Francisco Mignone (1897-1986): Obras para Flauta – CD 3 de 3

IM-PER-DÍ-VEL!

Em 1916, aos 19 anos de idade, Mignone concluiu os cursos de composição, piano e flauta no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, tendo como colega de turma uma personalidade que o influenciou bastante em relação à busca de uma estética brasileira: Mário de Andrade. Em 1933, o compositor se muda para o Rio de Janeiro, onde residirá até sua morte cinco décadas mais tarde. A partir de 1938, começa a escrever suas valsas de esquina para piano.

Mignone declara que decisão de escrever a série de doze valsas de esquina resultou da constatação, em conversa com Mário de Andrade, de que a valsa brasileira tinha recebido a menor carga de influência da música americana, permanecendo, apesar da origem européia comum, genuinamente brasileira. Algumas dessas valsas de esquina foram adaptadas para formações de câmara e mesmo para orquestra. Manuel Bandeira descreveu Mignone como o “rei da valsa”.

Segundo o pianista e musicólogo José Eduardo Martins essas composições são o reflexo da elaborada técnica de composição pianística de Mignone: “As valsas de esquina representam, possivelmente, o que de mais sonoro-natural-improvisado – mas finamente elaborado – se fez na produção pianística brasiliera. (…) melodismo debordante, acompanhamento tantas vezes pontuado lembrando o violão, toda essa música que se ouve como a mais agradável das improvisações, é fruto de técnica segura.”

Filho de um flautista, Francisco Mignone teve uma vasta produção para esse instrumento tão característico das rodas de choro. A música de Mignone tem uma fase fortemente nacionalista, uma outra fase em que o compositor tenta soar mais cosmopolita e se aproximar da linguagem das vanguardas, e uma fase final em que, idoso, ele faz como uma síntese desses dois lados da moeda. As obras para flauta incluem isso tudo: valsas de esquina, modinhas e serestas deliciosamente brasileiras, algumas de forte apelo popular, outras parecendo usar melodias indígenas à maneira de Villa-Lobos; atonalismo como o de um Schoenberg (1874-1951) e obra neoclássicas em que o compositor se aventura em gavotas como as de um Rameau (1683-1764) e minuetos como os de um Mozart (1756-1791) mas sem perder, lá no fundo, uma certa linguagem brasileira.

Na década de 1960 ou um pouco antes, Mignone adotou um estilo mais atonal, com o nacionalismo aparecendo de forma bem mais suave. Mas na década de 1970 a maré virou novamente e em entrevista ao Jornal do Brasil em 1977, Mignone afirmava: “Em geral, condeno toda a minha música atonalista. Quanto a mim, continuo dentro do nacionalismo, tão forte quanto antes, pois nele há uma mensagem de riqueza, de variedade, de ambiente e de cor local. É nosso.”

Nos dois trios para flauta, violoncelo e piano, de 1981, Mignone mergulha com força nos temas e formas populares como as danças e modinhas, mas com esse material tipicamente brasileiro sendo usado de modo menos óbvio e mais complexo que antes. O retorno do velho compositor à flauta e ao piano, instrumentos com os quais tinha uma longa relação afetiva e profissional, pode ser comparados aos concertos da maturidade de Villa-Lobos, o Concerto para violão (1951) e o 2º Concerto para violoncelo (1953), todos mostrando uma grande familiaridade do compositor com o instrumento. São coisa fina.

Mignone descreve as circunstâncias da composição dos trios como “uma suposta paródia verdiana: ‘voltemos ao passado, talvez seja um progresso.’ Uma volta ao que já fui depois de ter vencido barreiras dentro e fora do pentagrama.”

Francisco Mignone (1897-1986): Obras para Flauta – CD 3
1-3. Trio nº 1 para flauta, violoncelo e piano (1980) I. Andante, II. Modinha: devagar e romântico, III. Festança sem boi: Molto vivo
4-6. Trio nº 2 para flauta, violoncelo e piano (1981) I. Lento ma non troppo, II. Outra modinha, III. Roda – Intermédio e Fugato: Allegro non troppo
7. Valsa Choro flauta e piano (1956) 2:56
8. Valsa de Esquina nº 2 (1938) (arranjo 1947)
9. Valsa de Esquina nº 7 (1940) (arranjo 1951)
10. Valsa de Esquina nº 10 (1943) (arranjo 1949)

Músicos participantes: Sérgio Barrenechea, flauta (flute), flauta em sol e piccolo – Lúcia Barrenechea, piano – Hugo Pilger, violoncelo (cello)

 

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O Trio Barrenechea / Barrenechea / Pilger em ação

Pleyel

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