Ennio Morricone (1928-2020): Era uma Vez na America (Once Upon a Time in America)

Esta não é uma postagem fácil. Para quem ama cinema e música a morte de Morricone é uma perda pessoalíssima. Não se trata somente da perda de um homem que viveu quase cem anos, produziu beleza em obras preciosas e teve uma vida, acredito, bela e plena. Trata-se da ausência de uma intensidade raríssima. Intensidade vital, artística, musical, expressiva e impressiva; ausência de um artista ao qual podemos atribuir uma força da natureza, assim como os antigos mestres da música. Sem as trilhas de Morricone, muitos filmes não teriam nem o fôlego nem a bilheteria que alcançaram. No caso do pejorativamente chamado ‘faroeste spaghetti’, o gênero sequer existiria sem os climas estabelecidos pelos sons do trágico trompete na hora dos duelos; das guitarras, dos sinos, ocarinas, gritos, harpa de boca (jaws harp), flautins, harmônicas, relógios que tilintam, repiques… Trilha sonora é coisa seríssima e nessa arte Morricone foi mestre absoluto e originalíssimo. Dono de uma verve melódica avassaladora e competente conhecedor de elementos tradicionais da música italiana, que usou com verdadeiro gênio em suas criações, misturando o belo e o feio, a doçura com o grito; tecendo tapeçarias sonoras compostas de uivo de coiote, canto de pássaro, sinos fúnebres, órgãos estridentes, galopes percussivos. Conta-se que algumas vezes os diretores mudavam cenas e detalhes dos roteiros sob a impressão causada por sua música – que sorte a deles contarem com tal aliado em suas produções.

Sobre arte todos dão opiniões, e sempre há algo de razoável e de absurdo nas mesmas. É normal que em ambiente neutro, quero dizer, não acadêmico, seja numa roda de amigos e especialmente no boteco, nos vemos tomados de transes apoteóticos e bradamos que esta ou aquela sinfonia, este ou aquele compositor, são os maiores que já existiram! E com a gradação alcoólica podemos ir de Beethoven a Reginaldo Rossi sem qualquer cerimônia. Vale tudo. Pois bem, sem qualquer receio de arrependimento e contradição póstuma, digo que esta trilha sonora ‘talvez’ seja a maior já escrita para um filme. ‘Era Uma Vez na América’ é uma obra prima de Sergio Leone e incorrendo de novo no excesso, diria que é a sua grande obra prima (mea culpa). Muitos talvez prefiram a trilogia dos Dólares em ‘um punhado’ ou ‘alguns a mais’, culminando com o ‘trielo’ no cemitério de ‘O Bom o Mal e o Feio’; ou ainda prefiram “Era uma vez no Oeste”, o que é mais frequente e cuja trilha se tornou popularíssima devido à sua comovente ária, muito utilizada em eventos floridos, como casamentos e funerais.

Morricone e Leone

Outra razão pela qual essa é uma postagem difícil é falar sobre uma trilha tão rica e intensa, entretecida com inesquecíveis ‘leitmotivs’. Não somente personagens são referenciados com temas, mas também suas emoções. A memória, o tempo, a morte, o medo, têm suas ‘personas’ sonoras na trilha. Algumas peças populares Morricone tomou de empréstimo em sua tapeçaria musical: ‘Summertime’ (Gershwin), ‘Yesterday’ (Lennon & McCartney); ‘God Bless America’, de Irving Berlin; e ‘Amapola’, do compositor, maestro e clarinetista espanhol José Maria Lacalle Garcia. Uma presença das mais marcantes no filme é o som da Sirinx (ou flauta de Pã) do romeno Zamfir. A densidade da trilha estabelece a atmosfera do filme e quem o conhece não irá esquecer, nem das cenas nem dos temas.  Conta-se que Morricone realizou a maior parte da trilha mesmo antes das cenas serem filmadas e que Leone fez com que reproduzissem a trilha durante as próprias filmagens. É uma música épica para um drama épico – terminologia que caracteriza bem “Era uma vez na América”, de 1984.

The Hoods

Último filme de Leone, “Once upon a Time in America” foi baseado no livro “The Hoods”, de Harry Gray. Conta a trajetória de um grupo de quatro amigos judeus do gueto de Nova York (Lower East Side de Manhattan em 1918), desde suas tropelias da infância até a sua vida adulta no crime organizado, ao longo de 35 anos. O herói da narrativa é Noodles, vivido pelo soberbo Robert De Niro; Max, seu “melhor amigo” – as aspas falam por si mesmas, vivido por James Woods; mais os comparsas Cockeye, interpretado por William Forsythe e Frankie, com o habitual ator dos filmes de gangster, Joe Pesci. A heroína da saga é a bela Débora, grande amor de Noodles e interpretada por Elizabeth McGovern; na infância pela doce Jennifer Connelly.

Débora

A trajetória do próprio filme em si já foi uma saga. Leone não deu a ele uma forma definitiva, pois que a cada relançamento em diferentes lugares e épocas a fita sofreu cortes, muitos deles irresponsáveis, para o desgosto do diretor e prejuízo do público e da bilheteria. Foi devido a uma falha técnica causada por tais dilapidações que o filme acabou sendo totalmente ignorado pelo Oscar (mas grande coisa, o Oscar…). Resultou que o filme é um dos mais abertos a interpretações.

Particularmente falando, me parece que ‘Era uma vez na América’ tem um mote. Assim como outros bons filmes o têm, a exemplo de ‘O Leitor’, onde o mote é a vergonha; ou ‘O Tesouro de Sierra Madre’, onde o cerne do filme é a ambição. O mote de ‘Era uma vez na América’, me parece que é a inveja. A inveja de Max por Noodles, desde a infância. Noodles é corajoso e simpático, heroico e inteligente, tem a simpatia da linda bailarina, Débora. Max é covarde e feioso, a loucura da mãe o estigmatizava, era invejoso e dissimulado, entre outras coisas.

Comparsas

Resumir um filme tão rico em detalhes e tão longo – na versão que temos em DVD chega a 4 horas – mais interpretações, é tarefa arriscada. Porém em resumo, os quatro jovens bandidos fazem um pacto pelo qual uma porcentagem dos lucros das suas ações seria depositada ao longo dos anos numa maleta, que guardam à chave num armário de uma estação ferroviária. Já adultos, numa misteriosa operação policial, Max, Cockeye e Frankie são mortos. Noodles escapa e vai buscar a maleta, que encontra vazia, com o aviso que estão em seu encalço. Noodles foge no primeiro trem para Buffalo e trinta anos depois recebe um misterioso convite para uma festa na casa de um figurão da política em Nova York. Movido pela curiosidade ele vai à festa e descobre que Max não morrera, mas tramara a sua morte e dos amigos; e ele, Noodles, escapara por pouco. Fora roubado por Max. Seu dinheiro, sua Débora (então esposa de Max), até o relógio que pertencera ao seu pai. Agora a casa caíra para Max, que se vendo às portas de ser desmascarado e preso, intenta o suicídio, porém se acovarda. Planejara então trazer Noodles de volta, insuflar sua revolta e se valer de sua coragem para ser morto. Noodles se recusa a matá-lo. Diz que conforme vê as coisas ele apenas tivera um amigo que morreu. As últimas cenas são enigmáticas e abrem as especulações sobre o enredo. Numa cena simbólica Max é visto embarcando num carro de lixo. O filme retorna para aos primeiros momentos numa casa de ópio, onde Noodles fuma deitado diante de um teatro de sombras. Na última cena vemos seu rosto através de um véu. Ele sorri e o filme termina. Ficamos diante das possibilidades: tudo foi apenas um delírio de ópio de Noodles, ou não. A volta às cenas do início denotaria talvez que tudo aquilo iria de fato acontecer ou não. Leone não deixou uma chave para a resposta. Um detalhe curioso, conta-se que Leone teria sido convidado pela Paramount para dirigir “O Poderoso Chefão”, todavia recusou para se dedicar a ‘Era uma vez na América’.

Once upon a time…

Como uma boa obra que não depende apenas de enredo, o filme traz entrelinhas e momentos antológicos inesquecíveis, como as cenas da menina Débora ensaiando seu balé ao som de Amapola enquanto Noodles a observa escondido; a cena do menino ao pé da escada com um doce que ele comprara, para dar em troca a uma jovem de quem queria ver os seios, porém o apelo do doce é mais forte; a comovente cena da morte de Dominic, o pequeno comparsa de Noodles, quando emboscados pelo bandido Bugsy; a cena da já adulta Débora limpado sua maquiagem e revelando sua vergonha. Tudo amalgamado pela música mágica e poderosa de Morricone, sem a qual, a meu ver, o filme não teria razão para existir.

Uma última razão pela qual não é uma postagem fácil para mim é que essa música e filme me trazem particulares lembranças de amigos já idos, que amavam música e cinema. Especialmente o amigo que me apresentou a essa obra, Newman Sucupira da Fonseca, professor, fotógrafo e escritor sergipano, a quem dedico a postagem.

Ennio Morricone (1928-2020): Era uma Vez na America (Once Upon a Time in America)

1 Once upon a Time in America
2 Poverty
3 Deborah’s Theme
4 Childhood Memories
5 Amapola
6 Friends
7 Prohibition Dirge
8 Cockeye’s Song
9 Amapola Part II
10 Childhood Poverty
11 Photographic Memories
12 Friends II
13 Friendship & Love
14 Speakeasy
15 Deborah’s Theme – amapola
16 Suite From Once Upon a Time in America
17 Poverty Version
18 Unused Theme
19 Unused Theme II

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“Noodles, I slipped!”

Wellbach

14 comments / Add your comment below

  1. Que postagem emocionante.
    Morricone realmente ajudou a definir os clássicos do cinema mencionados aqui. Esse cara era realmente de uma originalidade rara.
    Deu até vontade de rever esse filme, pela enésima vez, já nem sei quantas vezes o vi.

    1. Vale rever, Sal, sempre descobrimos um novo detalhe, uma emoção diferente. A com o tempo a obra não muda mas agente muda e tudo vira descoberta. Grato, abrs.

  2. Lembro de ter assistido a este filme em um cineclube em Curitiba, num dia de semana de tarde. Eu estava desempregado na época, na verdade, procurava um rumo na vida, e fiquei emocionado. A sala de cinema tinha poucos espectadores, uns 10, no máximo. Mas todos ficaram até o final, épico … lindo, emocionante. Voltei pra casa a pé, tentando absorver tudo aquilo, eu recém tinha completado vinte anos, pouco sabia da vida, e estava arriscando meus primeiros passos longe da saia da mãe. Tinha sido totalmente envolvido pela magia do filme.
    Emocionante relato, Wellbach, peço encarecidamente que continue sua contribuição para com o blog.

    1. Grato, muito bonita sua lembrança. Uma coisa muito própria da música de Morricone, especialmente a desse filme, é que ela acaba sendo uma trilha para nossas memórias. Abrs.

      1. Comecei a assistir novamente ontem, e realmente a sensibilidade do diretor é algum incrível, aliás, característica do Sergio Leone, basta lembrarmos dos filmes com o Clint Estwood, o personagem sem nome quase não falava, mas suas expressões diziam tudo.
        Outro ponto a favor do filme é o elenco, Robert de Niro em um de seus melhores papéis. O bom de rever estes filmes é prestar atenção nos detalhes, por exemplo, quando o personagem do de Niro, Noodles, observa, por um buraco na parede, a jovem Jenniffer Connely ensaiando seus passos de bailarina …e ela sabia que estava sendo observada … lindo e sensível demais como ele expressa o amadurecimento da sexualidade dos personagens …

        1. Vi o filme todo ontem, fui dormir tarde pra caramba!
          Realmente um filme genial. Acho muito interessante os cortes nesse filme, principalmente onde as cenas transitam de um tempo a outro na cronologia.
          O silencio fala muito, assim como em outros filmes de Leone.
          Acho muito magistral a sequencia inicial. Nos primeiros 30 minutos de filme quase nao tem dialogo, mas muita coisa é narrada atraves da tecnica de filmagem.

          1. De fato, e é um filme que amadurece na mente da gente, com seus detalhes e sentidos. Bem observado a ausência de diálogo. O telefone que toca insistentemente de repente nos mostra que estamos vendo uma cena atemporal. Quando atendem o fone ele continua a tocar, ou seja, está soando na mente do personagem e tem um sentido a mais. O fato é que a arte parece às vezes conspirar para as coisas darem certo, os cortes não facilitam a compreensão do enredo. Leone não fez uma edição final e definitiva. a obra sobrevive por si mesma.

  3. Belo relato Wellbach. Obra-prima atemporal e incontestável sob qualquer ângulo.
    Forte abraço do Dirceu amigão.

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