Tchaikovski, Prokofiev, Shostakovich: Miniatures For Young Pianists

Duvido que algum de vocês encontre este belo CD na rede. E nem adianta revisar as faixas pela Amazon, pois estão incorretas. Trata-se de um álbum de miniaturas para jovens pianistas. Uma jóia delicada e simples, onde se vêm claramente a evolução da música russa do século XIX em direção ao XX. A intenção dos compositores não é apenas pedagógica — elas deveriam servir de entrenimento e de música para as crianças tocarem em festas e aniversários. A idéia de Tchaikovski foi inteiramente adotada por Prokofiev e Shostakovich e a coleção ficou como devia: bonitinha e agradável. A confessada inspiração de Tchai para criar tais peças foi Robert Schumann, o primeiro a compor peças simples dedicadas à infância e aos jovens pianistas.

É um CD bastante raro de se encontrar por aí. Desta forma, vocês devem ficar comportados durante o download; depois, peguem suas bonecas e divirtam-se. Ah, e não gritem enquanto papai posta.

Tchaikovski
Children’s Album: 24 Easy Pieces, for piano, Op. 39
1. Morning prayer
2. Winter Morning
3. Jouons à dada!
4. Mama
5. March of the Wooden Soldiers
6. The Sick Doll
7. The Doll’s Funeral
8. Waltz
9. The New Doll
10. Mazurka
11. Russian Song
12. The Accordion Player
13. Kamarinskaya
14. Polka
15. Italian Song
16. Old French Song
17. German Song
18. Neapolitan Song
19. Nanny’s Story
20. Baba-Yaga
21. Sweet Dreams
22. Lark Song
23. Chanson du joueur d`orgue de Barbarie
24. In Church

Prokofiev
Music for Children, easy pieces (12) for piano, Op. 65
25. No. 1, Morning
26. No. 2, Walk
27. No. 3, Fairy Tale
28. No. 4, Tarantella
29. No. 5, Repentence (Regrets)
30. No. 6, Waltz
31. No. 7, Grasshoppers’ Parade
32. No. 8, Rain and Rainbow
33. No. 9, Playing Tag
34. No. 10, March
35. No. 11, Evening
36. No. 12, The moon sails o’er the meadows

Shostakovich
37. Berceuse
38. Danse
39. Contredanse
40. Danse espagnole
41.Nocturne

A Child’s Exercise Book (Children’s Tetrad), for piano, Op. 69
42. No. 1, March
43. No. 2, Valse
44. No. 5, The Bear
45. No. 4, Merry Tale
46. No. 3, Sad Tale
47. No. 6, Clockwork Doll
48. No. 7, Birthday

Rimma Bobritskaia, piano

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Mendelssohn (1809-1847): Sinfonia Nº 4, “Italiana” / Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 5

Estranho repertório para um disco, mas talvez menos estranho se considerarmos que é um registro de um concerto realizado em Viena no ano de 1993 e os concertos, vocês sabem, costumam apresentar repertórios malucos… O grande Solti, morto em 1997, dá um show de competência em ambas as obras. A Italiana está como deve ser, muito agitada e jovial. Solti tenta obedecer Shostakovich ao fazer uma finale menos triunfante do que a versão de Bernstein, mas não chega à lentidão de Mravinsky que, ao que parece, fazia o que Shosta desejava. Na verdade, Solti obedece pela metade, faz uma bagunça Bernstein-like e, na parte lenta, é Mravinsky-like. Mas, afora estas questões, são interpretações altamente satisfatórias de duas obras famosas e sempre presentes no repertório sinfônico. Há também o DVD deste concerto à venda na Amazon.

O estranho é que gosto tanto de gravações ao vivo que, após ouvir o CD, achei a coisa mais natural do mundo ver as sinfonias mais célebres de Felix e Dmitri juntas e together.

Mendelssohn: Symphony No. 4 in A major (“Italian”), Op. 90
1. Allegro vivace
2. Andante con moto
3. Con modo moderato
4. Saltarello, Presto

Shostakovich: Symphony No. 5 in D minor, Op. 47
5. Moderato
6. Allegretto (Scherzo)
7. Largo
8. Allegro non troppo

Vienna Philharmonic Orchestra
Georg Solti

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The Dmitri Shostakovich Edition (CDs 13, 14 e 15 de 27)

SÉRIE IM-PER-DÍ-VEL!!!

CD 13

Aqui, temos a continuidade dos quartetos de cordas em arranjo para orquestra. O primeiro quarteto pode ser desprezado, o segundo absolutamente NÃO e o terceiro idem, mas com menos veemência.

Chamber symphony Op. 49a “Eine kleine Symphonie” (Arrangement of String Quartet No. 1)
1. Moderato 4:22
2. Moderato 4:53
3. Allegro Molto 2:44
4. Allegro 3:31

Chamber symphony Op. 110a (Arrangement of String Quartet No. 8 )
5. Largo 4:45
6. Allegro molto 3:40
7. Allegretto 4:29
8. Largo 4:29
9. Largo 3:41

Chamber symphony Op. 118a (Arrangement of String Quartet No. 10)
10. Andante 5:16
11. Allegretto furioso 4:14
12. Adagio 7:01
13. Allegretto 10:00

Orchestra Sinfonica di Milano Giuseppe Verdi
Rudolf Barshai, conductor

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CD 14

Em um famoso conto de Machado de Assis, Um Homem Célebre, havia um grande compositor de polcas, o Pestana, que queria fazer algo maior, grandioso, mas – que diabo! – só lhe saíam mais polcas. O que fazer? O personagem fazia o maior esforço, passava meses trancado em casa a fim de parir a grande obra, porém não produzia nada além de belas polcas, que logo se tornavam popularíssimas e eram assobiadas pelo povo nas ruas, para desespero do Pestana. Estas eram compostas copiosa e rapidamente. Acabou rico, infeliz e doente. Coitado.

Com Shostakovitch o caso é diferente. Compôs copiosamente obras-primas, tem obra profunda e numerosa, mas, um belo dia, resolveu escrever suítes para grupos de jazz. Vocês podem adivinhar o que aconteceu? Saíram apenas… polcas. Polcas e valsas. O timbre é o do jazz – não poderia ser diferente com aquela formação orquestral -, já a música são as polcas do personagem machadiano. Ah, vocês não acreditam? Então ouçam o CD abaixo. É um bom disco, há a espetacular Valsa 2 da Suíte Nro. 2, que foi utilizada por Stanley Kubrick na abertura de De Olhos bem Fechados, com um ritmo e um solo de sax que nos obriga a levantar e ensaiar uns passinhos pela sala, há várias polquinhas bem legais e há uma imitação marcial de Duke Ellington que dá para rolar de rir. É o “Grande Projeto Falhado” do imortal Shosta e, mesmo assim, é muito bom e divertido.

Suite For Variety Orchestra No.1 (Jazz Suite No.2)
1. March 3:04
2. Dance No.1 2:56
3. Dance No.2 3:39
4. Little Polka 2:33
5. Lyric Waltz 2:38
6. Waltz no.1 3:21
7. Waltz no.2 3:34
8. Finale 2:13

9. Overture On Rusian And Kirghiz Themes Op.115 9:19

Jazz suite No.1
10. Waltz 2:19
11. Polka 1:38
12. Foxtrot 3:47

13. Novorossijsk Chimes 2:32

14. Festive Overture Op.96 5:46

National Symphony Orchestra Of Ukraine,
Theodore Kuchar

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CD 15

Para o meu gosto, o CD mais fraco de toda a coleção. O Límpido Regato tem momentos… engraçadinhos.

The Bolt, Ballet Suite Op. 27a
1. Overture 6:34
2. Polka 2:36
3. Variation 1:49
4. Tango 5:07
5. Intermezzo 3:50
6. Finale 3:23

The Limpid Stream, Ballet Suite Op. 39a
7. Waltz 2:23
8. Russian Lubok 2:30
9. Galop 1:57
10. Adagio 7:19
11. Pizzicato 1:12

The Golden Age, Ballet Suite Op. 22a
12. Overture 3:54
13. Adagio 8:40
14. Polka 2:08
15. Dance 2:10

National Symphony Orchestra of Ukraine,
Theodore Kuchar

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Chopin, Ballades; Liszt, La Lugubre Gondole; Shostakovich, Quarteto Nº 8 – Harmonia Mundi – 50 years of music exploration – CD 27 de 29

Mais um CD que justifica-se plenamente pela qualidade de seus jovens intérpretes.
Cedric Tiberghien faz um Chopin que conseguiu interessar até a mim, um hostil ao romantismo líquido do pianismo do polonês. Musicalmente, a coisa melhora demais com La Lugubre Gondole, indiscutível obra-prima de um compositor mais afeito aos efeitos, mas que às vezes deixava escapar autêntica musicalidade e, principalmente, profundidade. A violoncelista Emmanuelle Bertrand dá conta do recado com sobras de talento, acompanhada por nosso já conhecido Pascal Amoyel, ao piano. Depois temos talvez a obra mais postada neste blog: o Quarteto Nº 8 de Shosta — seria esta a quinta ou sexta versão que apresentamos dele? Bom, não interessa. Este quarteto é tão bom que, se fizermos mais meia dúzia de postagens com ele está bem posto, ou postado. Posto isto, reitero que estou disposto a matar esta série da HM logo. Até porque já enchi o saco de ver esta caixinha ao lado meu micro. Ah, o Jerusalem Quartet é excelente.

Baita CD!

CD 27

Ballades n°1-4 Frederic Chopin 35’31
1. No.1, Op.23 In G Minor
2. No.2, Op.38 In F Major
3. No.3, Op.47 In A Flat Major
4. No.4, Op.52 In F Minor
Cedric Tiberghien, piano

La Lugubre Gondole Franz Liszt 9’34
5. La Lugubre Gondole
Emmanuelle Bertrand, cello
Pascal Amoyel, piano

Quatuor n°8 op.110 Dimitri Chostakovitch 22’04
6. I. Largo
7. II. Allegro
8. III. Allegretto
9. IV. Largo
10. V. Largo
Jerusalem Quartet

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – A Décima-quinta (CDs 8 de 11) (*)

(*) A numeração dos CDs obedece à edição original; como fiz as postagens obedecendo a ordem das sinfonias, principalmente a das mais importantes, as finais, a numeração dos CDs ficou desencontrada, mas saibam que este post encerra mais esta série.

A Sinfonia Nº 15 está entre as maiores do mestre russo e possui grande alegria e desespero sob sua aparente tranqüilidade. É uma obra consistente, com movimentos melodiosos apoiando-se harmonicamente um no outro. Não há nada sobrando nem faltando. O primeiro movimento é felicíssimo e aparentado com a Sinfonia Nº 9 e com o primeiro movimento do Concerto Nº 2 para piano e orquestra. Ele evoca os brinquedos infantis e possui em seu cerne um dos temas da Guilherme Tell, de Rossini.

O Adagio é belo e triste com longos solos de violoncelo e também do trombone e da tuba; há a inserção do Tema do Destino (ou da Morte) que Wagner escreveu para seu Nibelungo. O Alegretto, em tom de deboche, é levado pelo clarinete.

O movimento final é o mais longo de todos: há evocações ao compositor — o motivo DSCH reaparece acompanhado pelo Tema do Destino em clara alusão às doenças e à morte próxima de Shostakovich –, mas a sinfonia é finalizada serenamente após várias intervenções de cantabiles violinos. O final, quase todo a cargo da percussão, é delicado. Um verdadeiro achado. Um despedida sem desespero, um aceno algo irônico, de um grande mestre.

Mas o que queria mesmo dizer é que esta sinfonia exerce um efeito magnético (palavras de Lauro Machado Coelho) sobre os ouvintes. É impossível não ceder a ela, ouvindo e reouvindo. Tenho vários amigos que concordam: há algo nela que nos instiga, anima, estimula, incita, algo que espicaça nossa curiosidade. O que será?

SYMPHONY No.15 in A Major, Op.141
6. Allegretto
7. Adagio. Largo. Adagio. Largo
8. Allegretto
9. Adagio. Allegretto. Adagio. Allegretto

Recorded: May 27, 1974
Moscow Philharmonic Orchestra
Kirill Kondrashin, Conductor

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – A Décima-terceira (CDs 10 e 11 de 11)

Sinfonia Nº 13 (Babi Yar), Op. 113 (1962)

Após o equívoco da Sinfonia Nº 12 — lembrem que até Beethoven escreveu uma medonha Vitória de Wellington, curiosamente estreada na mesma noite da sublime 7ª Sinfonia, mas este é outro assunto… –, Shostakovich voltaria às boas relações com a música sinfonia da forma mais gloriosa possível: pela Sinfonia Nº 13, Babi Yar. Iniciava-se aqui a produção de uma seqüência de obras-primas que só terminaria com sua morte, em 1975. Esta sinfonia tem seus pés firmemente apoiados na história da União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. É uma sinfonia cantada, quase uma cantata em seu formato, que conta com a nada desprezível colaboração do grande poeta russo Evgeny Evtuchenko (conforme alguns, como a Ed. Brasiliense, porém pode-se encontrar a grafia Ievtuchenko, Yevtuchenko ou Yevtushenko, enfim!)

O que é, afinal, Babi Yar? Babi Yar é o nome de uma pequena localidade situada perto de Kiev, na atual Ucrânia, cuja tradução poderia ser Barranco das Vovós. Ali, em 29 e 30 de setembro de 1941, teve lugar o assassinato de 34 mil judeus pelos nazistas. Eles foram mortos com tiros na cabeça e a participação comprovada de colaboradores ucranianos no massacre permanece até hoje tema de doloroso debate público naquele país. Nos dois anos seguintes, o número de mortos em Babi Yar subiu para 200 mil, em sua maioria judeus. Perto do fim da guerra, os nazistas ordenaram que os corpos fossem desenterrados e queimados, mas não conseguiram destruir todos os indícios.

Ievtuchenko criticou a maneira que o governo soviético tratara o local. O monumento em homenagem aos mortos referia-se às vítimas como ucranianas e russas, o que também eram, apesar de saber-se que o fato determinante de suas mortes era o de serem judeus. O motivo? Ora, Babi Yar deveria parecer mais uma prova do heroísmo e sofrimento do povo soviético e não de uma fatia dele… O jovem poeta Ievtuhenko considerou isso uma hipocrisia e escreveu o poema em homenagem aos judeus mortos. O que parece ser uma crítica de importância relativa para nós, era digna de censura, na União Soviética. O poema fui publicado na revista Literatournaia Gazetta e causou problemas a seu autor e depois, também a Shostakovich, ao qual foram solicitadas alterações que nunca foram feitas na sinfonia. No Ocidente, Babi Yar foi considerado prova da violência anti-semita na União Soviética, mas o próprio Ievtuchenko declara candidamente em sua Autobiografia Precoce (Ed. Brasiliense, 1987) que a tentativa de censura ao poema não teve nada a ver com este gênero de discussão e que, das trinta mil cartas que recebeu falando em Babi Yar, menos de trinta provinham de anti-semitas… É tudo muito estranho.

O massacre de Babi Yar é tão lembrado que não serviu apenas a Ievtuchenko e a Shostakovich, tornando-se também tema de filmes e documentários recentes, assim como do romance Babi Yar de Anatoly Kuznetsov. Não é assunto morto, ainda.

O tratamento que Shostakovich dá ao poema é perfeito. Como se fosse uma cantata em cinco movimentos, os versos de Ievtuchenko são levados por um baixo solista, acompanhado de coral masculino e orquestra. Principalmente em Babi Yar e em Na Loja, é música de impressionante gravidade e luto; a belíssima linha melódica ora assemelha-se a um serviço religioso, ora ao grande modelo de Shostakovich, Mussorgski; mesmo assim, fiel a seu estilo, Shostakovich encontra espaço para seu sarcasmo.

Babi YarCalma crueldade: soldados alemães examinam as roupas dos judeus mortos em Babi Yar. (Adotando o tom sarcástico tão caro a Shostakovich, diria que, hoje, as roupas poderiam ser palestinas e os soldados… Deixa pra lá!)

A seguir, aproveitarei a excelente descrição que Clovis Marques fez para o concerto que incuía a Sinfonia Nº 13, Babi Yar, realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 27/07/2006. Volto no final do post:

Chostakovich, ‘for ever’Clovis Marques – Opinião & Noticia
30/07/2006

O contato em condições ideais com uma obra-prima do século XX é raro na vida musical de um mortal carioca. Na última quinta-feira, a Sinfonia nº 13 de Chostakovich passou pelo Teatro Municipal com uma carga tão densa de significado e beleza que quase não surpreendeu que a interpretação e o acabamento, a cargo da Petrobras Sinfônica, estivessem também em esferas muito altas.

“Babi Yar” é como ficou conhecida esta sinfonia-cantata para coro masculino, baixo e orquestra composta e estreada em 1962 em Moscou. O título vem do poema de Ievgueni Evtuchenko que causara rebuliço ao ser publicado no ano anterior na “Literaturnaia Gazeta”, tocando na chaga do anti-semitismo a propósito do massacre cometido pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, no local conhecido como “ravina das mulheres”, perto de Kiev.

A partir desse texto de dura indignação, e apesar dos problemas que uma tal inspiração de “protesto” ainda geraria na União Soviética pós-stalinista, Chostakovich construiu um painel de extraordinária força em torno de duas ou três mazelas trágicas do seu tempo: o medo e a opressão, o conformismo e o carreirismo, o massacre quotidiano num Estado policial e a possibilidade de superação pelo humor e a intransigência.

Em linguagem quase descritiva, contrastando a severidade da orquestra com a impostação épica das vozes, “Babi Yar” tem um poder de evocação propriamente cinematográfico: raramente se ouviu música tão plástica e de poder de invenção tão sustentado, com um grau de concentração expressiva que sublima a revolta, o negrume e a angústia como poucas vezes na música pós-romântica.

O realismo e a concisão imagética dos poemas são admiravelmente esposados pelo estilo alternadamente sombrio e irruptivo da música de Chostakovich, que apesar da forma atípica, para uma sinfonia, dota a obra de continuidade estrutural e organicidade musical mesmerizantes – para não falar da invenção melódica tão sua, que associamos indelevelmente à Rússia soviética. Não obstante o grande efetivo orquestral e a tensão dos clímaxes, as texturas são parcimoniosas e o coro, declamando ou murmurando, canta quase sempre em uníssono ou em oitavas – mais um elemento dessa pungência feita de desolação e sobreexcitação nervosa.

O primeiro movimento alterna estrofes que exploram o horror e a culpa de Babi Yar com relatos de dois outros episódios, sobre Anne Frank e um menino massacrado em Bielostok. No segundo movimento, os tambores em ritmo marcado, a maior animação da música e o tom enfático das vozes falam da resistência que o “Humor” jamais deixará de oferecer à tirania. “Na loja”, o Adagio que se segue, descreve pictoricamente as filas de humilhadas donas-de-casa em uma linha sinuosa nas cordas graves, entrelaçada a outra que, no registro médio, evoca a maneira como elas se insinuam cautelosas até o balcão. “Elas nos honram e nos julgam”, diz o poema, enquanto blocos e castanholas fazem as vezes de panelas e garrafas se entrechocando. A reserva da estupefação moral explode na última estrofe: “Nada está fora do alcance da força delas”.

A subjugada linha sinuosa torna-se reta, com permanente vibração surda na percussão, ao prosseguir sem interrupção no episódio seguinte, em ameaçador ‘sostenuto’ das cordas graves sob solo da tuba: é o “Medo”, componente constante da vida soviética. Frente ao negrume até aqui prevalecente, a sinfonia conclui em uma satírica meditação sobre o que é seguir “Carreira”. Em orquestração e harmonização reminiscentes da música do tcheco Martinu (1890-1959), no emprego de flautas e oboés oscilantes em ritmo de valsa lenta, ficamos sabendo que a verdadeira carreira não é a dos que se submetem, mas a de Galileu, Shakespeare ou Pasteur, Newton ou Tolstoi: “Seguirei minha carreira de tal forma que não a esteja seguindo”, conclui o baixo, com o eco do sino que abrira pesadamente a sinfonia, agora aliviado pela sonoridade onírica da celesta.

A Orquestra Petrobras Sinfônica esteve esplêndida, tocando como gente grande em cada naipe e coletivamente, sob a batuta do jovem maestro chileno Rodolfo Fisher. O barítono americano David Pittman-Jennings, embora não tenha aquele baixo profundo que impressiona nas interpretações russas, ostentou o metal nobre, a projeção plena e a capacidade de nuançar que permitiram total imersão nessa escorchante fantasia pânica. O Coro Sinfônico do Rio de Janeiro, dirigido por Julio Moretzsohn, esteve mais coeso e homogêneo que nunca, em sua formação exclusivamente masculina. Faltou apenas a reprodução/tradução dos poemas.

Shostakovich Kondrashin Yevtuschenko<— Shostakovich (esquerda), com o poeta Evgeni Ievtuchenko (direita) e o regente Kiril Kondrashin na estréia da controversa 13ª Sinfonia.

A seguir, eu, P.Q.P. Bach, copiei para vocês trechos traduzidos por Lauro Machado Coelho dos poemas utilizados na 13ª Sinfonia. Notem como o poema Babi Yar não é só aquilo que diz Clóvis Marques, mas uma clara alusão ao anti-semitismo soviético. Depois, mais comentários sobre a grande estréia da peça na URSS.

Babi Yar

Tenho medo.
Tenho hoje tantos anos
quanto o próprio povo judeu.

Parece que agora sou um judeu.
Perambulo no Egito antigo.
E eis-me na cruz, morrendo.
E ainda trago em mim a marca dos pregos.
Parece que Dreyfus sou eu.
Os filisteus são os que me denunciam e são o meu juiz.
Estou atrás das grades.
Estou cercado,
perseguido, cuspido, caluniado.
E as mocinhas, com suas rendas de Bruxelas,
rindo, me enfiam a sombrinha na cara.

(…)

Eu, chutado por uma bota, sem forças,
em vão peço piedade aos pogromistas.

(…)

Que a Internacional ressoe
quando enterrarem para sempre
o último anti-semita da terra.
Não há sangue judeu no meu sangue,
mas sou odiado com todas as forças
por todos os anti-semitas, como se judeu fosse.
E é por isso que sou um verdadeiro russo.

Humor

Czares, reis, imperadores
soberanos do mundo inteiro,
comandaram as paradas
mas ao humor não puderam controlar.

Ó euzinho aqui!
De repente me desembaraço de meu casaco,
faço um gesto com a mão e “Tchau!”.

Na loja

Dar-lhes o troco errado é uma vergonha,
enganá-las no troco é um pecado.

(…)

E, enquanto enfio no bolso as minhas massas,
olho, solene e pensativo,
cansadas de carregar seus sacos de compras,
as suas nobres mãos.
Elas nos honram e nos julgam,
nada está fora do alcance de suas forças.

Medos

Lembro do tempo em que ele era todo-poderoso,
na corte da mentira triunfante.
O medo se esgueirava por toda parte, como uma sombra,
infriltava-se em cada andar.
Agora é estranho lembrarmo-nos disso,
o medo secreto que alguém nos delate,
o medo secreto de que venham bater à nossa porta.
E depois, o medo de falar com um estrangeiro…
com um estrangeiro? até mesmo com sua mulher!
E o medo inexplicável de, depois de uma marcha,
ficar sozinho com o silêncio.

Não tínhamos medo de construir em meio à tormenta,
nem de marchar para o combate sob o bombardeio,
mas tínhamos às vezes um medo mortal,
de falar, nem que fosse com nós mesmos.

Uma Carreira

Os padres diziam que Galileu era mau e doido.
Que Galileu era doido.
Mas, como o tempo o demonstrou,
o doido era o mais sábio.
Um cientista da época de Galileu,
não era menos sábio que Galileu.
Ele sabia que a Terra girava,
mas tinha uma família
e, ao subir com sua mulher na carruagem,
achava que tinha feito sua carreira,
quando, na realidade, a tinha destruído.

Para compreender nosso planeta,
Galileu correu riscos.
É isso — eu penso — que é uma carreira.
Por isso, viva sua carreira,
quando é uma carreira como
a de Shakespeare e Pasteur,
Newton e Tolstói.
Liev?
Liev!
Por que eles foram caluniados?
Talento é talento,
digam o que disserem.
Os que insultaram estão esquecidos,
mas nós lembramos dos que foram insultados.

Com estes textos, foi difícil estrear a sinfonia. Em 1962, todos tiram o corpo fora, até o velho amigo Mravinski alega excesso de trabalho. Shostakovich volta-se para um moço talentoso — Kirill Kondrashin –, que aceita reger. O regente escala Viktor Nietchpailo para cantar na noite de estréia, deixando o jovem Vitali Gromadski “na reserva”. Sábia providência, pois Nietchpailo não suporta as pressões, acrescidas de um bate boca entre Ievtushenko e Nikita Kruschev, numa reunião entre artistas que devia dissuadi-lo a manter o texto de Babi Yar na sinfonia, e, amedrontado, cai fora. Gromadski é chamado. Muitos outros músicos “adoecem” e o coro desiste de cantar. Kondrashin e Ievtushenko dão discursos indignados e o coral retorna. Popov, o Ministro da Cultura, telefona a Kondrashin perguntando se a sinfonia pode ser apresentada sem o primeiro e quarto movimentos. Kondrashin responde que não, porque mutilaria a forma da sinfonia e todos sabem que o primeiro movimento fala sobre os anti-semitas soviéticos e de Babi Yar… “Ministro, se cortarmos, haverá reações indesejáveis…”. Ouve Popov afirmar e perguntar: “A responsabilidade é sua. Faça como achar melhor. A propósito, há algo que possa impedi-lo de reger esta noite?”. “Não, todos estamos em excelente forma…”, responde Kondrashin. Enquanto isso, as pessoas brigam pelos ingressos de um concerto que fez a Grande Sala do Conservatório vir abaixo, com os aplausos ocorrendo entre cada movimento. O CD 11 é a som desta estréia.

CD 10

SYMPHONY No.13 in B flat minor, Op.113
For Bass Solo, Bass Choir and Orchestra in B Flat Minor, Op.113, “Babi Yar”
1. Babi Yar (Adagio)
2. Yumor – Humour (Allegretto)
3. V Magazine – In the Store (Adagio)
4. Strachi – Fears (Largo)
5. Kariera – A Career (Allegretto)

Recorded: August 23, 1967
Arthur Eisen, Bass
Choirs of the Russian Republic
Alexander Yourlov, Conductor
Moscow Philharmonic Orchestra
Kirill Kondrashin, Conductor
Total time 56:06

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E aqui, o registro ao vivo da primeira apresentação. Esta gravação é superior à postada acima. O baixo é o excelente e corajoso Vitali Gromadski.

CD 11

Shostakovich: The Complete Symphonies – No.13
Artist: Moscow Philharmonic Orchestra cond. Kirill Kondrashin
Length: 0:56:35
Notes: Recorded live in the Large Hall of the Moscow Conservatory on December 18, 1962 with State Academic Choir, Yurlov Russian Choir, Vitaly Gromadsky (bass).

Tracks:
01 I Babi Yar (Adagio) [15:03]
02 II Humor (Allegretto) [7:52]
03 III In the Store (Adagio) [11:06]
04 IV Fears (Largo) [10:30]
05 V A Career (Allegretto) [12:04]

BAIXE AQUI (Ao Vivo – Estréia da obra) – DOWNLOAD HERE (Live – Premiere)

Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – A Décima-primeira (CD 9 de 11)

A Sinfonia Nº 11, Op. 103 – O Ano de 1905 (1957) talvez seja a maior obra programática já composta. Há grandes exemplos de músicas descritivas tais como As Quatro Estações de Vivaldi, a Sinfonia Pastoral de Beethoven , a Abertura 1812 de Tchaikovski, Quadros de uma Exposição de Mussorgski e tantas outras, mas nenhuma delas liga-se tão completa e perfeitamente ao fato descrito do que a décima-primeira sinfonia de Shostakovich.

Alguns compositores que assumiram o papel de criadores de “coisas belas”, vêem sua tarefa como a produção de obras tão agradáveis quanto o possível. Camille Saint-Saëns dizia que o artista “que não se sente feliz com a elegância, com um perfeito equilíbrio de cores ou com uma bela sucessão de harmonias não entende a arte”. Outra atitude é tomada por Shostakovich, que encara vida e arte como se fosse uma coisa só, que vê a criação artística como um ato muito mais amplo e que inclui a possibilidade do artista expressar – ou procurar expressar – a verdade tal como ele a vê. Esta abordagem foi adotada por muitos escritores, pintores e músicos russos do século XIX e, para Shostakovich, a postura realista de seu ídolo Mussorgsky foi decisiva. A décima primeira sinfonia de Shostakovich tem feições inteiramente mussorgkianas e foi estreada em 1957, ano do quadragésimo aniversário da Revolução de Outubro. Contudo, ela se refere a eventos ocorridos antes, no dia 9 de janeiro de 1905, um domingo — o Domingo Sangrento –, quando tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo. O protesto, feito após a missa e com a presença de muitas crianças, tinha a intenção de entregar uma petição — sim um papel — ao czar, exatamente esta aqui, solicitando coisas como redução do horário de trabalho para oito horas diárias, assistência médica, melhor tratamento, liberdade de religião, etc. A resposta foi dada pela artilharia, que matou mais de cem trabalhadores e feriu outros trezentos.

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O primeiro movimento descreve a caminhada dos trabalhadores até o Palácio de Inverno e a atmosfera soturna da praça em frente, coberta de neve. O tema dos trabalhadores aparecerá nos movimentos seguintes, porém, aqui, a música sugere uma calma opressiva.

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O segundo movimento mostra a multidão abordar o Palácio para entregar a petição ao czar, mas este encontra-se ausente e as tropas começam a atirar. Shostakovich tira o que pode da orquestra num dos mais barulhentos movimentos sinfônicos que conheço, apesar de que Haitink supera em muito Kondrashin neste movimento.

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O terceiro movimento, de caráter fúnebre, é baseado na belíssima marcha de origem polonesa Vocês caíram como mártires (Vy zhertvoyu pali) que foi cantada por Lênin e seus companheiros no exílio, quando souberam do acontecido em 9 de janeiro.

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O final – utilizando um bordão da época – é a promessa da vitória final do socialismo e um aviso de que aquilo não ficaria sem punição.

CD 9

SYMPHONY No.11 in G Minor, Op.103
1. The Palace Square (Adagio)
2. January 9th (Allegro)
3. In Memoriam (Adagio)
4. Tocsin (Allegro non troppo)

Recorded: September 7, 1973
Moscow Philharmonic Orchestra
Kirill Kondrashin, Conductor
Total time 56:54

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – A Décima (CD 5 de 11)

Este monumento da arte contemporânea mistura música absoluta, intensidade trágica, humor, ódio mortal, tranqüilidade bucólica e paródia. Tem, ademais, história bastante particular.

Em março de 1953, quando da morte de Stalin, Shostakovich estava proibido de estrear novas obras e a execução das já publicadas estava sob censura, necessitando autorizações especiais para serem apresentadas. Tais autorizações eram, normalmente, negadas. Foi o perí­odo em que Shostakovich dedicou-se à música de cãmara e a maior prova disto é a distância de oito anos que separa a nona sinfonia desta décima. Esta sinfonia, provavelmente escrita durante o perí­odo de censura, além de seus méritos musicais indiscutíveis, é considerada uma vingança particular contra Stalin. Primeiramente, ela parece inteiramente desligada de quaisquer dogmas estabelecidos pelo realismo socialista. Para afastar-se ainda mais, seu segundo movimento contém exatamente as ousadias sinfônicas que deixaram Shostakovich mal com o regime stalinista. Não são poucos os comentaristas consideram ser este movimento uma descrição musical de Stálin: breve, é absolutamente violento e brutal, enfurecido mesmo, e sua oposição ao restante da obra faz-nos pensar em segundas intenções do compositor. Para completar o estranhamento, o movimento seguinte é pastoral e tranqüilo, contendo o maior enigma musical do mestre: a orquestra pára, dando espaço para a trompa executar o famoso tema baseado nas notas DSCH (ré, mi bemol, dó e si, em notação alemã) que é assinatura musical de Dmitri SCHostakovich, em grafia alemã. Para identificá-la, ouça o tema solo executado pela trompa. Ele será repetido quatro vezes. Ouvindo a sinfonia, chega-nos impressão de que, tendo sobrevivido à Stálin, Shosta canta diz insistentemente: Stalin está morto, DSCH, não. O mais notável da décima é o tratamento magistral em torno de temas que se transfiguram constantemente.

Um ano depois, em 1954, a Décima já tinha status de obra-prima no Ocidente. Stokowiski, Ormandy e Mitropoulos a gravaram, o último em registro fenomenal para a CBS. É um documento de uma época. Combina uma visão épica dos acontecimentos do inverno stalinista com os mais aterradores insights, tão característicos do último Shostakovich.

É música de primeira linha. Lembro de ter solicitado sua execução para a Rádio da UFRGS em 1974. Fui atendido e a Décima tornou-se parte do repertório habitual da emissora…

CD 5

SYMPHONY No.10 in E Minor, Op.93

1. Moderato
2. Allegro
3. Allegretto
4. Andante. Allegro

Recorded: September 24, 1973
Moscow Philharmonic Orchestra
Kirill Kondrashin, Conductor

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – A Nona (CD 8 de 11)

Obs.: No original, a Nona vem acompanhada pela Décima-Quinta, a última. Eu é que resolvi separá-las, pois se algum de vocês está acompanhando minhas curtas introduções, ao final saberão que não faz o menor sentido ouvi-las juntas.Depois da Sétima e da Oitava, terminada a Segunda Guerra Mundial, era esperada uma nova, heróica e grandiosa sinfonia. Stálin era uma pessoa curiosa, pois amava a música e incomodava os compositores soviéticos com mensagens e pedidos que, mesmo quando gentis, eram atemorizantes. Todos sabiam o que a Nona deveria ser. Ela deveria saudar a vitória na guerra na pessoa de Stálin. Porém, se o mandatário alguém curioso e cheio de pedidos, Shostakovich era sarcástico e compôs uma Nona que nada tinha a ver com glorificações. A Nona de Shosta corresponde ao que é a Oitava de Beethoven, uma “pequena e despretensiosa sinfonia”. Só que se lá Beethoven foi gentil e haydniano, aqui nosso amigo fez todo o tipo de brincadeiras, principalmente marciais. É um deboche ao que se esperava que fosse. Na época, Shostakovich era uma personalidade mundial e podia escrever o que bem entendesse. Já para estrear suas obras era outra história.

Antes de morrer, Shosta disse que escrevera muitas sinfonias e arrependia-se de algumas. Espero sinceramente que uma delas não seja esta Nona alegre, jocosa, bonitinha e cheia de intenções irônicas. Acho que ele se referia à Segunda, Terceira e Décima-Segunda Sinfonias, verdadeiros fracassos musicais… (opinião minha, claro).

A Nona tem dois movimentos lentos que poderiam ser considerados “sérios” e onde os sopros têm ganham enorme destaque. OK, mas mesmo assim eles afastam-se de tal forma da grandiosidade de suas sinfonias anteriores e principalmente daquilo que lhe era requerido que… E, como se não bastasse, os movimentos que abrem e fecham a sinfonia são efetivamente sarcásticos, verdadeiras distorções sobre a “música heróica” tão ao gosto do regime. Mas é música de primeira linha, sem dúvida. Bem, não é para menos que ele apenas tenha estreado a agressiva e espetacular Décima após a morte de Stálin. Talvez o homem não tivesse suportado outra reversão de expectivas.

CD 8

SYMPHONY No.9 in E Flat Major, Op.70
1. Allegro
2. Moderato. Adagio
3. Presto
4. Largo
5. Allegretto. Allegro

Recorded: March 20, 1965
Moscow Philharmonic Orchestra
Kirill Kondrashin, Conductor

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – A Oitava (CD 7 de 11)

A espantosa Oitava Sinfonia de Shostakovich é incomparavelmente mais interessante que a Sétima. Segundo Lauro Machado Coelho, seria a melhor de todas as sinfonias de Shosta, opinião da qual discordo. Mas concordo que ela é espetacular e das principais obras do autor. Enquanto os críticos brigavam, discutindo seu real significado esta obra de enorme sucesso desde sua estréia recebia uma curta frase de Shostakovich: A Oitava é, dentro de minha obra, comparável ao que o Réquiem de Anna Akhmátova é na dela..

Sem dúvida, é a maior obra composta sob inspiração da Segunda Guerra Mundial e olha que tivemos uma série bastante importante delas. Britten, Honegger, Prokofiev, Stravinski, Bartók e Schoenberg criaram obras a respeito da Guerra. Ela tinha, evidentemente, tudo para irritar Stalin, principalmente seu final – uma passacaglia em pianissimo -, e o extremamente raivoso e falso Alegretto que desemboca num brutal e kachaturiano Allegro non troppo. Isto é, tudo ao contrário. Nada de glorificação à vitória, mas uma fotografia do horror da guerra, desembocando num Réquiem.

A respeito, disse Iliá Ehrenburg:

Voltei perturbadíssimo do concerto. Parecia-me ter ouvido, de repente, a voz do antigo coro das tragédias gregas. A música possui a imensa vantagem de poder dizer tudo sem ter de mencionar nada.

CD 7

SYMPHONY No.8 in C Minor, Op.65

1. Adagio. Allegro ma non troppo. Allegro. Adagio
2. Allegretto
3. Allegro non troppo
4. Largo
5. Allegretto. Allegro. Adagio. Allegretto. Andante

Recorded: April 11, 1967
Moscow Philharmonic Orchestra
Kirill Kondrashin, Conductor
Total time 56:36

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Puccini une as pessoas

Em setembro de 1962, Igor Stravinski visitou a União Soviética por 3 semanas. Recebeu muitas homenagens e seu único encontro mais demorado foi com Shostakovich. Porém, quando foram apresentados, o mortalmente tímido Shostakovich respondia com monossílabos as muitas tentativas de conversação feitas por Stravinski. Isso só até o momento em que eles encontraram algo para detestar juntos. “Você gosta de Puccini?”, perguntou Stravinski. “Não o suporto”, respondeu Shostakovich. A partir daí, eles encontraram do que falar e conversaram animadamente a noite inteira.

Lauro Machado Coelho

Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – Sinf. Nro. 6 (CD 5 de 11)

Lauro Machado Coelho faz uma notável defesa desta estranha Sexta em seu calhamaço Shostakovich – Vida, Música, Tempo (Ed. Perspectiva). É uma sinfonia curta, de considerável originalidade estrutural: é formado por um longo, belo e mórdido Largo, seguido de dois scherzi (Allegro e Presto). O Presto, muito circense, foi bisado na estréria, em 1939, sob a regência do genial Mravinski. Já a crítica oficial condenou como “Formalista” esta sinfonia “sem pé nem cabeça”: um Largo de vinte minutos e duas brincadeiras de 5 minutos cada… Eu acho esplêndido o primeiro movimento, que possui contatos com o Largo da Quinta e com trabalhos de Mahler e Sibelius, mas alguns especialistas admiram o grotesco e a cínica zombaria do finale. Ou seja, há controvérsias.

Não a vejo como uma obra menor, mas como uma quase não-sinfonia.

O quinto Cd desta coleção traz a Sexta junto à Décima. São obras tão diferentes que optei por separá-las, obedecendo a ordem cronológica. Então, este arquivo ficou bem pequeno.

CD 5

SYMPHONY No.6 in B Minor, Op.54

1. Largo
2. Allegro
3. Presto

Recorded: September 15, 1967

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – Sinf. Nro. 4 (CD 4 de 11)

Shostakovich estrearia esta obra em 1936, mas, após 10 ensaios e de ouvir muitos conselhos, cancelou a apresentação para não dar oportunidade à crítica oficial de qualificá-la como “formalista”. Eram os tempos difíceis do stalinismo. Ademais, Shosta sempre esteve descontente com o terceiro e último movimento… Engavetada, a partitura perdeu-se durante a guerra. Em 1946, Mítia reescreveu-a a partir de uma redução para dois pianos. Mas, mesmo assimm ela só foi estreada quando o clima melhorou, em 1961, sob a regência de seu amigo Kiríll Kondrashin.

Escrita para um orquestra monstruosa – seis flautas, quatro oboés, oito clarinetes, sete percussionistas e QUATORZE CONTRABAIXOS – é uma talvez a sinfonia mais complexa de Shosta. Tem somente 3 movimentos, tendo no centro um scherzo mahleriano com dois imensos movimentos externos.

É uma sinfonia inteiramente mahleriana: o uso camarístico de uma orquestra enorme, o grotesco, o encadeamento de temas, tudo lembra Mahler. O tema do scherzo remete-nos direto à Sinfonia Ressurreição.

Ela possui tem a tragédia que vivia a União Soviética em seu cerne: parece um retrato da mais completa e infernal desesperança ou da morte. Nesta perspectiva, não é nada estranho que John Neschling a tenha utilizado no programa de 20 de outubro de 2005, data dos 30 anos da morte de Vladimir Herzog.

Alguns a consideram música hesitante e de má qualidade. Olha, o último movimento realmente é desinteressante – exceção feita a seu final deslumbrante -, porém o restante está muito, mas muito longe disso. Diria que os dois extraordinários primeiros movimentos não merecem o terceiro. Apenas isso. Por que Shosta não escreveu outro ou o suprimiu?

CD 4

DMITRI SHOSTAKOVICH – SYMPHONY No.4

1. Allegro poco moderato
2. Moderato con moto
3. Largo. Allegro

Recorded in 1962
Moscow Philharmonic Orchestra
Kirill Kondrashin, Conductor
Total time 60:02

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Igor Stravinsky (1882-1971) – Violin Concerto in D, Bela Bártok (1881-1945)- Violin Concerto No2, Dmitri Shostakovich (1906-1975)- Concerto No. 1 in A minor for Violin and Orchestra, Op. 99, Sergey Prokofiev (1891-1953) – Violin Concerto No. 2 In G Minor, Op. 63

O que estes quatro concertos para violino têm em comum além do fato de serem os mais representativos do século XX é a excepcional violinista que os interpreta, Viktoria Mullova. Sou fã desta grande violinista desde que comprei sua gravação para os Concertos de Tchaikovsky e de Sibelius, sob a direção do Seiji Ozawa e sua Orquestra Sinfônica de Boston, ainda nos anos 80.

Mullova interpreta nestes dois cds os quatro principais concertos para violino do século XX. Quatro verdadeiras provas de fogo, e Mullova os encara com tamanha competência que nos tira o fôlego muitas vezes. Destaque para a cadenza do terceiro movimento do concerto de Shostakovich, além do belíssimo 2º Concerto de Prokofiev.
Nesta série de concertos ela estará acompanhada pela Royal Philarmonic Orchestra, dirigida por Andre Previn.

Igor Stravinsky (1882-1971) – Violin Concerto in D, Bela Bártok (1881-1945)- Violin Concerto No2, Dmitri Shostakovich (1906-1975)- Concerto No. 1 in A minor for Violin and Orchestra, Op. 99, Sergey Prokofiev (1891-1953) – Violin Concerto No. 2 In G Minor, Op. 63

CD 1

01 Stravinsky – Violin Concerto in D – I – Toccata
02 Stravinsky – Violin Concerto in D – II – Aria
03 Stravinsky – Violin Concerto in D – III – Aria II
04 Stravinsky – Violin Concerto in D – IV – Capriccio
05 Bartok – Violin Concerto No2 – Allegro non troppo
06 Bartok – Violin Concerto No2 ´Andante tranquilo
07 Bartok – Violin Concerto No2 – Allegro molto

CD 2

01 Shostakovich – Concerto No. 1 in A minor for Violin and Orchestra, Op. 99I. Nocturne. Adagio
02 Shostakovich – Concerto No. 1 in A minor for Violin and Orchestra, Op. 99II. Scherzo. Allegro non troppo
03 Shostakovich – Concerto No. 1 in A minor for Violin and Orchestra, Op. 99III. Passacaglia. Andante
04 Shostakovich – Concerto No. 1 in A minor for Violin and Orchestra, Op. 99IV. Burlesca. Allegro con brio
05 Prokofiev – Violin Concerto No. 2 In G Minor, Op. 63 – Allegro moderato
06 Prokofiev – Violin Concerto No. 2 In G Minor, Op. 63 – Andante assai
07 Prokofiev – Violin Concerto No. 2 In G Minor, Op. 63 – Allegro ben marcato

Viktoria Mullova – Violin
Royal Philarmonic Orchestra
Andre Previn – Director

CD 1 – BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

CD 2 – BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

Machado de Assis, a Polca, o Jazz, Shostakovitch e o Pestana (e o Wisnik e o Idelber)

A partir do título, este é um post copiado do blog de Milton Ribeiro.

Pequena ilustração ao post de hoje do Idelber.

Em um famoso conto de Machado de Assis, Um Homem Célebre, havia um grande compositor de polcas, o Pestana, que queria fazer algo maior, grandioso, mas – que diabo! – só lhe saíam mais polcas. O que fazer? O personagem fazia o maior esforço, passava meses trancado em casa a fim de parir a grande obra, porém não produzia nada além de belas polcas, que logo se tornavam popularíssimas e eram assobiadas pelo povo nas ruas, para desespero do Pestana. Estas eram compostas copiosa e rapidamente. Acabou rico, infeliz e doente. Coitado.

Com Shostakovitch o caso é diferente. Compôs copiosamente obras-primas, tem obra profunda e numerosa, mas, um belo dia, resolveu escrever suítes para grupos de jazz. Vocês podem adivinhar o que aconteceu? Saíram apenas… polcas. Polcas e valsas. O timbre é o do jazz – não poderia ser diferente com aquela formação orquestral -, já a música são as polcas do personagem machadiano. Ah, vocês não acreditam? Então ouçam o CD (*) com estas obras. É um bom disco, há a espetacular Valsa 2 da Suíte Nro. 2, que foi utilizada por Stanley Kubrick na abertura de De Olhos bem Fechados, com um ritmo e um solo de sax que nos obriga a levantar e ensaiar uns passinhos pela sala, há várias polquinhas bem legais e há uma imitação marcial de Duke Ellington que dá para rolar de rir. É o “Grande Projeto Falhado” do imortal Shosta e, mesmo assim, é muito bom e divertido.

(*) Gentilmente, P.Q.P. Bach nos disponibliliza uma gravação das Jazz Suites de Shostakovich.

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P.Q.P. Bach retorna com a relação das faixas de:
Shostakovich Jazz Suites 1 & 2 / The Bolt / Tahiti Trot

1. The Bolt (Ballet Suite): Overture (Introduction) 5:05
2. The Bolt (Ballet Suite): The Bureaucrat (Polka) 2:42
3. The Bolt (Ballet Suite): The Drayman’s Dance (Variations) 1:54
4. The Bolt (Ballet Suite): Koelkov’s Dance with Friends (Tango) 5:21
5. The Bolt (Ballet Suite): Intermezzo 3:41
6. The Bolt (Ballet Suite): The Dance of the Colonial Slave-Girl 3:41
7. The Bolt (Ballet Suite): The Conciliator 3:10
8. The Bolt (Ballet Suite): General Dance of Enthusiasm and Apotheosis (Finale) 3:28
9. Jazz Suite No. 2 (Suite for Stage Variety Orchestra): March 3:07
10. Jazz Suite No. 2 (Suite for Stage Variety Orchestra): Lyric Waltz 2:08
11. Jazz Suite No. 2 (Suite for Stage Variety Orchestra): Dance 1 3:03
12. Jazz Suite No. 2 (Suite for Stage Variety Orchestra): Waltz 1 2:47
13. Jazz Suite No. 2 (Suite for Stage Variety Orchestra): Little Polka 1:51
14. Jazz Suite No. 2 (Suite for Stage Variety Orchestra): Waltz 2 3:13
15. Jazz Suite No. 2 (Suite for Stage Variety Orchestra): Dance 2 2:15
16. Jazz Suite No. 2 (Suite for Stage Variety Orchestra): Finale 1:58
17. Jazz Suite No. 1: Waltz 2:28
18. Jazz Suite No. 1: Polka 1:35
19. Jazz Suite No. 1: Foxtrot (Blues) 4:16
20. Tahiti Trot, Op. 16: Tahiti Trot (Tea for Two), Op. 16 4:09

Composed by Dmitry Shostakovich
Performed by Russian State Symphony Orchestra
Conducted by Dmitry Yablonsky

Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – Sinf. Nros. 1 e 12 – (CD 1 de 11)

Consegui por aí a integral das Sinfonias de Shostakovich com Kirill Kondrashin e a Filarmônica de Moscou. Vocês não demonstram grande entusiasmo por Shosta, mas minha habitual falta de consideração e esquizofrenia me obrigará a publicar sua integral antes da de Mahler, Sibelius, Nielsen (adoro Nielsen) e outros. O CD Nro. 1 traz a esplêndida Sinfonia Nº 1 e a medonha 12ª, “O Ano de 1917”, talvez seu único fracasso artístico de grandes proporções. A Sinfonia Nº 12 soa falsa, nada convincente. As suas outras obras revolucionárias nos parecem sinceras, porém esta sinfonia é um exagero que torna-se uma espécie de caricatura involuntária. O livro Shostalkovich: Vida, Música, Tempo, de Lauro Machado Coelho não chega a dedicar uma página de suas quinhentas e duas à decima-segunda. Merece o desprezo.

Mas há a primeira, uma obra-prima que Mítia finalizou quando tinha apenas 19 anos!

Sinfonia Nº 1, Op. 10 (1924-1925) : Shostakovich começou a escrever esta sinfonia quando tinha dezessete anos. Antes disso, tinha composto alguns scherzi que só interessam à musicólogos. Sua estréia foi mesmo com esta Nº 1, terminada antes do autor completar vinte anos. Ela tornou aquele estudante de música, mais conhecido por ser o pianista-improvisador de três cinemas mudos de Petrogrado, internacionalmente célebre. Tal fama pode ser atribuída por Shostakovich ser o primeiro rebento musical do comunismo, mas ouvindo a sinfonia hoje, não nos decepcionamos de modo algum. É música de um futuro mestre.

Ela começa com um toque de trompete ao qual, se acrescentarmos um crescendo, tornar-se-á um tema de Petrouchka, de Igor Stravinski. Alguns regentes russos fazem esta introdução exatamemente igual à Petroushka. É algo curioso que o jovem Dmitri tenha feito esta homenagem, quando dizia que seus modelos – e isto foi comprovadíssimo logo adiante – eram Mahler, Bach, Beethoven e Mussorgski. Mas há mesmo algo de “boneca triste” no primeiro movimento desta sinfonia. O segundo movimento possui um curioso tema árabe, que é a primeira paródia encontrada em sua obra. Um achado.

O movimento lento, muito triste, é daqueles que a Veja consideraria uma comprovação do sofrimento do compositor sob o comunismo e de uma postura fatalista do tipo isto-não-vai-dar-nada-certo, porém acreditamos que a morte de seu pai, ocorrida alguns meses antes e a internação de Dmitri num sanatório da Criméia (ele contraíra tuberculose) tenha maior relação com tal tristeza. Há um belíssimo solo funéreo de oboé neste movimento.

CD 1

SYMPHONY No.1 in F Minor, Op.10

1. Allegretto. Allegro ma non troppo
2. Allegro
3. Lento
4. Allegro molto, Lento Allegro molto

Recorded: July 19, 1972

SYMPHONY No.12 in D Minor, Op.112, “1917”
5. Revolutionary “Petrograd”: Moderato, Allegro
6. Allegro
7. Aurora: Allegro
8. Down of Humanity: Allegro, Allegretto

Recorded: December 13, 1972

Moscow Philharmonic Orchestra
Kirill Kondrashin, Conductor

Total time 68:59

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nº 2 e Nº 15 (Slovák)

Já postei a Sinfonia Nº 15 em versão muito superior a esta, mas a segunda é inédita em nosso blog. A Sinfonia Nº 2 (1927) foi terminada quando o compositor tinha 21 anos e começava a abraçar a estética da música moderna. Se a primeira sinfonia leva o DNA do Shostakovich maduro, a segunda é a sinfonia de um jovem revolucionário nos anos iniciais de outra revolução. O stalinismo ainda não o tinha rotulado de “formalista” e Shosta flanava nas novidades. Foram os anos da espetacular (e irreverente)ópera “O Nariz” e da não menos (e mais irreverente ainda) “Lady Macbeth de Mzenski”. Erra quem diz que o estilo de Shostakovich foi forjado por Stalin e Jdanov, pois a Quarta Sinfonia, obra já madura, é anterior às primeiras proibições. Mas, voltando ao assunto, é boa a Segunda Sinfonia “Outubro”, Op. 14.

Ontem, lendo o livro “Alucinações Musicais”, tradução impecável de Musicophilia – Tales of music and brain, de Oliver Sacks, deparei-me (e abismei-me) com o seguinte:

Em um artigo no New York Times em 1983, Donal Henahan escreveu sobre a lesão cerebral de Shostakovich. Não existem provas, mas, ressaltou Henahan, conta-se que o compositor foi atingido por uma granada alemã durante o cerco de Leningrado, e quealguns anos depois um raio X revelou um fragmento de metal encravado na área auditiva direira de seu cérebro. Henahan relata:

“Shostakovich, porém, relutava em permitir a remoção do metal, e não era para menos: afirmou que desde que o fragmento estava lá, cada vez que ele inclinava a cabeça podia ouvir música. Sua cabeça estava povoada de melodias, diferentes a cada vez, das quais ele se servia ao compor. Quando ele endireitava a cabeça, a música parava imediatamente”.

????? Ah, aquele negrito é meu.

Dmitri Shostakovich 1
Acima, flagrante de Shosta ouvindo música…

SHOSTAKOVICH: Symphonies Nos. 2 and 15

1. Symphony No. 2 in B major, Op. 14, “October” 00:19:35

Symphony No. 15 in A major, Op. 141
2. Allegretto 00:08:23
3. Adagio 00:15:42
4. Allegretto 00:04:02
5. Adagio 00:16:03

Slovak Philharmonic Chorus
Slovak Radio Symphony Orchestra
Ladislav Slovak, Conductor

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PQP

Igor Stravinski (1882 – 1971) e Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Agon e Sinfonia Nº 15

Extraordinária gravação em que Evgeni Mravinski conduz a Orquestra Filarmônica de Leningrado no balé Agon, de Stravinski (gravação de 1965), e na 15ª Sinfonia de Dmitri Shostakovich (gravação de 1976).

Agon é de 1957, quando Stravinski tinha 75 anos. A música, aqui, prescinde do balé – que alívio, não? -, mas não me causa nenhum entusiasmo. Já o Shostakovich… A Sinfonia Nº 15 é a última do compositor e, em 1976, Mravinski iniciou a temporada de sua orquestra dedicando nada menos do que quatro concertos a seu amigo. A gravação postada traz um registro deste extraordinário evento.

Sem dúvida, a Sinfonia Nº 15 é uma de minhas preferidas no gênero. É difícil estabelecer-se um conteúdo programático para ela. Trata-se de uma música muito viva, com colorido orquestral atraente, temas facilmente assimiláveis e nada triviais, clímax e pausas meditativas que empolgam e mantém o ouvinte permanentemente atento. E com os contrastes inesperados característicos de Shostakovich. Parece um roteiro de Shakespeare passado à música, trazendo o trágico ao festivo, empurrando a reflexão para junto da zombaria. Bom, já viram que sou um apaixonado desta sinfonia.

O primeiro movimento (Allegretto) é uma curiosidade por manter sempre ativo o motivo da cavalgada da abertura Guilherme Tell, de Rossini, e pela participação incessante da percussão. O segundo movimento (Adagio) é circunspecto. Os metais trazem uma melodia sombria, para depois o violoncelo completá-la com um solo dilacerante, a cujas cores será acrescida, mais adiante, a ressonância do contrabaixo. Um novo Alegretto surge repentinamente do Adagio, retomando o clima do primeiro movimento, mas desta vez somos levados pelos solos do fagote, violino, clarinete e flautim. O movimento final, outro adagio, é enigmático. A simbologia está presente com a apresentação de imediato do Prenúncio da Morte, composto por Wagner para a Tetralogia do Anel. O ouvinte wagneriano fica desconcertado ao escutar de imediato esta música conhecida, parece tratar-se de um equívoco, de um erro de partitura. Ao pesado motivo de Wagner são contrapostos temas executados pelo setor leve da orquestra, porém, a todo instante, o sinistro aviso retorna e, mais adiante, os metais refletirão uma angustiada exasperação… A sinfonia esvai-se em delicados sons de percussão, deixando um desconcertante ponto de interrogação no ar. O significado do Prenúncio da Morte é óbvio, porém, o que significam a percussão, a orquestração e as melodias jocosas que o cercam? Uma simples experiência sinfônica? Impossível. O desejo de felicidade de alguém cuja vida se encerra? Ou, voltando a Shakespeare, que a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa (*)? Porém, a significação, a intenção exata de uma obra instrumental é tão importante? Ou seria mais inteligente fazer como fez Shostakovich, levando-nos bem próximo ao irrespondível para nos abandonar por lá?

(*) Macbeth, William Shakespeare.

STRAVINSKY Agon (40mb)
1. Pas de quatre 1:48
2. Double Pas de quatre 1:36
3. Triple Pas de quatre 1:09
4. Prelude 0:57
5. First Pas de trios Saraband Step 1:18
6. Gaillarde 1:19
7. Coda 1:28
8. Interlude 0:55
9. Second Pas de trios Bransle simple 0:59
10. Bransle gay 0:53
11. Bransle double 1:27
12. Interlude 0:56
13. Pas de deux Adagio – variation – refrain 4:16
14. Coda 1:35
15. Four Duos 0:32
16. Four Trios 0:39
17. Coda 1:53

SHOSTAKOVICH Symphony No.15 (70mb)
18. Allegretto 7:42
19. Adagio, Largo 14:28
20. Allegretto 3:38
21. Adagio,Allegretto 13:50

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Sinfonia Nº 10, Op. 93 (1953)

41007Algumas orquestras e regentes soviéticos eram motivo de orgulho nacional e isto não era tolo ufanismo. Naqueles anos, o trabalho de Evgeny Mravinsky  e sua Orquestra de Leningrado quase sempre me chegaram em gravações ao vivo, como esta que publico aqui hoje. E eram sempre espantosas. Por exemplo, sua gravação da Música para Cordas, Percussão e Celesta de Bartók é imbatível e ainda vinha com a 7ª Sinfonia de Sibelius! É dos poucos LPs que ouço até hoje.

Além de Mravinsky havia Kondrashin, Svetlanov e Roszdesvensky, um super-quarteto.

Agora, de forma inteiramente casual, encontrei na rede este registro ao vivo da 10ª de Shostakovich. Apesar da tosse da platéia e do som mono. Mravinsky demonstra seu vigor um ano após a morte de Shostakovich. A tensão dramática a que Mravinsky chega aqui é digna de nota. Ele era amigo de Shosta, que havia-lhe dedicado a 8ª Sinfonia.

Este monumento da arte contemporânea mistura música absoluta, intensidade trágica, humor, ódio mortal, tranqüilidade bucólica e paródia. Tem, ademais, uma história bastante particular.

Em março de 1953, quando da morte de Stalin, Shostakovich estava proibido de estrear novas obras e a execução das já publicadas estava sob censura, necessitando autorizações especiais para serem apresentadas. Tais autorizações eram, normalmente, negadas. Foi o período em que Shostakovich dedicou-se à música de câmara e a maior prova disto é a distância de oito anos que separa a nona sinfonia desta décima. Esta sinfonia, provavelmente escrita durante o período de censura, além de seus méritos musicais indiscutíveis, é considerada uma vingança contra Stalin.

Primeiramente, ela parece inteiramente desligada de quaisquer dogmas estabelecidos pelo realismo socialista da época. Para afastar-se ainda mais, seu segundo movimento – um estranho no ninho, em completo contraste com o restante da obra – contém exatamente as ousadias sinfônicas que deixaram Shostakovich mal com o regime stalinista. Não são poucos os comentaristas consideram ser este movimento uma descrição musical de Stálin: breve, é absolutamente violento e brutal, enfurecido mesmo, e sua oposição ao restante da obra faz-nos pensar em alguma segunda intenção do compositor. Para completar o estranhamento, o movimento seguinte é pastoral e tranqüilo, contendo o maior enigma musical do mestre: a orquestra pára, dando espaço para a trompa executar o famoso tema baseado nas notas DSCH (ré, mi bemol, dó e si, em notação alemã) que é assinatura musical de Dmitri SCHostakovich, em grafia alemã. Para identificá-la, ouça o tema executado a capela pela trompa. Ele é repetido quatro vezes. Ouvindo a sinfonia, chega-nos sempre a certeza de que Shostakovich está dizendo insistentemente: Stalin está morto, Shostakovich, não. O mais notável da décima é o tratamento magistral em torno de temas que se transfiguram constantemente.

P.Q.P. Bach adverte: não ouça o segundo movimento previamente irritado. Você e sua companhia poderão se machucar.

Evgeny Mravinsky Conducts Shostakovich
(Leningrad Masters 1995)

Shostakovich`s Symphony No. 10, in E Minor, Op. 93
(gravação mono e ao vivo de 1976)

1. Moderato (22min 24)
2. Allegro (4min 08)
3. Allegretto (11min 10)
4. Andante – Allegro (11min 17)

Orquestra Filarmônica de Leningrado
Reg.: Evgeny Mravinsky

Tempo Total: 48min 58

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PQP Bach

Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Quartetos Nros. 9, 6 e 7

Ontem à noite, arrastei meu amigo Milton Ribeiro para um concerto em que seriam apresentados dois quartetos de cordas: o Quarteto Americano Nº12 de Dvorák e o Quarteto Nº 9 de Shostakovich.

Milton me explicou que o “Quarteto Americano” era antes conhecido pelo nome de “Nigger Quartet”, mas como a palavra nigger (negro) tornou-se altamente pejorativa, o quarteto foi rebatizado. Curioso.

O quarteto da noite de ontem, formado por 4 jovens integrantes da OSPA, tocou fantasticamente bem, provando que a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre deveria incentivar a formação de pequenos grupos. São várias as razões: os músicos se exporiam mais, estudariam mais, tocariam mais e poderiam excursionar pelo interior a custo mais baixo – em vez de levar 100 pessoas para tocar os mesmos highlights pé no saco de sempre. O concerto foi nada menos que brilhante, mostrando-nos que há gente muito boa chafurdando sob os Túlios Belardis da vida.

Aproveito para postar aqui um dos quartetos de ontem, o de Shostakovich, acompanhado de outros dois muito bons. Retirei o oitavo porque já o postamos muitas vezes…

P.Q.P. Bach.

P.S.1- Não sei o nome de nenhum dos instrumentistas de ontem. Se alguém souber, favor deixar registrado nos comentários. Milton me avisa que o violista se chamaria Vladimir…

Update das 2h23 da madrugada: Emerson Kretschmer e Márcio Cecconello, violinos; Vladimir Romanov, viola; Rodrigo Andrade Silveira, violoncelo.

P.S.2- Não tenho como postar o “Quarteto Americano”, pois apenas o possuo em vinil com o Gabrieli String Quartet, em versão inferior a que ouvi ontem ao vivo.

P.S.3- Para ouvir o Quarteto Nro. 9 de Shosta, temos que reconfigurar o mp3 player para retirar aqueles três segundinhos que separam uma faixa de outra, pois os cinco movimentos são ininterruptos.

String Quartet No. 9 in E flat major, Op. 117
I. Moderato con moto 04:26
II. Adagio 03:58
III. Allegretto 03:54
IV. Adagio 03:36
V. Allegro 10:03

String Quartet No. 6 in G major, Op. 101
I. Allegretto 06:47
II. Moderato con moto 05:16
III. Lento 05:20
IV. Lento – Allegretto 07:46

String Quartet No. 7 in F sharp minor, Op. 108
I. Allegretto 03:38
II. Lento 03:24
III. Allegro 05:32

Eder Quartet

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Franz Schubert (1797-1828) e Dmitri Shostakovich (1906-1975) – A Morte e a Donzela e Chamber Symphony, Op. 110a (Quarteto Nº 8)

A Salzburg Chamber Soloists é a responsável pelo segundo ou terceiro CD mais baixado deste blog: este aqui. Não chega a surpreender. O programa de Vivaldi e Piazzolla é interessante, combina, e a interpretação da orquestra é cheia de intenções…

O segundo CD que possuo deles também é muito original. O regente Lavard Skou-Larsen, numa gravação ao vivo, faz algo estranho, unindo duas obras aparentemente inconciliáveis. Mas só aparentemente.

O que é estranho? Ele escreve um arranjo para orquestra a partir do quarteto de cordas “A Morte e a Donzela”. Pensando bem, não é tão estranho, pois Mahler, Schoenberg, Berg e outros já fizeram o mesmo. Para completar, usa o arranjo de Rudolf Barschai para o quarteto de Shosta e estamos prontos para o velório.

Schubert escreveu dramaticamente numa carta a um amigo, comentando sobre o quarteto: “Pense numa mulher cuja saúde nega-se a melhorar”. Shostakovich escreveu seu quarteto em três dias (!!!!) de 1960, em Dresden, após ver alguns filmes sobre a destruição na ex-Alemanha Oriental e dedicou-o às vítimas.

São duas obras que levam experiências pessoais com a morte e com grandes aflições a uma perspectiva mais ampla. Em sua paixão e revolta, tratam de situações brutais e inexoráveis e, como se fossem Réquiems, possuem o efeito de uma catarse. (Trad. por mim com muuuita liberdade a partir do encarte do CD.)

Curiosamente, Lavard Skou-Larsen é um portoalegrense. Seu pai tocava na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e ele nasceu em solo brasileiro. Skou-Larsen gravou para a Naxos as Sonatas para Violino e Piano de Camargo Guarnieri.

P.Q.P. Bach.

Franz Schubert
Dmitri Shostakovich
Salzburg Chamber Soloists
Lavard Skou-Larsen

Franz Schubert: String Quartet in d Minor D810 „Death and the Maiden“ (arr. for String Orchestra by Lavard Skou-Larsen) Premiere Recording
1. Allegro
2. Andante con moto
3. Scherzo. Allegro molto – Trio
4. Presto

Dmitry Shostakovich: Chamber Symphony Op. 110a (arr. for String Orchestra by Rudolf Barshai)

5. Largo
6. Allegro molto
7. Allegretto
8. Largo
9. Largo

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Sonata para Piano Nº 2 e outras peças para piano solo

Lauro Machado Coelho escreveu 500 páginas sobre Shostakovich – em Shostakóvitch – Vida, Música, Tempo (Ed. Perspectiva, 2006) – e conseguiu não escrever uma linha a respeito desta sonata. Terá sido falha minha? Será que dormi naquela parte? Sei não. É um bom livro para quem quiser uma introdução à música de nosso amigo Shosta.

Otto Maria Carpeaux escreveu Uma Nova História da Música e ignorou um monte de compositores, mas Carpeaux era um diletante em música; na sua História da Literatura Ocidental foi mais memorioso. Acho que Lauro nunca ouviu esta sonata de espetacular terceiro movimento. Talvez o comentarista do encarte do CD tenha razão ao dizer que a culpa é da própria sonata: ela teria saído do repertório por ter sido escrita em 1943 e ser introspectiva, NÃO refletindo a atmosfera da guerra, porém, apesar de admirar o fato de possuirmos uma obra deste porte sobre alguém tão obscuro em nosso país quanto Shosta, acho inadmissível o cara deixar passar uma obra dessas.

O restante do CD é formado por obras menores. Sabidamente, Shosta era um pianista que compôs pouca coisa para quaisquer instrumentos solo, mesmo para o piano; então não há muito mais do que os monumentais 24 Prelúdios e Fugas (já divulgado por este prestigioso blog onde você se encontra) e esta sonata. Mas o restante é divertido. E Konstantin Scherbakov é excelente pianista. É um prazer ouvi-lo.

Ah, os Cinco Prelúdios (excertos) são excelentes. O de nro. 3 é uma linda modernagem.

PQP Bach.

Dmitri Shostakovich

Piano Sonata No. 2 in B minor, Op. 61
1. I. Allegretto 06:54
2. II. Largo 06:01
3. III. Moderato (con moto) – Allegretto con moto – Adagio – Moderato 11:12

Three Pieces (1919-20)
4. No. 1. Minuet 00:50
5. No. 2. Prelude 00:55
6. No. 3. Intermezzo 01:07

A Child’s Exercise Book, Op. 69
7. I. March: in the tempo of a March 00:41
8. II. Valse: in the tempo of a Waltz 00:33
9. III. Sad Tale: Adagio 02:07
10. VI. Merry Tale: Allegro 00:34
11. V. The Bear: Allegretto 00:48
12. VI. Clockwork Doll: Allegretto 00:45
13. VII. Birthday [no tempo indication] 01:12

14. Murzilka 00:49

Five Preludes, Op. 2 (excerpts) (1919-1921)
15. No. 2 in A minor: Allegro moderato e scherzando (Op. 2, No. 5) 02:17
16. No. 3 in G major: Andante (Op. 2, No. 2) 02:17
17. No. 4 in E minor: Allegro moderato 00:55
18. No. 15 in D flat major: Moderato (Op. 2, No. 7 or 8) 01:30
19. No. 18 in F minor: Andantino (Op. 2, No. 6) 01:08

The Limpid Stream, Op. 39 (excerpts) (piano trans. D. Shostakovich)
20. Act I Scene 1: No. 7. Scene and Waltz – Entr’acte: Allegretto 05:56
21. Act I Scene 2: No. 12. Dance of the Milkmaid and the Tractor Driver: Moderato con moto 02:20
22. Act I Scene 2: No. 13. Ballerina’s Waltz: Tempo di valse 02:56
23. Act II Scene 3: No. 23. Tango: Allegro – Andante – Allegro 04:39

Konstantin Scherbakov, piano

Total Playing Time: 46:26

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Quarteto de Cordas Nº 8 e Sinfonia de Câmara correspondente

Hoje acordei com vontade de fazer uma coisa diferente e legal. Então, peguei uma obra-prima, o Quarteto Nº 8 de Dmitri Shostakovich, numa gravação bastante boa (talvez a mais “visceral” que conheça, por assim dizer), a do Medici String Quartet, e postei no mesmo arquivo o arranjo que Rudolf Barschai fez para orquestra de câmara do mesmo quarteto. Ou seja, há duas vezes a mesma música, só que em concepções inteiramente diferentes. A leitura do Medici chega a ser agressiva perto do tranqüilo andamento escolhido pelo regente Roland Melia na gravação para orquestra. E são as mesmas notas da mesma obra.

Música extraordinária e bem característica de Shostakovich, onde estão presentes a dança brutal do Allegro Molto, o delicado sarcasmo do Allegretto, a delicadeza do Largo de abertura e a profunda inteligência da construção musical dos dois últimos Largos, o último revisitando o primeiro. Um espanto!

Mas aqui não quero mostrar somente a obra. Desejo mostrar um dos fatos mais apaixonantes da música erudita: a diversidade de interpretações e concepções. O Medici leu a obra de uma forma e o regente X o fez de forma inteiramente diferente. Claro que, aqui, a diferente sonoridade do quarteto e da orquestra serve como mais um elemento distintivo. E as duas formas são aceitáveis e têm indiscutíveis méritos. Notem como o Medici leva 5min22 para executar o primeiro movimento e a orquestra o faz em 6min52! E como as três notas que marcam o quarto movimento são muito mais expressivas quando executadas com maior lentidão.

Um dia, li este post no blog de Milton Ribeiro. É, penso, uma tentativa de explicação do fenômeno das leituras:

Uma Parábola Longa

Numa noite fria do século XVIII, Bach escrevia a Chacona da Partita Nº 2 para violino solo. A música partia de sua imaginação (1) para o violino (2), no qual era testada, e daí para o papel (3). Anos depois, foi copiada (4) e publicada (5). Hoje, o violinista lê a Chacona (6) e de seus olhos passa o que está escrito ao violino (9) utilizando para isso seu controverso cérebro (7) e sua instável técnica (8), . Do violino, a música passa a um engenheiro de som (10) que a grava em um equipamento (11), para só então chegar ao ouvinte (12), que se desmilingúi àquilo.

Na variação entre essas passagens e comunicações, está a infindável diversidade das interpretações.

Mas ainda faltam elos, como a qualidade do violino – e se seu som for divino ou de lata, e se ele for um instrumento original ou moderno? E o calibre do violinista? E seu senso de estilo e vivências? E o ouvinte? E… as verdadeiras intenções de Bach? Desejava ele que o pequeno violino tomasse as proporções gigantescas e polifônicas do órgão? Mesmo?

Há coisas que só mesmo em P.Q.P. Bach…

String Quartet No. 8 in C minor, Op. 110
Performed by: Medici String Quartet
I. Largo 05:22
II. Allegro molto 02:58
III. Allegretto 04:09
IV. Largo 05:07
V. Largo 04:17

String Quartet No. 8 in C minor, Op. 110 / (Chamber Symphony, arr. Rudolf Barschai)
Performed by: Dalgat String Ensemble
Conducted by: Roland Melia
VI. Largo 06:52
VII. Allegro molto 03:12
VIII. Allegretto 05:07
IX. Largo 06:06
X. Largo 04:52

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Concerto para Piano e Orquestra, Op. 102

Concerto dedicado ao filho pianista Maxim Shostakovich. É um autêntico presente de pai para filho. Alegre, brilhante e cheio de brincadeiras de caráter privado como a inacreditável inclusão – no terceiro movimento de exercícios que seu filho praticava quando era estudante do instrumento… E não se surpreenda, o primeiro movimento deste concerto é conhecido entre as crianças que vêem desenhos da Disney. É a música que é executada durante o episódio do Soldadinho de Chumbo em Fantasia 2000. Quando ouço esta música em casa, sempre um de meus filhos vem me dizer “olha aí a música do Soldadinho de Chumbo”. É claro que a música não tem nada a ver com a história infantil; Shostakovich fez um belo concerto para seu filho, de atmosfera delicada e afetuosa. O primeiro movimento (Allegro) começa com uma rápida introdução orquestral em seguida à qual entra o piano. De acordo com a prática habitual de Shostakovich, o tema inicial é um pouco mais poético do que o segundo, de entonação mais vigorosa e rítmica.

Dois movimentos vivos e felizes cercam um melancólico, tocante e melodioso segundo movimento. A inspiração óbvia para este concerto foi o Concerto em Sol Maior (1931) de Ravel. Leonard Bernstein deu-se conta disto e gravou um de seus melhores discos em 1978, acumulando as funções de pianista e regente nos dois concertos. Se este concerto não arrancar algum sorriso do ouvinte, este necessita de urgentemente de anti-depressivos.

Piano Concerto No. 2 in F major, Op. 102
Michael Houstoun, piano
Performed by:New Zealand Symphony Orchestra
Conducted by:Christopher Lyndon-Gee

I. Allegro 07:22
II. Andante 06:37
III. Allegro 05:46

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Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Concerto para Piano, Trompete e Cordas, Op. 35 (1933)

Shostakovich foi excelente pianista. Poderia ter feito carreira como virtuose, mas, para nossa sorte, escolheu compor. Foi o vencedor do internacional Concurso Chopin de 1927 e fazia apresentações regulares executando seus trabalhos. O pequeno número de gravações do próprio compositor como pianista talvez deva-se ao fato de ele ter perdido parcialmente os movimentos de sua mão direita ao final dos anos sessenta.

Este concerto é realmente espetacular. Era uma boa época para os concertos para piano. O de Ravel aparecera um ano antes, assim como o 5º de Prokofiev. É coincidente que os três sejam alegres, luminosos, divertidos mesmo. Com quatro movimentos, sendo o primeiro muito melodioso e gentil, os dois centrais lentos e o último capaz de provocar gargalhadas, é um grande concerto. A participação de um trompetista meio espalhafatoso é fundamental, assim como de um pianista que possa fazer rapidamente a conversão entre a música de cabaré e a música militar exigidas no último movimento. Uma vez, assistindo a uma apresentação, vi como as pessoas sorriam durante a audição deste movimento. Não há pontos baixos neste maravilhoso concerto, que ainda traz, em seu segundo movimento, um lindíssimo solo para trompete, além de uma cadenza esplêndida, de ecos beethovenianos.

Shostakovich foi o pianista de sua estréia, em 1933, na cidade de Leningrado.

Piano Concerto No. 1 in C minor, Op. 35
Performed by:New Zealand Symphony Orchestra
Conducted by:Christopher Lyndon-Gee
Michael Houstoun, piano

I. Allegretto – Allegro Vivace – Moderato – 06:31
II. Lento – 08:31
III. Moderato 01:42
IV. Allegro con brio 06:54

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