Alberto Ginastera (1916-1983): Cello Concertos

dizem que ainda tem até luar no sertão, até capivara e suçuarana — não, eu não sou contra o progresso (“o progresso é natural”) mas uma garrafinha de refrigerante americano não é capaz de ser como um refresco de maracujá feito de fruta mesmo (Rubem Braga, 1953).

Rubem Braga e Alberto Ginastera têm alguns elementos em comum: em primeiro lugar, o gosto pelas tradições e folclore de seus países em um século de acelerada modernização, urbanização e introdução do american way of life (american do norte, claro). Em segundo lugar, a oposição a governos que promoveram a mão de ferro essa modernização acelerada, oposição que lhes custou muitas oportunidades, não tenham dúvidas. Rubem Braga foi um crítico feroz de Getúlio Vargas e do regime de 1964, procurem a crônica “Os filhos dos torturadores”, onde ele lamenta a sorte das crianças que vão carregar “aquele rabo sujo de sangue”. Ginastera foi expulso do Conservatório de La Plata ao se opor quando o governo quis batizar o conservatório com o nome de Evita Perón. Depois, na década de 1960, a ópera Bomarzo foi censurada pelo regime militar argentino por motivos de depravação sexual. Ginastera, em resposta, proibiu todas as suas obras de serem tocadas em Buenos Aires naquele período.

É importante notar que Ginastera não se opunha a Perón ou aos generais torturadores porque era de outro partido político. Assim como Rubem Braga (e muito ao contrário de Villa-Lobos, mas isso é outra história), ele sempre se manteve longe da política, o que é bem diferente de ser um isentão em cima do muro. Não hesitava quando se tratava de condenar a censura ou o autoritarismo. Mas o que lhe interessava realmente não era o progresso (cinquenta anos em cinco… a que custo?), era a cultura popular sul-americana, que ele homenageou em obras como Danzas argentinas (1937), Obertura para el Fausto criollo (1943) e Popol Vuh, La creación del mundo maya (1975).

O primeiro concerto para violoncelo e orquestra de Ginastera, composto em 1968 e revisado em 1977, tem três movimentos mas, ao invés de seguir o formato usual de allegro/adagio/allegro, faz uma espécie de arco bartókiano, começando e terminando suave, com um Presto sfumato no meio, que por sua vez tem no centro um Trio notturnale com harpa, que evoca uma serenata, como na sétima sinfonia de Mahler. Como escreveu Ginastera, sua linguagem se caracterizava por “uso de ritmos frenéticos, melodias contemplativas e polifonias veementes, choques repentinos, complexos cromáticos e micro-cromáticos, elementos visionários e alucinatórios e um certo clima misterioso que poderia evocar um espírito associado com a América do Sul.”

O segundo concerto para violoncelo, de 1981 – dois anos antes da morte de Ginastera – é dedicado à violoncelista Aurora Nátola, esposa do compositor, para comemorar seus dez anos de casamento. É um concerto de um homem apaixonado, a partitura tem epígrafes de grandes poetas no início de cada movimento. O coração do concerto é o terceiro movimento, um noturno com citação do poeta Apollinaire, inventor do termo “surrealismo” e morto de gripe espanhola em 1918. Com uma abundância de descrições de luares, sapos, brejos e florestas, esse terceiro movimento termina calmo, dando lugar a uma longa cadência para o violoncelo, com um lirismo que lembra Villa-Lobos, para depois arrematar tudo com um finale rustico.

Aurora Nátola-Ginastera recebeu este último sobrenome em 1971. Antes disso a violoncelista já havia feito seu nome no meio musical. Nascida em Buenos Aires e aluna de Pablo Casals, ela e a orquestra espanhola que a acompanha combinam com esse repertório como o luar combina com o sertão.

Alberto Ginastera (1916-1983)
Cello Concerto No.1,Op.36
1. Adagio molto appassionato
2. Presto sfumato
3. Assai mosso ed esaltato – Largo amoroso

Cello Concerto No.2,Op.50
4. Metamorfosi di un tema
5. Scherzo sfuggevole
6. Nottilucente
7. Cadenza e Finale rustico

Cello – Aurora Natola-Ginastera
Conductor – Max Bragado Darman
Orquesta Sinfónica de Castilla y Leon
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Alberto Ginastera e o gato que pegou emprestado de Edgar Allan Poe

Pleyel

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