F. J. Haydn (1732-1809): Quatro Trios para piano (Maggie Cole, Kati Debretzeni, Sebastian Comberti)

O quarteto de cordas era, para Haydn e seus contemporâneos, um gênero recentemente inventado – por Boccherini e logo em seguida pelo próprio Haydn – e marcado pela igualdade entre os quatro instrumentos de cordas. Como um pai ou uma mãe com quatro filhos, o compositor não estabelecia uma hierarquia, embora aqui ou ali seu coração pudesse bater mais por um. Nos trios de Haydn, é outra história: ali, tratam-se sobretudo de Trios para piano com duas cordas acompanhando. Nesse ambiente intimista, desdobram-se ideias semelhantes às de um concerto para solista e orquestra, ou ainda as de uma ária ou um oratório sacro com um ou dois solistas vocais e orquestra. Então, se os trios de Haydn oferecem uma diversidade de emoções, andamentos, melodias em uníssono e “solos” harmônicos do violino e do violoncelo estabelecendo bases para o piano brilhar, é verdade também que todos eles mantêm essa relação um tanto previsível entre os três instrumentos, mas os clichês e desenvolvimentos previsíveis também estão presentes na grande maioria concertos para piano e estamos satisfeitos com isso.

Depois, Beethoven e Schubert escreveriam trios em que os papéis dos três instrumentos vão variando, a melodia lançada por um é refeita e variada dois compassos depois por outro instrumento… isso vai culminar naquele que – ao menos na minha opinião – seria o mais perfeito trio posterior ao classicismo vienense, o Trio de Ravel. Nessa obra de 1914, as melodias dos três instrumentos vão se entrelaçando como na estrutura incerta de um sonho, já tendo abandonado de vez o mundo tão racional e iluminista dos Trios de Haydn.

Mas voltando ao austríaco e aos seus trios que aparecem aqui hoje em instrumentos de época, às vezes na vida nós queremos ouvir música em que os instrumentos executam papéis bem definidos. Isso vale nas relações humanas também: desde que bem combinadas (o combinado não sai caro), as relações com estruturas demarcadas do tipo “X cozinha, Y lava” podem ser tão felizes quanto outras em que todo mundo cozinha e lava. Só o que é lamentável é a naturalização de certos papéis como o que descrevia Carlos Drummond na crônica Céu da boca. “A mãe praticamente não se sentava, ocupada em servir a todos, de sorte que ia comer no fim, ou ‘lambiscar’,” isso dizia o Drummond em 1955 se referindo ao passado e tomara que fique cada vez mais no passado mesmo, é o que desejamos, não é?

Franz Joseph Haydn (1732-1809):
1-3. Piano Trio No. 25, Op. 75 No. 1 In C Major (Hob. XV:27) (18:52)
4-6. Piano Trio No. 26, Op. 75 No. 2 In E Major (Hob. XV:28) (16:13)
7-9. Piano Trio No. 24, Op. 73 No. 3 In F Sharp Minor (Hob. XV:26) (14:49)
10-12. Piano Trio No. 22, Op. 73 No. 1 (Hob. XV:24) (14:13)

Recorded at Real World Studios, England, December 2008
Fortepiano by Paul McNulty after Anton Walter 1795

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

O trio no frio após tocar um allegro con brio

Pleyel

2 comments / Add your comment below

Deixe um comentário para Luan Cancelar resposta