IM-PER-DÍ-VEL !!!
Quem não der uma risada com o finalzinho da Sinfonia Nº 6 nunca foi ao circo! Garanto! A Sinfonia Nº, Op. 54, composta entre 1939 e 1940, é uma obra enigmática e estrutura subversiva, que desafia as expectativas da forma sinfônica tradicional. Após a monumental e publicamente triunfante Sinfonia nº 5, Shostakovich entregou aqui uma obra em três movimentos (ausência do scherzo), cujo núcleo emocional reside no extenso e sombrio Largo inicial – uma meditação solitária e angustiada, que se desenrola em longas linhas melódicas e texturas translúcidas, evocando um luto profundo e introspectivo. Esse marasmo é abruptamente rompido por dois movimentos finais velozes e irônicos: um Allegro nervoso, quase grotesco, e um Presto frenético que se assemelha a uma valsa demoníaca ou a um circo mecânico. Escrita à beira da Segunda Guerra Mundial e sob o espectro contínuo do stalinismo, a Sinfonia nº 6 é muitas vezes interpretada como um duplo jogo: uma fachada de brilhantismo orquestral e humor ácido que esconde um retrato de desespero íntimo e resistência silenciosa. É, assim, um testemunho da genialidade ambígua de Shostakovich, capaz de compor ao mesmo tempo para o regime e para a própria alma.
Não deixo por menos, a Sinfonia Nº 11, Op. 103, talvez seja a maior obra programática já composta. Há grandes exemplos de músicas descritivas tais como As Quatro Estações de Vivaldi, a Sinfonia Pastoral de Beethoven , a Abertura 1812 de Tchaikovski, Quadros de uma Exposição de Mussorgski e tantas outras, mas nenhuma delas liga-se tão completa e perfeitamente ao fato descrito do que a décima primeira sinfonia de Shostakovich. Alguns compositores que assumiram o papel de criadores de “coisas belas”, veem sua tarefa como a produção de obras tão agradáveis quanto o possível. Camille Saint-Saëns dizia que o artista “que não se sente feliz com a elegância, com um perfeito equilíbrio de cores ou com uma bela sucessão de harmonias não entende a arte”. Muito outra atitude é tomada por Shostakovich, que encara vida e arte como se fossem uma coisa só, que vê a criação artística como um ato muito mais amplo e que inclui a possibilidade do artista expressar – ou procurar expressar – a verdade tal como ele a vê. Esta abordagem foi adotada por muitos escritores, pintores e músicos russos do século XIX e, para Shostakovich, a postura realista de seu ídolo Mussorgsky foi decisiva. A décima primeira sinfonia de Shostakovich tem feições inteiramente mussorgkianas e foi estreada em 1957, ano do quadragésimo aniversário da Revolução de Outubro. Contudo, ela se refere a eventos ocorridos antes, no dia 9 de janeiro de 1905, um domingo, quando tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo. O protesto, feito após a missa e com a presença de muitas crianças, tinha a intenção de entregar uma petição — sim um papel — ao czar, solicitando coisas como redução do horário de trabalho para oito horas diárias, assistência médica, melhor tratamento, liberdade de religião, etc. A resposta foi dada pela artilharia, que matou mais de cem trabalhadores e feriu outros trezentos. O primeiro movimento descreve a caminhada dos trabalhadores até o Palácio de Inverno e a atmosfera soturna da praça em frente, coberta de neve. O tema dos trabalhadores aparecerá nos movimentos seguintes, porém, aqui, a música sugere uma calma opressiva. O segundo movimento mostra a multidão abordar o Palácio para entregar a petição ao czar, mas este encontra-se ausente e as tropas começam a atirar. Shostakovich tira o que pode da orquestra num dos mais barulhentos movimentos sinfônicos que conheço. O terceiro movimento, de caráter fúnebre, é baseado na belíssima marcha de origem polonesa Vocês caíram como mártires (Vy zhertvoyu pali) que foi cantada por Lênin e seus companheiros no exílio, quando souberam do acontecido em 9 de janeiro. O final – utilizando um bordão da época – é a promessa da vitória final do socialismo e um aviso de que aquilo não ficaria sem punição.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Abertura sobre Temas Populares Russos e Quirguizes, Op. 115 / Sinfonia Nº 6, Op. 54 / Sinfonia Nº 11, Op. 103 — O Ano de 1905 (Haitink, Concertgebouw)
1-1 Overture On Russian & Kirghiz Folk Themes, Op. 115 9:43
Symphony No. 6, Op. 54
1-2 I. Largo 17:46
1-3 II. Allegro 6:20
1-4 III. Presto 7:07
Symphony No. 11, Op. 103 ‘The Year 1905’
2-1 I. The Palace Square: Adagio 15:53
2-2 II. 9 January: Allegro 19:54
2-3 III. In Memoriam: Adagio 11:23
2-4 IV. Tocsin: Allegro Non Troppo 14:16
Concertgebouw Orchestra
Bernard Haitink, regência

PQP




Faz algum tempo postei aqui o que considero uma das realizações mais importantes da música instrumental brasileira: os 4 discos do Quinteto Armorial. Esse grupo pernambucano começou a gravar em 1974 e infelizmente não gravou mais depois de 1980.
juventude a Universidade Federal da Bahia havia se tornado um dos principais polos de inovação musical no Brasil, inicialmente com a presença de Hans Joachim Koellreuter, e depois com os suíços Ernst Widmer e Walter Smetak – este uma espécie de cientista maluco da invenção de instrumentos e da experimentação musical radical. Marco se mudou para Salvador para estudar Regência e Composição, e o encontro com Smetak veio de brinde, abrindo a perspectiva de fundir sua própria busca musical com a tradição artesanal da família.
![Amaral Vieira (1952): Fantasia coral In nativitate Domini [link atualizado 2017]](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2012/08/amaral_vieira1.jpg)
![Amaral Vieira (1952): Te Deum in stilo barocco e Missa Choralis [link atualizado 2017]](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2014/11/AmaralViera.jpg)






IM-PER-DÍ-VEL !!! (Revalidado por PQP)
Quando um compositor não tem referências culturais em sua infância e junto a isso, uma vida entediante e normal, dificilmente sua obra terá características próprias e originais. Por outro lado, na nossa sociedade descartável, muitos compositores negam suas origens por vergonha mesmo. Que compositor teria coragem de colocar em suas obras traços influenciados pelas bailarinas do chacrinha ou da égua pocotó? Mas ao negar sua origem, o compositor abusa de referências alemãs serialistas e sonoridades stockhausianas. Por isso a música deste tipo de compositor soa travestida, esse mundo ele não viveu.
Uma manhã luminosa que enfatiza bem seu caráter gracioso e eloquente. Estas gravações foram lançadas na década de 70 em LPs pela PHILIPS e nenhuma foi relançada em CD, até as séries de relançamentos (PHILIPS DUO) dos anos 90. Haitink inclusive gravou novamente essas obras para lançamento exclusivo em CD, mas o brilho destas primeiras incursões é, para mim, insuperável.
Gosto de um modo muito particular das obras de Elgar. De sua produção, destacam-se 

Como o final de semana está chegando, FDP Bach resolveu fazer três postagens peso-pesado para seus leitores/ouvintes, que apenas aos sábados e domingos tem tempo disponível para baixar e ouvir com mais atenção a estas pérolas…
Eis que Clara Schumann nos pede a Sinfonia Nº 3 de seu amado e querido Johannes, e FDP descobre que, por uma falha indesculpável, nunca chegou a postá-la…









É difícil definir a música do estadunidense Morton Feldman. Mas se temos intimidade com pintura abstrata ou o teatro de Beckett, esta tarefa fica mais simples. A música de Feldman é o espaço pintado com sons, só que sem ritmo, melodia ou mesmo qualquer forma. A estrutura de Feldman é a não-estrutura. O risco é a monotonia e, mesmo para ouvintes calejados, é apenas essa sensação que parece existir. A música de Feldman não oferece pontos para nos apoiarmos, o ouvinte segue os sons com os mesmos olhos de quem segue um quadro de Pollock.

As duas obras deste CD estão disponíveis em outras gravações neste blog (a rigor, uma gravação de cada sinfonia), daí que não há o que acrescentar por hora: basta procurar os outros posts via tags. Vale a pena, em particular, conferir como ficou a segunda sinfonia de Guarnieri na versão original (com a Osesp) e na revisada (a deste post) – o segundo movimento tem o dobro da duração na primeira edição. Para mim, trata-se da mais bela — e mais bem feita — sinfonia jamais escrita no Brasil.








Nossa homenagem ao saudoso Ranulfus continuará, também, através da republicação de suas preciosas contribuições ao nosso blog – como esta, que veio à luz em 4/9/2016.