Esta sinfonia é possivelmente a mais conhecida das Sinfonias de Bruckner e foi a primeira que ouvi. O epíteto “Romântica” foi dado pelo próprio Anton e reflete um estado de harmonia com a natureza que nos é transmitido pela perspectiva global da sinfonia.
Há maravilhosas gravações desta Sinfonia de Bruckner, muitas das quais você encontra nas nossas postagens. No entanto, esta gravação, feita ao vivo, reflete o sentido de uma ocasião especial, na qual um reverenciado e experiente maestro dirige uma excepcional orquestra. Günter Wand tem o completo domínio da situação expondo sem esforço aparente a maravilhosa arquitetura da obra, atingindo as alturas por muitos somente almejadas. A dramaticidade dos clímaces, tão importantes em Bruckner, assim como os momentos em que a orquestra deve apenas murmurar, são apresentados com clareza e transparência. A sensação de um momento especialíssimo está realmente presente no disco.
Bruckner iniciou a composição de sua Sinfonia No. 4 em 1874 e continuou trabalhando nela até 1780, quando reescreveu o último movimento.
Obstinado e perfeccionista, Bruckner sabia exatamente o que pretendia de suas enormes sinfonias. Passou a metade de sua vida preparando-se para compô-las e constantemente trabalhou simultaneamente em novas obras e no aprimoramento das que já havia completado.
Se permitiu que seus (mesmo bem intencionados) amigos revisassem e mesmo mutilassem suas obras, era na esperança de que fossem executadas. No entanto, foi cuidadoso para preservar suas reais intenções, deixando os originais livres destas espúrias intervenções com a designação gültig (=válida). Esses manuscritos foram arquivados na coleção de manuscritos da Biblioteca da Corte Imperial, hoje Biblioteca Nacional de Viena, por seu desejo expresso.
Assim, a versão que podemos ouvir nesta gravação representa o que Bruckner esperava que ouvíssemos.
Anton Bruckner (1824-1896)
Sinfonia No. 4 em mi bemol maior – Romântica
Versão original (1878/1880)
Bewegt, nicht zu schnell
Andante quasi Allegretto
Scherzo. Bewegt – Trio. Nicht zu schnell, keinesfalls schleppend
Ande, baixe os arquivos, entre nesta onda bruckneriana que estamos proporcionando. As camisetas com os dizeres “Eu ouço Bruckner” serão ofertadas posteriormente…
Em 1 de julho de 2008 PQP Bach fez a postagem das três últimas sonatas para piano de Franz Schubert, interpretadas por Maurizio Pollini. Os arquivos da postagem estão agora na poeira internética. O post recebeu 26 comentários!! O texto é um pouco mais longo do que costumamos ver em suas atuais postagens e é uma delícia de ler. Nada de ilustrações. Eu diria, um clássico PQP.
Meu eterno interesse por estas peças de Schubert e minha admiração por essas gravações de Pollini fizeram com que eu preparasse tudo para relançar o post. Começamos assim uma nova série:
PQP Originals!
Aqui está o texto do PQP:
Sei que não somente “aqueles comentaristas habituais” hostilizarão esta gravação colocada entre as melhores da DG (obrigado pela lembrança dos Originals, Lais; minha gravação é pré-Originals), como nossa comparsa Clara Schumann deverá apresentar chiliques em defesa de seu amado Alfred Brendel que, segundo ela, acarinha melhor o compositor que ela mais ama.
(Nunca entendi esta senhora que casa com um, tem Brahms por amante, mas gosta mesmo é de Schubert. A mente masculina é mais simples e burra, graças a Deus, e interessa-se por todas, prova de seu amor à humanidade.)
Schubert é o compositor que mais lamento. Apenas 31 anos! Onde ele chegaria se tivesse vivido, por exemplo, os 57 anos de Beethoven? É difícil de responder, ainda mais ouvindo suas últimas obras, amadurecidas a fórceps pelo sofrimento causado pela doença. Este criador de melodias irresistíveis trabalhava (muito) pela manhã, caminhava à tarde e bebia à noite. O bafômetro o pegaria na volta, certamente. Seria um recordista de multas. Não morreu da sífilis e sim de tifo, após ingerir um vulgar peixe contaminado. Ou seja, uma droga de um peixe podre nos tirou anos de muitas obras, certamente. Espero que, se o inferno existir, este peixe esteja lá queimando. Desgraçado, bicho ruim!
A interpretação de Pollini é completamente despida de exageros ou de virtuosismo. Ele respeita inteiramente Schubert, compositor melodista e destituído de virtuosismo pessoal ao piano, pero… nada de sentimentalismos, meus amigos. Pollini é um realista. E, com efeito, as sonatas finais desfazem o mito do Schubert fofinho, mundano e feliz. Era um indivíduo profundo e o trágico não lhe era estranho.
Minha sonata preferida é a D. 960, com seu imenso e emocionante primeiro movimento. Quando o ouço de surpresa, penso que virão o que não me vêm há anos: lágrimas. O que segue é-lhe digno, com destaque especial para o zombeteiro movimento final. O D. 959 também é extraordinário, principalmente o lindíssimo e nobre Andantino e o lied do Rondó. Também tenho indesmentível amor pela contrastante primeira peça das Drei Klavierstucke.
A Fundação Maurizio Pollini, desta vez patrocinada por PQP Bach, agradece todos os apoios recebidos e declara-se ofendida pela nefasta ironia perpetrada pelo provocador Kaissor (ou foi o Exigente?) ao querer estigmatizar nosso ídalo por ser mais divulgado em razão do perfil marcadamente “comercial” de sua gravadora. Com todo o respeito, respondemos a ele que Pollini é a Verdade e o Absoluto. Dou a Schnabel um lugar no pódio e ele que fique quieto. “O homem que inventou Beethoven”??? Arrã. Acho que foi reinventado… :¬)))
Caso você queira ler também os comentários da época, clique aqui.
Atrevo-me apenas acrescentar que o tema do quarto movimento da Sonata em lá maior, D. 959, foi tomado emprestado do Allegretto quasi andantino da Sonata em lá menor, D. 537, de alguns anos antes, e é memorável. Para uma comparação, vá a 7’30 do vídeo aqui. Ou então ouça toda a sonata interpretada por Wilhelm Kempff, um mago das gravações, em particular, das obras de Schubert.
Franz Schubert (1797-1828)
Disco 1
Sonata para Piano em dó menor, D. 958
Allegro
Adagio
Allegro – Trio
Allegro
Sonata para Piano em lá maior, D. 959*
Allegro
Andantino
Allegro vivace – Trio. Um poco più lento
Allegretto
Maurizio Pollini, piano
Produção: Rainer Brock
*Maurizio Pollini dedica a gravação da Sonata em lá maior à memória de seu caro amigo Rainer Brock
Se você não chorar com o primeiro movimento da Sonata em si bemol maior, D. 960, então chorará com o segundo, o Andante sostenuto. Schubert sabia tudo sobre superação das dores naquela altura da vida.
As primeiras gravações de Günter Wand que ouvi foram de Sinfonias de Beethoven. As que mais me marcaram na época foram a Sexta e a Nona.
Depois vieram as gravações das Sinfonias de Bruckner. Ele gravou o ciclo completo em estúdio com a Orquestra Sinfônica da Rádio de Colônia. Estas gravações você pode encontrar aqui, aqui e aqui.
Günter Wand também gravou as Sinfonias de Nos. 3 até 9 com a NDR-Sinfonieorchester, sempre ao vivo, algumas sinfonias mais do que uma vez. Esta orquestra é baseada em Hamburgo e foi renomeada de NDR Elbphilharmonie Orchester.
A postagem de hoje inicia uma série de cinco e suas gravações vão um pouco além das já mencionadas. Elas foram feitas ao vivo, com a Orquestra Filarmônica de Berlim. Sem desfazer das outras orquestras ou das outras gravações, estamos aqui diante de algo MUITO especial.
Para os amantes das Sinfonias de Bruckner e frequentadores deste blog, Günter Wand é nome bem conhecido. De qualquer forma, devo dizer que estamos diante de um fenômeno. Ele nasceu em 1912 e iniciou sua carreira de músico e regente reconstruindo o cenário musical no pós-guerra, na cidade de Colônia. Isso nos idos 1939. Ficou neste posto até sua mudança para Hamburgo, onde passou a trabalhar com a NDR-Sinfonieorchester, em 1982.
Avesso a estrelismos, Günter Wand foi convidado a reger várias importantes orquestras, como a Sinfônica de Chicago e a Orquestra Filarmônica de Berlim. Excursionou também pelo Japão e Inglaterra.
Começaremos com a Sinfonia No. 5 por duas razões. Esta foi a primeira Sinfonia de Bruckner que Wand gravou, com a Orquestra da Rádio de Colônia. Apesar de sua justa fama como regente das Sinfonias de Bruckner, ele só chegou a esse compositor relativamente tarde, apesar da insistência de seu amigo e compositor Bernd Alois Zimmermann. Após uma apresentação em Berna, ele finalmente gravou esta sinfonia com a Orquestra da Rádio de Colônia em 1974. Esta gravação encorajou a gravação de todo o ciclo que acabou ganhando o prêmio Deutsche Schallplattenkritik.
Na série de gravações que postaremos, nos concertos que fez com a orquestra de Berlim, a Sinfonia No. 5 também foi a primeira. As postagens que se seguirão constarão das Sinfonias Nos. 4, 9, 7 e 8, seguindo a ordem em que foram gravadas.
Você poderá encontrar uma lista da discografia de G. Wand aqui.
Anton Bruckner (1824-1896)
Sinfonia No. 5 em si bemol maior (Versão 1875-1878)
É possível tocar assim? É possível, humanamente, tocar assim? Não será alguma tecnologia, uma dessas modernas bruxarias? O que é isso? Um pianista ou um pássaro?
Senhores, com vocês, um pianista que veio do frio, da Islândia: Víkingur Ólafsson!
E ele nos brinda com um recital de peças de Bach, maravilhosas!
Em 2007, Norman Lebrecht escreveu um livro que já citei aqui – Maestros, Obras-Primas & Loucura; A Vida Secreta e a Morte da Indústria da Música Clássica. Lebrecht é crítico de música e sabe muito bem do que fala. Mas isso foi em 2007. Agora vem Ólafsson e diz: Nós estamos em uma Época de Ouro para a Música Clássica!
Contradições? Bem, Lebrecht fala da Indústria da Música Clássica e a afirmação de Ólafsson é mais geral. Pois é, este pianista de 35 anos é um arauto dos novos tempos e nos ensina uma nova maneira de gostar de música, que reflete os costumes atuais, mas que também remete ao passado.
Como tem sido usado pelas gravadoras e distribuidoras de música, seu álbum de Bach tem capa com dizeres mínimos: Johann Sebastian Bach – Víkingur Ólafsson.
Ele explica (numa entrevista que pode ser lida na íntegra aqui) que passou anos na elaboração do álbum, que tem 35 faixas. A mais longa tem pouco mais do que cinco minutos. Diversas delas são transcrições de peças de Bach feitas por August Stradl, Wilhelm Kempff, Ferruccio Busoni, Serge Rachmaninov e por ele mesmo.
Ólafsson conta que após seis anos estudando na Juilliard, em Nova Iorque, mudou-se para Oxford, por três anos, enquanto sua mulher estudava. Em suas próprias palavras:
Estes três anos foram um tempo para encontrar a minha própria voz e vir a ser o meu próprio professor. Foi então que eu realmente comecei a tocar e a ouvir e a pensar sobre Bach. Bach tornou-se meu professor.
Eu queria fugir da tendência de pensar em Bach em termos colossais, cujas obras épicas são essas imensas catedrais sonoras. Esta abordagem globalista – apresentar os 48 Prelúdios e Fugas ou todas as Invenções e Sinfonias juntas como uma única peça – é um fetiche do século 20. Eu não creio que Bach tenha composto estas obras para serem interpretadas como um conjunto. Hoje, é ridículo, quase como se você tivesse que tocá-las como um conjunto, caso contrário você não seria um músico ‘sério’.
Eu não gosto de ouvir música desta forma. Quando você ouve as Sinfonias, digamos, por elas mesmas, elas se tornam peças diferentes. Contos em vez de partes de um romance épico.
Neste período ele mergulhou nos grandes intérpretes de Bach do passado e do presente – entre muitos nomes cujas diferentes abordagens lhe serviram de inspiração e esclarecimento temos Edwin Fischer, Glenn Gould, Dinu Lipatti, Martha Argerich, Jacques Loussier e Murray Perahia. E ele encontrou a poesia, as provocações e a espontaneidade da música de Bach.
Assim, temos uma proposta um pouco diferente para ouvirmos a música de Bach. Talvez isso nos ajude a chegar mais próximos de Bach ou apenas nos proporcione prazer com a música de um dos maiores gênios musicais de que se tem notícia.
Johann Sebastian Bach (1685-1750)
1. Prelúdio e Fughetta em sol maior, BWV 902 – Prelúdio
2. Prelúdio Coral Nun freut euch, lieben Christen g’mein, BWV 734 (Transcrição de Wilhelm Kempff)
3 – 4. Prelúdio e Fuga em mi menor (Cravo Bem Temperado, Livro I, No. 10) BWV 855
5. Andante da Sonata para Órgão No. 4 BWV 528 (Transcrição de August Stradal)
6 – 7. Prelúdio e Fuga em ré maior (Cravo Bem Temperado, Livro I, No. 5) BWV 850
8. Prelúdio Coral Nun komm der Heiden Heiland, BWV 659 (Transcrição de Ferruccio Busoni)
9 – 10. Prelúdio e Fuga em dó menor (Cravo Bem Temperado, Livro I, No. 2) BWV 847
11. Widerstehe doch der Sünde, BWV 54 (Transcrição de Víkingur Ólafsson)
12-23. Aria variata (alla maniera italiana) em lá menor, BWV 989
24. Invenção No. 12 em lá maior, BWV 783
25. Sinfonia No. 12 em lá maior, BWV 798
26. Gavotte da Partita No. 3 em mi maior para violino solo, BWV 1006 (Transcrição de Serge Rachmaninov)
27. Prelúdio em mi menor, BWV 855 (Arranjo para Piano em si menor por Alexander Siloti)
28. Sinfonia No. 15 em si menor, BWV 801
29. Invenção No. 15 em si menor, BWV 786
30-32. Concerto em ré menor, BWV 974
33. Prelúdio Coral Ich ruf zu dir Herr Jesu Christ, BWV 639 (Transcrição de Ferruccio Busoni)
34-35. Fantasia e Fuga em lá menor, BWV 904
Antes de conhecer a música, conheci a história. Era uma vez um tempo em que os livros eram mais acessíveis do que as gravações. Foi então que eu li a história de uma pessoa que achou um disco, sem capa, com o selo ilegível. Após um mínimo de limpeza, coloca o disco na vitrola e ouve uma frase tocada por um instrumento de cordas, num registro bem baixo. A frase é prolongada e pontuada pelo pizzicato de quatro notas ascendentes. A frase é então repetida por um terceiro instrumento de cordas e aí tudo mergulha numa sequência maravilhosa, um andantino, doucement expressif. Um quarteto de cordas, música como ele nunca houvera experimentado. Como eu desejei essa música.
O contador dessa história é Érico Veríssimo, um dos nomes mais importantes da (nossa e dos outros também) literatura. Aqui está o trecho das memórias de Erico, na íntegra: “Por aquele tempo eu havia descoberto – não me recordo em que velha gaveta, baú ou porão – um disco fonográfico quebrado, do qual restava apenas uma pequena superfície intacta, perto do rótulo azul, cujos dizeres estavam completamente ilegíveis, como se alguém os tivesse obliterado com a ponta dum prego. Por curiosidade coloquei o disco mutilado na minha vitrola, e pouco depois o que saiu de seu alto-falante, em meio de estalidos e crepitações, foi uma frase musical duma esquisita e inesperada beleza, que me enfeitiçou: a viola desenhava a linha melódica dum andante, cuja melodia me ficou gravada na memória. Que era tocada por um quarteto de cordas, não havia a menor dúvida. Também eu estava certo de que não ouvia a voz de Mozart nem a de Beethoven. Brahms, quem sabe? Não. A música me falava francês e não alemão, italiano ou qualquer outra língua. A frase do quarteto me perseguiu obsessivamente durante todo aquele fim de 1930. Parecia descrever musicalmente o meu estado de espírito naquela época de minha vida: doce e preguiçosa melancolia e ao mesmo tempo um hesitante desejo de fuga ou, melhor, de ascensão…
Só quatorze anos mais tarde, quando já liberto da ópera — para ser preciso em 1944, em San Francisco da Califórnia — é que vim a saber que a frase mágica era o andantino doucement expressif do Quarteto de cordas em sol menor, de Claude Debussy”.
A busca pelo Quarteto de Debussy me levou à música de câmera francesa, que é fonte de muito prazer. É música de muita sofisticação e charme e vale profunda investigação. Lembro a postagem que fiz das Sonatas para Violino de Fauré, cujo Quarteto de Cordas, com o Quarteto de Ravel, completa um dos discos desta postagem. Este disco é interpretado pelo Quarteto Ébène e ganhou muitos prêmios na ocasião de seu lançamento. O disco merece todos os prêmios e certamente é uma referência atualíssima para esse rico repertório.
O local de gravação do disco do Quarteto Ébène é estonteante. La Ferme de Villefavard fica na região de Limousin (no Brasil, seria Limãozinho). É uma antiga granja originalmente construída no início do século passado e cuja renovação ficou ao cargo de Albert Yaying Xu, especialista em acústica de renome internacional.
Claude Debussy (1862-1918)
Quarteto de Cordas em sol menor, Op. 10
Animé et très décidé
Assesz vif et bien rythmé
Anadantino, doucement expressif
Très modéré – Très mouvementé
Gabriel Fauré (1845-1924)
Quarteto de Cordas em mi menor, Op. 121
Allegro moderato
Andante
Allegro
Maurice Ravel (1875-1937)
Quarteto de Cordas em fá maior
Allegro moderato – Très doux
Assez vif – Très rythmé
Très lent
Vif et agite
Quatuor Ebène
Pierre Colombet, violino
Gabriel Le Magadure, violino
Mathieu Herzog, viola
Raphaël Merlin, violoncelo
Gravação: Ferme de Villefavard, Limousin, França, 2008
Este não é o Q Ébène, mas mostra o local da gravação com um quarteto de cordas.
No entanto, decidi também fazer uma homenagem aos antigos LPs e escolher um deles para ser postado ao lado da gravação mais recente. Após muitas horas de (prazerosa) procura, ouvindo várias gravações, este, aquele e aquele outro, fiquei entre duas opções: Quarteto Italiano e Quarteto Budapest. Vejam, nos dias dos LPs, os quartetos de Ravel e Debussy eram assim, irmãos gêmeos, assim como os concertos para piano de Schumann e de Grieg.
Veja como é linda a capa do LP
A interpretação do Quarteto Italiano é justamente famosa e o disco impressiona pela espetacular beleza sonora. No entanto, a capa do LP original, mais o grão de rusticidade que percebo na versão do Budapest Quartet, me fizeram pender para ele. Creio que o contraste com a gravação do QE será mais impactante. Ganha um doce quem descobrir na foto da capa do CD quais são os irmãos Schneider.
La Ferme de Villefavard antes de encontrar a fada madrinha…
Vá, baixe os discos, ouça música e mergulhe nessa transversal de cultura. Leia os livros do Veríssimo, pai. Tudo bem, leia o filho que também é muito bom.
No fundo de minha memória literária havia uma lembrança de que Carlos Drummond de Andrade gostava demais dos Concertos para Violino de Bach. Lembro-me também que minha gravação preferida era a do Grumiaux, que era esnobada solenemente pelo meu amigo PM, fã incondicional do Eduard Melkus.
Eram dias em que tínhamos apenas duas ou três versões entre as quais escolher. Pois é, havia também Bach com o sotaque russo de Oistrakh.
Mas, voltando ao Carlos Drummond de Andrade, quanto mais eu imaginava o poeta gostando dos Concertos de Bach, mais eu gostava dos Concertos e mais eu gostava do poeta.
Só faltava encontrar a prova de que o poeta, ao chegar em casa, cansado de mais um dia exaustivo na repartição, ia logo tirando os sapatos e ligando a vitrola. Qual gravação ele ouviria?
Bom, após uma busca cuidadosa, se não cheguei a uma prova do fato mencionado, cheguei a uma forte evidência na figura da deliciosa crônica que não resisto e transcrevo a seguir. Se você chegou até aqui, leia a crônica. Vale a pena!
No aeroporto, uma crônica de Carlos Drummond de Andrade
Viajou meu amigo Pedro. Fui levá-lo ao Galeão, onde esperamos três horas o seu quadrimotor. Durante esse tempo, não faltou assunto para nos entretermos, embora não falássemos da vã e numerosa matéria atual. Sempre tivemos muito assunto, e não deixamos de explorá-lo a fundo. Embora Pedro seja extremamente parco de palavras, e, a bem dizer, não se digne de pronunciar nenhuma. Quando muito, emite sílabas; o mais é conversa de gestos e expressões pelos quais se faz entender admiravelmente. É o seu sistema.
Passou dois meses e meio em nossa casa, e foi hóspede ameno. Sorria para os moradores, com ou sem motivo plausível. Era a sua arma, não direi secreta, porque ostensiva. A vista da pessoa humana lhe dá prazer. Seu sorriso foi logo considerado sorriso especial, revelador de suas boas intenções para com o mundo ocidental e oriental, e em particular o nosso trecho de rua. Fornecedores, vizinhos e desconhecidos, gratificados com esse sorriso (encantador, apesar da falta de dentes), abonam a classificação.
Devo dizer que Pedro, como visitante, nos deu trabalho; tinha horários especiais, comidas especiais, roupas especiais, sabonetes especiais, criados especiais. Mas sua simples presença e seu sorriso compensariam providências e privilégios maiores.
Recebia tudo com naturalidade, sabendo-se merecedor das distinções, e ninguém se lembraria de achá-lo egoísta ou importuno. Suas horas de sono – e lhe apraz dormir não só à noite como principalmente de dia – eram respeitadas como ritos sagrados, a ponto de não ousarmos erguer a voz para não acordá-lo. Acordaria sorrindo, como de costume, e não se zangaria com a gente, porém nós mesmos é que não nos perdoaríamos o corte de seus sonhos.
Assim, por conta de Pedro, deixamos de ouvir muito concerto para violino e orquestra, de Bach, mas também nossos olhos e ouvidos se forraram à tortura da tevê. Andando na ponta dos pés, ou descalços, levamos tropeções no escuro, mas sendo por amor de Pedro não tinha importância.
Objetos que visse em nossa mão, requisitava-os. Gosta de óculos alheios (e não os usa), relógios de pulso, copos, xícaras e vidros em geral, artigos de escritório, botões simples ou de punho. Não é colecionador; gosta das coisas para pegá-las, mirá-las e (é seu costume ou sua mania, que se há de fazer) pô-las na boca. Quemnão o conhecer dirá que é péssimo costume, porém duvido que mantenha este juízo diante de Pedro, de seu sorriso sem malícia e de suas pupilas azuis — porque me esquecia de dizer que tem olhos azuis, cor que afasta qualquer suspeita ou acusação apressada, sobre a razão íntima de seus atos.
Poderia acusá-lo de incontinência, porque não sabia distinguir entre os cômodos, e o que lhe ocorria fazer, fazia em qualquer parte? Zangar-me com ele porque destruiu a lâmpada do escritório? Não. Jamais me voltei para Pedro que ele não me sorrisse; tivesse eu um impulso de irritação, e me sentiria desarmado com a sua azul maneira de olhar-me. Eu sabia que essas coisas eram indiferentes à nossa amizade — e, até, que a nossa amizade lhe conferia caráter necessário de prova; ou gratuito, de poesia e jogo.
Viajou meu amigo Pedro. Fico refletindo na falta que faz um amigo de um ano de idade a seu companheiro já vivido e puído. De repente o aeroporto ficou vazio.
Gostaria muito de saber como o poeta reagiria a esta gravação dos Concertos para Violino de Bach que vos trago aqui. Bach com sotaque alemão! Ach so!
A Freiburger Orchester adota a prática de performance historicamente informada. Assim, temos um som translúcido, com cordas um pouco adstringentes, mas ainda lindamente agradáveis. Isso sem contar que a produção do disco é excelente, muito bem gravado. Para completar o programa, um Concerto para três Violinos, transcrição do Concerto para três Cravos. Tudo indica, o Concerto para três Cravos é uma transcrição de um Concerto para três Violinos, agora perdido. Um pouco confuso, mas acho que você entendeu. Caso contrário, apenas escute o álbum.
Esta postagem foi possível graças à colaboração do amigo HM! Valeu, Marcelo!
Para dar uma oportunidade aos nossos seguidores de comparar a grandiosidade da música de Bach, que admite diferentes abordagens com igual efeito apaixonante, reapresento um post da autoria de CARLINUS . Como o post teve seus arquivos (rapidamente) mandados para o espaço cibernético, entra em ação nosso selo PQP-Originals para restaurá-los. O post foi feito em 5 de agosto de 2010 e recebeu 8 comentários que você poderá ler aqui.
J. S. Bach
Concertos para Violino
Academy of St. Martin-in-the-Fields
Julia Fischer
Não faz mal que eu e PQP esbarremos na mesma intenção: postar Bach. O grande diferencial é que ele é filho do homem; e, eu, um reles mortal apócrifo. Ele se muniu de uma japonesa com ares lascivos; e, eu, de uma alemã com os ares frescos da mocidade, Julia Fischer. Eu não tencionava postar este CD no dia de hoje. Tinha outros planos. Mas resolvi disponibilizar este registro, que já estava comigo há algum tempo. Julinha Fischer com suas habilidades de violinista jovem, conseguiu me cativar. Estes concertos para violino me deixaram com uma impressão que somente a arte é capaz de remir o mundo de suas feiúras. Ontem à noite eu vi mais uma vez ao filme Dias de Nietzsche em Turim, do brasileiro Júlio Bressane. O diretor conseguiu fazer um extraordinário trabalho sobre a estadia de Nietzsche naquela cidade, antes do colapso que o paralisaria até o ano de sua morte, 1900. O filósofo passeia pela cidade e encanta-se com o clima, com a arquitetura sóbria e despretenciosa, com a lascividade das esculturas clássicas, que em tudo o convida à contemplação. A certa altura ele diz: “Se não fosse a arte, a vida seria um erro”. Que frase fantástica! Somente a arte nos torna mais humanos. Afasta-nos da mediocridade e nos faz sonhar com um mundo cheio de razões reais. A arte de Bach é habitada por verdades delicadas. E isso me faz muito bem nesta noite de brisa suave aqui no Planalto Central. Não deixe ouvir este ótimo registro de Johann Sebastian Bach. Agora é só comparar o Bach de minha alemã (Julia Fischer) com o Bach da japonesa (Akiko Suwanai) de PQP. Boa apreciação!
Julia Fischer
Johann Sebastian Bach (1685-1750)
Concerto para dois violinos em ré menor, BWV 1043
Vivace
Largo ma non tanto
Allegro
Concerto para violino em lá menor, BWV 1041
Sem indicação de tempo
Andante
Allegro assai
Concerto para violino em mi maior, BWV 1042
Allegro
Adagio
Allegro assai
Concerto para violino e oboé em ré menor, BWV 1060
Ah, os clássicos! Sempre é possível aprender com eles. Há um filme espetacular chamado The trouble with Harry.O filme é um clássico de Hitchcock e vale a pena futura investigação. Mas, hoje, do filme, emprestamos apenas o nome.
O Herbert aqui é o von Karajan, personalidade que desperta (mesmo depois de mais de trinta anos de sua morte) sentimentos extremos nas pessoas.
Karajan ocupou lugar de destaque absoluto no mundo da (chamada) música clássica por muitas décadas e, para muitos, até hoje, é sinônimo de perfeição e garantia de alta qualidade nas gravações. No caso dele, foram muitas.
O problema com Karajan é que ele nos coloca diante de dilemas que (lamentavelmente) insistem em nos afrontar. Essas questões podem ser abordadas de maneira aristotélica, como o fez Alexandre diante do Nó de Górgio, assumindo algum dos polos do ame ou odeie. Aqui vamos tentar uma abordagem diferente, que resumidamente consiste em evitar absolutamente coisas como
mas não deixar de desfrutar coisas como
É inevitável falar da indústria fonográfica sem mencionar o dia 19 de janeiro de 1946, no qual Walter Legge encontrou-se em Viena com Herbert von Karajan. Os detalhes deste encontro podem ser lidos no livro On and Off the Record, organizado a partir de anotações de Legge pela sua mulher, Elisabeth Schwarzkopf. Outra perspectiva destes controversos personagens pode ser lida no Maestros, Obras-Primas & Loucura, de Norman Lebrecht. Sempre que possível, ouça diferentes lados da mesma história!
Walter Legge foi um precursor da figura do produtor de discos e, se não inventou essa profissão, a moldou em sua forma atual, levando-a a níveis altíssimos de profissionalismo.
No final da Segunda Grande Guerra, Legge, que falava fluentemente alemão e sabia tudo sobre música, orquestras e gravações, sem ser músico profissional, percorria a Alemanha e a Áustria em busca de talentos para seus projetos. Especificamente buscava um regente para a sua Orquestra Philharmonia, recém formada por músicos escolhidos criteriosamente.
Herbert, mais uma vez, estava no lugar certo, na hora (quase) certa. E tinha tudo e mais um pouco com o que Walter sempre sonhara. Mas havia uma pegadinha, um embaraço monumental. Karajan estava passando por um processo de des-nazificação. Estava proibido de atuar em público, por exemplo. Veja, se você não sabia destes fatos, deve perceber que se tratando deste período histórico, as coisas nunca são exatamente simples.
No dia do encontro, Karajan deveria se apresentar com a Orquestra Filarmônica de Viena e, apesar dos ensaios, o concerto foi cancelado pelas autoridades russas apenas algumas horas antes. Para Legge, a questão da des-nazificação era apenas técnica. Ele próprio acabou se casando com a Schwarzkopf, que também passou por processo semelhante.
Como Karajan se tornou membro do partido é relativamente fácil de entender. Veja um trecho dos muitos artigos que andei lendo: Ruthlessly ambitious as a young man and grimly autocratic in his later years, his life story is marked by bitter rivalries, feuds and, most notoriusly, membership of the Nazy Party. Ou seja, implacavelmente ambicioso quando jovem e incansavelmente autocrático nos seus últimos anos, a história de sua vida é marcada por amargas rivalidades, disputas e, mais notoriamente, ter sido membro do Partido Nazista.
Karajan iniciara como regente em Ulm em 1929, num dos primeiros degraus de uma escada longuíssima de ascensão na carreira de regente nos países de língua alemã. Suas apresentações no Festival de Salzburg e outros concertos, inclusive com a Filarmônica de Viena, despertaram a atenção no cenário musical. Cenário este que com a ascensão do Nazismo ficava mais e mais despovoado de muitos nomes.
Apesar destes sucessos iniciais, ficou desempregado e teria entrado para o partido para conseguir a posição de regente em Aachen, onde as condições de trabalho eram boas.
Suas relações com o establishment, no entanto, não eram boas. Seu sucesso e sua juventude foram usados para afrontar Wilhelm Furtwängler, que era doentiamente inseguro. A rivalidade entre eles foi imensa. Furtwängler não pronunciava o nome Karajan e referia-se a ele simplesmente por K.
Karajan, que regia de memória, dirigiu uma apresentação desastrosa de Die Meistersinger, devido a um barítono embriagado. Com isso, caiu em absoluta desgraça com Adolf Hitler.
Além disso, casou-se com Anita Güterman, de avô judeu, o que certamente não contribuiu para amainar as coisas.
A despeito disso, Karajan fez sucesso. Ele trazia um sopro de novidade num cenário empobrecido pelas restrições impostas pela situação. Em seus concertos havia música que na época era nova. Vamos lembrar que Richard Strauss e Paul Hindemith, por exemplo, eram vivos e ativos. Karajan também apresentava uma perspectiva diferente da preconizada pelos concertos de Furtwängler. Arturo Toscanini sempre fora uma grande influência para Karajan, que ouvia as gravações de outros regentes, como Stokowski e Mengelberg, com suas grandes sonoridades. O interesse pelas novas tecnologias sempre esteve presente em sua vida.
O crítico Klaus Geitel lembra o ‘glittering, exciting’ thrill of pre-war Berlin concerts with their new repertoire: concerts with Furtwängler ‘were like going into a cathedral’; with Karajan, it was ‘like going to the Venusberg, like entering a bacchanal. ’ – ‘o entusiasmo brilhante e a excitação dos concertos em Berlim antes da guerra com seus novos repertórios: concertos com Furtwängler ‘eram como ir a uma catedral’; com Karajan, era ‘como ir ao Venusberg, como entrar em um bacanal. ’ Assanhado, não? Mas certamente realça as diferenças.
Produtor inglês Walter Legge (1906 – 1979) com o regente austríaco Herbert von Karajan (1908 – 1989), em 17 de janeiro de 1958
Com o fim do processo de des-nazificação, Karajan iniciou sua ascensão no mundo musical. Gravações para a EMI com a Philharmonia, para a London com a Filarmônica de Viena, apresentações no Festival de Salzburg e no Bayreuth Festspielhaus. O passo mais importante foi dado em 1955, com a morte de Furtwängler. Karajan torna-se diretor vitalício da Filarmônica de Berlim. O resto é história.
O Kaiser do Legato, a busca constante pela beleza de som. Esses ideais buscados incansável e germanicamente por Karajan foram, a um tempo, a sua glória e a sua maldição. Enquanto havia resistência, essa busca deixava margem a percepção da presença humana em seus resultados. A medida que os avanços tecnológicos e a reunião de poderes absolutos em suas mãos foram se consolidando, os resultados tornaram-se caricaturas. Sinfonias envernizadas e brilhantes, mas sem vida interior.
Além disso, sua personalidade gera um antagonismo que não se percebe contra figuras que viveram situações parecidas, algumas até com agravantes, como Richard Strauss, Karl Böhm e Carl Orff, por exemplo.
Talvez, o problema com Herbert seja que ele nos faz encarar o que pode haver de melhor, mas também o que pode haver de pior nos seres humanos. E isso, reflete-se em nós mesmos. Mas, chega de vãs filosofias e vamos a música da postagem.
Ouça as gravações de duas lindas sinfonias de Brahms, a Sinfonia Inacabada de Schubert e o poema sinfônico Les Preludes, de Liszt. Essas gravações são resultados de um encontro que marcou época e estabeleceu padrões altíssimos. Aqui temos a Orquestra Philharmonia, a produção de Walter Legge e o maestro que queria tomar o mundo da música, prestes a fazer exatamente isso.
Richard Osborne escreveu uma biografia de Herbert von Karajan. Em suas palavras:
Even the greatest talent, pushed a hair’s breadth in the wrong direction, can end up seeming like a parody of itself: the maniacal Toscanini, the blockish Klemperer, Gielgud crooning, Olivier ranting. Karajan’s Achilles’ heel would be a tendency to over-refinement and an excess of smoothness, the downside of his highly cultivated art.
O calcanhar de Aquiles de Karajan foi sua tendência para o super refinamento e um excesso de suavidade, o lado negativo de sua altamente cultivada arte.
Mais um disco com sonatas para piano de Beethoven, mas que disco de sonatas para piano de Beethoven!
Para começar, o repertório. Três sonatas nomeadas: Ao Luar, Waldstein e Appassionata. As três são sucesso de público e de crítica desde que deixaram os manuscritos do mestre e ganharam os salões e salas de concerto deste mundo. Note que nenhum destes apelidos foram dados pelo compositor, mas certamente contribuíram para a fama e a glória das peças.
A condessa…
A Sonata em dó sustenido menor (era assim que Beethoven se referia à Sonata Ao Luar) foi dedicada à Condessa Giulietta Guicciardi, cuja beleza incendiou Viena, uma candidatíssima à Amada Imortal. Foi desbancada deste papel pela Josephine Brunsvik, segundo sua irmã, Therese Brunsvik. Ah, as mulheres!
A sonata recebe a menção quasi una fantasia, indicando que a peça não seguirá exatamente os padrões de uma sonata estabelecidos na época. Veja que a peça começa pelo meio. Ao apresentar primeiro o movimento lento, Adagio sostenuto, Beethoven consegue construir um crescendo de energia, que se intensifica de um movimento para outro, terminando com o Presto agitato. A natureza romântica do primeiro movimento é um convite a interpretações melosas e açucaradas. Aqui, nas mãos do pianista russo Mikhail Pletnev, passamos incólumes por essas armadilhas, mas ainda assim desfrutamos do reflexivo Adagio sostenuto! (Para outra linda interpretação desta sonata, clique aqui.)
A última sonata do disco, a Appassionata, é outra com um movimento que abre espaço para o romantismo, o seu Andante con moto. Mas também tem lugar para o aberto virtuosismo do movimento final, Allegro ma non tropo – Presto!
A peça que me trouxe a este disco é a Sonata em dó maior, op. 53, dedicada ao amigo e mecenas Conde Ferdinand Ernst Gabriel von Waldstein. Composta apenas alguns anos depois da Ao Luar, esta sonata é obra do período heroico de Beethoven, que já vivenciara os tormentos da surdez e tratara de agarrar o destino pela garganta.
A música de Beethoven permite diferentes e válidas interpretações. Nesta obra podemos ter a perspectiva que favorece a beleza do som em interpretações mais pausadas, como as de Claudio Arrau e Christoph Eschenbach. Há também interpretações que enfatizam o lado heroico, como nas gravações do Maurizio Pollini, Stephen Kovacevich (Philips e EMI) e Richard Goode.
Mikhail Vasilievich Pletnev
Esta sonata também é uma prova de que o teimoso Ludovico, às vezes, mudava de ideia. Numa primeira audição, os amigos gostaram da sonata, mas acharam o movimento lento um pouco longo. Beethoven resmungou, disse que de música quem entendia era ele, mas depois cedeu. O lindo Andante favori, WoO 57, é o movimento descartado da primeira versão, ganhou vida própria e foi substituído pelo atual Introduzione: Adagio molto, bem mais efetivo. Aqui está uma versão do Andante favori e aqui outra, para vocês entenderem minhas observações sobre as diferentes interpretações das obras de Beethoven.
O intérprete destas maravilhas é Mikhail Pletnev, músico completo. Pianista, ganhou em 1987 a Medalha de Ouro e Primeiro Prêmio do Tchaikovsky International Piano Competition. Também é maestro. Fundou em 1990 a Russian National Orchestra, a primeira orquestra russa sem suporte estatal desde 1917, com a qual fez uma gravação espetacular da Sexta Sinfonia de Tchaikovsky. Pletnev também compõe e há gravações memoráveis de algumas de suas transcrições para piano de obras de grandes compositores.
Para completar, o disco tem produção esmeradíssima, aos cuidados de Andrew Keener.
Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
Sonatas para Piano
Sonata No. 14 em dó sustenido menor, quasi una fantasia, Op. 27, 2 – Ao Luar
Para quem gosta de piano, um disco com sonatas é uma festa. Se o compositor é Mozart, a festa será ainda mais animada! Neste caso, temos como intérprete Murray Perahia, cujas credenciais como intérprete de Mozart são impecáveis. Portanto, pode preparar-se para um grande recital. Mas, aviso aos navegantes, não vão ficar esperando arroubos românticos e dramas psicológicos. As sonatas de Mozart pertencem ao mundo clássico, foram compostas para o fortepiano vienense e são sutis, espirituosas, elegantes, divertidas.
Mozart compôs dezoito sonatas e neste disco temos três, que são muito diferentes, umas das outras.
A Sonata em lá menor, K. 310 é uma de apenas duas em tonalidade menor, todas as outras em tonalidade maior. Por isso, há que esperar um pouco mais de drama desta que abre o recital. De fato, o Andante cantabile con espressione, o movimento lento da sonata, é quase tão longo quanto os outros dois movimentos juntos. Tudo indica que esta sonata foi composta, assim como as Sonatas K. 309 e K. 311, entre 1777 e 1778, durante uma visita de Mozart a Paris. Ele nunca mencionou essa peça em suas cartas e é bem possível que ela não tenha sido concebida visando alguma apresentação pública. O seu tom mais dramático pode refletir o difícil período enfrentado por Mozart, em função da morte de sua mãe, que o acompanhava na estada em Paris.
A próxima sonata é definitivamente a mais conhecida das sonatas de Mozart. A Sonata em lá maior, K. 331 inicia com um tema e variações, que certamente não passaria desapercebido pelo jovem Beethoven. No lugar de um movimento lento, temos um Menuetto e Trio, que são seguidos imediatamente pelo (justamente famoso) Rondo alla Turca. A primeira vez que ouvi este movimento, que também aparece em recitais de grandes pianistas como um encore, foi em um LP do Wilhelm Kempff. Quase furei o pobre disco. Mas quem não faria a mesma coisa?
A última sonata nasceu inicialmente como apenas um Rondo, K. 494, para algum aluno, mas que foi logo depois estendido a uma sonata, completado pelos outros movimentos, Allegro e Andante, K. 533.
Enfim, temos aqui um disco onde não falta elegância e requinte, algum elemento de drama e muito boa música.
As sonatas de Mozart são únicas, disse o famoso pianista Artur Schnabel. Elas são muito fáceis para as crianças e muito difíceis para os artistas. Por isso, não é fácil elaborar um ótimo disco de sonatas para piano de Mozart. Este chega muito alto. Aproveite bastante!
Deve ser o inverno, com o elevado consumo de tangerinas, que me causa isto. Acordo com muita vontade de ouvir Bruckner. Meus vizinhos anseiam pela primavera, para sons mais barrocos…
Na verdade, Bruckner não é o primeiro nome que ouvimos nas rodinhas de festas de aniversário quando o papo descamba para música. Mas, se o assunto é sinfonias, a presença é garantida.
A primeira das Sinfonias de Bruckner que ouvi foi a Romântica, a Quarta Sinfonia. Lembram das coleções sobre música clássica que eram vendidas nas bancas? Em todas elas, Bruckner 4.
Meu mapa de Sinfonias de Bruckner hoje está bastante expandido, além da óbvia No. 4, ouço com frequência as três últimas, 7, 8 e 9. A Oitava é proporcionalmente mais majestosa, mas suas irmãs próximas são também grandiosas.
Michael Gielen recentemente colocou, definitivamente, a Sexta no meu mapa e espero que Bernard Haitink, regendo a Orquestra da Rádio Bávara, faça alguma coisa pela Quinta. As primeiras Sinfonias, de números 2, 1, 0 e, pasmem, 00 (duplo 0), ainda estão em terra ignota.
Anton Bruckner
Mas a Terceira Sinfonia, assunto desta postagem, a sinfonia que Anton dedicou a Wagner, me foi apresentada pelo jurássico George Szell regendo (mercilessly) a Orquestra de Cleveland. Desde então tenho uma simpatia por esta Sinfonia.
Mas, tratando-se de Bruckner, a coisa sempre pode complicar. Há várias versões desta sinfonia. Alvo de selvagem recomposição, desconstrução e revisões, restaram pelo menos três versões entre as quais os maestros podem escolher. Sobre este assunto, você pode encontrar mais informações aqui.
Estão presentes nesta peça as características que admiramos na obra de Bruckner. A sólida construção dos tutti – apresentados aqui superlativamente. Som enorme, grupos de metais (trompas, muitas trompas) se opondo e se unindo às cordas. Temas belíssimos em suas simplicidades. Adagio, que sempre é tão importante em Bruckner, iniciando nas cordas e prosseguindo com as adições de metais e madeiras. Sei que é lugar comum, tratando-se de Bruckner, tudo combina com enormes paisagens. Eu diria, paisagens alpinas. Depois, rock solid scherzo, com ritmo pulsante! Até as pedras dançam. O final, resumo de tudo, com seus lindos temas de dança. Não é por pouco que o pessoal aplaude freneticamente.
A gravação desta postagem foi feita em 25 de novembro de 2009 com a City of Birmingham Symphony Orchestra (a orquestra do Simon Rattle, antes de sua transferência para a Berliner Philharmoniker) regida pelo então jovem Andris Nelsons. Na ocasião, Nelsons era o regente principal da CBSO. Hoje ele está gravando o Ciclo das Sinfonias de Bruckner para o big yellow label – a Deutsche Grammophon, com a Gewandhaus Orchester, Leipzig. Essas gravações têm sido postadas aqui no PQP pelo PQP. Veja, em particular, esta postagem aqui.
Anton Bruckner (1824-1896)
Sinfonia No. 3 em ré menor (Versão 1889)
Mehr langsam, Misterioso
Adagio, bewegt, quasi Andante
Ziemlich schnell
Allegro
City of Birmingham Symphony Orchestra
Andris Nelsons
Gravação feita em 25 de novembro de 2009 no Symphony Hall, Birmingham
Temos então uma oportunidade de comparar duas perspectivas desta peça de Bruckner, distantes uma da outra de perto de dez anos, do jovem maestro. É claro, as circunstâncias são diferentes, duas orquestras com tradições muito diversas e também as diferenças das condições das duas gravações. Você poderá ler uma crítica comparativa das duas gravações aqui.
No entanto, como deve ser em música, as conclusões finais devem ser as suas.
René Denon
PS: A partitura desta versão da Sinfonia está disponível aqui.
Este disco foi lançado originalmente na era dos LPs com o código MK 39222. Sorri com meus botões ao lembrar-me de Miles Kendig e pensei nos dizeres do arguto psicólogo: coincidências não existem. Com esta postagem, realmente completamos a saga dos Concertos para Piano de Mozart. Para deveras completá-la, pedimos ajuda a outro exímio pianista, especialista em Mozart: Murray Perahia. Este disco foi lançado quando Perahia era bem jovem e o selo ainda chamava-se CBS Masterworks. Na era dos CDs foi lançado, e de novo, algumas vezes. A última vez na série Sony Classical – Great Performances.
Selim Gidnek, ou melhor, Miles Kendig
Assim como os Concertos Nos. 1 a 4, esses três concertos são arranjos de peças de outros compositores, neste caso, de Johann Christian Bach. Os arranjos aqui são para piano (poderia ser cravo), dois violinos e baixo contínuo. São peças que revelam a impressionante capacidade musical de Mozart, que era ainda criança, assim como ilustram o desenvolvimento e a estruturação do concerto para piano como gênero musical.
Para completar o disco, um lindo Concerto para Piano em dó maior, de Johann Samuel Schröter. Nascido na Polônia, Schröter era um pouco mais velho do que Mozart e dominou a cena musical em Londres, vindo a ocupar o lugar de Johann Christian. Era ótimo compositor e exímio pianista, como confirma este lindo concerto. No entanto, para casar-se com uma mulher de família rica, concordou em aceitar uma grande anuidade do sogro em troca de abandonar a carreira musical. Uma pena…
Anton Bruckner nunca ouviu a sua Sexta Sinfonia em sua totalidade. Ela foi composta entre setembro de 1879 e setembro de 1881, com algumas revisões feitas em 1882. Anton era obcecado por revisões. O segundo e o terceiro movimento da Sexta foram estreados em 11 de fevereiro de 1883 pela Filarmônica de Viena, regida por Wilhelm Jahn. A estreia de toda a sinfonia ocorreu em 26 de fevereiro de 1899, também pela Filarmônica de Viena, agora regida por Gustav Mahler.
Falando em uma entrevista sobre as escolhas das versões das Sinfonias de Bruckner para as suas gravações, Michael Gielen diz que “felizmente, há apenas uma versão da Sexta, assim como da Quinta, portanto não havia escolha a ser feita”.
Bruckner gastou tanto tempo revendo as primeiras sinfonias e compondo as últimas que não teve tempo para revisar estas duas nem para terminar a Nona. Sobre este tema, você poderá ler um pouco mais aqui.
Ainda sobre a Sexta Sinfonia, Gielen afirma: “Eu amo esta peça. (…) Acho simplesmente incrível a maneira como este ritmo dançante no início contrasta com o tema principal, que tem mais um caráter de tipo canção, fazendo a sinfonia começar subitamente com duas ideias”.
Em uma crítica sobre este disco, Victor Carr Jr menciona a meticulosa atenção dada por Gielen à estrutura rítmica e aos detalhes contrapontísticos, resultando em uma performance vibrante, com uma textura excepcionalmente clara. Gielen encurta os românticos ritardandos no fim do primeiro e último movimento, permitindo que os maravilhosos finais abruptos de Bruckner tenha seus devidos impactos. Você poderá ler a crítica completa aqui.
Arnold, achando tudo um grande barato…
Para completar o disco, a transcrição para orquestra do Prelúdio e Fuga em mi bemol maior, BWV 552, de Johann Sebastian Bach, feita por ninguém mais do que Arnold Schoenberg. O cara entendia de orquestração! Realmente, esta parte do disco merece atenção e é mais do que apenas um complemento. O contraste da Sinfonia para esta peça é maravilhoso, assim como ouvir a peça de Bach vestida de modernidade nos lembra da sua atemporalidade.
E a orquestra, hein? Maravilhosa, assim como a gravação.
Anton Bruckner (1824-1896)
Sinfonia No. 6 em lá maior
Maestoso
Sehr feierlich
Nicht schnell – Trio. Langsam
Bewegt, doch nicht zu schnell
Johann Sebastian Bach (1685-1750)/Arnold Schoenberg (1874-1951)
Prelúdio e Fuga para órgão em mi bemol maior, BWV 552
Eu tenho uma enorme predileção por música ao piano. Adoro CDs com piano solo. Quando ouvi rumores de uma pianista russa que migrara para a Alemanha e era tudo menos convencional, saí logo à caça.
O primeiro CD dela que ouvi foi de música de Bach. Disco excepcional, já está escalado para futura postagem. Mas, olhando o rol de minhas postagens, achei que estava faltando um certo tempero russo, algo assim ovas de esturjão e vodcas. Como o pessoal do blog vetou o disco da orquestra de balalaicas, escalei o disco de Prokofiev, música para piano, interpretada pela Elena Kuschnerova. Sergei Prokofiev compôs um dos melhores concertos para piano do Século XX e é um bamba do teclado. Ainda tenho que explorar parte de sua obra, mas adoro três de seus cinco concertos para piano e a tal cantata com música do filme do Eisenstein. A Sinfonia Clássica nem conta, todo mundo gosta. Veja mais informações sobre ele neste site.
Prokofiev
Este disco traz dez peças que Prokofiev transcreveu para piano a partir de movimentos do seu justamente famoso balé Romeu e Julieta.
Este balé, assim como a música para o filme Alexander Nevsky, foram compostos em 1935 e 1938, respectivamente quando a política em vigor na Rússia exigia maior comunicação dos artistas com o público. Prokofiev agiu com atenção a esta orientação sem, no entanto, deixar de produzir obras primas.
Estas dez faixas, na minha opinião, valem o disco. Recriar ao piano o universo sonoro de tão sofisticada orquestra é para poucos. Mas, esqueça a orquestra, mergulhe neste ambiente sonoro de piano e aproveite uma delícia após a outra.
Prokofiev compôs nove sonatas para piano e aqui temos a segunda delas, composta em 1912, antes da Revolução, quando Prokofiev ainda era um talentoso jovem de 21 anos. A sonata tem quatro movimentos, apesar de bastante compacta. Nestes movimentos já se apresentam algumas das linhas básicas criação artística do compositor e são muito contrastantes. Por exemplo, o segundo movimento lembra uma tocata e segue a linha chamada cinética. Para maiores detalhes sobre os demais movimentos da sonata, você pode consultar aqui.
A última faixa do disco funciona assim como um bis, um encore. É uma marcha com menos de dois minutos que originalmente pertence à ópera O Amor das Três Laranjas, composta em 1921 e apresentada pela primeira vez em Chicago, sob a direção do próprio Prokofiev.
Elena Kuschnerova
Sergei Prokofiev (1891 – 1953)
Romeu e Julieta – Dez Peças para Piano, Op. 75 (1937)
Dança folclórica. Allegro giocoso
Allegretto
Assai moderato
A jovem Julieta. Vivace
Máscaras. Andante marciale
Os Montecchios e os Capuletos. Allegro pesante
Frei Lourenço. Andante expressivo
Allegro giocoso
Dança das jovens com lírios. Andante com eleganza
Romeu e Julieta, antes da partida. Lento
Sonata para Piano No. 2 em ré menor, Op. 14 (1912)
Este disco é um clássico! Oscar Peterson foi um dos maiores pianistas de todos os tempos. Com uma carreira que perdurou por mais de sessenta anos e decolou quando começou a trabalhar com o produtor Norman Granz. Granz havia formado o selo Verve para gravar Ella Fitzgerald e acabou reunindo uma constelação de grandes artistas, entre eles Oscar Peterson. Nesta época, Oscar Peterson era acompanhado por Ray Brown (contrabaixo) e Ed Thigpen (bateria). Essa formação jazzística, um trio, gravou excelentes discos para o selo Verve.
O Oscar Peterson palys the Cole Porter Song Book é um álbum que faz parte de uma série dedicada a grandes nomes da música americana, como George Gershwin e Duke Ellington. As canções, originalmente com letras, escritas para musicais, são apresentadas nesta roupagem jazzística, pelo Oscar Peterson Trio.
Linda e Cole Porter
Cole Porter foi um playboy, no sentido exato da palavra, mas foi também muitas outras coisas. Teve uma vida intensa, mas com muitas, muitas dificuldades também. Nascido em Peru, Indiana, no coração do Midwest (Meio-Oeste americano), não poderia ter vindo de um lugar mais conservador. Logo ele que era, em tudo, diferente. Vale a pena descobrir um pouco mais sobre a vida deste fascinante compositor. Como a literatura acessível é vasta, deixo isso com você. O que importa é que ele foi um compositor como poucos. Criou canções maravilhosas, daquelas que grudam na nossa pele, não saem da nossa cabeça. Suas letras são sobre temas urbanos e são sofisticadas. Mas principalmente, verdadeiros hits!
Oscar e seus parceiros tomam doze delas e as trazem para você. O som do piano, acompanhado pelo baixo, com o ritmo marcado pelos drums, é irresistível. Gosto de todas, mas se me torcerem o braço, digo que Night and Day, I’ve Got You Under My Skin e I Love Paris são as minhas mais queridas.
A capa deste disco é uma coisa maravilhosa. As capas desta série poderiam ser emolduradas e irem direto para a parede da minha sala. São de Merle Shore e eu não consegui descobrir nada sobre essa pessoa. Se você sabe algo, por favor, diga-me!
Este despretensioso disco reúne tantas coisas que eu gosto que decidi postá-lo. É mais um destes discos vendidos nas bancas junto com a BBC Music Magazine a esconder algumas gemas.
Felix Mendelssohn
O disco inicia com o Quarteto para Piano em si menor, Op. 3, de Mendelssohn, que foi composto quando Felix tinha apenas 16 anos. Nascido em família rica, ele foi criança prodígio e sua música tem muita ligação com a herança clássica de Mozart e Beethoven, mas com traços românticos, como em seu belíssimo Concerto para Violino. Este quarteto com piano é repleto de impetuosidade e brilhantismo.
Robert Schumann
Felix Mendelssohn e Robert Schumann foram amigos e nos primeiros dias do ano 1846, o casal Mendelssohn visitou o casal Schumann, que realizaram uma soirée. Nesta noite, Clara Schumann tocou a parte de piano e Mendelssohn a parte da viola do Quarteto para Piano em mi bemol maior de Robert Schumann. É uma obra de uma fase de intensa produção camerística do compositor, guarda muita beleza no Andante cantabile e imenso frescor nos outros movimentos. Fica um pouco na sombra do magnífico Quinteto com Piano, composto na mesma fase, mas é uma pequena obra prima.
Completam o disco quatro peças escritas por Schumann para viola e piano, os Märchenbilder, Op. 113. Schumann compôs estas peças para Wilhelm Joseph von Wasielewski, o primeiro violinista da Düsseldorf Musikverein, da qual Schumann era o diretor, e que fora roubado da Leipzig Gewandhaus, de Mendelssohn.
Talvez o Quarteto de Schumann seja a peça mais destacada do disco, mas as outras compõem com ele com muita harmonia.
Narek HakhnazaryanJuho Pohjonen
O disco, com repertório camerístico, tem por intérpretes músicos relativamente jovens, provenientes dos mais diferentes cantos do mundo. Como um produto típico de nossos dias, está repleto de diversidade. A sua gravação é proveniente da Chamber Music Society – CMS – do Lincoln Center, da cidade de Nova Iorque.
O violoncelista é Narek Hakhnazaryan, da Armênia, que em 2011 ganhou a Golden Medal do International Tchaikovsky Competition. Ao violino, Erin Keefe, a concertmaster da Minnesota Orchestra e detentora do Avery Fisher Carrer Grant de 2006. De uma geração anterior, o violista Paul Neubauer chegou ao posto de primeira viola da New York Philharmonic aos 21 anos, no início da década de 1980. Juho Pohjonen é um jovem pianista finlandês que tem se destacado por participar de muitos festivais de música e se apresentado com as principais orquestras do mundo.
Erin KeefePaul Neubauer
No entanto, o nome que me fez chegar ao disco é Da-Hong Seetoo, o produtor. A biografia de Da-Hong é impressionante. Nascido na China, de família musical, estudou violino na infância, mas tudo foi interrompido pela Revolução Cultural Chinesa. A música, os discos e livros, tudo foi banido de uma hora para outra. Nesta adversidade, Da-Hong acabou aprendendo muito sobre gravações. O gravador que ganhou de seu pai, que usava para gravar e regravar os discos que conseguiam emprestar, tudo por baixo dos panos, foi reparado por Da-Hong inúmeras vezes. Estudante do Conservatório de Shangai, foi ouvido em 1979 pelo primeiro violino da Sinfônica de Boston, Joseph Silverstein, que o recomendou para estudar no Curtis Institute of Music. Foi aceito sem mesmo uma audição. Posteriormente fez pós-graduação na Julliard School of Music. Neste período de estudos passou a gravar os discos de seus colegas. Esta experiência o ajudou a optar pela carreira de produtor de discos, na qual tem muito sucesso. Assim, seu nome completa esta constelação de talentos de diferentes países.
Da-Hong preparando-se para gravar a Abertura 1812
Felix Mendelssohn (1809 – 1847)
Quarteto com Piano em si menor, Op. 3
Allegro molto
Andante
Allegro molto
Finale: Allegro vivace
Robert Schumann (1810 – 1856)
Märchenbilder (para viola e piano), Op. 113
Nicht schnell (Não rápido)
Lebhaft (Vivo)
Rasch (Rápido)
Langsam, mit melancholischem Ausdruck (Lento, com expressão melancólica)
Ao chegar em casa após intensas reuniões tratando do planejamento das postagens do blog e de horas seguidas de audições dos arquivos postados pelos colegas, esperava apenas uma noite tranquila em frente à TV fazendo o leve exercício de entender os meandros e as sutilezas da política nacional. No entanto, ao abrir a caixa de correio, meu coração acelerou – envelope acolchoado com plástico de bolhas com clara indicação de ter chegado do exterior, enviado por um desconhecido Gidnek Selim. Quase não conseguia enfiar a chave no buraco da fechadura, com gana de abrir logo o teimoso envelope.
Alguns minutos depois e tudo foi se esclarecendo. O conteúdo do envelope era o CD que faltava à postagem da Integral dos Concertos para Piano de Mozart. Realmente, dias atrás, um atento leitor escreveu-me observando que, como num destes contos de Borges, havia uma lacuna e a minha postagem da Integral dos Concertos para Piano de Mozart restava incompleta. Mas como?, pensava eu, dez é o número da totalidade! Onde estão os quatro primeiros concertos?, insistia o leitor arguto. Argumentei que estes não eram exatamente concertos compostos por Mozart. Numa enciclopédia que imaginava ter consultado havia indicações de sonatas de Johann Christian Bach. Busquei a tal enciclopédia, mas as consultas feitas após a meia-noite são elusivas. O volume que eu buscava, com verbetes iniciados por Moz até verbetes iniciados por Rac estava desaparecido. Mais mistério. Iniciei buscas outras e até enviei alguns e-mails para um antigo endereço que Miles havia deixado na última vez que estivemos juntos.
Claro, Miles…
Foi assim que descobri a existência de mais um volume da coleção por mim postada, o de número 11. Pronto, imagino que agora a saga dos Concertos para Piano estará, enfim, completa. Sem dúvida, Gidnek Selim é um ardiloso anagrama de Miles Kendig. Em se tratando de espiões e agentes secretos, mesmo aposentados, todo o cuidado é pouco. Meu caro Miles deve ter percebido a falha na postagem e enviou-me o CD que faltava. Ah, o que seria da vida sem os amigos…
Então, aqui temos a coisa toda, os Concertos para Piano de Nos. 1 a 4 realmente são pastiches de obras de compositores alemães que atuavam em Paris. Foi lá que Mozart os conheceu, assim como as suas obras, em suas viagens de 1763, 1764 e novamente em 1766.
Hermann Friedrich Raupach era um compositor alemão. Mozart e ele improvisavam juntos, ao piano, enquanto Mozart, uma criança ainda, sentava-se sobre seus joelhos. Mozart e Johann Christian Bach fariam o mesmo, em Londres.
Leontzi Honauer era músico de Strasburgo e tinha muitas obras publicadas em Paris.
Johann Schobert foi cravista e compositor muito admirado em Paris, que em 1767 teve a infelicidade de comer cogumelos envenenados. Mozart admirava sua música, que achava charmosa. Leopold, o pai de Mozart não o tinha em grande conta.
Johann Gottfried Eckard havia se mudado para Paris em 1758 e lá permaneceu até a sua morte em 1809. Eckard aprendera muito com CPE Bach e preferia o emergente piano em oposição ao cravo. Era excelente pianista e mestre na improvisação.
Fica então assim a distribuição dos compositores das peças usadas na moldagem dos concertos.
Estes pastiches revelam a habilidade de Mozart em revestir peças originalmente escritas como música de câmera ou como sonatas na forma de concertos e permitiam assim a exibição de seus dotes como virtuose do piano. São peças típicas do estilo galante, desenvolvido pelos alemães e que tanto caíra no gosto dos parisienses. Segundo a revista Classic CD, “You are in for a treat!”
Como? Nova ligação de Miles, ainda mais concertos para piano de Mozart? Bom, essa vai ter que ficar para depois! To be continued…
Ganha uma cocada quem encontrar o Nikolaus nesta foto…
Nikolaus Harnoncourt era de uma família nobre de Luxemburgo e Lorraine e foi batizado como Conde Johannes Nikolaus de la Fontaine und d’Harnoncourt-Unverzagt. Era descendente de imperadores. Seu primeiro emprego como músico foi de violoncelista da Orquestra Sinfônica de Viena, em 1952. Em 1953 fundou, com sua mulher, Alice Harnoncourt, o Concentus Musicus Wien, para tocar música antiga com instrumentos originais e práticas similares às usadas na época da composição das peças.
Posteriormente, Harnoncourt tornou-se regente de orquestras convencionais, regendo todo o repertório clássico. Deixou gravações (perto de 500 CDs) que incluem, por exemplo, as sinfonias de compositores que vão de Haydn e Mozart até Bruckner. O Ciclo das Sinfonias de Beethoven, que ele gravou com a Chamber Orchestra of Europe, ganhou importantes prêmios de discos e ainda é uma referência.
Vai dizer que não gostou da música?
Nesta postagem temos a oportunidade de ouvir Harnoncourt interpretando as sonatas para viola da gamba de Bach. Veja o que ele mesmo disse sobre o instrumento: Ao contrário do violino, a viola da gamba é essencialmente um instrumento introvertido, de sonoridade frágil e doce, que foi desde o seu surgimento destinado a espaços de dimensões restritas. Você poderá ler a integra dos comentários do disco, escritos pelo próprio Harnoncourt, neste site aqui.
Frans, no tempo em que levava a vida na flauta
Este disco traz as três (trio) sonatas para viola da gamba escritas por J. S. Bach. O termo triosonata deve-se ao fato de termos três vozes apresentando a música. A viola da gamba e o cravo, que tem papel importante, uma segunda voz, além do baixo contínuo. Estas composições são releituras de peças escritas para outras combinações de instrumentos. A primeira sonata, por exemplo, foi arranjada a partir da sonata para duas flautas e baixo contínuo, a última peça do disco. Você poderá comparar as duas peças e perceber a habilidade do magnífico Johann Sebastian Bach de apresentar (vestir) a música em diferentes maneiras. Após as três primeiras sonatas para viola da viola da gamba, ouvir a mesma peça interpretada ao som de duas flautas é algo que ainda hoje me surpreende e encanta.
Leopold Stastny
Para interpretar a sonata para duas flautas temos o lendário Frans Brüggen fazendo dupla com Leopold Stastny. Frans Brüggen é outro pioneiro da prática de instrumentos originais e foi virtuose flautista. Adaptando os dizeres das camisetas da Oktoberfest, ele tocava todas. Posteriormente passou a reger e deixou gravações excelentes. Assim como Harnoncourt, foi longevo e manteve-se ativo até seus últimos dias.
A produção do disco está ao cargo de Wolf Erichson, importante e premiado produtor. Você poderá ver parte de sua discografia aqui.
Johann Sebastian Bach (1685-1750)
Sonate G-dur für Viola da gamba und Cembalo, BWV 1027
Adagio
Allegro ma non tanto
Andante
Allegro moderato
Sonate D-dur für Viola da gamba und Cembalo, BWV 1028
Adagio
Allegro
Andante
Allegro
Sonate g-moll für Viola da gamba und Cembalo, BWV 1029
Vivace
Adagio
Allegro
Sonate G-dur (Triosonate) für Traversflöten und B.c., BWV 1039
Adagio
Allegro ma non presto
Adagio e piano
Presto
Nikolaus Harnoncourt, Gambe (Jacobus Stainer, Absam 1667) und Violoncello (Andrea Castagneri, Paris 1744)
Herbert Tachezi, Cembalo (nach italienischen Vorbildern von Martin Skowroneck, Bremen)
Frans Brüggen, Traversflöte (A. Grenser, Dresden 1750)
Leopold Stastny, Traversflöte (Kopie nach Hotteterre von F. v. Huene, Boston)
Gravado em 1968
Produção de Wolf Erichson
Wolf verificando se o pessoal tocou mesmo todas as notas
Você poderá ler uma crítica bastante pertinente deste disco aqui.
O disco foi gravado em 1968 e lançado em 1969, pelo então selo Telefunken! Faz, portanto, mais de cinquenta anos e isto o qualifica para nosso selo Jurassic CD!!!
Estou quase certo, foi o língua de trapo do Stravinsky que afirmou ter Vivaldi escrito o mesmo concerto quinhentas vezes. Mesmo a mais infame afirmação pode conter uma grama de verdade. A afirmação, se é que houve, se foi exatamente assim, se foi feita pelo próprio Stravinsky, tem que ser considerada no contexto em que teria sido feita. Nos anos trinta havia complicados contextos políticos e sociais envolvidos e o ressurgimento da obra de Vivaldi a deixava superexposta.
Vivaldi viveu aqui…
O fato incontestável é que Vivaldi é muito bom! Seus concertos seguem sempre o formato allegro – adagio – allegro e duram perto de nove minutos, mas afirmar que são iguais uns aos outros é uma simplificação distorcente. Vivaldi tem imaginação e verve fenomenais. E ele teve no Pio Ospedale della Pietàseu laboratório de experimentos e entre suas alunas musicistas maravilhosas. Concertos para todos os tipos de instrumentos, inclusive alguns raros, que vinham do outro lado dos Alpes, devido às ótimas conexões venezianas com os fabricantes de instrumentos alemães. Além do Ospedale, Vivaldi trabalhou com outras orquestras, como a Orquestra de Dresden, dirigida por seu amigo e aluno Johann Georg Pisandel. Esta orquestra continha uma boa variedade de instrumentos de sopro, assim como a Orquestra da Ópera de Mantua. Por volta de 1720, Vivaldi também supriu música para a grande orquestra mantida em Roma pelo Cardeal Pietro Ottoboni, o grande mecenas das artes. Esta orquestra certamente tinha clarinetes entre seus instrumentos.
Exemplos indubitáveis das mil habilidades de Vivaldi são seus concertos com molti instrumenti. Estes concertos aparecem com frequência nos discos dos experts em música barroca, mas aqui temos algo bastante especial. Dois discos produzidos pelo selo francês Pierre Verany, com o Ensemble Matheus regido por Jean-Christophe Spinozi. O primeiro disco é intitulado Chalumeaux & Clarinettes Integral. Neste disco brilha o solista Gilles Thomé, que não só toca chalumeaux e clarintes, ele também as faz. O chalumeau é assim um parente distante do clarinete e caiu em desuso na medida que o clarinete foi sendo aperfeiçoado. O segundo disco traz concertos com misturas de instrumentos mais comuns como flautas transversa e doce, oboés e fagotes, com os tradicionais instrumentos de cordas e tiorbas, alaúdes, cravos e órgão. Entre os concertos deste disco, não deixe de notar o intitulado “Il Proteo o sia il Mondo al rovescio” e o que foi composto para “Sua Altezza Reale di Sassonia”! Nobres concertos. O título do primeiro concerto – O Mundo Virado de Cabeça para Baixo – refere-se ao violino e o violoncelo alternando-se no solo do concerto no mesmo intervalo tonal. Este disco individual foi postado pelo próprio PQP Bach.
Chalumeaux feitos pelo Gilles
Os músicos tocam instrumentos de época, mas isso não deve afastar nossos queridos leitores que preferem os instrumentos tradicionais. Nada aqui é agressivo ou abrasivo. Pelo menos aos meus ouvidos. Na verdade, se você estiver esperando os trompetes e fanfarras, vai se surpreender com a delicadeza e variedade dos sons. Vá em frente e deleite-se nesta superdose de música barroca italiana, produzida pela imaginação fervilhante do Petre Rosso, o Padre Vermelho!
Gilles Thomé ensaiando antes de você baixar os discos…
Antonio Vivaldi (1678 – 1741)
Concerti con Molti Instrumenti, Volume 1
Chalumeaux & Clarinettes – Integrale
[1-3] – Concerto em dó maior, RV 558 para duas flautas doces, dois chalumeaux, duas tiorbas, dois bandolins, dois violinos “in tromba marina” e violoncelo
[4-7] – Concerto em si bemol maior, RV 579 – “Funebre”, para dois oboés “sordini”, chalumeau, três violas “alle inglese” e violino
[8-10] – Concerto em dó maior, RV 555 para duas flautas doces, oboé, chalumeau, dois trompetes, violino, duas “violette inglesi” e dois cravos
[11-13] – Concerto em dó maior, RV 560 para dois oboés, dois clarinetes, cordas e baixo contínuo
[14-16] – Concerto em dó maior, RV 559 para dois oboés, dois clarinetes, cordas e baixo contínuo
[17-19] – Concerto em dó maior, RV 556 “Per la Solennita di S. Lorenzo”, para duas flautas doces, dois oboés, dois clarinetes, fagote, dois violinos, cordas e baixo contínuo
Ensemble Matheus
Gilles Thomé, chalumeau e clarinete
Jean-Christophe Spinosi, solo de violino e direção
[1-3] – Concerto No. 3 em sol menor, RV 577 – “Per l’Orchestra di Dresda”, para violino, dois oboés, duas flautas doces, dois fagotes e orquestra
[4-6] – Concerto em fá maior, RV 572 – “Il Proteo o sia il Mondo al rovescio”, para violino, duas flautas transversas, dois oboés, cravos, violoncelo e orquestra
[7-9] – Concerto em ré menor, RV 566 para dois violinos, dois oboés, duas flautas doces, fagote e orquestra
[10-12] – Concerto em lá maior, RV 585 – “In Due Cori”, para quatro violinos, quatro flautas doces, dois órgãos e duas orquestras
[13-15] – Concerto em dó maior, RV 556 [2ª. Versão] – “Per la Per la Solennita di S. Lorenzo”, para dois violinos, duas flautas doces, dois oboés, fagote e orquestra
[16-18] – Concerto em dó maior, RV 557 para dois violinos, dois oboés, duas flautas doces, fagote e orquestra
[19-21] – Concerto em sol menor, RV 576 – “Sua Altezza Reale di Sassonia”, para violino, oboé, duas flautas doces, dois oboés, fagote, contrafagote e orquestra
Ensemble Matheus
Jean-Christophe Spinosi, solo de violino e direção
Veja o que um crítico (quase) anônimo disso no Amazon sobre o primeiro disco: Consacré aux clarinettes et chalumeaux, le volume 1 fait entendre des instruments en buis fabriqués par Gilles Thomé qui en joue ici avec un art consommé. Ecoutez par exemple son poétique dialogue crépusculaire avec le violon de J.C. Spinosi dans le Largo e cantabile du « per la solennita di S. Lorenzo »
O Volume 1 é consagrado aos clarinetes e chalumeaux, instrumentos de madeira fabricados por Gilles Thomé que os toca com arte consumada. Escute por exemplo seu poético diálogo crepuscular com o violino de J. C. Spinosi no Largo e cantabile do “Per la Solennita di S. Lorenzo”
Ele está se referindo à faixa 18 do Volume 1. Baixe o disco e confira!
O que torna um disco, uma gravação, tão especial para alguém, mesmo depois de dezenas de anos? Algumas gravações, alguns discos, entram em nossas vidas e depois seguem suas vidas de objetos que se vão. Mas, de quando em vez, nos deparamos com algo especial. Quando esta gravação do Imperador, com Christoph Eschenbach ao piano, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Boston, regida pelo Seiji Ozawa, chegou em minhas mãos em um cassette, eu já conhecia a gravação do Stephen Kovacevich (naqueles dias, Bishop-Kovacevich) acompanhado da Sinfônica de Londres regida pelo (depois Sir) Colin Davis.
Eu ouvia uma, depois a outra, depois de novo uma e assim por diante, na vã tentativa de estabelecer uma preferida. Acho que naqueles dias, por um fio de cabelo, ganhou Eschenbach. O que me inclinou nesta direção foi a maravilhosa, a mágica transição do Adagio um poco mosso – attacca, para o Rondo – Allegro. Este momento do concerto, na minha opinião, é fundamental. Esta é a razão de eu ter, nos arquivos em mp3, unido em um único arquivo as duas faixas. Assim tenho a certeza que este momento estará lá, quando você ouvir.
Capa da gravação rival…
Falávamos outro dia entre amigos sobre antigas gravações – jurássicas – no nosso jargão. Pois bem, aqui temos um típico Jurássico CD. O que nos faz voltar a estas gravações antigas? Há tantas novas, mesmo novíssimas, tentadoras e interessantes. Bem, primeiro, uma coisa não necessariamente exclui a outra. Mas eu acredito que queremos continuar experimentando a magia que uma vez lá percebemos.
No caso desta gravação do Imperador, ouvi tudo de novo. Lá estava, bem no início, a maneira imperiosa e arrebatadora com a qual Beethoven abre o concerto. Todos nós sabemos o quanto os primeiros momentos são importantes para agarrar a atenção do ouvinte. E o momento da transição do Adagio para o Rondo? Continuei esperando a última nota do Adagio, com a respiração suspensa, até o súbito irromper do Rondo, a magia intacta.
Se eu tivesse conhecido apenas esta gravação do Imperador, ainda sim saberia que se trata de uma obra prima. Não seria este o critério máximo para atribuir algum tipo de valor a uma gravação? Eu não conheço outro.
Quanto a Fantasia para Piano, Coro e Orquestra, em dó menor, Op. 80, interpretada pelo competentíssimo Jörg Demus, acompanhado dos vienenses? Bem, até Beethoven tinha que por pão na mesa e essas fantasias faziam realmente muito sucesso. A peça serve para levar o tempo do CD para 59 minutos e é até bonitinha. Mas não se deixe levar, o CD é do Imperador.
Christoph Eschenbach
Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
Concerto para Piano em mi bemol maior, Op. 73 – Emperor
Allegro
Adagio um poco mosso – attacca:
Allegro
Christoph Eschenbach, piano
Boston Symphony Orchestra
Seiji Ozawa
Fantasia para Piano, Coro e Orquestra, em dó menor, Op. 80
O concerto foi na Sala Cecília Meireles e a primeira parte do programa foi o Concerto para Piano de Schumann. Lindo. O último movimento, arrebatador, como se espera de um autêntico concerto romântico. A pianista Sylvia Thereza, que eu não conhecia, tem excelentes credenciais e fez mais do que jus à obra.
Palmas, muitas palmas, ela voltou umas três vezes ao palco para agradecer nosso entusiasmo e então ficamos quietinhos quando ela anunciou que tocaria Reflexos na Água, de Debussy. Como foi bonito. Ficamos lá, nós e os jovens músicos da orquestra, todo o mundo na pontinha da cadeira, por cinco minutos, ouvindo uma beleza de música, um refrescante contraste com o romantismo da peça que ouvíramos antes.
Lembrei-me então do disco que estou postando hoje: Ivan Moravec plays Debussy. Bons discos de Debussy não são muitos e excelentes então, nem se diga. É bem fácil errar a mão com este compositor. Além disso, o som também é muito importante, para podermos apreciar os mil efeitos que ele produz e que compõem as suas ideias musicais.
Neste disco temos uma feliz combinação de compositor – repertório – intérprete, completado por um excelente trabalho técnico, apesar do selo relativamente pouco conhecido, MMG – Vox Cum Laude.
O pianista Ivan Moravec nasceu em Praga, teve grande renome e atinha-se a um repertório centrado principalmente na obra de Chopin e compositores tchecos.
Claude tomando um solzinho de outono em Camboinhas…
Quando gravava alguma obra, era como resultado de muita dedicação e experiência. Aqui nas páginas deste blog você encontrará alguns concertos para piano de Mozart interpretados por ele, que foram postados pelo FDP Bach (aqui e aqui). Encontrará também os Noturnos de Chopin, postados pelo Vassily Genrikhovich (aqui). A postagem do Vassily foi feita na ocasião da morte de Moravec, em 2015 aos 84 anos.
O disco desta postagem começa exatamente pela Reflets dans l’eau (Reflexos na água), a primeira da série Images, livre 1. O disco é composto pelas duas séries de três peças chamadas Images, além de Estampes, outra série de três peças. Moravec devia saber que dez é o número da totalidade, pois acrescentou uma intrigante peça do primeiro livro dos Préludes, chamada Des pas sur la neige, entre as duas Images e Estampes. Os títulos das peças de Debussy são muito bonitos e mesmo poéticos. Mas eles apenas reforçam a impressão causada pela peça. No caso dos Préludes, Debussy insistia que o nome viesse apenas no final da peça.
Você poderá ler cada um dos nomes das peças e descobrir um pouco sobre cada um deles. Os que eu mais gosto são Et la lune descend sur le temple qui fut, Soirée dans Grenade e Jardins sous la pluie. Debussy esnobava dizendo que escolhera o nome Et la lune descend sur le temple qui fut para formar um perfeito verso Alexandrino.
Max também produziu a integral das sonatas para piano de Beethoven com Richard Goode!
Falta mencionar um importante nome que aparece sempre em letras pequeninas no livreto, quando aparece. A produção deste fenomenal disco é de Max Wilcox, uma lenda para as pessoas que sabem da importância dos produtores na história das gravações. Max produziu praticamente todos os LPs de Arthur Rubinstein. Produziu também muitos discos do Emerson Quartet. Você poderá assistir aos depoimentos de Max Wilcox e Da-Hong Seetoo sobre suas experiências como produtores aqui. A discografia de Max é imensa e ele foi uma das pessoas que elevou o papel de produtor de discos a um nível artístico. Meu lema é: “Se é Max, é bom!” Com sorte, pode ser excepcional, como é o caso desta preciosidade aqui.
Senhores, abram espaço nos seus HDs, joguem fora aqueles arquivos de conversas do WhatsApp e baixem isto aqui!
Francesco Antonio Bonporti fazia parte da turma de italianos dilettanti di musica, assim como Benedetto Marcello e Tomaso Albinoni. Nascido em berço de ouro, na cidade de Trento, praticava a arte da música por prazer, era um gentiluomo. Pagou de próprio bolso as publicações de suas obras que foram do Opus 1 até o Opus 12 e circularam muito, mesmo em edições piratas.
Francesco Antonio Bonporti
Como era de se imaginar, vindo de família abastada, Bonporti teve acesso ao melhor do que havia em seu tempo. Aos 19 anos recebeu o grau de Doutor em Filosofia em Innsbruck. Estudou teologia no Collegium Germanicum, em Roma e seguiu carreira eclesiástica.
Estudou música com Ottavio Pitoni, que fora regente da Capela do Collegium Germanicum. É possível que tenha estudado com Corelli e certamente conhecia bem as suas obras.
Nesta postagem temos o que há de mais inovador em sua obra, o Opus 10, que coleta dez Invenzioni para violino solo, mas com detalhado baixo contínuo. As peças são sonatas com diversos movimentos, mas o título indica maior liberdade tomada pelo Bonporti ao compô-las.
Chiara Banchini
Nesta gravação temos a excelente violinista Chiara Banchini, acompanhada por Jesper Christensen ao cravo e Gaetano Nasillo ao violoncelo. Sim, eles usam instrumentos originais, mas não temam aqueles nossos leitores que preferem música com instrumentos modernos. O conjunto é excelente e acham a medida certa para apresentar esta maravilhosa e inovadora música.
E para saber quanto essas peças são boas? Afirmo, são excelentes. Vejam, o grande, o imenso Johann Sebastian Bach tinha conhecimento delas e fez cópias de algumas delas (Nos. 2, 5, 6 e 7). Por esta razão, estas peças foram consideradas como do próprio Bach até 1911, quando tudo foi devidamente esclarecido. É pouco ou quer mais?
O que distingue este este conjunto de peças escrito por Bonporti já é indicado pelo título: Invenzioni, Invenções. Livre das convenções acadêmicas, aqui Bonporti dá rédeas soltas à imaginação. Bizaria, fantasia, capricio, ecco e balletto são alguns dos títulos dados aos diversos movimentos. Ele fala assim desta sua obra: Eu compus estas melodias de acordo com um gosto bem especial, em um estilo totalmente incomum.
Depopis desta foto de Trento já liguei para meu agente de viagens…
Para este interlúdio escolhi um disco onde tudo é brasileiro: os músicos, os compositores, a gravação e a manufatura do disco. Há um único simpatizante, pero és um hermano.
O personagem principal, Raphael Rabello, merece toda a nossa reverência e apreciação. Músico completo, nasceu e viveu amadrinhado e em claro compadrio com a música. Realmente é muita pena que se tenha ido tão cedo. Neste disco ele toca músicas de Tom Jobim.
Há dois convidados especiais para o disco. Um é Paco de Lucia, que empresta um sotaque flamenco à primeira faixa do disco – o Samba do Avião. O outro é o próprio Tom Jobim, que anuncia sua presença na faixa oito – Garoto, tocando o piano.
Todos os outros músicos são parceiros de Raphael Rabello, pessoal de primeiríssima linha, como o Paulo Moura, o Luiz Avelar. Os créditos estão todos bem indicados na relação das músicas logo a seguir.
Nas faixas cinco e dez – Modinha e Luiza – Raphael Rabello se apresenta solo.
Se exigissem que eu escolhesse a música mais linda do disco eu diria Anos Dourados e Luiza, em nenhuma ordem. Entendo, você deve estar vendo alguma incoerência. Esqueça, não há.
TODOS OS TONS
01. Samba Do Avião
Compositor: Tom Jobim
Músicos: Armando Marçal (Marçalzinho), percussão
Dininho (Horondino Reis da Silva), baixo 5 cordas
Paulinho Braga, bateria Raphael Rabello, violão
Participação Especial: Paco de Lucia, violão
Arranjos: Raphael Rabello
02. Samba De Uma Nota Só
Compositores: Newton Mendonça e Tom Jobim
Músicos: Dininho (Horondino Reis da Silva), baixo 5 cordas
Mamão (Ivan Conti), bateria Raphael Rabello, violão
Arranjos: Raphael Rabello
03. Passarim
Compositor: Tom Jobim
Músicos: Dininho (Horondino Reis da Silva), violão baixo
Mamão (Ivan Conti), bateria Raphael Rabello, violão
Arranjos: Raphael Rabello
4. Retrato Em Branco E Preto
Compositores: Chico Buarque e Tom Jobim
Músicos: Jaques Morelenbaum, violoncelo
Luiz Avellar, piano Raphael Rabello, violão
Arranjos: Paulo Jobim e Raphael Rabello
05. Modinha
Compositores: Tom Jobim e Vinícius de Moraes
Músico: Raphael Rabello, violão 7 cordas
Arranjos: Raphael Rabello
06. Garota De Ipanema
Compositores: Tom Jobim e Vinícius de Moraes
Músicos: Luizão Maia, baixo 5 cordas Raphael Rabello, violões
Wilson das Neves, bateria
Arranjos: Raphael Rabello
07. Anos Dourados
Compositores: Chico Buarque e Tom Jobim
Músicos: Dininho (Horondino Reis da Silva), baixo 5 cordas
Luiz Avellar, teclados
Luiz Avellar, piano Raphael Rabello, violão
Arranjos: Luiz Avellar e Raphael Rabello
08. Choro (Garoto)
Compositor: Tom Jobim
Músicos: Leo Gandelman, saxofone soprano
Nico Assumpção, baixo 6 cordas Raphael Rabello, violão 7 cordas
Wilson das Neves, bateria
Participação Especial: Tom Jobim, piano
Arranjos: Paulo Jobim, Raphael Rabello e Tom Jobim
09. Pois É
Compositores: Chico Buarque e Tom Jobim
Músicos: Nico Assumpção, baixo 6 cordas Raphael Rabello, violões
Participação Especial: Paulo Moura, saxofone alto
Arranjos: Nico Assumpção, Paulo Moura e Raphael Rabello
Eu gosto de tudo neste disco. A capa é matadora! A mão com os dedos lembrando uma pessoa correndo, sobre fundo preto é uma imagem e tanto. A escolha dos tipos para compor o título, misturando itálicos com normais, bold com simples, as tonalidades, tudo em letras minúsculas depois uma palavra com letras maiúsculas. E o charme do título – tic, toc, choc! Até a casquinha do nautilus do selo harmonia mundi dá a esta capa um toque especial.
François Couperin
O compositor, Couperin, François Couperin (há outros Couperins), deixou um legado de maravilhosas peças para cravo – e aqui temos um piano, o rei dos instrumentos, um grand piano, capaz de tocar desde o mais leve sussurro da ninfa até entoar a trovoada da tempestade. Esse disco é uma destas vencedoras confluências do antigo e do novo.
Tem a maravilhosa escolha do repertório, começando com uma peça de nome intrigante – Les baricades mistérieuses. A primeira vez que a ouvi foi em um disco com uma coletânea de peças famosas para cravo, interpretado pelo Trevor Pinnock. Desde então essa peça grudou em minha memória musical. Você ouvirá peças com nomes envolvendo carrilhões, querubins. Algumas peças têm até dois nomes, como a que dá título ao disco: Le tic, toc, choc ou les maillotins. Bruit de guerre, Les tricoteuses. Os títulos servem para despertar a imaginação, para criar um clima, uma atmosfera.
Muséte
As peças foram escolhidas das suítes que Couperin publicou ao longo da vida e eram chamadas Ordres. O próprio Couperin esperava que os intérpretes escolhessem as peças e montassem as suas próprias Ordres, como fez aqui o Tharaud.
Ouça o disco, mesmo que você tenha preferência por ouvir música interpretada pelo instrumento para o qual ela foi originalmente escrita. Ande, permita-se esta pequena indulgência, ouça este prazeroso disco. Aposto uma cocada que você não se arrependerá.
François Couperin (1668 – 1733)
Les Baricades Mistérieuses (6e ordre)
Le Tic-Toc-Choc ou Les Maillotins (18e ordre)
La Couperin (21e ordre)
Les Calotines (19e ordre)
Les Ombres Errantes (25e ordre)
Les Tricoteuses (23e ordre)
Le Carillon de Cithére (14e ordre)
Muséte de Taverni (à 5 mains) (15e ordre)
Les Rozeaux (13e ordre)
L’Atalante (12e ordre)
Passacaille (8e ordre)
La Muse Plantine (19e ordre)
Les Tours de passe-passe (22e ordre)
Bruit de guerre (extrait de La Triomphante) (10e ordre)*
Le Dodo ou L’Amour au berceau (15e ordre)
La Visionnaire (25e ordre)
La Logivière (5e ordre)
Les Juméles (12e ordre)
Les Chérubins ou l’aimable Lazure (20e ordre)
Jacques Duphly: La Pothouïn (4e Livre de Pièces pour clavecin)
Este disco poderia ser um exercício didático, e como tal, poderia ser rather dull, como dizem os ingleses, meio chatinho. Mas ao contrário, o disco traz uma coleção de pequenas pérolas, música para se ouvir miles de vezes.
A coleção de Invenções e Sinfonias, quinze de cada, foi escrita para fins didáticos. Johann Sebastian as preparou primeiro para seu filho mais velho, Wilhelm Friedemann. A fonte mais antiga destas composições é o Clavier-Büchlein for Wilhelm Friedemann Bach. Mas toda a filharada e agregados e muitos outros mais usaram dessas obras de Bach para se tornarem excelentes músicos.
As Invenções foram escritas a duas vozes em contraponto e as Sinfonias a três vozes em contraponto. O próprio Bach explica o que se deve esperar ao estudá-las. Veja uma livre tradução do longo título dado à coleção numa bela cópia à mão que chegou até nós:
Instruções para o uso didático das Invenções e Sinfonias
Instrução direta
para aprender a tocar claramente a duas vozes, mas também, para depois de progredir, lidar corretamente e bem com três partes obbligato; e também adquirir ao mesmo tempo não apenas boas inventiones, mas a habilidade de desenvolvê-las bem, e acima de tudo, cultivar um estilo cantabile de tocar e ganhar desde o começo uma forte perspectiva de composição.
Ganha um doce quem descobrir qual destas peças é usada como um ringtone.
O pessoal caprichava na letra! Era uma maneira de mostrar o quanto era valioso esse caderno.
Completando o repertório do disco temos a Suíte Francesa No. 5, em sol maior, BWV 816. A conexão desta peça com as Invenções e Sinfonias é que a suite, de certa forma, também é material instrucional. As cinco primeiras das seis suítes que formam a coleção que chamamos Suítes Francesas, constavam do Notenbüchlein für Anna Magdalena Bach, abrindo este conjunto de obras usadas para fins didáticos e para entretenimento doméstico.
Cada suíte é formada por um conjunto de danças. As danças Allemande, Courante, Sarabande e Gigue são comuns a todas as suítes. Em cada uma delas, Bach introduz mais algumas danças, que variam de suite para suite. No caso da Suíte No. 5, essas danças são Gavotte, Bourrée e Loure. A Suíte Francesa No. 5 é uma das mais tocadas desta coleção e ao chegar na faixa de número 31 deste lindíssimo disco, você entenderá isto perfeitamente.
Till Fellner
Till Fellner é um pianista de pianistas. Ele teve Alfred Brendel entre seus professores. Veja o que Fellner disse desta experiência: Brendel mostrou-me através de sua maneira de tocar e por seus ensinamentos que o compositor vem em primeiro lugar e não o intérprete. Portanto, ao tocar, você deve tentar servir o compositor.
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
[1-15] – Invenções, a duas vozes, BWV 772 – 786
[16-30] – Sinfonias, a três vozes, BWV 787 – 801
[31-37] – Suite Francesa No. 5, em sol maior, BWV 816
Till Fellner, piano
Gravação de 2007, no Mozartsaal, Wiener Konzerthaus