Mahler (1860 – 1911) · ∾ · Erinnerung · ∾ · (Coleção de Lieder) · ∾ · Christiane Karg & Malcolm Martineau ֍

Mahler

Erinnerung

Christiane Karg

Malcolm Martineau

 

Hoje chegou pelo correio uma caixa com CDs de Mahler – Sinfonias –, quase todas, regidas pelo jovem James Levine, diversas orquestras. Eu já havia esquecido que havia pedido. Gosto particularmente da gravação que ele fez da Terceira e da Quinta Sinfonia e assim pedi a coisa toda que ele gravou. Vai dar trabalho, mas será divertido. Mas o que eu realmente queria dizer é que chegou novamente dias de ouvir Mahler. Para tanto, é preciso entrar na vibe, sentir uma certa apetência. Não creio que alguém simplesmente acorde e diga – hoje ouvirei a Oitava Sinfonia de Mahler, a menos que seja um dia especial.

O universo deste compositor é um tanto complexo e sua exploração pode durar uma vida toda, se você souber dosar. Eu não entendi direito ainda a Sexta, Sétima e a Oitava. Adoro de paixão a Nona e a Canção da Terra, mas ouço estas obras com parcimônia, quando posso realmente me entregar a elas com a dedicação que eu acho que elas merecem.

Sobrou o que? Bom, as outas sinfonias que eu ouço com mais frequência, a Quarta prima entre elas.

Mas, se você ainda é noviç@ na arte de Mahler, ou mesmo iniciad@ mas que ainda tem arcanos a galgar, precisa ouvir os Lieder. Na minha opinião, o caminho para o coração da música de Mahler passa por suas lindas canções.

E este disco, que você encontra aqui no PQP Bach ainda antes do seu lançamento, que será no dia 16 de outubro de 2020, traz assim um buquê delas, todas muito boas, algumas espetaculares. A cantora, Christiane Karg, já tem alguns discos lançados, mas este é o primeiro dela que ouço. Buscarei muitos outros.

Temos seis canções do conjunto intitulado “Des Knaben Wunderhorn”, com poesias folclóricas e cheias de sabedoria popular e sete canções do conjunto intitulado “Lieder und Gesänge aus der Jugenszeit”, do tempo de juventude. Tem também cinco canções maravilhosas, com letras de Friedrich Rückert, as “Rückert Lieder”, e para fechar o cortejo, algo deveras especial.

Em 1905, Edwin Welte inventou uma maneira de gravar os pianistas da época em rolos de papel e Mahler foi um dos que deixaram registro. Ele gravou arranjos de algumas de suas obras. Pois, usando estes raríssimos documentos, nas duas últimas canções, Christiane Karg é acompanhada por ninguém menos do que o próprio compositor. Bem, ela teve que dar um jeito de se adaptar aos andamentos ousados do Gustav, mas é isso o que temos. A última canção, em particular, tem como letra um poema da coleção “Des Knaben Wunderhorn” – Wir geniessen den himmlischen Leben – e tornou-se o quarto movimento da Quarta Sinfonia. A canção é uma descrição da vida no Céu pelos olhos de uma criança.

É claro, cada um pode ouvir a música como quiser, inclusive escolhendo uma ou outra canção e depois seguir para outros arquivos. Mas se você se permitir um pouco mais de tempo e dedicação, poderá usufruir muito mais. De um libreto de outro disco, tirei o seguinte parágrafo: Há outro aspecto dos Lieder de Mahler: eles devem ser vistos como os germes de suas obras sinfônicas. Não é por acaso que muitos deles existem em duas versões, com acompanhamento de piano e com acompanhamento orquestral. Na coleção de poemas intitulado “Des Knaben Wunderhorn”, que refletem a realidade em uma maneira simplista, Mahler encontrou algo de seu próprio e real despertar primitivo. Essas canções antecipam o que suas sinfonias mais tarde iriam definir – a relação entre felicidade e nostalgia, medo e amor pela natureza, pesar e o fantasmagórico.

Por exemplo, um pouco de esforço revela o rico universo folclórico das canções do KW. A primeira delas a ser apresentada aqui, Rheinlegendchen (Lendazinha Renana), conta de um camponês que sente saudades de sua amada e de uma forma mágica e misteriosa seu anel (ou aliança) cai no rio, corre para o mar e acaba na barriga de um peixe. O peixe, depois de assado vai para a mesa do rei que acha o anel! E, é claro, a jovenzinha reconhece o anel e volta correndo para devolvê-lo…. Bom, você acha que isso tudo demora uns quinze minutos para contar, não é? Nada, a canção demora meros 3 minutos! Por isso é preciso ouvir e ouvir…

Outra canção maravilhosa é Des Antonious von Padua Fischpredigt, que conta como o caridoso santo, não encontrando qualquer pessoa na igreja, foi pregar aos peixes. E todos os peixes o escutaram com a atenção que o santo merece. Mas, ao fim do sermão, cada um se volta para sua própria vida, o peixe lúcio continua um ladrão, as enguias grandes amantes, o sermão agradou, mas eles continuam como sempre foram. Verdadeira sabedoria folclórica.

Há canções nas quais o intérprete faz mais do que uma voz, como na Das Irdishe Leben – A Vida na Terra – em que há uma criança faminta, uma mãe que lhe promete o pão e o narrador. E tem Verlorne Müh’ – Inútil Esforço – em que a garota tenta atrair o rapazola, mas com diz o título, o esforço é em vão.

Eu gosto muito das canções com letras de Friedrich Rückert, que também escreveu a letra para os Kindertotenlieder. Há três canções curtas, belíssimas, e duas mais parrudas – Um Mitternacht, que é muito séria, e dá um pouco de medo, e a que eu mais gosto de todas, Ich bin der Welt abhanden gekommen. Acho que nesta canção há uma parte essencial da obra de Mahler, que não seria completa sem ela.

Escrevi mais do que havia planejado, não sei se você continua comigo até aqui ou se já foi para outra postagem. Espero que meu entusiasmo por essas coisas lhe contagie de alguma maneira e que o disco lhe seja agradável!

Vale!

Gustav Mahler (1860 – 1911)

  1. Rheinlegendchen (Des Knaben Wunderhorn)
  2. Wer hat dies’ Liedlein Erdacht? (Des Knaben Wunderhorn)
  3. Hans und Grete (Lieder und Gesänge aus der Jugendzeit)
  4. Ablösung im Sommer (Lieder und Gesänge aus der Jugendzeit)
  5. Scheiden und Meiden (Lieder und Gesänge aus der Jugendzeit)
  6. Verlorne Müh’ (Des Knaben Wunderhorn)
  7. Des Antonius von Padua Fischpredigt (Des Knaben Wunderhorn)
  8. Das irdische Leben (Des Knaben Wunderhorn)
  9. Wo die schönen Trompeten blasen (Des Knaben Wunderhorn)

Rückert-Lieder

  1. Blicke mir nicht in die Lieder!
  2. Ich atmet’ einem linden Duft!
  3. Um Mitternacht
  4. Liebst du um Schönheit
  5. Ich bin der Welt abhanden gekommen

 

  1. Erinnerung (Lieder und Gesänge aus der Jugendzeit)
  2. Phantasie aus Don Juan (Lieder und Gesänge aus der Jugendzeit)
  3. Nicht wiedersehen (Lieder und Gesänge aus der Jugendzeit)

Christiane Karg, soprano

Malcolm Martineau, piano

  1. Ich ging mit Lust (Lieder und Gesänge aus der Jugendzeit)
  2. Wir geniessen den himmlischen Leben

Christiane Karg, soprano

Gustav Mahler, piano de rolo

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FLAC | 227 MB

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MP3 | 320 KBPS | 159 MB

Malcolm Martineau, rindo à toa…

For her first solo recital on harmonia mundi, Christiane Karg, alongside her faithful partner Malcolm Martineau, presents an incursion into the most intimate aspect of Mahler’s music: the songs from Des Knaben Wunderhorn take us to the heart of the composer’s creative process, as do the songs from his youth and the later Rückert-Lieder.

Aproveite!

René Denon

Se você gostou desta postagem, pode se interessar por estas aqui:

Gustav Mahler (1860-1911): Des Knaben Wunderhorn

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia No. 4 – Emmy Loose, Philharmonia Orchestra & Paul Kletzki

4 comments / Add your comment below

  1. Caríssimo René Denon, parabenizo você e toda equipe do PQP Bach, pela iniciativa dos lançamentos internacionais. Faz-nos cidadãos integrados no mundo da música clássica. A boa música clássica do passado já eh uma boa pedida, agora com lançamentos fica melhor ainda!

  2. Caro René Denon
    Como pode um Homem compor 10 Sinfonias e alguns Ciclos de Canções, e nós mortais, levarmos uma vida inteira para conseguirmos decifrar este fabuloso mundo sonoro.
    Quando comecei a ouvir Mahler era uma confusão em tudo, um nó na cabeça do gaúcho. Aos poucos foi se abrindo um horizonte e a complexidade se tornando uma linguagem de acordes prazerosos e viciante. E em cada nova audição, novos caminhos, revelações, descobertas e sentimentos .
    Eu tinhatambém um problema com a Oitava, até que o Carlinus postou no seu Blog, atendendo a meu pedido (continuo agradecido por este gesto até hoje), a gravação citada por muitos como uma referência, que é aquela com Solti regendo a Orquestra de Chicago , gravada com os Corais Vienenses em Viena, os Solistas Popp, Harper, Auger, Minton, Watts, Kollo, Talvela, Quirk. O desempenho desta gravação é realmente sensacional, a Orquestra de Chicago está magnífica, os Corais divinos, os Solistas perfeitos e a condução vibrante de Solti. Para levar para a ilha deserta. E a obra condensa todo o gênio de Mahler, tanto no Plano Sinfônico quanto no Plano Vocal. Obra-Primíssima do inicio ao fim. Para as outras Sinfonias, minha preferência, sempre recai para Bernstein, regendo seja NYP, Concertgebow ou F. de Viena.
    Grato amigão Denon por compartilhar a postagem dos Lieder e um forte abraço do Dirceu.

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