Kaplan não é um maestro profissional, mas um homem de negócios tarado por Mahler. Seus trabalho é bom e muito curioso, pois ele só sabe reger esta obra e talvez não saiba nem ensaiá-la. Só que vocês sabem, o dinheiro…
Bem, minha vida com Mahler foi inaugurada por esta sinfonia, a qual cheguei da forma mais estranha. Fui atrás da música que havia sob o segundo movimento da Sinfonia de Luciano Berio e este era o belíssimo terceiro movimento da Ressurreição. De resto, foi amor à primeira ouvida. É obra grandiosa: 10 trompas, 8 contrabaixos, 8 trompetes, 6 trombones, 4 percussionistas, cantores solistas, coral, etc. Um primeiro movimento enorme, seguido pela comovente cantilena do segundo e o eufórico terceiro. Depois, os últimos movimentos propõem-se a fazer uma representação exterior (se bem que, como Mahler dizia, tudo era representação interior…) do Dia do Juízo Final e da Ressurreição dos mortos. O compositor manda alguns instrumentistas (trompetes, trompas, percussão) para fora do palco. É de lá, dos bastidores, que eles iniciarão um conflito fantasmagórico com a orquestra que está no palco. Quando a orquestra do palco executar o suave tema da redenção, dos bastidores virá o som das trompas e da percussão executando o que Mahler disse representar “as vozes daqueles que clamam inutilmente no deserto”. Obra-prima!
P.S. — O disco da DG dividiu os movimentos em infinitas pecinhas, como para mostrar que Mahler amava os contrastes ou mudava de humor com muita facilidade… São 42 faixas…
Gustav Mahler (1860-1911): Symphony No. 2 “Resurrection” (Kaplan, Wiener Philharmoniker)
1. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Allegro Maestoso 2:31
2. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Im Tempo Nachgeben 1:03
3. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Wie Zu Anfang 2:42
4. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Sehr Mässig Und Zurückhaltend 0:48
5. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – (English Horn) 1:19
6. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Ausdrucksvoll (English Horn & Bass Clarinet) 2:18
7. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Etwas Drängend 1:15
8. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Schnell 0:34
9. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Sehr Langsam Beginnend 0:28
10. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Sehr Getragen (Trumpet & Trombone) 2:32
11. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Molto Pesante 0:23
12. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Tempo I 1:40
13. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Zurückhalten 2:20
14. 1st Movement – Allegro Maestoso (Totenfeier) – Tempo Sostenuto 3:23
1. 2nd Movement – Andante Moderato – Andante Moderato 1:24
2. 2nd Movement – Andante Moderato – Nicht Eilen. Sehr Gemächlich 1:36
3. 2nd Movement – Andante Moderato – In Tempo I Zurückkehren 1:47
4. 2nd Movement – Andante Moderato – Tempo I. Energisch Bewegt 2:42
5. 2nd Movement – Andante Moderato – 3 Bars Before Wieder Ins Tempo Zurückgehen. Tempo I 3:39
6. 3rd Movement – (Scherzo) – In Ruhig Fliessender Bewegung 1:47
7. 3rd Movement – (Scherzo) – (Bassoon & Violas) 0:49
8. 3rd Movement – (Scherzo) – (Piccolo) 0:40
9. 3rd Movement – (Scherzo) – (Cellos & Basses) 0:24
10. 3rd Movement – (Scherzo) – Vorwärts 1:01
11. 3rd Movement – (Scherzo) – Sehr Getragen Und Gesangvoll 1:13
12. 3rd Movement – (Scherzo) – Zum Tempo I. Zurückkehren 2:08
13. 3rd Movement – (Scherzo) – (Trumpets & Trombones) 1:26
14. 3rd Movement – (Scherzo) – (Violas, Cellos & Basses) 1:20
15. 4th Movement – ”Urlicht” – Sehr Feierlich, Aber Schlicht (Choralmässig) Nadja Michael 5:29
16. 5th Movement – Im Tempo Des Scherzos. Wild Herausfahrend 1:38
17. 5th Movement – Langsam 1:20
18. 5th Movement – Langsam 0:24
19. 5th Movement – (Trombone) 1:41
20. 5th Movement – Im Anfang Sehr Zurückgehalten 1:10
21. 5th Movement – Wieder Sehr Breit 3:04
22. 5th Movement – Ritenuto 4:36
23. 5th Movement – Wieder Zurückhaltend 3:43
24. 5th Movement – Sehr Langsam Und Gedehnt (”Der Grosse Appell”) 2:27
25. 5th Movement – Langsam. Misterioso (Chorus: ”Aufersteh’n”) 6:42
26. 5th Movement – Etwas Bewegter (Solo: ”O Glaube”) 3:24
27. 5th Movement – Mit Aufschwung, Aber Nicht Eilen (Duet: ”O Schmerz”) 2:25
28. 5th Movement – Pesante 2:23
Nadja Michael
Latonia Moore
Vienna Philharmonic Orchestra
Gilbert Kaplan

PQP

F.D.P. Bach voltou impossível das férias e nos mandou uma gravação obrigatória. A célebre gravação do pianista romântico Artur Rubinstein com o Guarneri Quartet dos quartetos para piano de Brahms. É notável o quanto o estilo dos executantes adapta-se à música de Brahms. Estes quartetos prescindem de maiores comentários: são música profunda, de primeiríssima qualidade e merecidamente conhecidos e louvados.
Uma gravação bem velhinha (1990), mas ainda em bom estado. Não é uma interpretação historicamente informada, sendo antes boa por seu espírito correto e pela maravilhosa Stutzmann. Stutzmann é um contralto francês com um timbre escuro, quase andrógino. Suas interpretações de árias de Vivaldi são dramáticas e introspectivas. Não espere aquele “Vivaldi alegrão” –, o papo entre Spivakov e Stutzmann e um diálogo meditativo e refinado. Spivakov evita os excessos, enquanto Stutzmann mergulha no lirismo das árias. Puristas do barroco podem estranhar o uso de orquestra moderna, mas a interpretação é respeitosa e sincera. Stutzmann já foi acusada de ser “too dark for Vivaldi”, mas, vão se foder, né? Essa escuridão vocal dá um peso existencial raro às árias sacras. É um disco para noites de inverno com vinho tinto. Foda-se se estamos na primavera!
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Dino Saluzzi é um veterano compositor e músico argentino. Nasceu em 1935 e tem atualmente 80 anos. Dino toca bandoneón desde sua infância. É um tangueiro muito lírico, talvez em excesso. Bom compositor, quase erudito, ele infelizmente não tem a dureza de Piazzolla. Durante grande parte da sua juventude, Saluzzi viveu em Buenos Aires, tocando com a orquestra Rádio El Mundo. Vivia daquilo, mas às vezes fugia para tocar com pequenos conjuntos mais voltados para o jazz. Foi desenvolvendo um estilo cada vez mais pessoal que acabou por deixá-lo como um vanguardista em seu país. É hoje uma das estrelas da ECM. Tudo começou com Charlie Haden, Palle Mikkelborg and Pierre Favre em Once Upon A Time … Far Away In The South, e depois com Enrico Rava em Volver. Compreende-se, Rava trabalhou muito na Argentina e Haden sempre adorou a América Latina. O resgate para a turma de Eicher foi natural. Atualmente tem um duo com Anja Lechner, que está presentíssima neste El Encuentro. É um bom disco.


Não vou fazer um post longo a respeito do Copland, meu compositor estadunidense predileto, porque estou me programando pra ir pra Brasília, ver como estão as coisas na filial do Café do Rato Preto. Costumo dizer a meus amigos que Copland é o Villa-Lobos dos States, referindo-me à representatividade nacional de ambos em nível mundial, mas no contexto da história da música estadunidense Copland está mais para um Guerra-Peixe, enquanto o Villa de lá seria Charles Ives.
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Não é um CD daqueles para enlouquecer, mas é Vivaldi. É bom de ouvir, sem traumas, sem tensão, sem turbulências desagradáveis. Você bota pra tocar, presta atenção e gosta. Se não prestar atenção, não incomoda. Não é uma música nada perigosa ou hostil, mais parece o time do Grêmio.
Com um sorriso de compreensão ao nada descortês Revoltado dos comentários do último post de Sonatas de Mozart, passo a fazer algumas postagens de Haydn. Este CD é uma curiosidade: trata-se de uma gravação antiga, era de meu pai e teoricamente deveria ser ruim, por ser da brasileira Movie Play… Vocês sabem que os maestros Duvier e Pitamic talvez nem tenham existido! Só que amo as sinfonias deste CD, a qualidade de som é muito boa (no Filósofo, depois piora), acho as interpretações excelentes e é esta a versão que prefiro (do Filósofo). Tentei várias outras: a de Bernstein, a do Orpheus Chamber Orchestra e as de outras orquestras e regentes. Nada feito. O cedezinho da Movie Play é imbatível em meu coração avesso à grifes. Segundo o opúsculo de Peter Gammond – com o qual concordo – Haydn teria sido tão grande quanto Mozart se tivesse sido mais infeliz. Só quando teve um contrato a cumprir é que ganhou aquela pitada de drama que o fez criar suas monumentais últimas sinfonias. O estresse fez-lhe um bem imenso. Só um homem com um coração duro como pedra é capaz de compor coisas tão incondicionalmente sorridentes e luminosas quanto algumas de suas obras. Adoro Haydn. Ouço demais suas Missas. O apelido “O Filósofo” para a Sinfonia No. 22 é um dos mais intrigantes e discutidos da história da música. A resposta não é simples, pois Haydn não deu esse título à obra. Ele surgiu posteriormente e é amplamente aceito que se deve a uma combinação de fatores estruturais e atmosféricos. A sinfonia começa com um movimento lento (Adagio), o que era extremamente incomum para uma abertura de sinfonia no período clássico inicial. As sinfonias normalmente abriam com um movimento rápido e energético. Este Adagio solene e contemplativo imediatamente estabelece um caráter sério, pensativo e “filosófico”. É uma sinfonia tão boa que até o minueto é legal! Já “A Galinha” e “O Urso” têm seus apelidos justificados pela própria música e não precisamos explicar nada.
IM-PER-DÍ-VEL !!!

IM-PER-DÍ-VEL !!!
IM-PER-DÍVEL !!!
Chamar este CD de The Essential Clarinet é um certo exagero. Deixar de fora as Sonatas para clarinete e piano de Brahms, o Quinteto Op. 115 e o também Quinteto K. 581 e o Concerto K. 622 de Mozart é falta grave. O que une estas peças é a onipresente figura de Benny Goodman, o cara que encomendou todas elas. Aliás, encomendou uma para Bartók (Contrastes) que é esplêndida. Mas aqui temos, certamente, a melhor peça escrita por Aaron Copland, a célebre incursão jazzística de Stravinsky (Ebony Concerto), uma excelente composição de Bernstein e um bom Concerto de Corigliano (prazer em conhecer). Richard Stoltzman não me pareceu um clarinetista tão essencial, mas seu repertório é de primeira linha, sem dúvida. Bom disco!

Olha, eu não gostava de Tchaikovski, eu chegava a desprezá-lo. Talvez fosse por influência de Otto Maria Carpeaux, lido há milênios, ou por desconhecer a obra do russo. Porém, sempre fui tarado pela música de Shostakovich. Quando FDP Bach postou todas as sinfonias do Tchai, ouvi-as por uma simples razão:
Você deve estar pensando que PQP está tirando sarro da vossa honrada e venerável cara. Se você pensa assim, talvez tenha razão. Primeiro eu posto um CD de Concertos de Vivaldi per molti istromenti (em vêneto) e depois um per vari strumenti (em italiano). Mas este vêneto pareceu-me melhor que o anterior, apesar da capa absolutamente ridícula. Tenho certeza que os dois darão boa diversão, mas ouça este aqui primeiro. Será mais motivacional. Como todos sabem ganho minha vida como couch. (Sabe o que Coach motivacional disse para o Anjo da Morte? “Antes de me levar… você já considerou uma mentoria vitalícia? Posso te ajudar a otimizar sua colheita de almas, aumentar em 200% sua produtividade escatológica e transformar o Apocalipse num evento premium!). Bem, há várias joias nos muitos cantinhos deste CD.
Janáček : In the Mist / Piano Sonata, “October 1, 1905” / On an Overgrown Path, Series 1.
Janáček : On an Overgrown Path / Series 1 & 2

1. String Quartet No. 1 “Kreutzer Sonata”: I. Adagio. Con moto 4:04
1 String Quartet No.1 (1923) – I. Adagio. Con moto
Um excelente Haydn na postagem anterior, este nem tanto. Uma amiga me visitou e me emprestou este estranho CD. Baryton é um estranho instrumento de cordas que havia na corte dos Esterhazy, onde Haydn trabalhava. Tem mais ou menos o tamanho de um violoncelo e parece que é complicadíssimo de tocar. Talvez tão complicado que Haydn escreveu música fácil demais para ele. Você não precisa fugir deste CD, mas saiba que penso que seu valor é apenas pela curiosidade. É música simples, agradável; mas que não garantiria a imortalidade que Haydn possui por seus altos méritos.

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Invisible Nature é um álbum ao vivo do saxofonista inglês John Surman e do baterista norte-americano Jack DeJohnette, gravado em Tampere (Finlândia) e Berlim em 2000. Quem segue o PQP sabe de minha tara por Surman. Bem, há cinco décadas, John e Jack encontram-se em Londres para jams regulares. Seu primeiro disco como dupla, The Amazing Adventures of Simon Simon, definiu um estilo espaçoso e aberto, quase de free jazz.



Para finalizar este festival de concertos de Haydn, trazemos hoje este de 2010 da Accademia Bizantina. O primeiro concerto é mesmo que fecha o último CD de Haydn postado por mim. É a única repetição dentre os nove postados. Finalmente livre dos maneirismos ornamentais de seu início de carreira, Dantone nos traz um Haydn cheio de musicalidade. O disco é excelente e feliz como o compositor.
Aqui estão os três concertos para piano de Haydn tocados com pianoforte. Os intérpretes são grandes especialistas neste gênero de repertório, um luxo. Se Andreas Staier é um dos maiores pianistas e cravistas da nova geração, afirmo que a a Orquestra Barroca de Freiburg é o conjunto de melhor sonoridade que tenho ouvido. Suas gravações das obras dos filhos de Bach, meus irmãos, são esplêndidas e vocês deveriam tê-las. Destaque para o primeiro e último concertos. Para tocar Haydn adequadamente, é necessário uma boa dose de humor. Staier e von der Goltz nos demonstram claramente tal fato. Staier chega a ser excessivo no último movimento do terceiro concerto… Vocês identificarão facilmente o acorde a que me refiro. CD da Harmonia Mundi alemã.
IM-PER-DÍ-VEL !!!