A música de Martinů é sempre encantadora, elegante e atraente, lindamente construída e pontuada, um prazer de ouvir. De certa forma, ele é o Haydn do século XX.
Christopher Hogwood
Há tempos venho flertando com a música de Martinů, mas até agora não havia sido fisgado por um trecho que me fizesse parar tudo o que estivesse fazendo para ficar ouvindo. Talvez esse critério não tenha sido o mais adequado, mas finalmente encontrei um disco que tenho ouvido bem amiúde e que sempre me dá vontade de revisitar.
Como o interesse pela música, também aumentou a curiosidade sobre o autor, que tipo de vida levou, como eram as coisas nos seus dias. Entendi que foi músico desde criancinha, que compôs muito, nasceu onde hoje se chama República Checa. Foi compositor, professor de música e, na juventude, tocou violino na Orquestra Filarmônica Checa.
Em 1923 mudou-se para Paris e mudou seu estilo, incluindo o corte de cabelo, deixando o romantismo para lá. Sua música incorporou várias características da música francesa da época.
Com a Segunda Guerra e a invasão de Paris pelos alemães, Bohuslav mudou-se para os Estados Unidos, onde ensinou em Princeton e no Berkshire Music Center, em Tanglewood, Massachusetts. Ele alternou sua residência entre os EU e a Europa, passando um ano ensinando no Curtis Institute, e também na Academia Americana, em Roma. Seus últimos anos foram passados na Suíça, aos auspícios do mecenato do músico milionário Paul Sacher.
Bohuslav felizão por estar no PQP Bach!
O disco da postagem traz cinco peças, algumas mais curtas que outras, mas sempre muito interessantes. A Sinfonietta ‘La Jolla’ foi escrita para atender a um pedido da Musical Arts Society de La Jolla, na Califórnia. Esperava-se uma obra agradável e melodiosa e ele certamente atendeu ao pedido. Com três movimentos, sua orquestração conta com um piano que atua marcadamente especialmente ajudando no ritmo.
La revue de cusine é um balé com os utensílios da cozinha. Aqui temos quatro números formando uma suíte, da qual fazem parte um tango e um delicioso charleston.
A Toccata e due canzoni é a obra mais sombria do disco. Durante a composição dessa peça, em 1946, Martinů caiu de um balcão e machucou-se seriamente, batendo e fraturando a cabeça. A coisa foi séria e ele perdeu parte da audição, mas recuperou-se e voltou a compor. Entendi que ele, desde sempre, tinha enorme memória musical, sendo capaz de se lembrar de partituras completas. Assim, compunha e ‘ouvia’ música enquanto caminhava e pode ter se distraído na ocasião do acidente.
A peça Merry Christmas 1941 foi composta para piano e oferecida à família que o recebeu, com sua esposa, na chegada aos EU na fuga da Europa. Aqui ouvimos um arranjo para quinteto de sopros.
Os Tre ricercare foram escritos sob comissão para a Bienal de Veneza e a sua orquestração emprega dois pianos, cujo uso dão às peças uma textura bem especial.
The performances here sound thoroughly convincing: Hogwood had steeped himself in the Martinů idiom and trained his orchestra well. The recording is clear and there is nothing not to like. There are other performances of all the works here but not in this combination, and anyone wanting a disc of Martinů works other than the main symphonies and concertos will be well pleased with this.
Das três sonatas para piano que Schubert completou em seus últimos meses, a Sonata em dó menor, D. 958, parece lidar mais diretamente com o legado de Beethoven.
Guardem esse nome – Can Çakmur, pianista turco de mão cheia (desculpem o trocadilho…). A primeira vez que vi seu nome foi num disco da série Next Generation, mentorada por Howard Griffiths e que apresenta os concertos de Wolfi Mozart, não apenas os para piano, interpretados por jovens solistas, como Claire Huangci e o próprio Can Çakmur. Ele interpreta o Concerto No. 8, ‘Concerto Lützow’, no primeiro disco da série. Nomes tais como Mélodie Zhao, Jeneba Kanneh-Mason, Aaaror Pilsan, pianistas, além de Johan Dalene, violino, Nicolas Ramez, trompa, e Gabriel Pidoux, oboé, já estão presentes nos outros discos da série.
Mas, a postagem é a propósito de Can Çakmur que tem produzido para a BIS uma série de discos com foco na obra para piano de Franz Schubert. Cada disco da série apresenta peças de Schubert acompanhadas de alguma peça de outro compositor que foi influenciado por ele ou que o tenha influenciado. Eu tenho ouvido esses discos com algum interesse, mas há tantas coisas que chamam a minha atenção no universo da música gravada, que acabei deixando-os na pilha dos que pretendo ouvir mais vezes. No entanto, esse aqui eu achei uma ‘maraviglia’ logo de cara e o ouvi diversas vezes. Tanto gostei que resolvi postá-lo, independentemente de voltar a postar algum outro da série. A Sonata em lá maior é em três movimentos e tem toda a leveza e graciosidade do período clássico. As variações do Ludovico apontam mais para a Sonata em dó menor, D. 958, a primeira das últimas três grandes sonatas, em quatro movimentos. Uma obra prima!
Franz Schubert (1728 – 1828)
Piano Sonata in A Major, D. 664
Allegro moderato
Andante
Allegro
Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
Variations (32) on an Original Theme in C minor, WoO 80
Trechos da resenha ‘rasga seda’ feita por Patrick Rucker para a Gramophone
Can Çakmur’s ‘Schubert+’ series, begun in 2023 and combining works by Schubert with composers influencing or influenced by him, has now reached its fifth instalment. Here he presents the exquisite A major Sonata of 1819, while Beethoven’s C minor Variations serve as a sort of overture to the first of the three crowning sonata masterpieces of Schubert’s final year.
If the 32 C minor Variations are not Beethoven’s most profound, they nevertheless effectively explore seemingly limitless instrumental textures. […]This is a carefully conceived performance, brilliantly executed.
Schubert’s ‘little’ A major Sonata is only small in comparison to the huge A major Sonata, D959. Here it is given a rhetorically apt, pristine performance of extraordinary beauty and nuance. […]
I don’t know of another performance of D958 that so successfully subordinates Schubert’s occasionally awkward pianistic demands to the grand musical sweep of this monumental work. […]
Finally, one admires most Çakmur’s inerrant kinaesthesia, vibrant, breathtaking, yet somehow always tempered by love for the beauty revealed in his art. Wholeheartedly recommended.
We are Ensemble Odyssee, and we are eager to share our music with you.
[Frase do livreto]
Bach, assim como vários outros compositores do período barroco, usava peças compostas anteriormente para produzir novas obras, adaptando para outros instrumentos ou combinação diferente de instrumentos, revivendo assim peças que poderiam ficar esquecidas. Esse parece ter sido o caso dos concertos para cravo que ele produziu para as apresentações no Café Zimmermann, em Leipzig.
Este disco sugere um percurso inverso, com arranjos de alguns desses concertos para uma combinação de outros instrumentos solistas e formação camerística. O pequeno número de instrumentos, no entanto, não rouba da música toda a sua grandiosidade e fleuma assim como sua diversidade sonora. Eu adorei tudo, em especial os andamentos, que podem ser perigosamente rápidos no caso dos grupos historicamente informados.
Para fechar o disco, um arranjo do próprio João Sebastião como que para ilustrar que a prática é ‘legítima’ e que a música é verdadeiramente de Bach. Eu diria que nem precisava…
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Concerto in E-Flat Major, after BWV 1053, 169, 49,
(Arr. for Recorder & Orchestra by Andrea Friggi & Anna Stegmann)
[Allegro]
Siciliano
Allegro
Concerto in D Minor, after BWV 1052, 146,
(Arr. for Violin & Strings by Eva Saladin & Andrea Friggi)
Allegro
Adagio
Allegro
Concerto in G Minor, after BWV 1056,
(Arr. for Oboe & Strings by Georg Fritz & Andrea Friggi)
[Allegro]
Largo
Presto
Concerto in F Major BWV 1057, 1049,
(Arr. for Harpsichord, two Recorders & Strings by Johann Sebastian Bach)
[Allegro]
Andante
Allegro assai
Ensemble Odyssee
Anna Stegmann, Georg Fritz, flautas doce
Georg Fritz, Daniel Lanthier, oboés
Hanna Lindeijer, oboé da caccia
Eva Saladin, Ivan Iliev, Tomoe Badiarova, Elise Dupont, violinos
O pessoal do Ensemble Odyssee esperando o início da matinée
“The overall refinement of their musical expression, profound knowledge in the field of historically informed performance practice, flawless intonation and sense of subtle nuances, confirm that Ensemble Odyssee is clearly among the top in its field.” Karel Veverka, Opera Plus 2017
Você encontra inspiração em outras coisas além da música?
Talvez três ou quatro anos atrás eu teria dito não, ou dito algo normal, como ler livros ou assistir a filmes, mas hoje me inspiro cada vez mais na minha vida familiar. Meus filhos são muito pequenos e, nessa idade, você precisa de muita paciência, de certa forma, para criá-los e para se criar, e isso ajuda muito com a música. [De uma entrevista com BP]
O primeiro álbum de Bruno Philippe que eu conheci foi a gravação das Suítes para Violoncelo de Bach que eu gostei muito e postei. O disco foi preparado e gravado (como aconteceu com muitos artistas) nos dias da pandemia, período terrível que vivemos e, ao que parece, já é esquecido das gentes. Depois disso ouvi um disco no qual ele toca ao violoncelo acompanhado de piano a Sonata ‘Arpeggione’, de Schubert. Nesta empreitada ele se faz acompanhar do pianista Tanguy de Williencourt. Completando o disco um arranjo para violoncelo e piano da Sonata ‘Kreutzer’ (para violino e piano) de Beethoven. Este disco você pode encontrar aqui. Há um outro disco da dupla Philippe – de Williencourt tocando Brahms/Schumann, este postado pelo nosso highlander colaborador FDP Bach, aqui.
Demorei um pouco para ouvir esse novo disco do Bruno Philippe, pois a quantidade de novidades que quero ouvir é grande e ando também bem ocupado com outras coisas, esses dias. Vocês devem imaginar, os artistas e gravadoras não param de nos enviar álbuns novos e relançamentos esperando que venhamos a apresenta-los aos nossos ávidos leitores e seguidores, devidamente endossados pela nossa ilibada e meritória opinião. Mas, finalmente chegou o dia (ou melhor, a noite) deste maravilhoso disco, que me cativou desde o início, uma pecinha para violoncelo e piano de Fauré, o Romance. Você poderá perceber que o Bruno está em outro patamar no universo dos violoncelistas. Assim como foi o caso da ‘Kreutzer’, no outro disco, temos a belíssima Sonata para Violino de César Franck, em arranjo para violoncelo. Bruno toca também o Concerto No. 1 para Violoncelo de Camille Saint-Saëns e a linda Sonata (essa originalmente escrita) para violoncelo de Poulenc. Atuando como prelúdio, interlúdios e encore, temos mais algumas peças de Fauré e Saint-Saëns. Nas peças para violoncelo e piano, Bruno é acompanhado pelo já nosso conhecido Tanguy de Williencourt e no concerto a orquestra é a Frankfurt Radio Symphony regida pelo maestro Christoph Eschenbach.
Eu achei que o FDP Bach postaria esse disco, mas após ouvi-lo umas três ou quatro vezes nesses últimos dias, achei que vocês não poderiam esperar mais. Se bem que essa postagem está sendo escrita a dois terços passados do mês de agosto do Ano da Graça de 2025 e não sei que dia pode ser hoje, quando a postagem efetivamente indo ao ar do nosso primoroso blog. De uma forma ou de outra, espero que gostem do disco, pelo menos uma fração do que eu gostei…
GABRIEL FAURÉ (1845-1924)
1 | Romance Op. 69 3’34
CÉSAR FRANCK (1822-1890)
Violin Sonata FWV 8
A major / La majeur / A-Dur
(transcription for cello and piano by Jules Delsart)
2 | I. Allegretto ben moderato 6’20
3 | II. Allegro 8’31
4 | III. Recitativo-Fantasia. Ben moderato – Molto lento 7’39
5 | IV. Allegretto poco mosso 6’27
CAMILLE SAINT-SAËNS (1835-1921)
Cello Concerto No. 1 Op. 33
A minor / La mineur / a-Moll
6 | I. Allegro non troppo 6’00
7 | II. Allegretto con moto 5’34
8 | III. Molto allegro 9’07
GABRIEL FAURÉ
9 | Papillon Op. 77 3’07
FRANCIS POULENC (1899-1963)
Cello Sonata FP 143
10 | I. Allegro – Tempo di Marcia 5’56
11 | II. Cavatine 6’13
12 | III. Ballabile 3’28
13 | IV. Finale 6’45
GABRIEL FAURÉ
14 | Après un rêve Op. 7 No. 1 2’57
(transcription for cello and piano)
CAMILLE SAINT-SAËNS
15 | Le Cygne 2’56
(extr. Le Carnaval des animaux – transcription for cello and piano)
Bruno Philippe,cello
Tanguy de Williencourt, piano (1-5, 9-15)
Frankfurt Radio Symphony | Christoph Eschenbach, conducting (6-8)
This enterprising and beautifully recorded programme, combining elements of late-Romanticism with Neo-classicism, provides cellist Bruno Philippe with a suitably wide stylistic range. Indeed, his magnetic playing proves to be a triumph, not least because his approach is self-effacing in allowing the music to speak for itself, thereby creating interpretations that are both natural and subtle. […]
Philippe’s interpretation of Saint-Saëns’s First Cello Concerto revels in its underlying Classical restraint, while offering sufficiently theatrical playing in the bravura passages; the Frankfurt Radio Symphony Orchestra under Eschenbach combines wonderfully precise and expressive playing.
Even more alluring, however, is Poulenc’s Cello Sonata. This underplayed work is exceedingly difficult to make rhythmically neat and expressive – needing performers who are alert to its rapidly changing moods and virtuosic demands. Both artists ensure that every bar sounds amazingly fresh and spontaneous. [Trechos da crítica na revista The Strad]
From the overt Romanticism of Saint-Saëns to the nostalgia-laden modernity of Poulenc, Bruno Philippe takes us on a journey through (almost) a century of French cello music. Alongside Tanguy de Williencourt, he also performs the cello version of Franck’s famous Violin Sonata, one of the absolute peaks of nineteenth-century chamber music. [da página da harmonia mundi]
Dieter Ilg Trio – Ravel: Classical meets jazz in virtuoso reimaginings of Maurice Ravel’s masterpieces, rich with depth and musical freedom.
Como vocês sabem, aqui nas empresas do PQP Bach somos apresentados a diversas experiências musicais, a grande maioria completamente inúteis e desnecessárias, mas sempre com grande cuidado e tomadas todas as precauções para preservar os nossos colaboradores.
Uma dessas experiências consiste em selecionar discos só pela capa – fora dos padrões ‘clássicos’ – ou pelo nome exótico de algum músico. O disco dessa postagem foi selecionado por satisfazer os dois critérios: capa e nome do músico: Ilg, Dieter Ilg.
É verdade, o baixista já andou aqui pelas colinas do PQP Bach, acompanhando o excelente barítono Thomas Quasthoff em uma excursão pelo mundo do (gasp!) jazz! O link desta antiga postagem andou derrubado, mas já está novamente funcionando.
Eu me voluntariei para o experimento apostando no compositor, sou fã de Ravel, Bolero e tudo… E me dei bem, gostei do disco que foi ouvido no balanço da rede onde me esparramo depois do almoço. Hoje tivemos filezinhos de frango empanados em aveia com acompanhamento de abobrinhas verdes refogadas levemente. É claro, arroz e feijão com algumas poucas rodelas finas de paio, pimenta malagueta à vontade.
Rainer, Dieter e Patrice numa pausa após o almoço…
Bem, divago! Voltando ao disco – formação clássica de trio com piano (Rainer Böhm), bateria (Patrice Héral) e contrabaixo (Dieter Ilg). Pelos nomes você já vê que são todos baianos…
Uma delícia ficar ouvindo os temas do Maurice vestidos de roupas jazzísticas. O manjado Bolero, o Trio e o Quarteto e a deliciosa Sonatine. Sem esquecer o Jardin féerique e outras cositas más. Veja se você gosta da versão da peça que inicialmente inspirou o disco – a Pavana para uma infanta defunta.
Foi a “Pavane pour une infante défunte” que despertou o interesse de Ilg pelo maître francês. Ilg já havia ficado fascinado pela versão com Jim Hall e Art Farmer: “Quando eu buscava uma nova fonte de inspiração para o meu trio, a lembrança desta peça me retornou. Mergulhamos mais profundamente na obra de Ravel e encontramos uma ampla gama de abordagens interpretativas […]. Sua música é feita sob medida para nós!”
(da série “Gostei, postei!”)
Aproveite!
René Denon
PQP Bach Quizz: Qual desses músicos é um bamba do jazz?
Caso você tenha acesso às plataformas de distribuição de músicas, aqui está uma possibilidade para a audição:
Uma das coisas que me impede de ouvir mais obras barrocas com vozes e coro – oratórios, música sacra, óperas – é a duração dessas obras. Oratório tal de tal compositor, 3 CDs! Ópera deste ótimo compositor, mais outros tantos CDs. E tem a minha mania (cada dia mais fraca) de ouvir a obra toda. Imaginar essas peças completas no nosso dia-a-dia provoca, senão um choque cultural, pelo menos um pequeno abalo. Entender isso deve ser um bom tema para uma dissertação de mestrado em antropologia, talvez. O tempo que as pessoas dispunham para esses entretenimentos nos dias de suas criações, muito provavelmente era diferente do que dispomos hoje para os nossos próprios entretenimentos. Isso sem contar as infinitas possibilidades de que dispomos para as nossas escolhas de diversão.
Talvez isso explique o sucesso de lindas peças mais ‘curtas’ do período barroco, como o Glória, de Vivaldi, ou o Stabat Mater, de Pergolesi. Mas, divago… O que eu quero dizer é que achei muito interessante essa proposta do grupo Les Ombres, de montar um espetáculo, que posteriormente rendeu o álbum. Eles reuniram peças e trechos de obras de diferentes compositores do mesmo período cultural para montar uma ‘narrativa’ que justapõem o mito de Sêmele, que é muito bonito, com a (des)aventura de Ícaro.
Cena de uma das apresentações…
No caso de Sêmele, a história vai, mais ou menos, assim: ela teve um caso com Zeus (que surpresa!), o que gerou ciúmes em Hera, que resolveu vingar-se da rival. (Ciúmes, vingança… bom, não é?) Hera astuciosamente transmutou-se na aia de Sêmele e lhe sugeriu que pedisse ao deus que lhe mostrasse toda a sua ‘majestade divina’. O deus a alertou que isso poderia ser um pouquinho demais, mas ela, atiçada pelas pérfidas e invejosas (outro sentimento danado de bom nessas histórias) irmãs Ino e Agave, insistiu com o deus. Como Zeus estava sob juramento de cumprir a todos os desejos de Sêmele, foi obrigado a exibir seus raios e trovões, que acabou incendiando o palácio onde estavam e tudo o mais, matando a pobre Sêmele.
Zeus então retirou o feto calcinado fruto desse amor e o implantou em sua própria coxa, donde nasceu o deus Dionísio (Viva Bacchus, Bacchus viva!).
O mito de Ícaro é mais conhecido, pelo menos eu creio. Dédalo e seu filho Ícaro ‘voam’ da Ilha de Creta usando asas construídas pelo engenhoso Dédalo com cera e penas. A despeito dos conselhos do pai (desde aqueles dias, filhos davam trabalho) Ícaro voa perigosamente perto do Sol e acaba (a cera derrete, essas coisas…) com os burros n’água, mitologicamente.
O programa do álbum inicia com uma sinfonia de pífaros, de ótimo augúrio, seguido de uma suíte de danças, com uma ária, com trechos de Marais. A seguir, uma cantata de Destouches, ‘Sémélé’. Até aí, tudo em francês.
Quando entra Handel, percebemos na hora, um de seus lindos concerti grossi, seguido da belíssima ária de sua ‘Semele’, da qual ‘roubei’ dois versinhos finais e coloquei no início da postagem, a título de preâmbulo… Divino, para mim, vale o disco. Uma ‘aria’ para a flauta e, na sequência, uma cantata em italiano “Tra le fiamme’, sobre o mito de Ícaro, que termina com os seguintes versos, a título de ‘moral’:
Sì, sì, pur troppo è vero:
nel temerario volo
molti gl’lcari son, Dedalo un solo.
Para terminar, uma exibição de gala das habilidades do saxão, árias de Semele e Theodora, lindamente acompanhadas por orquestra. Maraviglia!
Marin Marais (1656 – 1728)
Sémélé (Excerpts From Opera, 1709)
Marche D’ægipans Et de Ménades
Ouverture
Air « Quel Bruit Nouveau Se Fait Entendre »
Deuxième Air Des Guerriers
Chaconne
André-Cardinal Destouches (1672 – 1749)
Sémélé (Cantata, 1719)
Récitatif « Déjà Par Un Serment Terrible »
Air « Ne Cesse Point de M’enflammer »
Récitatif « Aussitôt Le Bruit Du Tonnerre »
Air « Est-il Un Destin Plus Heureux »
Récitatif « Elle Finit, Elle Est Toute Embrasée »
Air « Régnez Sans Partage »
George Friedric Handel
Concerto Grosso No. 4 En Fa Majeur, HWV 315, Op. 3
Largo – Allegro – Largo
Andante
Allegro
Semele, HWV 58 (From Opera 1743)
Air « Oh Sleep »
Il Penseroso Ed Il Moderato, HWV 55 (1740)
Air « Sweet Bird » (instrumental)
Tra Le Fiamme, HWV 170 (1707)
Air « Tra Le Fiamme »
Récitatif « Dedalo Già »
Air « Pien di Nuovo E Bel Diletto »
Récitatif « Sì, Sì, Purtroppo è Vero »
Air « Voli Per L’Aria »
Récitatif « L’uomo Che Nacque Per Salire Al Cielo »
De uma entusiástica crítica amadora: Pour qui aime la musique baroque! Ce CD est magnifique, la musique de Marin Marais, coule comme un ruisseau! On a envie de le suivre! [Para quem ama música barroca! Este CD é magnífico, a música de Marin Marais flui como um riacho! Queremos segui-la!]
O já conhecido Departamento de Artes do PQP Bach Coop. enviou esse instantâneo de Marin Marais tomado em sua última visita aos nossos headquarters…
A grana que eles ganhavam com música ia quase toda para as parrucchieres…
Junto com outras duas sonatas para piano e o sublime Quinteto de Cordas, a Sonata para Piano em Lá maior D959 é uma das quatro obras-primas visionárias que Schubert concluiu em 1828 e que estariam entre as últimas coisas que ele escreveu.
[trecho do site da Hyperion]
A Sonata para Piano gravada neste disco foi composta com mais outras duas nos últimos meses de vida de Schubert, entre a primavera e o outono de 1828. Essas três obras são espetaculares, produção de um compositor que desenvolveu todos os seus talentos e estava no domínio completo de sua arte. Schubert tinha em alta conta as obras de Haydn e Mozart e veneração pela obra de Beethoven, de quem foi contemporâneo, mas sua obra, especialmente a música de câmara, Lieder e as obra para piano, revelam uma voz distinta, única.
É impressionante como o desenvolvimento de uma personalidade artística toma um próprio tempo para se estabelecer em diferentes artistas e como esses talentos individuais podem revelar-se de maneira proporcional ao tempo biológico de cada um deles.
Basta considerar o exemplo de Schubert, que atingiu essas alturas aos 31 anos, a poucos meses do fim, enquanto Beethoven, aos 31 anos tinha sob seu cinturão a Primeira Sinfonia e estava a um ou dois anos de apresentar a Segunda Sinfonia com grande parte de suas obras ainda por vir. Ou seja, se sua personalidade artística ainda não se revelou, pode ser que você ainda não tenha vivido o suficiente…
Schubert também tinha atenção para a música de compositores menos grandiosos. A coleção de Momentos Musicais segue a tradição de coleção de peças em voga naquelas dias, como os Impromptus de Jan Václav Voříšek. E não são menos adoráveis por isso.
Este disco é mais uma pérola na ótima discografia do pianista Steven Osborne construída na gravadora Hyperion, alguns deles disponíveis e resenhados no seu PQP Bach mais próximo…
Este é para ser ouvido e ouvido de novo, para grande deleite de vossas mercês…
‘This is a performance of D959 that was still resonating in my mind long after I’d finished listening: it’s that good. Superb Schubert from Steven Osborne, a new release from Hyperion—it’s my Record of the Week’ (BBC Record Review)
‘The Moments musicaux speak with a morning freshness throughout, each imbued with its own unmistakably individual identity’ (Gramophone)
Aproveite!
René Denon
Steven todo prosa com seu novo disco…
Caso você tenha acesso às plataformas de distribuição de músicas, aqui está uma possibilidade para a audição:
As gravações de Peter Serkin dos Concertos para Piano de Mozart com a English Chamber Orchestra, regida por Alexander Schneider, são muito elogiadas, principalmente por seu toque dinâmico e seguro e pela forte conexão que estabelecem entre os concertos e as óperas de Mozart
Esta postagem foi motivada por uma viagem ao centro do Rio de Janeiro (lá na Cidade, como dizemos aqui), desde o distante bairro de Camboinhas, que fica em Nikiti, do outro lado da baía (da Guanabara, pois é…)
Visitar lojas de discos usados – os sebos – está cada vez mais parecido com a ida de Harry Potter à Ollivanders, a loja de varinhas mágicas. Essa uma que visitei ontem fica escondida na sobreloja de um prédio que dá para uma travessa entre a rua do Ouvidor e a Sete de Setembro. Os CDs estão ainda lá, com todo o charme que costumavam ter, mas a profusão de sacolas e caixas com itens ainda misturados e não catalogados contrastam com a organização dos que ocupam as prateleiras e estantes presas às paredes da loja. Sinal de que muita coisa está chegando, algum colecionador pode ter batido as botas dia desses…
Foi num desses containers que avistei um dos três discos da postagem – Concertos para Piano de Mozart, os de números 18 e 19. Eu que sou fã de todos eles, mas em particular do 19, abri imediata investigação do item. O pobrezinho estava lá na caixa sufocado por gravações do Concerto para Piano de Tchaikovsky e vários Quadros de Uma Exposição…
Max e alguns de seus Grammy’s
O que me chamou a atenção em especial foi o sobrenome do pianista, pois Peter é filho de Rudolf Serkin, também pianista. Além disso, o produtor do disco é o legendário Max Wilcox. Nem todo mundo presta a atenção ao nome do produtor, mas esse papel costuma ser importante na (como posso dizer?) produção de um disco. E Max foi maximal, um nome que costuma garantir a boa qualidade do disco. Entre seus artistas teve Arthur Rubinstein (talvez o mais famoso), Eugene Ormandi, The Guarneri Quartet, Ivan Moravec. Mais recentemente Richard Goode e o Emerson String Quartet, entre outros.
Peter Serkin
Pois vejam, Peter Serkin foi um pianista que se destacou por ter música moderna em seu repertório, mas se negava a rótulos. Você poderá ouvi-lo tocando as Variações Goldberg (várias gravações), obras de Messiaen, Beethoven, Bartók. A orquestra das gravações é a English Chamber Orchestra e foi referência para música barroca e clássica antes da onda dos instrumentos de época, sempre muito, muito boa.
Alexander Schneider é um nome talvez menos conhecido, mas foi excelente músico, violinista, regente, educador e organizador de eventos. Era membro do Budapest String Quartet e atuou na organização assim como artista em festivais como o Casals Festival em Prades e Porto Rico, assim como no Marlboro Music Festival.
Eu gostei muito das interpretações dos concertos, mas em especial do movimentos lentos. Muito bonitos. Espero que você goste…
Uma nota especial para as ilustrações das capas desses três discos, que são parte de uma série de ilustrações produzidas em 1945 por Joseph Solman, a partir de um retrato de Mozart (provavelmente seu último, de 1789) feito por Dora Stock. Solman fez uma série de variações poéticas e brincalhonas buscando induzir uma atitude mais moderna em contraste coma as imagens do compositor naqueles dias. O retrato feito por Dora Stock está na abertura da nossa tradicional lista de faixas, nosso ‘programa’ da postagem.
Peter Serkin’s performances of Mozart’s Piano Concertos with the English Chamber Orchestra conducted by Alexander Schneider are highly praised, particularly for their dynamic and assured pianism, and the strong connection they draw between the concertos and Mozart’s operas.
De uma crítica na Amazon: These are among the best recordings of Mozart Piano Concertos 18 and 19, part of Peter Serkin’s collaboration with the English Chamber Orchestra and conductor Alexander Schneider. Peter Serkin is an excellent Mozartean, only 26 when this 1973 RCA recording was taped. Beautiful, clear analog sound, very balanced and maybe just a hint of congestion in FF piano chords, suggesting the limitations of analog recording technology.
Sacha Schneider e Pau Casals num bate-papo super animado com o pessoal do PQP Bach…
Meu objetivo sempre é permitir que o violão cante. Muitas coisas na música começam com uma canção. O violão é um intermediário entre o público e eu, permitindo-me cantar e transmitir emoção.
O selo amarelo sempre teve um guitarrista ‘da casa’, um artista capaz de tocar o Concerto de Aranjuez e peças solo, como Recuerdos de Allambra, com galhardia e competência – e extremo bom gosto – há que se reconhecer. Isso sem contar a música barroca para cordas pinicadas, como a obra de Bach, Weiss e os concertos de Vivaldi.
Passaram pela casa nomes de peso como Andrés Segóvia e Narciso Yepes. Este último, talvez, tenha deixado o legado gravado mais extenso. Lembro-me de um LP no qual ele interpreta apenas músicas de Tarrega, com uma capa linda, uma paisagem com um castelo em ruínas com o sol lhe batendo direto gerando cores de tons ocres e alaranjados. Isso se você desse sorte com a impressão da capa. Outros nomes menos ibéricos também aparecem na galeria dourada, como Siegfried Behrend, que eu não conhecia e foi uma grata surpresa, e o mais recente, Göran Söllscher, bem conhecido.
Mas hoje a coluna aqui é da renovação e das novidades. Trazemos uma das novas contratações do selo amarelo nessa seara – o violinista Raphaël Feuillâtre, nascido em Djibouti, que fica no nordeste da Costa Africana. Ele cresceu em Cholet, na França. Apesar de que seus pais não fossem músicos, cedo reconheceram seu talento e ele começou com guitarras de brinquedo. Iniciou a estudar música em Cholet, depois Nantes e finalmente Paris, onde estudou no Conservatório entre 2015 e 2020. Ganhou diversos prêmios e já tem seu lugar garantido no circuito de grandes eventos.
O álbum da postagem é abrangente, tem figurinhas carimbadas como Recuerdos de Allambra e Concerto de Aranjuez (com a Verbier Festival Chamber Orchestra regida por Gábor Tackács-Nagy) e algumas outras peças menos conhecidas. Por exemplo, algumas canções folclóricas catalãs, de Miguel Llobet, que foi aluno de Tarrega e professor de Segóvia. Adorei uma das Danzas Españolas de Granadas, com violino e guitarra – adaptação de Feuillâtre, da primeira adaptação de Fritz Kreisler, para violino e piano… Enfim, um delicioso pacote de belezuras que ainda traz o Capricho Árabe, de Tarrega, e a Torre Bermeja, de Albeniz.
Esse é o segundo disco de Raphaël Feuillâtre para a Deutsche Grammophon, com música de Espanha, que eu adoro. O seu primeiro tem como repertório música barroca e é excelente. Em breve no seu distribuidor PQP Bach mais próximo, não perdes por esperar.
Isaac Albéniz (1860 – 1909)
Suite española No. 1, Op. 47
Asturias. Leyenda (Transc. Feuillâtre for Guitar)
Francisco Tárrega (1852 – 1909)
Recuerdos de la Alhambra
Miguel Llobet (1878 – 1938)
Catalan Folk Songs
7, El testament d’Amelia
6, Lo fill del rei
13, Cançó del lladre
15, El noi de la mare
Isaac Albéniz
Espagne
Capricho Catalan (Transc. Feuillâtre for Guitar)
Enrique Granados (1867 – 1916)
Danzas españolas, Op. 37
10, Danza triste. Melancólica (Transc. Llobet for Guitar)
Joaquin Rodrigo (1901 – 1999)
Concierto de Aranjuez
Allegro con spirito
Adagio
Allegro gentile
Enrique Granados – Fritz Kreisler
12 Danzas españolas, Op. 37
5, Andaluza. Playera (Transc. Feuillâtre for Guitar & Violin)
Guitarist Raphaël Feuillâtre releases his album Spanish Serenades, on which he presents Spanish masterworks performed on the original 19th-century guitars of Albéniz, Solés, and Tárrega.
The guitarist has established himself as one of the world’s leading guitar virtuosos. Yet given his young age he approaches these famous pieces from a fresh and passionate perspective. Also a prolific scorer, Feuillâtre created his own new arrangements of many of the tracks, synthesizing them into a uniquely personal and passionate artistic style. As the artist notes, recording iconic Spanish works is a rite of passage for any leading guitarist.
Compostas quando o compositor tinha ainda apenas 23 anos, a coleção de 12 danças divididas em quatro volumes de três danças cada, oferece uma mistura da tradição musical espanhola incluindo as danças regionais, como Galante, Fandango, Aragonesa, Arabesca e outras mais.
Angela Hewitt é um fenômeno, todos nós sabemos. Ela gravou um disco com peças de Bach interpretadas ao piano para a Deutsche Grammophon que volta e meia está na agulha da minha vitrola. Não sei qual foi a história, talvez o selo amarelo goste que seus pianistas gravem apenas um disco com música de Bach – Argerich, Maria João, Pogorelich são exemplos – e moça queria muito mais… O fato é que ela mudou de gravadora, para a Hyperion, e todas as peças de Bach foram parar nesses maravilhosos CDs que tanto ouvimos – algumas delas gravadas duas vezes – depois que ela começou a usar os pianos da Fazioli. alem de gravar as peças de Bach, a incansável Angela gravou Beethoven, Debussy, Ravel e mais alguns outros compositores franceses, sempre com muita beleza, muita maestria.
Pois foi com esse panorama em mente que avistei este disco aqui na repartição – PQP Bach Corp – quase não a reconheci fantasiada de espanhola, assim com um ar de cigana. Eu que tenho predileção por esse repertório, agarrei-me logo ao disco, que desde então tem me dado muito prazer. As gravações são do tempo em que ela era canadense, nos remotos idos de 1994, feitas pela CBC Records, gravadora ligada à Radio Canada.
E, como os nossos assíduos leitores do blog sabem, o que eu gosto, eu posto. Eis aqui uma gravação das Danzas Españolas para fazer companhia àquela outra maravilhosa feita pela excelente Alicia de Larrocha.
Enrique Granados (1867 – 1916)
12 Danzas Espanolas , Op. 37
Minuetto
Oriental
Zarabanda
Villanesca
Andalusa
Rondalla Aragonesa
Valenciana
Asturiana
Mazurca
Danza Triste
Zambra
Arabesca
Quejas O La Maja Y El Ruisenor, Op. 11 No. 4
Queixas ou A Donzela e o Rouxinol
El Pelele, Op. 11 No. 7
O Manequim de Palha
Angela Hewitt, piano
Selo: CBC Records – MVCD 1074, Les Disques SRC – MVCD 1074
Texto da Página Gulbenkian Música: Angela Hewitt gravou as “Danças Espanholas” de Enrique Granados, com uma interpretação elogiada pela sua sensibilidade ao tom, contraste dinâmico, ritmo vibrante e feeling para a atmosfera. A crítica da Gramophone destacou sua técnica e expressividade, especialmente na execução de obras como “Goyescas”. O álbum, disponível em plataformas como Apple Music, foi descrito como belíssimo e tocado com um toque, clareza e expressividade de tirar o fôlego.
Eu concordo…
Aproveite!
René Denon
Enrique Granados
O disco também está na plataforma de streaming Tidal:
Meu pai era engenheiro ferroviário de nacionalidade francesa, e minha mãe era basca, de Saint-Jean-de-Luz, mas provavelmente de origem espanhola. Ela costumava me embalar para dormir cantando guajiras. Talvez seja por causa dessa ligação que me sinto tão atraído pela Espanha e sua música.
Maurice Ravel (ao repórter que o entrevistou em sua primeira visita à Madri)
Imogen Cooper é uma pianista inglesa conhecida por suas interpretações de Schubert e Schumann, apresenta-nos um disco com repertório mais associado a nomes como Alicia de Larrocha, Rafael Orozco, Joaquín Achúcarro ou, mais recentemente, Luis López. Mas, Imogen Cooper tem parte de sua formação musical na França, que tem pronta conexão com este universo Ibérico. Basta pensar em nomes como Aldo Ciccolini, que nasceu em Nápolis, mas tornou-se francês, e mais anteriormente, o pianista espanhol Ricardo Viñes, que foi o intérprete por excelência de peças como as deste disco.
Eu simplesmente adoro esse repertório e me deliciei (e continuo a desfrutar) do disco, que tem som e produção excelentes. A conexão França – Ibéria está viva neste disco e a boa novidade são as obras de Mompou, que eu conhecia menos e deixaram um ótimo gostinho de quero mais…
Faz tempo que os franceses descobriram a Ibéria…
Iberia y Francia
RAVEL
Pavane pour une infante défunte
Alborada del gracioso
FALLA
Homenaje: pièce de guitare écrite pour ‘Le Tombeau de Claude Debussy’
Caso você tenha acesso às plataformas de distribuição de músicas, aqui está uma possibilidade para a audição:
“Iberia y Francia”, de Imogen Cooper, é um álbum para piano que explora as conexões musicais entre a França e a Espanha. O álbum apresenta obras de compositores franceses como Claude Debussy e Maurice Ravel, além de compositores espanhóis como Isaac Albéniz, Manuel de Falla e Federico Mompou. A interpretação de Cooper dessas peças demonstra seu virtuosismo e suas habilidades líricas, reconhecidas internacionalmente.
Para uma experiência incrível de tocar piano e programar algo que incendeie a imaginação, sugiro que você defina seu padrão interno como “luxe, calme et volupté” e se prepare para a partida. Uma jornada maravilhosa o aguarda.
Aproveite!
René Denon
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Gustav Mahler sobre os textos reunidos em Des Knaben Wunderhorn
Mahler explicou: Os textos reunidos no Wunderhorn, por exemplo, não são poemas magistrais, mas blocos de granito dos quais quem quiser poderá formar o que bem desejar. Foi assim que Mahler preparou os textos retirados dessa coleção para compor suas canções, os encurtou, acrescentou repetições, reorganizou, reunindo mais do que um poema em uma só canção, acrescentou versos e com isso deu a certos textos novos sentidos.
Meu primeiro contato com a música de Mahler foi o disco ‘Mahler para Milhões’, uma antologia de trechos da Integral das Sinfonias gravada por Rafael Kubelik. Duas faixas desse disco são canções compostas sobre textos encontrados na coleção de poemas folclóricos reunidos na coletânea intitulada Des Knaben Wunderhorn editada por Clemens Brentano e Archim von Arnim entre 1805 e 1808. Essas poesias rústicas inspiraram vários compositores como Mendelssohn, Schumann, Brahms e outros, mas com Mahler foi um pouco diferente. Ao longo de 14 anos, entre 1887 e 1901, ele compôs 24 canções com letras construídas de textos dessa coleção. Um percurso memorável que transcendeu a canção e permeou seu universo sinfônico.
Vamos à postagem. Como adoro essas canções, venho colecionando diversas gravações, tanto das 12 canções que foram orquestradas, ou 15, se levarmos em conta mais três que estão incorporadas às sinfonias e das 9 primeiras que ficaram na forma voz acompanhada por piano. Digo ficaram porque as canções do Wunderhorn foram sempre compostas originalmente para voz e piano e de um ponto em diante Mahler passou a escrever uma versão orquestral para o acompanhamento. De qualquer forma, esse conjunto foi sendo publicado, mas Mahler não teve a intensão de que formassem um ciclo, como o Dichterliebe de Schumann ou o Winterreise de Schubert.
Hoje vamos ouvir (postar) duas gravações nas quais as canções são interpretadas com duas vozes acompanhadas por orquestra. Há gravações de todos os jeitos, inclusive uma só voz e acompanhamento de piano. Hoje ficaremos no conjunto daquelas cujo acompanhamento é feito por orquestra.
Nas duas gravações escolhidas as orquestras são de rádios alemãs, uma delas com dois cantores que podemos chamar de lendas do Lieder: Dietrich Fischer-Dieskau e Brigitte Fassbaender. Eles são acompanhados pela Rundfunk-Sinfonieorchester Saarbrücken regida por Hans Zender, numa gravação feita em abril de 1979. Eles cantam 11 canções ao longo de 45 minutos intensos. Do ‘canone´das 12 Wunderhorn com acompanhamento de orquestra só ficou de fora uma cançãozinha intitulada Verlor’ne Muh’. O regente é Hans Zender, também compositor, arranjou o Winterreise para voz e orquestra e foi bem identificado com música contemporânea. Este é o segundo disco de um álbum duplo, parte de uma coleção de CDs lançada em sua homenagem, reunindo música de compositores clássicos e contemporâneos. O outro disco traz a Nona Sinfonia de Mahler, mas hoje é dia de Knaben Wunderhorn.
Michael Volle
O outro disco da postagem tem cantores menos estelares, mas não menos maravilhosos, diferentes. Temos as 12 canções usualmente listadas como o ‘ciclo’ Wunderhorn e mais duas das que habitam o universo sinfônico: Urlicht, da Segunda Sinfonia, e Das himmelische Leben, movimento final da Quarta Sinfonia. Esse generoso disco traz também um excelente texto no libreto. Aqui a orquestra é mais conhecida, pelo menos eu acho, a Gürzenich-Orchester Köln, regida por Markus Stenz. Eles gravaram um ciclo das Sinfonias de Mahler. Eu não ouvi os discos, mas deve ter pelo menos boas gravações, contando com o que eu ouvi aqui e com a tradição e experiência do conjunto.
Se você já tem alguma experiência com a música de Mahler e, em particular, com as canções do Wunderhorn, sabe que vai encontrar um universo sonoro cheio de trechos de fanfarras e marchas militares, tão significativas para o compositor, e personagens fantásticas. Soldados, fantasmas, crianças famintas, animais, santos e pecadores. Esse clima de lendas e mensagens subliminares merece audição cuidadosa e um certo esforço para entender a trama de cada um desses microuniversos pode render mais prazer na audição.
Eu gosto muito de canções como Des Antonius von Padua Fischpredigt que conta como os ‘peixes’ prestam muita atenção ao sermão do santo, mas ao fim do mesmo retornam às suas mesmas práticas e rotinas, assim como nós mesmos. Adoro Rheinlegendchen, com o peixe com o anel na barriga. E adivinhem quem encontrará o anel? E como ele foi parar ali? Como termina a historieta?
As canções com soldados, temas de guerra e de separações de casais por essas razões fazem um grupo entre elas, sendo que Revelge e Der Tamboursg’sell são as últimas canções do Wunderhorn a terem sido compostas, publicadas em conjunto com as canções sobre poemas de Rückert. Essas canções sumarizam essa fase e encerram os 14 anos nos quais Mahler lidou com esse material.
Voltaremos ao tema do Wunderhorn em próximas postagens.
The Wunderhorn songs contain a partnership of Brigitte Fassbaender and Dietrich Fischer-Dieskau that has to be a recommendation in itself. […] This release is especially valuable in that it’s the only chance we have to hear this incomparable artist in these songs. It’s also good to see this performance correctly assigns one singer to each song since most recordings make the “dialogue” songs duets which was a practice Mahler never sanctioned. One song usually included in performances, “Verlor’ne Muh”, is missing.
Dietrich Fischer-Dieskau
Fischer-Dieskau gives a stunning performance of “Revelge”, full of a character and experience. Likewise in “Der Tambourg’sell” he’s the complete Mahlerian in covering every aspect of these bittersweet poems. […] Fassbaender is the antidote to singers like Janet Baker for Wyn Morris. In fact she’s very much the counterpart to Fischer-Dieskau in pointing up the words clearly and with total understanding. In “Lob des hohen Verstandes” she shows a nice line in humour […]. Then in “Wo die schonen Trompeten blasen”, sung by Fassbaender alone, the depth she brings stays long in the mind. […] The vocal partnership for the Wunderhorn songs is absorbing and rewarding along with Zender’s fine accompaniment of it.
Tony Duggan
Zender conseguindo um ‘crescendo’ da PQP Bach SinfoniettaChristiane Oelze
Michael Volle makes a strong impression. He is characterful in ‘Des Antonius von Padua Fischpredigt’, an orchestral expansion of which found its way into the Second Symphony. He’s even better in the military songs, such as ‘Die Tambourgsell’, the tale of the drummer boy awaiting execution – Stenz’s accompaniment to this is excellent too. Volle also excels in ‘Revelge’, which he sings with fine swagger and bravado; the orchestral scoring is, once again, very well touched in, not least in the ghostly prelude to and accompaniment of the last stanza. Volle also sings ‘Der Schildwache Nachtlied’; here I admired the contrasts he brings to the vocal line and his impressive top register.
Christine Oelze sings expressively, though here and elsewhere I didn’t find that her words were always clear – and I’m not talking just about when she’s singing in her top register. She’s suitably pert in ‘Wer hat dies Liedlein erdacht?’ and, singing in duet with Volle, she catches the playful side of ‘Verlor’ne Müh!’ very well. Although she doesn’t have quite the mezzo timbre she is more convincing in ‘Urlicht’ than I would have expected a soprano to be[…].
On the evidence of what I’ve heard so far Markus Stenz is a pretty good Mahler conductor – and, at his best, in the Third and Fifth Symphonies, a very good one indeed – and he’s working with a very good orchestra.
John Quinn
Markus Stenz
Caso você tenha acesso às plataformas de distribuição de músicas, aqui está uma possibilidade para a audição:
Brigitte Fassbaender
The Wunderhorn songs contain a partnership of Brigitte Fassbaender and Dietrich Fischer-Dieskau that has to be a recommendation in itself. […] This release is especially valuable in that it’s the only chance we have to hear this incomparable artist in these songs. It’s also good to see this performance correctly assigns one singer to each song since most recordings make the “dialogue” songs duets which was a practice Mahler never sanctioned. One song usually included in performances, “Verlor’ne Muh”, is missing.
Fischer-Dieskau gives a stunning performance of “Revelge”, full of a character and experience. Likewise in “Der Tambourg’sell” he’s the complete Mahlerian in covering every aspect of these bittersweet poems. […] Fassbaender is the antidote to singers like Janet Baker for Wyn Morris. In fact she’s very much the counterpart to Fischer-Dieskau in pointing up the words clearly and with total understanding. In “Lob des hohen Verstandes” she shows a nice line in humour […]. Then in “Wo die schonen Trompeten blasen”, sung by Fassbaender alone, the depth she brings stays long in the mind. […] The vocal partnership for the Wunderhorn songs is absorbing and rewarding along with Zender’s fine accompaniment of it.
Tony Duggan
Zender conseguindo um ‘crescendo’ da PQP Bach Sinfinietta…
Michael Volle makes a strong impression. He is characterful in ‘Des Antonius von Padua Fischpredigt’, an orchestral expansion of which found its way into the Second Symphony. He’s even better in the military songs, such as ‘Die Tambourgsell’, the tale of the drummer boy awaiting execution – Stenz’s accompaniment to this is excellent too. Volle also excels in ‘Revelge’, which he sings with fine swagger and bravado; the orchestral scoring is, once again, very well touched in, not least in the ghostly prelude to and accompaniment of the last stanza. Volle also sings ‘Der Schildwache Nachtlied’; here I admired the contrasts he brings to the vocal line and his impressive top register.
Christine Oelze sings expressively, though here and elsewhere I didn’t find that her words were always clear – and I’m not talking just about when she’s singing in her top register. She’s suitably pert in ‘Wer hat dies Liedlein erdacht?’ and, singing in duet with Volle, she catches the playful side of ‘Verlor’ne Müh!’ very well. Although she doesn’t have quite the mezzo timbre she is more convincing in ‘Urlicht’ than I would have expected a soprano to be[…].
On the evidence of what I’ve heard so far Markus Stenz is a pretty good Mahler conductor – and, at his best, in the Third and Fifth Symphonies, a very good one indeed – and he’s working with a very good orchestra.
Ao ouvir esse disco (com muito prazer) a palavra groovy me veio à mente. Eu realmente não sei se o termo é adequado, mas para mim, ficou sendo. Groovy no sentido descolado, com um certo senso nostálgico, mas de certa forma atual – ou melhor – atemporal.
Não adianta insistir com as palavras, creio que o ideal é ouvir o disco – que é bem curtinho – e ver se você concorda comigo, se me entende.
Eu gosto dessa combinação de dois saxofonistas, um propondo um tema, uma ideia para o outro tomar e elaborar, ou quando ambos atacam o tema juntos, como é o caso bem na abertura do disco, na primeira faixa, chamada Bunny.
Hodges
O disco vai assim, uma mais levada, outra mais mela-cueca, como descreveria o síndico, mas tudo groovy!
Gerry Mulligan é uma figura já do século XX e foi primariamente um saxofonista, do cool jazz, mas também tocava clarineta e piano, era compositor e fazia arranjos. Atuou ao lado de nomes lendários como Miles Davis e Chet Baker.
Johnny Hodges era mais velho do que Mulligan e ficou conhecido por atuar como solista no grupo de Duke Ellington, mas teve também sua própria banda e a sua própria história.
Sobre Johnny Hodges: In addition to the singing clarity and mellowness of Hodges’ tone, his playing is also characterized by consummate poise. […] A corollary of Hodges’ poise is his capacity for total relaxation – floating, flawless time, fully developing ideas; an equal ease in ballads and swings.
Como eu disse: groovy!
Aproveite!
René Denon
PQP Bach Quizz: Por que a faixa 5 é intitulada 18 Carrots for Rabbit?
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Imagine um amante da música e de suas gravações que tenha ficado por um bom tempo sem acesso às informações e lançamentos musicais. Há vários cenários nos quais tal situação poderia ter ocorrido. O cara poderia ter ficado algumas décadas em uma ilha isolada de tudo e todos, como o Chuck-Tom Hanks em Cast Away (O Náufrago) em companhia apenas de uma bola de basquete e só nos dias de hoje tenha retornado à chamada ‘civilização’. Outra possibilidade é uma situação semelhante à vivida pelo general do ‘Me tira o tubo!’, personagem do Jô Soares, que sai do coma depois de décadas e se depara com o cenário da música gravada atual. Esse nosso fictício amante dos discos ficaria definitivamente confuso ao se deparar com o lançamento dessa postagem.
Como assim? John Eliot Gardiner no selo Deutsche Grammophon, não no Archiv Produktion? E regendo uma baita orquestra com instrumentos modernos? Sem contar que essa orquestra, a tal de Amsterdã, que grava para o selo Philips! E o repertório, Sinfonias de Brahms, não é música antiga ou barroca!
Realmente, o lançamento reúne as quatro sinfonias de Brahms numa ótima gravação, uma excelente maneira de se ouvir as sinfonias do Hannes. A orquestra é um primor e John Eliot, que andou com sua imagem desgastada pelo episódio de pugilismo fora dos ringues, garante andamentos ágeis e ótima articulação de tudo.
Ainda bem que Gardiner se retratou, pediu desculpas ao alvo de suas ‘manitas de piedra’ e agora tenta se enquadrar.
Eu ouvi essa gravação novinha das sinfonias de Brahms comparando com um dos ciclos do ‘inominável’ HvK, o segundo que ele gravou com a Berliner Philharmoniker, no fim da década de 1970. As gravações de Karajan foram muitas e tiveram muitas encarnações nos LPs e nos CDs, mas há um bom mapa que permite entender a cronologia e identificar esse ou aquele particular lançamento. Para isso, faça uma visita à página do blog IONARTS, aqui.
Não posso dizer que gostei mais desse do que daquele, acho os dois ciclos excelentes. Mas, se me torcerem o braço, escolheria a gravação recente.
“Can I protest my innocence?” John Eliot said. “I can be impatient, I get stroppy, I haven’t always been compassionate. I made plenty of mistakes in my early years. But I don’t think I behaved anything like as heinously as you have heard. The way an orchestra is set up is undemocratic. Someone needs to be in charge.”
Johannes Brahms (1833 – 1897)
Symphony No. 1 in C minor, Op. 68
Un poco sostenuto – Allegro
Andante sostenuto
Un poco allegretto e grazioso
Adagio – Più andante – Allegro non troppo, ma con brio – Più allegro
In these performances, Gardiner manages to have his period-instrument cake and enjoy his modern-instrument refinement in a way that is totally convincingThe Guardian
Johannes Brahms (1833 – 1897)
Symphony No. 1 in C minor, Op. 68
Un poco sostenuto – Allegro
Andante sostenuto
Un poco allegretto e grazioso
Adagio – Più andante – Allegro non troppo, ma con brio – Più allegro
The playing of the Berlin Philharmonic remains uniquely cultivated, the ensemble is finely polished, and yet there is no lack of warmth or impetus throughout the set. — Penguin Guide, 2011 edition
Aqui outra ótima opção para as sinfonias do Hannes:
‘When Benjamin Grosvenor finally makes his first entrance, it proves well worth the wait, and his playing beguiles from the off; as the dynamics sink, his lines are full of poetry but they unfold with utter naturalness.’
[Gramophone, sobre o disco com os concertos]
A música de Chopin pode ser bem mal compreendida. Algumas de suas peças sofrem de superexposição – todos os pianistas, profissionais e (especialmente) amadores, experimentam nela as suas mãos, nem sempre com bons resultados. Assisti a um documentário sobre o que já não mais lembro (perdoem-me, isso definitivamente foi no século passado) no qual a trilha sonora eram valsas de Chopin, tão maltratadas, que precisei dar uma voltinha até o filme principal começar.
Um dos riscos é a banalização, como foi o caso a que me referi, ou pode ser o excesso de ‘interpretação’, derramamento de doçuras ou romantismo desmesurado. Mesmo assim, a lista de gravações dos concertos para piano, como poderia dizer Leporello, ‘ma in CDs son già mille tre!’. Eu mesmo tive em CD apenas uma gravação, Perahia / Orquestra de Israel / Mehta.
O Noturno em mi bemol maior, Op. 9, 2 foi tanto usado em comerciais que se fosse um sapato estaria em estado lastimável.
Mesmo assim, com todos esses riscos, sou fã da música de Chopin de carteirinha e investigo sempre as novas gravações de suas peças. O primeiro disco de suas peças que ouvi à exaustão foi gravação de Arturo Benedetti Michelangeli com algumas mazurcas, um prelúdio, a Balada que eu mais gosto e o segundo Scherzo.
Ouvi tantas coisas boas sobre a gravação dos concertos pelo Benjamim Grosvenor, o primeiro dos discos da postagem, que acabei ouvindo-o um bom número de vezes. Se não o havia postado antes, não foi por falta de insistência do pessoal da repartição. Há aqui quem ame essas obras de paixão. Quando me deparei com esse outro recente disco, com as duas sonatas e mais algumas coisas, inclusive a balada que eu amo, entendi que a hora havia chegado. Assim, aqui está um pacote de Chopin para ninguém botar defeito. Como diria o Alf…
[Grosvenor’s] lines are full of poetry but they unfold with utter naturalness. Chan follows his every gesture unerringly – there’s no doubting the musical chemistry at play here…Grosvenor has also been blessed with a very fine instrument and a fabulous recording. It’s the kind of disc that makes you rethink these works and appreciate them all over again. And let’s hope that this is the start of a wonderful recording partnership with Elim Chan. Gramophone 2020
Frédéric Chopin (1810 – 1849)
Piano Sonata No. 2 in B flat minor, Op. 35 ‘Marche funèbre’
Grave – Doppio movimento
Scherzo – Più lento
Marche funèbre. Lento
Finale. Presto
Berceuse in D flat major, Op. 57
Berceuse
Ballade No. 1 in G minor, Op. 23
Ballade
Nocturne No. 15 in F minor, Op. 55 No. 1
Nocturne
Nocturne No. 16 in E flat major, Op. 55 No. 2
Nocturne
Piano Sonata No. 3 in B minor, Op. 58
Allegro maestoso
Scherzo. Molto vivace
Largo
Finale. Presto non tanto
Benjamin Grosvenor (piano)
Recorded: 2024-09-26
Recording Venue: Lady Stringer Studio, Garsington Opera, Buckinghamshire
Benjamin Grosvenor explores the depths of Chopin with new album featuring Piano sonatas 2 & 3. Benjamin’s ninth album for Decca classics features two of Chopin’s most profound and contrasting works. Written nearly a decade apart, these masterpieces showcase the range of Chopin’s emotional and musical brilliance. Alongside the sonatas are three shorter works: the dramatic Ballade No.1, the peaceful lullaby Berceuse, and two Nocturnes.
Benjamin Grosvenor explora as profundezas de Chopin em um novo álbum com as sonatas para piano 2 e 3. O nono álbum de Benjamin para clássicos da Decca apresenta duas das obras mais profundas e contrastantes de Chopin. Escritas com quase uma década de diferença, essas obras-primas demonstram a amplitude do brilhantismo emocional e musical de Chopin. Além das sonatas, há três obras mais curtas: a dramática Balada nº 1, a serena canção de ninar Berceuse e dois Noturnos.
“A beautiful performance with a bright musicality was born.”
eBravo digital magazine
Miura testando um exemplar da coleção de arcos do acervo do PQP Bach
Caso eu fosse músico profissional ou mesmo razoável amador, pianista ou violinista, teria a Sonata para violino e piano de César Franck em meu repertório. É uma dessas obras que nos cativa desde a primeira audição. E para completar o programa do disco, outra sonata espetacular, a Primeira Sonata de Brahms. Johannes atuou muito, desde a sua juventude, como pianista acompanhante, especialmente de violinistas, e sabia de tudo sobre o ofício – o repertório, os truques, as técnicas. Mas isso miles de compositores sabiam, além disso, ele tinha o dom, era Brahms e terrivelmente auto-crítico.
Nobu é uma simpatia…
Aqui temos um disco lançado recentemente pela Deutsche Grammophon, que contratou o virtuose pianista Nobu Tsujii e também adquiriu os direitos sobre suas antigas gravações e esse disco é um desses casos. A gravação foi feita no Teldex Studio, Berlim, por volta de 2017, pela Avex Classics. Nestes dias a dupla de jovens músicos, Miura e Tsujii andavam pelas cidades do Japão dando recitais. Você vai encontrar vários vídeos deles tocando trechos de sonatas no YouTube.
Eu só conheci o disco agora, ponto positivo para o relançamento, afinal de contas, nada como ouvir linda música executada tão primorosamente como é o caso aqui.
César FRANCK (1822-1890)
Sonata para Violino em lá maior (1886)
Allegretto ben moderato
Allegro
Recitativo-Fantasia. Ben moderato – Molto lento
Allegretto poco mosso
Johannes BRAHMS (1833-97)
Sonata para Violino No. 1 em sol maior, Op. 78 (1878-79)
Vivace ma non troppo
Adagio
Allegro molto moderato
Fumiaki Miura, violin
Nobuyuki Tsujii, piano
Gravação. 2017-18, Teldex Studio, Berlin
AVEX CLASSICS AVCL25991 [56:02]
Trechos de uma crítica que pode ser lida integralmente aqui: Despite the stiff competition […], this newcomer can hold its head high. In the opening movement, Miura and Tsujii contour the ebb and flow of the narrative, confidently negotiating the harmonic shifts and tempo variants. The second movement is turbulent and impressively virtuosic. I’m particular taken by the heartfelt anguish of the Recitativo, and the sheer joy and elation with which they approach the finale.
The inclusion of the Brahms Violin Sonata No. 1 is apposite, as beguiling lyricism likewise permeates the score. Miura’s warm, burnished tone is ideal for this music. The opening movement’s gentle, bucolic charm is eloquently conveyed. The Adagio, which follows, is played with unfeigned sincerity and radiant fragility, and there’s nobility of gesture in the passionate moments of the ‘Regenlied’ finale.
Fumiaki Miura plays a 1704 Stradivarius loaned by the Munetsugu Foundation.
Apesar da forte concorrência […], este novo lançamento pode orgulhar-se dos resultados. No movimento de abertura, Miura e Tsujii contornam o fluxo e refluxo da narrativa, entretrocando com confiança as mudanças harmônicas e as variações de andamento. O segundo movimento é turbulento e impressionantemente virtuoso. Fiquei particularmente impressionado com a angústia profunda do Recitativo e com a pura alegria e euforia com que abordam o final.
A inclusão da Sonata para Violino nº 1 de Brahms é oportuna, visto que um lirismo sedutor também permeia a partitura. O timbre quente e polido de Miura é ideal para esta música. O charme suave e bucólico do movimento de abertura é transmitido com eloquência. O Adagio, que se segue, é tocado com sinceridade genuína e fragilidade radiante, e há nobreza de gestos nos momentos apaixonados do final de “Regenlied”.
Fumiaki Miura toca um Stradivarius de 1704 emprestado pela Fundação Munetsugu.
Aproveite!
René Denon
O prestativo Departamento de Artes do PQP Bach Corp. Enviou essa ilustração do Miura tocando um violino
“For me, listening is the most important thing: to listen to each other, to listen to what people say, to listen to music.”
C. Abbado
Petrouchka
Claudio Abbado teve papel importante no cenário da música clássica ao divulgar e ampliar os repertórios das orquestras com as quais trabalhou interpretando com esmero e altíssimo nível técnico e artístico obras do século XX. Ele ganhou posições de destaque na década de 1960 e, à partir de 1967, assinou contrato de gravações com o selo amarelo, na época (e de certa forma até agora) sinônimo de ótima música e excelentes produções.
O álbum dessa postagem reúne gravações que Abbado fez regendo a London Symphony Orchestra de obras de Stravinsky, que nasceu no século XIX, mas viveu seu apogeu como compositor no século XX.
Claudio Abbado teve uma estreita relação com a LSO, da qual foi o regente principal de 1979 até 1987. Estas gravações foram lançadas em diversas ocasiões, no formato de CD, como na série Abbado-Edition, em comemoração dos 25 anos da relação Abbado-DG. Na forma como os arquivos estão reunidos aparecem na série 2CD, cuja linda capa coloquei na abertura da postagem, spin-off da série Philips Duo, que reuniam gravações afins em dois CDs, vendidos à ‘medium-price’ e também numa enorme coleção de 46 CDs, reunindo as gravações do regente com a London Symphony Orchestra. Nesta coleção esses são os disco 38 e 39.
Temos no pacote a gravação da Sagração da Primavera, uma suíte de Concerto d’O Pássaro de Fogo, Jogos de Cartas, isso no primeira parte do pacote. Na segunda, quatro cenas de Petrouchka, na versão original de 1911, e Pulcinella. Minha motivação principal para a postagem é exatamente essa gravação de Pulcinella, peça que eu gosto muitíssimo. Aqui temos a gravação com as partes cantadas – os cantores são excelentes. A mezzo-soprano Teresa Berganza, com quem Abbaddo e a LSO gravaram o Barbeiro de Sevilha, de Rossini, o tenor Ryland Davies e o baixo John Shirley-Quirk.
A edição dessas peças na forma 2CD (com a capa no alto da postagem) foi escolhida como uma entre as Top 20 Recordings da obra de Stravinsky pela Gramophone: Claudio Abbado succeeds in conveying the kaleidoscopic brilliance of Stravinsky’s [Petrushka] score and secures from the LSO playing of real dramatic intensity. Phrases are shaped with far more care and rhythms articulated with greater vitality than on Dorati’s record, and throughout the score there is a powerful sense of dramatic atmosphere. (Robert Layton, November 1981)
Aproveite!
René Denon
Foto do libreto da edição com 46 CDs. Claudio estava bem feliz com a LSO
“The emotional centre of the Sonata in B-flat major is found in the ‘Andante cantabile’, an operatic aria transferred to the keyboard idiom.”
Mozart andava longe de minha vitrola, falta grave que demandava reparo urgente. O fato é que estou passando de fase, mudando e adaptando-me mais uma vez, arrastado pelas novas tecnologias. Eu sempre fui arrojado na incorporação de avanços tecnológicos nos meus afazeres e nos entretenimentos. Ouvia LPs, mas gravava fitas cassete (lembram) para ouvir no Walkman! Quando surgiram os CDs fiz a transição com a celeridade que o bolso me permitia. Fui trocando, vendendo os LPs para os amigos, para os donos de sebos de LPs e investindo nos CDs. A transição dos CDs para os arquivos digitais foi mais lenta, ainda tenho miles de CDs acumulados pela casa, mas ouço-os cada vez mais raramente. Pelo menos fisicamente, pois a música continua toda aqui, muitos verões atrás passei a digitalizá-los e tenho-os todos por aqui em HDs e parte na nuvem, mesmo os que já enferrujaram. Nestas duas últimas semanas comecei a usar de maneira mais ‘metódica’ uma plataforma de distribuição de música. Escolhi TIDAL e estou adorando! Com isso, estou assim como pinto no lixo, fuçando as novidades, que são tantas, haja tempo. Foi assim que dei com o pianista Andreas Haefliger.
O sobrenome é conhecido do pessoal que gosta de cantores, houve um tenor Ernst Haefliger. O pessoal aqui na repartição acabou de me contar que Andreas é filho do Ernst. Houve, também, um grande matemático, André Haefliger. O Haefliger matemático estudou as folheações, uma parte muito bonita da Matemática.
Uma folheação é a divisão ou um preenchimento de um ambiente matemático em subespaços, todos de mesma dimensão, empilhados uns sobre os outros, como um doce de mil-folhas ou uma resma de papel que caiu na piscina e as folhas tornaram-se ligeiramente enrugadas.
Mas, ahãmmm…. divago! Voltemos ao Mozart. As novas gravações do Haefliger pianista que vi no TIDAL me fizeram tomar o percurso inverso, de volta aos LPs, pois havia um no qual Andreas interpretava sonatas para piano de Mozart e eu me lembrei dele com gosto. O LP era do período em que a Sony tomou o lugar da CBS. Como você pode bem imaginar, o LP já não existe mais há tempos e o CD (pois que tive a encarnação do disco em CD também), se está ainda comigo, deve estar em alguma das caixas que ainda não abri desde a mudança. Assim, vasculhei HDs e espaços nas nuvens e acabei achando uma ripagem (lembram que fazíamos essas coisas?) para mp3 que está ótima para consumo.
Como me lembrava, o disco é ótimo, uma tarde agradabilíssima ao som dessas três sonatas do Wolfie interpretadas pelo jovem Andreas. Ele andou (re)gravando mais sonatas de Mozart, mas ainda não cheguei lá, está tudo lá no TIDAL. Por ora, vamos de coisas (nem tão) velhas (assim) em mídia mais recente.
Da resenha de um crítico amador da Amazon: The three sonatas collected here are among my favorites. The F-major sonata is very personal, while the Bb-major one is virtuosic and resourceful. Finally, the emotional c-minor sonata (preceded by the c-minor prelude), shows a side of Mozart that we are not especially familiar with, one which appears to lead directy into Beethoven’s piano compositions. This is an excellent CD, both for those who have never heard Mozart’s sonatas and those are familiar and who would like to hear a fine rendition of them.
Concordo plenamente com o Timmy!
Aproveite!
René Denon
Andreas experimentando um dos pianos da coleção do PQP Bach Corp.
Uma ópera sobre Tosca nunca seria um sucesso – a ação inclui cenas de tortura, tentativa de estupro, assassinato, uma execução e alguém se jogando para a morte do alto de um castelo – simplesmente brutal!!
Puccini e Toscanini foram grandes amigos, mas a estreia de Tosca foi dada por um outro maestro…
Esse foi um dos argumentos usados pelo editor Ricordi e por seu libretista Luigi Illica para induzirem um agora desconhecido compositor de óperas ceder o direito sobre o libreto baseado na peça de Victorien Sardou. E eles acrescentaram que toda a história decorre em torno das 24 horas de um dia de junho de 1800, num momento de conflitos de todas as ordens – republicanos contra monarquistas, Áustria contra Itália, Napoleão contra o mundo. O compositor nem vacilou, passou para frente a batata quente. No outro dia o contrato para a composição da ópera e o primeiro copião do libreto estavam nas mãos de Puccini. Ele havia se interessado pela história desde o lançamento da peça, em 1889, mas andava ocupado com La Bohème e Manon Lescaut. O libreto de Illica ainda estava longe do que Puccini queria e mais um colaborador foi chamado a bordo. Giuseppe Giacosa já havia trabalhado nos libretos das outras óperas de Puccini e, após muitas noites de tesoura e cola, de pressões do editor, muito esperneio, o resultado é essa maravilha que podemos ouvir, com a música de Puccini.
É famosa e impossível não citar a frase de Giacosa sobre duas das mais famosas óperas de Puccini – La Bohème e Tosca: “La Bohème é pura poesia e nenhuma ação; Tosca é só ação, sem poesia.” Mas eu discordo um pouquinho, sobre a parte da poesia… No início do terceiro ato, que eu adoro, um pastorzinho canta, logo na abertura, os versos a seguir:
Io de’ sospiri, / te ne rimanno tantti / pe’ quante foje / ne smoveno li venti.
Algo assim como: Meus suspiros são tantos quanto são as folhas levadas pelo vento…
Voltando ao assunto da ópera, assim como sabia Guimarães Rosa: “Mas nada disso vale a fala, porque a história de um burrinho, como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida.” Realmente, toda a ação da ópera se dá no resumo de um dia, no mês de junho de 1800. Cada um dos três atos tem como cenário um lugar que realmente existe em Roma.
A igreja real
O primeiro ato se dá na Igreja Sant’Andrea della Valle. Nela encontramos um fugitivo da polícia política, o consul da breve República Romana, Cesare Angelotti, que estava nas garras do Barão Scarpia. Na Igreja onde ele busca refúgio encontra o pintor Mario Cavaradossi, amante de Tosca e simpatizante da República. Cavaradossi está pintando uma Maria Madalena, inspirado em uma linda loura de olhos azuis, exatamente a irmã do fugitivo. Isso, é claro, acaba despertando o furor e o ciúme de Tosca, desconfiada por ouvir os cochichos de Mario e Cesare, que se esconde numa das capelas. Tosca é uma famosa cantora de ópera, católica fervorosa e por sua posição monarquista.
Um tiro de canhão da conta da fuga do prisioneiro e tudo se precipita, com a chegada de Scarpia e seus asseclas em busca do fugitivo. Scarpia desconfia de Cavaradossi e joga com os sentimentos exacerbados de Tosca. O ato termina num tour de force, com a notícia da derrota de Napoleão o coro da igreja entoa um Te Deum, durante o qual o perverso Scarpia se regozija com a possibilidade de dupla vitória – prender os fugitivos e possuir Tosca: Con spasimo d’amor, […] um vai para a ponta da corda, a outra direto para os meus braços!
O segundo ato ocorre no Palazzo Farnese – onde vive Scarpia – que está jantando. Nesse local se dará cenas terríveis: a tortura de Cavarodossi, cujos gritos acabam fazendo Tosca fazer um acordo com o malvado e vil Barão. A tentativa de estupro, seguida do assassinato – a punhalada certeira, desfechada pela brava Tosca. Ela havia negociado sua fuga com Mario (duplo salvo-conduto, essas coisas) que deveria ter sua morte encenada de mentirinha.
O terceiro ato se passa no Castelo Sant’Angelo, onde Mario passa a noite – será fuzilado ao amanhecer. Eu adoro esse breve fechamento da ópera. Uma montanha russa de emoções. O prelúdio desse ato é um pouco mais longo, afinal estamos esperando raiar o dia. O tema da ária de despedida do pintor é apresentado pela orquestra, belíssimo!!!
Cavaradossi que é pintor diz essa maravilha de frase: L’ora è fuggita, e muoio disperato, e non ho amato mai tanto la vita… (A hora se foi e eu morro desesperado, e nunca amei tanto a vida).
Após uma sequência dos dois amantes, a execução, seguida da descoberta da tragédia por Tosca e a chegada da notícia da morte de Scarpia. Perseguida, Tosca se precipita do alto do castelo, lançando um último desafio: Scarpia, nos veremos diante de Deus!
A ópera termina com o triângulo (nada) amoroso esfacelado pela morte de seus três vértices. É uma opera inovadora, a história cheia de violência e os sentimentos levados aos extremos. Os três protagonistas vivem situações de extrema tensão e há pontos que não podem deixar de chamar a atenção do ouvinte.
Jonathan Tetelman, o Mario, Mario, Mario
O papel do mocinho, o pintor-tenor, é brindado com a ária Recondita armonia, no primeiro ato, mas especialmente a ária de despedida no terceiro ato, Elucevan le stelle. Tosca teve como uma de suas principais intérpretes a fabulosa Maria Callas, mas também tantas outras, como a rival Renata Tebaldi. A ária Vissi d’arte é a própria declaração de dedicação à essa maravilhosa profissão. O malvadão também é um protagonista inesquecível. Seu grande momento no primeiro ato mostra seu terrível caráter, durante o Te Deum. A sua presença no segundo ato ocupa um grande espaço no palco, contrapondo-se a Tosca, até a sua morte. Apesar dela, sua ações o colocam também no terceiro ato, apesar de não aparecer mais.
Para tão maravilhosa peça escolhi uma gravação estalando de nova – a soprano Eleonora Buratto, o tenor Jonathan Tetelman e o barítono Ludovic Tézier são excelentes e estão no primor de suas carreiras. O regente Daniel Harding acabou de assumir a orquestra da Academia Nazionale di Santa Cecilia e essa é a sua primeira gravação com ela. Muito auspiciosa. A produção é da Deutsche Grammophon, primorosa. Aqui a explicação dada no início de uma crítica mencionada mais abaixo: The three performances in late October last year were Harding’s inaugural concerts with his new band (along with a Verdi Requiem). The British conductor doesn’t have a lot of opera on his CV – and barely any trace of Puccini – but opera very much comes with the territory in this job. (As três apresentações no final de outubro do ano passado foram os concertos inaugurais de Harding com sua nova banda (junto com um Réquiem de Verdi). O maestro britânico não tem muita ópera em seu currículo – e quase nenhum traço de Puccini –, mas a ópera é parte integrante deste trabalho.)
Ao final de sua resenha para a Gramophone, Mark Pullinger escreveu: When I did a Tosca Collection survey (8/22), I plumped for Renata Tebaldi (Molinari-Pradelli) slightly ahead of Leontyne Price (Karajan). Those 1950s recordings remain in pole position but, even given occasional reservations over Harding, this new account boasts the finest Tosca cast of the digital era and is a recording I’ll be returning to often in years to come.
Como estamos entrando na era de renovação de arquivos ou mesmo de maneira de semear a boa música na web, essa gravação vem bem a calhar!
Aproveite!
René Denon
Ao saber que um dos personagens da ópera se chama Cesare Angelotti, o prestativo Departamento de Artes do PQP Bach Corporation mandou essa ilustração para a postagem…
“Ravel é um relojoeiro suíço” – Stravinsky (língua de trapo)
Ravel nasceu há 150 anos, mas sua música soa bastante ‘moderna’ aos meus ouvidos amantes do barroco e do clássico.
Dos compositores que atuaram no século XX, Ravel foi o que me cativou primeiro. Deve ter sido por causa do seu Concerto para Piano.
Esta postagem tem a música de Ravel, mas algumas peças estão sendo apresentadas numa outra roupagem, numa forma diferente da qual estamos acostumados, pelo menos a maioria delas. Eu gostei tanto das ‘adaptações’ que resolvi trazê-las para os visitantes do blog.
No primeiro disco-arquivo temos o Trio com Piano na sua glória e roupagem tradicional, interpretado ao piano, violino e violoncelo, acompanhado de duas outras obras, e apresentadas em transcrições para trio com piano. A famosa Pavane pour une infante défunte e a suíte Le tombeau de Couperin.
A Pavane nasceu no finzinho do século XIX em versão para piano solo, quando Ravel ainda estudava. Ganhou uma versão orquestral em 1910. A transcrição apresentada aqui foi feita pelos membros do Linos Piano Trio que interpretam as peças do primeiro arquivo. Eles também são os trans(gre)tores da suíte Le tombeau de Couperin, composta também para piano solo, mas entre 1914 e 1917, durante a Primeira Guerra Mundial. Cada uma das ‘danças’ da suíte é dedicada à memória de um amigo que morreu durante o conflito. Foi um período bastante difícil na vida de Ravel.
O Linos Trio esperando a barca em Charitas para ir de Niterói para o Rio… eles adoraram Camboinhas
Os membros do Linos Piano Trio têm cinco nacionalidades. Só em um mundo globalizado como o que vivemos tal coisa é possível:
O músico tailandês radicado em Londres, Prach Boondiskulchok, desfruta de uma carreira singularmente diversificada como pianista, pianista forte e compositor. Igualmente à vontade improvisando ornamentos do século XVIII e compondo com harmonias micro tonais, suas apresentações o levaram a palcos e festivais internacionais.
Com seu estilo de performance vibrante e talento natural para o entretenimento, o violinista teuto-brasileiro nascido em Londres, Konrad Elias-Trostmann, quebra a barreira frequentemente encontrada entre o público e o intérprete. Apresentações de música de câmara o levaram a locais como o Carnegie Hall, o Wigmore Hall, o Melbourne Recital Centre, o Seoul Arts Centre e a Sala Cultural Itaím, em São Paulo. Recentemente, Konrad foi nomeado segundo violino principal da Essener Philharmoniker e é regularmente convidado como segundo violino principal ou spalla assistente por orquestras de renome mundial.
O músico multifacetado francês radicado em Berlim, Vladimir Waltham, se sente igualmente à vontade com violoncelo, violoncelo barroco e todos os tamanhos de instrumentos da gamba. Elogiado por seu “tom luminoso” pela Gramophone, Vladimir é apaixonado por compartilhar a mais ampla paleta musical possível, em um repertório que abrange da Idade Média a colaborações com compositores e estreias mundiais, bem como tudo entre eles.
Numa entrevista eles explicaram brevemente como o trio se formou: Sempre foi um fascínio para cada um de nós desafiar os limites musicais, por isso é muito apropriado que a “história de origem” do nosso conjunto seja centrada em uma obra que transcende os limites do gênero trio para piano. Em 2007, quando peças obscuras ainda não eram amplamente digitalizadas, lembro-me de descobrir com entusiasmo que uma das minhas peças favoritas, “Verklärte Nacht” de Schönberg para sexteto de cordas, também existia em uma transcrição para trio para piano de Eduard Steuermann. Logo, colegas que compartilham esse entusiasmo se juntaram a mim para tocá-la, e esse foi o conjunto que se tornou o Linos Piano Trio.
Quatro das peças de Le tombeau de Couperin foram magistralmente orquestradas por Ravel para pequena orquestra. O segundo disco-arquivo tem uma transcrição dessa versão orquestral para quinteto de sopros – flauta, oboé, clarinete, fagote e trompa, feita por Mason Jones. Eu não consegui verificar com absoluta certeza, mas acredito que o arranjador Mason Jones foi o principal trompista da Philadelphia Orchestra por muito tempo, atuando durante os período de Leopold Stokowsky e Eugene Ormandy.
Pacíficos músicos do Pacific Quintete
Os intérpretes aqui são os membros do Pacific Quintet, Aliya Vodovozova (flauta), Fernando José Martínez Zavala (oboé), Liana Leßmann (clarinete), Kenichi Furuya (fagote) e Haeree Yoo (trompa). Veja como o primeiro disco deles foi anunciado: O álbum de estreia do Pacific Quintet reflete a diversidade de seus integrantes e seu foco principal. Também homenageia o compositor que inspirou o conjunto: Leonard Bernstein. Indo além do repertório clássico tradicional, o premiado quinteto (clarinete, trompa, flauta transversal, oboé e fagote) apresenta música de seus países de origem: Japão, Honduras, Coreia do Sul, Alemanha e Ucrânia/Turquia, em um programa que transcende suas culturas, línguas e tradições.
O pessoal do PQP Bach adorou a palhinha dada pelo PQ
Sobre o Pacific Quintet: “Making music with friends is one of the most wonderful things about our job and this is just what the Pacific Quintet do. They are talented and dedicated musicians who are also great friends and they take much pride and joy in making music together. I have watched them develop into a world class quintet […] and I am so proud of their success.” Sarah Willis (French horn player & member of the Berlin Philharmonic Orchestra)
Um de nossos visitantes já está desfrutando da boa música de Ravel…
Sobre a gravação do Linos Piano Trio: It’s a great pleasure to hear Ravel’s majestic and technically demanding Piano Trio without insertions of meaningless rubato, and with every note in place. The only thing I was left wishing for was a more scrupulous observation of his dynamic markings. BBC Music Magazine
The Linos Piano Trio’s performances feature string vibrato, as well as occasional portamento. The superb execution, intensity, flexibility, and tonal richness of the ensemble’s performances would, I think, gratify audiences of any era. Fanfare
Alfred Brendel, considerado um dos pianistas mais talentosos do mundo, faleceu aos 94 anos. O compositor e poeta faleceu em paz em Londres, cercado por seus entes queridos, na terça-feira. A maioria dos críticos o reconheceu como um dos principais intérpretes das obras de Beethoven. [Trechos da BBC News]
Antecipamos esta postagem para prestar nossa homenagem ao grande pianista.
O nome da Sonata Op. 31, No. 2, surgiu de uma história contada por Anton Schindler. Ao perguntar ao compositor qual seria a chave para esta sonata e para a sonata ‘Appassionata’, teria ouvido de Beethoven: “Leia A Tempestade de Shakespeare”.
É verdade que Schindler não é o mais fiel narrador de histórias e, como ‘A Tempestade’ em alemão é ‘Der Sturm’, poderia ser que Beethoven estivesse se referindo à um livro de Christoph Christian Sturm, que estava logo ali perto dos dois, na prateleira de livros do voraz leitor Ludovico. Vá saber…
Em 2020 tivemos uma overdose, uma quase tsunami de postagens sobre Beethoven e sua obra, devido aos 250 anos de nascimento do grande compositor. Parece que todos os arquivos foram buscados e postadas neste ano. Fomos com tanta sede ao pote que as postagens sobre ele rarearam, ficaram espaçadas, e alguns de nossos colaboradores se colocaram assim, meio que de molho. Mas, creiam, nosso gosto e interesse pela música de Beethoven e pelas suas gravações continuam altíssimos por aqui. Sempre que me deparo com um lançamento novo, ou mesmo um relançamento de suas obras, entre os miles de discos que recebemos diariamente aqui na repartição, fico logo tentado a postar.
O disco do Haefliger eu vi logo na época do seu lançamento, lá em 2022, mas por alguma razão, caiu numa pasta de outras obras e ficou meio que esquecido. Agora, com minhas incursões pela plataforma TIDAL me dei com ele novamente e o ouvi de novo e de novo.
Alfred Brendel
Como estava também em busca de gravações mais antigas, mas não jurássicas, acabei ouvindo a gravação feita ao vivo por Alfred Brendel, mas a de seu segundo ciclo (digital) para a Philips. Como gostei muito dos dois discos, achei que deveria dividir com vocês.
As sonatas reunidas no Opus 31 foram compostas no início do novo século (XIX) e marcam uma tomada nova de rumos, o período ‘Clássico’ é deixado cada vez mais para trás. Esta seria última vez que ele reunia três sonatas em um número de opus, as anteriores foram aquelas dos Opus 2 e Opus 10. Essa era uma prática, de reunir grupos de 12, 6 ou 3 peças numa edição, que se estendera do período barroco para o clássico, que facilitava a venda das partituras.
Andreas numa postura mais romântica para interpretar as sonatas do grande Ludovico
Recentemente postei um disco do Andreas Haefliger mais jovem interpretando sonatas para piano de Mozart e agora temos a oportunidade de ouvi-lo em um trabalho mais recente. Ele tem sido ativo como pianista solo, gravando sonatas de Beethoven acompanhadas de algumas outra peças de outros compositores, um projeto intitulado ‘Perspectives’, mas também atua como músico de câmara e como acompanhante de cantores, como é o caso do barítono Matthias Goerne.
Já o outro pianista da postagem, Alfred Brendel, é muito conhecido e foi ativo até os primeiros anos do século XXI. Além de ter sido excelente pianista e ter deixado um legado enorme de gravações de altíssimo nível, Brendel trabalhou com pianistas mais jovens, como Imogen Cooper, Paul Lewis, Amandine Savary, Till Fellner e, mais recentemente, Kit Armstrong. Brendel também dedicou tempo acompanhando grandes cantores, como Hermann Prey e Dietrich Fischer-Dieskau.
Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
Piano Sonata No. 16 in G major, Op. 31 No. 1
Allegro vivace
Adagio grazioso
Rondo. Allegretto
Piano Sonata No. 17 in D minor, Op. 31 No. 2 ‘Tempest’
Largo – Allegro
Adagio
Allegretto
Piano Sonata No. 18 in E flat major, Op. 31 No. 3 ‘The Hunt’
Collectors who’ve followed Haefliger’s Beethoven over the course of his earlier ‘Perspectives’ series will not be surprised by the high craft and musical intelligence throughout this release. Gramophone MagazineApril 2022
Haefliger groups together the three sonatas of Op 31, and plays them without any self-indulgence, but with a finely calculated combination of exuberant bravura and beautifully controlled introspection.
The Guardian 3rd February 2022
Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
Piano Sonata No. 16 in G major, Op. 31 No. 1
Allegro vivace
Adagio grazioso
Allegretto
Piano Sonata No. 17 in D minor, Op. 31 No. 2 ‘Tempest’
Largo – Allegro
Adagio
Allegretto
Piano Sonata No. 18 in E flat major, Op. 31 No. 3 ‘The Hunt’
Allegro
Scherzo (Allegretto vivace)
Menuetto (Moderato e grazioso)
Presto con fuoco
Alfred Brendel (piano)
Recorded: 1992-11
Recording Venue: “The Maltings”, Concert Hall, Snape
The future is bright with great possibilities for Cyrus. Expect once again this year to hear a unique and unforgettable recording that only can come from someone like Cyrus Chestnut.
Essa é a frase final do texto sobre o pianista Cyrus Chestnut na página de The Kennedy Center e está aí, cumprida como uma profecia – este disco da postagem acaba de ser lançado – 25/04/2025. Eu não conhecia qualquer outro disco dele, mas fui atraído pelo seu nome – Chestnut – e pelo nome do disco – Ritmo, Melodia e Harmonia.
Eu que tenho feito um esforço de ouvir música gravada mais recentemente possível, como você pode ter visto em minhas últimas postagens, dedicadas à chamada música clássica, pode imaginar como fiquei feliz em ouvir um disco que achei ótimo, lindo, com música de jazz.
Veja como um texto de ‘The Guardian’ fala de um outro disco de Cyrus Chestnut, e que poderia ser adaptado facilmente para descrever este aqui:
The Baltimore-born Cyrus Chestnut is a wonderful pianist, rather like Oscar Peterson in his heyday: one of the rare kind who isn’t forever trying to impress you. He doesn’t need to try. Now in his late 50s, he has been playing since, as a small child, he watched his father’s hands “in a passionate relationship with the piano”.
Among Chestnut’s many attractive points is his leaning towards melody. These tracks are full of tunes, some composed by him, some already well known, and some that just turn up in the course of playing.
Cyrus Chestnut, nascido em Baltimore, é um pianista maravilhoso, parecido com Oscar Peterson em seu auge: um daqueles raros pianistas que não estão sempre tentando impressionar. Ele não precisa se esforçar. Agora com quase 60 anos, ele toca desde que, ainda criança, observava as mãos do pai “numa relação apaixonada com o piano”.
Entre os muitos pontos positivos de Chestnut está sua inclinação para a melodia. Estas faixas estão repletas de melodias, algumas compostas por ele, algumas já conhecidas e outras que simplesmente surgem no decorrer da execução.
Sobre este disco, a maioria das músicas são do próprio Cyrus, menos três delas. As clássicas ‘Autumn Leaves’ e Moonlight in Vermont’, sendo que nesta última o pianista a interpreta solo. Em todas as outras ele é acompanhado pelos outros três (excelentes) músicos. Além das duas clássicas lindíssimas músicas, ‘There is a Fountain’ é uma referência direta às suas raízes – Cyrus cresceu frequentando a Mount Calvary Baptist Church, em Baltimore.
Caso você tenha acesso às plataformas de distribuição de músicas, aqui está uma possibilidade para a audição: Cyrus Chestnut is truly commited not only to the good grove, but to positive messages, tender affirmations, and the swinging essence that has always been a hallmark of his music making. Williard Jenkis [livreto do disco]
Eu não consigo pensar na música de Wagner sem lembrar da frase ‘When the fat lady sings’. Na verdade, uma variação de ‘It ain’t over till the fat lady sings’.
Essa frase foi usada no mundo do baseball originalmente com o sentido de que a história do jogo só é contada no final, por certo uma obviedade, mas pode haver algo aí.
O jornalista que a usou certamente tinha em mente a última parte de ‘O Anel do Nibelungo’, o famoso ‘Crepúsculo dos Deuses’, pois o mundo está a se acabar, mas não antes que a valquíria Brünnhilde cante assim por uns vinte minutos. Portanto, nada acaba antes que a senhora gorducha cante!
Wagner é um compositor de óperas, mas sua música tem longos trechos orquestrais e ele foi inovador na maneira como lidou com a orquestra. Ele não era uma boa pessoa, mas foi um compositor inovador e influente, basta lembrar dos leitmotivs. É, portanto, comum que haja concertos com trechos dessas óperas, às vezes com cantores, mas em muitos casos apenas com orquestras. Essencialmente todos regentes famosos (e também os nem tão famosos assim) deixaram gravações que poderiam ser chamadas ‘Wagner sem Palavras’. Só para não deixar de mencionar alguns: Böhm, Klemperer, Szell, Solti, Abbado, Karajan, Kempe, Kubelik, Tennstedt.
Eugene tentando tirar um som das cordas da PQP Bach Sinfonietta
Eu tenho ouvido alguns discos gravados por Eugene Ormandy e a Orquestra da Filadélfia – foram lançadas duas coleções com as suas muitas gravações. Ormandy não é um nome que me ocorre normalmente quando escolho alguma música para ouvir, mas seu legado é impressionante e não dá para simplesmente ignorar o cara.
Entre os discos que ouvi mais do que uma vez estão estes dois com trechos de música de Wagner, gravados em 1959 (The Glorious Sound of Wagner) e 1963 (Magic Fire). O epíteto ‘glorious sound’ certamente poderia ser atribuído ao som da Orquestra da Filadélfia, uma das grandes orquestras dos Estados Unidos e que esteve por muito tempo sob a direção de Eugene Ormandy.
Os discos oferecem uma ótima seleção de trechos, numa remasterização recente. Tannhäuser, Lohengrin e Die Meistersinger Von Nürnberg oferecem abertura e prelúdios. As Valquírias trazem o tal Fogo Mágico e uma Cavalgada. Tristão oferece um prelúdio e Isolda morre de amores, Siegfried vai murmurando pelos bosques e tudo termina com o seu Ídilio.
Ótima música de um excelente compositor que, definitivamente, não foi um ‘good guy’.
Richard Wagner (1813 – 1883)
The Glorious Sound Of Wagner
Prelude To “Lohengrin” (Act III)
Waldweben (Forest Murmurs) From “Siegfried”
Prelude To Act III: Dance Of The Apprentices; Entrance Of The Meistersingers From “Die Meistersinger Von Nürnberg”
Seção ‘The Book is on the Table’: Of course everyone has their preferences but one cannot deny that the rich strings and mellow Philadelphia brass serve Wagner well. This is Wagner the beautiful and serene, but drama and power are there when needed. Die Meistersinger marches with joy and majesty.
Bacalhaus, no mar, em Portugal, fazem Façamos, vamos amar…
Eu ouvi este disco pela primeira vez há poucos dias e fiquei simplesmente mesmerizado. Ouço no caminho para o trabalho, na hora do descanso, enquanto ando pela casa procurando coisas para fazer.
E agora o disco provocou uma onda de buscas por outras coisas com ele relacionadas. Estou ouvindo os dois ótimos LPs de Miúcha e Tom Jobim. Esses eu conhecia.
A primeira canção do disco, uma verdadeira ‘âncora’ que nos prende a ele, é uma tradução (feita por Carlos Rennó) de uma canção de Cole Porter. A original eu conhecia, mas não lembrava onde estava. Imediatamente essa canção me fez lembrar das gravações em dueto reunindo Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. É claro que na nossa versão Louis usa saias…
Algumas outras faixas do disco eu conhecia de outros projetos ou mesmo de ouvir no rádio.
Na minha busca da canção de Cole Porter a encontrei nas gravações Ella & Louis, mas aí ela é interpretada apenas pelo Satchmo, Ella deve ter ido tomar um cafezinho nessa. Na coleção de songbooks, no disco de Cole Porter, Ella Fitzgerald canta o Let’s Do It (Let’s Fall in Love). Mas o dueto Chico Buarque e Elza Soares é um primor. O contraste das duas vozes apimenta a brincadeira. Veja como ela canta o verso ‘Gatinhas com seus gatões fazem, tantos gritos de ais’. Inesquecível!
Nas 14 canções do disco, em cada uma delas Chico está acompanhado de um parceiro ou uma parceira diferente. Só Tom Jobim aparece em duas, mas em uma dela a Miúcha também canta. E como são diversas e diferentes essas parcerias, assim como os estilos musicais. Chama a atenção como Chico se adapta cantando assim com um ou assado com outra, dependendo dos diferentes estilos.
Os sotaques dos ‘estrangeiros’ dão um charme a mais ao disco, como na malandrice da deliciosa Rosa, cantada com Sergio Endrigo. No início da canção ouvimos ‘Arrasa o meu projeto de vida’ e, logo mais, ‘Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?’.
‘A Mulher do Aníbal’, de Jackson do Pandeiro, cantada em parceria com Zeca Pagodinho é outra espetacular, assim como ‘Desalento’, em compadrice com Mestre Marçal, de entregar os pontos. Carcará, com João do Vale, é afiada como bico de gavião, uma verdadeira força da natureza.
E o Jonny Alf, Seu João Alfredo, brincando com Seu Chopin? Miles de maravilhes.
Os hermanos, Pablo Milanés e Ana Belén, contribuem com duas canções inesquecíveis – basta ouvir uma vez só e verá que será eternamente Yolanda. Em ‘Piano na Mangueira’, Dionne Warwick mostra que poderia ser assim uma prima de alguma dama do samba – Dona Ivone Lara, talvez? Como é lindo ouvi-la cantar em português.
‘Dinheiro em Penca’ e ‘Não Sonho Mais’, esta última com Elba Ramalho, são dois ‘tours de force’, para fechar o disco com vontade de ouvir de novo.
É provável que todos vocês conheçam já o disco, mas se você é como eu e ainda não havia ouvido falar dele, corra e baixe rapidinho. Esse é ‘papa-fina’!
“Façamos” (de Cole Porter; versão de Carlos Rennó; com Elza Soares)
“Desalento” (de Chico Buarque e Vinicius de Moraes; com Mestre Marçal)
“Sem você” (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; com Tom Jobim)
“Mar y Luna” (de Chico Buarque e adaptação de San José; com Ana Belén)
“Dueto” (de Chico Buarque, com Nara Leão)
“A mulher do Aníbal” (de Genival Macedo e Nestor de Paulo; com Zeca Pagodinho)
“A Rosa” (de Chico Buarque; com Sergio Endrigo)
“Até pensei” (de Chico Buarque; com Nana Caymmi)
“Seu Chopin, desculpe” (de Johnny Alf, com Johnny Alf)
“Yolanda” (de Pablo Milanés, com Pablo Milanés)
“Carcará” (de João do Vale e José Cândido; com João do Vale)
“Piano na Mangueira” (de Tom Jobim e Chico Buarque; com Dionne Warwick)
“Dinheiro em penca” (de Tom Jobim e Cacaso; com Miúcha e Tom Jobim)
“Não sonho mais” (de Chico Buarque; com Elba Ramalho)
Chico e Vinicius França (creio) recebendo o zap da equipe do PQP Bach dizendo que a postagem estava quase pronta…
Disco coletânea reunindo gravações de diversos artistas, em dueto com Chico Buarque. Projeto e produção executiva: Vinicius França. Coordenação de produção: Adriana Ramos e Hugo Pereira Nunes. Assistente de produção: Paula Mello.
Após compor o Quinteto para Cordas nº 2 em Sol maior, Brahms sinalizou sua intenção de encerrar o expediente. Mas então, em março de 1891, ele ouviu Mühlfeld tocar o Concerto para Clarinete nº 1 de Weber e o Quinteto para Clarinete de Mozart, e sua decisão evaporou.
“Ninguém consegue tocar clarinete com mais beleza do que o Sr. Mühlfeld”, escreveu Brahms a Clara Schumann. “Os clarinetistas de Viena e de muitos outros lugares são bastante bons em orquestra, mas, quando tocam uma peça solo, não proporcionam algum prazer verdadeiro.”
Lá por 1890 Hannes havia deixado a barba crescer e decidido pendurar a pena e as pautas, vestindo então o pijama de compositor. Ele só fazia passear e tomar chá com os amigos e amigas. Num desses passeios até Meiningen ele ouviu um clarinetista interpretar obras de Mozart e Weber e ficou encantado com essas interpretações. O cara chamava-se Richard Bernhard Herrmann Mühlfeld e eles tornaram-se amigos. Ao contrário do genioso e rabugento Johannes, Richard era boa praça e convenceu Brahms a compor música com clarinete. Assim, no verão de 1891, Brahms, Mühlfeld e o Quarteto Joachim (de outro famoso amigo de Hannes) estrearam o Trio para clarinete, violoncelo e piano, assim como o Quinteto para Clarinete.
Richard Mühlfeld
Alguns anos depois, depois de uma série de belíssimas peças curtas para piano, mais uma vez Brahms dedicou seus talentos ao clarinete. Em 1894, passando uns dias em Ischl, compôs as duas sonatas para piano e clarinete, que foram estreadas em caráter privado pelos dois amigos no Palácio de Berchtesgarden. Depois, novamente as tocaram para Clara Schumann, em uma passagem pela casa da famosa pianista. Veja como eram essas visitas, numa descrição feita por uma das suas filhas: A filha Eugenie ficou impressionada como “a casa parecia ter se enchido de vida assim que Brahms pôs os pés nela”. Ele os entreteve com piadas e histórias sobre uma operação que Billroth lhe descrevera, ou contando-lhes sobre as novas peças de Dvořák, ou como Joachim, que dormia como uma pedra quando estavam em turnê juntos, era um péssimo jogador de cartas. Além disso, eles tocaram as sonatas para clarinete com Mühlfeld, Clara virando as páginas, sorrindo.
E eu, que tenho passado por um período imerso em música com clarinete, dei com esse álbum com essas peças compostas por Brahms, obras de câmara com clarinete. Tanto ouvi que ando por aí a assobiar os trechos mesmo sem me dar por isso.
Laurafeliz por aparecer no PQP Bach…
A clarinetista Laura Ruiz Ferreres está perfeita nesse álbum, fazendo jus aos apelidos que Brahms deu ao seu amigo Mühlfeld: Fräulein Klarinette, Meine Prima donna e O Rouxinol da Orquestra. Desde 2010 ela é professora de clarinete da muito respeitada Hochschule für Musik und Darstellenden Kunst em Frankfurt. Sua maneira de tocar o clarinete é imaculada e extraordinariamente expressiva. Nas obras para clarinete de Brahms há uma enorme variedade de dinâmicas e ela as superou sem qualquer imperfeição. Seus pianíssimos são particularmente estonteantes.
Johannes Brahms (1833 – 1897)
Clarinet Trio in A minor, Op. 114
Allegro
Adagio
Andante grazioso
Allegro
Clarinet Sonata No. 1 in F minor, Op. 120 No. 1
Allegro appassionato
Andante un poco adagio
Allegretto grazioso
Vivace
Clarinet Sonata No. 2 in E flat major, Op. 120 No. 2
It is well-known that Brahms was so impressed by the playing of clarinetist Richard Mühlfeld, the principal clarinetist of the vaunted Meiningen Court Orchestra, that he more or less came out of retirement and wrote four late works (Opp. 114, 115, and Op. 120, Nos. 1 and 2) for him and even appeared as pianist with him playing those that included piano. It is for good reason that these late works are among the most treasured by Brahmsians, partly because of the mellow sound of the clarinet, and partly because of the serene, wise and autumnal nature of the works. They are not probably the most popular works among the general public. But they are jewels of the first rank. And on these two hybrid-SACDs they are given spectacularly musical performances.
This recording of the complete chamber music works for clarinet by Johannes Brahms is presented with first-rate interpreters: Laura Ruiz Ferreres, one of the most gifted clarinettists of her generation, and pianist Christoph Berner.
Internationally renowned cellist Danjulo Ishizaka and the Mandelring Quartet complete the superb line-up of instrumentalists for this recording.