.: interlúdio :. Hermeto Pascoal e grupo: Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca

É mais difícil escrever sobre música instrumental do que música com letra, é mais difícil escrever sobre música improvisada do que sobre música com estrutura bem determinada. É bastante difícil para mim falar sobre Hermeto Pascoal, também por esses motivos, além da sua carreira de camaleão nordestino de berço, carioca nos últimos anos por adoção e universal por vocação. Após o recente fim da sua longa e produtiva vida, vi um portal de notícias dizer que Hermeto deixou “um legado de 75 anos dedicado ao jazz, samba e forró” e em um primeiro momento fiquei puto: forró, samba, é assim que estão rotulando o Hermeto? Mas umas horas depois, dou o braço a torcer. É difícil escrever sobre Hermeto pela caleidoscópica mistura de sons que suas bandas fizeram, mas por outro lado talvez seja fácil: qualquer coisa que se disser vai ter um fundo de verdade. Sim, ele também fez forró.

Na verdade ele já cantou a pedra há muito tempo, em uma entrevista lá em 1972 para a revista Rolling Stone: Eu não gosto de dizer que faço um tipo de música. Porque eu faço questão de não fazer só um tipo de música. Eu quero fazer tudo: baião, rock, jazz, tudo sem uma intenção premeditada de fazer uma coisa específica. Depois ninguém vai dizer que o Hermeto tem um conjunto de baião ou de rock, todo mundo vai dizer que o Hermeto tem um conjunto de música, que para mim é o mais importante. (clique abaixo para expandir)

Então, constatando que tudo que se escreve sobre o bruxo tem boa chance de descrever em alguma medida a sua música, me atrevo a escrever sobre Hermeto Pascoal. Nos seus últimos anos ele manteve uma banda fixa com fiéis escudeiros que já tinham uma comunicação telepática com ele. Aliás, nos anos 1980 a banda também era espetacular, com destaque para o flautista e multiinstrumentista Carlos Malta, como vemos nesse disco postado mais abaixo. Mas voltemos aqui para o Hermeto já octogenário: vi dois shows desse seu último grupo. O primeiro eu vi de perto e me lembro que o solo de chaleira era o momento mais marcante para o público, aquele instante em que se impressionavam e se uniam em atenção unânime tanto os melômanos mais dedicados como o pessoal que estava por acaso naquele evento e sabia bem mais ou menos quem era o velhinho barbudo no palco. Ele tinha esse caráter do absurdo, do exótico que encanta quem normalmente não se preocupa com música instrumental. E quem se preocupa também se encantava com ele, nem preciso explicar os por quês, né?

O segundo show acabou sendo o último dele no Brasil, três meses atrás, no Circo Voador, junto aos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. Show gratuito e lotadíssimo, não consegui entrar mas, colado à grade externa, foi possível ouvir tudo e ver uns 30% do palco, a parte da esquerda, sobretudo o pianista André Marques. Alguns solos, mesmo sem ver, eram óbvios: de bateria, de sax, etc. E nos momentos mais estranhos e absurdos, era evidente que o bruxo estava tocando. Deixo abaixo esse simplório vídeo que registra mais o ambiente do que a música, mas não deixa de ser histórico esse registro de nove segundos do último show da banda de Hermeto Pascoal no Rio, com gente na fila abaixo dos Arcos até o fim do show tentando entrar.

Terminado esse relato – no qual realmente não consigo botar em palavras as experiências desses dois shows de Hermeto, incompetência que espero justificada – deixo aqui um dos seus discos mais importantes, cheio de improvisos e de sons do cotidiano pois, como dizia Hermeto, “as coisas que fazem parte do meu dia a dia é que ditam meu som”. Em dois momentos do disco, trechos de locutores de futebol servem de base para a música. Aliás, para situar melhor aquele dia na Lapa: poucos minutos antes do início do show, eu chegava atrasado pela Rua Riachuelo e via, em um bar, botafoguenses pularem no momento do gol do Botafogo contra o PSG. Então os torcedores do glorioso podem guardar isso na memória: no mesmo dia dessa vitória improvável, a última aparição em um palco brasileiro desse músico, arranjador e compositor profundamente improvável, nascido em 1936 no município do agreste alagoano que dá nome ao disco.

Hermeto Pascoal e grupo: Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca (1984)

Lado A
1. Ilza na feijoada (Hermeto Pascoal)
2. Santa Catarina (Hermeto Pascoal)
3. Tiruliruli (Osmar Santos)
4. Papagaio alegre (Hermeto Pascoal)
5. Vai mais, garotinho (José Carlos Araújo) / decisão do campeonato nacional 1984
6. Monte Santo (Hermeto Pascoal e João Bá)
Lado B
1. Spock na escada (Hermeto Pascoal)
2. Mestre Radamés (Hermeto Pascoal)
3. Aquela coisa (Hermeto Pascoal)
4. Frevo Maceió (Hermeto Pascoal)
5. Desencontro certo (Hermeto Pascoal)

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– ficha técnica –
Lado A Hermeto Pascoal (flauta – fx. 1; flautim – fx. 1; clavinete ‘solo’ – fx. 1; fala ‘Sapatão’ – fx. 1; piano – fx. 2; harmônio – fx. 3, 5, 6; flauta ‘solo’ – fx. 4; sanfona – fx. 6) | Osmar Santos (narração e canto – fx. 3 // Jogo – Corinthians x Flamengo 6.5.1984) | José Carlos Araújo (narração e canto – fx. 5 // Jogo – Vasco x Fluminense – decisão do campeonato nacional/1984) | João Bá (declamação – fx. 6) | Carlos Malta (flauta – fx. 1, 2; sax soprano ‘solo’ – fx. 1; fala Doçura – fx. 1; jogral – fx. 2; sax tenor – fx. fx. 4; flautim – fx. 4) | Jovino Santos Neto (piano rhodes – fx. 1, 2; flauta – fx. 1; fala ‘Mansinha’ – fx. 1; harmônio – fx. 2; jogral – fx. 2; piano acústico – fx. 4; piano CP-80 – fx. 4) | Iteberê Zwarg (contrabaixo – fx. 1, 4; fala ‘Cheguei’- fx. 1; tuba – fx. 2; jogral – fx. 2) | Márcio Bahia (bateria – fx. 1, 4; reco – fx. 1; fala ‘Metidinho’ – fx. 1; almofada de bilros – fx. 2; sino – fx. 2; jogral – fx. 2; jererê – fx. ) | Pernambuco (triângulo – fx. 1; fala ‘Zangadinho’ – fx. 1; almofada de bilros – fx. 2; jogral – fx. 2; redôngulo – fx. 4) | Elísio Costa (flauta – fx. 1; fala ‘Coronel Peba’ – fx. 1) | Fábio Pascoal (fala ‘Saudoso’ – fx. 1) | Marcus Vinicius (fala ‘Catuaba’ – fx. 1) | Manoel Ozias (risada – fx. 1) | Ilza Pascoal (gargalhada – fx. 1) | Papagaio Floriano (falas e assovios – fx. 4) | Lado B Hermeto Pascoal (viola – fx. 1; flauta baixo – fx. 1; piano (tema) – fx. 1; solo de latidos com flautas – fx. 1; bombardino – fx. 2; flauta – fx. 3; pistons – fx. 4; solo de buzina – fx. 4; sax soprano – fx. 4 / apresentação dos músicos – fx. 4; cavaquinho – fx. 5) | Jovino Santos Neto (piano acústico – fx. 1; harmônio – fx. 1; piano CP-80 – fx. 2; harmônio – fx. 2, 5; piano – fx. 3; piano rodhes – fx. 4; flautim solo – fx. 4) | Carlos Malta (saxofones – fx. 1; sax soprano – fx. 2; sax tenor – fx. 3; sax tenor solo – fx. 4) | Márcio Bahia (bateria – fx. 1, 2, 3, 4; apitos – fx. 1; percussão – fx. 1 – solo de percussão – fx. 4) | Itiberê Zwarg (contrabaixo – fx. 1, 2, 3; contrabaixo solo – fx. 4; tuba – fx. 4, 5) | Elísio Costa (percussão – fx. 1; flauta solo – fx. 4) | Pernambuco (percussão – fx. 1; triângulo – fx. 2; pandeiro – fx. 4; palavras – fx. 4) | Heraldo do Monte (guitarra – fx. 2; viola – fx. 5) || Convidados especiais: Haroldo do Monte, João Carlos Araújo, João Bó e Osmar Santos | Direção musical e arranjos: Hermeto Pascoal | Coprodutor musical: Jovino Santos Neto | Engenheiro de som: Marcus Vinicius | Auxiliares de estúdio: Ronaldo, Robson e Zé Luis | Mixagem e montagem: Marcus Vinicius e Hermeto Pascoal | Gravado no Nosso Estúdio – São Paulo, Brasil, de junho a setembro de 1984

Solo de chaleira em 2009

Pleyel

Franz Schubert (1797-1828): Lieder (Auger, Orkis)

Joyce Arleen Auger foi uma cantora especialmente associada ao repertório vienense: Mozart, Haydn e também este álbum de Schubert gravado mais para o fim da sua vida que, infelizmente, não foi muito longa. Tampouco foi longa a vida de Franz Schubert, mas foi povoada por incontáveis melodias. O compositor Aaron Copland, em seu livro What to listen to in music, chama atenção para a gigantesca produção de Schubert como reflexo de sua personalidade como compositor, bastante diferente da de Beethoven. Isso não diminui a grandeza de Schubert, apenas o posiciona historicamente como alguém que vivia o comecinho do que entendemos como Romantismo em música e tinha certas diferenças em relação ao seu contemporâneo Beethoven, embora Schubert tivesse enorme admiração pelo alemão falecido em Viena um ano antes dele:

O tipo que mais tem fascinado a imaginação pública é o do compositor de inspiração espontânea – em outras palavras, o tipo Franz Schubert. Todos os compositores, naturalmente, são inspirados, mas esse tipo é o de inspiração mais fácil. A música parece jorrar de cada um deles. Muitas vezes, eles não são capazes de anotar as ideias na rapidez em que elas lhe ocorrem. Esse tipo de compositor pode ser identificado pela abundância da sua produção. Em certas épocas, Schubert escrevia uma canção por dia …
Invariavelmente, eles trabalham melhor nas formas mais curtas. É muito mais fácil improvisar uma canção do que improvisar uma sinfonia.
Beethoven simboliza o segundo tipo – o tipo construtivo, como se poderia chamar. Beethoven não era absolutamente um compositor ao estilo de Schubert, bem-amado da inspiração; era obrigado a seguir o caminho mais longo, começando com um tema, transformando-o em uma ideia germinal, e construindo em cima disso uma obra completa, em um trabalho diário e exigente. Desde os dias de Beethoven, esse tipo de compositor tem se revelado o mais comum.
(A. Copland, trad. L. P. Horta)

Franz Schubert (1797-1828):
1. Gretchen am Spinnrade, Op. 2, D. 118
2. Heidenröslein, Op. 3.3, D. 257
3. Lieb Minna, D. 222
4. 3 Lieder, Op. 19.3, Ganymed, D. 544
5. Geheimes, Op. 14.2, D. 719
6. Auf dem See, Op. 92.2, D. 543
7. 3 Lieder, Op. 92.1, Der Musensohn, D. 764
8. Suleika I, Op. 14.1 No. 1, D. 720
9. Suleika II, Op. 31, D. 717 “Ach um deine feuchten Schwingen”
10. Daß sie hier gewesen, Op. 59.2, D. 775
11. 3 Lieder, Op. 20.1, Sei mir gegrüßt, D. 741
12. Du bist die Ruh, Op. 59.3, D. 776
13. Lachen und Weinen, Op. 59.4, D. 777
14. Seligkeit, D. 433
15. An die Nachtigall, Op. 98.1, D. 497
16. Wiegenlied (Schlafe, schlafe) D498
17. Am Grabe Anselmo’s, Op. 6.3, D. 504
18. 4 Lieder, Op. 88.4, An die Musik, D. 547
19. Die Forelle, Op. 32, D. 550
20. Auf dem Wasser zu singen, Op. 72, D. 774
21. 2 Lieder, Op. 43.1, Die junge Nonne, D. 828
22. 4 Lieder, Op. 106.4, An Sylvia, D. 891
23. Ständchen, D. 889

Fortepiano: Lambert Orkis
Soprano: Arleen Auger
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Joyce Arleen Auger (1939 – 1993)

Pleyel

Lutosławski (1913-1994): Livre pour orchestre; Música Fúnebre / Szymanowski (1882-1937): Sinfonia nº 2 (Polish N.R.S.O., Alexander Liebreich)

As obras orquestrais mais famosas de Lutoslawski são o concerto para orquestra (1954), as quatro sinfonias (1948-1993, aqui) e o concerto para violoncelo (1970). Aqui neste álbum, temos duas obras menos célebres mas que merecem uma ou mais audições cuidadosas. Livre pour orchestre – Livro para orquestra – é uma série de episódios avulsos, uns maiores e outros mais simples, mais ou menos como os livros de prelúdios e fugas de Bach. Estreado em 1968 durante um período de protestos políticos na Polônia e em vários outros lugares do planeta, trata-se de uma das obras mais vanguardistas de Lutoslawski, cheia de sonoridade imprevisíveis, não domesticadas, com alguns choques que às vezes soam desconfortáveis aos ouvidos, mas ao mesmo tempo os episódios vão se desenrolando como uma narrativa abstrata para pura apreciação, em oposição a outras obras de vanguarda que, em sua militância, exigem uma postura mais intelectual do ouvinte.

Composta dez anos antes (1958), a Música Fúnebre dedicada à memória de Bela Bartók é mais tonal, mais comportadinha, mas tem em comum com Livre o seu desenrolar em uma narrativa que, embora não expresse uma mensagem específica, um conteúdo verbal, guarda alguma semelhança com a música narrativa dos compositores românticos. E falando nisso, a primeira obra do álbum, a 2ª Sinfonia (1909) de Szymanowski, não me interessa minimamente: um formato romântico previsível, melodias menos notáveis do que as de outros compositores do mesmo período como Scriabin, Mahler ou o jovem Schönberg, isso para ficarmos só na Europa central e oriental… Uma perda de tempo.

Karol Szymanowski (1882-1937):
Sinfonia nº 2
Witold Lutosławski (1913-1994):
Livre pour orchestre
Música Fúnebre à memória de Béla Bartók
Polish N.R.S.O., Alexander Liebreich

Recorded: NOSPR Concert Hall, Katowice, Poland, 2015

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W. Lutosławski por volta dos 30 ou 40 anos

Pleyel

Guia de Gravações Comparadas – Honegger (1892-1955): Sinfonias nº 2 e 3 (Ansermet, Munch, Fournet, Jansons)

Nascido na França e filho de pais suíços, Arthur Honegger estudou no Conservatório de Zurich (1910-11), imerso na tradição alemã do contraponto e na música mais moderna de Wagner, R. Strauss e Reger. Após se mudar para Paris (onde foi aluno de Widor e seguiu estudando contraponto), ele escreveria em 1915 em uma carta para seus pais: minhas simpatias pela nova música francesa crescem a cada dia. Conheci e apreciei Reger e Strauss na Suíça, e continuo a gostar deles, mas percebi que compositores como Debussy, Dukas, d’Indy, Florent Schmitt e outros são mais novos e mais originais, e sobretudo têm mais sentimentos do que os alemães modernos.

A influência de Debussy e de Fauré é evidente na linguagem harmônica de Honegger, mas sua música costuma ter muito mais passagens em contraponto e imitação do que a da maioria dos franceses, provavelente por influência de Beethoven e Bach. Em 1925, Honegger escreveu: Pode-se facilmente encontrar Bach na origem de todas as minhas obras.

Entre essas obras, se destacam os três Movimentos Sinfônicos da década de 1920, incluindo Pacific 231, que imita o movimento de um trem (obra que estreou no Rio de Janeiro ainda em 1929 e que Villa-Lobos certamente ouviu, no Rio ou em Paris, antes de compor o seu Trenzinho do Caipira das Bachanias nº 2, de 1930-34). Nos anos 1930, não conseguindo emplacar muitos sucessos nas salas de concerto, Honegger compôs música incidental para rádio, música de cabaré, música de partido de esquerda e 24 trilhas sonoras de filmes. Finalmente em 1938 ele voltou a fazer sucesso como compositor sério, com a estreia do oratório Joana d’Arc na fogueira, a partir do libreto do poeta Paul Claudel. No fim da década de 30 e sobretudo na de 40, Honegger compôs suas Sinfonias nº 2, 3, consideradas por muitos como suas obras-primas. Na 3ª e na 4ª, para orquestra sinfônica, passagens em contraponto alternam com uma orquestração que às vezes soa como música de filme, e lembra nesse sentido Shostakovich, por usar alguns efeitos orquestrais simples, às vezes apelando para clichês, mas com efeitos que sempre chamam a atenção e fazem as passagens atonais soarem palatáveis. Honegger, como Shostakovich, mistura a tradição com a inovação (aliás, além de ambos terem composto música de filme, ambos se destacam como compositores de sinfonias, forma musical que revolucionários como Debussy, Schoenberg e Boulez julgavam antiquada). Mais uma citação de Honegger: “Minha inclinação e meu esforço sempre foram no sentido de escrever música que fosse compreensível para o grande público e ao mesmo tempo suficientemente livre de banalidade para interessar aos genuínos amantes da música… Quis impressionar a esses dois públicos: os especialistas e a multidão.” (Citado por Keith Waters)

Na 2ª Sinfonia, para cordas com uma pequena participação de um trompete, a orquestração com menos instrumentos faz com que o desenvolvimento temático apareça de forma mais explícita, como também é o caso da Música para cordas, percussão e celesta de Bartók. Ambas as obras, assim como a 4ª de Honegger, foram encomendadas e estreadas pelo bilionário Paul Sacher e sua orquestra de câmara da Basileia (Basler Kammerorchester). Vamos nos concentrar aqui em algumas grandes gravações das sinfonias nº 2 e 3.

Para a 2ª Sinfonia, composta durante a 2ª Guerra, veremos logo abaixo que as interpretações se dividem em dois grupos: as que enfatizam a tensão e nervosismo e as que soam menos nervosas e mais pendendo para o luto e a reflexão. Em todo caso, embora seja famosa como uma das “sinfonias de guerra” do repertório do século XX, não é uma obra programática: o autor afirmou que, se a sinfonia gera certas emoções, é simplesmente porque essas emoções estavam presentes naquele momento histórico. O fim da sinfonia é mais alegre e um tanto wagneriano, mas não daremos spoilers para quem ainda não conhece…

Na 3ª, composta poucos meses após o fim da 2ª Guerra e estreada por Charles Munch em 1946, já há um programa mais explícito: o autor deu a cada movimento um subtítulo em latim proveniente da liturgia cristã, daí o nome “Sinfonia Litúrgica”, embora não haja outra conotação especialmente religiosa ou melodias cristãs emprestadas. O 1º movimento é um allegro (Dies iræ), o 2º um adagio (De profundis) e o 3º um andante (Dona nobis pacem), que se abre com uma espécie de Marcha Fúnebre, especialidade dos franceses desde a Symphonie fantastique de Berlioz e a 2ª Sonata de Chopin. Sobre essa marcha, Honneger escreveu que queria retratar “justamente a ascensão da estupidez coletiva… A vingança da besta contra o espírito…” Lembrando que se tratava de um pós-guerra no qual a estupidez tinha realmente atingido níveis supremos. Mas, assim como na 2ª sinfonia, também aqui o final é alegre, só que em vez do clímax wagneriano da sinfonia anterior, aqui temos um clima bucólico que lembra Debussy: as nuvens pesadas vão embora e os pássaros cantam de forma nada mecânica. Vamos às comparações:

Ansermet e o Honegger intelectual

Espero que vocês tenham gostado das homenagens aos 160 anos de Debussy. Para mim, foi a oportunidade de ouvir novamente alguns grandes intérpretes de Debussy, como Toscanini, Martinon, e alguns nomes menos óbvios como Svetlanov, Baudo e Hewitt. Hoje seguimos com outro grande mensageiro da música de Debussy, Ernest Alexandre Ansermet (1883-1969), que esteve aqui no blog há algumas semanas na (re)postagem de FDP Bach.

Ansermet também foi um grande intérprete de Stravinsky e Honegger, estreando obras dos dois e tendo em comum com este último o fato de ter passado a vida entre a França e a Suíça. Nesse disco com as duas “sinfonias de guerra” além da 4ª sinfonia, Ansermet e seus músicos suíços parecem enfatizar menos as emoções das “sinfonias de guerra” e mais a genialidade de Honneger em seus desenvolvimentos de temas, contrapontos e orquestração cuidadosa. Com uma gravação de alta qualidade, podemos ouvir com clareza alguns detalhes sutis, por exemplo os baixos no início do 2º mov. da 2ª sinfonia ou o solo de cello no momento mais calmo do 3º mov. da 3ª sinfonia (p.ex. aos 8m20s). São interpretações calmas, intelectuais, podemos até lembrar que os mais velhos entre aqueles músicos suíços devem ter passado a 2ª Guerra em segurança naquele país neutro, sem o nervosismo que vivia, por exemplo, o francês Charles Munch como veremos logo abaixo.

Arthur Honegger (1892-1955):
1-3. Symphony no.2 For Trumpet And Strings: I. Molto moderato – allegro; II. Adagio mesto; III. Vivace, non troppo
4-6. Symphony no.3, “Liturgique”: I. “Dies Irae” Allegro marcato; II. “De Profundis Clamavi” Adagio; III. “Dona Nobis Pacem” Andante
7-9. Symphony no.4, “Deliciæ Basilienses”: I. Lento e misterioso – Allegro; II. Larghetto; III. Allegro
Orchestre de la Suisse Romande
Ernest Ansermet
Recorded at Victoria Hall, Geneva: 1961 (Symphony No. 2), 1968 (Symphonies No. 3-4)

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Munch e o Honegger nervoso

Provavelmente esse é o disco com mais notas levemente desafinadas ou pizicatti desencontrados postado neste blog nos últimos meses. Mas nesses tempos em que cantores da moda exageram no autotune e tudo tem que soar perfeitinho, é importante conhecermos algumas gravações ao vivo como essas feitas por Charles Munch (1891-1968) em turnê pela Europa (França, Suíça, Espanha e Finlândia) em 1962 e 64. Os eventuais desencontros entre as cordas são compensados pela tensão fortíssima da orquestra tocando em andamentos bem mais rápidos do que os de Ansermet. Mais rápidos também do que a Orchestre de Paris na gravação posterior da 2ª Sinfonia que Munch faria no seu último ano de vida. Aqui nessa apresentação ao vivo em 1964, a Orchestre National de France corre em todos os movimentos e sobretudo no último, com um Presto final loucamente acelerado que dura apenas 4m51s (a faixa é mais longa por causa dos aplausos). É um tipo de tensão que também combina com uma sinfonia conhecida como “de guerra”, e lembremos ainda que Charles Munch regeu a segunda apresentação dessa sinfonia em 1942 em Paris ainda sob ocupação nazista. E nessas gravações ao vivo temos uma amostra daquele tipo de nervosismo: a sensação de que o campo é minado, com um passo em falso, tudo pode dar errado, a orquestra corre muitos riscos e viver é desenhar sem borracha (frase do Millôr Fernandes).

Em 1969, Karajan/Berlin P.O. fariam um último movimento igualmente acelerado, mas algumas gravações seguintes – Plasson/O.C. Toulouse (1979), Rozhdestvensky/USSR M.C.S.O. (1986) e Leducq-Barôme/Baltic C.O. (2018) – seriam um pouco mais lentas e bem comportadas, menos incisivas.

Arthur Honegger (1892-1955):
1. Le Chant de Nigamon
2. Pastorale d’été
3-5. Symphony no.2 For Trumpet And Strings: I. Molto moderato – allegro; II. Adagio mesto; III. Vivace, non troppo
6-8. Symphony no.5: I. Grave; II. Allegretto; III. Allegro marcato
Orchestre National de France
Charles Munch
Recorded live: Paris, 1962 (Chant), Basel, 1962 (Pastorale d’été), San Sebastian, 1964 (Symphony no. 2), Helsinki, 1964 (Symphony no. 5)

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Jean Fournet e a lenta marcha da estupidez coletiva

Jean Fournet (1913-2008) foi um regente francês mais associado a ópera, mas que também regeu muita música instrumental de seus contemporâneos como Messiaen, de Falla e Ibert. Sua única gravação de Honegger foi esta, aos 80 anos – ao contrário de Ansermet e Munch, íntimos do compositor e dessas obras desde a estreia – mas ele mostra uma boa familiaridade com Honegger e o disco é talvez a melhor introdução para quem não conhece o compositor, por trazer obras de diferentes períodos, como a Pastorale d’été (1920), obra com climas debussystas, feita por um jovem em busca de sua voz, e Pacific 231 (1923), primeiro grande sucesso de Honegger e já com suas características típicas. Como descreveu o compositor: “A obra inicia com uma contemplação subjetiva, o respirar quieto de uma máquina em descanso, [a seguir] seu esforço para começar, a velocidade que aumenta gradativamente […] Musicalmente, eu compus uma espécie de um grande e diversificado coral, repleto de contraponto à maneira de J. S. Bach”

E na 3ª Sinfonia, Jean Fournet e seus músicos holandeses fazem a marcha do 3º movimento de forma muito lenta, grandiosa, uma marcha da estupidez coletiva com toda a pompa e sem perder nenhum detalhe. E o primeiro flautista brilha no final, com um som fluido, irregular, em tudo o oposto da marcha que tinha a precisão de uma máquina.

Arthur Honegger (1892-1955):
1. Rugby, mouvement symphonique
2. Pacific 231, mouvement symphonique
3. Concerto da Camera
4. Pastorale d’eté
5. Symphonie no. 3, “Liturgique” (I. “Dies Irae” 0:00-7:02; II. “De Profundis” 7:03-21:19; III. “Dona Nobis Pacem” 21:20-35:15)
Netherlands Radio Philharmonic Orchestra
Jean Fournet
Recorded: 1993

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Jansons na encruzilhada entre as tradições

Mariss Jansons (1943-2019), quando jovem, foi assistente grande maestro soviético Y. Mravinsky, e parece ter herdado dele as chaves interpretativas de uma 3ª sinfonia de Honegger extremamente emotiva, também soando como uma sinfonia “de guerra”, mas sob o ponto de vista do front oriental. A marcha do 3º movimento é rápida como a de Mravinsky (em Moscou, 1965, infelizmente com qualidade de som não tão boa), e com um clima de grande tensão, colocando os ouvintes em uma atmosfera de quem perdeu amigos e parentes por causa da estupidez coletiva que Honegger mencionou no programa da sinfonia. Ao mesmo tempo, as cordas do Concertgebouw brilham no 2º movimento, como era de se esperar. O disco tem como complemento o Gloria composto por Poulenc em 1959-1961, já bem depois da guerra. Poulenc, como Honegger, fez parte do chamado “grupo dos seis” na Paris do entreguerras, embora Honegger tivesse como principal amigo no mesmo grupo o compositor Darius Milhaud.

Nesta gravação ao vivo temos uma mistura eclética de tradições: um regente de origem judaica, formado na escola soviética, com uma orquestra holandesa fazendo a sinfonia “litúrgica” de Honegger (de família protestante) junto com a liturgia católica repensada por Poulenc. O clima geral mistura por um lado o nervosismo “in tempore belli” (para lembrarmos a grandiosa missa de Haydn) e por outro lado a busca perfeccionista pelos timbres raros e detalhes como os momentos em que o piano se sobressai na orquestração: os músicos nos envolvem na encruzilhada entre a tensão interior e o brilho exterior. A encruzilhada, símbolo da ambivalência e da imprevisibilidade, traz possibilidades de vida brotando nas frestas da estupidez coletiva.

Francis Poulenc (1899-1963):
1-6. Gloria: I. Gloria in excelsis Deo – II. Laudamus te – III. Domine Deus, Rex coelestis – IV. Domine Fili, Domine Deus – V. Domine Deus, Agnus Dei – VI. Qui sedes ad dexteram Patris
Arthur Honegger (1892-1955):
7-9. Symphonie no. 3, “Liturgique”: I. “Dies Irae” Allegro marcato – II. “De Profundis” Adagio – III. “Dona Nobis Pacem” Andante)
Royal Concertgebouw Orchestra, Amsterdam
Mariss Jansons
Luba Orgonasova, soprano; Netherlands Radio Choir
Recorded live: Amsterdam, 2004 (Honegger), 2005 (Poulenc)

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Arthur Honegger, Ernest Ansermet e Roland Manuel (foto de 1925, colorizada por inteligência artificial)

Pleyel (postagem original de 2022)

Edvard Grieg (1843–1907): Lieder (Davidsen, Andsnes)

Nessas obras para voz e piano, Grieg pode ser colocado na companhia de Schubert, Schumann, Fauré e Debussy entre os autores de melodias íntimas. Leif Ove Andsnes executa com competência no piano os diferentes fraseados que são bem mais do que simplesmente acompanhamento.

Uma curiosidade sobre Grieg é sua relação com o brasileiro Alberto Nepomuceno (1864-1920), compositor que viveu alguns anos na Europa antes de voltar para o Brasil. Pois Nepomuceno se casou com a pianista norueguesa Walborg Bang, aluna de Edvard Grieg, o que levou o compositor brasileiro a frequentar por certo tempo a casa do norueguês, que o incentivou a dedicar-se às melodias e ritmos típicos do seu país, no caso, o Brasil.

Edvard Grieg (1843–1907): Lieder
Haugtussa (The Mountain Maid) Op.67
6 Digte (6 Poems) Op.25, no. 2 & 4
Elegiske Digte (Elegiac Poems) Op.59, no. 3 & 4
Hjertets Melodier (Melodies of the Heart) Op.5, no. 3
Digte (Poems) Op.60, no. 5
12 Melodier (12 Melodies) Op.33, no. 9
5 Digte (5 Poems) Op.69
Romancer og Sange (Romances and Songs) Op.18, no. 5
6 Lieder Op.48
12 Melodier Op.33, no. 2

Lise Davidsen – soprano
Leif Ove Andsnes – piano

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Impressão minha ou o Grieg tinha um jeitão de comediante da turma do Chaves ou da Praça é Nossa?

Para uma outra bela gravação desse pianista em repertório romântico, confira aqui:
https://pqpbach.ars.blog.br/2015/09/18/robert-schumann-1810-1856-piano-quintet-in-e-flat-major-op-44-johannes-brahms-1833-1897-piano-quintet-in-f-minor-op-34/

Pleyel

.: interlúdio :. Ray Charles: Live in Concert (1965) / McCoy Tyner: Song of the New World (1973)

O que aproxima esses dois discos tão diferentes é a presença de naipes de sopros liderados por um pianista. Ou big bands, em inglês: conjuntos com sonoridade orquestral, diferentes do jazz feito por um trio ou quarteto.

O álbum ao vivo de Ray Charles eu conheço por um LP bem antigo lá em casa e, do meu ponto de vista, é mais interessante do que as suas gravações de estúdio por aquela dinâmica dos shows ao vivo com público. Alguns dos seus grandes hits estão presentes em arranjos com banda de metais e com uma ou duas cantoras que acompanham a voz de Ray Charles.

Já o álbum de McCoy Tyner, gravado em estúdio, apresenta arranjos mais suaves com destaque para as flautas… Há outros discos gravados por McCoy nos anos 1970 com grupos maiores e nos quais os arranjos não me agradaram tanto assim, mas neste aqui o balanço parece perfeito entre uma certa orquestração leve influenciada pela bossa nova e os momentos solo do piano, do baixo (Jooney Booth) e da bateria (Alphonse Mouzon). As notas do disco dizem que os arranjos são de McCoy, representando a sua primeira experiência escrevendo partituras para um grupo desse tamanho.

Ray Charles: Live in Concert (1965)
Opening 0:35
Band: Swing A Little Taste 3:35
I Gotta Woman 6:10
Margie 2:29
You Don’t Know Me 3:14
Hide Nor Hair 2:57
Baby, Don’t You Cry 2:35
Makin’ Whoopee 6:17
Hallelujah I Love Her So 2:55
Don’t Set Me Fee 3:58
What’d I Say 4:30
Finale 1:55

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McCoy Tyner: Song of the New World (1973)
Afro Blue 9:58
Little Brother 10:13
The Divine Love 7:28
Some Day 6:49
Song of the New World 6:50

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McCoy Tyner (1938-2020)

Pleyel

Hector Berlioz (1803-1869) – Symphonie Fantastique (Norrington)

Falecido em 18 de julho de 2025, o maestro inglês Roger Norrington foi um dos principais nomes ligados às interpretações historicamente informadas nas últimas décadas. Ele chamava o vibrato uma “droga moderna” e insistia que no século XIX os naipes de cordas das orquestras não utilizavam essa técnica, tese da qual alguns discordam, mas não entremos tão a fundo nessa polêmica hoje. O que importa é que Norrington fundou em 1978 a orquestra London Classical Players, que se especializou em obras do século XIX e fim do XVIII, em uma época em que o repertório de Monteverdi até Vivaldi e Bach já era usualmente tocado por orquestras menores e andamentos e trejeitos menos românticos, mas ainda era bastante polêmico fazer o mesmo com Beethoven.

E Norrington foi além: gravou bastante coisa de românticos como Schumann, Bruckner e Brahms, estes últimos principalmente com a Radio-Sinfonieorchester Stuttgart, orquestra da qual ele foi regente titular após a dissolução dos London Classical Players em 1997, quando estes se fundiram com a Orchestra of the Age of Enlightenment, orquestra sem maestro titular, mas que também convidava Norrington com frequência.

Então Norrington – que era também um acadêmico com passagens nas Universidades de Cambridge e Oxford e ligado ao Oxford Bach Choir – especializou-se sobretudo nessas obras românticas de Beethoven, Schubert, Schumann, alemães que ele conhecia como a palma de sua mão e buscava extrair de suas partituras o suco e jogar fora o bagaço representado em resumo pelo vibrato. E há também Berlioz, francês que, como sabemos, foi um dos principais continuadores do estilo orquestral de Beethoven. Como eu recordei aqui, em 1828, um ano após a morte de Beethoven, a célebre 5ª Sinfonia estreou em Paris, com Berlioz presente naquele evento que iniciava, no país do croissant, um culto a Beethoven. Dois anos depois, em 1830, Berlioz compôs a Symphonie Fantastique que, como a Pastoral de Beethoven, tem um programa poético e cinco movimentos ao invés de quatro.

Essa sinfonia foi gravada por Norrington tanto em Londres como em Stuttgart. Fazendo uma certa combinação em que sai o vibrato mas ficam as emoções românticas, Norrington alcança belos resultados, como provavelmente alcança também no Requiem de Berlioz, gravação lançada em 2006 com a orquestra de Stuttgart e o coro Rundfunkchor Leipzig, mas que ainda não ouvi.

Note-se ainda que Norrington parece ter sido um sujeito mais ou menos discreto, fiel às mesmas orquestras com que se apresentava (além dessas citadas, a London Philharmonic – LPO, com quem gravou Vaughan Williams, a Royal Scottish National Orchestra, a Camerata Salzburg e a Tonhalle Zürich) e distante de grandes polêmicas, de solistas laureados e golpes de marketing.

Hector Berlioz (1803-1869): Symphonie Fantastique
The London Classical Players, Roger Norrington
Recorded: Abbey Road Studios, 1988

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Sir Roger Norrington

Pleyel

 

.: interlúdio :. Buena Vista Social Club: At Carnegie Hall (1998)

Buena Vista Social Club at Carnegie Hall

Quem era vivo na década de 1990 vai se lembrar desse grupo de músicos cubanos, muitos deles com mais de 70 ou mesmo 80 anos de idade, que de repente ficaram famosos a partir de um documentário. Fizeram um belíssimo disco de estúdio, ganharam Grammy, mas o disco que apresento aqui é o segundo, gravado ao vivo em Nova York quando estavam na crista da onda.

É um caso raro de músicos que fizeram carreiras mais ou menos discretas por décadas, tocando em cassinos, casas noturnas e coisas do tipo, alguns deles desde antes da Revolução Cubana de 1959… e de repente alcançaram um estrelato mundial, coisa que naqueles tempos pré-Youtube e pré-redes-sociais ainda passava necessariamente pelo controle de gravadoras e outras empresas com poder de distribuição internacional. Os músicos se conheciam há anos, mas não formavam exatamente uma banda, de modo que temos um tipo de jazz caribenho em que os arranjos são bastante fluidos, às vezes o trompete tem destaque, às vezes o piano (Rubén González, 1919-2003), às vezes a voz masculina e às vezes a voz feminina (Omara Portuondo, nasc. 1930 e ainda não se aposentou!). Eu insisto em chamar esse tipo de música de jazz, o que é uma certa alfinetada na concepção segundo a qual esse estilo estaria restrito às fronteiras de um certo país anglófono. É bastante curioso que antes de 1959 as músicas de Cuba e dos EUA eram bem entrelaçadas e logo depois os laços se cortaram por motivos políticos, com esses músicos – muitos deles já falecidos em 2025 – representando uma memória viva de fluxos culturais típicos de tempos idos.

Buena Vista Social Club At Carnegie Hall:
Chan Chan 4:46
De Camino A la Vereda 4:59
El Cuarto de Tula 8:01
La Engañadora 2:44
Buena Vista Social Club 5:59
Dos Gardenias 4:24
Quizás, Quizás 3:48
Veinte Años 4:07
Orgullecida 3:23
¿Y Tú Qúe Has Hecho? 3:33
Siboney 2:33
Mandinga 5:30
Almendra 5:49
El Carretero 5:39
Candela 7:00
Silencio 5:25

Rubén González – Piano

Hugo Garzón – Vocals
Ibrahim Ferrer – Vocals
Manuel ‘Puntillita’ Licea – Vocals
Omara Portuondo – Vocals
Pío Leyva – Vocals

Barbarito Torres – Laúd
Benito Suárez Magana – Guitar
Compay Segundo – Guitar, Vocals
Ry Cooder – Guitar, Producer
Eliades Ochoa – Guitar, Vocals

Jesús ‘Agauje’ Ramos – Trombone
Manuel ‘Guajiro’ Mirabal – Trumpet
Octavio Calderón – Trumpet

Orlando ‘Cachaíto’ López – Double Bass
Salvador Repilado – Double Bass

Alberto ‘Virgilio’ Valdés – Maracas, Backing Vocals
Amadito Valdés – Timbales
Angel ‘Terry’ Domech – Congas
Joachim Cooder – Drums, Percussion
Roberto García – Bongos, Cowbell, Guiro
Juan De Marcos González – Leader, Backing Vocals, Guiro

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Compay Segundo (1907-2003), autor da famosíssima canção que abre o álbum

Pleyel

 

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 7 (Neumann, Leipzig)

Este blog tem atualmente seis colaboradores fixos e mais alguns de rara aparição. A palavra é usada aqui no sentido de colaboração mesmo, e não aquele jargão horrível para funcionários, até porque o blog não gera dinheiro. Faço esse preâmbulo para dizer que fui eu, Pleyel, o responsável pela “chuva de Mahler” nas últimas semanas: primeiro completando o ciclo com Svetlanov e sua orquestra russa e depois repostando o jovem Gustavo Dudamel com sua orquestra venezuelana. Dudamel é provavelmente o maestro vivo com mais íntima afinidade com a música de Mahler, ao lado do veterano Tilson Thomas (que fez uma Sétima elogiadíssima por PQP Bach).
Agora voltemos à velha guarda: trago hoje um Mahler com sotaque da Europa Central, com o maestro Václav Neumann (1920-1995), maestro tcheco nascido em Praga que rege aqui a tradicional orquestra do Gewandhaus de Leipzig na então Alemanha Oriental. Foi quando residia em Leipzig, aliás, após um tempo morando em Praga, que Mahler compôs sua primeira sinfonia por volta de 1888: ele era maestro no Neues Stadttheater, a casa de ópera destruída na 2ª Guerra, e tinha o posto de maestro substituto da Gewandhausorchester. Já a sétima sinfonia ele iria compor mais de 15 anos depois, quando residia em Viena, mas sua estreia ocorreu em Praga em 1908.

Depois disso, os tchecos mantiveram uma tradição de interpretação de Mahler mesmo quando suas obras eram menos lembradas lá por 1930, 1940… e Vaclav Neumann fez parte da geração de maestros – junto com Lenny Bernstein, Rafael Kubelík, Bernard Haitink e, um pouco depois, Claudio Abbado e Evgeny Svetlanov – que, pouco após a 2ª Guerra, foram responsáveis por inúmeros sucessos de público e de crítica que colocaram as sinfonias de Mahler definitivamente nos programas orquestras em todo o mundo.

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 7
1. 1. Langsam Allegro risoluto, ma non troppo
2. 2. Nachtmusik. Allegro moderato
3. 3. Scherzo. SchattenhafT
4. 4. Nachtmusik. Andante amoroso
5. 5. Rondo-Finale. Allegro ordinario
Vaclav Neumann, Gewandhausorchester Leipzig
Recording: 1968

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Václav Neumann (1920-1995)

Pleyel

Olivier Messiaen (1908-1992): Poèmes pour Mi, Chants de terre et de ciel, La mort du nombre (Barbara Hannigan, Bertrand Chamayou)

Barbara Hannigan é uma das poucas grandes cantoras hoje em atividade que se arriscam nesse tipo de repertório: Messiaen, Schoenberg, Hindemith, Berio…
Uma influência para que ela se aventurasse por esses compositores foi a sua longa parceria musical com o maestro , pianista e compositor holandês Reinbert de Leeuw (1938 – 2020). Neste disco lançado em 2024, Hannigan escolheu o repertório de um compositor bastante associado ao seu antigo parceiro holandês, mas com um novo parceiro, agora um francês… mas deixemos que ela conte a história:

Eu ouvi Bertrand Chamayou pela 1ª vez em um concerto na Maison de Radio France, em Paris. Era 2015 e, esperando minha vez de cantar, pois eu também estava no programa, em esperava na cochia. Bertrand tocava Ravel e eu escutei um legato de um tipo que eu nunca tinha escutado antes. Era líquido e hipnótico. Eu me perguntava como deviam ser os movimentos das suas mãos que eu não via. Como ele fazia para dar ao fraseado uma tal fluidez? Mais tarde naquela noite, nós fomos apresentados e ficamos um tempo conversando, principalmente de cozinha.

Didier Martin, diretor da Alpha Classics, passou por Bertrand por acaso um pouco após aquele concerto, em um café de Paris. Segundo as palavras de Bertrand: “Didier me perguntou o que eu gostaria de tocar com você, e eu respondi espontaneamente: Messiaen”

Didier me repassou essa informação. Ele tinha a sensação de que Bertrand e eu adoraríamos trabalhar juntos e eu segui seu conselho. Na época, meu querido amigo e mentor, Reinbert de Leeuw, acompanhava ainda todos os meus recitais, embora sua saúde já declinasse e nós percebêssemoe que os dias de música juntos não seriam ilimitados. Em 2017, Reinbert e eu fizemos nossa última gravação (Vienna: Fin de Siècle) e nossa última grande turnê de recitais. Era difícil pensar em perdê-lo como amigo e companheiro musical.

Bertrand e eu nos encontramos novamente em Londres em 2019 e, dessa vez, não falamos só de cozinha. Respirei fundo e propus que nós fizéssemos um programa Messiaen. E mãos à obra: animados e nervosos frente ao desafio que nos esperava, nós devíamos primeiro aprender a linguagem dessa música tão particular: o diálogo e o desenvolvimento das tonalidades, a superposição complexa de motivos rítmicos e os diferentes sentidos das palavras. Esses primeiros dias marcaram o início da nossa amizade musical. Nós fomos bastante longe naquelas primeiras 72 horas, encontrando juntos nosso caminho na música. Reinbert de Leeuw disse uma vez; “Messiaen tem uma clareza, o caráter é extremamente pessoal e claro, e se torna natural. Isso se torna logo natural…”
(traduzido do libreto do CD)

Olivier Messiaen (1908-1992):
Chants de terre et de ciel, para soprano e piano
Poèmes pour Mi, para soprano e piano
La mort du nombre, para soprano, tenor, violino e piano*
Barbara Hannigan, soprano
Bertrand Chamayou, piano
Charles Sy, tenor*
Vilde Frang, violino*

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Continuando o estilo “pague um, leve um monte” da postagem de Messiaen da semana passada, aqui estão outras postagens reativadas de obras do francês para piano solo e para órgão:

As 20 olhadelas para o menino Jesus, por Håkon Austbø aqui

As obras completas para órgão por Jennifer Bate, gravadas sob supervisão do compositor – os 6 CDs aqui

O órgão de Olivier Messiaen (1908-1992) ao vivo em Amsterdam – aqui

Olivier Messiaen quando as entradas na testa ainda eram pequenas

Pleyel

Olivier Messiaen (1908-1992): Réveil des oiseaux / Trois petites liturgies de la présence divine

“Foram os pássaros que me levaram à superposição de andamentos. Na primavera, quando os pássaros acordam de madrugada, cada um canta em um andamento. Cinquenta vozes se superpõem em andamentos diferentes. O resultado é um caos absolutamente impenetrável, um emaranhado prodigioso, que no entanto soa harmonioso. É isso que eu quis recriar em minha música” Olivier Messiaen

Os cantos de pássaros já tinham sido usados pelos compositores franceses mais importantes dos séculos 17 e 18, Couperin e Rameau. Depois, aparecem nas obras de Beethoven (Sinfonia Pastoral), Mahler (várias sinfonias), Stravinsky (Pássaro de Fogo, Canto do Rouxinol), Villa-Lobos (Uirapuru, Bachianas nº 4). Mas foi Messiaen que fez da notação de cantos de pássaro uma ciência complexa, rigorosa e sofisticada. A partir dos anos da 2ª Guerra ele não se cansou de usar, de maneiras variadas, os cantos dos pássaros em obras como:

Quatuor pour la fin du Temps (quarteto para o fim do tempo ou dos tempos) de 1940-41 para clarinete, violino, violoncelo e piano
Trois petites liturgies de la présence divine, de 1943-44 para coro feminino, piano solo, percussão e orquestra de cordas
Vingt regards sur l’Enfant-Jésus (20 olhares sobre o menino Jesus), de 1944 para piano
Turangalîla-Symphonie, de 1946-9, para piano solo, ondas Martenot e orquestra
– 4º movimento da Messe de la Pentecôte (Missa de Pentecostes), de 1948-50, para órgão e pouco depois, 4º e 7º movimentos do Livre d’orgue, de 1951
Le Merle noir (o melro-preto), de 1952, para flauta e piano
Réveil des oiseaux (despertar dos pássaros), de 1953, para piano solo e orquestra
Oiseaux exotiques (pássaros exóticos), de 1955-56, para piano solo e pequena orquestra
Catalogue d’oiseaux (catálogo de pássaros), de 1956-59, para piano

E Messiaen continuou estudando os pássaros até pouco antes de sua morte em 1992. A 1ª obra que ouvimos aqui, Le Réveil des Oiseaux, evoca os sons dos pássaros em uma manhã de primavera da meia-noite ao meio-dia, e foi gravada por um time de respeito que inclui na regência e no piano Kent Nagano e Yvonne Loriod (ambos ex-alunos de Messiaen e ela acabou se casando com ele).

A 2ª obra, Três pequenas liturgias da presença divina, estreou em 1945 pouco após o fim da ocupação alemã de Paris e alguns dias antes do fim  da guerra. Segundo relatos, as Três liturgias dividiram o meio musical de Paris em dois grupos opostos, um de entusiasmo delirante, outro de insultos violentos, confundindo o homem e a obra. Provavelmente o clima bélico do fim da guerra foi responsável por essa disputa que, segundo Claude Rostand, não era vista desde os dia áureos de Stravinsky.

Nesta obra os cantos de pássaros são mais nítidos no piano, enquanto um coro feminino canta palavras de Messiaen, que provavelmente foram o principal alvo das críticas na época, mais do que a música em si. Entre outras coisas, elas cantam que a presença divina se encontra nas estrelas, no arco-íris, nos anéis de Saturno, nas nossas células e sangue. O próprio Rostand foi um dos críticos mais ferozes mas depois deu o braço a torcer. Em 1957 ele escreveu: “a linguagem polimodal e o refinamento rítmico habituais do autor aqui são levados mais longe do que antes. A sutileza dos timbres é muito grande. O poema é de Messiaen, rimado e ritmado como a música. A partitura busca a diversidade por modulações polimodais e polirítmicas. A instrumentação é de estilo hindu ou balinês europeizado”.

Como estamos em família, nas Trois Liturgies temos ainda a cunhada do compositor, Jeanne Loriod, um dos maiores expoentes das ondas martenot, instrumento eletrônico inventado em 1928 que tem um som contínuo e foi usado em trilhas sonoras de filmes como Ghostbusters e por bandas como Radiohead e Daft Punk.

Ondes Martenot: música eletrônica desde 1928
Ondes Martenot: música eletrônica desde 1928

Réveil des Oiseaux
1. Minuit
2. 4 Heures du matin
3. Chants de la matinée
4. Cadenza finale du piano

Trois petites liturgies de la présence divine
5. I – Antienne de la conversation intérieure (Dieu est présent en nous…)
6. II – Séquence du verbe, cantique divin (Dieu présent en lui-même…)
7. III – Psalmodie de l’Ubiquité par amour (Dieu présent en toutes choses…)

Orchestre National de France, Kent Nagano
Piano: Yvonne Loriod
Ondes Martenot: Jeanne Loriod, Coro: Maîtrise de Radio France (faixas 5 a 7)

BAIXE AQUI – mp3 (DOWNLOAD HERE – mp3)

“Eles cantaram muito antes de nós. E inventaram a improvisação coletiva, pois cada pássaro, junto com os outros, faz um concerto geral” Messiaen
“Eles cantaram muito antes de nós. E inventaram a improvisação coletiva, pois cada pássaro, junto com os outros, faz um concerto geral” Messiaen

P.S. Esta é uma respostagem e, além deste disco, também reativei os links para download das seguintes obras de Messiaen:
O quarteto em impressionante gravação por músicos espanhóis – aqui
“Des Canyons aux étoiles…” por Chung e Muraro – aqui
Sinfonia Turangalîla por Chung e Loriod – aqui

Pleyel (2018, repostado em 2025)

Béla Bartók (1881-1945) – Dance Suite, Hungarian Peasant Songs, Roumanian Folk Dances, 3 Rondos – András Schiff

Assim como a obra de Beethoven, a de Bartók também tem suas fases, ainda que talvez não tão nitidamente demarcadas.

Entre 1899 e 1903 ele estudou na Real Academia de Música de Budapeste. Estudou piano com um aluno de Liszt e composição com um compositor e organista alemão, primo de Max Reger. Mas o grande período de aprendizado talvez tenha sido de 1908 a 1914 quando, junto com Kodaly, ele se dedicou a estudar e coletar melodias folclóricas húngaras, romenas e de vários outros povos da Europa do leste. Uma inovação tecnológica foi essencial: Bartók gravava essas melodias in loco, ao invés de usar papel e caneta, única tecnologia disponível para os compositores do século XIX.

E como muitos gênios, ele precisou negar em bloco o passado, no caso, ele dizia que o grande compositor das rapsódias húngaras usava temas vagamente ciganos e italianizados, de forma que pouca coisa das Rapsódias Húngaras seria realmente húngara: “Devo frisar que as rapsódias – especialmente as húngaras – são criações perfeitas no gênero. O material que Liszt nelas utiliza não poderia ser tratado com maior arte e beleza. Que o material em si não seja dos mais ricos é outro problema” (Bartók em artigo de 1936). Bartók também não poupou o mais famoso compositor polonês: “As Mazurkas de Chopin são prova de que ele não conhecia a autência música folclórica polonesa”. Entendo nessas citações um certo ar sarcástico do mochileiro que rodou por tantos cantos e não consegue mais admirar aqueles compositores estabelecidos que ficaram na ponte Paris-Viena tomando bons vinhos em salões burgueses.

Com a 1ª Guerra Mundial, as viagens ficaram mais difíceis e Bartók, que tinha o piano como seu 1º instrumento, compôs muita música em movimentos curtos, baseados em música folclórica, como as Quinze Canções Populares Húngaras, Sz. 71 (1914-18) ou os Três Rondós sobre temas eslovacos, Sz. 84 (1916-1927).

São obras desse período – década de 1910 e começo da de 20 – que András Schiff escolheu gravar neste álbum. A partir da década de 1926, Bartók integraria os temas populares em movimentos mais longos, com mais dissonâncias e clusters como na Sonata para Piano (1926) e nos Concertos para Piano e Orquestra nº 1 (1926) e 2 (1931).

Béla Bartók (1881-1945) – Obras para piano

1. Dance Suite, Hungarian Peasant Songs, Sz.77   16:46
2. Roumanian Folk Dances Sz.56   4:44
3. Three Rondos On Folk Tunes Sz.   84 7:45
4. 15 Hungarian Peasant Songs Sz.71   12:43

András Schiff – Piano

DOWNLOAD HERE – BAIXE AQUI

Béla Bartók

P.S. Postagem reativada e também reativei o link para as Danças Romenas (Sz. 56), as mesmas que Schiff gravou aqui, mas na versão para violino e piano.

Pleyel (2021)

Poulenc: Les Biches / Dutilleux – Le Loup / Milhaud: La Création du monde (Georges Prêtre)

Existem discos que são da família, que nos acompanham há anos seja em LP, CD, arquivos digitais… Tenho essa gravação de três balés franceses do século XX em um belo LP com essa mesma capa que parece de livro infantil. A partitura de Dutilleux, um pouco menos célebre que a de Milhaud, é extremamente bonita e às vezes soa previsível como um bom balé, bem distante dos sons mais áridos da maioria dos compositores do pós 2ª Guerra.

As obras de Poulenc e Milhaud foram estreadas na década de 1920. A de Poulenc poderia ser traduzida como “as coquetes” e é um balé sem argumento teatral, baseado apenas na livre e sensual dança das bailarinas. A de Milhaud, inspirada no jazz que ele ouviu em Nova York nos anos 1920, posterior, portanto, à sua primeira obra carregada de exotismo e de pequenos roubos de melodias de brasileiros, Le Boeuf dans le toit (1920)

Já a obra de Dutilleux é bem posterior, tendo sido estreada em 1953, também em Paris.

Francis Poulenc: Les Biches – Suite d’Orchestre (Ballet: 1924 / Suite: 1948)
1. Rondeau
2. Adagietto
3. Rag-Mazurka – Andantino
4. Final
Henri Dutilleux: Le Loup – Fragments Symphoniques
5. 1er Tableau – La Baraque Foraine : Les Mystifications
6. 2ème Tableau – La Chambre Nuptiale : La Belle et la Bête
7. 3ème Tableau – La Forêt d’Hiver : Danse d’Amour, Danse de Mort
Darius Milhaud: La Création Du Monde (1923)
8. La Création Du Monde
Orchestre De La Société Des Concerts Du Conservatoire, Georges Prêtre
Recorded: 1961

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Darius Milhaud

Pleyel

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 6 (Svetlanov)

A sexta sinfonia de Mahler ganhou o apelido de Trágica, e não é por acaso: o clima geral é sério, com o movimento lento servindo como um respiro de calmaria antes da tempestade. Nesta sinfonia, do meu ponto de vista, o mais importante é que maestro e orquestra consigam mantes uma atmosfera de seriedade, além da gravação que precisa trazer de modo balanceado os vários naipes orquestrais, com destaques em certos momentos para as cordas graves (violoncelos e contrabaixos), especialmente no último movimento. Svetlanov e seus músicos e equipe de gravação cumprem com louvor as tarefas, colocando-se no mesmo nível de outras grandes gravações dessa sinfonia. Um ponto muito alto dessa integral que talvez tenha menos acertos nas sinfonias com voz e mais acertos naquelas puramente instrumentais. No mínimo na 1ª, na 5ª, na 6ª e na 9ª as interpretações dos russos são muito bem executadas e com certos detalhes que fogem um pouco do óbvio, sempre com muita coerência e respeito pelas partituras.

É a minha opinião, é claro que outras opiniões vão variar e há quem prefira a sexta de Bernstein, Boulez ou mesmo Karajan, que não era um especialista em Mahler mas tinha certa afinidade com a 5ª e a 6ª.

Chegamos ao fim dessa integral postada ao longo de oito anos no blog. Vou inserir no final da postagem os links para todas as sinfonias de Mahler gravadas por Svetlanov, todas elas com links funcionando.

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 6 (1906)
I. Allegro energico, ma non troppo. Heftig, aber markig
II. Scherzo: Wuchtig
III. Andante moderato
IV. Finale: Sostenuto – Allegro moderato – Allegro energico
Russian State Symphony Orchestra
Evgeny Svetlanov, conductor
Recording: Moscow, Large Hall of the Conservatory, 1990

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1ª Sinfonia – aqui
2ª Sinfonia – aqui
3ª Sinfonia – aqui
4ª Sinfonia – aqui
5ª Sinfonia – aqui
6ª Sinfonia – aqui mesmo
7ª e 10ª Sinfonia – aqui
8ª Sinfonia – aqui
9ª Sinfonia – aqui

Um café da manhã da família Mahler

Pleyel

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 3 (Svetlanov)

Mais uma gravação de Svetlanov fazendo Mahler com músicos russos, mezzo-soprano russa, coro russo. Há momentos muito bons aqui, mas tanto os músicos como a cantora não alcançam as sublimes sonoridades da 3ª por Haitink, tanto a primeira com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam em 1966 (aqui) como a última com a Orquestra da Rádio Bávara em 2016 (aqui).

Esta sinfonia, a mais longa do repertório sinfônico usual e atualmente uma das mais amadas pelos especialistas, se baseava inicialmente em um programa relacionado a uma relação panteista do ser humano com o mundo natural, relação que é alegre na maior parte do tempo mas alcança um momento de pensativo desespero no breve 4º movimento com solo de mezzo-soprano. As palavras ali são do Zaratustra de Friedrich Netzsche, que naquela década de 1890 alcançava ao mesmo tempo grande fama como escritor e, pessoalmente, vivia seus últimos anos internado com neurossífilis.

Múltiplas fontes indicam que Mahler era um leitor atento de Nietzsche, assim como de literatura russa, tendo recomendado a Schoenberg que estudasse menos contraponto e lesse mais Distoievsky. Em 1892, um ano antes de Gustav Mahler iniciar esta 3ª Sinfonia (que ele concluiu em 1896), uma publicação em Leipzig pelo Dr. Max Zerbst afirmava, sobre a popularidade do autor de O Nascimento da Tragédia e da Genealogia da Moral:

“Há dois Nietzsches. Um é o mundialmente famoso ‘filósofo na moda’, o brilhante poeta e mestre soberano da língua alemã e do estilo, de quem todos falam na atualidade e em cuja obra algumas frases de efeito mal-compreendidas se transformam em duvidoso patrimônio comum das pessoas ‘cultivadas’.” O outro Nietzsche corresponderia à real essência do autor, que ele (Zerbst) e seus colegas eruditos compreendiam ou pretendiam compreender. Se Mahler compreendia bem ou mal o filósofo, isso já é assunto para os biógrafos e, no fundo, um detalhe pouco relevante.

Imaginemos, em todo caso, que a leitura do irônico e inquieto Nietzsche ajudou Mahler a se afastar da pompa majestosa da música sinfônica da sua época (Wagner, Bruckner, Strauss…) Ou melhor dizendo: Mahler utiliza, quando lhe convém, os meios orquestrais lapidados por Wagner e Bruckner, aquelas sonoridades ainda mais brilhantes, grandiosas e luxuosas que as de Beethoven. Mas ele alterna, em cada uma de suas obras, essa orquestra grandiosa com momentos camerísticos, canções populares, de modo que o luxo parece conviver lado a lado com melodias que se ouvia na rua.

Em cada uma das suas sinfonias, e mais ainda nesta longa Terceira que às vezes parece uma versão secularizada da grandiosa Criação de Haydn, há momentos grandiosos, elevados, emocionantes. Mahler deixa claro que estudou bem as orquestrações de Berlioz e Wagner. Mas também, em cada uma das sinfonias, há quebras nessas espectativas monumentais. Em uma introdução para uma edição das canções (Lieder) de Mahler, Richard Specht mostra esse caráter duplo de Mahler:

“Nos séculos passados devia ser assim que cantavam soldados, pastores e camponeses nas feiras das pequenas cidades” e ao mesmo tempo a “admirável instrumentação alcança uma delicadeza, uma variedade no colorido orquestral que só a nossa época [Specht morreu em 1930], posterior a Wagner e a Berlioz, poderia conseguir.”

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 3 (1896)
1. Kräftig. Entschieden (Strong and decisive) D minor to F major
2. Tempo di Menuetto Sehr mässig (In the tempo of a minuet, very moderate) A major
3. Comodo (Scherzando) Ohne Hast (Comfortable (Scherzo), without haste) C minor to C major
4. Sehr langsam—Misterioso (Very slowly, mysteriously) D major
5. Lustig im Tempo und keck im Ausdruck (Cheerful in tempo and cheeky in expression) F major
6. Langsam—Ruhevoll—Empfunden (Slowly, tranquil, deeply felt) D major
Russian State Symphony Orchestra
Evgeny Svetlanov, conductor
Olga Alexandrova, mezzo-soprano
Recording: Moscow, Large Hall of the Conservatory, 1994

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Svetlanov (1928-2002), grande especialista no repertório romântico tardio (Tchaikovsky, Glazunov, Mahler)

Pleyel

.: interlúdio :. Terry Riley (nasc. 1935): Shri Camel (1980)

Riley foi um dos pioneiros do que hoje chamamos minimalismo, mas também sempre esteve próximo do jazz e do improviso, de forma que é difícil saber se o álbum de hoje é um .:interlúdio:. ou não. E isso é só um detalhe, o que importa mesmo é a música, né?

Após ganhar uma certa notoriedade nos anos 1960, Terry Riley fez muitos shows solo tocando teclados em efeitos de overdubs e loops semelhantes aos do álbum A Rainbow in Curved Air (1968). Em alguns casos, com participações especiais notáveis, como a do trompetista Don Cherry (aqui). Gravado em estúdio em 1978, Shri Camel é um álbum que mostra os caminhos pelos quais os improvisos de Riley costumavam passear. Há momentos mais lentos, outros com sons pululando por todos os lados e, em todos os casos, as paisagens sonoras são profundamente originais e seriam copiadas por gente menos talentosa nos anos seguintes.

Terry Riley (nasc. 1935): Shri Camel
listing
1. Anthem of the Trinity – 9:25
2. Celestial Valley – 11:32
3. Across the Lake of the Ancient World – 7:26
4. Desert of Ice – 15:13

Riley – “modified Yamaha YC-45D combo organ tuned in just intonation and augmented with studio digital delay”

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Pleyel

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 1 (Svetlanov)

Conheci algumas das gravações de Mahler pelas postagens de PQP Bach alguns anos atrás e, ao perceber que faltavam três sinfonias para termos aqui o ciclo completo, resolvi preencher esta lacuna em nosso acervo. São gravações de peso realizadas nos anos 1990 pelo maestro com sua orquestra de nome recém alterado após o fim da União Soviética.

As orquestras russas regidas por Svetlanov, Rozhdestvensky e Mravinsky na segunda metade do século XX tinham frequentemente uma sonoridade bem característica com intensidade emocional sem cair para o romantismo cafona, além do som de certos instrumentos sutilmente diferentes de seus equivalentes ocidentais, me parece que principalmente os metais.

Esse tipo de intensidade emocional é importante nas sinfonias de Mahler, marcadas pelos contrastes. Mahler alterna entre momentos monumentais com grande orquestra típica do fim do século XIX seguidos por momentos suaves e íntimos. Talvez devido aos seus longos anos de experiência como maestro (portanto, como alguém que sabia o que “funcionava” com o público, no mesmo sentido em que um humorista com anos de teatro sabe as piadas que mais “funcionam”), ele brinca com as quebras de expectativas, ao contrário da música de Bruckner em que esperamos grandiosidade e temos exatamente o que esperamos. É bom lembrar também que Mahler conheceu Bruckner em Viena e tinha grande respeito por ele, então esse diferença, mesmo que radical e profunda, não significa desprezo.

Mais um detalhe sobre a interpretação dos russos: no 3º movimento, uma reconstrução lenta e triste da canção infantil “Frère Jacques” (ou “Bruder Jacob”), alguns maestros e orquestras levam o negócio mais na brincadeira e com andamentos mais rápidos, mas Svetlanov aqui leva mais a sério, embora com trechos contrastantes de tranquilidade.

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 1 (1889)
1. Langsam, schleppend (Slowly, dragging)
2. Kräftig bewegt, doch nicht zu schnell (Moving strongly, but not too quickly)
3. Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen (Solemnly and measured, without dragging)
4. Stürmisch bewegt – Energisch (Stormily agitated – Energetic)

Russian State Symphony Orchestra
Evgeny Svetlanov, conductor
Recording: Moscow, Large Hall of the Conservatory, 1992

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Pleyel

Enrique Granados (1867-1916): Goyescas (Larrocha, Magaloff)

Postagem de 2022, links consertados. Foi com surpresa que constatei que neste blog, ativo desde 2006, jamais tinha sido postado o ciclo para piano Goyescas, composto pelo catalão Enrique Granados entre 1909 e 1911, com um post-scriptum (El Pelele) de 1914. Granados evoca a atmosfera das pinturas do também espanhol Francisco Goya (1746-1828). Para dar um jeito nisso, trago hoje não uma, mas duas gravações antológicas dessa obra, por dois respeitados pianistas da geração dos nossos pais e avós, para vocês fazerem suas comparações.

Goya: El amor y la muerte (1797)

A gravação de Nikita Magaloff (1912-1992), que ficou um tempo esquecida e foi relançada há poucos anos pela Decca, é um tesouro apesar do som que mostra sua idade. Assim como comentamos recentemente sobre o Ernesto Nazareth gravado por Proença e Moreira Lima, grandes intérpretes de Chopin, aqui também temos um chopinista de primeira linha se aventurando por esse repertório espanhol. O resultado é um Granados com um romantismo bem mais elegante, dançando de sapato social em um salão à luz de velas, com ritmos muito originais mas sem perder a pose, como quem diz: eu só transgrido e inovo porque me adequo. Não é só a minha impressão, mas também a dos americanos do Record Guide em 1955: ‘The Goyescas are an exhibition of fine manners, and it is as such that Nikita Magaloff plays them. His dexterity, the clarity of his decorations, the subtle variety of his rhythms, are a delight to listen to.’

E com uma concepção geral totalmente diferente, temos a gravação de Alicia de Larrocha (1923-2009), a terceira, pois ela já tinha gravado duas vezes esse ciclo, nas décadas de 1950 e 70. Se Magaloff trazia um Granados, digamos, de terno e gravata, Alicia traz outras cores, vestidos coloridos e flores no cabelo, podemos dizer que é uma interpretação mais solta, dançante, com os pés no chão de terra como algumas das cenas ao ar livre pintadas por Goya.

Enrique Granados (1867-1916), interpretado por Nikita Magaloff
1-6. Goyescas (Los Majos Enamorados) (1909-1911)
I. Los Requiebros, II. Coloquio en la reja, III. El Fandango de candil, IV. Quejas ó la maja y el ruiseñor, V. El amor y la muerte: Balada, VI. Epílogo: Serenata del espectro
7. El pelele: Escena Goyesca (1914)

Nikita Magaloff, piano
Recording: Victoria Hall, Geneva, Switzerland, November 1952 (Goyescas: Book I, El pelele), October-November 1954 (Goyescas: Book II)

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Enrique Granados (1867-1916), interpretado por Alicia de Larrocha
1. Allegro de concierto (1904)
2. Danza lenta (1915)
3-8. Goyescas (Los Majos Enamorados) (1909-1911)
I. Los Requiebros, II. Coloquio en la reja, III. El Fandango de candil, IV. Quejas ó la maja y el ruiseñor, V. El amor y la muerte: Balada, VI. Epílogo: Serenata del espectro
9. El pelele: Escena Goyesca (1914)

Alicia de Larrocha, piano
Recording: New York City, USA, December 4-6, 1989; April 11, 1990.

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Goya: El Pelele (1792) – O Pelele espanhol é um espantalho, mas utilizado em danças, procissões e em janelas, não é daqueles que espantam pássaros

Pleyel

Rued Langgaard (1893-1952): Insektarium / Nas luzes fracas do outono / Sombras / Le Beguinage – Obras para piano vol. 3 (Tange)

Aqui Langgaard equilibra-se com um pé atrás e outro à frente do seu tempo. Na obra Insektarium, de 1917, temos um dos primeiros usos de técnicas expandidas de piano: sim, aquelas em que o pianista encosta nas cordas do instrumento e outras coisas do tipo.
E em outras peças com títulos poéticos como “Nas luzes fracas do outono” e “Como um ladrão à noite”, Langgaard atualiza o piano romântico de Schumann e de Liszt como ele já havia feito nas obras postadas há dois anos aqui. Atualiza, ou seja, traz sua própria voz, pois ele raramente soa como um imitador dos clássicos do século anterior. E, ao mesmo tempo – com exceção dos momentos de piano expandido – há um certo modo-de-ser romântico que é uma das marcas de Langgaard.

Impressionante, então, que Langgaard seja tão pouco tocado. Um segredo que só os dinamarqueses conhecem.

Rued Langgaard:
1. Som En Tyv On Natten (As a Thief in the Night), BVN 211a (1930)
2-10. Insektarium, BVN 134 (1917)
I. Forficula auricularia: Tempo ad libitum
II. Acridium migratorium: Mosso! Mosso!
III. Melontha vulgaris: Rubato
IV. Tipula oleracea
V. Libelulla depressa: Presto
VI. Anobium pertinax: Tempo ad libitum
VII. Musca domestica: Agitato – Slowly – [Tempo I]
VIII. Julus terristis: Prestissimo
IX. Culex pipiens
11. Skyggeliv (Shadow Life), BVN 307 (1914-1945)
12. I Det Blafrende Efteraarslygteskaer (In The Flickering Autumn Lamplight), BVN 206 (1933)
13-17. Le Béguinage, BVN 369 (1949)
18-20. Chiesa madre, BVN 367 (1949)
21. Sponsa Christi tædium vitæ, BVN 297 (1944)

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Langgaard quando (muito) jovem

Pleyel

Terry Riley (1935) – 90 anos – In C (na California e no Mali)

Terry Riley no Japão, onde ele vive atualmente

Nascido em 24 de junho de 1935 na California, Terry Riley é certamente um dos quatro ou cinco mais importantes compositores vivos neste planeta. Mas ao contrário de outros vivos ou recentemente falecidos como Sofia Gubaidulina, Arvo Pärt e Valentyn Silvestrov, Riley compôs pouca coisa para as formações usuais no mundo da música de concerto, como orquestra, piano solo, etc. Na verdade ele até tem algumas obras nesse sentido mais comum da palavra “obra”, especialmente para quarteto de cordas após longa colaboração com o Kronos Quartet (postados por PQP e FDP aqui e aqui). Mas durante a maior parte da sua vida, e creio que também a parte mais interessante, ele se dedicou a obras fortemente ligadas ao improviso, ao sabor do momento, seja com teclados e loops de fitas, seja com instrumentos acústicos. Na década de 1970 e 80 ele, como se fosse um jovem estudante, seguia em turnês o cantor indiano Pandit Pran Nath (1918-1996) meio como um aprendiz segue um guru. Riley, então, acaba sendo um pouco esquecido como compositor sério por ter sua vida tão marcada por esse sentido forte do improviso que também é inseparável de outros estadunidenses como John Coltrane e Keith Jarrett (e aqui um parêntese: nós brasileiros seríamos bem estúpidos ao dizermos que esses americanos do norte inventaram a música improvisada do século XX e XXI, é claro que ela está em muitos lugares do planeta, a música escrita europeia é bem mais exceção do que regra).

In C, composta em 1964, é a obra de Terry Riley mais tocada e gravada até hoje. Estreada em San Francisco por um grupo de músicos próximos a Riley, a peça é composta de fragmentos que se misturam de maneira diferente em cada performance: além disso, pode ser tocada por instrumentos diferentes, o que aumenta o sabor único de cada versão. A influência do improviso do jazz sobre um compositor nascido nos EUA é mais ou menos óbvia então nem precisamos explicar mais, né? Em 1967 e 68, In C recebeu as primeiras performances em Nova York e Londres, sendo descrita como hipnótica e altamente original. Em 1969 Alexei Lubimov organizou a estreia da peça na União Soviética e na plateia estava gente como Sofia Gubaidulina e Alfred Schnittke.

Aqui, temos as minhas duas gravações preferidas da obra: a primeira gravada em San Francisco, mesma cidade onde In C havia estreado 25 anos antes. O grupo é conduzido pelo compositor, que também canta. A outra gravação, sem a participação direta de Riley, é mais distante do espírito original, mas tenho certeza de que agradou ao compositor: o grupo é formado majoritariamente por músicos africanos que dão um toque todo especial nas percussões e nas vozes cantadas, mas há também dois ou três europeus, incluindo o veterano Brian Eno.


Terry Riley: In C
25th anniversary Concert

Recorded in San Francisco, USA (1990)

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Terry Riley: In C
Africa Express

Recorded in Bamako, Mali and Berlin, Germany (2014)

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Terry Riley tomando champagne – será que ele vai comemorar os 90 com uma taça? Talvez duas…

Pleyel

J. S. Bach: 7 Toccatas BWV 910-916 (C. Jaccottet, cravo)

Após repostar os discos que aparecem logo abaixo neste blog, com as Toccatas de Bach em pianos modernos, resolvi ouvir no Youtube algumas gravações de cravistas. Pinnock: muito bom. Esfahani: muito bom. Até aí, nenhuma surpresa. A surpresa veio com essa gravação feita nos anos 1990 pela cravista suíça que não é tão famosa assim. Os mais velhos talvez se lembrarão do nome dela acompanhando Arthur Grumiaux nas sonatas de Bach para violino e cravo. Mas as gravações solo dela parecem ser um segredo guardado por poucos aficcionados.

Os timbres do cravo variam bastante entre as toccatas. Assim como os andamentos. Como alguém que ouviu com alguma atenção as várias toccatas de Alessandro Scarlatti (aqui), dou o meu palpite sobre esse enigmático gênero barroco: não se trata de exercícios para demonstrar virtuosismo. Não se trata de “se amostrar”. A grande questão na toccata é a liberdade da fantasia, o inesperado, a surpresa: pouco adianta analisar a competência (ou incompetência) do contraponto nos momentos fugato – há uma entrevista de Gould, citada no libreto do disco recém re-postado, na qual ele critica o contraponto do jovem Bach autor das toccatas em comparação com o autor maduro do Cravo Bem Temperado. Esse tipo de crítica é bem irrelevante quando se trata de toccata barroca: o importante aqui é a invenção, até um certo gosto pelas colagens de trechos que não combinam muito entre si: aqui uma fuga, ali umas escalas soltas, depois uma parada dramática seguida de nova fuga… Estamos longe das grandes formas cheias de simetrias e estamos perto do… coração? ou ao menos perto da liberdade dos dedos do cravista J.S. Bach, mas dedos que – repito – estão menos preocupados em se amostrar e mais preocupados em se divertir.

J.S. Bach: Toccatas
1. Toccata BWV 910
2. Toccata BWV 911
3. Toccata BWV 912
4. Toccata BWV 913
5. Toccata BWV 914
6. Toccata BWV 915
7. Toccata BWV 916

Christiane Jaccottet, cravo

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Estátua de Bach em Weimar, onde ele provavelmente escreveu as Toccatas

Pleyel

Grieg (1843-1907): Concerto para piano / Falla (1876-1946): Noches en los jardines de España / Chopin (1810-1849): 1º Concerto, Scherzi, etc – The Romantic Novaes

No mínimo uma crítica negativa pode ser feita a Guiomar Novaes: seu repertório praticamente parou no romantismo. Se no piano solo ela até tocava alguns brasileiros contemporâneos a ela (Villa-Lobos, Mignone…), com orquestra não creio que ela tenha tocado os concertos de Ravel, Prokofiev, Scriabin ou Gershwin.

Ou seja, mais uma razão para você parar o que está fazendo e baixar esse CD. Aqui, Guiomar toca os ultrarromânticos concertos de Grieg e de Chopin e dois Scherzos do polonês, que apesar do nome têm pouco de alegre: “Como se vestirão suas obras graves, se a piada já está sob véus negros?”, escreveu Schumann sobre esse 1º Scherzo, publicado com o subtítulo O Banquete Infernal.

Mas deixemos o romantismo de lado, a raridade aqui é Guiomar interpretando a música espanhola de Falla, mais influenciada por Debussy e Ravel do que pela estética romântica. As impressões sinfônicas Noches en los jardines de España foram compostas em 1915 quando Guiomar já tinha 21 anos. A obra, inspirada pela região Andaluzia, tem grandes variações de timbre e dinâmica tanto para a orquestra como para o piano, permitindo à brasileira usar bem todo o seu talento, com afeto e sem afetação, como diz o monge Ranulfus.

Assunto para um artigo: Estereótipos femininos nas capas de Guiomar
Assunto para um artigo: Estereótipos femininos nas capas de Guiomar

CD 1

Edvard Grieg
Piano Concerto in A Minor, Op. 16
1. I. Allegro molto moderato
2. II. Adagio
3. III. Allegro molto moderato e marcato

Manuel de Falla
Noches en los jardines de España
4. I. En el Generalife
5. II. Danza lejana; III. En los jardines de la Sierra de Córdoba

Frédéric Chopin
6. Scherzo No. 1 In B Minor, Op. 20
7. Scherzo No. 3 in C-Sharp Minor, Op. 39

Trois nouvelles études
8. No. 1 in F Minor
9. No. 2 in A-Flat Major
10. No. 3 in D-Flat Major

CD 2
Frédéric Chopin
Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11

1. I. Allegro maestoso
2. II. Romanze
3. III. Rondo vivace

Piano Sonata No. 3 in B Minor, Op. 58
4. I. Allegro maestoso
5. II. Scherzo
6. III. Largo
7. IV. Finale: Presto non tanto

8. Berceuse in D-Flat Major, Op. 57
9. Impromptu in F-Sharp Major, Op. 36

Guiomar Novaes: Piano
Vienna Symphony Orchestra & Hans Swarowsky (CD 1, 1-5)
Bamberg Symphony Orchestra & Jonel Perlea (CD 2, 1-3)

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Link alternativo

Os americanos gostaram. E você? Comente!
Os americanos gostaram. E você? Comente!

Pleyel (postagem original de 2017)

.:interlúdio:. Keith Jarrett – Dark Intervals (1988)

O nome já avisa: um concerto improvisado bem mais noturno, por vezes melancólico ou reflexivo em comparação com outras gravações do pianista que fez 80 anos este mês. E alguns momentos de extrema beleza improvisada, talvez principalmente na primeira e na última faixa do álbum.

Keith Jarrett: Dark Intervals
A1 Opening 12:51
A2 Hymn 4:55
A3 Americana 7:10
A4 Entrance 2:54
B1 Parallels 4:56
B2 Fire Dance 6:50
B3 Ritual Prayer 7:10
B4 Recitative 11:16
Recording: Tokyo, April 11, 1987

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Keith Jarrett em 1987

Pleyel

.:interlúdio:. Keith Jarrett – Ruta and Daitya / Fort Yawuh (1973)

Dois álbuns lançados em 1973. Eles mostram uma parte dos diferentes interesses e talentos de Jarrett naquele período, e apenas uma parte, pois no mesmo ano ele também gravou In the Light (piano e orquestra) e Bremen/Lausanne (piano solo ao vivo).
Em Ruta and Daitya, músicos e gravadora enganaram o público: lançado como um disco novo, na verdade se tratavam de registros gravados por Keith Jarrett em duo com o baterista Jack DeJohnette em um estúdio em 1971, no meio de uma turnê com Miles Davis. Meses depois, primeiro o baterista e depois o tecladista sairiam da banda de Miles. A explicação é bem evidente: a ECM era uma gravadora bastante recente fundada na Alemanha e que queria se firmar (e se firmou) como um dos principais selos de jazz. Não ia pegar bem eles lançarem um disco anunciando: “ouçam aqui as fitas gravadas há dois anos que esses músicos não conseguiram lançar mas que nós aceitamos colocar no mercado.” Hoje, décadas depois, no site da ECM eles admitem a data de gravação do disco: maio de 1971. Em todo caso, não faria sentido esperar do Jarrett de 1973 aquelas sonoridades com órgão elétrico cheio de efeitos (pedais, fuzz, ecos…) quando já em 1972 ele muito raramente tocava instrumentos elétricos. Uma das últimas ocasiões foi em outubro de 72 na gravação de Sky Dive, liderado pelo trompetista Freddie Hubbard (aqui) e já naquela ocasião ele tocou piano acústico em metade do disco e, na outra metade, um piano elétrico (rhodes?) sem efeitos, bem mais limpo do que os sons deste álbum com DeJohnette. Aqui, Jarrett também toca flauta! E o diálogo entre os dois é único, improvisos em que parecem se comunicar por telepatia. Anos atrás, na seção de comentários deste nosso humilde blog, um leitor fez a seguinte resumo sobre o trio de Jarrett com o mesmo baterista:
Há vinte anos assisti a um concerto deles, aqui no Rio, e saí de lá com a certeza de que esse trio era um caso à parte na história do jazz. Jarrett, Peacock e DeJohnette tocam com uma simplicidade impressionante. Parece até uma conversa de amigos na mesa de um botequim (AP Silva)

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Ruta & Daitya – mp3 320kbps
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Ruta & Daitya – flac

Dewey Redman, Paul Motian, Keith Jarrett e Charlie Haden em alguma turnê nos anos 1970

Outro álbum lançado em 1973, este Fort Yawuh foi realmente gravado naquele ano, ao vivo (Village Vanguard, New York City). Lançado pela Impulse em LP e expandido na versão em CD de 1999 que é esta disponível aqui e provavelmente documenta o concerto inteiro. Aqui sim temos uma amostra do que Jarrett tocava em 1973: piano – só o acústico – e interessantes momentos tocando sax soprano, em dupla com o sax tenor de Dewey Redman que, aliás, toca também clarinete na última faixa.

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Fort Yawuh – mp3 320kbps
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Fort Yawuh – flac

Jarrett plays both acoustic and electric and this is one of the latest recording where he was using electric piano and organ, soon to be totally dedicated to the acoustic piano. DeJohnette plays wonderfully and the duo setting emphasizes his unusual approach to rhythm and his truly amazing musicality and ability to listen to his partners. This is a great chapter, although relatively unknown, in the history of these great musicians.
(Resenha por Jazzis em RateYourMusic)

.: interlúdio :. História Musical de Noel Rosa (1910-1937)

Na música clássica muito tem se falado em “interpretações historicamente informadas”, “instrumentos autênticos” etc. Pois este disco com 60 canções de um dos maiores sambistas de todos os tempos é autêntico até não poder mais: a cantora Marília Batista foi uma das intérpretes preferidas de Noel. Os arranjos são assinados por Guerra Peixe, que além de grande nome da nossa música clássica também  trabalhou por anos como arranjador em rádios do Rio de Janeiro e do Recife.

Ressalto dois pontos que são autênticos. Marília segue as letras de Noel palavra por palavra, por exemplo “com que roupa eu vou ao samba que você me convidou?” enquanto hoje todos cantam “pro samba”. E a pronúncia: duvido muito que os boêmios da Lapa ou de Vila Isabel falassem aqueles erres enrrrrolados no dia a dia. Acontece que a geração de Noel Rosa foi marcada pelo rádio e, naqueles anos 20 e 30, a transmissão não tinha a qualidade de áudio com que estamos acostumados, de modo que os cantores precisavam acentuar algumas consoantes e vogais para serem compreendidos. Outros sambistas cariocas da geração de Noel, como Cartola e Orlando Silva, também cantavam com erres enrolados, assim como a francesa Edith Piaf, famosa por seu “Non, je ne regrette rrrrrien”. Anos depois, uma geração nascida após 1930 chamaria atenção por cantar de um jeito diferente, suave, com sotaque igual ao da língua falada, e essas mudanças se deveram não só à genialidade de gente como o João Gilberto e a Nara Leão mas também aos avanços na tecnologia dos microfones, discos e rádios.

Neste upload o som é do relançamento em CD, as imagens são digitalizadas do LP original, que inclui textos como:

Morto Noel, Marília acabou preferindo emudecer também. O casamento, os deveres de mãe, talvez um certo desencanto pelo mercantilismo de que se ia eivando o ambiente da nossa música popular, terminaram por afastar a Princesinha do Samba dos microfones e dos estúdios de gravação. Mas havia um compromisso de deixar o seu depoimento musical sobre Noel Rosa e sua obra, gravando tudo quanto ele lhe transmitiu.
Noel por noel
A morte de Noel Rosa, de prematura que foi, colhendo-o em pleno apogeu de sua trajetória genial, fez sangrar fundamente o coração de nosso povo – que se sentia retratado (ou caricaturado) em quase todas as suas produções. Em consequência, as músicas de Noel começaram a ser cantadas num andamento diferente do original, um andamento por demais lento, quase lembrando balada, como se cada uma delas, de buliçosa e vibrátil que era, passasse a ter qualquer coisa de um “De Profundis” ou de um “Miserere”, gotejando lágrimas de mágoa e de saudade pelo seu finado criador. A verdade é que Noel Rosa foi, acima de tudo, sem sombra de dúvida, um trovador alegra, irônico, irreverente. Seus versos de amor nunca foram alambicados nem tangenciaram as elegias choramingas dos que só sabem lamentar-se.

O Noel Rosa que Marília Batista nos traz de volta é um Noel exato, autêntico, legítimo, com as suas músicas interpretadas tal e qual o próprio Noel lhas transmitiu. Apenas o que há agora (e no tempo de Noel ainda não havia) é a fabulosa riqueza da roupagem sonora, fruto dos mais modernos recursos de orquestração e da mais avançada técnica de gravação.

Ouvindo a nova música de Noel, orquestrada por Guerra Peixe, sentimos o brilhante talento do Poeta da Vila em toda a sua plena exuberância, vestindo a roupagem sonora que sempre havia merecido.

Visando a obtenção de um melhor equilíbrio no estilo e no andamento das 60 melodias programadas, foram elas reunidas em 12 grupos distintos, sucedendo-se as cinco músicas de cada grupo, umas às outras, sem interrupção. Para a gravação foi usada uma orquestra de cordas, com flauta, trombone, violão, basso e percussão, além de dois outros conjuntos: o primeiro, com flauta, trombone, violão, basso, dois clarinetes e percussão, e o outro com flauta, clarone, dois clarinetes, violão, basso e percussão. Em alguns grupos tivemos a participação de um grupo de coristas.

Assinalemos, também, a presença neste álbum de quatro sambas praticamente inéditos: O  maior castigo que eu te dou, Verdade duvidosa, Para atender a pedido e Cara ou coroa. Não temos notícia de que qualquer um deles tenha sido gravado. Sambista acima de tudo, Noel Rosa não desdenhava de ingressar nos domínios da marcha. Por isso, cinco delas aqui aparecem, reunidas num grupo, Cidade mulher, Você por exemplo, Pierrot apaixonado, A-e-i-o-u Pastorinhas ou Linda Pequena.

Verde-amarelo como os que mais o fossem, Noel não deixou de fazer uma breve concessão à música de fora. Daí resultou a produção de Julieta, que ele costumava cantar com andamento de foxtrot e que aqui aparece em ritmo de samba.

História Musical de Noel Rosa

CD1
1 – Pra que mentir / Feitio de oração / Só pode ser você / Silêncio de um minuto / Voltaste
2 – Vai haver barulho no château / Onde está a honestidade / Você vai se quiser / Vitória / Eu vou pra Vila
3 – Cordiais saudações / Positivismo / O maior castigo que eu te dou / Riso de criança / Para me livrar do mal
4 – Rapaz folgado / Coração / Quando o samba acabou / Prazer em conhecê-lo / Pela décima vez
5 – Século do progresso / Dama do cabaret / Três apitos / Esquina da vida / X do problema
6 – Eu sei sofrer / Filosofia / Pela primeira vez / Fita amarela / O orvalho vem caindo

CD2
1 – Coisas nossas / Gago apaixonado / Julieta / Não tem tradução / Amor de parceria
2 – João Ninguém / Último desejo / Poema popular / Para esquecer / Cor de cinza
3 – Tarzan (O filho do alfaiate) / Conversa de botequim / De babado / Com que roupa / Até amanhã
4 – Verdade duvidosa / Para atender a pedido / Meu barracão / Cara ou coroa (Vai pra casa) / Mentir
5 – Feitiço da Vila / Palpite feliz / Provei / Quem ri melhor / Quantos beijos
6 – Cidade mulher / Você por exemplo / Pierrot apaixonado / A-E-I-O-U / Pastorinhas

Composições de Noel Rosa (1910-1937)
Voz: Marília Batista (1917-1990)
Arranjos: César Guerra-Peixe (1914-1993)
Gravado em 1963

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Marília tocando violão e Noel Rosa, o último à direita. O queixo dele era assim mesmo, não é montagem.
Marília tocando violão e Noel Rosa, o último à direita. O queixo dele era assim mesmo, não é montagem.

Pleyel (2017, repostado em 2025)