#SCHMNN210 – Robert Schumann (1810-1856): Cenas Infantis, Cenas da Floresta, Páginas Coloridas (Maria João Pires)

Chega hoje ao fim nossa série de postagens dedicada às gravações de Maria João Pires pela gravadora Erato, de 1972 a 1987. A gravadora francesa tinha uma linha editorial mais discreta, com artistas um tanto distantes dos holofotes, como a organista Marie-Claire Alain e o regente/organista Ton Koopman. Hoje, a Erato faz parte do grupo Warner, que também comprou a EMI, a Teldec… Coisas do capitalismo tardio.

Mas voltemos a Maria João. O Schumann da pianista portuguesa é poético, íntimo, mais apropriado aos salões familiares do que às grandes salas de concerto com dois mil assentos. Para tocar Schumann, é necessário que o pianista consiga expressar as diversas emoções e mudanças de humor que já são representadas nos títulos das peças, por exemplo nas Cenas Infantis: Fast zu ernst (quase sério demais), Fürchtenmachen (ameaçador), Kind im Einschlummern (criança caindo no sono), além de uma das melodias mais famosas de Schumann: Träumerei (sonhando).

Maria João Pires “shapes and colours every phrase, and with immaculate taste, and she makes sure the phrases end as eloquently as they begin”, wrote Gramophone in 1974. “She conveys not just the details but the relevance of every note to the whole”.
O primeiro professor de Pires, Campos Coelho, disputou batalhas constantes com ela. Ele aconselhou a mãe a bater nela para amansar seu temperamento, mas em vão – Maria João passou dez anos desafiando-o. Com quinze anos, ela o abandonou. Depois ela continuou seus estudos na Alemanha: não foi, de início, uma experiência tão positiva. Em Munique ela estudou com Rosl Schmid, um virtuoso que demandou demais dela e das suas pequenas mãos que a impediam de tocar boa parte do repertório romântico. Então, Wilhelm Kempff a ouviu tocar. Será que ele se reconheceu nas sonoridades iluminadas, no toque “sem martelos” ao piano e na simplicidade das linhas melódicas que já tinham se tornado suas marcas? O que sabemos é que ele lhe deu acesso a uma dimensão espiritual que alterou sua música. Ela é talvez a única discípula viva de Kempff, um alemão com raízes em uma cultura antiga.
Após Munique, em Hanover, a borboleta finalmente saiu do casulo. Suas frases respiram livremente, com um toque leve, diferente do som muscular dos vistuosos seus contemporâneos. Algo da arte de grandes pianistas do passado – Kempff, Perlemuter, Horszowski, Novaes.
(Do encarte do CD)

Guiomar Novaes, aliás, será a próxima pianista que vou trazer para a apreciação dos senhores neste mês de junho em que celebramos 210 anos do nascimento de Robert Schumann. Nesta mesma bat-hora, neste mesmo bat-canal.

Robert Schumann (1810–1856):
1-13. Kinderszenen, Op.15 (Childhood Scenes – Cenas Infantis)
14-22. Waldszenen, Op.82 (Forest Scenes – Cenas da Floresta)
23-31. Bunte Blätter, Op. 99 (nos. 1-9 & 10) (Colorful Leaves – Folhas Coloridas)

Maria João Pires – piano
Gravado em agosto de 1984 em Chartreuse de Vileneuve-lès-Avignon. Piano Steinway

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Maria João de quarentena em Belgais, Portugal (março de 2020)

Pleyel

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – Sonatas para piano nº 8, 30 e 31, com Maria João Pires #BTHVN250

“Não gostam agora? Gostarão mais tarde. Escrevo para o futuro”. Beethoven, em resposta às críticas às obras de sua última fase.

Maria João Pires, em introdução à live realizada com 10 pianistas da Deusche Grammophon no dia internacional do piano* (28/03/2020):

“Tenho uma pequena mensagem para vocês: acho que devemos encarar essa terrível crise pela qual estamos passando como algo que devemos aceitar de qualquer maneira, e com uma reflexão sobre o que devemos fazer melhor no futuro. Tomar mais cuidado conosco, com o planeta e uns com os outros. Ter mais respeito e compartilhar mais as coisas.
Eu gostaria de interpretar Beethoven hoje, porque acho que há uma forte conexão entre o que está acontecendo conosco e o que temos que aprender com isso. E Beethoven era o homem da luta, da esperança, da luta por justiça, que tinha muita compaixão, era realmente uma alma pura. E acho que a música dele reflete isso, e através dele, podemos aprender muitas coisas importantes para o presente e o futuro.”

Maria João é uma intérprete EXCEPCIONAL das últimas sonatas de Beethoven. Enquanto o disco anterior, com sonatas da fase do meio de Beethoven, é poético e interessante, este aqui é IMPERDÍVEL, por trazer uma concepção única das sonatas opus 109 e 110, compostas quando Beethoven já estava surdo. São sonatas que sempre soarão como música do futuro. A última sonata, opus 111, ela também toca em recitais, mas nunca gravou em LP ou CD, o que mostra o quanto as gravadoras podem ser estúpidas. Pior pras gravadoras! No final desta postagem** estão os links de vídeos da também extraordinária opus 111 de Maria João Pires.

Beethoven (1770-1827) – Sonatas para piano nº 8, 30 e 31

Sonata nº 31, opus 110
I. Molto cantabile, molto espressivo
II. Allegro molto
III. Adagio ma non troppo – Fuga

Sonata nº 8, opus 13, “Patética”
I. Grave – Allegro di molto e con brio
II. Adagio cantabile
III. Rondo

Sonata nº 30, opus 109
I. Vivace ma non troppo
II. Prestissimo
III. Andante molto cantabile ed espressivo

Maria João Pires, piano
Gravado na Igreja Norte-Dame des Roses, Grisy-Suisnes, França, dezembro de 1975

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*Live realizada por cada pianista em sua residência, em meio à pandemia global de 2020. Tradução: Pleyel. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GDQZiLx6CzE

**Sonata nº 32, opus 111, 1º movimento: https://www.youtube.com/watch?v=d0VmVr-6-mA

Sonata nº 32, opus 111, 2º movimento: https://www.youtube.com/watch?v=RPsXRIc0bsw

#BTHVN250, por René Denon

Maria João Pires ficou famosa ao vencer um concurso em Bruxelas em 1970, que celebrava justamente os 200 anos de Beethoven. Como o tempo voa!

Pleyel

 

Ludwig van Beethoven (1770-1827) – Sonatas para piano nº 14, 17 e 23, com Maria João Pires #BTHVN250

Como nos lembra Milton Ribeiro, Beethoven desde cedo tinha uma noção muito curiosa de que não lhe bastava estudar a música de Bach, Händel, Haydn e Mozart: era preciso também conhecer literatura. Com entusiasmo, atirou-se à leitura de Homero, Shakespeare, Goethe e Schiller.

Em carta de 29 de junho de 1800 para um amigo de Bonn, Ludwig escreveu sobre a vontade de rever seus companheiros, sua terra natal e o Reno: “Quando esse dia virá, não posso te dizer com certeza. Mas quero dizer que me encontrarão maior: não falo do artista, mas também do homem, que lhes parecerá melhor; e se o bem-estar não crescer um pouco em nossa pátria, minha arte deverá se dedicar a melhorar a sorte dos mais pobres…”

Maria João Pires tem uma visão de mundo um pouco similar, tão necessária em nossa era de profissionais hiperespecializados que, nas palavras de Millôr Fernandes, sabem cada vez mais sobre cada vez menos, até saberem tudo sobre nada. Maria João, que já passou dos 70 anos de idade, encerrou sua carreira internacional de turnês longas e cansativas. Só toca quando quer, onde quer. O resto do tempo, vive em sua casa em Portugal, bem longe das cidades grandes. Casa essa que é ao mesmo tempo o centro Artistico de Belgais, onde ela ensina alguns jovens em uma verdadeira imersão, onde eles aprendem música mas também aprendem a fazer pão. Pois é, a grande pianista de mãos pequeninas ainda hoje amassa pão na sua casa. Como escreveu o português Julio Resende:

Das suas mãos se trabalham e se enamoram muitos nutrientes, para o corpo e para a alma. Não, esqueçam o que disse agora! Não faz sentido falar aqui da velha distinção corpo-alma, porque a pianista tem demonstrado por todo o mundo que na sua música e nos seus concertos, os dois – alma e corpo – vivem muito bem em união, sem distinção, sem competição, a construir das suas diferenças momentos de comunhão.

Maria João é talvez a única discípula viva do lendário pianista alemão Wilhelm Kempff, outro grande intérprete de Beethoven que, como mostram suas gravações, também parecia transcender a divisão entre corpo e alma, com interpretações que davam novos significados para as frases musicais aparentemente mais banais, sobretudo nas sonatas mais simples e pouco tocadas. Mas vamos deixar a própria Maria João falar, em entrevista que deu na ocasião de sua mais recente vinda ao Brasil, em 2019:

“Kempff não era meu professor, mas eu tocava para ele, eram momentos importantes, foram fundamentais em minha carreira.”
“Beethoven ganhou a importância que teve em minha vida depois da mudança para a Alemanha. E a base do aprendizado foi o conhecimento profundo que Kempff tinha de sua obra. Naqueles encontros, eu comecei de fato a entender, respeitar, saber como decifrar uma partitura do compositor, a sua história”, ela explica.
Em seguida, questionada sobre o que a fascina no compositor, ela faz uma pausa. “É tão difícil colocar em palavras. Beethoven é quem liga a matéria ao espírito. É quem nos mostra que podemos viver uma vida material e, ao mesmo tempo, viver ideais muito fortes. Há nisso uma visão profunda do nosso universo, que não se explica. Mas se sente. É aí que entra o gênio.”

Beethoven (1770-1827) – Sonatas para piano nº 23, 17 e 14

Sonata nº 23, opus 57, “Appassionata”
I. Allegro assai
II. Andante con moto
III. Allegro, ma non troppo

Sonata nº 17, opus 31 no. 2, “Tempestade”
I. Largo – Allegro
II. Adagio
III. Allegretto

Sonata nº 14, opus 27 no. 2, “Ao Luar”
I. Adagio sostenuto
II. Allegretto
III. Presto agitato

Maria João Pires, piano
Gravado na Igreja Norte-Dame des Roses, Grisy-Suisnes, França, dezembro de 1975

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#BTHVN250, por René Denon

Pleyel

J. S. Bach (1685-1750): Capriccio BWV 992, Präludium & Fuge BWV 894, Aria variata BWV 989, Toccaten BWV 910, 911, 912 (Kenneth Gilbert, cravo)

Kenneth Gilbert, morto em abril de 2020, foi um dos cravistas mais importantes do século XX. Provavelmente está entre os intérpretes favoritos de PQP e FDP para a música do pai deles… Então o que explica a ausência de discos dele entre os mais de 600 discos do Pai de Todos já postados por aqui? A maioria dos CDs de Bach por Gilbert foi gravada nos anos 1980 e 90, foram muito ouvidos, apreciados, respeitados… mas (aqui já é divagação minha!) talvez por serem todos tão bem gravados em instrumentos belíssimos, tão bem tocados, sem defeitos mas também sem grandes surpresas, não voltam todo dia à memória.

Além de ter realizado gravações de referência de F. Couperin (obras completas em 10 CDs) e de Bach, ele também foi professor de muita gente famosa, como Scott Ross, que fez sucesso com sua barba cheia e jaquetas de couro, e Jos van Immerseel, pioneiro no uso de pianos de época e também maestro… Talvez a figura não tão midiática e fotogênica de Kenneth Gilbert tenha contribuído para o seu relativo esquecimento.

E a música? As gravações de Gilbert, como vocês já viram com as Suítes de Haendel, são de um bom gosto impecável. Alguns poderão desejar uns ornamentos mais excêntricos, uns andamentos diferentões, pausas dramáticas para reflexão e tal. Não é o caso aqui: é tudo estritamente fiel às partituras. O cravista se apaga para jogar os holofotes sobre o compositor.

No caso do CD de hoje, são obras de juventude de J.S.Bach, provavelmente compostas entre 1703 e 1717, embora seja difícil dizer as datas exatas. Elas mostram o quanto Bach admirava a música italiana feita poucos anos antes, especialmente a de Vivaldi. Uma curiosidade: após a Aria variata alla maniera italiana, Bach ficaria mais de 30 anos sem compor obras para cravo no formato de Tema e Variações. Esse jejum (no qual ele compôs variações para órgão, mas não para o cravo) seria quebrado, é claro, em 1741 com as Variações Goldberg.

Escrito quando seu irmão Johann Jacob Bach deixou a família para se tornar oboísta na corte de Carlos XII da Suécia, o Capriccio sopra la lontananza del suo fratello dilettissimo (Capricho para a partida de seu amado irmão) é o único exemplo de música instrumental programática de J.S. Bach. O título de cada movimento evoca acontecimentos e sensações, de início com os amigos tentando dissuadi-lo da viagem e, no final, com a imitação da corneta que ele tocará na corte do rei. Não só essas descrições poéticas dos movimentos, traduzidas em português logo abaixo, como também o andamento do movimento central, Adagiosissimo (palavra que Bach nunca mais usaria), são muito mais típicos do romantismo de um Schumann do que do mestre supremo da música protestante que Johann Sebastian se tornaria.

Johann Sebastian Bach (1685-1750)
Capriccio BWV 992 · Präludium & Fuge BWV 894 · Aria BWV 989 · Toccaten BWV 910 · 911 · 912
1-2. Prelude and fugue in A minor, BWV 894
3-6. Toccata in G minor, BWV 915
7-10. Toccata in C minor, BWV 911
11-15. Toccata in F sharp minor, BWV 910
16-26. Aria variata alla maniera italiana, in A minor, BWV 989
27-32.Capriccio sopra la lontananza del suo fratello dilettissimo, in B flat major, BWV 992
I. Arioso : Adagio (É uma brincadeira de seus amigos para dissuadi-lo de partir)
II. [sem andamento registrado] (Ilustração de vários perigos que podem lhe acontecer no país estrangeiro)
III. Adagiosissimo (Um lamento de todos os seus amigos)
IV. [sem andamento registrado] (Aqui, os amigos se despedem, vendo que ele não mudará de ideia)
V. Aria di postiglione. Allegro poco, (Ária imitando uma corneta)
VI. Fuga all’imitazione della cornetta di postiglione, (Fuga imitando uma corneta)

Kenneth Gilbert – harpsichord/cravo/clavecin by Jean Couchet (Antwerp, 1671), restored and enlarged by Blanchet (Paris, 1759) and Taskin (Paris, 1778). Two manuals. Pitch: A = 415 Hz.
Recording: Chartres, Musée de Cloître Notre Dame, Salle Italienne, 2/1992.
Cover illustration: detail of the harpsichord

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Kenneth Gilbert (1931-2020): careca, terno bem cortado, um rosto um tanto comum, mas a música não é nada trivial

Pleyel

Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sonatas para piano nº 17, 30, 31, 32 (Richter-Haaser) #BTHVN250

Vimos aqui que com a crise social e econômica ligada à Revolução Francesa, a vida artística de Viena decaiu subitamente. Haydn foi morar em Londres (onde a riqueza era maior, as orquestras eram maiores e ele compôs suas sinfonias mais grandiosas), enquanto Mozart permaneceu em Viena e morreu pobre em 1791, aliás não era só ele: quase todos estavam pobres em Viena.

Pois bem. Em 1792, aparentemente a cena musical vienense melhorou, concluo isso pois Haydn foi chamado de volta. No caminho de Londres para o sul, ele passou por Bonn, onde se deparou com a partitura de uma cantata de Beethoven e convidou aquele  alemão de 21 anos para ser seu aluno em Viena. Outro provável motivo para Ludwig aceitar o convite era familiar: sua mãe morrera de tuberculose em 1787, o pai fora aposentado devido ao alcoolismo em 1789 (não foi um ano fácil pra ninguém!), nada mais o prendia ali. Ludwig, ao que parece, pretendia voltar à região do rio Reno após seus estudos em Viena, mas a vida nem sempre segue nossos planos. O pai morreria um mês após a chegada a Viena, os dois irmãos também se mudariam para a Áustria poucos anos depois…

Em carta de 29 de junho de 1800, Ludwig escreveu: “há momentos em que minha alma cultiva o desejo de estar com meus antigos amigos e ficar com eles algum tempo. Meu país, a bela região onde vi a luz do mundo, ainda é tão bonito e claro para mim como antes de deixá-los, enfim, considerarei como a grande fortuna de minha vida se puder vê-los novamente e cumprimentar nosso pai Reno. Quando esse dia virá, não posso te dizer com certeza. Mas quero dizer que me encontrarão maior: não falo do artista, mas também do homem, que lhes parecerá melhor; e se o bem-estar não crescer um pouco em nossa pátria, minha arte deverá se dedicar a melhorar a sorte dos mais pobres…” Em 1801, quinze meses depois, ele escrevia para o mesmo amigo de Bonn em um tom bem mais severo, de um homem que batalha com a surdez e outras doenças: “Não fosse minha surdez, já teria percorrido a metade do universo; é disso que eu precisava. Não há maior alegria para mim do que exercer e fazer brilhar minha arte em público […] Não creia que eu seria feliz perto de vocês. O que me tornaria mais feliz aí? Esses belos campos de minha pátria, o que eu encontraria lá? Nada além da esperança de melhora deste mal…. Oh! eu abraçaria o universo se me livrasse deste mal!”

Ludwig nunca mais voltaria a ver sua terra natal. Nisso, Beethoven se assemelha a Chopin, que também nunca voltou à sua Polônia após sair em exílio.  São artistas de dois lugares, com um pé aqui, o outro lá longe. Em Chopin, é mais evidente a oposição entre Mazurkas e Polonaises representando a terra natal e Norturnos e Barcarolle com uma sonoridade da Europa ocidental – oposição que ele transcende e une na Polonaise-Fantaisie. Em Beethoven, essas duas faces se combinam de maneira mais sutil.

Após toda essa introdução sobre o compositor alemão-austríaco e as complexidades inseridas na alma do mesmo homem, vamos pular para os músicos que, nesses últimos dois séculos, têm se dedicado à difícil tarefa de trazer à vida a música de Beethoven. Entre os intérpretes, é possível falar em uma linha de interpretação que foca no Beethoven mais alemão, sério, intelectual. E em uma outra escola que foca no Beethoven vienense, com seu desejo de brilhar nos palcos do Império Austro-Húngaro como o fez Mozart, com formas musicais derivadas de danças e às vezes até com humor. Pianistas como Brendel, Gulda, Badura-Skoda (um trio de austríacos), além de Kempff e Argerich tocam um Beethoven mais vienense, . Outros como Gilels, Richter, Arrau e Pollini tocam um Beethoven mais alemão. A Filarmônica de Viena, óbvio, é mais vienense, enquanto a de Berlim (sobretudo no século passado, com Karajan), mais alemã.

Qual interpretação escolher? Na dúvida, melhor ficar com as duas. O Beethoven de Kempff, menos intenso, mais poético, refinado, é maravilhoso em obras como as sonatas “quasi una fantasia” op. 27, assim como Martha Argerich é provavelmente a maior intérprete viva dos dois primeiros Concertos para Piano e Orquestra. Mas nas últimas sonatas, sempre prefiro ouvir os intérpretes com uma visão mais grandiosa, preocupados em juntar os detalhes e frases individuais em uma concepção elevada da obra, uma sucessão de notas formando um todo coerente. Aqueles que fazem menos absurda a comparação entre uma sonata instrumental e o idealismo germânico iluminista de Kant (1724-1804).

O pianista Hans Richter-Haaser (Dresden, 1912 – Braunschweig, 1980) tem uma alta reputação entre os admiradores do “Beethoven alemão”, com seções contrastantes (compare o “piano” e o “forte” do curto movimento central da sonata op. 110) e uma concepção monumental da mensagem do gênio de Bonn que talvez seja resumida pela palavra latina gravitas (seriedade, dignidade, nobreza).

Richter-Haaser (não confundir com o pianista russo de sobrenome alemão) fez uma série de gravações em Londres com Walter Legge, de 1959 a 1966, nos estúdios de Abbey Road, que eram absolutamente state of the art, como atestam os excelentemente produzidos discos dos Beatles, bem como as gravações ali realizadas por outros alemães como o pianista W. Gieseking e o ainda jovem maestro H. von Karajan. A partir dos anos 70, talvez por motivos mais mercadológicos ou políticos* do que estéticos, Richter-Haaser parou de gravar por grandes gravadoras, mas até hoje beethovenianos fanáticos colocam nas listas de melhores gravações da História as 19 sonatas que ele gravou, além dos Concertos e Fantasia Coral com Giulini e Böhm. Em 2019, finalmente, foram reeditadas essas sonatas que os colecionadores ouviam em vinil.

Ludwig van Beethoven (1770-1827): As Três Últimas Sonatas para Piano
Sonata No. 17 em Ré menor, Op. 31 no. 2
Sonata No. 30 em Mi maior, Op. 109
Sonata No. 31 in Lá bemol maior, Op. 110
Sonata No. 32 in Dó menor, Op. 111

Piano: Hans Richter-Haaser (1912-1980)

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#BTHVN250, por René Denon

*Em 1964, houve um boicote de artistas aos estados do sul dos EUA, devido à segregação racial.  Em muitas salas de concerto, negros eram proibidos de entrar. Richter-Haaser furou o boicote, alegando que os músicos deveriam se distanciar dos problemas raciais e políticos. O sobrevivente do holocausto Artur Rubinstein respondeu: “Os músicos também são seres humanos e têm a mesma responsabilidade moral que todo mundo”. Que bola fora, Richter-Haaser! Você provavelmente não valia nada, mas eu gosto do seu piano.

Pleyel

Shostakovich / Kalējs / Escaich / Gubaidulina / Janáček / Ligeti / Garūta: Light & Dark

Para inaugurar o órgão da Elbphilharmonie de Hamburgo (Alemanha), a organista Iveta Apkalna escolheu obras dos últimos cem anos. Não sabemos o motivo, mas a música de concerto contemporânea tem vivido uma certa era de ouro nos três países bálticos –  Letônia, Lituânia e Estônia – terra de Iveta e de outros grandes intérpretes como Gidon Kremer, Paavo Järvi e Andris Nelsons, bem como compositores de destaque como Lepo Sumera (1950-2000), Lūcija Garūta (1902-1977) e Arvo Pärt (1935-).

Algumas das obras escolhidas por Iveta, como as do letão Kalejs e do tcheco Janáček, usam o som do órgão em um contexto religioso. Outras não têm qualquer conotação espiritual, como a obra de Shosta (parte de uma ópera) e os dois estudos de Ligeti, e finalmente, há a obra de Gubaidulina que, apesar de não ter função litúrgica, expressa a espiritualidade da compositora.

A relação de Ligeti com o órgão me lembra um pouco a de Mozart com o clarinete. São um punhado de peças, de duração não tão longa, mas que mostram um compositor no auge de seu talento e com perfeito domínio das potencialidades do instrumento. Daquelas obras que usam todas as teclas ou quase, do grave ao agudo, do pianissimo a sons ensurdecedores, e por isso são incontornáveis para os grandes solistas.

A  compositora russa Sofia Gubaidulina também soube utilizar de forma contrastante os sons mais agudos e os mais graves do rei dos instrumentos. A obra dela, que dá nome ao disco, é cheia de contrastes: claro e escuro, grave e agudo, sutileza e dissonância, profano e sagrado. Como Messiaen, Sofia Gubaidulina não escreveu música litúrgica (por exemplo, uma Missa ou um Réquiem), mas expressa sua religiosidade nos títulos de peças como Rejoice!, Seven Words, In Croce, De Profundis, Et exspecto, Misterio so, etc. Como observou Mike Silverton, essa conexão com a espiritualidade sugere uma resolução convencional que parece estar próxima mas vira a esquina, e assim sucessivamente.

Hoje, podemos comemorar a Páscoa da forma mais religiosa ou da forma mais secular, além de várias possibilidades e sincretismos no meio do caminho. Não era tão fácil assim para Sofia Gubaidulina na URSS, nos anos 1970, quando compôs a obra para órgão tocada por Iveta e também esta outra que já postamos no PQP. O Estado laico é uma conquista que não se deve naturalizar. Espero que este disco traga uma boa Páscoa para os ouvintes-leitores do PQPBach.

  1. Shostakovich: Lady Macbeth of the Mtsensk District, Op. 29: Passacaglia
  2. Aivars Kalējs: Prayer
  3. Escaich: Évocation I
  4. Escaich: Évocation II
  5. Escaich: Évocation III
  6. Gubaidulina: Light and Dark
  7. Janáček: Glagolitic Mass: Varhany sólo (Postludium)
  8. Ligeti: Two Etudes for Organ: I. Harmonies
  9. Ligeti: Two Etudes for Organ: II. Coulée
  10. Garūta: Meditation

Iveta Apkalna – órgão

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A Elbphilharmonie de Hamburgo: cheirando a nova

Pleyel

W. A. Mozart (1756-1791): Piano Concertos No. 12 & 19 (Pires)

W. A. Mozart (1756-1791): Piano Concertos No. 12 & 19 (Pires)

Nosso patriarca P.Q.P. tem estado ranzinza com tantos concertos de Rachmaninoff aqui no blog… Para dar um alento aos leitores/ouvintes que também sofrem de Rachfobia, hoje começo uma série de postgens dedicadas à pequena notável Maria João Pires, famosa por suas pequenas mãos e pela imensa sensibilidade de suas interpretações. Vamos ver se seu toque pianístico suave e poético, a escala reduzida da orquestra de câmara vão curar os ouvidos de P.Q.P. após esses excessos hiperromânticos…

Já tivemos aqui neste blog vários dos CDs de Maria João lançados desde os anos 90 pela Deutsche. Agora vamos nos dedicar à época em que a portuguesa, por volta dos 30 a 40 anos de idade, gravava pelo selo Erato. Esta gravadora francesa, comandada por entusiastas do barroco e do classicismo vienense, se encaixou perfeitamente com a figura de Maria João. Enquanto outras gravadoras (até hoje e cada vez mais!) carregam nos decotes de suas divas, Pires era a própria discrição. Mozart foi a escolha mais óbvia para suas primeiras gravações pela Erato, com um total de 12 concertos lançados em LPs, dos quais vamos ouvir dois hoje: no Concerto nº 19 – também dito “da Coroação”, assim como o nº 26, por terem sido usados em coroações dos imperadores Habsburgos – ela traz sutilezas que não aparecem em interpretações mais majestosas; no Concerto nº 12, temos um Mozart jovial e leve. A cereja do bolo é o Rondo em lá menor, que tem a seriedade e a invenção harmônica da última fase do compositor.

Nos momentos mais calmos dos concertos, alguns pássaros cantam, o que combina com a sonoridade de Maria João. Não estou falando de instrumentos imitando pássaros como o fazem Rameau e Messiaen! São aves mesmo (ouçam ao 1m40s, 3m07s da faixa 2) nos arredores do estúdio de gravação em Lausanne, pacata cidade situada no mesmo lago onde fica Genebra.

Em seguida na carreira de Maria João, viriam as gravações de Beethoven, Chopin, Schumann, com um romantismo elegante, intimista, bem diferente de pianistas eminentemente românticos como Argerich ou Horowitz (gentilmente apelidado por P.Q.P.: Horrorosowitz). São cenas dos próximos capítulos!

Do encarte do CD:

Quando Maria João Pires alcançou fama internacional em 1970, após vencer o concurso comemorativo dos 200 anos de Beethoven, ela pegou muitos melômanos de surpresa. O ciclone Argerich tinha acabado de passar, com sua técnica impressionante e dramáticas releituras do repertório, de Chopin a Prokofiev. Foi uma grande surpresa, então, aquela volta a uma arte que parecia vir e uma outra era – uma pianista simples, clara e sobretudo profundamente musical, parecendo desprezar qualquer demonstração de virtuosismo. Naquele ponto, os programas de Pires traziam Bach, Beethoven, Schubert e, especialmente, Mozart. Chopin viria depois.

Essa mulher baixa, de mãos pequenas e opiniões fortes, trazia à mente pianistas de tempos idos, particularmente, em termos de clareza sonora, figuras como Clara Haskil e Lili Kraus – duas outras grandes intérpretes de Mozart.

Wolfgang Amadeus Mozart
Piano Concerto No.19 in F major, K459
I. Allegro
II. Allegretto
III. Allegro assai

Piano Concerto No.12 in A major, K414
I. Allegro
II. Andante
III. Rondeau: Allegretto

Rondo in A minor, K511

Maria João Pires, piano
Orchestre de Chambre de Lausanne, Armin Jordan
Recording location: Radio Lausanne, December 1976 (Concertos), Teatro São Carlos, Lisboa, July 1973 (Rondo)

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O lado de trás do LP: retrato dos artistas quando jovens

Pleyel

Sofia Gubaidulina (1931-): “Stimmen… Verstummen…” — Sinfonia em 12 movimentos

Não há mais um corrimão de histórias que contam aonde todos estão indo e por quê. O progresso é uma marcha para a frente, arrastando outros tempos e ritmos junto consigo. Sem o progresso, podemos notar outros ritmos temporais. Cada ser vivo altera o mundo com pulsos sazonais de crescimento e morte. Essas formas de vida criam mundos também, e nos ensinam a olhar ao redor ao invés de para a frente. (Anna Tsing, 1952-)

Hoje encerramos a série de sinfonias do século XX, que começou com Scriabin, passou pela Polônia, Inglaterra, França, deu um pulo na América Latina e retorna em grande estilo à Rússia, talvez a terra onde a forma sinfônica frutificou com mais abundância no século passado.

A obra de Gubaidulina merece o nome de sinfonia no sentido de se tratar de uma obra longa, sem solistas, para uma grande orquestra que inclui quatro percussionistas, celesta e órgão. Mas não guarda qualquer relação com a forma sinfonia no seu sentido mais tradicional, imortalizado por Beethoven, em que o desenvolvimento de uns poucos temas espelhava musicalmente a noção de progresso que, convenhamos, é tão típica do século XIX, já parecia fora de lugar no XX e combina com o XXI assim como um elefante com uma loja de cristais.

Gubaidulina disse em uma entrevista que Webern, ao lado de Bach, foi a influência mais crucial em sua formação. Embora sua música não se pareça com Webern, quem conhece Webern entende melhor o que ela está fazendo. As noções tradicionais europeias de progressão e desenvolvimento são irrelevantes para a música desses dois compositores, como é evidente no concerto para violino ‘Offertorium’, de 1980, um dos trabalhos com os quais Gubaidulina estabeleceu sua reputação. Ela sempre insistiu que, apesar de sua obsessão por experiências sonoras, as técnicas são, em última análise, evidências de estados mentais ao mesmo tempo humanos e divinos. Ela não tem medo de palavras como ‘espírito’ e ‘misticismo’, afirmando que a busca de novidade em si é coisa para os jornais, enquanto a arte é por sua natureza ‘interessada em todas as outras coisas’.

A Sinfonia Stimmen… Verstummen (1986) não desenvolve sinfonicamente um argumento musical ou retórico, mas apresenta em doze seções de duração variável uma sucessão de momentos que existem independentemente do tempo. As seções ímpares vão retornando à perfeição tonal da tríade em ré maior, enquanto as seções pares se tornam gradualmente mais longas e complexas, explorando em profundidade vários tipos de recursos sonoros – cânones lineares unidos organizados com exatidão matemática, glissandos abraçando uma multiplicidade de tons, harmônicos naturais, clusters… No final, a tríade de ré maior ressoa em seu brilho imaculado.

Como escreveu Mike Silverton, a música de Gubaidulina se move através de momentos que se seguem, mas nunca através de um enredo que, para chegar a uma conclusão, deve reunir suas partes e resolver seus aspectos. Na 1a e na 2a audição, dá vontade de dizer “Adorável. O que aconteceu mesmo?”

O CD termina com Stufen, outra obra para grande orquestra, desta vez com alguns versos recitados pelo maestro Gennady Rozhdestvensky, que rege com excelência a orquestra sueca. Se Svetlanov era considerado o grande intérprete soviético de Scriabin, se Mravinsky era o mensageiro de Shostakovich, Rozhdestvensky foi o fiel escudeiro dos vanguardistas Gubaidulina e Schnittke. A sinfonia Stimmen… Verstummen foi dedicada a Rozhdestvensky. Por favor não me perguntem como se pronuncia o nome do maestro, mas Gubaidulina, pelo que ouvi em alguns vídeos, se fala com acento no U, mais ou menos como a palavra única.

Sofia Asgatovna Gubaidulina (b. 1931)
Stimmen… Verstummen – Symphony in twelve movements

For Gennady Rozhdestvensky
1 I 1:38
2 II 2:06
3 III 0:56
4 IV 2:01
5 V 0:39
6 VI 4:25
7 VII 0:30
8 VIII 11:07
9 IX 0:56
10 X 1:39
11 XI 1:53
12 XII 6:11
13 Stufen 18:02
Royal Stockholm Philharmonic Orchestra – Gennady Rozhdestvensky
Premiere recordings

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Pleyel

.: interlúdio :. Paul Horn – Inside the Taj Mahal (1968)

Em tempos de quarentena, muitos de nossos amigos têm se dedicado a atividades como meditação, yoga, ta-chi-chuan. Outros aumentam o consumo de ervas ou cogumelos, buscando nos paraísos artificiais a fuga da ansiedade com os difíceis tempos por vir. Em todos esses casos, o isolamento social traz a possibilidade de momentos de pausa absolutamente importantes para a saúde física e mental.

Este é um disco IM-PER-DÍ-VEL para ouvir durante a meditação e outros momentos similares. Gravado em 1968 sob a grande cúpula do Taj Mahal, o disco tem apenas três instrumentos: a flauta de Paul Horn (1930-2014), a voz de um homem não identificado (guarda do Taj Mahal que canta a capella sem ensaios, ou pelo menos essa é a história oficial), e finalmente o próprio Taj Mahal, com seus ecos de até 28 segundos, produzindo incontáveis sobreposições e harmônicos.

Para o ouvinte que fala português ou espanhol, o álbum tem um interesse a mais: na faixa 8 (Jumma), o guarda não identificado canta uma melodia com origem no norte da África (marroquina, bérbere ou algo do tipo), com uma grande semelhança com as línguas ibéricas. Versos, por exemplo, como “po[r] ca[usa] de ti”, nos lembram o quanto as civilizações dos dois lados do estreito de Gibraltar estão próximas geográfica e culturalmente, apesar da separação fruto de guerras e religiões.

Paul Horn tinha participado das bandas de Duke Ellington e Nat King Cole, mas foi no Taj Mahal que ele encontrou sua voz mais original, com a flauta improvisando notas longas e cuidadosas. Este disco foi uma grande influência para a música new age que seria produzida anos depois e acabaria virando trilha sonora de elevador. Após mais de um milhão de cópias vendidas, é claro que Paul Horn ia tentar repetir a fórmula… Gravou álbuns dentro da Grande Pirâmide de Gizé, da Catedral de Vilnius e por aí vai…

Paul Horn – Inside (a.k.a. Inside the Taj Mahal)

1. Prologue/Inside
2. Mantra I/Meditation
3. Mumtaz Mahal
4. Unity
5. Agra
6. Vibrations
7. Akasha
8. Jumna
9. Shah Jahan
10. Mantra II/Duality
11. Ustad Isa/Mantra III

Paul Horn – flute
Unidentified tomb guard – chanting

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Trata-se de um disco belo, estranho e totalmente único ao mesmo tempo, como escreveu o crítico do The Guardian que o incluiu na lista de 101 discos mais estranhos disponíveis no Spotify (boa recomendação para aqueles com tempo livre e mentes muito abertas).

Pleyel

Ludwig van Beethoven – Sonatas para Pianoforte e Violoncelo (Wispelwey, Komen)

As cinco sonatas para piano e violoncelo compostas por Beethoven têm uma vantagem em relação às sonatas para violino e aos concertos: abrangem as três fases de sua produção musical. Ou seja, em apenas dois CDs, pode-se ouvir um panorama da evolução musical do compositor, de forma mais resumida do que ao ouvirmos as 32 sonatas para piano solo. Como escreveu o pianista Paul Komen, são como peças de um quebra-cabeças que se combinam para formar um retrato de Beethoven em todos os aspectos de sua vida musical.

A primeira fase das obras com opus segue modelos típicos de Haydn e Mozart, mas já com algumas características próprias. As duas sonatas do opus 5 (1796) seguem o mesmo esquema: primeiro movimento lento, como uma preparação para o que está por vir; segundo movimento rápido com um tema marcante; terceiro movimento em rondó, forma caracterizada por uma seção principal (A) que se repete como um refrão, alternando com uma ou mais seções secundárias (B, C, D, etc.)

A segunda fase tem como marco inicial a 3ª Sinfonia, “Heróica (1804), é o Beethoven mais grandioso, da ópera Fidelio (1805) e da 5ª Sinfonia (1808). Esta fase, associada à época das revoluções e guerras napoleônicas, vai mais ou menos até o opus 93 (8ª sinfonia) ou o opus 97 (Trio Arquiduque) ou um pouco depois, não há consenso. A Sonata para piano e violoncelo op. 69 (1807), com seus arroubos de sentimentos à flor da pele desde o primeiro movimento, representa perfeitamente essa face de Beethoven, e é hoje talvez a mais famosa deste ciclo de cinco sonatas. Assim como nas sinfonias mais famosas do compositor, a obra não tem aquela introdução lenta típica do classicismo vienense: o violoncelo já chega chutando a porta com um tema bastante sentimental (Allegro ma non tanto – uma boa descrição do caráter de toda a sonata).

E finalmente a última fase, de cerca de 1811 até sua morte em 1827, quando o compositor compôs poucas obras por ano, mas cada vez mais complexas, menos destinadas a agradar ao público da época e mais voltadas para o futuro (já surdo, ele provavelmente ligava pouco para os aplausos). Nesta última fase, em quase todas as obras aparece alguma fuga, forma musical típica dos tempos de J.S.Bach. Assim, Beethoven olha para o futuro ao mesmo tempo em que intensifica o estudo dos mestres do passado.

Na segunda metade do século XX, uma série de músicos também buscou estudar profundamente a música do passado a partir dos documentos de época: tratados, cartas, artigos, além, é claro, dos próprios instrumentos e das pistas que eles deixavam sobre a música de tempos idos.

Alexei Lubimov (nascido em Moscou, 1944), um dos pioneiros no uso de pianos de época, escreveu: “cada instrumento pode nos dar pistas sobre o que o compositor estava pensando e ouvindo enquanto trabalhava. Para mim, tocar música antiga em um piano moderno é uma transcrição, não a peça original.”.

O pianoforte Broadwood de 1823, usado nesta gravação, é do mesmo modelo daquele que foi enviado por John Broadwood para Beethoven em 1818 como um presente e homenagem de Clementi e outros amantes da música de Beethoven residentes na Inglaterra, um gesto que o compositor apreciou como uma grande honra. Este instrumento inglês faz uma excelente harmonia com o violoncelo de 1710, também de origem inglesa, produzindo sons que vão do mais frágil pianíssimo até explosões heroicas que levam esses instrumentos ao limite. O som do pianoforte, que dura menos tempo após o dedo sair da tecla (em comparação com pianos modernos), permite que as passagens mais rápidas soem com uma clareza admirável. Por outro lado, na fuga da quinta sonata (de 1815), a clareza contrapontística dos dois russos carecas é imbatível, mesmo 50 anos depois daquela antológica gravação. Na dúvida, fique com os dois: instrumentos modernos e antigos!

O pianoforte inglês Broadwood

Ludwig van Beethoven – Sonatas para Pianoforte e Violoncelo

Sonata Op.5 nº1 em Fá Maior

1-1         Adagio Sostenuto
1-2         Allegro
1-3         Rondo (Allegro Vivace)

Sonata Op.5 nº2 em Sol Menor

1-4         Adagio Sostenuto e Espressivo
1-5         Allegro Molto Più Tosto Presto
1-6         Rondo (Allegro)

Sonate Op.69 em Lá Maior

2-1         Allegro Ma Non Tanto
2-2         Scherzo (Allegro Molto)
2-3         Adagio Cantabile
2-4         Allegro Vivace

Sonate Op.102 nº1 em Dó Maior

2-5         Andante
2-6         Allegro Vivace
2-7         Adagio
2-8         Allegro Vivace

Sonate Op.102 nº2 em Ré Maior

2-9        Allegro Con Brio
2-10       Adagio Con Molto Sentimento d’Affetto
2-11       Allegro Fugato

Pieter Wispelwey – cello (Barak Norman, 1710)
Paul Komen – pianoforte (Broadwood, 1823)
Gravado na Igreja Protestante de Renswoude, Países Baixos, em Junho de 1991

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#BTHVN250, por René Denon

Pleyel

William Alwyn (1905-1985): Sinfonias nº 2 e nº 5, Concerto para Harpa

Esta é a era das novas invenções
Para matar corpos, e salvar almas,
Todas propagadas com as melhores intenções;
A lanterna de Sir Humphry Davy, com a qual
O carvão é extraído em segurança,
Viagens à África, expedições aos Polos,
São benefícios à humanidade, tão verdadeiros,
Talvez, como atirar nela em Waterloo.
(Lord Byron, Don Juan, 1819)

Lord Byron teve a genialidade de transformar o personagem do Don Juan, originalmente o grande conquistador triunfante, em um anti-herói libertino e perseguido pelo moralismo da Inglaterra capitalista. Ao contrário dos heróis guerreiros dos épicos gregos, o Don Juan de Byron, escravo dos seus sentimentos, vai sendo expulso por onde passa, cheio de paixões proibidas e de ilusões perdidas como as do Lucien de Rubempré de Balzac. Don Juan vai da Espanha à Turquia e à Inglaterra, mas não é o longo retorno de um vencedor como o Ulisses grego, é a sina de um libertino expulso a pedras como a Geni de Chico Buarque.

Em nossa saga, temos acompanhado a sinfonia, também apedrejada pelas vanguardas do século XX. Como diz Alex Ross em O resto é ruído: Wagner, Strauss e Mahler compensavam as sonoridades inovadoras com o uso intenso de acordes comuns; Scriabin manteve um sentido de centralidade tonal mesmo nas passagens de harmonia mais ousada. Schoenberg foi quem insistiu que era impossível retroceder. Com efeito, ele passou a dizer que a tonalidade estava morta – ou, como diria Webern mais tarde, “quebramos o pescoço dela”.

Essa citação de Schoenberg e Webern mostra, no meu entender, tudo que há de mais grotesco no século chamado de era dos extremos por Hobsbawn. Nunca antes desse século as ideologias e tecnologias permitiram que psicopatas sonhassem em acabar com uma raça ou cortar o pescoço da música tonal com sua tradição de séculos.

Nossa heroína, a sinfonia, precisou portanto correr como tantos outros exilados do século XX. Em dois lugares ela foi muito bem recebida, criou raízes e frutificou em abundância. Um deles, como vimos, foi a Rússia, com gênios de fama internacional. O outro foi a ilha que também recebeu o herói de Byron. Mas lá, a sinfonia evoluiu para se tornar uma subespécie raramente compreendida pelo mundo, mais ou menos como o sarcasmo inglês. Como o disco dos Arctic Monkeys de 2011, censurado em muitas lojas americanas por se chamar Suck it and see, expressão sem qualquer conotação sexual. O mundo pode até rir dos ingleses, mas eles riem do mundo e quem ri por último…

As sinfonias de William Alwyn, como as de Elgar, Vaughan Williams e Maxwell Davies, são raramente ouvidas no resto do mundo. Alwyn compôs cinco sinfonias, nas suas palavras são 4+1. As quatro primeiras formam um ciclo em que cada sinfonia, como um todo, tem o caráter de um movimento de sinfonia clássica à maneira de Haydn. A 1ª é como um Allegro, a 2ª tem o temperamento de um adagio, a 3ª o de um scherzo e a 4ª finaliza. A 5ª, composta décadas depois, homenageia o escritor Sir Thomas Browne (1605-1682) e sua elegia sobre a morte “Hydriotaphia: Urn Burial, or a Discourse of the Sepulchral Urns lately found in Norfolk”.

Gosto muito da segunda sinfonia de Alwyn. Os dois movimentos começam com um certo vigor e vão aos poucos se tornando mais tranquilos, culminando em um final (para cada movimento) calmo e pianissimo, com os instrumentos se retirando um a um e o som desaparecendo em um efeito de paz e plenitude similar ao dos finais dos adagios da Nona de Mahler e da Leningrado de Shosta.

Já ia me esquecendo: Alwyn, que compôs música para dezenas de filmes, faz música tonal sem vergonha nem medo de ser feliz. Os pretensiosos Schoenberg e Webern, que acreditavam ter assassinado a música tonal, quebraram a cara.

William Alwyn (1905-1985): Sinfonias nº 2 e nº 5, Concerto para Harpa “Lyra Angelica”

  1. Symphony No. 5, “Hydriotaphia”
  2. Harp Concerto, “Lyra Angelica”: I. Adagio
  3. Harp Concerto, “Lyra Angelica”: II. Adagio, ma non troppo
  4. Harp Concerto, “Lyra Angelica”: III. Moderato
  5. Harp Concerto, “Lyra Angelica”: IV. Allegro giubiloso – Andante con moto
  6. Symphony No. 2: I. Con moto – Molto moderato – Quasi Adagio molto calmato
  7. Symphony No. 2: II. Allegro molto – Moderato largamente – Molto

Royal Liverpool Philharmonic Orchestra

David Lloyd-Jones, Conductor

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Seja bem vindo ao PQP, William Alwyn!

Pleyel

R. Gnattali (1906-1988) : Sinfonia Popular / Guerra-Peixe (1914-1993): Ponteado / C. Gomes (1836-1896) : Abertura da ópera “Fosca” / E. Krieger (1928): Abertura Brasileira

Em nosso passeio pelas grandes sinfonias do Século XX, já estivemos na Rússia, Polônia, Inglaterra, França e México. Hoje, vamos finalmente para o hemisfério sul. Nascido em Porto Alegre, filho de imigrantes italianos, Radamés Gnattali foi batizado em homenagem a um personagem de Verdi. Criou, no Rio de Janeiro, a Orquestra Brasileira, atuou na Rádio Nacional e na Globo, trabalhando como maestro, arranjador, além de fazer turnês pelo Brasil interpretando Villa-Lobos, Ernesto Nazareth e composições próprias, que eram sempre fortemente influenciadas pela música popular brasileira. Gravou LPs como “Vivaldi e Pixinguinha” (1983) com a Camerata Carioca. Fez música para o mundo, sem jamais esquecer suas raízes.

Trechos do encarte, pelo maestro Norton Morozowicz:

A nossa discografia, muito pequena, não é representativa do imenso acervo que indiscutivelmente reflete a qualidade de nossos autores.

Gnattali – Sua Sinfonia Popular, tão esquecida e pouco tocada, escrita em 1955/56 e dedicada a Léo Peracchi, constitui-se, através de seus quatro primorosos movimentos, em uma das mais belas páginas sinfônicas do repertório nacional.
Guerra Peixe – outro batalhador pela música brasileira, pesquisador e folclorista, embrenhou-se pelo sertão nordestino garimpando temas e canções, escrevendo importantes trabalhos entre eles os Maracatus de Recife e o seu Ponteado, escrito em 1955, síntese de brasilidade – encontrada no folclore e no popular – transposta para a música sinfônica.
Edino Krieger é um dos mais importantes compositores brasileiros vivos. Sua Abertura Brasileira, composta em Londres, é a primeira obra sinfônica da fase nacionalista do compositor que homenageia Luiz Gonzaga citando o tema do xote “Ela só quer, só pensa em namorar…”.

A Abertura da ópera Fosca, de Carlos Gomes, exemplo marcante do taento melódico e do domínio instrumental/orquestral característicos da produção deste brasileiro.

 

Radamés Gnattali
Sinfonia Popular
1. Allegro moderato
2. Expressivo com fantasia
3. Com espírito (Baião)
4. Allegro

César Guerra-Peixe
5. Ponteado

Carlos Gomes
6. Abertura da ópera “Fosca”

Edino Krieger
7. Abertura Brasileira

Orquestra Sinfônica da Universidade de Londrina
Norton Morozowicz, regente
Gravação ao vivo no Cine Teatro Ouro Verde, Londrina/PR, 2000

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Maestro Radamés

Pleyel

Henri Dutilleux (1916-2013): Sinfonias nº 1 e 2, Métaboles, Le temps l’horloge, etc

No longo livro de Alex Ross “O Resto É Ruído – Escutando o Século XX”, o francês Henri Dutilleux é citado apenas uma vez, no final de um dos vários parágrafos sobre Boulez:

“Nessa época, Boulez não era mais messiaenista. … Boulez foi ter aulas com René Leibowitz … Boulez trouxe … Boulez teve … Boulez viu … Boulez também mostrou animosidade contra colegas compositores que se recusaram a segui-lo no caminho da modernidade. Quando, em 1951, Henri Dutilleux apresentou sua vibrante e diatônica Primeira Sinfonia, Boulez o saudou dando-lhe as costas.”

Dutilleux não precisa ficar ofendido. Outros famosos sinfonistas recebem apenas citações en passant: três menções a Vaughan Williams, uma a Roussel, nenhuma a Rachmaninoff. Reger é citado 3 vezes: em uma delas, fala-se um pouco de sua música, em um parágrafo dedicado a Schoenberg. Nas outras duas, o alemão Max Reger é apenas listado como – vejam que surpresa! – admirado por nazistas.

O que o livro de Alex Ross faz é repetir o grande mito fundador do modernismo musical do século XX, especialmente da música francesa e de inspiração francesa: a sinfonia como relíquia de um passado longínquo, tudo a ver com o romantismo de um Schubert ou de um Bruckner, nada a ver com a modernidade. Fauré, Debussy, Ravel preferiram fazer música orquestral em formas menos associadas ao romantismo, como o poema sinfônico, a valsa, a pavana ou o bolero. Messiaen e Boulez consideravam que a sinfonia em 4 movimentos e o concerto em 3 movimentos já tinham sido explorados até o limite por seus antecessores e buscaram formas novas, como a Turangalîla-Symphonie em 10 movimentos. Era a ideologia do progresso que, como define a antropóloga Anna Tsing, servia como um corrimão de histórias que contava aonde todos estavam indo e por quê. Para vocês verem como essa grande marcha para frente, sem possibilidade de marcha a ré, era contagiosa: Villa-Lobos tinha escrito 5 sinfonias antes de ir a Paris pela primeira vez em 1923. Uma vez tendo respirado o ar parisiense, Villa se dedicou fortemente aos Choros, depois às Bachianas, e a 6ª sinfonia surgiu apenas em 1944!

As sinfonias de Dutilleux aparecem, portanto, como dois pontos fora da curva na modernidade francesa. Compostas em 1951 e 1959, elas mostram um outro tipo de compositor: aquele que pretendia usar formas antiquíssimas, como a Passacaglia, mas com uma linguagem harmônica nova e inventiva, apesar de não ser 100% atonal. Na 2ª Sinfonia, uma orquestra de câmara dialoga com uma orquestra sinfônica, como em um concerto grosso barroco. “Duas personagens em uma só, uma como o reflexo da outra”, explica Dutilleux.

A outra obra que aparece aqui, Métaboles, é frequentemente ouvida nas salas de concerto, ao contrário das sinfonias. Fez parte do repertório de grandes maestros como Celibidache, Szell e Rattle. Assim como o Concerto para Orquestra de Lutoslawski faz um par com a primeira sinfonia do polonês, Métaboles, composta entre 1963-64, também é quase um concerto para os diferentes naipes orquestrais e faz um belíssimo trio com as sinfonias do francês.

Nas últimas décadas da sua vida, não sabemos se de forma deliberada ou por acaso, Dutilleux não compôs mais sinfonias e se dedicou a escrever principalmente obras orquestrais com instrumento solista, peças que entraram para o repertório das orquestras pelo mundo: para violino e orquestra, Tout un monde lointain… (1970) e Sur le même accord (2002), para violoncelo e orquestra, L’arbre des songes (1985).

Essa faceta do compositor é representada aqui por Les Citations (1985-1990), obra para uma peculiar formação: oboé, cravo, contrabaixo e percussão. O oboé parece reinar como solista, até o momento em que os outros instrumentos vão dando uns passinhos à frente e fazem suas intervenções.

Le temps l’horloge, completado em 2009 pelo compositor já nonagenário, traz uma soprano para solar com as orquestrações sempre muito originais de Dutilleux, dessa vez com destaque para o acordeão. Renée Fleming canta textos de três poetas sobre a passagem do tempo. O mais célebre, claro, é Enivrez-vous, de Baudelaire:

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
(Baudelaire, trad. Jorge Pontual)

Henri Dutilleux (1916-2013) : Sinfonias, Métaboles, Le temps l’horloge, etc

  1. Symphonie n°1 (1951) – I. Passacaglia, II. Scherzo molto vivace, III. Intermezzo, IV. Finale con variazioni (33:26)
  2. Les Citations (1990) (14:17)
  3. Métaboles (1964) (16:57)
  4. Préludes pour piano – I. D’ombre et de silence, II. Sur un même accord, III. Le jeu des contraires (1988) (13:43)
  5. Symphonie n°2 (Le Double) – I. Animato, ma misterioso, II. Andantino sostenuto, III. Allegro fuocoso — Calmato (1959) (31:53)
  6. Sur le même accord (2001) (8:38)
  7. Le temps l’horloge – I: Le temps l’horloge, II: Le masque, III. Le dernier poème, IV. Interlude, V. Enivrez-vous (2009) (14:00)

Orchestre National de France, Daniele Gatti, Paris, 1 oct 2015 (1)
Orchestre Philharmonique de Radio France, Kwamé Ryan, Paris, 21 jan 2016, Maroussia Gentet (piano) (2-5)
Orchestre National de France, Kurt Masur, Paris, 14 nov 2003, Anne-Sophie Mutter (violin) (6)
Orchestre National de France, Seiji Ozawa, Paris, 23 apr 2009, Renée Fleming (soprano) (7)

FLAC: BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Parte 1   e  BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Parte 2

MP3: BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Parte 1   e  BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Parte 2

Obs: esta é uma compilação de gravações ao vivo de rádio, que você só encontra aqui no PQP Bach. Se possível, baixe em Flac, evitando a perda de qualidade dos arquivos.

O maestro canadense Kwamé Ryan

Pleyel

Honegger (1892-1955): Sinfonias nº 2 e No. 3 “Liturgique” / Stravinsky: Concerto para orquestra de cordas

A sinfonia, após Beethoven, se tornou uma forma épica, apropriada para grandes obras afirmativas de sentimentos românticos, espirituais ou trágicos. Não é à toa que, no período imediatamente antes, durante e após a longa 2ª Guerra Mundial, abundam sinfonias de peso: do lado comunista do mundo, as de Shostakovich, Prokofiev e Lutoslaswki; do lado ocidental, a Sinfonia Litúrgica de Honegger, composta entre 1945 e 46, é a mais célebre por expressar a tragédia daquele período, com uma pontinha de esperança quand même.

O próprio Honegger escreveu um extenso programa para a sinfonia, deixando explícita a conexão da música com os horrores da guerra e o desejo de paz. “Eu quis simbolizar a reação do homem moderno contra a maré da barbárie, da estupidez, do sofrimento…”, escreveu o compositor. Como sabemos, o homem que não conhece a história está condenado a repeti-la.

Herbert von Karajan, que regia muito pouca música do século XX, colocou esta sinfonia no seu repertório habitual e foi um dos maiores intérpretes dela, assim como da 2ª sinfonia, para cordas e trompete, escrita durante a guerra. Como escreveram dois comentaristas da Amazon:

It’s never really been out of fashion amongst some to denigrate von Karajan for being smooth and suave when he should be rough and ready, etc. etc. In any event, when he was personally sold on a piece, and championed it in the concert hall, there were few rivals. The Honegger 3rd (and 2nd, really) was one such piece. And yes, Karajan’s magician’s way of getting the Berlin Philharmonic into, and becoming, the piece is certainly in evidence here.

To call the strings impeccable in Symphony 2, (composed 1941), is an understatement, this is the Berlin Philharmonic we’re talking about, under Karajan they were by far the finest strings in the world. Hell, they were the best orchestra in the world, period.
Symphony 3, “Liturgique”, (composed 1945-46), receives a one of a kind, supreme reading as well. It is nigh-definitive, the dies irae passionate, the adagio suitably expansive and moving, the final dona nobis pacem stunning in its virtuosity. Just like the second symphony this music was inspired by World War II and there’s plenty of tragic emotion in the work.

Honegger: Symphony No.2 For Trumpet And Strings (1941)
1. I: Molto moderato – allegro
2. II: Adagio mesto
3. III: Vivace, non troppo
Honegger: Symphony No.3, “Liturgique” (1946)
4. I: “Dies Irae” – Allegro marcato
5. II: “De Profundis Clamavi” – Adagio
6. III: “Dona Nobis Pacem” – Andante
Stravinsky: Concerto In D For String Orchestra, “Basler” (1946)
7. I: Vivace
8. II: Arioso. Andantino
9. III: Rondo. Allegro
Berliner Philharmoniker, Herbert von Karajan

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Karajan – amado e odiado por milhões. Em sua defesa, cabe lembrar que ele jamais plagiou discursos de Goebbels

Pleyel

.: interlúdio :. Maria Bethânia canta Noel Rosa (1966)

Maria Bethânia canta com a liberdade dos pássaros para fora e para cima, mas sem perda dessa intimidade fundamental à comunicação. – Vinícius de Moraes, no encarte do compacto duplo

Os seis sambas de Noel deste compacto duplo gravado em 1965 parecem ter sido escolhidos para uma quarta-feira de cinzas. É o Noel do pierrot apaixonado que acaba chorando… da mentira descoberta… do último desejo depois da separação…

Nem sombra aqui da Bethânia intérprete de sambas alegres de Chico Buarque e Dona Ivone Lara. Pois é… a jovem Bethânia sabia que todo carnaval tem seu fim.

Maria Bethânia – Maria Bethânia Canta Noel Rosa (1966)
01. Três Apitos (Noel Rosa) (2:52)
02. Pra Que Mentir? (Noel Rosa – Vadico) (3:11)
03. Pierrot Apaixonado (Heitor dos Prazeres – Noel Rosa) (2:29)
04. Meu Barracão (Noel Rosa) (2:57)
05. Último Desejo (Noel Rosa) (2:58)
06. Silêncio de um Minuto (Noel Rosa) (2:54)

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Pleyel

Carlos Chávez (1899-1978): Sinfonias nº 1, 2 e 3

Seguimos nesta empreitada com as sinfonias do Século XX, agora no país dos Astecas…

Muito tempo atrás, na escola, minha professora explicava por que motivo Jorge Amado era o escritor mais traduzido e publicado no exterior: ele escrevia sobre aquele Brasil com carnaval, mulatas e sexualidade à flor da pele, que povoa o imaginário estrangeiro. Com o compositor mexicano Carlos Chávez, é parecido: sua Sinfonía india é muito mais popular do que as outras, muito por causa do exotismo da orquestração, cheia de percussões curiosas e temas tribais. Suas outras sinfonias são mais ligadas à tradição europeia: a 1ª, Antígona, foi composta inicialmente para acompanhar uma montagem da tragédia grega. A terceira alterna entre o clima sombrio da 1ª e as melodias pastorais da 2ª (índia), com destaque para as madeiras, que comparecem em peso: piccolo, duas flautas, dois oboés, corne inglês, três clarinetes, clarinete baixo e três fagotes.

Ou seja, imitando Tolstoi: Carlos Chávez e Jorge Amado são melhores e mais universais quando falam das suas tribos.

Carlos Chávez – Sinfonias nº 1, 2 e 3

1 Sinfonía india (1936)
2 Sinfonía de Antígona (1933)
3 Sinfonía n. 3 – Introduzione: Andante Moderato (1951)
4 Sinfonía n. 3 – Allegro (1951)
5 Sinfonía n. 3 – Scherzo (1951)
6 Sinfonía n. 3 – Molto Lento (1951)

London Symphony Orchestra – Eduardo Mata – 1983

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Carlos Chávez com a dançarina Rosa Covarrubias e a pintora Frida Kahlo

Pleyel

Ralph Vaughan Williams (1872-1958) – Sinfonia Pastoral, Norfolk Rhapsodies

“Let us turn away and contemplate the past before all is lost to the vandals.” — W.G. Hoskins, The Making of the English Landscape

Na obra de Vaughan Williams, a forma sinfônica tem seus melhores momentos quando expressa as paisagens inglesas com suas canções populares, bem distantes do tom épico das sinfonias alemãs e austríacas.

Esse aspecto pastoral da obra de Vaughan Williams é típico da Inglaterra daquela época. Por exemplo W.G. Hoskins (1908-1992), que estudou a paisagem associada à nostalgia e à melancolia, vê a revolução industrial com horror. “Nenhum escrúpulo enfraqueceu sua ânsia por dinheiro; eles ganharam dinheiro e deixaram sua sujeira.”

O também inglês John Ruskin (1819-1900), meio século antes, já chamava atenção para a beleza das ruínas milenares, dos “muros lavados pelas várias ondas da humanidade”. Para Ruskin, as ervas e trepadeiras que crescem em qualquer área de ruína “têm uma beleza em todos os aspectos quase igual e, em alguns, incomensuravelmente superior à da escultura mais elaborada de suas pedras.”

A Sinfonia Pastoral de Vaughan Williams é, para muitos, a sua obra-prima no gênero. Ao contrário do que o nome indicaria, ela é uma sinfonia de guerra, como tantas outras do século XX. Escrita logo após a 1ª Guerra Mundial, na qual o compositor participou de batalhas nos campos franceses, ela tem a beleza das ruínas, de um mundo destruído por bombas e explorado por elites belicistas. Tem a simplicidade das plantas que crescem sobre pedras abandonadas.

Para nós, brasileiros, que não vivenciamos guerras há tantas décadas, um paralelo com o que se sentia no dia-a-dia das Grandes Guerras foi o incêndio do Museu Nacional. Assim como na 1ª Guerra as trincheiras devastaram os campos franceses e queimaram a Catedral de Reims, se na 2ª Guerra Dresden e Milão foram devastadas e a Ceia de Da Vinci se salvou quase por milagre, no nosso país tropical, grande parte da memória nacional queimou em uma noite de 2018 no Rio de Janeiro.

Considero belíssimas – e tão afastadas do sentimento médio de nossas ditas elites! – as palavras do antropólogo Viveiros de Castro. Para ele, aquela ruína deveria permanecer intocada, como o Coliseu:

A minha vontade é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio. Eu não construiria nada naquele lugar. E, sobretudo, não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno, um museu digital, um museu da Internet – não duvido nada que surjam com essa ideia. Gostaria que aquilo permanecesse em cinzas, em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial.

As duas rapsódias que completam este CD também mostram a nostalgia de um compositor amante do folclore numa era em que a locomotiva do progresso andava apressada em uma só direção.

Ralph Vaughan Williams (1872-1958) – Sinfonia Pastoral, Norfolk Rhapsodies

1 Norfolk Rhapsody No. 2
2 Pastoral Symphony (Symphony No. 3) – I Molto Moderato
3 Pastoral Symphony (Symphony No. 3) – II Lento Moderato
4 Pastoral Symphony (Symphony No. 3) – III Moderato Pesante
5 Pastoral Symphony (Symphony No. 3) – IV Lento*
6 The Running Set
7 Norfolk Rhapsody No. 1

London Symphony Orchestra – Richard Hickox
*Soprano – Rebecca Evans (track 5)
Recorded at All Saints’ Church, Tooting, London; 16-18 January 2002

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Afetada pelo incêndio, árvore rebrota junto às ruínas do Museu Nacional (12/2/2019)

Alexander Scriabin (1872-1915): Sinfonias nº 2 e 4

Os poetas épicos costumam mergulhar o leitor “in media res”, no meio das coisas, e então o herói conta, quando for conveniente, o que aconteceu antes, sentado ao lado de sua amante, em um palácio, jardim ou caverna. É assim que essa série de sinfonias do século XX começa: com a chamada era dos extremos já pegando fogo.

O século XX foi um período em que se esperava do compositor algum tipo de originalidade. Algum statement novo. Já há muitas décadas não se esperava que alguém criasse mais de cem sinfonias como o velho Haydn. Era preciso inovar. Alguns criaram novas formas: as Gymnopédies e Gnossiennes de Satie, as Bachianas Brasileiras e Choros de Villa-Lobos…

Outros, como Scriabin, tinham uma originalidade tão à flor da pele que não precisavam nem se preocupar com isso. Como o pavão que abre sua cauda sem muito esforço, Scriabin compôs prelúdios, mazurkas e estudos à maneira de Chopin e sinfonias com finais grandiosos, mas tudo com um caráter inimitável. Sua linguagem cromática soa sempre sedutora, por mais estranho que seja esse adjetivo associado a uma obra orquestral.

As primeiras três sinfonias de Scriabin têm movimentos separados, de forma mais ou menos tradicional, ainda que a segunda tenha apenas três: (i) um Andante que vira Allegro na melhor tradição de Haydn e da 1ª, 2ª e 4ª de Beethoven, (ii) um Andante verdadeiro, que jamais soa triste e frio como os de seus compatriotas Rach e Shosta, mas sempre perfumado, colorido, sensual, (iii) um movimento final Tempestoso Maestoso, em que o título já diz tudo.

O Poema do êxtase, às vezes listado como a 4ª sinfonia de Scriabin, é condensado em um só movimento. Scriabin não soa como os outros russos. Trata-se de um compositor viajado, que morou em Paris, em Bruxelas, e publicava em Leipzig obras com título em francês, como Le Poème de l’Extase, de 1908. O tema ascendente da flauta é, mais uma vez, sensual, aqui de forma mais suave, com a leveza dos pássaros. Essa leveza, similar à de um Debussy ou um Fauré, continua nas melodias mas se acaba na instrumentação, que tem um movimento geral de crescendo para terminar em um tutti com órgão, o mais pesado dos instrumentos e que infelizmente é pouco audível nesta gravação. Para ver e ouvir o órgão, assistam no Youtube à interpretação desta obra por Salonen no Royal Albert Hall. Uma gravação recente de referência, mas aqui temos uma baita referência antiga: Svetlanov era considerado o maior intérprete de Scriabin da URSS.

Enfim, como diria Carlinus, é uma música que nos engravida de voluptuosidade e, como arremataria PQP, previnam-se, tenham suas camisinhas em mãos.

Alexander Scriabin (1872-1915): Sinfonias nº 2 e 4
Sinfonia número 2 em Dó menor, op. 29

  1. Andante – Allegro
  2. Andante
  3. Tempestoso – Maestoso

Poème de l’extase, op. 54

USSR Symphony Orchestra – Evgeni Svetlanov

Gravado em 1963 (1-3) e 1965 (4)

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Scriabin, o maluco beleza de Moscou

Pleyel

Beethoven (1770-1827): Sinfonia nº 3, “Eroica” – Monteux/Concertgebouw #BTHVN250

Este ano, vocês sabem, as orquestras por todo o mundo vão homenagear os 250 anos de Beethoven. No Brasil, teremos sinfonias em todas as grandes cidades (se as salas e teatros não fecharem até lá), além de grandes solistas tocando os cinco concertos para piano até cansar: Arnaldo Cohen, Linda Bustani e convidados estrangeiros como Paul Lewis e Alexander Melnikov.

Aqui no P.Q.P.Bach também teremos grandes homenagens com integrais de peso. Mas vamos com calma! Afinal, ainda faltam muitos meses para o aniversário do sagitariano Ludwig… Vamos começar o ano com algumas pérolas do passado: dias atrás foi o trio Michelangeli/Giulini/Filarmônica de Viena. Hoje, uma dupla igualmente notável: Monteux/Concertgebouw de Amsterdam.

Pierre Benjamin Monteux (1875-1964) foi um dos grandes nome da regências no século XX. Ele forma, com o suíço Ansermet (amigo de Debussy) e o alemão Klemperer (discípulo de Mahler), uma tríade de maestros que conheceram a tradição sinfônica europeia pré-primeira-guerra e, como viveram mais de 80 anos, deixaram gravações em stereo com qualidade de som muito superior à dos registros deixados por Furtwängler ou Mengelberg.

O currículo de Monteux é extenso: tocou viola em formações de câmara com Saint-Saëns e Fauré ao piano, foi membro de um quarteto de cordas até 1911, com o qual tocou para Brahms em Viena. Segundo Monteux, o compositor teria dito: “Os franceses tocam minha música corretamente. Os alemães a tocam de forma muito pesada.”

Mas a parte mais famosa da biografia de Monteux foi quando estreou, como maestro dos Ballets Russes em Paris, os Jeux de Debussy e em seguida a Sagração da Primavera de Stravinsky, ambos na mesma primavera de 1913.

A primeira reação, ao ler a partitura com Stravinsky ao piano, foi de espanto: “Eu decidi que as sinfonias de Beethoven e Brahms eram a minha música, não a música daquele russo maluco… Meu desejo era fugir daquela sala e achar um canto para ver se passava minha dor de cabeça. Então [o coreógrafo Diaghilev] virou para mim e disse: Essa é uma obra-prima, Monteux, que vai revolucionar a música e torná-lo famoso, porque você vai regê-la. E, claro, eu regi”. Apesar da reação inicial, Monteux trabalhou longos meses com Stravinsky, dando sugestões sobre a orquestração. Para fazer a orquestra dos Champs-Élysées tocar aquela música difícil e diferente, foram nada menos que dezessete ensaios.

Depois, em sua longa carreira, Monteux se associou a orquestras em Nova York, Boston, Amsterdam, Paris, San Francisco e Londres – peregrinação comum naquelas décadas com duas grandes guerras e uma crise do capitalismo global. Cavalheiro à moda antiga, ele não gostava de gravações em estúdio, mas deixou como legado uma parte razoável do seu repertório, especialmente Beethoven, Schubert, Brahms, Debussy e Stravinsky.

Gravada em 1962, em stereo, com os naipes da orquestra divididos como nos mais clássicos discos dos anos 60 (me vem à cabeça: Argerich/Abbado e Lennon/McCartney), esta Heróica tem como bônus a gravação do ensaio da Marcha Fúnebre. Em um francês de senhor idoso, Monteux trabalha cuidadosamente o som da orquestra de Amsterdam: “O difícil são as duas primeiras notas: PAN-pan-pan…”, corrige o maestro, com o mesmo cuidado meticuloso que ele tinha com a inovadora orquestração de Stravinsky. Ese ensaio nos mostra que não bastam os nomes famosos do maestro, da orquestra e do compositor: é preciso muito esforço e muita autocrítica para se fazer uma gravação histórica de Beethoven.

Ludwig van Beethoven – Symphony No. 3 In E Flat major, Op. 55 “Eroica”
1. Allegro con Brio
2. Marcia Funebre (Adagio Assai)
3. Scherzo (Allegro Vivace)
4. Finale (Allegro Molto)

5. Rehearsal: Marcia Funebre
Pierre Monteux, Concertgebouworkest
Recorded in Amsterdam 7/1962

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Pleyel

Scriabin – Integral dos Estudos (Nikita Magaloff, piano)

O pianista russo emigrado Nikita Magaloff foi um dos  primeiros a tocar a integral da obra de Chopin e talvez o primeiro a gravar a integral de suas obras para piano. Outra gravação integral que ele fez, no ano de sua morte, foi a dos estudos de Scriabin. A gravação desses estudos é talvez o seu testamento para a posteridade e em nenhum momento é possível supor que o pianista tocando esses estudos diabolicamente difíceis tem 80 anos. Magaloff, que era uma espécie de mentor de jovens pianistas como Dinu Lipatti, Martha Argerich e Michel Dalberto, nos deixou também suas lembranças no encarte do disco:

A música de Scriabin é um amor de infância que jamais me abandonou. Só mais tarde, refletindo, me dei conta da singularidade de sua obra. Scriabin estava realmente fora da corrente principal da música russa se seu tempo. Na época, o grande objetivo era a invenção de uma música russa original, fundada no folclore e na tradição religiosa. Primeiro Glinka, depois Mussorgsky, Rimsky-Korsakov, Tchaikovsky e Rachmaninoff estavam preocupados com isso. Mas a música de Scriabin não tem essas características, ela não soa especialmente “russa”: ele é bem diferente.

Quando esteve em Paris, Scriabin foi apresentado por seu editor a Isidor Philipp*, um dos grandes pedagogos da época. Scriabin tocou para ele, mas Philipp não se convenceu. Eu mesmo, anos depois, toquei alguns de seus Prelúdios para Philipp, que se tornaria meu professor: ele me aconselhou a retirá-los depressa de meu repertório!

Tendo deixado a Rússia na época da Revolução, eu não sei se ele era muito tocado na URSS, exceto por seu genro, o grande pianista Sofronitsky. Na Europa ocidental ele era pouco apreciado.

Nos estudos, Scriabin mostra o que ele deve a Chopin, é claro, explorando diferentes dificuldades (terças, sextas, oitavas, saltos, etc). O rubato também vem de Chopin, assim como o fato de jamais escrever passagens virtuosas que não tenham necessidade musical. É preciso apontar também a influência de Schumann. Quanto à de Wagner, inevitável, ela é talvez a origem de suas explorações harmônicas cada vez mais avançadas.
(Nikitta Magaloff. Traduzido do encarte do CD)

* Philipp também foi o professor, em Paris, de Guiomar Novaes e de Youra Guller. As duas, assim como Magaloff, são excepcionais intérpretes de Chopin.

Entre os primeiros admiradores de Scriabin, Magaloff lista, além de si próprio: Nicholas Roerich, o decorador da estreia da Sagração da Primavera; Prokofieff, que Magaloff viu tocar Scriabin no piano, mas criticando o seu romantismo exacerbado; Rachmaninoff, que estudou junto com Scriabin no Conservatório de Moscou e, no ano da morte do colega, fez vários recitais em sua homenagem, para ser criticado por Prokofieff: “quando Scriabin tocava a 5ª sonata, tudo parecia voar rumo aos céus, com Rach todas as notas ficaram firmemente plantadas na terra”.
Só mais tarde, grandes pianistas como Horowitz, Richter, Gilels divulgariam a música de Scriabin pelos palcos do mundo. Mas nenhum destes três se aventurou a gravar a integral dos estudos, muito menos aos 80 anos, idade em que Horowitz tocava sonatas de Mozart e Richter deu seu último recital tocando sonatas de Haydn.

Александр Скрябин / Alexander Scriabin: Estudos para piano

1 Étude Opus 2 n°1, Andante en Ut # Mineur [1886]

Douze Études pour Piano – Opus 8 [1893-1895]
2 N°1 Allegro, en Ut # Majeur
3 N°2 A Capriccio, con Forza, en Fa # Mineur
4 N°3 Tempestoso, en Si Mineur
5 N°4 Piacevole, en Si Majeur
6 N°5 Brioso, en Mi Majeur
7 N°6 Con Grazia, en La Majeur
8 N°7 Presto Tenebroso, Agitato, en Si Bémol Mineur
9 N°8 Lento, en La Bémol Majeur
10 N°9 Alla Ballata, en Sol # Mineur
11 N°10 Allegro, en Ré Bémol Majeur
12 N°11 Andante Cantabile, en Si Bémol Mineur
13 N°12 Patetico, en Ré # Mineur

Huit Études pour Piano – Opus 42 [1903]
14 N°1 Presto, en Ré Bémol Majeur
15 N°2 La Noire à 112, en Fa # Mineur
16 N°3 Prestissimo, en Fa # Majeur
17 N°4 Andante, en Fa # Majeur
18 N°5 Affannato, en Ut Mineur
19 N°6 Esaltato, en Ré Bémol Mineur
20 N°7 Agitato, en Fa Mineur
21 N°8 Allegro, en Mi Bémol Majeur

Trois Études pour Piano – Opus 65 [1912]
22 N°1 Allegro Fantastico
23 N°2 Allegretto
24 N°3 Molto Vivace

Piano: Nikita Magaloff / Никита Магалов (1912-1992)
Gravado em Lausanne, Suíça, em julho de 1992.

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Scriabin ao piano

Pleyel

F. Mendelssohn (1809-1847): Canções sem palavras (Lieder ohne Worte), com Guiomar Novaes

As paisagens como as do Sonho de uma noite de verão ou a Caverna de Fingal são, de certa forma, exteriores ao artista; elas não são ele mesmo. É nos Romances sem Palavras e nas Sinfonias que se deve procurar o Mendelssohn íntimo, o som, a tonalidade e o charme dessa alma. (Camille Bellaigue, 1909)

Década de 1820: Goethe tinha 75 anos quando Mendelssohn, então com doze anos, foi visitá-lo, apresentado por seu professor. Desde este primeiro encontro, Mendelssohn encantou Goethe tocando fugas de Bach e outras obras-primas, de forma que dois anos mais tarde, quando o jovem prodígio voltou a Weimar, o velho poeta, antes de cumprimentá-lo, abriu seu piano e disse “Vem aqui e me faz reviver os os espíritos adormecidos neste piano!” (Fonte: Goethe et Beethoven, por Henri Blaze de Bury, 1813-1888)

1830: Mendelssohn visita Goethe pela última vez e o poeta lhe dá de presente uma página do manuscrito do Fausto com as palavras “Ao amável Felix Mendelssohn, mestre soberano do piano, lembrança de amizade”. Após deixar Weimar e passar por Praga e Munique, em outubro de 1830 Mendelssohn chega a Veneza, aquela cidade única que foi o sonho de sua vida, como ele escreveu a suas irmãs.

Em Roma, onde chega em novembro de 1830, ele faz amizade com o abade Fortunato Santini, dono de uma rica biblioteca musical. Mendelssohn escreve à sua família pedindo que enviem da Alemanha uma coletânea de seis cantatas de Bach para presentear o abade. Em 1831, ainda em Roma, ele conhece o francês Hector Berlioz e as palavras a seguir, das memórias de Berlioz, mostram a relação de admiração um tanto agressiva entre os dois. Berlioz relata:

Um dia, eu falava do metrônomo e de sua utilidade.
“Por que usar o metrônomo?, questionou energicamente Mendelssohn, é um instrumento bastante inútil. Um músico que, olhando uma partitura, não adivinha logo o andamento é uma toupeira.”

No dia seguinte, quando pediu para olhar minha abertura Rei Lear que eu tinha escrito em Nice, ele a leu com atenção e, no momento de colocar os dedos no piano para tocá-la (o que ele fez com um talento incomparável), disse:
“Me dê o seu andamento”,
“Por quê? Você não disse ontem que qualquer um que olha uma partitura e não adivinha o andamento é uma toupeira?” (Fonte: Memórias de Hector Berlioz)

Sua forte ligação com a música de Bach, sua rejeição ao metrônomo, suas sinfonias em quatro movimentos (comparem com a inovadora Sinfonia Fantástica de Berlioz e os Poemas Sinfônicos de Liszt) fazem com que Mendelssohn seja considerado o mais clássico dos românticos. As Canções sem palavras mostram que a cabeça do compositor era mais complexa do que essas classificações. São obras curtas, de harmonia mais simples do que as que Chopin criava na mesma época. Não são equivalentes a noturnos por não terem uma seção contrastante no meio, nem muito menos se assemelham à forma sonata. Para um crítico de 1879, estes pequenos poemas formam, na música para piano, o equivalente dos Lieder de Schubert para o canto. São pequenas joias típicas do século XIX, perfeitas para serem tocadas em salas burguesas por donzelas puras ou senhoras respeitáveis, desde as amadoras até as grandes intérpretes, como Clara Schumann, a quem um dos livros de canções sem palavras foi dedicado.

Mendelssohn compôs um total de 48 peças para piano com este nome e mais uma para violoncelo. São pouco adaptadas aos recitais em grandes salas, aos concursos de piano e também, na minha opinião, às gravações de integrais: ouvir as 48 de uma só vez pode ser uma experiência repetitiva. Muito mais prazerosos são os discos em que pianistas tocam uma seleção de canções sem palavras, como um precioso LP gravado por Gieseking e este vinil de Guiomar, jamais editado em CD, que trago hoje para vocês.

Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847): Songs Without Words (Lieder ohne Worte)

A1 No. 1 Op. 19, No. 1 ”Sweet Remembrance”
A2 No. 6 Op. 19, No. 6 ”Venetian Gondola Song”, No. 1
A3 No. 42 Op. 85, No. 6 ”Song Of The Traveller”
A4 No. 40 Op. 85, No. 4 ”Elégie”
A5 No. 29 Op. 62, No. 5 ”Venetian Gondola Song”, No. 3
A6 No. 30 Op. 62, No. 6 ”Spring Song”
B1 No. 12 Op. 30, No. 6 ”Venetian Gondola Song”, No. 2
B2 No. 45 Op. 102, No.3 ”Tarantella”
B3 No. 22 Op. 53, No. 4 ”Sadness Of Soul”
B4 No. 18 Op. 38, No. 6 ”Duet”
B5 No. 34 Op. 67, No. 4 ”Spinning Song”
B6 No. 25 Op. 62, No. 1 ”May Breezes”
B7 No. 20 Op. 53, No. 2 ”The Fleecy Cloud”
B8 No. 47 Op. 102, No. 5 ”The Joyous Peasant”

Guiomar Novaes, piano
Turnabout Vox LP, 1961 (stereo)

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Todo(a) pianista tem fotos com a mão no rosto, já repararam?

Pleyel

W. A. Mozart (1756-1791): Concertos para Piano Nº 26 e 27 (Brendel/Marriner/St Martin in the Fields)

Iniciamos hoje, na véspera do aniversário de 230 anos da Revolução Francesa, uma série de postagens que é histórica em dois sentidos: (I) vamos ressuscitar aqui uma série que marcou época nos primórdios do P.Q.P.Bach, com o trio Mozart-Brendel-Marriner; (II) vamos abordar os concertos de Mozart de um ângulo diferente, falando menos da música em si e mais da época em que ela foi composta. E como nenhum homem é uma ilha, é evidente que a vida e a obra de Mozart foram afetadas pelas mudanças extraordinárias pelas quais a Europa passou nas décadas de 1780 e 90.

Com a palavra o acadêmico inglês Andrew Steptoe:

Mozart viveu em um período de grande agitação política, que viu as formas e as convenções da hierarquia estabelecida serem contestadas pelo crescimento do racionalismo e do Iluminismo.

O imperador José II, de sua regência, ainda como príncipe, em 1765, até sua morte em 1790, é considerado um déspota esclarecido que transformou em realidades práticas várias teorias dos pensadores do século 18. Ele pôs fim à discriminação contra as igrejas protestantes e ortodoxas em seu largo império, proibiu o trabalho infantil e a pena de morte.

Mas o mais importante para as classes médias era a liberdade de pensamento e o relaxamento da censura encorajados por José II. A liberdade intelectial que reinava nos salões vienenses tornou-se célebre por toda a Europa, e o avanço da maçonaria foi uma das consequências de tal atmosfera [não é preciso lembrar a influência da maçonaria na Flauta Mágica, na Música de funeral maçônica e tantas outras obras da última década de Mozart].

Esse clima, porém, não iria durar para sempre. O fim do reinado de José – que coincide com os últimos anos de Mozart – foi marcado por uma série de reviravoltas políticas e o restabelecimento de uma sociedade repressiva e profundamente desconfiada do pensamento livre. Essa brutal reviravolta tinha origens tanto dentro como fora do império austríaco.

Dentro das fronteiras, algumas reformas de José II provocaram uma reação hostil dos nobres, facilitada pela liberalização da censura. Mas o evento que levou ao autoritarismo foi a Revolução Francesa. Segundo uma testemunha britânica, a tomada da Bastilha no dia 14 de julho de 1789 provocou no imperador “as mais violentas ameaças de vingança, no caso em que algum insulto fosse feito à pessoa de sua irmã, Maria Antonieta”. Três meses depois, ela e Luís XVI eram expulsos de Versalhes por uma multidão.

Na Áustria as consequências foram dramáticas. Várias leis foram anuladas, Gottfried van Swieten, amigo e protetor de Mozart, perdeu o posto de censor, que voltou ao ministério da Polícia. Os jornais desapareceram, muitos homens foram presos sem processo legal e a maçonaria foi submetida a restrições. Após a morte de José, o breve reinado de seu irmão Leopoldo quase não trouxe mudanças.

É interessante notar até que ponto a ascensão e o declínio da popularidade de Mozart em Viena coincidem com o destino político do Iluminismo no império dos Habsburgos.

Fonte: Mozart Compendium (org. Landon, 1990)

Ou seja, fica a dica: quando um regime se sente ameaçado, a primeira vítima é a liberdade de expressão, aí incluídos os artistas. Vejamos o caso de Haydn: em 1790 morre o príncipe Nikolaus Esterházy, que era seu mecenas e o filho de Nikolaus, seguindo a tendência da época, dispensou quase todos os músicos. Haydn ficou com um pequeno salário, mas quase não havia demanda de novas composições, deixando-o livre para suas duas viagens a Londres (1790–1792 e 1794–1795), onde compôs algumas de suas maiores sinfonias, tanto em importância quanto em número de músicos, pois as orquestras londrinas não estavam em crise.

Mas voltemos a Mozart. Não é por acaso que a orquestração do Concerto nº 27 (de 1791) é muito mais enxuta do que a dos 7 concertos anteriores, sem tímpano e sem trompetes. O que o último concerto para piano de Mozart não tem em pompa e imponência, tem em sensibilidade e originalidade. Para Messiaen, esta obra, do último ano de Mozart, é iluminado por um sol poente, pela iniciação da morte, com destaque para a cadência do 1º movimento que, muito menos virtuosa que o usual, é cheia de hesitações, de silêncios, “na espera da grande partida…”

Vamos seguir de trás pra frente: o Concerto nº 26, um dos mais imponentes e grandiosos de Mozart, é de 1788, mas ficou conhecido como o “concerto da coroação” por ter sido tocado na coroação de Leopoldo II como Imperador do Sacro-Império Romano Germânico. Ao contrário do império Austro-Húngaro, que era hereditário, os líderes desse outro império eram eleitos e acumulavam o título de sagrado imperador com a coroa local. Leopoldo seria o penúltimo dessa linha que remontava a Carlos Magno no ano 800, pois Napoleão, em 1806, poria fim a esse império que, nas palavras de um fino observador, não era nem sagrado nem império e nem romano.

Fiquem agora com o texto original de PQP:

Depois da dura advertência que recebemos do Mozartiano à Espera, acordamos nesta manhã de sol e temperatura amena com o firme propósito de encerrar mais uma de nossas séries! A dos Concertos de 15 a 27, que são os bons. Adoro esses dois concertos e só a pura desídia explica o fato de eu não tê-los postado até hoje. A caixa ao lado é a da série completa da Philips. Os primeiros concertos são regidos por Eduard Melkus com a gordinha Ingrid Haebler ao piano, depois vem Ton Koopman com ele mesmo…, o concerto duplo vem com as irmãs Labeque até chegar à perfeição com Brendel e Marriner. Gosto muito de provocar Clara Schumann, mas nunca ousaria fazer críticas a seu ídolo Alfred Brendel, do qual ela — pasmem! – até coleciona fotos. Afinal, o homem é o vice-campeão, só perdendo mesmo para aquele senhor que recebeu em 2007 um prêmio como maior personalidade artística européia: Maurizio Pollini.

W. A. Mozart (1756-1791) – Concertos para Piano Nº 26 e 27

1. Concerto No. 26 In D, KV 537 ‘Coronation’: 1. Allegro
2. Concerto No. 26 In D, KV 537 ‘Coronation’: 2. Larghetto
3. Concerto No. 26 In D, KV 537 ‘Coronation’: 3. Allegretto

4. Concerto No. 27 In B Flat, KV 595: 1. Allegro
5. Concerto No. 27 In B Flat, KV 595: 2. Larghetto
6. Concerto No. 27 In B Flat, KV 595: 3. Allegro

Alfred Brendel, piano
Academy of St. Martin-in-the-Fields
Neville Marriner

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Pleyel

Furio Franceschini (1880-1976): Obras para órgão

Furio Franceschini foi organista, compositor, regente e professor, nasceu em Roma, Itália, em 1880. Após estudar em Roma, Paris e Solesmes, chegou ao Rio de Janeiro em 1904, mas mudou-se para São Paulo, onde viveu até os 96 anos. Recusou em duas ocasiões o convite para suceder seu professor Filippo Capocci como mestre-de-capela na Basílica de São João de Latrão, em Roma. Mario de Andrade o considerava “um dos homens que mais conhecem música no Brasil”.

O uso da harmonia situa Fanceschini na continuação do uso da tonalidade expandida, recurso próprio da linguagem romântica. Para os meus ouvidos, as grandes pérolas deste CD são as pequenas obras, características do romantismo, como as grandes composições curtas para piano – miniaturas – de Chopin e Schumann ou, depois, de Dvorák, do Liszt idoso e de Debussy, que já não era romântico mas cultivou a miniatura. Por outro lado, a Sonata para Grande Órgão de Franceschini me parece menos interessante do que as grandes obras de Reger.

O caráter bucólico e colorido de As violetas, Flor-de-Lise e Interlúdio colocam essas obras no mesmo nível das miniaturas de Louis Vierne que estiveram aqui no PQP recentemente.

Franceschini foi organista da Sé de São Paulo e teve uma vida muito longa, presenciando várias correntes como o romantismo tardio, o nacionalismo musical, o auge do dodecafonismo e o Concílio Vaticano II. A seguir algumas citações sobre as relações de Franceschini com essas modas, ideias e sistemas:

Franceschini em carta para Camargo Guarnieri em 1950:
“Acho que o nacionalismo deve ser cultivado, sim, mas com moderação; de outra forma pode prejudicar a originalidade do compositor quanto a ideias, estilo, personalidade. Nem vejo também por que um artista não possa tirar proveito do que é “belo” mesmo quando colhido fora do próprio país.” Em seguida Franceschini critica o dodecafonismo, um “sistema de composição” que ele não tolera, e expressa sua opinião de que “o rumo a ser adotado pelos compositores seria o desenvolvimento da música modal.”

Fernando Lacerda Simões Duarte escreveu, em 2011:
Os órgãos eletrônicos e a grande mudança litúrgica resultante das interpretações do Concílio Vaticano II, de 1962, parecem ter contribuído, de forma rápida, para ampla extinção da atividade de construção de órgãos no Brasil. Dorotéa Kerr (2006) mostra que, dos 55 órgãos de tubos na cidade de São Paulo, 42 estão em igrejas católicas e desses, 35 foram construídos entre 1903 e 1964. Igualmente, na cidade do Rio de Janeiro, dos 40 órgãos, 27 foram construídos entre 1924 e 1965: 18 nacionais e 9 importados.

Fica claro como na América Latina, ao contrário da Europa e outros países, a interpretação dada ao Concílio Vaticano II levou à diminuição da construção e do uso do órgão. (…) A questão que se coloca então é: quais as consequências de se abrir mão de símbolos católicos e injetar na nova forma ritual significados não-católicos? A resposta parece óbvia: crise e perda de identidade.

Órgão Cavaillé-Coll em Buenos Aires, usado neste CD

As missas de Franceschini têm um grande potencial pedagógico para os grupos corais, mas são só para estes. (…) a execução litúrgica das missas ameaçaria a noção de que existe uma barreira cultural entre os fiéis e os códigos da cultura erudita; pelo contrário, seria uma aposta na capacidade dos fiéis de apreender códigos mais complexos. Se a prática coral poderia ser resgatada com as missas, também o órgão – hoje, instrumento silenciado na maioria das igrejas ou apenas destinado aos casamentos – seria resgatado.

Em resumo, a execução das missas de Fanceschini representaria o resgate de uma missão da Igreja – e de qualquer outra instituição que lide com algum público – que não está prevista em nenhuma bula: educar os fiéis em um sentido mais amplo, neste caso, o musical.

José Luís de Aquino interpreta Furio Franceschini
1. Fanfarra
2. Natal triste
3. Sonata em Lá Maior, para Grande Órgão: I. Moderato, Molto energico
4. Sonata em Lá Maior, para Grande Órgão: II. Andante
5. Sonata em Lá Maior, para Grande Órgão: III. Moderato, Solenne, Squillante
6. Pequeno Trecho para o tempo de Natal
7. As violetas
8. Flor-de-Lis
9. Fantasia sobre o tema gregoriano do Alleluia Pascal
10. Interlúdio
11. Variações sobre os temas dos hinos a Nossa Senhora Aparecida
Órgão Walcker (1954) do Mosteiro de São Bento, em São Paulo, Brasil – faixas nº 2, 8, 9 e 10.
Órgão Mutin Cavaillé-Coll (1912) da Basílica do Santíssimo Sacramento, em Buenos Aires, Argentina – faixas nº 1, 3 a 7 e 11.

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Órgão do Mosteiro de S. Bento, em SP

Pleyel

Louis Vierne (1870-1937): 24 peças de fantasia

Louis Braille (1809-1852) foi o educador francês que criou o sistema braille de leitura para cegos, usado até hoje. O que pouca gente sabe é que Braille também foi organista, fazendo parte de uma longa tradição de organistas cegos que veio desde o Renascimento com o espanhol Antonio de Cabezón e incluiria também os franceses Louis Vierne e Gaston Litaize, o alemão Helmut Walcha e, mais recentemente, os americanos Ray Charles (órgão elétrico) e Stevie Wonder (sintetizador).

Louis Vierne, na verdade, enxergava um pouco, principalmente luzes embaçadas, ao que parece, e é curioso que ele tenha composto obras tão evocativas de momentos do dia e luminosidade como algumas das suas 24 peças de fantasia: Étoile du soir (estrela da noite), Hymne au soleil (hino ao sol), Clair de lune (Luar). Assim como Gabriel Fauré, Vierne compôs Noturnos para piano de aparência simples, mas que “demandam do intérprete uma poesia interior, uma busca de si mesmo, uma tradução de aspirações inconscientes, de afinidades obscuras” (cito uma crítica de 1926 no jornal francês Le Ménestrel).

Me parece que a mesma observação pode ser feita sobre a música de Vierne para órgão: não é tão virtuosa quanto a de Widor, Dupré ou Messiaen, mas é de um romantismo tardio em que pode-se perceber várias emoções, muitas vezes sombrias e saudosas, na mesma linha dos românticos Frédéric Chopin e Guillaume Lekeu.

Se restar alguma dúvida de que se trata de um romântico, fica a lista de poetas que ele musicou em chansons: Victor Hugo, Gautier, Baudelaire, Verlaine…

As 24 peças também incluem a obra mais tocada até hoje de Vierne, o carrilhão de Westminster, baseado no famoso tema que todos já ouviram no cinema, na igreja ou em caixinha de música.

Louis Vierne (1870-1937): 24 peças de fantasia, para órgão
CD 1
Pièces de fantaisie – Suíte nº 1, Op. 51 (1926)
1. Prélude
2. Andantino
3. Caprice
4. Intermezzo
5. Requiem aeternam
6. Marche nuptiale

Pièces de fantaisie – Suíte nº 3, Op. 54 (1927)
7. Dédicace
8. Impromptu
9. Étoile Du Soir
10. Fantômes
11. Sur le Rhin
12. Carillon de Westminster

CD 2
Pièces de fantaisie – Suíte nº 2, Op. 53 (1926)
1. Lamento
2. Sicilienne
3. Hymne au soleil
4. Feux follets
5. Clair de lune
6. Toccata

Pièces de fantaisie – Suíte nº 4, Op. 55 (1927)
7. Aubade
8. Résignation
9. Cathédrales
10. Naïades
11. Gargouilles et Chimères
12. Les cloches de Hinckey

Ben van Oosten
Órgão Cavaillé-Coll (1890) da Abadia Saint-Ouen, Rouen, França

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A fachada do órgão de Saint Ouen

Pleyel

Franck, Widor, Karg-Elert, Reger, Alain e Langlais no órgão de Dordrecht

Na virada do século 19 para o 20, compositores como Mahler, Scriabin e Strauss levaram a tonalidade funcional e o cromatismo aos seus limites,muitas vezes com os tons grandiloquentes de Wagner. Debussy, também expandindo as tonalidades e cromatismos, cultivou sonoridades sutis, no que muitos chamam de impressionismo.

As obras para órgão deste CD se inserem nesse contexto. César Franck, ainda no final do século XIX, pode ser considerado um precursor do debussismo ao evitar os arroubos de grandeza, mantendo um certo equilíbrio. Widor, também francês, é famoso principalmente por suas Sinfonias para Órgão que têm, ao contrário de Franck, momentos de expressão com a delicadezade um elefante, como a célebre Toccata e também o Intermezzo presente neste disco. Widor, que nunca foi um vanguardista, tocou no imenso órgão Cavaillé-Coll da igreja de Saint-Sulpice (Paris) até os 89 anos e morreu aos 93 em 1937, quando já era um dinossauro considerado hiper-antiquado por jovens como Messiaen ou Dutilleux.

Reger e Karg-Elert são os princpais compositores alemães para órgão depois da morte de Bach. O primeiro já apareceu aqui no PQPBach, o segundo faz a sua estreia hoje. Enquanto as composições de Reger são baseadas na polifonia a duas, três, quatro vozes, Karg-Elert usa harmonias mais modernas para fazer uma música que é pura expressão colorida, fazendo uso de combinações de diversos timbres como a orquestra de Mahler ou de Debussy.

No final de sua vida, na Alemanha dos anos 1920 e 30, Karg-Elert foi duramente criticado por não ser nacionalista o suficiente, com suas influências francesas e cosmopolitas. Foi até chamado de judeu, embora não fosse. Nos EUA e na Inglaterra, contudo, suas obras para órgão foram muito apreciadas:

Karg-Elert é um impressionista e colorista de grande distinção, imaginativo ao retratar uma grande variedade de sentimentos (University of Michigan, 1939)

Jehan Alain perdeu sua vida na 2ª Guerra, tendo deixado um pequeno mas importante catálogo de obras para órgão. Sua irmã, Marie-Claire Alain, foi uma das organistas francesas de maior renome no século XX.

Jean Langlais, que também estreia hoje no PQPBach, faz parte de uma longa tradição de organistas cegos que veio desde o Renascimento com o espanhol Antonio de Cabezón.

Franck, Widor, Karg-Elert, Reger, Alain e Langlais no órgão de Dordrecht
01. César Frank – Troisième Choral
02. César Frank – Prélude, Fugue et Variation
03. Charles-Marie Widor – Symphony No 6 – Intermezzo
04. Sigfrid Karg-Elert – Trois Impressions – Harmonies du soir
05. Sigfrid Karg-Elert – Trois Impressions – Clair de lune
06. Sigfrid Karg-Elert – Trois Impressions – La nuit
07. Max Reger – Toccata in d minor, Opus 59
08. Jehan Alain – Choral dorien
09. Jean Langlais – Suite Breve – I. Grand Jeux
10. Jean Langlais – Suite Brève – II. Cantilène
11. Jean Langlais – Suite Brève – III. Plainte
12. Jean Langlais – Suite Brève – IV. Dialogue sur les Mixtures

Órgão Kam (1859) da Grote Kerk, Dordrecht, Países Baixos
Margreeth de Jong – organista

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O órgão de Dordrecht, cidade próxima a Rotterdam

Pleyel