Igor Stravinski (1882 – 1971) e Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Agon e Sinfonia Nº 15

Extraordinária gravação em que Evgeni Mravinski conduz a Orquestra Filarmônica de Leningrado no balé Agon, de Stravinski (gravação de 1965), e na 15ª Sinfonia de Dmitri Shostakovich (gravação de 1976).

Agon é de 1957, quando Stravinski tinha 75 anos. A música, aqui, prescinde do balé – que alívio, não? -, mas não me causa nenhum entusiasmo. Já o Shostakovich… A Sinfonia Nº 15 é a última do compositor e, em 1976, Mravinski iniciou a temporada de sua orquestra dedicando nada menos do que quatro concertos a seu amigo. A gravação postada traz um registro deste extraordinário evento.

Sem dúvida, a Sinfonia Nº 15 é uma de minhas preferidas no gênero. É difícil estabelecer-se um conteúdo programático para ela. Trata-se de uma música muito viva, com colorido orquestral atraente, temas facilmente assimiláveis e nada triviais, clímax e pausas meditativas que empolgam e mantém o ouvinte permanentemente atento. E com os contrastes inesperados característicos de Shostakovich. Parece um roteiro de Shakespeare passado à música, trazendo o trágico ao festivo, empurrando a reflexão para junto da zombaria. Bom, já viram que sou um apaixonado desta sinfonia.

O primeiro movimento (Allegretto) é uma curiosidade por manter sempre ativo o motivo da cavalgada da abertura Guilherme Tell, de Rossini, e pela participação incessante da percussão. O segundo movimento (Adagio) é circunspecto. Os metais trazem uma melodia sombria, para depois o violoncelo completá-la com um solo dilacerante, a cujas cores será acrescida, mais adiante, a ressonância do contrabaixo. Um novo Alegretto surge repentinamente do Adagio, retomando o clima do primeiro movimento, mas desta vez somos levados pelos solos do fagote, violino, clarinete e flautim. O movimento final, outro adagio, é enigmático. A simbologia está presente com a apresentação de imediato do Prenúncio da Morte, composto por Wagner para a Tetralogia do Anel. O ouvinte wagneriano fica desconcertado ao escutar de imediato esta música conhecida, parece tratar-se de um equívoco, de um erro de partitura. Ao pesado motivo de Wagner são contrapostos temas executados pelo setor leve da orquestra, porém, a todo instante, o sinistro aviso retorna e, mais adiante, os metais refletirão uma angustiada exasperação… A sinfonia esvai-se em delicados sons de percussão, deixando um desconcertante ponto de interrogação no ar. O significado do Prenúncio da Morte é óbvio, porém, o que significam a percussão, a orquestração e as melodias jocosas que o cercam? Uma simples experiência sinfônica? Impossível. O desejo de felicidade de alguém cuja vida se encerra? Ou, voltando a Shakespeare, que a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa (*)? Porém, a significação, a intenção exata de uma obra instrumental é tão importante? Ou seria mais inteligente fazer como fez Shostakovich, levando-nos bem próximo ao irrespondível para nos abandonar por lá?

(*) Macbeth, William Shakespeare.

STRAVINSKY Agon (40mb)
1. Pas de quatre 1:48
2. Double Pas de quatre 1:36
3. Triple Pas de quatre 1:09
4. Prelude 0:57
5. First Pas de trios Saraband Step 1:18
6. Gaillarde 1:19
7. Coda 1:28
8. Interlude 0:55
9. Second Pas de trios Bransle simple 0:59
10. Bransle gay 0:53
11. Bransle double 1:27
12. Interlude 0:56
13. Pas de deux Adagio – variation – refrain 4:16
14. Coda 1:35
15. Four Duos 0:32
16. Four Trios 0:39
17. Coda 1:53

SHOSTAKOVICH Symphony No.15 (70mb)
18. Allegretto 7:42
19. Adagio, Largo 14:28
20. Allegretto 3:38
21. Adagio,Allegretto 13:50

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Sob a influência do jazz – Gershwin, Milhaud, Ravel, Stravinski e Weill regidos por Bernard Herrmann

O CD (ex-LP) Classic Jazz, de 1966, traz uma série de obras “eruditas” muito influenciadas pelo jazz. A seleção é notável e a interpretação é sempre adequada: divertida, alegre e espalhafatosa. Um grande disco, sem dúvida.

A idéia deste trabalho foi do imenso Bernard Herrmann (1911-1975), o maior compositor de músicas para o cinema. Parceiríssimo de Alfred Hitchcock, Herrmann escreveu a trilha sonora de oito filmes: O terceiro tiro (1955), O homem que sabia demais (1956), O homem errado (1957), Um corpo que cai – Vertigo (1959), Intriga internacional (1959), Psicose (1960) e Os pássaros (1963). Herrmann foi o consultor de som de Marnie, confissões uma ladra (1964). Na realidade, Cortina rasgada também teve uma trilha musical composta por Herrmann. No entanto, Hitchcock queria música pop e desistiu da partitura de Herrmann, o que gerou uma boa briga e rompimento definitivo de uma parceria que rendeu o reconhecimento de críticos e público.

Mas não foi só isso. É de Herrmann a trilha de Taxi Driver (Scorsese), de Cidadão Kane (Welles) e de Fahrenheit 451 (Truffaut). Não, não é mole.

Aqui, ele torna-se regente de interessantes obras que nasceram a partir do jazz. Destaque para Rhapsody in Blue, para o Ragtime de Stravinski, para Milhaud – que aparece pela primeira vez neste blog – e para a divertida brincadeira de Ravel. Ou seja, quase tudo!

P.Q.P. Bach.

Classic Jazz

1. Rhapsody In Blue
Composição de George Gershwin
London Festival Orchestra
Stanley Black, piano e regência

2. The Threepenny Opera: Mack the Knife / Instead-of Song / The Good Life (Foxtrot) / Polly’s Song / Tango / The Bis Shots: Charleston
Composição de Kurt Weill
London Festival Orchestra [members of]
Bernard Herrmann

3. Ragtime
Composição de Igor Stravinsky
London Festival Orchestra [members of]
Bernard Herrmann

4. La Création du Monde
Composição de Darius Milhaud
London Festival Orchestra [members of]
Bernard Herrmann

5. Five O’Clock Foxtrot (de L’enfant et les sortilèges)
Composição de Maurice Ravel
London Philharmonic Orchestra
Bernard Herrmann

6. Variations on ‘I got rhythm’ (para piano e orquestra)
Composição de George Gershwin
London Festival Orchestra [members of],
David Parkhouse, piano
Bernard Herrmann

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Igor Stravinski (1882-1971) – Ebony Concerto e Dumbarton Oaks / Alban Berg (1885-1935)

Copiado com certa liberdade de “Música da Modernidade”, de J. Jota de Moraes, por P.Q.P. Bach.

Dedicado ao Trauriger Hund (Blue Dog).

Alban Berg foi o primeiro músico a ser aceito fora do reduzido círculo que efetivamente compreendia o sentido e o alcance das experiências levadas a cabo pela Segunda Escola de Viena. Durante aquele longo período em que Schoenberg era ridicularizado e tomado apenas como o esforçado inventor de uma rígida escolástica a qual de castrara inteiramente o élan romântico, época em que Webern era encarado apenas como um cerebralista vazio – um “compositor de papel”, já que suas obras, por conterem quase tantos silêncios quanto sons, deveriam preferencialmente ser lidas em partituras e não ouvidas em concertos -, Berg era louvado por revelar algo assim como “a alma humana de um sistema desumano”…

O Concerto de Câmara para Piano, Violino e 13 Instrumentos de Sopro é dominado por preocupações lúdico-numerológicas. Confessando a Schoenberg que “tudo o que é bom vem em três”, Berg explicava que a obra toda concretizava esse velho ditado germânico. Assim, são três os temas mostrados de início – anagramas sonoros correspondentes aos nomes dos integrantes da Segunda Escola de Viena (Arnold SCHoenBErg, Anton wEBErn e AlBAn BerG), a partir dos instrumentos pertencentes a três famílias: teclado (piano), cordas (violino) e sopros (diversos). Todo o restante – número de compassos, reunião dos instrumentos em três maneiras distintas, dodecafonia de retrogradação, inversão e inversão da retrogradação – segue o número três. Só que… é Berg, o talentoso e humano Berg; então, ele fica distante de Schoenberg e Webern ao aplicar à sua obra um extremado virtuosismo instrumental, de raiz nitidamente romântica.

Stravinski passou sua vida dialogando com a história. Seria insensato referir-se à música do século XX sem evocar seu nome. Sua personalidade controvertida, que parecia ver com certa ironia os valores antigos sendo demolidos à sua volta, suas idéias – nem sempre claras ou lógicas, mas sempre vívidas e bem humoradas -, que provocaram tanta repercussão e, sobretudo, sua vasta notável e heterogênea obra, apontam para uma obviedade: sem Stravinski, a história da arte musical do século XX teria sido definitivamente outra. Ele foi moderno, barroco, clássico, primitivo, neoclássico e até dodecafônico, e sempre relevante.

Stravinski dá a impressão de fazer com que a História se manifeste em suas obras enquanto retórica, por meio de uma escritura baseada fundamentalmente na paródia, pois o que é tradição em Stravinski quase nunca aparece citado ou transformado em pastiche, mas comentado, estranhado, profundamente parodiado… E, enquanto forma de reflexão até certo ponto distanciada, esse procedimento não estaria ligado à metalinguagem, à linguagem crítica?

Dumbarton Oaks e Ebony Concerto são obras muitíssimo ilustradoras da “esponja” (conforme um comentarista deste blog) que o compositor era. O barroco e o jazz aparecem subitamente transformados em outra coisa, muito diferente e brilhante. Neste CD absolutamente obrigatório, são as duas obras citadas as que mais me impressionam. Uma peça é fundamental para o neoclássico; a outra, para nossa diversão.

Chamber Concerto, for piano, violin, and 13 wind instruments

Composé par Alban Berg
avec Pinchas Zukerman, Daniel Barenboim
1. kammerkonzert für klavier und gelge mit 13 bläsern : thema scherzoso con variazioni
2. kammerkonzert für klavier und gelge mit 13 bläsern : adagio
3. kammerkonzert für klavier und gelge mit 13 bläsern : rondo ritmico con introduzione

Concerto for chamber orchestra in E flat major (“Dumbarton Oaks”)

Composé par Igor Stravinsky
Joué par InterContemporain Ensemble
avec Michel Arrignon
Dirigé par Pierre Boulez
4. konzert es-dur für kammer-orchester dumbarton oaks : i. tempo giusto
5. konzert es-dur für kammer-orchester dumbarton oaks : ii. allegretto
6. konzert es-dur für kammer-orchester dumbarton oaks : iii. con moto Instrumental

Miniatures (8), for 15 players

Composé par Igor Stravinsky
Joué par InterContemporain Ensemble
avec Michel Arrignon
Dirigé par Pierre Boulez
7. 8 instrumental-miniaturen für fünfzehn spieler – for fifteen players

Ebony Concerto, for clarinet & jazz band

Composé par Igor Stravinsky
Joué par InterContemporain Ensemble
avec Michel Arrignon
Dirigé par Pierre Boulez
8. ebony concerto : allegro moderato – andante – moderato – com moto – moderato – vivo

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