Shostakovich: Symphony No. 13 ‘Babi Yar’ / Arvo Pärt: De Profundis (Albert Dohmen, Estonian National Male Choir, BBC Philharmonic, John Storgårds)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Lançado em maio de 2024 pelo selo Chandos, este álbum que reúne a Sinfonia nº 13 de Dmitri Shostakovich e o De profundis de Arvo Pärt, sob a direção de John Storgårds, é mais do que um simples registo de duas obras do repertório do século XX, o disco propõe um diálogo sombrio e contemplativo entre a memória da tragédia e a esperança. A escolha de Storgårds por abrir o programa com a breve peça de Arvo Pärt revela-se, desde o primeiro instante, uma declaração de intenções. Composto em 1980 e aqui apresentado na versão de 2008 para coro masculino e orquestra de câmara, De profundis é uma meditação sobre o Salmo 130, construída na característica linguagem “tintinnabuli” do compositor . Sob a batuta de Storgårds, e com o Estonian National Male Choir a revelar uma precisão e uma profundidade textual notáveis, a peça soa como um lento cortejo fúnebre, uma descida às profundezas da alma onde a dor se encontra com a possibilidade da redenção. A atmosfera é de uma serenidade gelada, e o toque final do sino, que se extingue no silêncio, prepara de forma magistral o terreno para o turbilhão de angústia que se seguirá.

É esse turbilhão que ocupa o centro do disco: a Sinfonia nº 13, op. 113, “Babi Yar”. Escrita por Shostakovich em 1962 sobre poemas de Yevgeny Yevtushenko, esta é uma obra de uma coragem e uma subversão raras, que denuncia o antissemitismo e a opressão na União Soviética, começando pelo massacre de 33.771 judeus na ravina de Babi Yar, na Ucrânia. É aqui que a interpretação de John Storgårds se diferencia mais radicalmente das abordagens tradicionais. O seu “estilo britânico” afasta-se do expressionismo visceral e da fúria contida que caracterizam as leituras de maestros russos como Kirill Kondrashin. Em vez disso, Storgårds opta por uma leitura contida, de uma clareza quase analítica, onde a tragédia é sugerida mais pela tensão acumulada e pelo relevo dado ao texto do que por gestos ostensivos. Este enfoque é corroborado pela escolha do solista, o baixo-barítono alemão Albert Dohmen. A sua voz, mais conhecida pelos papéis wagnerianos de Wotan e Gurnemanz, não possui o peso agreste e a cor negra de um baixo russo “à Boris Godunov”. Dohmen canta com uma sobriedade e uma elegância que, à primeira escuta, podem parecer deslocadas na ferocidade poética de Yevtushenko. No entanto, esta abordagem permite que a ironia corrosiva de Shostakovich se imponham por si mesmas, sem o véu de um pathos demasiado evidente. A sua interpretação é particularmente eficaz nos momentos de reflexão e no sarcasmo do movimento final, “Career”, onde a sua linha vocal mais introspetiva se ajusta perfeitamente à crítica irónica aos burocratas e à defesa dos verdadeiros criadores.

A resposta da BBC Philharmonic e do Estonian National Male Choir é de uma excelência inquestionável. O coro é impecável, com uma projeção clara e um sentido dramático apurado, que vai do sussurro ao ataque incisivo no movimento satírico “Humour”. A orquestra, por seu lado, tira de letra a complexa e multifacetada partitura de Shosta. As madeiras são ácidas e zombeteiras, os metais soam rudes e ameaçadores, e as cordas criam camadas de textura de uma frieza gélida, especialmente nos movimentos “In the Store” e “Fears”, onde o clima de paranoia e desolação é magistralmente construído. A qualidade da gravação capta com impressionante clareza o peso do tímpano, o toque lúgubre do sino e os mais recatados pianíssimos do coro.

Este não é um álbum para quem procura uma catarse imediata ou uma recriação visceral da estreia russa da obra. A proposta de John Storgårds é deliberadamente mais intelectual, mais fria e, curiosamente por isso, profundamente melancólica. Ao colocar o grito de revolta de Shostakovich ao lado do recolhimento religioso de Pärt, o maestro finlandês convida-nos a uma escuta que transcende o protesto político e se aproxima de uma meditação sobre o sofrimento humano. Para alguns críticos, esta abordagem soou comedida, para outros representou uma visão poderosamente alternativa, que encontra a sua força não na tempestade, mas na profundidade silenciosa do seu olhar. É um registo que não se impõe facilmente, mas que, uma vez compreendido, revela grande integridade artística e coerência.

Shostakovich: Symphony No. 13 ‘Babi Yar’ / Arvo Pärt: De Profundis (Albert Dohmen, Estonian National Male Choir, BBC Philharmonic, John Storgårds)

Arvo Pärt– De Profundis (2008) 6:50

Dmitri Shostakovich Symphony No. 13 In B Flat Minor, Op. 113 ‘Babiy Yar’ (1962)
Bass-Baritone Vocals – Albert Dohmen
(1:02:35)
2 – 1. Babiy Yar. Adagio ‒ Più Mosso ‒ Adagio ‒ Più Mosso ‒ Allegro ‒ Adagio ‒ Poco Più Mosso ‒ Adagio ‒ Più Mosso 16:07
3 – 2. Humour. Allegretto 8:31
4 – 3. In The Store. Adagio ‒ Meno Mosso. Sostenuto ‒ Adagio ‒ Meno Mosso ‒ [Più Mosso] ‒ Meno Mosso ‒ Largo ‒ Adagio ‒ 12:00
5 – 4. Fears. Largo ‒ Sostenuto ‒ Più Mosso ‒ Moderato ‒ Largo ‒ Poco Più Mosso ‒ Sostenuto ‒ Allegretto ‒ Largo ‒ 12:00
6 – 5. Career. Allegretto ‒ Pesante ‒ Meno Mosso ‒ Allegretto ‒ Adagio ‒ Allegretto ‒ Adagio ‒ Allegretto ‒ Meno Mosso 13:49

Choir – Estonian National Male Choir
Conductor – John Storgårds
Leader – Zoë Beyers
Orchestra – BBC Philharmonic
Vocal Coach [Language Coach] – Alexandre Naoumenko

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John Storgårds: mais tranquilo, menos indignado e político, talvez mais profundo.

PQP

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