Sergei Rachmaninov (1873 – 1943) – Sinfonia Nº 1

Sempre tive um certo receio com relação à obra de Rachmaninov. Não me sentia preparado para encará-la. Faltavam-me subsídios, digamos. Minha porta de entrada foi o belíssimo filme “Shine-Brilhante”. Entendi que meu medo se estendia aos intérpretes e entendi que Rachmaninov realmente exigia muito de nossa capacidade de assimilação. Acreditei que meus temores se justificavam, mas que na verdade, para superar esses temores, era necessário encará-los. Psicologia barata, eu sei.

Enfim, um belo dia, tive acesso a uma gravação do concerto para piano nº 2, na interpretação de Moura Limpani. Em seguida, caiu-me nas mãos uma outra gravação deste mesmo concerto, mas apenas com russos o interpretando. Não me perguntem seus nomes, só sei que a orquestra se chamava algo como Grande Orquestra Filarmônica de Moscou, ao algo do gênero. Com estas gravações em mãos, pus-me a ouvi-las, tentando entender qual era o segredo deste compositor. E assim se passaram 15 anos, e ainda ouço os concertos, e os considero belíssimos. Consegui romper certo “pré-conceito” com relação ao compositor, e sempre estou atrás de outras gravações de suas obras.

Foi assim com a gravação de suas sinfonias. Sempre ouvira falar delas como geniais, extremamente bem elaboradas e com momentos de puro lirismo. Um belo dia, fuçando no emule, encontrei essa integral das sinfonias com o excelente regente Lorin Maazel, á frente da Filarmônica de Berlim. Baixei-a, e estou ouvindo com atenção. Dizem que a primeira impressão é a que fica, e a impressão que tive foi de que o temor permanece, devido ao alto grau de complexidade que elas impôem aos ouvintes. Não é música para qualquer um. Deve-se estar devidamente concentrado, sem ruídos externos atrapalhando e prestando atenção à todas as suas nuances. O resultado desta audição poderá ser totalmente diferente. E satisfatório. Ou gratificante.

Me perdoem os rachmaninovs-maníacos por este desabafo. Na verdade, ele apenas comprova que a música sempre está nos impondo desafios, e que é graças a estes desafios que ampliamos nossos horizontes musicais. Se assim não fosse, ainda estaria ouvindo apenas Mozart, Beethoven, Bach e não permitindo aos meus sentidos terem acesso à evolução musical dos últimos 200 anos.

Pois bem, começo com a Sinfonia nº1, em Ré menor, op. 13, com os seguintes movimentos:

1 – Grave – Allegro Ma Non Troppo
2 – Allegro Animato
3 – Larghetto
4 – Allegro Con Fuoco

Berliner Philarmoniker
Lorin Maazel – Diretor

O seu,

FDP Bach.

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8 comments / Add your comment below

  1. Que relato surpreendente, meu caro FDP… A solidariedade praticada pelos simpatizantes do velho Rach sempre se dá ao hábito de cumprimentá-lo com um apertinho nas bochechas, em uma comoção muito sorridente pelos poetas do mundo que sabem que o romantismo ainda não morreu dentro da modernidade… Por que digo isso? Porque Rach é um moderno romanticão, e ele mesmo não negaria! Romanticão com “acordes místicos”, inversões e uma arisqueza marotas com seu tempo, mas ainda romântico – ou “ultra-pós-romântico”, aplacando outros ânimos – no seu temperamento russo e arrebatamento enredadão.Os Estudos “Tableaux” e os Prelúdios pra piano são um belo exemplo de “arranjo” pianístico, pois brincam com efeitos que fazem do piano um instrumento do tamanho que ele bem quer. E os concertões 2 e 3 caíram no gosto da humanidade: todo mundo adora.E acho, enfim, digeríveis por todos aqueles que abrem os seus corações ao romantismo do russo. Mas me surpreendo com o seu relato cuidadoso, e o entendo como indício de que, pra além da linguagem e o tempo, talvez a personalidade de um artista possa ser também “hermética” pra identificação do ouvinte.[]’s.

  2. Ah! E Rach ficou deprimido com a péssima acolhida dessa 1ª sinfonia! Quase parou de compor! Há, por isso, quem queira sugerir até hoje que o forte dele era o piano mesmo e que não tinha jeito. Grande oportunidade de conferir qual a possível importância da crítica nas nossas vidas!

  3. Meu caro FDP.Eu, PQP, prometo tentar gostar de Rach desta vez. Os tais concertões tocavam com tamanha freqüência no toca-discos de meu pai que estou enfarado até hoje. Prova de que não é todo mundo que gosta, amigo Leonardo. Mas vou tentar novamente.PQP Bach

  4. Traumas a parte, devido à uma péssima interpretação de algum concerto (não me lembro qual)que assisti a muitos atrás, tenho de reconhecer que Rach me pega por esse romantismo tardio deslavado… por isso citei a gravação da Moura Limpani, realizada ainda no jurássico, mas onde a pianista húngara mostra uma interpretação mais cerebral. Ontem cheguei tarde em casa e não tive tempo de postar a sinfonia nº 2, mas tentarei fazê-lo hoje a noite.A seu dispor, FDP Bach.

  5. “Não é música para qualquer um”: que absurdo! Na verdade, música nenhuma é para “qualquer um”.
    Agora, eu posso garanti-los que a música de Rach é para qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade musical. E uma das músicas mais geniais já compostas em todos os tempos.
    Difícil mesmo é “executá-las” (e não “ouvi-las”). Qualquer pecinha para piano é somente para grandes pianistas. Eu, mesmo, que toco Bach, Beethoven, Mozart.. fico muito triste em não conseguir executar praticamente nenhum dos prelúdios, estudos, concertos de Rach…

  6. Me desculpem todos mas Rachmaninov é pra mim o mais afinado dos grandes compositores clássicos, seus concertos para piano são simplesmente divinos, suas sinfonias principalmente a 2ª é belíssima. Adoro Beethoven, Mozart, Bach, Tchaikovski, etc, etc mas meu amigo, o Rachmaninov é simplesmente sensacional, mas tudo bem cada um tem o direito de gostar mais ou menos do que quer.
    Mudando um pouco, só tenho elogios ao Site o qual é sensacional, cultural, produtivo e esclarecedor, estão todos de parabéns

    Beleza turma…….!!!!

  7. Rachmaninov nunca chegou à facinar-me, mas certo dia resolvi ouvi-lo com atenção,peguei as sonatas para violoncelo e piano e fiquei pasmo com o lirismo e agressividade apresentados, se puderem postar essas sonatas, ficarei imensamente grato.

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