Dino Saluzzi é um veterano compositor e músico argentino. Nasceu em 1935 e tem atualmente 80 anos. Dino toca bandoneón desde sua infância. É um tangueiro muito lírico, talvez em excesso. Bom compositor, quase erudito, ele infelizmente não tem a dureza de Piazzolla. Durante grande parte da sua juventude, Saluzzi viveu em Buenos Aires, tocando com a orquestra Rádio El Mundo. Vivia daquilo, mas às vezes fugia para tocar com pequenos conjuntos mais voltados para o jazz. Foi desenvolvendo um estilo cada vez mais pessoal que acabou por deixá-lo como um vanguardista em seu país. É hoje uma das estrelas da ECM. Tudo começou com Charlie Haden, Palle Mikkelborg and Pierre Favre em Once Upon A Time … Far Away In The South, e depois com Enrico Rava em Volver. Compreende-se, Rava trabalhou muito na Argentina e Haden sempre adorou a América Latina. O resgate para a turma de Eicher foi natural. Atualmente tem um duo com Anja Lechner, que está presentíssima neste El Encuentro. É um bom disco.
Dino Saluzzi – El Encuentro
1 Vals de los dias for bandoneon, violoncello and string orchestra 15:29
2 Plegaria Andina for bandoneon, violoncello, saxophone and string orchestra 17:14
3 El Encuentro for bandoneon, violoncello and string orchestra 21:44
4 Miserere for bandoneon and string orchestra 14:31
Eu te direi o que é liberdade para mim: não ter medo!
A pessoa que viria ser Nina Simone nasceu Eunice Kathleen Waymon, na Carolina do Norte, em 1933. Filha de uma ministra metodista e um faz-tudo, mostrou seus talentos musicais muito cedo (surpresa?) e desde os três anos tocava ao piano toda música que ouvia. Logo estava estudando piano clássico. Estava inclinada a tornar-se uma pianista, mas as indicações para escolas de música falharam e o destino seguiu seu curso. Para conseguir fechar as contas no fim do mês, buscou trabalho como pianista no Midtown Bar & Grill, em Atlantic City. Para garantir o trabalho, teve que cantar além de tocar o piano. Seu repertório de canções de Gershwin, Cole Porter, Richard Rogers, atraiu um fã clube de ouvintes. Seus voz rica e profunda, combinada com seu domínio do teclado, logo atraíram frequentadores de casas noturnas por toda a Costa Leste. Não demorou para surgirem propostas de gravações e assim nasceu Nina Simone (Nina de pequenina e Simone de Simone Signoret). Em 1959 foi lançado ‘Little Girl Blue’, álbum postado aqui pelo Ranulfus (link revitalizado, aqui) e o resto é história.
Nina Simone impaciente com a demora do fotógrafo enviado pelo PQP Bach em capturar uma boa imagem dela…
Eu escolhi postar um álbum com uma coletânea de sucessos, que eu amei, desde a escolha das músicas quanto ao cuidado com a qualidade sonora, necessária para fazer jus a uma cantora e musicista do nível dela. Sem contar também com a variedade de inspirações, pois que Nina Simone foi tão enorme, tão diversa que é impossível coloca-la em um ou mesmo alguns rótulos. Escolhi também uma álbum como foi lançado nos dias em que ela era artista do selo Philips, com o espetacular título ‘I Put A Spell On You’. Há algumas músicas repetidas nos dois álbuns, mas eu não ligo para isso. Para arrematar, escolhi mais quatro músicas que gostei muito, que considero bem significativas. São PQP Bach-bônus…
A maioria das canções foram gravadas em estúdio, mas algumas poucas foram gravadas em eventos e revelam como era significativa a química que ela tinha com o público. Uma delas é ‘I loves you Porgy’, de Gershwin, gravada no Carnegie Hall, assim como ‘Mississipi Goddam’. Temos aqui uma pequena amostra de como ela foi significativa na cultura estadunidense. A primeira canção é um clássico, ária da ópera Porgy and Bess, enquanto a outra canção revela o engajamento da artista com o movimento dos direitos civis.
É claro que o mais importante é que você mergulhe nos arquivos e descubra por si mesmo a riqueza e a variedade da arte de Nina Simone, mesmo numa pequena amostra como esta, mas não resisto à tentação de mencionar algumas das canções. ‘Feeling Good’ é uma dessas que todo o mundo conhece, inclusive meu embasbacado filho, ao chegar aqui em casa e ouvir o Denonsão mandando ver de Nina Simone. ‘Ne me quitte pas’ mostra que ela era realmente grande intérprete e ‘Lilac Wine’ uma que eu não conhecia e que me deixou de queixo caído.
As quatro extra canções eu escolhi um pouco por serem conhecidas mais na interpretação de seus autores originais, como as canções de Bob Dylan, uma delas associada ao movimento dos Direitos Civis (não é o ‘Blowing in the Wind’), assim como uma dos ‘bitos’, de George Harrison. Não podia ficar de fora a deliciosa ‘I want a little sugar in my bowl’, da própria Nina Simone, com toda a sensualidade que uma cantora pode colocar em uma linda canção, para arrematar a fatura. Essas faixas vieram do álbum Miss Simone – The Hits.
Como disse o Chat PQP Bach, Nina Simone tinha a reputação de ser volúvel, imprevisível, impaciente, muito introspectiva e às vezes mal-humorada. Era também muito ciumenta e ansiosa. Mas era, ao mesmo tempo, incrivelmente talentosa, inteligente, sincera e criativa. Era assim uma versão de saias estadunidense do Tim Maia. Nas décadas de 70 e 80 morou em muitos lugares, como Libéria, Barbados, Inglaterra, Bélgica, França, Suíça e Holanda. Em 1993 instalou-se em Carry-le-Rout, próximo a Aix-en-Provence, França, onde viveu até sua morte em abril de 2003. Segundo ela, sua função como artista é “…fazer as pessoas sentirem profundamente. […] E quando você capta a mensagem, quando conquista o público, você sempre sabe, porque é como eletricidade pairando no ar.” Espero que você goste da postagem e aprecie um pouco essa grandiosidade artística.
Aproveite!
René Denon
Agora que a postagem está pronta, podemos relaxar um pouquinho…
Repostagem apressada para homenagear o grande instrumentista Jack DeJohnette (1942-2025), aqui em um de seus momentos mais vanguardistas e, para mim, um dos mais brilhantes discos ao vivo dos últimos 30 anos (Pleyel)
Invisible Nature é um álbum ao vivo do saxofonista inglês John Surman e do baterista norte-americano Jack DeJohnette, gravado em Tampere (Finlândia) e Berlim em 2000. Quem segue o PQP sabe de minha tara por Surman. Bem, há cinco décadas, John e Jack encontram-se em Londres para jams regulares. Seu primeiro disco como dupla, The Amazing Adventures of Simon Simon, definiu um estilo espaçoso e aberto, quase de free jazz.
Os saxofones e o clarinete de Surman sempre tiveram um tom leve, de pássaro. Ele vibra, tece e mergulha no ar. DeJohnette é um baterista que usa suas habilidades com bom gosto e discrição. Ele se acomoda tranquilamente em Invisible Nature, até realiza isto com certo abandono em músicas como Rising Tide e Outback Spirits, ao lado das explorações proporcionalmente enérgicas de Surman. O CD oferece uma variedade idiossincrática de sons e abordagens. As melodias variam de sussurrantes a exploratórias, e a eletrônica expande a paleta de cada músico. Estas performances demonstram que DeJohnette e Surman têm um relacionamento intuitivo e aventureiro. Ao final de Fair Trade, Surman fala no fantastic Jack DeJohnette, Não há como não concordar. Surman também é.
(Relendo o que escrevi, acho que sugeri que o CD tem muita coisa eletrônica. É falso. Quase tudo é acústico).
.: interlúdio :. John Surman & Jack DeJohnette: Invisible Nature (ao vivo)
1 Mysterium 15:57
2 Rising Tide 9:32
3 Outback Spirits 12:30
4 Underground Movement 9:45
5 Ganges Groove 6:36
6 Fair Trade 11:21
7 Song For World Forgiveness 9:29
John Surman – soprano and baritone saxophones, bass clarinet, synthesizers
Jack DeJohnette – drums, electronic percussion, piano
Dois discos pouco conhecidos de John Coltrane, discos com nome um tanto complicado de se pronunciar, mas a música não é complicada. O de 1965 é da fase em que Coltrane queria expandir seu quarteto e trouxe músicos adicionais incluindo o saxofonista Pharoah Sanders, mas o conjunto da obra é menos vanguardista do que outros discos dos últimos anos de vida de John Coltrane. E o de 1958 é da época em que Coltrane tocava frequentemente com Miles Davis, mas aqui o trompetista que divide a liderança do grupo é outro, Wilbur Harden (1924 – 1969). Harden toca também o flugelhorn, com seu som mais agudo que o do trompete. Os arranjos aqui são bem convencionais mas os solos… acho que geniais e impressionantes não são palavras inadequadas.
Wilbur Harden & John Coltrane: Tanganyika Strut
1. Tanganyika Strut – 9:57
2. B.J. – 4:32
3. Anedac – 5:12
4. Once in a While – 9:28
Recorded on June 24 and May 13 1958.
John Coltrane: Kulu Sé Mama
1. Kulu Sé Mama (Juno Sé Mama) (18:50)
2. Vigil (9:51)
3. Welcome (5:24)
John Coltrane — tenor saxophone
McCoy Tyner — piano (tracks 1, 3)
Jimmy Garrison — double bass (tracks 1, 3)
Elvin Jones — drums
Frank Butler — drums, vocals (track 1)
Pharoah Sanders — tenor saxophone, percussion (track 1)
Donald Rafael Garrett — clarinet, double bass, percussion (track 1)
Juno Lewis — vocals, percussion, conch shell, hand drums (track 1)
Recorded:
United Western Recorders, Hollywood, California, October 14, 1965 (track 1)
Van Gelder Studio, New Jersey, June 10-16, 1965 (tracks 2, 3)
Grande jazz, uma gravação soberba e nos deixamos levar por essa música mágica que faz bem para o coração e para a cabeça. [Debernardi]
45:43 é pouco mais do que a duração de uma metade de um jogo de futebol. Se levarmos em conta a famosa cera dos ‘jogatores’ e os descontos com as consultas ao VAR, é bem menos do que meio jogo de futebol. Mas, esse disco com esse ‘Total Time’ é por demais precioso! Uma verdadeira joia, música para satisfazer e alegrar as mais diversas audiências. Eu tenho o CD desde os primórdios. Uma amiga recém-chegada de uma temporada de estudos na BigApple me emprestou alguns de seus CDs de jazz em troca de meus poucos de música clássica e eu me apaixonei. Assim, logo que tive alguma oportunidade, fui comprando minhas próprias cópias daqueles maravilhosos discos. Com o tempo, fui aprendendo mais sobre os músicos e sobre as histórias dos próprios discos. Esse aqui, “Nigerian Marketplace”, merece ter sua história mais divulgada, assim como ser ouvido por muitas pessoas.
Lá pelos anos 1970 Oscar Peterson era um pianista veterano e junto com um grupo de excelentes músicos, se juntou a Norman Granz no novo selo musical nomeado Pablo. O pessoal já havia trabalhado com ele, desde os dias da Verve. O disco desta postagem é fruto dessa colaboração e foi gravado ao vivo, no Montreux Jazz Festival, em 16 de julho de 1981. Veja o que Granz conta no livreto do álbum: Nos últimos dois anos, Oscar Peterson, entre aparições pessoais, vem compondo uma obra importante intitulada “ÁFRICA”. O que começou como uma canção em homenagem ao líder nacionalista negro sul-africano, Nelson Mandela, que estava preso, e sua esposa, Winnie, inevitavelmente se transformou em um épico de grande escala. Peterson chamou o primeiro tema, da suíte ainda inacabada, de “Nigerian Marketplace”. No verão passado, julho de 1981, ele se apresentou no Festival de Jazz de Montreux com Niels-Henning Ørsted Pederson no baixo e Terry Clarke na bateria e, como surpresa, incluiu esta composição em seu programa. O público ficou encantado com sua linha melódica assombrosa, e foi um sucesso estrondoso.
A propósito, Herbie Hancock se apresentou no programa da mesma noite, e acredito que o competitivo Peterson, inspirado pelo colega pianista que tanto o aprecia (e de quem ele gosta reciprocamente), fez uma apresentação magnífica.
Ao lançar este álbum do concerto, convenci Peterson a permitir a inclusão de “Nigerian Marketplace”, não apenas como uma prévia da suíte completa, mas como uma apresentação única por si só.
Nigerian Marketplace (O. Peterson)
Au Privave (C. Parker)
Medley: Misty (E. Garner) & Waltz For Debby (B. Evans)
Nancy With The Laughing Face (J. VanHeusen, P. Silvers)
Immaculate bass performance, possibly my favorite contrabass sound and playing out of any jazz recording, feels like this guy is effortlessly materializing bubbles of air out of his fingers just by waving his hand in the air.
Obviously peterson is amazing – who would have known ?! – and the drummer is very solid… but that bass man. This album used to be my favorite jazz album and though i don’t listen to it very often nowadays, i still enjoy the whole of its running time whenever i decide to revisit it. Definitely recommended.
É mais difícil escrever sobre música instrumental do que música com letra, é mais difícil escrever sobre música improvisada do que sobre música com estrutura bem determinada. É bastante difícil para mim falar sobre Hermeto Pascoal, também por esses motivos, além da sua carreira de camaleão nordestino de berço, carioca nos últimos anos por adoção e universal por vocação. Após o recente fim da sua longa e produtiva vida, vi um portal de notícias dizer que Hermeto deixou “um legado de 75 anos dedicado ao jazz, samba e forró” e em um primeiro momento fiquei puto: forró, samba, é assim que estão rotulando o Hermeto? Mas umas horas depois, dou o braço a torcer. É difícil escrever sobre Hermeto pela caleidoscópica mistura de sons que suas bandas fizeram, mas por outro lado talvez seja fácil: qualquer coisa que se disser vai ter um fundo de verdade. Sim, ele também fez forró.
Na verdade ele já cantou a pedra há muito tempo, em uma entrevista lá em 1972 para a revista Rolling Stone: Eu não gosto de dizer que faço um tipo de música. Porque eu faço questão de não fazer só um tipo de música. Eu quero fazer tudo: baião, rock, jazz, tudo sem uma intenção premeditada de fazer uma coisa específica. Depois ninguém vai dizer que o Hermeto tem um conjunto de baião ou de rock, todo mundo vai dizer que o Hermeto tem um conjunto de música, que para mim é o mais importante. (clique abaixo para expandir)
Então, constatando que tudo que se escreve sobre o bruxo tem boa chance de descrever em alguma medida a sua música, me atrevo a escrever sobre Hermeto Pascoal. Nos seus últimos anos ele manteve uma banda fixa com fiéis escudeiros que já tinham uma comunicação telepática com ele. Aliás, nos anos 1980 a banda também era espetacular, com destaque para o flautista e multiinstrumentista Carlos Malta, como vemos nesse disco postado mais abaixo. Mas voltemos aqui para o Hermeto já octogenário: vi dois shows desse seu último grupo. O primeiro eu vi de perto e me lembro que o solo de chaleira era o momento mais marcante para o público, aquele instante em que se impressionavam e se uniam em atenção unânime tanto os melômanos mais dedicados como o pessoal que estava por acaso naquele evento e sabia bem mais ou menos quem era o velhinho barbudo no palco. Ele tinha esse caráter do absurdo, do exótico que encanta quem normalmente não se preocupa com música instrumental. E quem se preocupa também se encantava com ele, nem preciso explicar os por quês, né?
O segundo show acabou sendo o último dele no Brasil, três meses atrás, no Circo Voador, junto aos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. Show gratuito e lotadíssimo, não consegui entrar mas, colado à grade externa, foi possível ouvir tudo e ver uns 30% do palco, a parte da esquerda, sobretudo o pianista André Marques. Alguns solos, mesmo sem ver, eram óbvios: de bateria, de sax, etc. E nos momentos mais estranhos e absurdos, era evidente que o bruxo estava tocando. Deixo abaixo esse simplório vídeo que registra mais o ambiente do que a música, mas não deixa de ser histórico esse registro de nove segundos do último show da banda de Hermeto Pascoal no Rio, com gente na fila abaixo dos Arcos até o fim do show tentando entrar.
Terminado esse relato – no qual realmente não consigo botar em palavras as experiências desses dois shows de Hermeto, incompetência que espero justificada – deixo aqui um dos seus discos mais importantes, cheio de improvisos e de sons do cotidiano pois, como dizia Hermeto, “as coisas que fazem parte do meu dia a dia é que ditam meu som”. Em dois momentos do disco, trechos de locutores de futebol servem de base para a música. Aliás, para situar melhor aquele dia na Lapa: poucos minutos antes do início do show, eu chegava atrasado pela Rua Riachuelo e via, em um bar, botafoguenses pularem no momento do gol do Botafogo contra o PSG. Então os torcedores do glorioso podem guardar isso na memória: no mesmo dia dessa vitória improvável, a última aparição em um palco brasileiro desse músico, arranjador e compositor profundamente improvável, nascido em 1936 no município do agreste alagoano que dá nome ao disco.
Hermeto Pascoal e grupo: Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca (1984)
Lado A
1. Ilza na feijoada (Hermeto Pascoal)
2. Santa Catarina (Hermeto Pascoal)
3. Tiruliruli (Osmar Santos)
4. Papagaio alegre (Hermeto Pascoal)
5. Vai mais, garotinho (José Carlos Araújo) / decisão do campeonato nacional 1984
6. Monte Santo (Hermeto Pascoal e João Bá)
Lado B
1. Spock na escada (Hermeto Pascoal)
2. Mestre Radamés (Hermeto Pascoal)
3. Aquela coisa (Hermeto Pascoal)
4. Frevo Maceió (Hermeto Pascoal)
5. Desencontro certo(Hermeto Pascoal)
Dieter Ilg Trio – Ravel: Classical meets jazz in virtuoso reimaginings of Maurice Ravel’s masterpieces, rich with depth and musical freedom.
Como vocês sabem, aqui nas empresas do PQP Bach somos apresentados a diversas experiências musicais, a grande maioria completamente inúteis e desnecessárias, mas sempre com grande cuidado e tomadas todas as precauções para preservar os nossos colaboradores.
Uma dessas experiências consiste em selecionar discos só pela capa – fora dos padrões ‘clássicos’ – ou pelo nome exótico de algum músico. O disco dessa postagem foi selecionado por satisfazer os dois critérios: capa e nome do músico: Ilg, Dieter Ilg.
É verdade, o baixista já andou aqui pelas colinas do PQP Bach, acompanhando o excelente barítono Thomas Quasthoff em uma excursão pelo mundo do (gasp!) jazz! O link desta antiga postagem andou derrubado, mas já está novamente funcionando.
Eu me voluntariei para o experimento apostando no compositor, sou fã de Ravel, Bolero e tudo… E me dei bem, gostei do disco que foi ouvido no balanço da rede onde me esparramo depois do almoço. Hoje tivemos filezinhos de frango empanados em aveia com acompanhamento de abobrinhas verdes refogadas levemente. É claro, arroz e feijão com algumas poucas rodelas finas de paio, pimenta malagueta à vontade.
Rainer, Dieter e Patrice numa pausa após o almoço…
Bem, divago! Voltando ao disco – formação clássica de trio com piano (Rainer Böhm), bateria (Patrice Héral) e contrabaixo (Dieter Ilg). Pelos nomes você já vê que são todos baianos…
Uma delícia ficar ouvindo os temas do Maurice vestidos de roupas jazzísticas. O manjado Bolero, o Trio e o Quarteto e a deliciosa Sonatine. Sem esquecer o Jardin féerique e outras cositas más. Veja se você gosta da versão da peça que inicialmente inspirou o disco – a Pavana para uma infanta defunta.
Foi a “Pavane pour une infante défunte” que despertou o interesse de Ilg pelo maître francês. Ilg já havia ficado fascinado pela versão com Jim Hall e Art Farmer: “Quando eu buscava uma nova fonte de inspiração para o meu trio, a lembrança desta peça me retornou. Mergulhamos mais profundamente na obra de Ravel e encontramos uma ampla gama de abordagens interpretativas […]. Sua música é feita sob medida para nós!”
(da série “Gostei, postei!”)
Aproveite!
René Denon
PQP Bach Quizz: Qual desses músicos é um bamba do jazz?
Caso você tenha acesso às plataformas de distribuição de músicas, aqui está uma possibilidade para a audição:
Publicado por Bluedog em 2008, restaurado por PQP Bach em 15/9/2025, em homenagem à viagem de volta do Campeão para seu planeta, iniciada em 13/9/2025 (Vassily)
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Quem quiser piratear os meus discos, pode ficar à vontade. Desde que seja para ouvir uma boa música. (…) Mesmo o meu trabalho em gravadoras, o povo tem mais é que piratear tudo. Isso não é revolução. O que queremos é mostrar essa música universal. Porque isso não toca em rádio nem aparece na capa do jornal. Sabe o que Deus falou? Muita gente pensa que é só para transar. Mas, não. “Crescei e multiplicai-vos”. Isso é em todos os sentidos. Vamos crescer na maneira de ser e multiplicar o que tem de bom. Sem barreiras. A música é universal. Eu toco no mundo inteiro e é sempre lotado. Eu só cheguei a isso porque os meus discos são pirateados, estão à vontade na Internet.
O único motivo para Hermeto Pascoal não estar no Olimpo da humanidade – como Davis, Corea, Coleman ou Monk – é o fato de ter nascido na América do Sul. Fosse europeu ou norte-americano, seria um pilar da história da música e do jazz. Já é, mas a falta de reconhecimento, popularidade e admiração lhe tomam o lugar que deveria ocupar. Não que essas coisas preocupem, ou pareçam ter algum dia preocupado o velho bruxo. Hermeto é um artista que cabe naquela acepção tão cara a Adorno: um ungido pelos deuses e destinado a produzir sua arte sem que nada além importe, sem que nada se interponha. De muito criança já improvisava pífanos em galhos de mamona. Aprendeu a tocar o acordeão do pai aos 7. Isso em Lagoa da Canoa, um (hoje) município de 20 mil habitantes no estado de Alagoas.
Estas três últimas frases, de certa forma, podem definir muito bem a trajetória de Hermeto. Gênio inquieto, construtor de instrumentos, improvisador, extravagante. Seu estilo vocal de fazer jazz e misturá-lo a sonoridades típicas brasileiras – seja no estilo, como o choro, samba e baião, seja nos instrumentos, como o acordeão e a chaleira – pode tanto mostrar um maestro formidável quanto um ser humano que só pode haver dando vazão à tudo que sai de si como música. Quase como uma respiração ao contrário. Este Slaves Mass, de 1976, seu segundo álbum, foi quem sedimentou o nome de Hermeto no cenário do jazz mundial, onde se consagraria três anos depois, no festival de Montreaux. Além do talento imaginativo de Hermeto, notam-se influências de Wayne Shorter, Cannonball Adderley (a quem foi dedicada a faixa 4), Joe Zawinul (aqui, pode ser um exagero deste cão; mas não consigo escutar as notas brilhantes do Fender Rhodes sem pensar nele) e Miles Davis, principalmente no fusion de Star Trap. Sobre Miles e Hermeto, aliás, mais em breve.
A edição trazida aqui é a de 2004, que conta com três faixas bônus. Pela duração, é quase um outro disco-gêmeo, mais solto nas jams, generoso em harmonias cromáticas. Os arquivos estão compactados independentemente (a parte 2 contém apenas a última música).
Para quem conhece pouco do bruxo, um aviso: fique de ouvidos abertos. Que aos 72, segue lotando os lugares onde pisa, em qualquer uma das cinco formações utilizadas para se apresentar – Hermeto Pascoal e Grupo, Hermeto Pascoal e Aline Morena (sua esposa), Hermeto Pascoal Solo, Hermeto Pascoal e Big Band e Hermeto Pascoal e Orquestra Sinfônica. Quando não está viajando, mora em Curitiba. É o músico mais carismático, e grato, que já vi de verdade.
Muita gente confunde inovar com idade, com números. Muita gente pensa que, quando um menino pega um violão e sai cantando, o povo acha que aquilo é coisa nova. Tem muita gente de 18 anos tocando coisas velhas e quadradas. (…) Não é que o velho seja ruim, é que o novo tem nascido velho.
Hermeto Pascoal – Slaves Mass (vbr)
Hermeto Pascoal: voz, piano, piano Rhodes, clavinet, flauta, sax soprano
David Amaro: guitarra, violão, violão 12
Alphonso Johnson: baixo, efeitos especiais
Raul de Souza: trombone
Chester Thompson: bateria
Airto Moreira: bateria, percussão, porcos
Ron Carter: contrabaixo acústico
Flora Purim: voz
Produzido por Kerry McNabb para a Warner
01 Mixing Pot 9’18
02 Slaves Mass 4’19
03 Little Cry for Him 2’11
04 Cannon 5’20
05 Just Listen 7’08
06 That Waltz 2’46
07 Cherry Jam 11’45
08 Open Field 4’25
09 Pica Pau [take 1] 14’20
10 Star Trap [part 2] 15’45
Postagem original de 2017 por Wellbach, republicada em 15/9/2025 em homenagem ao Mago, que partiu desse triste rochedo em 13/9/2025 (Vassily)
IM-PER-DÍVEL !!!
Magos existem. Eu vi um deles. Na verdade o último dos magos da música ainda sobre a terra. Capaz de transformar tudo o que toca, literalmente falando, em matéria musical. Sua aura faz brotar música por onde ele passa e quando ele toca a sua alquimia deixa pasmos até mesmo os que o acompanham há anos; a música se transforma, se transmuta, o que era bossa vira valsa, frevo, choro… Os músicos ao seu lado se esquecem de tocar, boquiabertos diante daquilo. Seu poder parece emanar de alguma Pedra Filosofal que traz entre as barbas alvas – com as quais ele também produz música, quando quer. Hermeto Pascoal é uma força da natureza. Quero narrar aqui um sonho que tive há alguns anos, embora ache piegas esse negócio de contar sonhos, mas Jung me autorizaria e para mim ele também é mago. Havia uma grande clareira em meio a uma mata, ali acontecia uma festa, índios e outras pessoas de diferentes origens. Hermeto tocava flauta no meio de uma roda de músicos, meio toré, meio arraial nordestino. Ele saia da roda e se afastava mais e mais em direção à mata. Eu o seguia mata dentro e o perdia de vista; logo mais notei no chão suas pegadas e eram luminosas. Emanava uma luz forte e azulada. Ora, interpretar sonhos ficou pro Zezinho da Bíblia e para o saudoso Pedro de Lara. Apenas digo que meus encontros com o mago me deixaram tatuagens musicais nos ossos, impressões radioativas provocadas por sua aura poderosíssima. A mais representativa foi em Mar Grande, na Ilha de Itaparica, do outro lado do mar frente a Salvador, na pousada ‘Sonho de Verão’ do amigo irmão Eratóstenes (Toza) Lima; singularíssima pessoa, mistura de músico, administrador, ecologista, ufólogo, mestre cuca, cronista, arquiteto, escultor… Neste lugar onde vivemos muitas aventuras musicais havia um grande palco em frente à piscina e ali uma diversidade de instrumentos à disposição de todos os músicos que por ali passassem. Hermeto pousou ali por uma noite e nos deu de sua arte fartamente. Espetáculo. Após o que, antes que tivéssemos o privilégio de tocar para o mestre, fui até ele e pedi que autografasse minha surdina growl, um desentupidor de pia; objeto muito conhecido entre jazzistas trompetistas, objeto que guardo como relíquia hierática.
Na manhã seguinte acordei bem cedo, queria me despedir do mestre, que partiria presto. Fiquei ruminando no flugelhorn uns exercícios de rotina. Ele apareceu e disse: “Você estava tocando escalas cromáticas! É difícil no flugel, não é? Você sabe onde posso conseguir uma surdina pra flugel?” Respondi que existe, mas que é rara e ajudaria apenas amarrar um pano na campana. Ele gostou da ideia, disse que tinha o hábito de acordar muito cedo, sentar no chão e tocar flugel, acordando a casa toda e por isso ficavam furiosos; daí o interesse numa surdina (risos). No café da manhã seu filho indagou: “Pai, quer pão?” Foi o bastante para Hermeto, que tomou uns talheres, percutiu as xícaras e fez um baião: “Kepão, kepão…”
Outra vez que o encontrei foi numa casa noturna na qual eu tocava. Ele chegou e estávamos em ação. Parei tudo e lhe dedicamos uma Asa Branca bem Free-jazz. Ele tocou no meu trompete e depois subiu ao palco para nos conceder duas horas de maravilhas ao piano. A última vez que o vi foi um acaso, estava num ponto de ônibus diante de um restaurante chinês. Um taxi apareceu e ele surgiu. Fui lá pedir-lhe a bênção. Não preciso ressaltar que para um músico instrumentista toda essa tietagem é normal e dá orgulho tratando-se de Hermeto. Mas falemos do presente registro sonoro. Em 1988 Hermeto entrou num estúdio para gravar um disco solo no piano acústico. Muitas das faixas foram improvisadas, temas criados, desenvolvidos e concluídos instantaneamente; como somente os seus feitiços poderiam conceber. A primeira faixa, uma joia chamada ‘Pixitotinha’. Para quem não sabe a palavra é um substitutivo carinhoso para algo ou alguém pequeno, como uma criança; significando ‘pequenininha’. Termo muito usado em minha terra e no meu tempo de criança, Caruaru – Pe; meu avô Raimundinho (que Deus o tenha) usava bastante esta palavra. Foi uma peça criada instantaneamente, como uma pérola ou uma rosa que se materializa entre as mãos do mago. A sua conhecida peça Bebê nos vem com impetuosa e expressiva verve, tema talvez mais famoso do mestre. ‘Macia’ é uma brisa alvissareira, uma impressão suave como o nome da peça, um lampejo Debussyano, um véu que esvoaça. ‘Nascente’, um evocação da força criativa da natureza, que evolui para figuras cada vez mais complexas. ‘Cari’, uma melodinâmica de passagem, um trecho de energia musical do qual temos apenas um vislumbre. ‘Fale mais um pouquinho’, outro momento musical curioso e meio jocoso, como o titulo. ‘Por diferentes caminhos’, título do álbum, partindo de um ostinato que até lembra certo prelúdio gotejante de Chopin, para logo nos mergulhar em reflexões melódicas de cativante beleza; brisas de nordeste entrando pela janela, ponteios… ‘Eu Te Tudo’, uma peça inquieta, que certa nostalgia tenta apaziguar sem sucesso; as progressões engolfam a melodia, que luta para se instaurar, perdendo-se na distância das últimas notas agudas. ‘Nenê: um dos mais belos momentos do disco e que dispensa qualquer comentário, apenas ouçamos; digo apenas que o velho Villa decerto trocaria alguns dos seus charutos por certos trechos improvisados por Hermeto; a faixa é aberta pela voz do próprio, dedicando a música, que será feita naquele instante a um amigo baterista e compositor. Ao final, arrematando numa imponente cadência em ritardo, ouvimos o grito de Hermeto: “Obrigado Nenê!”, que a essa altura deve ter-se acabado de emoção. Na faixa ‘Sintetizando de verdade’ temos o que considero um dos maiores momentos de improvisação musical já gravados. Hermeto, no piano preparado (ou sabotado), nos arrebata com uma espantosa, meditativa e tenaz odisseia por plagas nordestinas; encontramos pelo caminho rastros de cangaceiros e beatos, depois o que parece um oriental com seu burrico carregado de quinquilharias, moçoilas com potes de água fresca, mandacarus e flores exóticas, frutas de palma e revoadas de passarinhos verdes; serras e riachos secos; para enfim nos levar a um povoado em festa, foguetório e forró na praça, meninada e bacamarteiros, bandas de pife e sanfonas. A habilidade do músico é espantosa e diria, sem receio, que a peça faria inveja a Prokofiev e Bartók – quem nem tiveram a sorte de conhecer a música nordestina. Em ‘Nostalgia’ Hermeto nos surpreende com um famoso tango que executa à sua maneira, lembrando talvez dos tempos em que tocava na noite e em happy hours. Uma história que ele mesmo conta desses tempos é que naquelas ocasiões, enquanto a audiência batia papo alheia ao seu piano, ele aproveitava para estudar algumas ousadias harmônicas e afins. Certa vez um sujeito veio de lá e perguntou: “O que você está tocando aí?” e ele: “E vocês, o que estão falando lá?” (mais risos). A última faixa, ‘Amanhecer’, mais um meditativo momento que evoca alvoradas e atmosferas orvalhadas, com um perfume de melancolia; a inquietude também está lá, porém dessa vez a melodia impera e nos conduz a um final cheio de luz – como as suas pegadas em meu sonho. Hermeto é inextinguível, temos a sorte de existir tal artista em nossas terras e, graças aos céus, ainda entre nós e gerando música. Que assim permaneça pelos séculos do séculos, magnífico Hermeto Pascoal, Mago dos Magos.
Por Diferentes Caminhos – Hermeto Pascoal – Piano solo, 1988
1 Pixitotinha
2 Bebê
3 Macia
4 Nascente
5 Cari
6 Fale mais um pouquinho
7 Por diferentes caminhos
8 Eu Te Tudo
9 Nenê
10 Sintetizando de verdade
11 Nostalgia
12 Amanhã
O que dizer? Que eu amo Hermeto? Sim, direi isto. Que não perdi nenhum show dele que passou perto de mim? Sim, direi. Que uma vez faltei ao trabalho porque estava trabalhando em Pelotas, tinha que voltar naquela manhã, mas vi no jornal que ele estava na cidade e iria se apresentar naquela noite? Fiquei lá, óbvio. Voltei um dia depois e disse com sinceridade pro meu chefe o motivo da minha falta. E ele ficou tão apalermado que disse meio puto para eu ir trabalhar. Não falou comigo por uma semana, mas não me demitiu.
Hermeto Pascoal (1936) é um compositor, arranjador e super e multi-instrumentista brasileiro. Toca acordeão, flauta, piano, saxofone, flauta, violão, baixo e diversos outros instrumentos. Hermeto é uma figura significativa na história da música brasileira, reconhecido principalmente por suas habilidades em orquestração e improvisação, além de ser produtor musical e colaborador de diversos álbuns nacionais e internacionais. Conhecido como “O Bruxo” ou “O Campeão”, ele frequentemente faz música com objetos não convencionais, como bules, brinquedos infantis e animais, bem como teclados, acordeão de botões, melódica, saxofone, violão, flauta, voz, vários metais e instrumentos folclóricos. Talvez por ter crescido no campo, usa a natureza como base para suas composições, como em sua Música da Lagoa, em que os músicos borbulham água e tocam flautas imersos em uma lagoa: uma emissora de televisão brasileira de 1999 o mostrou solando a certa altura, cantando em um copo com a boca parcialmente submersa na água. Há muita controvérsia em relação ao local onde ele nasceu, com várias fontes dizendo que ele nasceu em Olho d’Água Grande ou Lagoa da Canoa, ambas cidades de Alagoas. Hermeto nasceu com estrabismo e é portador de albinismo, o que fez com que ele não tivesse que trabalhar na roça desde a infância por ele não poder se expor muito ao sol.
Quando saiu da roça, vocês sabem o que aconteceu. Pesquisem, né?
Quem quiser piratear os meus discos, pode ficar à vontade. Desde que seja para ouvir uma boa música. (…) Mesmo o meu trabalho em gravadoras, o povo tem mais é que piratear tudo. Isso não é revolução. O que queremos é mostrar essa música universal. Porque isso não toca em rádio nem aparece na capa do jornal. Sabe o que Deus falou? Muita gente pensa que é só para transar. Mas, não. “Crescei e multiplicai-vos”. Isso é em todos os sentidos. Vamos crescer na maneira de ser e multiplicar o que tem de bom. Sem barreiras. A música é universal. Eu toco no mundo inteiro e é sempre lotado. Eu só cheguei a isso porque os meus discos são pirateados, estão à vontade na Internet.
Hermeto Paschoal: A Música Livre De Hermeto Paschoal
A1 Voz E Vento
A2 Música Das Nuvens E Do Chão
A3 Dança Da Selva Na Cidade Grande
A4 Amor, Paz E Esperança
A5 Diálogo
B1 Correu Tanto Que Sumiu
B2 Festa Na Lua
B3 Eita Mundo Bom!
B4 Religiosidade
B5 Arrasta Pé Alagoano
B6 Vou Esperar
B7 Auriana
B8 Banda Encarnação
Hermeto Pascoal & Grupo – Só Não Toca Quem Não Quer
De Sábado Prá Dominguinhos 4:35
Meu Barco 0:50
Viagem 4:25
Zurich 9:30
O Correio 0:49
Intocável 3:00
Suíte Mundo Grande 4:03
Cancão Da Tarde 2:35
Mente Clara 2:13
Ilha Das Gaivotas 4:49
Rebuliço 2:36
Quiabo 5:14
Itiberê Orquestra Família e Hermeto Pascoal: Hermetismos Pascoais – ao Vivo em SP (2002)
1. Apresentação
2. Preto Velho
(Itiberê Zwarg) – Itiberê Orquestra Família e Hermeto Pascoal
3. Suíte do Parque Infantil / Suíte do Realejo
(Itiberê Zwarg) – Itiberê Orquestra Família
4. Na Carioca
(Itiberê Zwarg) – Itiberê Orquestra Família e Hermeto Pascoal
5. Passando o Ano a Limpo
(Itiberê Zwarg) – Itiberê Orquestra Família
6. Agalopada
(Itiberê Zwarg) – Itiberê Orquestra Família e Hermeto Pascoal
7. Pedra Vermelha
(Itiberê Zwarg) – Itiberê Orquestra Família
8. Esse Mambo É Nosso
(Itiberê Zwarg) – Itiberê Orquestra Família e Hermeto Pascoal
9. Feitinha pra Nóis
(Hermeto Pascoal) – Itiberê Orquestra Família
10. No Varal
(Itiberê Zwarg) – Itiberê Orquestra Família e Hermeto Pascoal
Itiberê Orquestra Família:
Mariana Bernardes – voz e percussão
Mariana – flauta
Carolina – flauta e viola
Letícia – flauta
Aline – flauta, flautim, flauta baixo e clarinete
Joana – clarinete e clarone
Pedro – trompete e melofone
Flávio – trompete
Sidney – sax alto, sax tenor, sax soprano e flauta
Thiago – sax alto, sax tenor
Janjão – trombone
Bernardo Ramos – guitarra
Luciano – guitarra e violão
Miguel – guitarra e violão
Cristiano – bandolim e violão
Vitor Gonçalves – piano e sax alto
João – piano, sanfona e percussão
Renata – violino
Isadora – violino
Maria Clara – violoncelo
Pedro – violoncelo
Bruno – baixo acústico e baixo elétrico
Mayo – baixo acústico e baixo elétrico
Pedro Albuquerque – baixo acústico
Pedro Christiano – tuba e baixo elétrico
Ajurinã – bateria, percussão e gaita
Georgia – percussão e bateria
Mingo – percussão e bateria
Itiberê Zwarg: arranjos e regência
Show realizado no Sesc Consolação em 10 de abril de 2002, no projeto “Hermetismos Pascoais”.
Nossa homenagem ao saudoso Ranulfus continuará, também, através da republicação de suas preciosas contribuições ao nosso blog – como esta, que veio à luz em 4/9/2016.
Tem coisa mais improvável que uma peça jazzística composta por um sujeito chamado Jaromir Hnilička?
Tem: que a peça consista basicamente de uma execução instrumental bastante simples dos cantos litúrgicos da missa católica, seja executada por uma banda de jazz tcheca… e o disco tenha feito sucesso em todo o mundo.
Pois aconteceu, senhores: o disco foi lançado na Europa em 1969, e depois teve edições em todo mundo, inclusive aqui no Brasil, onde o Monge Ranulfus o adquiriu em 1975.
Apesar de ainda possuir o vinil, a ripagem postada foi garimpada na internet por Daniel the Prophet, e Ranulfus apenas tratou de reduzir os estalos com emprego das artes mágica do mestre Avicenna.
Não tenho ideia de se vocês vão gostar ou não dessa música bem feita porém não muito complexa. A mim sempre agradou bastante – especialmente a faixa mais longa, inspirada no Kyrie e sequências, com 11 minutos. E mais não digo.
Ah, digo sim: já que é domingo de manhã… boa missa, né?
MISSA JAZZ
Composta e arranjada por Jaromir Hnilička
Executada pela Gustav Brom Orchestra (1969)
O que aproxima esses dois discos tão diferentes é a presença de naipes de sopros liderados por um pianista. Ou big bands, em inglês: conjuntos com sonoridade orquestral, diferentes do jazz feito por um trio ou quarteto.
O álbum ao vivo de Ray Charles eu conheço por um LP bem antigo lá em casa e, do meu ponto de vista, é mais interessante do que as suas gravações de estúdio por aquela dinâmica dos shows ao vivo com público. Alguns dos seus grandes hits estão presentes em arranjos com banda de metais e com uma ou duas cantoras que acompanham a voz de Ray Charles.
Já o álbum de McCoy Tyner, gravado em estúdio, apresenta arranjos mais suaves com destaque para as flautas… Há outros discos gravados por McCoy nos anos 1970 com grupos maiores e nos quais os arranjos não me agradaram tanto assim, mas neste aqui o balanço parece perfeito entre uma certa orquestração leve influenciada pela bossa nova e os momentos solo do piano, do baixo (Jooney Booth) e da bateria (Alphonse Mouzon). As notas do disco dizem que os arranjos são de McCoy, representando a sua primeira experiência escrevendo partituras para um grupo desse tamanho.
Ray Charles: Live in Concert (1965)
Opening 0:35
Band: Swing A Little Taste 3:35
I Gotta Woman 6:10
Margie 2:29
You Don’t Know Me 3:14
Hide Nor Hair 2:57
Baby, Don’t You Cry 2:35
Makin’ Whoopee 6:17
Hallelujah I Love Her So 2:55
Don’t Set Me Fee 3:58
What’d I Say 4:30
Finale 1:55
Como pode um jovem de 22 anos, já em seu álbum de estréia, gravar um dos melhores discos de Jazz da história? Gênio, predestinado, sei lá? Não sei, nem interessa saber, só sei que o cara reuniu aqui um timaço de músicos, nos estúdios de outro gênio, Rudy Van Gelder, e em apenas um dia gravou essa obra prima (segundo o site Discogs este disco foi gravado em 19 de Junho de 1960).
Freedie Hubbard sempre foi um de meus músicos de jazz favoritos. Talvez um dos trompetistas mais enérgicos que já ouvi, o cara tinha pulmões de ferro para conseguir tirar aqueles solos de seu instrumento. E neste seu disco de estréia ele também já demonstra uma tremenda maturidade e sensibilidades musicais, como em faixas como na balada “But Beautiful”. Claro que não podemos esquecer dos músicos que o acompanham, destacando o sax Tenor Tina Brooks e o futuro pianista de John Coltrane, McCoy Tyner. Claro que por trás de tudo estava o incrível produtor Rudy Van Gelder, que está por trás dos melhores discos de Jazz gravados na década de 60. Seu estúdio em New Jersey era frequentado pelos melhores músicos da época.
Mas o que torna esse álbum tão especial, além do fato de ser um álbum de estréia, o que já é um feito notável? O que sempre me impressionou e cativou em Freedie Hubbard foram, claro, sua técnica e virtuosismo, além de uma energia contagiante. E a já citada maturidade musical de um jovem de meros 22 anos de idade. Isso é incrível … a impressão que sempre tive foi de que a energia que ele transmitia em seus solos contagiavam todos os músicos envolvidos. E Van Gelder, que de bobo não tinha nada, neste disco apresentou ao mundo um dos maiores trompetistas que já respiraram na face da Terra, isso numa época em que a concorrência era pesada, uma época de ouro, Miles Davis, Dizzie Gilespie e Donald Byrd são apenas alguns que citaria agora, músicos que por sinal também frequentavam o mesmo estúdio.
Enfim, espero que apreciem. Os que não conhecem, conheçam. Coloquem o fone de ouvido para ouvir as nuances dos improvisos, o barulho dos pratos da bateria. Tremendamente bem gravado em estéreo, e já remasterizado umas duas ou três vezes. Estou trazendo para os senhores a remasterização da Mosaic, que também as ‘alternate takes’, as gravações que foram deixadas de lado por algum motivo.
1. Open Sesame
2. But Beautiful
3. Gypsy Blue
4. All Or Nothing At All
5. One Mint Julep
6. Hub’s Nub
7. Open Sesame (Alt Tk)
8. Gypsy Blue (Alt Tk)
9. Asiatic Raes
10. The Changing Scene
11. Karioka
Freedie Hubbard – Trompete
Clifford Jarvis – Bateria
McCoy Tyner – Piano
Sam Jones – Baixo
Tina Brooks – Sax Tenor
Dois CDs estupendamente bem produzidos com obras do grande Morricone. Mas os dois não podem ser mais diferentes. O primeiro vem dos filmes: com grande orquestra, solistas, órgão, tudo de bom e perfeito, é claro. O segundo é interpretado por um trio de jazz que também é genial. Sim, a dupla de CDs é um samba do afrodescendente desprovido de pensamento lógico, só que é bom de ouvir. Nossa memória afetiva é facilmente levada a passear por filmes extraordinários. Só a lembrança dos filmes de Sergio Leone já vale ouvir o CD com atenção.
Porém, se você veio de Marte e está lendo isso, conto-lhe que Ennio Morricone (Roma, 1928 – Roma, 2020) foi um compositor, arranjador e maestro italiano que escreveu músicas de diversos estilos, mas especializou-se em belas melodias e arranjos para o cinema. Morricone compôs mais de 400 partituras para filmes de cinema e televisão, além de mais de 100 obras, digamos, de música erudita. Sua trilha sonora para Três Homens em Conflito (The Good, the Bad and the Ugly, 1966) é considerada uma das trilhas sonoras mais influentes da história e foi introduzida no Grammy Hall of Fame. Sua filmografia inclui mais de 70 filmes premiados, dentre eles todos os filmes de Sergio Leone desde Por um punhado de dólares, todos os filmes de Giuseppe Tornatore desde Cinema Paradiso, mais A Batalha de Argel, Animal Trilogy de Dario Argento, 1900, de Bernardo Bertolucci, Exorcist II, Dias no Paraíso, vários filmes importantes no cinema francês, em particular Le Professionnel, bem como A coisa, A Missão, Os Intocáveis e muitos outros que você viu, se realmente não é um marciano.
.: interlúdio :. Ennio Morricone: The Oscar Winner
1.1 Gabriel’s Oboe
1.2 The Good, The Bad And The Ugly
1.3 Mission
1.4 For A Fistful Of Dollars
1.5 Duck, You Sucker
1.6 Once Upon A Time in the West
1.7 Once Upon A Time in America
1.8 To the Ancient Stairs
1.9 Cinema Paradiso
1.10 Moses
1.11 A Trumpet
1.12 Brothers
1.13 Ave Maria Guarani
1.14 Once Upon A Time in the West
1.15 The Legend of the Pianist on the Ocean
1.16 Wild Bunch
1.17 For a fistful of Dollars
1.18 Playing Love
1.19 For a fistful of Dollars
1.20 The Return of Ringo
1.21 Cinema Paradiso
1.22 Gabriel’s Oboe
1.23 The Legend of the Pianist on the Ocean
2.1 For a few Dollars More
2.2 My name is Nobody
2.3 Sacco and Vanzetti
2.4 Metello
2.5 Once Upon A Time in America, Deborah Theme
2.6 The Mission Suite
2.7 The Legend of the Pianist on the Ocean
2.8 Per Amore
2.9 The Secret of the Sahara
2.10 Tie me up! Tie me down!
2.11 Here’s to you
2.12 To the Ancient Stairs
2.13 For a fistful of Dollars
2.14 Once Upon A Time in the West – Duck, You Sucker
2.15 The Godfather Part II
2.16 Once Upon A Time in America
2.17 The Legend of the Pianist on the Ocean
2.18 Lemon Scent
2.19 Your Love
2.20 Cinema Paradiso
2.21 Gabriel’s Oboe
Quem era vivo na década de 1990 vai se lembrar desse grupo de músicos cubanos, muitos deles com mais de 70 ou mesmo 80 anos de idade, que de repente ficaram famosos a partir de um documentário. Fizeram um belíssimo disco de estúdio, ganharam Grammy, mas o disco que apresento aqui é o segundo, gravado ao vivo em Nova York quando estavam na crista da onda.
É um caso raro de músicos que fizeram carreiras mais ou menos discretas por décadas, tocando em cassinos, casas noturnas e coisas do tipo, alguns deles desde antes da Revolução Cubana de 1959… e de repente alcançaram um estrelato mundial, coisa que naqueles tempos pré-Youtube e pré-redes-sociais ainda passava necessariamente pelo controle de gravadoras e outras empresas com poder de distribuição internacional. Os músicos se conheciam há anos, mas não formavam exatamente uma banda, de modo que temos um tipo de jazz caribenho em que os arranjos são bastante fluidos, às vezes o trompete tem destaque, às vezes o piano (Rubén González, 1919-2003), às vezes a voz masculina e às vezes a voz feminina (Omara Portuondo, nasc. 1930 e ainda não se aposentou!). Eu insisto em chamar esse tipo de música de jazz, o que é uma certa alfinetada na concepção segundo a qual esse estilo estaria restrito às fronteiras de um certo país anglófono. É bastante curioso que antes de 1959 as músicas de Cuba e dos EUA eram bem entrelaçadas e logo depois os laços se cortaram por motivos políticos, com esses músicos – muitos deles já falecidos em 2025 – representando uma memória viva de fluxos culturais típicos de tempos idos.
Buena Vista Social Club At Carnegie Hall:
Chan Chan 4:46
De Camino A la Vereda 4:59
El Cuarto de Tula 8:01
La Engañadora 2:44
Buena Vista Social Club 5:59
Dos Gardenias 4:24
Quizás, Quizás 3:48
Veinte Años 4:07
Orgullecida 3:23
¿Y Tú Qúe Has Hecho? 3:33
Siboney 2:33
Mandinga 5:30
Almendra 5:49
El Carretero 5:39
Candela 7:00
Silencio 5:25
Rubén González – Piano
Hugo Garzón – Vocals
Ibrahim Ferrer – Vocals
Manuel ‘Puntillita’ Licea – Vocals
Omara Portuondo – Vocals
Pío Leyva – Vocals
Ao ouvir esse disco (com muito prazer) a palavra groovy me veio à mente. Eu realmente não sei se o termo é adequado, mas para mim, ficou sendo. Groovy no sentido descolado, com um certo senso nostálgico, mas de certa forma atual – ou melhor – atemporal.
Não adianta insistir com as palavras, creio que o ideal é ouvir o disco – que é bem curtinho – e ver se você concorda comigo, se me entende.
Eu gosto dessa combinação de dois saxofonistas, um propondo um tema, uma ideia para o outro tomar e elaborar, ou quando ambos atacam o tema juntos, como é o caso bem na abertura do disco, na primeira faixa, chamada Bunny.
Hodges
O disco vai assim, uma mais levada, outra mais mela-cueca, como descreveria o síndico, mas tudo groovy!
Gerry Mulligan é uma figura já do século XX e foi primariamente um saxofonista, do cool jazz, mas também tocava clarineta e piano, era compositor e fazia arranjos. Atuou ao lado de nomes lendários como Miles Davis e Chet Baker.
Johnny Hodges era mais velho do que Mulligan e ficou conhecido por atuar como solista no grupo de Duke Ellington, mas teve também sua própria banda e a sua própria história.
Sobre Johnny Hodges: In addition to the singing clarity and mellowness of Hodges’ tone, his playing is also characterized by consummate poise. […] A corollary of Hodges’ poise is his capacity for total relaxation – floating, flawless time, fully developing ideas; an equal ease in ballads and swings.
Como eu disse: groovy!
Aproveite!
René Denon
PQP Bach Quizz: Por que a faixa 5 é intitulada 18 Carrots for Rabbit?
Se você gostou dessa postagem, não deixe de visitar essa aqui:
Esses irrepetíveis CDs “fora de gênero”… Isto é jazz em razão de Bela Fleck? É world music por causa do grande Zakir Hussain? É clássica devido a Edgar Meyer? Bem, o mais importante é dizer que é tudo isso e que é tudo acessível, agradável e bem feito. Não é uma miscelânea de estilos, é algo com unidade e química próprias. Há as músicas em trio e há a participação de uma orquestra sinfônica com regência do excelente Leonard Slatkin.
Classifiquei o CD em jazz, mas não sei. Há improvisação mas não é jazz, certamente. Não é absolutamente vanguarda, nem free, nem world. Erudito seria adequado, mas não contaria toda a história. OK, fica sob o largo guarda-chuva do jazz.
Para vocês saberem se vão gostar, só ouvindo.
Bela Fleck / Zakir Hussain / Edgar Meyer – Melody Of Rhythm (2009)
1. Babar 6:10
2. Out Of The Blue 4:58
3. Bubbles 7:12
4. The Melody Of Rhythm, Movement 1 11:51
5. The Melody Of Rhythm, Movement 2 6:26
6. The Melody Of Rhythm, Movement 3 9:39
7. Cadence 3:56
8. In Conclusion 6:34
9. Then Again 6:40
Bela Fleck – five string banjo
Zakir Hussain – tabla
Edgar Meyer – double bass
Bela Fleck, Edgar Meyer e Zakir Hussain na Sala Jazz de Detroit da PQP Bach Corp.
PQP (2012)
Post-scriptum de Pleyel em 2025 — Não conheço nenhum disco ruim com Zakir Hussain (1951 – 2024). O percussionista indiano tocou por mais de 50 anos com centenas de parceiros e mesmo quando o negócio era mediano ele fazia ficar bom. Aqui, no Concerto Tríplice, antes de Hussain entrar a música já estava boa mas quando ele chega, vira uma festa para os ouvidos. O concerto foi escrito pelos três solistas, estreado em 2006 e gravado em 2009.
Após o mega sucesso da Suite para Flauta e Piano Jazz Trio, Claude Bolling recebeu uma encomenda do violinista Pinchas Zukerman para fazer uma Suíte nos mesmos moldes, mas para seu instrumento, o violino. O resultado é este CD que ora vos trago, lançado lá em 1977, quando este que escreve estas linhas era apenas um jovem adolescente crescendo e absorvendo tudo o que ouvia e escutava, e desenvolvendo um gosto peculiar por música.
Mas enfim, Zukermann era um renomado violinista, já com várias gravações em seu currículo, em especial sua versão hoje considerada histórica do Concerto para Violino de Elgar, ao lado de seu amigo, Daniel Barenboim. Mas isso não vem ao caso. O que importa aqui é esse CD. Bolling nunca escrevera uma peça para violino solo, mas encarou o desafio. Quando ouvi este CD pela primeira vez achei o resultado meio irregular, mas em se tratando dos músicos envolvidos, resolvi dar mais uma chance, e que bom que fiz isso. Depois de alguns anos, encontrei o CD em um sebo e o ouvi com mais atenção.
Talvez o melhor momento dele seja a última faixa, ‘Hora’, um tour de force para os instrumentistas, e a ‘fuga’ inicial nos mostra um Zukerman um tanto receoso de exibir toda a sua energia e versatilidade, presentes, por exemplo, em suas gravações dos Concertos para Violino de Mozart. Entendo que como o Jazz não era a sua ‘praia’, ele não quis se expor muito. Como comentei acima, só depois de algumas audições comecei a perceber que Bolling dominava o disco, o violino de Zukerman por vezes soava apenas como um coadjuvante, de luxo, mas ainda um coadjuvante: na verdade, a exuberância do piano de Bolling era a verdadeira estrela do disco. E só depois de entender isso, comecei a admirar mais este disco. Entendi que as gravações com Rampal me criaram uma expectativa tremenda com os outros projetos do incrível pianista, mas que as coisas não eram bem assim. Estou curioso para ouvir o disco com lendário trompetista Maurice André, um projeto futuro de postagem.
Enfim, que os senhores tirem suas próprias conclusões após ouvirem este disco. Deixem sua opinião nos comentários.
Tom inventou Matita Perê (1973) e começou a gravá-lo no Rio. Não estava gostando do resultado. Achou que precisava de melhores músicos e maior qualidade de gravação.
(Ouvindo o disco, você logo entende que a exigência era enorme. O álbum alterna canções com música instrumental, indo com naturalidade do popular ao erudito).
Foi para Nova Iorque com os poucos brasucas que se salvaram da experiência carioca, bancou tudo do próprio bolso e fez um dos melhores álbuns de música brasileira de todos os tempos. Estava com 46 anos e tinha todo o prestígio e consideração do mundo.
Os temas escolhidos por Jobim para Matita Perê passam da leveza e doçura, das praias, barquinhos e garotas, para a natureza e lendas do um Brasil profundo, sertanejo. Ele compõe a partir de suas observações e da leitura de autores como Guimarães Rosa e dos poetas Carlos Drummond de Andrade e Mário Palmério.
Para o crítico musical Zuza Homem de Mello, “Matita Perê é um disco que pouco a pouco foi sendo compreendido, entendido e principalmente admirado. É um marco na carreira de Tom Jobim”.
A faixa de abertura traz aquele que se tornaria um dos maiores clássicos do compositor, Águas de março, cujo título foi retirado de poema de Olavo Bilac.
Já a faixa-título, uma suíte, cita o folclore e nasce de suas leituras, em especial do conto Duelo de Guimarães Rosa, que contou com a colaboração de Paulo César Pinheiro na letra.
Paulo César Pinheiro falou sobre a parceria: “O Tom me procurou, porque eu tinha uma música no Festival da Canção chamada Sagarana, parceria com o João de Aquino. Tom ouviu, ficou impressionado e me ligou dizendo que tinha ideias semelhantes àquelas”.
(Quando vocês se depararem com a próxima lista de Melhores Canções Brasileiras de Todos os Tempos, procurem por uma chamada Matita Perê. Se ela não estiver presente, abandonem a lista e falem mal do criador dela).
Matita Perê marca o início da temática ecológica na obra de Tom Jobim, que seguiria com força em discos como Urubu (1975), Terra Brasilis (1980) e Passarim (1987).
Ao mesmo tempo, evidencia-se o Jobim sinfônico, claramente influenciado por Villa Lobos, em faixas como Crônica da casa assassinada, baseada no romance de Lúcio Cardoso, outra suíte com quase 10 minutos de duração, feita para a trilha do filme de Paulo César Sarraceni.
Não deixe de ouvir. É falha grave desconhecer este disco.
Tom Jobim: Matita Perê
1 Águas de Março (Antônio Carlos Jobim) — 3:56
2 Ana Luiza (Antônio Carlos Jobim) — 5:26
3 Matita Perê (Antônio Carlos Jobim, letra de Paulo César Pinheiro) — 7:11
4 Tempo do Mar (Antônio Carlos Jobim) — 5:09
5 The Mantiqueira Range (Paulo Jobim) — 3:31
6 Crônica da Casa Assassinada (Antônio Carlos Jobim) — 9:58
a. “Trem Para Cordisburgo”
b. “Chora Coração” (letra de Vinícius de Moraes)
c. “Jardim Abandonado”
d. “Milagre e Palhaços”
7 Rancho nas Nuvens (Antônio Carlos Jobim) — 4:04
8 Nuvens Douradas (Antônio Carlos Jobim) — 3:16
Antônio Carlos Jobim – piano, violão e vocal
Claus Ogerman – arranjos (exceto faixa 3) e regência
Dori Caymmi – arranjo da faixa 3
João Palma – bateria e percussão
Airto Moreira – bateria e percussão
George Devens – percussão
Harry Lookousky – spalla
Frank Laico – engenharia de áudio
Ray Beckenstein – flautas e madeiras
Phil Bodner – flautas e madeiras
Jerry Dodgion – flautas e madeiras
Don Hammond – flautas e madeiras
Romeo Penque – flautas e madeiras
Urbie Green – trombone
Ron Carter – baixo
Richard Davis – baixo
Formada em 2009, a sensacional banda de rua Tuba Skinny evoluiu de uma coleção avulsa de músicos de rua para um conjunto sólido dedicado a levar o som tradicional de Nova Orleans ao redor do mundo. Com base em uma ampla gama de influências musicais — do spirituals ao blues da era da Depressão, do ragtime ao jazz tradicional — seu som evoca a rica herança musical de sua casa em Nova Orleans. A banda conquistou seguidores por meio de seu som distinto, seu compromisso em reviver canções há muito perdidas e suas performances ao vivo arrasadoras. Se você for ao YouTube, vai se impressionar com a competência do grupo, com destaque para as mulheres. Este é o terceiro CD do Tuba. Este é o tipo de música de Nova Orleans que faz uma pessoa sorrir e bater os pés quando uma música é alegre e gemer com um sorriso cúmplice quando é triste.
Tuba Skinny: Garbage Man
1 Broken Hearted Blues 3:45
2 Any Kind-A-Man 4:04
3 Frosty Morning 5:34
4 How Do They Do It That Way 3:07
5 Sweet Mama Hurry Home 3:42
6 Mother’s Son-In-Law 3:46
7 Nobody’s Blues But Mine 5:57
8 Some Of These Days 4:30
9 Weary Eyed Blues 4:49
10 Minor Drag 3:23
11 Muddy Water 4:00
12 Garbage Man 3:02
Cornet – Shaye Cohn
Guitar, Vocals – Kiowa Wells
Trombone – Barnabus Jones
Tuba – Todd Burdick
Vocals – Erika Lewis
Washboard – Robin Rapuzzi
The future is bright with great possibilities for Cyrus. Expect once again this year to hear a unique and unforgettable recording that only can come from someone like Cyrus Chestnut.
Essa é a frase final do texto sobre o pianista Cyrus Chestnut na página de The Kennedy Center e está aí, cumprida como uma profecia – este disco da postagem acaba de ser lançado – 25/04/2025. Eu não conhecia qualquer outro disco dele, mas fui atraído pelo seu nome – Chestnut – e pelo nome do disco – Ritmo, Melodia e Harmonia.
Eu que tenho feito um esforço de ouvir música gravada mais recentemente possível, como você pode ter visto em minhas últimas postagens, dedicadas à chamada música clássica, pode imaginar como fiquei feliz em ouvir um disco que achei ótimo, lindo, com música de jazz.
Veja como um texto de ‘The Guardian’ fala de um outro disco de Cyrus Chestnut, e que poderia ser adaptado facilmente para descrever este aqui:
The Baltimore-born Cyrus Chestnut is a wonderful pianist, rather like Oscar Peterson in his heyday: one of the rare kind who isn’t forever trying to impress you. He doesn’t need to try. Now in his late 50s, he has been playing since, as a small child, he watched his father’s hands “in a passionate relationship with the piano”.
Among Chestnut’s many attractive points is his leaning towards melody. These tracks are full of tunes, some composed by him, some already well known, and some that just turn up in the course of playing.
Cyrus Chestnut, nascido em Baltimore, é um pianista maravilhoso, parecido com Oscar Peterson em seu auge: um daqueles raros pianistas que não estão sempre tentando impressionar. Ele não precisa se esforçar. Agora com quase 60 anos, ele toca desde que, ainda criança, observava as mãos do pai “numa relação apaixonada com o piano”.
Entre os muitos pontos positivos de Chestnut está sua inclinação para a melodia. Estas faixas estão repletas de melodias, algumas compostas por ele, algumas já conhecidas e outras que simplesmente surgem no decorrer da execução.
Sobre este disco, a maioria das músicas são do próprio Cyrus, menos três delas. As clássicas ‘Autumn Leaves’ e Moonlight in Vermont’, sendo que nesta última o pianista a interpreta solo. Em todas as outras ele é acompanhado pelos outros três (excelentes) músicos. Além das duas clássicas lindíssimas músicas, ‘There is a Fountain’ é uma referência direta às suas raízes – Cyrus cresceu frequentando a Mount Calvary Baptist Church, em Baltimore.
Esta foi uma das primeiras postagens que fiz, lá em 2008 ainda, no início do PQPBach, outros tempos, ainda era Professor de Ensino Fundamental em uma cidade de interior, tinha de viajar todo dia para ir dar aula. Cansativo, com certeza. Muita coisa mudou desde então, já sai da sala de aula há bastante tempo.
Resolvi voltar a estes CDs depois de tanto tempo por diversos motivos, um deles está devidamente descrito aí no texto original: a torrente de lembranças e emoções que me trazem estas peças tão brilhantemente executadas por este grupo excepcional de músicos. Ah, que saudades desta época de minha vida, comprei estes discos lá entre meus dezessete ou dezoito anos. Quarenta e poucos anos se passaram, mas as emoções são as mesmas. A sensibilidade e delicadeza das peças tocam fundo no coração, impossível não nos emocionarmos com como a magnífica “Baroque and Blue” ou com a ultra romântica “Sentimentale“, ou com a incrível “Veloce“, que fecha o primeiro disco.
Ao contrário da primeira postagem, desta vez estou trazendo os dois discos que a dupla gravou, ainda lá em meados dos anos 70. Rampal já nos deixou há bastante tempo e sempre foi meu ídolo, sempre o admirei, minha mãe sempre falava dele e em Jascha Heifetz como exemplos a serem seguidos se eu quisesse ser músico.
Claude Bolling ainda gravou outros discos dentro do mesmo espírito, como com o violoncelista Yo-Yo Ma ou com o violonista Alexandre Lagoya, mas o impacto não foi o mesmo, pelo menos não para mim. Se estiverem interessados, posso trazê-los aqui em outra ocasião. Mas vamos ao que viemos. Espero que apreciem, são dois discos fundamentais na minha formação musical e que com certeza ajudaram a formar meu caráter egosto musical.
p.s. Tenho de reconhecer que ainda me emociono muito com estes dois discos. Como diz nosso querido mentor PQPBach, acho que entrou um cisco no meu olho, pois estou começando a lacrimejar.
Há algumas semanas atrás um leitor/ouvinte nosso pediu Claude Bolling. E imediatamente acendeu uma luzinha na cabeça de FDP Bach quando se lembrou das Suítes para Flauta e Piano Jazz Trio gravados por este grande pianista de jazz francês com ninguém mais ninguém menos que Jean-Pierre Rampal. Procurou incansavelmente em seu acervo, até que finalmente às localizou. E ao ouvi-las, novamente uma torrente de lembranças lhe veio à cabeça, dos tempos em que, entre os 17 e 20 anos, ouvia estes LPs incansavelmente, viajando através da imaginação pelas impressionantes composições de Bolling, com o sopro divino que emanava dos pulmões de Rampal. Até então não tinha ouvido nada parecido, uma fusão de estilos, um cross-over, um pianista de jazz, que já tinha tocado com todos os grandes mestres, como Oscar Peterson, ou até mesmo Duke Ellington, e um gênio da flauta, que até então nunca tinha se envolvido com jazz. O resultado, bem, o resultado é o que vocês irão ouvir. Considero estes dois cds duas pérolas da incrível capacidade técnica e artística destes dois músicos. Destaco três grandes momentos neste cd: a abertura, denominada “Baroque and Blue”, a magnífica “Sentimentale” e uma legítima aula de fuga bachiana, “Fugace”.
Claude Bolling Trio & Jean Pierre Rampal Suite nº 1 for Flute & Jazz piano
Dois álbuns lançados em 1973. Eles mostram uma parte dos diferentes interesses e talentos de Jarrett naquele período, e apenas uma parte, pois no mesmo ano ele também gravou In the Light (piano e orquestra) e Bremen/Lausanne (piano solo ao vivo). Em Ruta and Daitya, músicos e gravadora enganaram o público: lançado como um disco novo, na verdade se tratavam de registros gravados por Keith Jarrett em duo com o baterista Jack DeJohnette em um estúdio em 1971, no meio de uma turnê com Miles Davis. Meses depois, primeiro o baterista e depois o tecladista sairiam da banda de Miles. A explicação é bem evidente: a ECM era uma gravadora bastante recente fundada na Alemanha e que queria se firmar (e se firmou) como um dos principais selos de jazz. Não ia pegar bem eles lançarem um disco anunciando: “ouçam aqui as fitas gravadas há dois anos que esses músicos não conseguiram lançar mas que nós aceitamos colocar no mercado.” Hoje, décadas depois, no site da ECM eles admitem a data de gravação do disco: maio de 1971. Em todo caso, não faria sentido esperar do Jarrett de 1973 aquelas sonoridades com órgão elétrico cheio de efeitos (pedais, fuzz, ecos…) quando já em 1972 ele muito raramente tocava instrumentos elétricos. Uma das últimas ocasiões foi em outubro de 72 na gravação de Sky Dive, liderado pelo trompetista Freddie Hubbard (aqui) e já naquela ocasião ele tocou piano acústico em metade do disco e, na outra metade, um piano elétrico (rhodes?) sem efeitos, bem mais limpo do que os sons deste álbum com DeJohnette. Aqui, Jarrett também toca flauta! E o diálogo entre os dois é único, improvisos em que parecem se comunicar por telepatia. Anos atrás, na seção de comentários deste nosso humilde blog, um leitor fez a seguinte resumo sobre o trio de Jarrett com o mesmo baterista: Há vinte anos assisti a um concerto deles, aqui no Rio, e saí de lá com a certeza de que esse trio era um caso à parte na história do jazz. Jarrett, Peacock e DeJohnette tocam com uma simplicidade impressionante. Parece até uma conversa de amigos na mesa de um botequim (AP Silva)
Dewey Redman, Paul Motian, Keith Jarrett e Charlie Haden em alguma turnê nos anos 1970
Outro álbum lançado em 1973, este Fort Yawuh foi realmente gravado naquele ano, ao vivo (Village Vanguard, New York City). Lançado pela Impulse em LP e expandido na versão em CD de 1999 que é esta disponível aqui e provavelmente documenta o concerto inteiro. Aqui sim temos uma amostra do que Jarrett tocava em 1973: piano – só o acústico – e interessantes momentos tocando sax soprano, em dupla com o sax tenor de Dewey Redman que, aliás, toca também clarinete na última faixa.
Jarrett plays both acoustic and electric and this is one of the latest recording where he was using electric piano and organ, soon to be totally dedicated to the acoustic piano. DeJohnette plays wonderfully and the duo setting emphasizes his unusual approach to rhythm and his truly amazing musicality and ability to listen to his partners. This is a great chapter, although relatively unknown, in the history of these great musicians.
(Resenha por Jazzis em RateYourMusic)
Dois álbuns gravados ao vivo e liderados por saxofonistas estadunidenses. Dois saxofonistas que alternam entre os sons mais brutais, vanguardistas e sons mais amigáveis, embora jamais passando perto da vulgaridade saxofonística que infelizmente também é comum nos EUA.
Ambos os líderes tocaram em uma variedade de formatos e estilos: Joe Henderson junto com pesos-pesados do jazz como Alice Coltrane, Herbie Hancock e McCoy Tyner. James Carter, além de tocar com famosos como o mesmo Hancock, liderou grupos de vários formatos, gravou um Concerto para Saxofone do compositor Roberto Sierra e, mais recentemente, tem se apresentado na formação de trio com órgão hammond e bateria. Neste álbum o repertório todo se baseia em temas do violonista cigano e belga Django Reinhardt, mas nem sempre as melodias de Django são tão perceptíveis assim no meio da reinvenção constante.
Joe Henderson – In Japan
1. ‘Round Midnight (T. Monk, C. Williams)
2. Out ‘N In (J. Henderson)
3. Blue Bossa (K. Dorham)
4. Junk Blues (J. Henderson)
Bass – Kunimitsu Inaba
Drums – Motohiko Hino
Electric Piano – Hideo Ichikawa
Photography By – Katsuji Abe
Tenor Saxophone – Joe Henderson
Recorded in Tokyo, 4 aug. 1971
Remix, Edited By – Rudy Van Gelder
James Carter Organ Trio – Live from Newport Jazz
1. Le Manoir de mes Reves
2. Melodie au Crepuscule
3. Anouman
4. La Valse des Niglos
5. Pour Que Ma Vie Demeure
6. Fleche d’Or
All composed by Jean “Django” Reinhardt
Tenor, Alto and Soprano Saxophone – James Carter
Organ [Hammond B-3] – Gerard Gibbs
Drums – Alex White
Recorded live at Newport Jazz Festival, Newport, RI, USA, 5 aug. 2018
Disco gravado em estúdio pelo quarteto americano, na época em que Jarrett tinha também um quarteto com músicos escandinavos. Aqui, mais do que em outros lugares, Keith Jarrett mostra seu ecletismo nas duas faixas que ocupam os lados inteiros do álbum (prática comum nos anos 1970 como o Jack Johnson de Miles Davis, o Köln Concert do próprio Jarrett, LPs do Pink Floyd, Rush, etc), no lado A o piano só entra depois dos oito minutos e no lado B, lá pelos 3 min. Então o que temos, em grande parte do tempo, é Jarrett tocando percussão ou sax soprano, instrumento que ele abandonaria quando mais velho. Muitas ocasiões para o resto da banda brilhar: o sax tenor de Dewey Redman e o baixo de Charlie Haden com sonoridades mais estranhas e atonais (ambos tocaram longos anos com Ornette Coleman antes de Jarrett “roubá-los”) e a bateria/percussão de Paul Motian explorando mais os ritmos hipnóticos e pouco sincopados. Lá para o meio de cada lado, temos também solos de piano característicos de Keith Jarrett, mas a variedade de estilos e de sonoridades garante que a cada 3 ou 4 minutos tudo mude.
Ecletismo é frequentemente um xingamento que pode significar mais ou menos uma falta de compromisso com um ou outro estilo, também falta de originalidade pois, afinal, quem atira para vários lados acaba às vezes soando como outras pessoas, pecado mal visto em nossos tempos tão obcecados por copyright e propriedade privada até das ideias. Por outro lado, a postura eclética frente ao mundo tem defensores de peso: nunca esqueço aquelas palavras de Guimarães Rosa no Grande Sertão. “Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue.”
Além dessa crítica implícita à fixidez e à previsibilidade dos que só rezam com um único livro, o que Keith Jarrett faz aqui e em outros momentos de sua carreira é mostrar sua atenção e compromisso em cada momento. Não se tem a sensação de que aqui ele está tocando com o quarteto americano só para cumprir o contrato, o que temos é um grupo de músicos sedentos por novidades e com capacidade e treino suficiente para jogar em várias posições sem fazer feio em nenhuma.
Vamos por outro tipo de metáfora… Eu não vi o Pelé jogar mas vi o Romário. O que este último fazia, se a gente colocar por escrito, pode parecer banal: ficava na banheira, pegava a bola, driblava um, dois no máximo e chutava pro gol. Na prática, ele fazia isso de um jeito único e genial. Keith Jarret às vezes é como Romário, fazendo certas melodias e acordes óbvios soarem cativantes de um jeito inesperado. Mas, ao jogar em várias posições, está mais para Pelé ou, se quiserem, Messi.
A partir de 1987 ele começou a gravar obras de compositores do século XVIII, de início sobretudo J.S. Bach. Isso ganhou dimensões maiores nos anos 90: Variações Goldberg no cravo, Concertos de Mozart e o meu preferido dentre esses seus passeios pelos clássicos pré-românticos: as sonatas de C.P.E. Bach ao piano, gravadas em 1994 e lançadas só em 2023 (aqui).
E nos anos 1980 ele abriu mais uma frente de combate, gravando compositores do século XX como Dmitri Shostakovich, Alan Hovhaness e Arvo Pärt. Importante lembrar que Pärt era bem menos famoso na época do que é hoje.
Ao mesmo tempo, Jarrett continuou fazendo recitais de piano solo improvisado… aliás, se ele fosse do tipo que se especializa em uma coisa só, poderia ficar fazendo turnês comemorativas do Köln Concert (1975) que, com milhões de cópias vendidas, é não apenas o grande sucesso comercial de Jarrett mas também o disco de piano solo mais vendido de todos os tempos. O diretor de um documentário sobre o álbum diz que Jarrett não quis dar entrevistas sobre o álbum gravado em Köln (Colônia, na Alemanha):
“Deve ser irritante para um grande músico ser frequentemente questionado sobre aquele concerto específico de décadas atrás” diz (aqui) Vincent Duceau, diretor de Lost in Köln, que compara ainda com um grande pintor que só recebe perguntas sobre um detalhe de um único quadro.
O fato é: Jarrett continuou fazendo concertos solo e lançando discos que registram alguns deles. O meu favorito é La Scala, de 1995, totalmente diferente de Köln e com momentos de graves profundos que talvez tenham certa influência do Concerto de Hovhaness que ele tinha gravado anos antes.
Keith Jarrett – The Survivors’ Suite
1. Beginning [Lado A do LP]
2. Conclusion [Lado B do LP]
American Quartet:
Keith Jarrett – piano, sax soprano, flauta doce baixo, celeste, percussão
Dewey Redman – sax tenor, percussão
Charlie Haden – contrabaixo
Paul Motian – bateria, percussão
Gravado em Ludwigsburg, Alemanha, abril de 1976