Faz pouco tempo que comecei a ouvir com mais atenção os quartetos de cordas de Schubert. Mas já faz muito tempo que ouço Schubert: as obras orquestrais sobretudo com Claudio Abbado, as para piano solo + trios + Truta com Jörg Demus, Nikita Magaloff, András Schiff, as canções com as maravilhosas vozes de Elly Ameling, Markus Schäfer, Arleen Auger…
Esses intérpretes foram formando em mim – como outros intérpretes formaram em outras pessoas – uma certa memória afetiva e uma certa intimidade com esse compositor que expressa os sentimentos mais variados ao mesmo tempo que mantém uma pose elegante, sem exageros românticos. O Schubert bem tocado, então, seria aquele fraseado que diz muito nas entrelinhas com uma pose levemente tímida de quem não quer gritar em voz alta os seus segredos. O que não significa que ele não os revele: o que ele evita é um tipo de lamento apelativo. Schubert certamente detestava os escritores – pois já existiam naquela época – que abusam de expressões que hoje chamamos de clickbait: “veja como ele perdeu tudo”, “esse relato da uma senhora cega vai te emocionar”, etc.
É o tipo oposto de expressão musical – com agitações ambíguas, angústias disfarçadas, felicidades que, como diz o poeta, sempre têm fim – que me pareceu executado de maneira tão bela pelo Belcea Quartet, mais do que pelos dois ou três outros grupos que ouvi tocando Schubert nos últimos meses. E a gravação é excelente, bem balanceada: em certos momentos os graves tomam a frente com profundidade, em outros tantos momentos os violinos fazem crescendo com toda força, como no início do inacabado Quarteto D. 703.
O inacabado, aliás, é uma das graças de Schubert. Assim como a sua penúltima sinfonia em que a incompletuda parece apenas torná-la mais perfeita, esse quarteto D. 703 foi o primeiro da sua fase madura e carrega uma amplitude de sentimentos em um só movimento que, aparentemente, ele não soube complementar com o que em inglês chamam de “filler”. Em bom português, não soube encher linguiça e deixou esse movimento isolado para, mais de três anos depois, voltar renovado ao formato e completar três quartetos inteiros (os de nº 13, 14 e 15, com o 13º aparecendo neste CD). Pouco antes de morrer, completaria ainda um quinteto de cordas.
Franz Schubert (1797-1828):
String Quartet In A Minor ‘Rosamunde’ D.804
1 I Alegro Ma Non Troppo 14:30
2 II Andante 7:24
3 III Minuetto: Allegretto – Trio 7:37
4 IV Allegro Moderato 7:09
Quartettsatz In C Minor D.703
5 Allegro Assai 9:32
String Quartet In E Flat Major D.87
6 I Allegro Molto Moderato 10:16
7 II Sherzo: Prestissimo – Trio 1:57
8 III Adagio 6:21
9 IV Allegro 7:56
Violin – Corina Belcea, Laura Samuel
Viola – Krzysztof Chorzelski
Cello – Alasdair Tait
Recorded: 2002, Potton Hall, Suffolk, UK
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Pleyel