Centenário de Miles Davis (26 de maio de 1926 – 28 de setembro de 1991)
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Gravado no New York Philharmonic Hall, sala inaugurada em 1962 para abrigar a N.Y. Philharmonic – a casa anterior da orquestra era o famoso Carnegie Hall, onde Miles também tocou – esse álbum marca o peso do nome de Miles Davis, para lotar uma sala daquela proporção e renome. Gravado no dia 12 de fevereiro de 1964, dois dias antes do dia dos namorados norte-americano, talvez esse seja o motivo para o grupo ter tocado o standard originado em um musical da Broadway de 1937 com música de Richard Rodgers, autor de vários outras melodias que seriam adotadas por gênios do jazz, com destaque para My Favorite Things, gravada por Coltrane. Rodgers, aliás, era filho de um judeu cujo sobrenome (Rogazinsky) foi americanizado. Triste constatação: há 90 anos alguns dos judeus mais famosos criavam belas melodias (Rodgers, Gershwin) ou não tão belas mas complexas e influentes (Schöenberg), enquanto hoje alguns judeus famosos estão lançando bombas sobre crianças e idosos.
Voltando para Miles Davis: naquele ano de 1964 ele finalmente havia montado um novo grupo estável, após alguns anos de muitas mudanças após o seu famoso grupo que incluía John Coltrane e os pianistas Bill Evans e Winton Kelly. Os jovens músicos Herbie Hancock e Tony Williams, assim como os um pouco menos jovens Ron Carter e George Coleman ajudaram Miles a trilhar novos caminhos e, com exceção do saxofonista Coleman, todos eles seguiriam tocando com Miles – no estúdio e ao vivo – até 1968 ou 69. Sobre a saída Coleman, o seu substituto Wayne Shorter respondeu, em 1992, em uma entrevista, se talvez os outros músicos consideravam Coleman antiquado, ‘old-fashioned’. Shorter respondeu:
Não sei. Herbie, Ron e Tony nunca disseram nada negativo sobre George Coleman. Eles estavam voltando do Japão e o empresário de Miles Davis me ligou: “Quer tocar com Miles? Ele está sem saxofonista, em Los Angeles, com data no Hollywood Bowl.” Nunca comentaram nada sobre por que motivo George não estava mais lá. Mas eu sentia que quando alguém começava a comparar os saxofonistas que tocaram com Miles – George, John Coltrane, Sonny Sitt e eu – Herbie, Ron e Tony nunca deixavam essas comparações acontecer. Diziam: “Cada um é diferente.” Eram bastante protetores de modo natural. Não deixavam ninguém jogar pedras nos seus parceiros. (entrevista aqui)
Seja como for, naquele fevereiro de 1964 os sopros de George Coleman e Miles Davis estavam se entendendo bastante bem e aquele concerto rendeu dois LPs: um de baladas mais lentas, este aqui, e outro com faixas mais rapidinhas intitulado “Four & More”. Nos temas mais rápidos, segundo o próprio Miles, a banda se entusiasmou – talvez pelo nervosismo de tocar naquela sala tão especial – e acelerou os andamentos para além do usual. Nesses temas mais lentos, a intensidade emocional soa mais equilibrada e bem acabada. Em sua autobiografia Miles lembrou ainda que o dinheiro da bilheteria seria doado para instituições beneficentes e os músicos de sua banda ficaram sabendo disso minutos antes de entrarem no palco, o que não os deixou exatamente satisfeitos… “Acredito que a raiva criou um fogo, uma tensão que alcançou o instrumento de cada um, e talvez essa seja uma das razões de por que todos tocaram com tanta intensidade”, disse Miles Davis. Ao vivo é assim, cada dia é um dia.
Miles Davis Quintet: My Funny Valentine
Miles Davis – trumpet
George Coleman – tenor saxophone
Herbie Hancock – piano
Ron Carter – double bass
Tony Williams – drums
Recorded: February 12, 1964

Pleyel
Bela introdução e este que é um dos LPs de Miles, que mais aprecio. O contexto da gravação, torna a audição mais interessante ainda. Abraços daqui do interior de SP.