Este é um maravilhoso CD duplo onde o pianista canadense Marc-André Hamelin brilha notavelmente. Hamelin é conhecido por sua habilidade demoníaca, mas eu o defendo com convicção — ele também tem muita sensibilidade e creio que eu, na minha idade e com minha vivência de ouvinte, saiba reconhecer um virtuose vazio quando ele dobra lá longe na esquina. Hamelin não é nada vazio, dá cara própria a cada uma das peças de Bolcom e estas são pra lá de boas!
Nas generosas notas do CD, o próprio compositor estadunidense apresenta o repertório, explicando como sua descoberta da música de Scott Joplin — que havia caído na obscuridade após a morte do compositor — levou-o a explorar o gênero no final dos anos 1960, justo em um momento em que a ópera Treemonisha ressurgia e o ragtime em geral, estava sendo revivido. Os elementos do ragtime tradicional de Joplin são evidentes nos rags de Bolcom – o DNA musical de síncope e swing que Hamelin captura perfeitamente – mas Bolcom se permite desviar para territórios mais incomuns, como, por exemplo, em Rag-Tango, que alterna a sensualidade do tango argentino, com suas harmonias picantes, e elementos de rags tradicionais. Eu desconhecia Bolcom e acho que este disco deve ser um bom ponto de partida. É uma audição maravilhosa, reveladora e, acima de tudo, muito agradável do início ao fim.
William Bolcom (1938): The Complete Rags (Hamelin)
1-1 Eubie’s Luckey Day 5:00
1-2 Epithalamium 4:57
1-3 Tabby Cat Walk 5:41
1-4 Knockout ‘A Rag’ 3:57
1-5 Rat-Tango 8:43
The Garden Of Eden (18:38)
1-6 Old Adam 2:18
1-7 The Eternal Feminine 5:47
1-8 The Serpent’s Kiss 5:32
1-9 Through Eden’s Gates 4:57
1-10 California Porcupine Rag 3:27
1-11 The Gardenia 5:07
1-12 The Brooklyn Dodge 4:47
1-13 Contentment 7:38
Three Ghost Rags (15:34)
2-1 Gracefull Ghost Rag 4:35
2-2 The Poltergeist 3:31
2-3 Dream Shadows 7:26
2-4 Raggin’ Rudi 3:54
2-5 Epitaph For Louis Chauvin 5:07
2-6 Seabiscuits Rag 3:44
2-7 Estella ‘Rag Latino’ 5:12
2-8 Fields Of Flowers 5:47
2-9 Incineratorag 3:11
2-10 Knight Hubert 3:57
2-11 Lost Lady Rag 6:32
2-12 Glad Rag 3:40
2-13 Last Rag 4:58
2-14 Brass Knuckles
Written-By [Written In Collaboration With] – William Albright
3:25
Piano [M Steinert & Sons] – Marc-André Hamelin

PQP




O Éder dispensa apresentações. Já postamos vários quartetos com os caras e eles são espetaculares. Vamos às obras?
Nhé, não é um grande CD, longe disso, mas, pô, é da família! Vale pela sinfonia de mano mais velho W.F., que era mesmo muito bom, meio deprimido e salva o CD. Como sabemos, o mano J.C. tem o mérito de ter inventado o estilo de Mozart, é o perfeito Mozart-sem-talento e sua música chega a ser agradável se não prestarmos muita atenção a ela. O J.C.F. não merecia a atenção que papai lhe deu. Era tão sem inspiração quanto eu. A Accademia Bizantina é apenas OK e leva as obras até seus finais sem grandes surpresas. Se você baixar este CD, a família agradece sem entusiasmo. Ah, já que o iPod já foi quase todo postado, vou copiar para ele o Réquiem de Verdi para depois postar, OK? Mas ainda falta um Villa-Lobos, um Nono e uma coisinha de jazz.

IM-PER-DÍ-VEL !!!



O CD Victor Biglione e Marcos Ariel, Duo #1 é uma joia da música instrumental brasileira que merece ser celebrado. Lançado em 1994, captura um diálogo íntimo entre violão e piano em arranjos sofisticados. Victor Biglione (violão de 7 cordas) e Marcos Ariel (piano) são mestres em unir musicalidade e leveza, criando um som ao mesmo tempo acessível. Biglione traz harmonias ricas e baixos marcantes enquanto Ariel responde com linhas melódicas fluidas no piano e improvisos cheios de classe. Bom disco para fãs de Ralph Towner e Egberto Gismonti (universalidade acústica), de Tom Jobim (sofisticação harmônica) e Yamandu Costa (raiz e virtuosismo). Para tardes chuvosas, jantares elegantes ou quando a alma pede beleza sem pressa. O disco foi gravado quase ao vivo (poucos overdubs), capturando a cumplicidade rara do duo. Biglione e Ariel já colaboravam há anos em trilhas sonoras e shows – a sintonia é orgânica.

O Ballo delle Ingrate (Dança das Ingratas) é uma obra-prima de Claudio Monteverdi, composta em 1608 para as núpcias do duque Francesco Gonzaga com Margarida de Saboia, em Mantova. Pertence ao gênero do balletto dramático, uma forma que mistura canto, dança, teatro e música instrumental, típica das esplêndidas festas da corte no início do Barroco. Com libreto de Ottavio Rinuccini, a obra apresenta uma alegoria moralizante. Vênus e Cupido descem ao Inferno para confrontar Plutão, queixando-se de que as mulheres de Mântua se tornaram “ingratas” ao amor, rejeitando os ardores dos seus pretendentes. Plutão, então, liberta temporariamente as almas das “ingratas” (condenadas por sua frigidez em vida) para que dancem num balé solene e trágico, servindo de aviso às mulheres presentes na plateia sobre as consequências de rejeitar o amor. É algo altamente erótico…






IM-PER-DÍ-VEL !!!
Eu amo Hermeto. Certa vez, soube que ele se apresentaria em Pelotas (RS) e dei um jeito para que meu chefe me mandasse pra lá na data. Visitei algumas pessoas, fiz contatos, justifiquei minha ida e fui fazer o que precisava realmente fazer. Também jamais perdi um show dele na decadente Porto Alegre, hoje bolsonarista. Eu e Eles é um disco em que o músico transforma o mundo inteiro em parceiro de criação. Cada faixa soa como uma conversa diferente — ora com o jazz, ora com o forró, ora com a pura invenção que só Hermeto dominava. Aqui, ele desmonta fronteiras musicais com alegria e ousadia, misturando sopros, teclas, ruídos e silêncios em um laboratório sonoro que parece, ao mesmo tempo, festa e poesia. É um álbum que celebra a liberdade total: “eu” é Hermeto em sua imaginação sem limite, “eles” somos todos nós, tocados por essa música que brinca, provoca e reinventa o que achávamos que já conhecíamos.








Difícil de comentar. O CD “Charles Mingus’s Finest Hour” é uma compilação da série Finest Hour da gravadora Verve Records, que selecionaria o que há de “mais essencial” na carreira de artistas lendários. Neste caso, não chegou nem perto de uma boa amostragem. Há coisas maravilhosas e outras que francamente… Não servem nem como uma porta de entrada para conhecer Mingus: é uma mistureca de registros antigos e mais novos. A presença de obras-primas junto a gravações bem comuns baixam o nível de tudo. OK, pode ser ótimo para entender a força musical de Mingus como baixista, compositor e líder de banda, pela larga temporalidade variada das peças selecionadas. Enfim, é uma compilação de diferentes fases de Mingus — que não demonstra a enorme força de seu lirismo, fúria e complexidade.
Um belo disco de música antiga, modernizada pelo excelente L`Arpeggiata. Às vezes, parece música popular bem mais recente. É tudo muito lindo. Vamos falar sério: a improvisação sempre foi uma parte significativa da música dos séculos XVI e XVII. Então, por que nossa época deveria preocupar-se em fazer interpretações exatinhas e matemáticas? Curtam, é um baita CD.



IM-PER-DÍ-VEL !!! SÉRIE IM-PER-DÍ-VEL !!! E MAIS UMA SÉRIE FINALIZADA !!!

CD lindão, hein !





Para um brasileiro, é complicado caracterizar o Madredeus. O grupo está posicionado entre o erudito e o popular, mas jamais na posição e breguice que tantas vezes assola o prog rock. Aliás, está muito longe do prog rock porque é 100% acústico, explora canções relativamente curtas e é tudo tranquilo e sem bateria. New age? De jeito nenhum. Para mim, está quase dentro do fado, mas também com um pé fora. É folclórico? Sim, sem dúvida. O nome do grupo assusta um ateu como eu, mas há razões para o nome; as canções parecem antigas, mas são inovadoras; as letras são antiquadas; a cantora (fantástica) é quase uma cantora lírica, das que hoje cantam música barroca. Adorei ouvir este CD quando de seu lançamento e, ao voltar a ouvi-lo, noto que ele não perdeu seu encanto. O grupo formado em 1985 acabou em 2010 e é famoso no mundo inteiro. Seus fundadores foram Pedro Ayres Magalhães (guitarra clássica), Rodrigo Leão (teclados), Francisco Ribeiro (violoncelo) falecido em Setembro de 2010, Gabriel Gomes (acordeão) e Teresa Salgueiro (voz). Magalhães e Leão formaram o grupo em 1985, Ribeiro e Gomes juntaram-se a eles em 1986. Na sua busca por uma vocalista, descobriram Teresa Salgueiro numa casa noturna de Lisboa, quando cantava alguns fados numa reunião informal de amigos. Teresa foi convidada para uma audição e aí surgia o grupo, o qual ainda não tinha um nome. A proposta inicial era a de uma oficina criativa, à qual todos os músicos levariam suas ideias e comporiam em conjunto os temas e arranjos. Em 1987, o local de trabalho do grupo, o Teatro Ibérico (antiga igreja do Convento das Xabregas, num bairro de Lisboa chamado Madredeus) serviu de estúdio de gravação para mais de quinze temas reunidos à época em um LP duplo, depois convertido para o formato de CD. Chamaram-no de Os Dias da MadreDeus e daí viria o nome do grupo. O caráter inovador do álbum fez com que os Madredeus se tornasse um fenômeno instantâneo de popularidade em Portugal na época. Wim Wenders, impressionado com a música do grupo, tinha-os convidado para musicarem um filme sobre Lisboa, chamado Lisbon Story (no Brasil, O Céu de Lisboa), do qual o grupo participou também como personagens. A trilha sonora deu ao grupo ainda maior projeção internacional. Este CD, O Paraíso (1997) é mais ou menos desta época e traz canções lindas como Haja o que houver, Não muito distante e outras. Vale muito a pena ouvir.
Um tranquilo e bom CD. Tudo bonito, poético e no lugar. As 8 Peças para Piano, Clarinete (Violino) e Violoncelo, Op. 83, de Max Bruch (1838–1920), são uma joia pouco explorada do repertório de música de câmara do Romantismo alemão. Embora Bruch seja mais lembrado por seu ardente Concerto para Violino nº 1 ou Kol Nidrei, essas miniaturas revelam seu talento para melodias elegantes. Compostas em 1910, quando Bruch já era um compositor idoso (72 anos) e já ofuscado por Brahms e Wagner. Refletem um romantismo tardio, com influências de Schumann e Mendelssohn, mas mantendo a linguagem harmônica conservadora de Bruch. Diferente de suas obras orquestrais dramáticas, essas peças são íntimas, líricas e nostálgicas. O Trio para Clarinete, Violoncelo e Piano, Op. 29, de Vincent d’Indy é uma obra-prima da música de câmara francesa fin de siècle escrita em 1887. Nela, já surge aquela sensibilidade impressionista que começaria a emergir na França. A obra homenageia Johannes Brahms (que também escreveu um trio para a mesma formação), mas com harmonias mais fluidas e cores tipicamente francesas.

