia com o espírito inventivo da obra. Cada música traz um pouco da alma brasileira, mas sempre falando para o universo – é o termo que Hermeto cunhou: ‘Música Universal Brasileira’. A direção artística do projeto é de Alexandre Dias, diretor do Instituto Piano Brasileiro. Esse álbum traz muitas camadas de significado:
– é uma homenagem a Hermeto Pascoal, uma glória indescritível para a música brasileira;
– nós procuramos destacar o lado pianístico do Hermeto, reforçando-o como uma de nossas grandes referências no universo do piano;
– o Calendário do Som representa uma diversidade imensa de ritmos, estilos e referências, trazendo esse verdadeiro caleidoscópio que é a música brasileira.”
A vida é como o som que nunca para, nem aqui e nem lá. Viva ela sempre!” Hermeto Pascoal, 11 de janeiro.
Que viva ela sempre, Hermeto. Viva a Música, viva o Som! E que viva você, Campeão! Que vivam Alexandre Dias e o IPB, e que esses sejam apenas o primeiros dez entre muitos anos de belezas com que nos presentearão, e que todos leitores-ouvintes que se embriaguem com a grande música d’O Bruxo realizada por Uaná se tornem assinantes do IPB e o ajudem a polinizar a riqueza do piano brasileiro por esse mundo tão carente de beleza.
Direção artística: Alexandre Dias.
Gravação, mixagem e masterização: Estúdio Carranca, Recife
Arte da capa: Pedro Francisco
Diagramação: Max Lima
Selo Instituto Piano Brasileiro
OUÇA “JANEIRO”, DO “CALENDÁRIO DO SOM” DE HERMETO PASCOAL NO YOUTUBE:
OUÇA “JANEIRO”, DO “CALENDÁRIO DO SOM” DE HERMETO PASCOAL NO SPOTIFY:
OUÇA “JANEIRO”, DO “CALENDÁRIO DO SOM” DE HERMETO PASCOAL NO TIDAL:
Documento em que Hermeto, de próprio punho, libera suas composições disponíveis em seu site para usufruto da Humanidade e das demais civilizações que, assim desejamos, venham a ter o privilégio de encontrá-lasVassily é assinante do IPB e veste sua camiseta – e também seu moletom. Além de se tornar um assinante, poderíamos também sugerir uma visita à lojinha do Instituto para apoiar seu trabalho?
O penúltimo cd da Integral da Obra de Câmera de Brahms, vol. 10, traz os dois últimos quartetos de cordas, o segundo do op. 51, e o de op. 67. A respeito dos quartetos de corda, vou citar abaixo um trecho extraído da biografia de Brahms escrita por Malcolm McDonald:
“A impiedosa lógica de sua construção, a extração de tantas coisas de motivos básicos, o esforço para abarcar seu vocabulário harmônico e contrapontístico mais “avançado” e pessoal, admitem poucas concessões à forma escolhida e forçam quase ao limite máximo da resistência. Quanto à forma em si, o desafio de contribuir para um repertório em grande parte criado por Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert incitou Brahms a um senso ainda mais agudo de responsabilidade histórica do que de costume. Talvez seja por isso que as obras (sobretudo a nº 1) possam parecer tão invariavelmente sérias e impelidas com dificuldade, tão afligidas pela instabilidade do modo menor. O resultado tem sido muitas vezes severamente criticado como execrável composição de quarteto, e os quartetos de Brahms sem dúvida nunca detiveram a inexpugnável proeminência no repertório de quartetos que as suas sinfonias alcançaram na literatura orquestral. Entretanto, segundo qualqer critério são obras importantes, ´cheias de intensidade apaixonada´e de certa eloquência pressurizada. repletas (praticamente coaguladas) de substância musical e sutileza de composição. Suas formas densamente entrelaçadas, os inúmeros níveis de contraste, o fraseado maleável e fluidez tonal têm exercido seu fascínio sobre várias gerações de analistas musicais. “
Interessante também que estes quartetos foram publicados após o compositor completar 40 anos, mas Brahms já vinha trabalhando neles há muitos anos.
A interpretação continua à cargo do Quartetto Italiano.
Johannes Brahms (1833-1897): Complete Chamber Music (Cd 10 de 11) – String Quartet No.2, op.51 no.2, String Quartet No.3, Op.67 (Quartetto Italiano)
01 String Quartet No.2 in A minor, op.51 no.2 – I. Allegro non troppo
02 II. Andante moderato
03 III. Quasi minuetto, moderato – Allegretto vivace
04 IV. Finale. Allegro con assai – Piu vivace
05 String Quartet No.3 in B flat, op.67 – I. Vivace
06 II. Andante
07 III. Agitato. Allegretto non troppo
08 IV. Poco allegretto con variazioni – Doppio movimento
Embora Gergiev tenha vasta experiência teatral e esteja regendo uma orquestra de ópera e balé, este é definitivamente um Concerto de O Quebra-Nozes. Os andamentos são rápidos, as texturas, fluidas, e os bailarinos podem ter bastante dificuldade em acompanhar a música. Para nós, ouvintes amadores, porém, esta é uma maneira soberba de ouvir a partitura completa de Tchaikovsky e nos lembrar de quanta boa música não está incluída na suíte familiar. Gergiev justifica sua reputação como intérprete e maestro, obtendo uma execução incrivelmente precisa do conjunto. O melhor de tudo é que a Philips conseguiu, de alguma forma, reunir mais de 81 minutos de som soberbo neste disco, tornando-o uma pechincha notável. Altamente recomendado!
Esta postagem é em homenagem ao mano PQPBach, que aparentemente está se rendendo à música de Tchaikovsky. Garanto que depois de ouvir este “Nutcracker”, na excelente versão de Gergiev, ele vai se render em definitivo ao russo.
Confesso que até conhecer esta gravação, ainda não tinha ouvido o Balé em sua íntegra, lembro-me de na infância, ou adolescência ter assistido na TV o Barishnikov dançando isso, e fiquei fascinado pela música. Depois disso, tive acesso apenas ás pequenas peças , mas nunca tive uma versão completa da obra.
Valery Gergiev está em seu elemento natural, a música russa, e em outra especialidade, a música de teatro. Gosto muito deste regente, Logo postarei as sinfonias de Prokofiev e os concertos para piano do mesmo Prokofiev com ele, não dá pra não se render à sua energia, e esta Orquestra do Kirov também é de se tirar o chapéu.
Existem diversos momentos que poderia destacar nesta gravação, mas fico com a magnífica “Valsa das Flores”. Pungente, delicada, suave, a imagem que sempre me vem a mente quando a ouço é a do próprio Barishnikov flutuando sobre o tablado do Convent Garden. Minha mãe comentava que parecia que ele desafiava a física, ignorando a lei da gravidade, e simplesmente andando no ar. Que beleza…! É de se ouvir de joelhos, mano PQP.
Tableau 1
2 1. The Christmas Tree 3:45
3 2. March 2:14
4 3. Galop And Dance Of The Parents 2:13
5 4. Dance Scene – The Presents Of Drosselmeyer 5:02
6 5. Scene – Grandfather Dance 5:31
7 6. Clara And The Nutcracker 6:23
8 7. The Nutcracker Battles Against The Army Of The Mouse King – He Wins And Is Transformed Into Prince Charming 3:21
Tableau 2
9 8. In The Christmas Tree 3:32
10 9. Scene And Waltz Of The Snowflakes 6:05
Act Two
Tableau 3
11 10. The Magic Castle On The Mountain Of Sweets 3:23
12 11. Clara And Prince Charming 4:52
12. Character Dances (Divertissement):
13 a. Chocolate (Spanish Dance) 1:10
14 b. Coffee (Arabian Dance) 3:11
15 c. Tea (Chinese Dance) 1:07
16 d. Trépak (Russian Dance) 1:01
17 e. Dance Of The Reed Pipes 2:14
18 f. Polichinelle (The Clown) 2:24
–
19 13. Waltz Of The Flowers 6:24
14. Pas De Deux:
20 a. Intrada 5:01
21 b. Variation I (Tarantella) 0:36
22 c. Variation II (Dance Of The Sugar-Plum Fairy) 2:05
23 d. Coda 1:15
–
24 15. Closing Waltz – Grand Finale 4:56
Após vários meses, FDP Bach volta à sua proposta de postar a integral da obra de câmara de Johannes Brahms editada pela Philips. Já tivemos grandes momentos com os Trios, nas mãos experientes do Beaux Arts Trio, e agora trago mais três grandes obras do gênio brahmsiano.
As Sonatas para Violoncelo e a Primeira Sonata para Clarinete são obras fundamentais no repertório camerístico, e são inúmeras as gravações existentes no mercado. Das sonatas para violoncelo possuo outras duas gravações, mas preferi dar continuidade à série, e ficar com a dupla Janos Starker e Gyorgy Sebok, enquanto que a sonata para clarinete está sendo interpretada pela irmã de Yehudi Menuhin, Hephzibah Menuhin ao piano, e o clarinetista George Pieterson.
Johannes Brahms (1833-1897): Complete Chamber Music (CD 8 de 11) Cello Sonata No.1, Op.38, Cello Sonata No.2, Op.99, Clarinet Sonata No.1, Op.120 No.1 (Starker, Sebok, Pieterson, H. Menuhin)
1 Cello Sonata No.1 in E minor, Op.38 – I. Allegro non troppo
2 Cello Sonata No.1 in E minor, Op.38 – II. Allegretto quasi minuetto
3 Cello Sonata No.1 in E minor, Op.38 – III. Allegro – piu presto
4 Cello Sonata No.2 in F major, Op.99 – I. Allegro vivace
5 Cello Sonata No.2 in F major, Op.99 – II. Adagio affettuoso
6 Cello Sonata No.2 in F major, Op.99 – III. Allegro appasionato
7 Cello Sonata No.2 in F major, Op.99 – IV. Allegro molto
Janos Starker – Piano
Gyorgy Sebok – Violoncelo
8 Clarinet Sonata No.1 in F minor, Op.120 No.1 – I. Allegro appassionato
9 Clarinet Sonata No.1 in F minor, Op.120 No.1 – II. Andante un poco adagio
10 Clarinet Sonata No.1 in F minor, Op.120 No.1 – III. Allegretto grazioso
11 Clarinet Sonata No.1 in F minor, Op.120 No.1 – IV. Vivace
George Pieterson – Clarinet
Hephzibah Menuhin – Piano
Maria Tipo (1931-2025) foi uma bela napolitana. Domenico Scarlatti foi um dos filhos mais feios da mesma cidade, só que a genética compensou dando-lhe enorme talento. Mas há mais ligações entre ambos. Tipo interpreta fantasticamente bem seu conterrâneo. Não lembro de ter ouvido melhor interpretação destas Sonatas, seja ao cravo, seja ao piano. Este CD é uma joia que merece sua atenção. Ouvi-o inúmeras vezes e ele sempre me encantou. Li agora que esta versão é considerada referência absoluta, mesclando precisão barroca com um toque mediterrâneo único. Tipo era chamada de a Arturo Benedetti Michelangeli feminina” pelo rigor e perfeccionismo. Apenas para efeito de comparação, diria que enquanto Martha Argerich é a tempestade passional, Tipo era a arquiteta do som — controlada, mas com grande fogo interno.
1 Sonata In E Major, K. 495
2 Sonata In E Major, K. 381
3 Sonata In E Major, K. 20
4 Sonata In E Minor, K.394
6 Sonata In G Major, K 454
6 Sonata In G Major, K. 425
7 Sonata In D Major, K. 491
8 Sonata In D Minor, K. 32
9 Sonata In A Major, K. 432
10 Sonata In A Minor, K. 109
11 Sonata In A Major, K. 39
12 Sonata In G Major, K. 125
13 Sonata In G Major, K. 470
14 Sonata In E Major, K. 124
15 Sonata In G Major, K. 79
16 Sonata In G Major, K. 547
17 Sonata In B-flat Major, K. 551
18 Sonata In B-flat Major, K. 128