.: interlúdio :. Guinga: Suíte Leopoldina

IM-PER-DÍ=VEL !!!

Guinga é um gênio. Em Suíte Leopoldina, de 1999, ele transforma as lembranças da Leopoldina carioca — o subúrbio de sua infância, de sua família e de sua formação musical — numa espécie de paisagem sonora em que o choro, o samba, a seresta, o jazz e a canção brasileira convivem em total liberdade. O título não é apenas uma referência geográfica. A Estação Leopoldina, no Rio, era um importante ponto de ligação entre a cidade e seus subúrbios; para Guinga, porém, Leopoldina é sobretudo memória. O próprio compositor dedicou o disco às famílias materna e paterna, ligadas à região.

Musicalmente, o que impressiona é a quantidade de mundos que Guinga consegue fazer caber em pouco mais de cinquenta minutos. Há o choro de Cortando um Dobrado, a atmosfera noturna de Noturno Leopoldina, a homenagem explícita a Radamés Gnattali em Perfume de Radamés e a Charles Mingus em Mingus Samba. Mas, apesar dessa variedade, o disco jamais parece uma coleção de exercícios de estilo. Existe uma identidade muito forte por trás de tudo: a harmonia sofisticadíssima, as melodias sinuosas e aquela capacidade de fazer o violão soar simultaneamente popular e quase erudito.

Guinga é um compositor que não teme a complexidade. Suas harmonias podem surpreender com mudanças inesperadas, mas nunca dão a impressão de exibicionismo. A sofisticação está a serviço da melodia. Talvez seja essa uma das razões pelas quais sua música consegue agradar tanto ao músico extremamente atento quanto ao ouvinte que simplesmente se deixa levar.

E Suíte Leopoldina é também um disco de encontros. Toots Thielemans participa de Dos Anjos e Constance; Chico Buarque e Nei Lopes aparecem em Parsifal; Alceu Valença em Chá de Panela — super homenagem à Hermeto Pascoal; Ivan Lins em Guia de Cego; Ed Motta em Par Constante; e Lenine em Mingus Samba. Essas participações não roubam a identidade do álbum. Ao contrário, ampliam o universo de Guinga. Mingus Samba, por exemplo, é uma daquelas ideias que poderiam resultar numa simples brincadeira de fusão, mas nas mãos do compositor tornam-se algo muito mais natural: a linguagem de Charles Mingus é absorvida pelo samba sem que nenhuma das duas precise deixar de ser o que é.

Há também algo profundamente brasileiro na maneira como Guinga lida com a tradição. Ele não parece interessado em preservá-la como uma peça de museu. Radamés Gnattali, o choro, o samba e o jazz entram em sua música como memória viva, matéria para transformação. É talvez por isso que o disco soe tão carioca sem ser folclórico, tão sofisticado sem perder a espontaneidade.

No fundo, Suíte Leopoldina é um disco sobre memória. Mas não uma memória sentimental ou decorativa. É a memória transformada em linguagem. O subúrbio, a família, os mestres, os sons ouvidos na juventude e as músicas que formaram o compositor reaparecem filtrados por uma imaginação harmônica extraordinariamente fértil.

E talvez a melhor definição para Suíte Leopoldina seja esta: um álbum em que a memória de um subúrbio carioca se transforma em música de grande alcance universal.

Guinga: Suíte Leopoldina

1 Dos Anjos
Featuring – Toots Thielemans
Written-By – Guinga
4:36

2 Parsifal
Featuring – Chico Buarque, Nei Lopes
Written-By – Guinga, Nei Lopes
3:17

3 Di Menor
Written-By – Celso Viáfora, Guinga
3:17

4 Sargento Escobar
Written-By – Guinga
2:21

5 Chá De Panela
Featuring – Alceu Valença
Written-By – Aldir Blanc, Guinga
4:47

6 Choro Perdido
Written-By – Aldir Blanc, Guinga, Mariana Blanc
4:36

7 Noturno Leopoldina
Written-By – Guinga
2:36

8 Guia De Cego
Featuring – Ivan Lins
Written-By – Guinga, Mauro Aguiar
3:50

9 Perfume De Radamés
Written-By – Guinga
3:15

10 Par Constante
Featuring – Ed Motta
Written-By – Guinga
5:49

11 Cortando Um Dobrado
Written-By – Guinga
3:44

12 Mingus Samba
Featuring – Lenine
Written-By – Aldir Blanc, Guinga
2:24

13 Dissimulado
Written-By – Guinga
3:01

14 Constance
Featuring – Toots Thielemans
Written-By – Guinga
5:28

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Guinga, o gênio tardio

PQP

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