Uma aura de mistério cerca a biografia de Sun Ra: até o momento em que ele partiu para outro planeta (em 1993), ninguém sabia dizer ao certo o seu nome de batismo, data e local de nascimento. Mais tarde, biógrafos garantiram que foi em 22 de maio de 1914 no Alabama, estado vizinho daqueles onde se convém dizer que nasceu o blues estadunidense, New Orleans e Mississipi. A mistura entre aspectos do som de New Orleans do começo do século XX com teclados eletrônicos da 2ª metade do século torna o som de Sun Ra inclassificável: ao contrário de uma penca de músicos negros que aderiram ao jazz fusion por volta de 1969 ou 70 (Miles Davis, Freddie Hubbard, Herbie Hancock, Wayne Shorter, etc), Sun Ra já usava teclados eletrônicos muito antes e não abandonou o piano. Nesses dois álbuns, gravados quando a moda do fusion já estava menos predominante, Sun Ra fica indo e vindo entre os sons, digamos, tradicionais do seu piano e os teclados que ele toca sem nenhum paralelo com o estilo, por exemplo, do Hancock aqui citado, que escolhia timbres e acordes menos ousados, menos de vanguarda.
Aqui uma interrupção: Sun Ra, obviamente um músico de vanguarda e pouco preocupado em lançar hit singles nas rádios, achava que os músicos de vanguarda se levavam, em geral, muito a sério. Por isso, nos anos 1950 começou a usar roupas coloridas inspiradas em temas de ficção científica ou do Egito dos faraós, o que dava uma identidade visual única e um pouco cômica para seus grupos. Outro parêntese: Pharoah Sanders recebeu o seu nome artístico por uma sugestão de Sun Ra.
Mas talvez o mais surpreendente nesses shows seja outra coisa: lembrar que Sun Ra já tinha passado dos 60 anos e, no de 1983, já tinha 69. São poucos, pouquíssimos os artistas que, com essa idade, se reinventam de um mês pro outro, trocam de instrumentos, de repertório, improvisam a cada noite nos vários sentidos do verbo improvisar. E nesses dois shows ele se apresenta sem a Sun Ra Arkestra, grupo que servia como um certo porto seguro misturando trechos improvisados com trechos já ensaiados pelo grupo de mais de dez músicos que incluia desde 1968 a cantora June Tyson. Aqui, sem June Tyson e sem uma parte dos seus fiéis escudeiros (o sax alto de Marshall Allen, por exemplo, está no show de 1983 mas não no de 1978), Sun Ra parece ainda mais livre do que em outros registros ao vivo.
No disco de 1978 temos um quarteto: além de Sun Ra, Michael Ray (trompete), John Gilmore (sax) e Luqman Ali (bateria). No de 1983, a banda de estrelas com a qual Sun Ra fez uma breve turnê europeia, incluindo Don Cherry (trompete), Archie Shepp (sax) e Richard Davis (baixo).
Última observação: outro dia assisti ao filme oscarizado The Sinners, que aliás achei bem mediano e previsível por motivos que não vêm ao caso aqui. Apesar do roteiro pasteurizado, o filme traz certos aspectos do blues que não deixam de ser interessantes. É curioso pensar que o filme se passa em 1932, ano em que Sun Ra certamente já tocava piano em algum lugar, provavelmente no sul dos EUA e muito antes de ficar famoso. Podemos lembrar ainda que o músico jovem do filme, com cerca de 20 anos, nasceu na mesma década de Sun Ra, assim como vários outros músicos de blues até hoje lembrados. Howlin’ Wolf, por exemplo, nasceu no Mississipi em 1910 e depois se mudaria para Chicago, onde gravou uma série de singles. Bem depois, em 1969, sairia seu primeiro LP com essa capa aqui ao lado, dizendo que ele não gostou do disco e nem da sua guitarra elétrica da primeira vez que a usou. A cena final do filme faz alusão à passagem do violão para a guitarra elétrica. Sun Ra – que aliás também viveu em Chicago nos anos 1950 e gravou naquela cidade seus primeiros LPs – viveu esse mesmo período, e foi um dos pioneiros na transição do acústico para o elétrico, só que para o caso dos teclados. Não tendo abandonado o piano elétrico, assim como não abandonou certos ritmos típicos do jazz pré-2ª-guerra, Sun Ra foi acrescentando novas cartas ao seu baralho e, ainda na década de 1980, em turnê pela Europa, acrescentava mais e mais, sem medo de ser feliz.

Sun Ra Quartet: Disco 3000
CD1
Disco 3000
Sun of the Cosmos
Echos of the World
Geminiology
Sky Blues
Friendly Galaxy
CD2
Third Planet including Friendly Galaxy
Dance of the Cosmo Aliens
Spontaneous Simplicity
Images including Over the Rainbow
When There Is No Sun
We Travel the Spaceways
Line-up & Recording Date:
Sun Ra – organ, piano, drum box, etc; Michael Ray – trumpet; John Gilmore – tenor sax; Luqman Ali – drums
Live in Italy, January 1978
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
Sun Ra All-Stars: Live in Zürich, 1983
1. Unidentified Title
2. Unidentified Ra Piano Solo 3. Unidentified Blues
4. Lights on a Satellite
5. What’s New
6. Cocktails for Two
7. Poinciana
Zürich Jazz Festival, 28/10/1983
Pleyel
