Sabe a frase ‘Minha vida daria um filme’? Pois se aplica perfeitamente ao caso de Santiago Rodriguez. Nascido em Cuba, começou a estudar piano aos quatro anos e aos oito, junto com seu irmão, foi enviado aos Estados Unidos por um programa patrocinado pela Igreja Católica. Seus pais esperavam que a família seria reunida em breve, mas isto só aconteceu seis anos depois, quando eles puderam imigrar.
Neste período em que esteve afastado de seus pais, viveu em um orfanato em New Orleans enquanto continuava estudando música. Estreou com a New Orleans Symphony Orchestra aos dez anos tocando o Concerto para Piano No. 27 de Mozart. Sua carreira foi definitivamente lançada em 1981 quando ganhou a Silver Medal do Van Cliburn International Piano Competition.
Santiago Rodriguez grava exclusivamente para o selo Élan e seus discos não são exatamente fáceis de encontrar. Este aqui é ES-PE-TA-CU-LAR, se você gosta de música de Rachmaninov.
O núcleo deste álbum é o RACH#3, gravado ao vivo. Lake Forest Symphony e Paul Anthony McRae não são nomes que encontramos todos os dias, e mesmo Santiago Rodriguez, mas se você gosta deste tipo de repertório, you are in for a treat!! Esta gravação will knock your socks off!!
Brincadeiras a parte, este é realmente um grande disco, e não só pelo concerto. Funcionando como uma moldura para ele, temos alguns Prelúdios e mais duas peças curtas. Estas peças para piano solo são mais do que um contrapeso para o concerto, são verdadeiras jóias interpretadas magnificamente.
Em suas próprias palavras: I have been playing the piano since age 5. The reason I continue to do it at this present, advanced age is that I’m still trying to get it right.
Sobre este álbum: “A thoroughly stunning, adrenaline-pumping performance” – American Record Guide
O disco desta postagem não se cansa de me dar alegrias. Ao ouvi-lo não é difícil crer que Mozart sentia um grande prazer no convívio com outros músicos com os quais podia compartilhar sua imensa genialidade musical. Uma desta pessoas certamente foi Johann Christian Bach, o Bach de Londres. Os relatos de como os dois passavam tempo ao piano são bem conhecidos, tais como este deixado por Nannerl, irmã de Mozart:
“Herr Johann Christian Bach, music master of the queen, took Wolfgang between his knees. He would play a few measures; then Wolfgang would continue. In this manner they played entire sonatas. Unless you saw it with your own eyes, you would swear that just one person was playing.”
Håvard Gimse
A própria Nannerl certamente era outra destas pessoas com quem o convívio musical era prazeroso. Foi para tocarem juntos que este concerto para dois pianos foi composto. A orquestração tem seus débitos para com a música de J. C. Bach, mas a alegria e maestria da parte para os solistas testemunham esta camaradagem e cumplicidade existente entre os irmãos. Esta cumplicidade e alegria foi devidamente revivida nesta linda gravação pelos dois pianistas noruegueses Håvard Gimse e Vebjørn Anvik.
Vebjørn Anvik
Eu cheguei ao álbum seguindo a trilha do nome do violista Lars Anders Tomter, o qual eu conhecia por um lindo disco com sonatas para viola (ou clarinete) de Brahms. Foi então que me dei conta do nome da regente, Iona Brown. Ela foi uma violinista que fez carreira na orquestra de Neville Marriner, a Academy of St. Martin-in-the-Fields. Começou nas fileiras de violinos, chegou a primeiro violino e solista e também direção da orquestra.
Lars Anders Tomter
Quem viveu a transição dos LPs para Cds deve lembrar-se da gravação dos Concerti Grossi, Op. 6, de Handel, pela Academy of St. Martin-in-the-Fields, surpreendentemente dirigida por outra pessoa que não fosse Neville Marriner.
Iona Brown assumiu a Orquestra de Câmera da Noruega em 1981 com grande sucesso. Este disco é uma boa prova disto. Esta gravação da Sinfonia Concertante, na qual ela atua como solista e também regente foi escolhida pela revista Gramophone com a melhor, em uma lista de fazer inveja… Veja aqui.
Wolfie e Nannerl
Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)
Concerto para dois pianos e orquestra em mi bemol maior, K 365
Allegro
Andante
Allegro
Sinfonia Concertante para violino, viola e orquestra em mi bemol maior, K 364
Veredito da Gramophone sobre a gravação da Sinfonia Concertante: Top Choice
Superbly matched soloists and lithe ensemble playing in a joyous performance mingling subtlety of detail with a natural Mozartian flow. The Andante is profoundly moving in its subtlety and restraint.
O primeiro disco de Konstantin Lifschitz que ouvi foi seu álbum de estreia, que trazia uma coleção de obras. Começando com a maravilhosa Abertura Francesa de Bach, prosseguia até peças de Scriabin e Medtner, passando por Papillons, de Schumann. O disco do selo Denon de 1994 foi seguido por um outro, gravado em junho de 1994 no Conservatório de Moscou com as Variações Goldberg, firmando assim as credenciais do jovem pianista como grande intérprete de Bach. Depois, silêncio… Não mais ouvi do Konstantin.
O primeiro CD há muito desapareceu de minhas prateleiras (ah, os amigos…), mas o outro, com as Variações do velho Bach, vez e outra frequenta minha vitrola.
Pois eis que chegou pela mala direta do PQP Bach recentemente uma penca de discos do Lifschitz tocando Bach. Ele então está aí, bem ativo. Inclusive, percebi que há uma integral das sonatas para piano do grande Ludovico, gravada ao vivo por ele. Mas isso vou deixar guardado, pois que tempo é largo, mas é finito.
Como queria logo dividir com os caros e insaciáveis seguidores do blog alguma coisa deste excelente pianista, escolhi da penca este que me pareceu muito apetitoso. E gostei tanto que tenho ouvido o mesmo, inteiro quando tempo permite, aos trechinhos quando o tempo escasseia. E é que mesmo com a quarentena e o enfurnamento, há coisas a serem feitas.
O que temos aqui? Um arranjo feito para piano da Oferenda Musical, que todo o mundo sabe (quem não sabe pode começar clicando aqui…) é resultado de uma longa e cansativa viagem que o velho Bach fez até Sanssouci, Potsdam, para pagar uma visita a Frederico, o Grande, e também ver seu filho Carl Philipp Emanuel. O monarca, que era cheio de truques e adorava colocar seus visitantes em uma saia justa (se bem que, no caso de Bach, seria uma peruca justa), desafiou Johann Sebastian a compor uma peça que nem o cão chupando manga conseguiria. Mas vai mexer com quem está quieto. Ouça o Ricercar a 6, na faixa 11 deste disco e começarás a entender o tamanho dos poderes do ‘maior de todos’.
Konstantin Lifschitz ainda acrescenta ao disco o Prelúdio e Fuga em mi bemol maior, BWV 552, apelidado ‘Santa Ana’, escrito originalmente para órgão. Os minutos finais, da fuga, são de tirar o folego. E assim, para baixar a adrenalina e lançar um olhar ao que aconteceu antes de Bach, ele completa o recital com três lindas tocatas de Frescobaldi. Ouçam e me contem vocês!
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Oferenda Musical, BWV 1079 (arranjada para piano por K Lifschitz)
Ricercar a 3
Canon perpetuus super Thema Regium
Canon 1. a 2_ Canon cancrizans
Canon 2. a 2 Violini in uníssono
Canon 3. a 2 per Motum contrarium
Canon 4. a 2 per Augmentationem, contrario Motu
Canon 5. a 2_ Canon circularis per Tonos
Fuga canonica in Epidiapente
Canon a 2 Querendo invenietis
Canon perpetuus
Ricercar a 6
Canon a 4
Triosonate_ Largo
Triosonate_ Allegro
Triosonarte_ Andante
Triosonarte_ Allegro
Prelúdio e Fuga em mi bemol maior, BWV 552 ‘Santa Ana’
Prelúdio
Fuga
Girolamo Frescobaldi (1583 – 1643)
Toccata prima do ‘Primo libro d’Intavolatura di toccate di címbalo et organo’
Toccata quinta do ‘Secondo libro de toccate, canzone… di cembalo et organo’
Toccata seconda do ‘Secondo libro de toccate, canzone… di cembalo et organo’
Reencontrar este disco depois de muito, muito tempo, foi uma grande alegria. Foi como virar uma esquina e encontrar um amigo há muito sem avistar, sentar em algum lugar para um café e um gostoso bate-papo.
Os nomes dos compositores italianos parecem todos terminar em ‘elli’: Torelli, Locatelli, Corelli… Bom, há Stradella, Marcello, Castello e Vivaldi, é claro.
Arcangelo Corelli era violinista e compositor que teve sua obra publicada em seis volumes ao longo de sua vida. Essas publicações culminaram com as maravilhosas sonatas para violino do opus 5 e os concertos publicados como opus 6. Entre as sonatas as famosíssimas variações ‘La Folia’ e entre os concertos o ‘Fatto per la Notte di Natale’.
Sebastien Marq
Essas obras eram tão famosas e faziam tanto sucesso que os editores logo trataram de adaptá-las e editá-las na forma de arranjos para combinações de outros instrumentos, buscando no processo torná-las mais acessíveis aos músicos ‘amadores’ que iriam comprar essas partituras.
Imagine, no lugar de chegar em casa com um disco ou um CD para ouvir, ou considerando hábitos mais atuais, acessar o instrumento de streaming de música para ouvir a tal sonata, trazer a partitura da sonatazinha, chamar a irmã ou outro parente ou vizinho, para juntos tocar a música – criar a sua própria música.
Este disco recria o som que estas pessoas ouviriam, bem, em condições ideais, pois os músicos são excelentes, bem além dos ‘amadores’.
Rainer Zipperling
Temos aqui uma coleção de concertos de Corelli, adaptados para um conjunto de duas flautas doce acompanhadas de outros instrumentos que fazem o baixo contínuo.
Duas delas são arranjos feitos por Christiano Schickhardt para o editor Roger, de Amsterdã, que já editara as obras ‘oficiais’ de Corelli.
Além destes arranjos mais dois concertos, os de número 10, 8 e 3 (com a tonalidade adaptada). Completa o disco uma sonata formada por uma combinação de movimentos de outros concertos escolhidos pelos músicos do conjunto.
No livreto que acompanha os arquivos você poderá encontrar mais detalhes sobre estas escolhas do repertório.
Arcangelo Corelli (1653 – 1713)
Sonata XII em si bemol maior (arr. J. C. Schickhardt, do Concerto Grosso No. 5)
Adagio
Allegro – Adagio
Adagio
Allegro
Sonata em fá maior (Concerti Grossi Nos. 2, 4, 12)
Vivace
Allegro
Adagio
Allegro
Concerto Grosso No. 10 em dó maior
Preludio
Allemande
Adagio
Corrente
Allegro
Minuetto
Sonata IV em fá maior (arr. J. C. Schickhardt, dos Concerti Grossi Nos. 1, 2)
Largo – Allegro
Allegro
Grave – Andante – Largo
Allegro
Concerto Grosso No. 8 em sol menor – ‘Fatto per la Notte di Natale’
Vivace – Grave
Allegro
Adagio – Allegro – Adagio
Vivace
Allegro, Pastorale: Largo
Concerto Grosso No. 3 em ré menor (originalmente em dó menor)
Este álbum foi produzido e lançado pelo selo ‘Opus 111’, (adivinhem de onde veio a inspiração para a escolha do nome…) que foi fundado e dirigido por uma mulher chamada Yolanta Skura. Este selo acabou sendo vendido para a Naïve, que posteriormente fechou. No entanto, enquanto existiu, foi um dos selos mais instigantes, com lançamentos espetaculares e de repertório interessantíssimo, além de gravar uma legião de excelentes artistas. Vale a pena descobrir um pouco mais sobre esta história. Para começar, você pode ler uma interessante entrevista com a Yolanta acessando este link aqui.
Ao terminar uma de minhas postagens, mencionei o Mozart para Milhões:
No fim da década de 1970, as lojas de discos vendiam uma série de LPs produzidos pela Polygram, com selo Deutsche Grammophon, e nomes tais como Schubert para Milhões, Mahler para Milhões e, é claro, Mozart para Milhões. Caso houvesse no Spotify e similares playlists como a destes discos, despertaria em muitas pessoas interesse e curiosidade pela chamada música clássica. Veja a lista das mais mais de Mozart:
Lado A: Sinfonia No. 40 (1º Movimento); Concerto ‘Elvira Madigan’ (2º Movimento); Gran Partita (Finale, com membros da Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara, regida pelo Jochum); Ave Verum Corpus; Marcha de As Bodas de Fígaro.
Lado B: Concerto para piano No. 27 (3º Movimento); Pequena Serenata (2º movimento); Marcha Turca (Kempff); Sinfonia No 34 (último movimento); Coro da Flauta Mágica.
Não resisti a esta lista e busquei uma gravação do Concerto para Piano No. 27 na prateleira… E gostei tanto que aqui estamos, mais um Mozart na lista. Eu já postei a Integral dos Concertos interpretados pelo Jenö Jandó, com a colaboração inestimável de Miles Kendig, mas concerto para piano de Mozart nunca é demais. Vejam que há dois deles na lista do Mozart para Milhões.
Piotr Anderszewski gravou três discos (que eu saiba) com concertos de Mozart, este é o último deles. Ele mesmo rege a excelente Chamber Orchestra of Europe, nossa já boa conhecida, e apresenta dois concertos espetaculares: o virtuosístico e autoconfiante Concerto No. 25 e o enigmático Concerto No. 27. Não me estenderei mais sobre estas obras, basta dizer que são excelentes. No entanto, a perspicácia do nosso concertista sobre estas obras é tão forte que decidi tra(duz)ir suas impressões que estão na contracapa do disco:
Eu percebo cada concerto para piano de Mozart como uma obra de câmera. O piano, a orquestra, os individuais instrumentos da orquestra se engajam em um contínuo diálogo. Além disso, eles são escondidas óperas: cada tema, cada motivo reconta a sua história e interagem uns com os outros, com as suas próprias vozes e suas características particulares. Mozart é por excelência o compositor da ambiguidade. Suas páginas mais luminosas podem assim deixar transparecer uma qualquer coisa de sombria. Onde está a luminosidade, onde está a sombra? Algumas vezes eu realmente não sei. E mesmo assim é música de tamanha evidência e limpidez. É um milagre!
Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)
Concerto para piano e orquestra No. 25 em dó maior, KV 503
Allegro majestoso
Andante
Allegretto
Concrto para piano e orquestra no. 27 em si bemol maior, KV 595
Há uma cena antológica no filme Amadeus, de Milos Forman, onde acontece o primeiro encontro de Salieri com Wolfgang, a criatura. Nesta cena de menos de dois minutos, Salieri explica a completa, absoluta genialidade de Mozart.
O velho e caquético Salieri conta para o médico que o atende a história e suas reminiscências vão desfilando na tela, criando o contraponto do altivo Salieri (interpretado magistralmente por Murray Abraham) de então com a sombra a que se houvera reduzido.
Salieri adentra um salão onde as pessoas que assistiram a um concerto estão se dispersando. Ele como que casualmente aproxima-se de uma estante na qual se encontra uma partitura com o início do adágio da Gran Partita. Na medida que ele descreve a música, vamos ouvindo-a.
O adágio inicia com uma sequência de quatro notas reunindo o contrabaixo e os dois fagotes e do próximo compasso em diante os segundos oboé, clarinete, corno di basseto e trompas se juntam a eles para criarem uma simples pulsação, quase nada. No terceiro compasso, como se surgisse do nada, um solo do primeiro oboé, pairando sobre esta pulsação – solo este que é entregue ao primeiro clarinete, no meio do próximo compasso – golpe de gênio. Nas palavras do Abraham-Salieri: Não era a composição de um miquinho amestrado. Era uma música como eu nunca houvera ouvido. Cheia de melancolia, melancolia interminável. Me parecia estar ouvindo a voz de Deus.
A música descrita pelo Salieri do filme é o terceiro movimento da Serenata para 13 instrumentos, todos de sopros, a menos de um contrabaixo (que pode ser substituído por um contra fagote). Esta é a música que preenche este despretensioso, mas delicioso disco.
A Criatura…
A também chamada ‘Gran Partita’ é uma das obras primas de Mozart e há miles de gravações disponíveis. Grandes maestros a regeram, excelentes conjuntos a gravaram sem regência, como uma prova de sua expertise. Aqui os membros da excelente e nossa velha conhecida Orchestra of the Age of Enlightenment são dirigidos por um de seus antigos trompistas, Anthony Halstead.
A turma toda…
O curto, mas utilíssimo libreto, cujo pdf se encontra nos arquivos, nos informa que em 1782 o imperador Joseph II fundou a Imperial Harmonie, uma banda de sopros, para tocar as melodias das óperas de maior sucesso e a moda caiu no gosto do povo. Na cena do banquete de Don Giovanni vemos um destes conjuntos em ação, tocando inclusive temas de As Bodas de Fígaro. Mozart adaptou e produziu música para essa formação de oito instrumentos, mas a Gran Partita está acima delas todas e também em número de instrumentos. Tudo indica que ela foi composta para um concerto de Anton Stadler e o maior número de instrumentos busca gerar um efeito de grandeza (que realmente consegue) e contraste. O libreto também traz um guia para o ouvinte descrevendo cada movimento, escrito pelo ótimo Misha Donat.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)
Serenata em si bemol maior para 13 instrumentos, K 361 ‘Gran Partita’
Largo – Molto alegro
Menuetto
Adagio
Menuetto: Allegretto
Romance: Adagio – Allegretto
Tema com variazioni
Finale: Molto alegro
Membros da Orchestra of The Age of Enlightenment
Anthony Robson e Richard Earle, oboés
Antony Pay e Barnaby Robson, clarinete
Andrew Watts e Jeremy Ward, fagotes
Colin Lawson e Michael Harris, cornos di bassetto
Andrew Clark, Gavin Edwards, Roger Montgomery e Martin Lawrence, trompas
O pessoal da orquestra passou no barzinho lá perto do PQP Headquarters para uma canja depois da entrevista…
No fim da década de 1970, as lojas de discos vendiam uma série de LPs produzidos pela Polygram, com selo Deutsche Grammophon com nomes como Schubert para Milhões, Mahler para Milhões e, é claro, Mozart para Milhões. Caso houvesse no Spotify e similares playlists como a destes discos, despertaria em muitas pessoas interesse e curiosidade pela chamada música clássica. Veja a lista das mais mais de Mozart:
Lado A: Sinfonia No. 40 (1º Movimento); Concerto ‘Elvira Madigan’ (2º Movimento); Gran Partita (Finale, com membros da Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara, regida pelo Jochum); Ave Verum Corpus; Marcha de As Bodas de Fígaro.
Lado B: Concerto para piano No. 27 (3º Movimento); Pequena Serenata (2º movimento); Marcha Turca (Kempff); Sinfonia No 34 (último movimento); Coro da Flauta Mágica.
Só hits! Quais destes você ouviu recentemente? Nossa Gran Partita está lá. Aproveite!
Alfred Brendel é um pianista (agora aposentado das gravações e concertos) especialista em Beethoven, Schubert e Liszt, entre alguns outros compositores. Sua gravação dos Concertos para Piano de Mozart, com a Academy of St. Martin-in-the-Fields, regida por Neville Marriner, é uma referência para este repertório e com o devido mérito.
Eu ouvi muitas vezes um de seus discos tocando Schubert, da Coleção Silver Line Classics, com a Fantasia Wanderer e a Grande Sonata D. 960. Mas o que me chamava a atenção para seus discos era algo do visual. Os retratos com sua proeminente e enrugada testa, os óculos de míope com aros escuros e pesados e um eventual sorriso torto. Mas havia ainda umas estranhas máscaras, que em minha crassa ignorância acreditava serem vagamente ‘africanas’. Assim, quando este disco apareceu eu tratei de investiga-lo com mais atenção. A máscara é arte primitiva de Nova Guiné e o interesse por esse objeto revela como é abrangente o interesse de Brendel por arte. Ele escreveu sobre arte Dada, sobre poesia e muito sobre música.
Neste disco adorável ele apresenta duas sonatas de juventude de Schubert, mas que revelam já o excelente compositor. Eu gosto demais destas duas sonatas. O livreto que acompanha os arquivos conta que estas sonatas são a primeira e a última das sonatas de juventude e que foram completadas. Isto por que Schubert era ousado e aventureiro nestas suas descobertas de composição.
A Sonata em lá maior, D. 664, já está a meio caminho do modelo das sonatas de Mozart e do próprio estilo que Schubert desenvolveria depois – do ‘comprimento celeste’. O Andante da Sonata em lá menor, D, 534, reaparece como o movimento final da Sonata em lá maior, D. 959, Rondo – Allegretto. Quem nos diz isto tudo é o próprio Brendel, que escreveu os comentários do libreto. Ele menciona uma observação de Schnabel dizendo que Schubert, além de lírico e melodioso, é capaz de produzir drama. Schnabel e Kempff que eram modelos de pianistas para Alfred Brendel. Você tem aqui a oportunidade de comparar a interpretação destas sonatas por Brendel com as deixadas pelo grande Wilhelm Kempff, uma vez que Ammiratore postou as gravações feitas por Kempff.
Hoje faz um dia espetacular, daqueles de não se esquecer. O céu que eu vejo daqui é azul de cinema e apesar de fazer calor, a sensação de estar aqui, no meio desta tarde, é deliciosa. Uma tarde como esta merece música agradável, bonita, leve de coração e com sons luminosos. Assim, vamos com este lindo disco que estou ouvindo, repleto dos dois trios com clarinete que Beethoven compôs. O grande Ludovico que continua a ser homenageado aqui e também sabia agradar as a suas diferentes audiências, mandando sobre elas alguns lindos sopros de alegria.
Nas circunstâncias que vivemos, perguntas como ‘O que realmente é essencial para você?’ ganham uma profundidade e uma dimensão tamanha que em raríssimas outras vezes teremos oportunidade de medir e avaliar tão clara e verdadeiramente. Assim, um pouco de leveza é bem-vinda.
O Trio para piano, clarinete (ou violino) e violoncelo em si bemol maior, Op. 11 é de 1798 e ganhou o apelido ‘Gassenhauer Trio’. O nome explica a popularidade da obra. Há um movimento com nove variações sobre um tema do dramma giocoso ‘L’amor marinaro ossia il corsaro’, de Joseph Weigl. A ‘Pria ch’io l’impegno’ é uma daquelas melodias que gruda na nossa mente. Daí o ‘Gassenhauer’, que é uma melodia ou canção tão popular que se pode ouvir pela rua (Gasse).
A outra obra do álbum é o Septeto Op. 20 travestido de Trio para piano, clarinete e violoncelo. Arranjos de obras populares para diferentes combinações (em geral com menos instrumentos) era comum e permitia maior circulação da obra. Esses arranjos nem sempre eram feitos pelo próprio compositor, mas aqui foi o próprio Beethoven que fez o arranjo e até o publicou com distinto número de opus.
Paul, Claudio e Eric ensaiando as variações sobre ‘Pria ch’io l’impegno’
Os intérpretes deste álbum são excelentes músicos e estão especialmente à vontade interpretando música de câmera. O disco faz parte de uma série chamada ‘Salon de musique’, lançada pelo selo Alpha, com gravações de artistas que participaram do Festival do Salon de Provence. O pianista Eric le Sage, que deverá aparecer por aqui mais vezes, juntou-se ao clarinetista Paul Meyer e ao violoncelista Cláudio Bohórquez para produzirem esse lindo álbum.
Antes de seguirmos para os finalmentes, uma das coisas que eu gosto de fazer, de vez em quando, é ouvir música acompanhando com a partitura. Eu garanto que, para fazer isto, você não precisa saber ler música. Coloque a música para tocar, abra a partitura e siga o ‘gráfico’. É impressionante como isto pode ser divertido.
Como em tudo na vida, começar com exemplos mais simples é a melhor maneira. Deixaremos as sinfonias de Mahler para depois.
Coloquei a partitura (em pdf) de cada um dos trios nos arquivos, flac pu mp3, segundo sua preferência, e você poderá fazer uma experiência.
Se você abrir os tais pdfs, verá cinco pautas nas quais a música estará disposta. Olhando de cima para baixo, as duas primeiras estarão com as notas a serem tocadas pelo violino ou pelo clarinete, já que um ou outro instrumento pode ser usado. No nosso caso, então, considere a partir da segunda pauta. Logo a baixo virá a pauta do violoncelo. Claro, estará indicado lá, no início de tudo, só estou falando… Abaixo disto há duas pautas, que contêm as notas a serem tocadas pelo piano. O exibido instrumento precisa de duas pautas… Algumas peças (de Debussy, por exemplo, usam até três…). Além disso, as notas do piano parecem maiores, acho que os pianistas são meio ceguetas.
Mas aqui vai a minha sugestão: tente acompanhar, inicialmente, a melodia do clarinete. Isso o ajudará a não se perder, se você ainda não tem muita experiência neste tipo de coisa. E não se envergonhe de eventualmente usar o controle remoto para recomeçar a música, em caso de se perder completamente. Ah, uma última dica: os movimentos lentos são mais fáceis.
Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
Trio para piano, clarinete e violoncelo em si bemol maior, Op. 11 – ‘Gassenhauer’
Allegro con brio
Adagio
Tema con variazioni
Trio para piano, clarinete e violoncelo em mi bemol maior, Op. 38 (Arr. do Septeto Op. 20)
Depois me contem, se a sugestão de perseguir a música na partitura foi boa, se você já fazia isto e se gostou do disco. Ande, use o link ‘LEAVE A COMMENT’ que está lá no início, bem abaixo do cabeçalho.
Em uma das minhas vidas passadas ensinei em uma universidade americana e tive como colega e vizinho de escritório um inglês – Lewis! Ele chegava com seu sobretudo de agente secreto, com um sorriso em apenas meia boca e mandava: Good morning, René! Era essencialmente tudo o que ele oferecia em termos de conversação, mas de alguma maneira, sabia que podia contar com ele. Gostaria de imaginar que em algum lugar da Inglaterra, dia destes, Lewis chegará em casa, servirá a large sip of Scotch e tocará algum CD do tipo deste que vos trago.
String Orchestras são verdadeiras instituições inglesas e os compositores britânicos do início do século XX deixaram um repertório muito bonito para essa combinação.
Wyastone Leys, Monmouth
Este CD foi gravado, masterizado e manufaturado no Reino Unido, diz com orgulho na contracapa do CD o selo – Nimbus Records Limited. Tudo isto foi feito em um castelo: Waystone Leys, Monmouth. Mas na contracapa há também a informação de que a sua gravação foi feita no Great Hall da University of Birmingham.
Mas estes detalhes todos são para deixar claro que estamos diante de um repertório absolutamente British e excelente.
George Butterworth morreu em combate na Primeira Guerra, com apenas 31 anos. Estudou em Eton e Oxford e ajudou Cecil Sharp e Vaugham Williams em suas pesquisas em música folclórica. Neste disco temos quatro peças suas. A primeira teve material derivado de um ciclo de canções, A Shropshire Lad, principalmente da primeira canção, Loveliest of Trees. Pelos nomes você pode esperar uma música que representa mais as paisagens do interior da Inglaterra, com suas raízes folclóricas. O mesmo acontece nas outras três peças, em particular na última, The Banks of Green Willow.
Em seguida temos a Lady Radnor’s Suite, de Hubert Parry. O nome da peça se deve ao fato de Parry tê-la escrito para uma orquestra de câmera que era regida por Helen, a Condessa de Radnor, esposa do quinto Earl of Longford Castle, de Salisbury.
A última peça é de um (talvez) mais conhecido compositor, Frank Bridge, que foi professor de Benjamim Britten. Esta peça, a Suite for Strings, está em nível de comparação com Introduction and Allegro, de Elgar, e Fantasia on a Theme by Thomas Tallis, de Vaugham Williams.
Enfim, um lindo disco com música de excelente qualidade. E não é só para inglês ver!
Ah, se você estiver lendo isto, Lewis, gostaria de agradecer pela companhia nos corredores da universidade, em busca de another cup of coffee. Eu quase posso ouvi-lo dizendo: Don’t mention it!
Digamos que você queira, assim, ouvir aquela peça de música de câmera que acabou de compor – um ensolarado quinteto de cordas. Afinal, tudo vai indo muito bem, encomendas de obras chegando, convites e mais convites para tocar nas reuniões da nobreza da cidade, com todos mostrando-se afáveis e mesmo bajuladores.
Ora, tudo o que você precisa fazer é reunir os principais membros dos naipes de cordas da orquestra da cidade e apresentar-lhes as partes, fresquinhas das penas dos copistas.
Os gastos serão, no máximo, algumas velas para manter a luz quando o sol se pôr, algumas (muitas) garrafas daquele bom vinho renano – algumas frutas e uma boa tábua de frios. Quem sabe, no final de tudo, alguma boa companhia noite adentro…
Essa imaginada possibilidade pode muito bem ter ocorrido com Beethoven quando terminou seu quinteto lá pelos idos de 1801. Foi a única peça com essa formação – dois violinos, duas violas e violoncelo – por ele assim concebida e reflete o momento favorável pelo qual passava.
O outro quinteto que completa o disco é uma transcrição para esta formação do trio com piano, Op. 1, No. 3, feita em 1817. Este já era um período de maiores atribulações e isto pode ter sido a motivação para a adaptação. Afinal, ele precisava mais alguns florins para continuar pondo pão na mesa.
Veja o que a Gramophone falou deste disco: These players from Cologne’s broadcasting orchestra do both works proud, capturing the warm, middly sound world of op. 29’s openinig movement and the scampering virtuosity of both finales.
O pessoal do WDR SO 5 indo encontrar a turma do PQP Bach para uma ‘promenade’ nas margens do Reno, batendo um papinho sobre as peças de câmera do grande Ludovico…
Aproveite este lindo disco com peças menos conhecidas de nosso homenageado!
Este disco foi lançado recentemente e é o primeiro álbum da dupla de violinosta e pianista. William Hagen e Albert Cano Smit estudaram em Colburn, uma escola para artes que fica em Los Angeles, na Califórnia. Você poderá descobrir mais sobre esta interessante instituição acessando a página deles aqui.
No entanto, no momento que eu escrevo, isto será o máximo que poderá fazer, pois as atividades da escola estão completamente suspensas nestes dias de pandemia. Espero que tudo isto já seja passado, no momento que esta postagem vier à tona.
O disco é resultado de um desafiador projeto da dupla – escolher repertório, tratar das gravações, gerenciar o lançamento do álbum e torcer para que tudo funcione. Espero que esta divulgação do álbum aqui no blog resulte em algum retorno para os artistas. Lembremos que, dentro das condições de cada um, devemos dar suporte aos artistas.
Mas, a música? Linda, excitante (não hesitante), pulsante, cheia de humor e com alguns toques de nostalgia. Os (músicos) russos são ótimos nisto. Stravinsky e Prokofiev têm em comum o uso de melodias folclóricas, o interesse pela dança e os trabalhos que escreveram para Diaghilev.
A Suíte Italiana, de Stravinsky, é uma adaptação de alguns trechos do balé Pulcinella, inspirado pela (e adaptado da) música de Pergolesi e contribui fortemente para o sucesso do disco. Na verdade, Diaghilev apresentou para Stravinsky manuscritos de música do século dezoito escrita por compositores que estavam esquecidos. A música para Pulcinella tem a contribuição do veneziano Domenico Gallo, do Conde van Wassenaer, um diplomata holandês, e Carlo Ignazio Monza, um padre milanês. Houve uma primeira versão para violoncelo e piano, mas esta versão para violino e piano é igualmente vencedora.
O Divertimento que vem a seguir, também de Stravinsky, são adaptações de números do balé Le baiser de la fée, que por sua vez foi inspirado nas lindas melodias de Tchaikovsky, mas que tem a inigualável assinatura de Stravinsky.
Estas peças para violino e piano, assim como o Concerto para Violino, surgiram da colaboração de Stravinsky com o violinista americano, de origem polonesa, Samuel Dushkin.
Prokofiev contribui com a linda sonata para violino e piano, cuja primeira versão, para flauta e piano, pode ser ouvida nesta postagem aqui. Para completar o disco, mais cinco pequenas peças, com destaque para a Marcha do Amor por Três Laranjas e arrematando com a arrasadora dança russa de Petrushka. Nas cinco últimas peças do disco a dupla faz uma certa homenagem aos grandes violinistas do passado – Jascha Heifetz, Nathan Milstein e Samuel Dushkin – que adaptaram trechos e peças para seus próprios concertos. Afinal, as lindas melodias não devem ficar restritas apenas às suas versões originais, não é mesmo?
Sempre gostei de ler as críticas dos álbuns de música. Edições do Penguin Guide to CDs e revistas como a Gramophone sempre foram boas fontes, especialmente antes da era digital. Como estas publicações são inglesas, também buscava as impressões em outras partes. A revista francesa Diapason oferecia (e ainda oferece) uma perspectiva complementar, assim como a Fanfare, uma revista americana. Com o advento da internet, os blogs (PQP Bach entre eles) passaram a oferecer suas preferências e críticos amadores passaram a postar suas opiniões em diversos sites. Eu acho divertido ler essas críticas amadoras e a melhor de todas até hoje continua sendo a que foi escrita por Bernard Michael O’Hanlon sobre o maravilhoso disco desta postagem, que presta uma homenagem ao recém falecido cravista Kenneth Gilbert.
Acho esta crítica tão divertida que fiz uma tradução. O link para o texto original está aqui, assim você poderá verificar por si mesmo como o texto é colorido. Aqui vai…
Ollie…
“Mesmo se tomarmos em comparação os baixos padrões das colônias penais, os membros ordinários da Associação Australiana Knappertsbusch são a própria degradação. Cite uma iniquidade – corrupção e desprezo, usura e simonia, licenciosidade e alcoolismo, violência e gula, preguiça e xenofobia – estará presente aos magotes. Comparando, os porcos imundos eram um modelo de virtude e limpeza. Oliver Reed é o santo padroeiro destes bagunceiros infernais – e aqui temos um exemplo em que os alunos superam seu professor. Eu culpo aos ancestrais. Nenhum de seus antecessores foi listado no Debrett’s Peerage & Baronetage. A maioria deles – fenianos, com certeza – foram trazidos da Irlanda para a Terra de Van Diemen (Tasmânia) ou Sydney Cove. Reúna ser nascido na ralé com ter muito dinheiro e um virulento desprezo pela moralidade – este é o desafio que eu enfrento quando eles gritam – Voltemos aos cabarés do centro de Bangcoc! – É para entrar em desespero!
Mas um atenuante está à mão: a aristocrática escolha e apresentação de algumas suítes para teclado de Handel por Kenneth Gilbert. Sempre que eu toco este disco para os membros da AAK eles se tornam temporariamente enobrecidos (bem… isto na medida em que a natureza permite), a concupiscência diminui, as melhores coisas da vida entram em foco, e estão longe de envolver cachaça e rabos-de-saia.
De minha parte, aprecio demais a musicalidade de Gilbert: o que aqui temos está longe de ser uma jornada pelo Vale dos Ossos Secos; a fadiga aural que surge quando ouvimos o som do cravo aqui é mínima. Ele segue seu ritmo sem pressa e certamente deixa a música respirar. A Quinta Suíte desabrocha como uma rosa.
Jamais me separarei de meus discos de Richter/Gavrilov ou de Perahia neste repertório. No entanto, é uma enorme alegria ouvir esta música sendo tocada no instrumento para a qual foi composta.
Tamino e sua flauta pacificaram os animais selvagens. Com alguma sorte, Fred e Ken farão o mesmo com estes degoladores.”
Pois é, mesmo através da tradução, você pode ter uma ideia de como o disco enfeitiçou a turma do barulho…
Como era típico dos dias dos LPs, o álbum traz uma coleção de cinco suítes somando 58 minutos de música. O selo francês ‘harmonia mundi’ com sua estilosa capa quase toda preta com o ícone do selo e os títulos mínimos em branco completam o pacote. O disco foi editado mais uma vez na série ‘musique d’abord’, que comprova a sua popularidade.
Nem todas as resenhas amadoras são tão coloridas quanto a que eu mencionei, mas muitas são bastante adequadas e próprias, como esta:
“Kenneth Gilbert made an excellent performance about these practically unknown Handel ‘s suites.
With refinement, serene eloquence, nuance and aristocratic charm, Gilbert goes to the musical nucleus of every piece and literally extracts all its virtues.
Go for this recording and enjoy it always. – Hiram Gòmez Pardo Venezuela
A motivação para esta postagem múltipla começa (é claro!) com a música. Música barroca francesa em ótimas interpretações e som de muito bom para excelente. O eixo principal que une estes quatro álbuns é a música que Jean-Philippe Rameau compôs para a ópera-balé Les Indes Galantes em 1735, com diversos ‘puxadinhos’ posteriores.
Para ter uma ideia do esplendor da época e como esta música correspondia plenamente a este esplendor, assista aqui um pedacinho do filme ‘Marie Antoniette’, de Sofia Coppola.
Em minha opinião esta música requer um ar de solenidade, de pompa. Pressa está fora de questão. Tenho passado alguns dias de imersão nestes discos e a cada minuto gosto mais.
Temos, portanto, quatro álbuns contendo a música de uma ‘suíte’ da ópera, interpretada por excelentes músicos, especializados em música barroca, usando instrumentos e prática de época. Dois apresentam a música na versão orquestral e dois nos quais a música é interpretada ao(s) cravo(s). A razão para tal abundância é uma tentativa de mostrar a música em suas diferentes perspectivas. Os discos nos quais a música é apresentada com orquestra têm algumas peças em comum, mas cada um deles apresenta números que não constam no outro. Tampouco a ordem é mantida. Além disso, nas peças coincidentes, os andamentos e o próprio som, refletindo diferentes períodos de gravação, mostram diferenças interessantes. Maestro Brüggen, por exemplo, dá uma atenção especial aos flautistas. Acho o som do disco do Herreweghe um pouquinho datado, mas o ouvido logo se acostuma, quando a interpretação é tão especial.
Diversão garantida é ouvir tentando descobrir quais são os trechos coincidentes e como eles estão diferentes nesta ou naquela gravação. Preste atenção especial no minueto que é usado no filme. Ele está nas duas gravações com orquestra, mas há uma pequena sutileza. Se descobrir qual é, mande uma mensagem…
A contradança é matadora, assim como os tamborins. Não deixe de notar lá mais para o fim dos discos a ária dos selvagens e a chaccone.
Bem, e os outros discos, aqueles com cravo? O que eles nos dizem?
Quando passo algum tempo imerso na mesma música, ouvindo e reouvindo diversas vezes, tento imaginar o contexto em que a música surgiu, penso muito no processo criativo do compositor. A criatividade é uma das coisas que não me canso de admirar. Imagino o compositor com suas pautas desprovidas de notas e suas ideias se encadeando para gerar os sons que tanto nos encantarão. Ele certamente poderia confiar em um instrumento amigo para testar algumas ideias, ver como elas poderiam ficar. Imagine Rameau sentado ao cravo criando a tal solene abertura. Pode nem ter sido assim, mas gostaria de pensar que poderia e o excelente Kenneth Gilbert nos dá uma ideia de como isso poderia ter sido.
J-P Rameau
E depois, quando algumas árias e outros números já estivessem prontos, chega a visita dos amigos, quiçá um empresário interessado em uma nova ópera-balé. Rameau certamente poderia contar com a ajuda de algum visitante habilidoso ao teclado ou mesmo um aluno que estivesse por ali. Aproximam-se dois dos cravos do estúdio do compositor e a música agora soa ainda mais rica, alguns efeitos para preencher ainda mais a sala e a imaginação dos presentes, antecipando o momento da apresentação no teatro. Os cravistas Pierre Hantaï e Skip Sempé são excelentes e aqui reúnem forças para apresentar um disco magistral.
O disco do Gilbert é bem antigo, nasceu na era dos long-plays, quando não havia tanta preocupação em encher o disco com pelo menos 70 minutos de música. O disco do Hantaï e Sempé é bem mais recente e está recheado, para nosso grande deleite, de linda música, com um som espetacular.
O título do disco, Symphonies à deux clavecins, enfatiza este aspecto da sonoridade. Criar um som grandioso a partir dos dois cravos. Muitos números de Les Indes Galantes estão aí, mas também há partes de outras obras, como Les Paladins, Dardanus, Zoroastre. Pierre Hantaï, que é famosos por suas interpretações da música de Bach, e Skip Sempé, que cresceu na maravilhosa cidade de New Orleans, têm em comum períodos trabalhando sob a orientação de Gustav Leonhardt.
Esta postagem propõe algo diferente em relação à apreciação musical. Ouvir, comparar, refletir. Fazer da atividade ‘ouvir música’ algo que ultrapasse a superficialidade. Provavelmente é o mesmo com você… eu tenho que conter meus mais primitivos instintos quando ouço a famosa frase: ‘Eu gosto de música clássica, ela me acalma. Ponho ali no rádio e deixo bem baixinho…’
As listagens das faixas dos três últimos discos se encontram nos arquivos. Apenas o disco de Herreweghe está sem o livreto. Optei por não as listar aqui para deixar uma postagem mais objetiva e concisa. Nesta mesma linha, evitei falar sobre o plot da ópera. Não falta informações sobre isso na rede e também nos livretos. Basta dizer que o original consta de um prólogo e de quatro ‘atos’, cada um em um país ‘exótico’ diferente, as tais Índias… O que mantem o todo coeso, se é que tal proeza seja possível, é o tema do amor. Ah, l’amour… O importante é que com isto há espaço para música de todos os tipos, desde árias amorosas até danças saltitantes e exuberantes.
Jean-Philippe Rameau (1683 – 1764)
Les Indes Galantes – Suite d’Orchestre
Ouverture
Entree des Quatre-Nations
Air Polonois
Menuets
Air pour les Guerriers portans les drapeaux
Air pour les Amants qui suivent Bellone et pour les Amantes qui tachent de les retenir
Lamentamos a morte de Kenneth Gilbert dia 16 de abril de 2020. O músico canadense tinha 88 anos e sofria de Alzheimer. A revista Scherzo escreveu no seu obituário: “Levava anos dessa terrível doença que primeiro rouba a memória e depois leva a alma, antes de arrebatar a vida”.
____ . o O o . ____
Jean-Philippe Rameau (1683 – 1764)
Symphonies à deux clavecins
(Incluindo diversos números de Les Indes Galantes)
Peço então ouçam estes discos, não importa em qual ordem, mas com o coração e a mente… Aproveitem os dias de ‘far niente’ e depois me digam, é ou não, uma beleza, a música das galantes Índias?
René Denon
Nem a chuva atrapalhou a visita do Skip e do Pierre às instalações do PQP Bach Coop.
O que poderia ser apenas um tratado sobre as tonalidades, um caderno de exercícios, se viesse de uma mente menos genial, revela-se, nas mãos de um intérprete talentoso, uma genuína obra de arte.
O Cravo Bem Temperado é mais um monumento criado por Bach, que reunia preocupação com educação musical, talento criativo, profundo conhecimento musical e, sobretudo, uma genialidade artística grandiosa.
A primeira vez que ouvi alguns destes Prelúdios e Fugas foi em um velho LP com gravações de Wanda Landowska. O nome da obra me sugeria doce de abóbora, temperado com cravo. Pois é, minhas escolhas musicais já foram guiadas pelo estomago….
Depois ouvi András Schiff, Gulda e Gould, estes ao piano. Também a clássica gravação ao cravo de Kenneth Gilbert, com a famosa ilustração do Homem Vitruviano.
Mas hoje, as honras são para este músico completo, pioneiro dos instrumentos de época, Trevor Pinnock. Há pouco tempo fiz uma postagem de um antigo disco dele, na qual mencionava sua disposição de gravar o Cravo Bem Temperado. Pois aqui está o primeiro livro.
A minha jornada com o Cravo Bem Temperado tem sido de uma vida toda. O meu primeiro encontro com esta obra foi quando tinha uns 12 anos, quando alguém me deu um volume dourado e rosa, uma velha edição feita por Czerny, que agora sabemos ser notoriamente não confiável. Isto deu-me horas de descobertas. Alguns anos depois eu ouvi todos os prelúdios e fugas, interpretados ao piano, pelo rádio, e fui fisgado. Quando tinha uns vinte anos, gravei alguns prelúdios e fugas para uma transmissão de rádio e eu soube que algum dia eu tocaria todos eles. No entanto, a montanha parecia impossível de ser escalada e Bach, um duro e formidável mestre ao propor tarefas. Como eu poderia aprofundar-me na densidade de algumas destas fugas, sem mesmo considerar entende-las?
Assim, apesar de posteriormente tocar vários outros prelúdios e fugas, um plano de gravar todos os prelúdios e fugas foi repetidamente sendo adiado ao longo de dez anos, até recentemente, quando decidi que não mais poderia adiar. Agora eles serão uma parte central de mim pelo resto da minha vida.
O texto original em inglês pode ser encontrado aqui. Você poderá ouvir o próprio Trevor. Confira aqui.
Em 1724 Johann Sebastian Bach estava em seu segundo ano como o Cantor da Igreja de São Nicolau, em Leipzig, e apresentou na Sexta-Feira Santa sua Passio secundum Johannem. Os acordes iniciais do coro de abertura devem ter realmente provocado grande impacto na congregação, não necessariamente positivo, uma vez que na reapresentação da obra no ano seguinte, o número foi substituído por um coral mais ‘ameno’. É possível que Bach tenha iniciado a composição desta obra magistral nos anos anteriores, em Weimar, e ele prosseguiu fazendo adaptações e mudanças nas quatro apresentações posteriores à estreia.
Esta é a terceira gravação desta Paixão feita por Herreweghe, sendo que na segunda delas ele usou a versão de 1725 e Herr, unser Herrscher… não foi gravado. Ainda bem que ele desta vez tenha escolhida a versão estabelecida que todos os outros maestros geralmente escolhem.
Em um artigo escrito para The New Yorker, Alex Ross dedica muita atenção a este número de abertura da obra e vale a pena a leitura, que pode ser feita aqui.
Ele trata da verdadeira obsessão que Bach tinha em copiar e estudar as partituras dos outros compositores e por isso, apesar de ter vivido toda a sua vida em uma área relativamente pequena, conhecia a música dos mais importantes compositores da Europa, e não apenas os seus contemporâneos.
Quando chegou a vez de compor sua Paixão, ele certamente conhecia obras de outros mestres, alguns do passado, como o pioneiro Johann Walther e posteriormente Heinrich Schutz, mas também de seus contemporâneos. Handel compôs música para uma Paixão segundo São João, com texto de J. G. Postel, quando tinha ainda 19 anos.
São João, Evangelista, pelo pintor francês Jean Bourdichon (1457-1521)
Segundo Geiringer, a parte principal do texto é bíblica, neste caso extraída de São João 18-19 (com curtas inserções de São Mateus). A narração é feita na forma recitativa por um tenor, o Evangelista. Personagens individuais, incluindo o Cristo, são cantados por solistas, as falas de grupos de pessoas e multidões pelo coro. Ariosos e árias inseridas entre as partes da narração expressam a reação do indivíduo aos eventos descritos, os corais as de toda a congregação. Afinal, esta música foi composta para fazer parte integrante do serviço daquele importantíssimo dia. Bach foi responsável pela seleção de corais e deve também ter providenciado o texto das árias. Ele seguiu o modelo do texto de autoria de Barthold Heinrich Brockes, de Hamburgo, Der für die Sünden dieser Welt gemarterte und sterbende Jesus (Jesus torturado e morto pelos pecados deste mundo), mas nunca literalmente. Interessante notar que os corais são relativamente simples. Eles oferecem uma oportunidade para a comunidade participar da execução da obra. Portanto, não se faça de rogado e cante junto estas partes…
Há várias maneiras para se ouvir esta maravilhosa música. Você pode simplesmente colocar a música para ouvir pelo prazer estético e deliciar-se com a beleza das árias, com a versatilidade, força e dinâmica dos coros, com a dramaticidade da narração e com a singeleza dos corais. E pronto…
Mas, se quiser, Bach oferece mais que isto. A obra tem uma construção extremamente bem planejada, buscando um equilíbrio e uma perfeita distribuição das diferentes intervenções, do narrador, dos personagens e das multidões. Também há equilíbrio na escolha dos tipos de solistas: tenor, soprano, contralto e baixo.
Ou seja, se sua abordagem é de busca de prazer pela estética da obra, poderá buscar mais do que só ouvir este ou aquele número (nada de errado com isso), mas procurar uma visão de todo o conjunto da obra.
Finalmente, não é por nada que Bach é chamado de o quinto evangelista. Ele nos convida a uma reflexão, um passo mais ousado na direção do que, na falta de palavra mais apropriada, chamaremos de espiritualidade. A obra expõe um dos aspectos talvez mais perturbadores da fé, que é a do sacrifício. E aqui, o sacrifício do Filho de Deus é apresentado em cores vivas. É este aspecto que fica evidente logo na abertura da obra e é por isso que ela é tão importante para o conjunto. Estamos diante de uma abertura que diz claramente que o que está por vir não é para os fracos de coração.
E está tudo lá: a traição com a captura do Senhor, com direito a Pedro decepando uma orelha do pobre Malchus. A atitude de Jesus se oferecendo para a captura, intervindo pela liberdade de seus discípulos.
A Negação de Pedro, de Theodoor Rombouts
Temos a negação de Pedro, que era muito humano, como nós o somos. Todos os meandros e delicadezas do interrogatório do acusado, com Pilatos tentando safar-se da enrascada de condenar um inocente. Os detalhes para que as palavras da antiga profecia fossem satisfeitas, como os soldados jogando dados para decidir com quem ficaria a túnica do Senhor. A escolha entre o nazareno e Barrabás é impressionante, assim como os gritos demandando a crucificação. Pilatos ainda diz duas impressionantes falas: o Ecce homo – Sehet, welch ein Mensch! – e o sutilíssimo Was ich geschrieben habe, das habe ich geschrieben. O que eu escrevi, eu escrevi! E é claro, o sacrifício precisa ser cumprido. Mas antes, aquele discípulo que ele amou ao lado de sua mãe e as outras Marias, recebe a incumbência de zelar por ela.
Ecce Homo, Caravaggio
Todas estas passagens são entremeadas pelas mais lindas árias, que cumprem o papel de refletir sobre os significativos momentos. Por exemplo, ao cumprir-se o calvário, com a morte do Senhor, e morte de cruz, ouvimos uma ária lancinante, cantada por um contralto: Es ist vollbracht! Esta é a primeira frase da ária, que repete a última fala de Jesus, ao entregar seu espírito. O sacrifício está completo, cumpriu-se. Para fazer contraponto a está atual interpretação da famosa ária, apresentada nesta postagem, você poderá ver, clicando aqui, como esta música tem atravessado os tempos sempre encantado e tocando os corações das pessoas. A gravação que está no Youtube apresenta a contralto inglesa Kathleen Ferrier, cantando em inglês.
Deposição da Cruz, van der Weyden
Temos ainda uma etapa, a deposição da cruz e o sepultamento. Palavras terríveis. E assim termina a Paixão, com Jesus sepultado. Afinal, só no Domingo de Páscoa ele ressurgirá, mas aí é outro Oratório, que você poderá ouvir se clicar aqui.
Como acontece nas grandes obras de arte, quanto mais nos aproximamos delas, mais minúcias e detalhes impressionantes descobrimos. No caso das obras musicais dependemos dos intérpretes e nos nossos dias, também das equipes de gravações que nos levam para mais perto destas maravilhas. Mas para não desperdiçarmos tamanhos tesouros, precisamos aplicar um certo esforço.
Apesar de já ter ouvido esta obra diversas vezes, a cada vez descubro algum novo detalhe que me impressiona ou que me inspira. Nesta gravação gostei muito do conjunto todo, mas chamo a atenção para o coro de abertura, tremendo, e para a ária de tenor que transmuta o sangue do dorso de Jesus nas cores de um arco-íris que do céu nos abençoa.
Independentemente da maneira que você escolha para ouvir esta maravilhosa gravação, que ela lhe toque o coração, de alguma maneira.
Veja o que a Gramophone disse sobre esta gravação:
Contributing to the discerning unity of vision and character of this performance is how the instruments sit embedded at the heart of the vocal sound…This is indeed one of the most thoughtful, affecting and powerful St John Passions in recent years. It reveals the mature mastery of Herreweghe at his most perspicacious and consistent, with Collegium Vocale Gent paving the way with gold.
O viajante acomoda suas bagagens no quarto da estalagem, especialmente o portmanteau contendo seus preciosos instrumentos fabricados pelo master Lotz e as maravilhosas partituras manuscritas pelo amigo Wolfie. Retira o sobretudo de viajem, molha a garganta com uma cerveja e indaga ao estalajadeiro onde pode encontrar o responsável pelo teatro local.
Estamos no início da década de 90 e a cidade pode ser Lübeck, Riga ou Hanover. O viajante real que vive esta cena imaginada (mas plausível) é um músico virtuose e tem muito trabalho pela frente. Alugar o teatro, preparar o programa, encomendar os anúncios e entradas para o concerto, selecionar, preparar e ensaiar os músicos locais, ufa!
A. S.
Nosso personagem é um de três grandes experts em seus campos de atividade que confluíram pelos poderes e inspirações das musas na cidade de Viena, entre os anos 1780 e 1791, 1792, para criarem a maravilhosa música cujo resumo enche este disco e cujo legado permanece até hoje.
O mais famoso destes três é Mozart, que compôs muita música para o instrumento que estava sendo aperfeiçoado – o clarinete e o ‘basset clarinete’, assim como outros instrumentos de sopro de madeira.
O viajante da cena chamava-se Anton Stadler e chegara a Viena antes de Mozart e com seu irmão Johann impressionava a todos com sua técnica e destreza ao tocar instrumentos de sopro de madeira.
W. A. M.
Este músico inspirou Mozart compor entre outras coisas o Concerto, o Quinteto e o Trio com Clarinete.
O terceiro elemento do trio é Theodor Lotz, fabricante de instrumentos de sopros que produziu, inventou, adaptou os instrumentos de acordo com as demandas e inspirações dos outros dois.
As relações entre estes cavalheiros nem sempre devem ter sido tão harmoniosas quanto a música que acabaram produzindo e tudo indica que Stadler foi quem muito contribuiu para isto. Ele afirmava ter sido o inventor do ‘basset clarinete’ fabricado por Lotz. Este deixou em seu testamento a afirmação de que Stadler lhe ficara devendo por ‘2 neue erfundene Bassklarinet’. Erfundene quer dizer ‘inventados’.
Constanze Mozart também deixou dúvida sobre o caráter de Stadler. Em uma carta para um editor de música francês ela diz que ele deveria se informar com Stadler sobre vários manuscritos originais de Mozart, assim como cópias de trios para ‘corno di basseto’ ainda desconhecidos do público. Stadler teria afirmado que enquanto estava na Alemanha sua portmanteau fora roubada justamente com todas estas coisas que lá estavam. E Constanze continua afirmando que outras pessoas lhe informaram que o sobredito portmanteau acabara numa loja de penhores em troca de 73 ducados e que nele também estava alguns instrumentos.
Clarinete em si bemol de Theodor Lotz
Apesar disto tudo, as relações de Mozart com Stadler pareciam ótimas, a julgar pelo que percebe das cartas entre eles. Devem ter tocado juntos as peças que fecham este disco, o Adagio e a Música Fúnebre, em alguma cerimônia maçônica. Lembremos também da música que acompanha vários trechos da Flauta Mágica.
Joyce DiDonato
Em uma carta de Mozart para Constanze, ele reconta uma passagem de uma carta de Stadler, descrevendo seu enorme sucesso ao tocar as árias de ‘La Clemenza di Tito’, com ‘basset clarinete’ obbligato. Em fins de 1791, Mozart deu a Stadler o manuscrito do Concerto para Clarinete e dinheiro (500 florins) para que o mesmo viajasse para Praga, onde o concerto foi estreado em 16 de outubro de 1791. Difícil julgar os outros, ainda mais a uma distância temporal como esta, mas Mozart divertiu-se muito com Anton. Chamava-o ‘Stodla’, ‘Milagre Boêmio’, ‘Natschibinitschibi’ e lhe confiou o concerto. Stodla demorou quatro anos antes de retornar a Viena, sem o portmanteau…
Frans BrüggenEric Hoeprich
O libreto está junto aos arquivos e tem mais informações sobre os instrumentos, se você se interessa por isso. Foi muito bem escrito pelo solista do disco. No mais, desfrute deste lindo álbum que reúne o resumo da cooperação de três pessoas geniais, que com suas virtudes e defeitos colaboraram na criação de tão linda música. Uma nota especial para a belíssima voz da mezzo-soprano Joyce DiDonato, pela maravilha de som produzido pela Orchestra of the Eighteenth Century, regida pelo lendário Frans Brüggen. Veja que esta é a segunda gravação do concerto por esta formação. Esta foi lançada pelo selo Glossa e foi gravada ao vivo.
Você ainda pode ver um pedacinho de um filme sobre estes três cavalheiros que se juntaram para termos esta tão maravilhosa música, se acessar este link. Não deixe de aproveitar o álbum! E mande um alô clicando no link de comentários ‘LEAVE A COMMENT’, logo abaixo do cabeçalho da postagem, anda, clica lá!!
‘Até hoje não faço ideia de que falavam as duas senhorinhas italianas naquela canção. Prefiro imaginar que elas cantavam uma coisa tão bonita que não se pode colocar em palavras e até faz seu coração doer’. É assim que Red, personagem do clássico ‘Um Sonho de Liberdade’ (‘The Shawshank Redemption’), descreve o dueto cantado pela Contessa d’Almaviva e Susanna, personagens de uma das mais belas óperas de Mozart – Le Nozze di Figaro.
Eu adoro quando há este tipo de conexão de música com as outras mais mundanas artes. Foi assim que decidi por esta postagem, assistindo a um pedaço deste espetacular filme. Nosso estúdio de audição aqui no PQP Bach corp. estava interditado para dedetização e precisei passar umas boas horas no lounge de nossa corporação, que tem uma TV com exibição contínua de filmes clássicos.
Andy e seu sidekick Red
É claro, ‘Um Sonho de Liberdade’ contem vários elementos que o tornam de certa forma atemporal, característica necessária para um clássico e você terá que descobrir tudo por si mesmo. Mas o personagem principal, Andy Dufresne, é um prisioneiro que não se submete ao sistema, não se ‘institucionaliza’. Em um de seus atos de rebeldia usa o sistema de comunicação da penitenciária para fazer soar em cada centímetro cúbico das instalações o dueto ‘Canzonetta sull’aria’, que dura perto de três minutos. Você poderá ver a cena aqui, se quiser. O custo da traquinagem não é pequeno, duas semanas na solitária. Andy explica aos camaradas depois do castigo – ‘O senhor Mozart me fez companhia’. É claro, não havia toca-discos na solitária. Segundo ele, a música estava em sua cabeça e em seu coração. E ele ainda acrescenta: ‘Esta é a beleza da música. Eles não podem tirá-la de você’.
Pois assim que pude voltar ao nosso estúdio de audição, comecei a ouvir minhas gravações de ‘As Bodas de Figaro’. Como a inspiração da postagem veio de filme clássico, vamos também de gravação clássica – elenco estelar, Orchestra Philharmonia regida por Carlo Maria Giulini, e tudo sob o olhar atento do lendário produtor Walter Legge, marido da prima-dona Elisabeth Schwarzkopf.
La Schwarzkopf
A ópera é a primeira da milagrosa colaboração de Mozart com o libretista Lorenzo Da Ponte. As outras são Don Giovanni (1787) e Così fan tutte (1790). O libreto de Da Ponte é um primor baseado na comédia de Pierre Beaumarchais, estreada em 1784. Esta peça é uma sequência de um sucesso anterior, ‘O Barbeiro de Sevilha’, que seria colocada em ópera posteriormente pelo grande Rossini.
Eberhard WächterGiuseppe Taddei
O enredo coloca dois casais no centro da peça, os nobres D’Almaviva e os simples mortais noivos Susanna e Figaro. É claro, o conde está de olho na noivinha e todos se reúnem em uma trama para desmascará-lo. Seria inimaginável pensar que a nobreza fosse colocada em tal mundana exposição poucos anos antes e isto faz da peça de Beaumarchais e da ópera de Mozart obras verdadeiramente inovadoras. Imagino o prazer que sentiu Wolfgang, que tanto insurgiu contra os mandos do Arcebispo Colloredo, ao escrever tão linda música.
Anna Moffo
A ópera é linda não só pelas suas árias, mas por seus muitos números em conjunto, como o já mencionado dueto. Além disso, os recitativos e a coesão do enredo, com suas inúmeras peripécias, são perfeitamente integrados num fluxo de prazer que vai da primeira nota da abertura até o número final.
Há uma pletora de personagens que só são menores comparados aos quatro principais, como o apaixonado Cherubino, Bartolo, Don Basilio, Barbarina e o jardineiro Antonio, todos com suas participações de destaque.
Você poderá encontrar mais informações sobre esta obra prima no artigo que também menciona a conexão com o filme neste link, inclusive algumas dicas sobre o enredo. Um artigo que fala como a música pode ser libertadora pode ser lido aqui.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)
Le Nozze di Figaro
Ópera Cômica em Quatro Atos com libreto de Lorenzo da Ponte
Figaro – Giuseppe Taddei, barítono
Susanna – Anna Moffo, soprano
Il Conte d’Almaviva – Eberhard Wächter, barítono
La Contessa d’Almaviva – Elisabeth Schwarzkopf, soprano
Apenas duas vezes o Conde D’Almaviva pronuncia o primeiro nome de sua ‘moglie’… Se você descobrir onde isto ocorre, mande uma mensagem e ganhará 25 downloads grátis de nossos discos mais queridos! (O libreto pode ser lido aqui.)
Aproveite esta ‘maraviglia’ de ópera! Mozart no que ele tem de melhor!
O disfarce precisava ser perfeito. Fazer com que um navio de guerra fique parecido a um navio de pesca de baleia não é fácil, mas tudo funciona, afinal, estamos em um grande filme. A batalha segue sangrenta até que o Capitão Aubrey e a sua turma tomam o invencível Acheron. Mais tarde, festejando a vitória com Maturin, médico-cirurgião e cientista do navio, o capitão descobre que o filme ainda não acabou e deve seguir um pouquinho mais. Sim, estou sendo vago pois não sou de dar spoiler. Se bem que o filme, O Mestre dos Mares, é um clássico. E os heróis continuam sua comemoração tocando música, Aubrey ao violino e seu amigo Stephen Maturin, ao violoncelo. Foi aí que eu falei alto e todo mundo no cinema olhou para mim: Boccherini!!! A música serve a cena como uma luva na mão! Como é linda esta música.
O’Brien em seu disfarce de agente secreto…
O filme é imperdível, um clássico dirigido por Peter Weier em 2003 e a história é um resumo dos muitos livros escritos por Patrick O’Brian tendo a dupla de amigos Jack Aubrey e Stephen Maturin como principais personagens. Claro que os dois são também músicos. Pois se você ainda não viu o filme, não se faça de rogado e ande logo, pegue a pipoca e boa diversão. Eu sai do lounge do PQP Bach corp. em busca de uma boa versão da música daquelas cenas finais.
Foi assim que cheguei a este espetacular disco com peças de câmera de Luigi Boccherini. A peça mais conhecida deste compositor é um justamente famoso minueto e o quinteto que abre este disco e teve algumas de suas partes tocadas pelo Capitão Aubrey e seu amigo Stephen Maturin.
Boccerini nasceu na Itália, mas passou a maior parte de sua vida na Espanha, a serviço de nobres espanhóis. No quadro de Goya ele é retratado usando libré. Ele é contemporâneo de Haydn e Mozart e a sua música é melodiosa e tem grande influência da cultura espanhola. Seu instrumento mais proeminente é o violoncelo e ele deixou lindos concertos para este instrumento. Mas não o dispensem como compositor de algumas peças bonitinhas. Boccherini foi quem mostrou o caminho, se não estabelecendo a forma de quartetos de cordas, honra esta que cabe a Haydn, mas dando ao violoncelo seu papel de igual nesta formação, livrando-o definitivamente do ranço do baixo contínuo. Além disso, seus quintetos de cordas tinham formação diferente daquela usada por Mozart em seus quintetos, trocando a segunda viola pelo segundo violoncelo. Aliás, esta formação adotada por Boccherini é a que Schubert usou em seu Quinteto em dó maior, certamente uma obra maximal.
Luigi, segundo Goya…
A música de Boccherini foi acusada melodiosa e simples, com boas pitadas de nostalgia, mas devemos lembrar que ele viveu tempos de transição de estilos e foi submetido às intempéries criadas pelo que, na falta de palavra mais adequada, chamaremos destino. Para sobreviver, especialmente em seus últimos anos, teve que produzir peças que serviam aos gostos de editores de música, especialmente Pleyel (ah, Pleyel…), de Paris. Mas tudo agora é história e podemos escolher entre suas obras e ouvir e celebrar este original compositor.
A justamente famosa ‘La musica notturna delle strade di Madrid’ é quase um acidente. A vida na corte espanhola não era fácil, a intriga corria solta. O vilão era o violinista real, o italiano Brunetti (ah, Brunetti…). Luigi encontrou guarida servindo o infante espanhol, Don Luis, irmão do rei, Carlos III. Mas a vida não era, definitivamente, fácil.
Doña María Teresa de Vallabriga y Rozas, segundo Goya
O infante casou-se com María Teresa de Vallabriga y Rozas Español y Drummond, uma aristocrata aragonesa. Aristocrata, mas o casamento foi considerado morganático e o infante foi viver longe de Madrid, em Arenas de San Pedro, próximo a Ávila. Boccherini aí viveu servindo ao príncipe por nove (tranquilos) anos. Mas a saudades (ah, a saudade mata a gente…) batiam lá de vez em quando. Saudades, é claro, de Madrid e seus encantos. Assim foi que surgiu inspiração para o quinteto que Luigi chamou ‘La musica notturna delle strade di Madrid’ e quase não o publicou, um de seus maiores sucessos até hoje. Isto porque a teoria musical vigente era que música deveria ser nada além de ‘forma sonora em movimento’ (‘töned bewegten Formen’). Mas um editor, especialmente aquele que busca o vil metal, sabe farejar o que ‘o povo gosta’. E lá se foi o quinteto a encantar mais gentes além da pequena corte do infante, que certamente deve ter soltado longos suspiros ao ouvir a peça. Esta começa evocando os sinos anunciando a Ave Maria, segue por soar de tambores, pelo minueto dos cegos, que antes dos telejornais, tinham o papel de comentar os escândalos do dia, sempre cantando e tocando suas guitarras.
É por isso que nesta parte os violoncelistas devem colocar seus instrumentos sobre seus joelhões e tocá-lo como se fosse uma guitarra, bem como podemos ver na cena do filme. E o cortejo segue maravilhoso, chegando a passacalle dos cantores de rua – Los Manolos – a parte que eu desavergonhadamente mais gosto. Você poderá ler tudo como é o resto, pois Boccherini ele mesmo deixou claras instruções e está lá no livreto, junto com os arquivos do álbum.
Mas Luigi é cheio de surpresas, se você ainda não o conhece. O disco tem ainda um quinteto com uma guitarra cujo último movimento é um fandango! Veja o completo repertório do álbum.
Luigi Boccherini (1743 – 1805)
Quinteto de cordas em dó maior, G. 324, Op. 30, 6 ‘La musica notturna delle strade di Madrid’
Il campane quando suonano l’Ave Maria; II. Il tamburo del quartier dei soldati; III. Minuetto dei ciechi
Il rosário: Largo assai – Allegro
‘Los Manolos’, Modo di suono, e canto – VI. Allegro vivo
Ritirata – Maestoso
Quinteto de cordas N. 6 em mi maior, G. 275, Op. 11, 5
Amoroso
Allegro con spirito
Minuetto – Trio
Andante
Quarteto de cordas em sol menor, G. 205, Op. 32, 5
Boccherini saiu muito jovem de Lucca, sua cidade natal, e viveu em vários grandes centros musicais, como Roma e Paris, antes de mudar-se para a Espanha. Em uma certa fase de sua vida, juntamente com Filippo Manfredi, Pietro Nardini e Giuseppe Cambini, formaram o primeiro quarteto para apresentações regulares de que se tem notícia. Bem na tradição quarteto italiano. Os membros do quarteto estão neste quadro retratando a corte do infante, pelo espetacular Goya, que também aparece no quadro.
Mas tudo isto são histórias, não deixe de baixar o disco e ouvir tudo, que foi muito bem gravado. Aproveite!
Confesso nunca ter tido muito entusiasmo com a ‘música para alaúde’ de Bach. Esta é uma área um pouco difusa, quero dizer no que concerne ao uso do instrumento adequado para o qual a música foi composta. Mais uma vez, transcrições e adaptações. O fato é que as gravações que ouvi destas peças nunca realmente me entusiasmaram. Mesmo nas mãos dos mais eminentes instrumentistas, tais como Julian Bream ou John Williams. O que chegou mais perto foi Eduardo Fernandez e ouvi muito falar de Paul Galbraith, mas alas, nossos caminhos ainda não se cruzaram. Você deve estar estranhando, pois tenho falado em música para alaúde, mas o pessoal que estou mencionando toca o que nestas mal traçadas vamos chamar de guitarra. É verdade que o Bream também toca alaúde. Nem estou pensando na turma mais ‘vegana’, que toca alaúde mesmo, como os afamados Hopkinson Smith, Jakob Lindberg, Paul O’Dette e Nigel North. Estes só visito quando o assunto é Dowland.
Nossas imagens são apenas ilustrativas…
Pois então, a relutância toda foi embora assim que deitei ouvidos neste álbum espetacular. Stephan Schmidt toca aqui o conjunto de peças aglomeradas sob o rótulo ‘Música para Alaúde’, usando uma guitarra de dez (10!) cordas. O ponto de exclamação é só ponto de exclamação. Se fosse fatorial não haveria dedos neste mundo para tocar tantas cordas…
O crítico da revista Gramaphone que assinou a resenha deste álbum explica: ‘A típica guitarra de seis cordas (normalmente usada para este repertório) é um instrumento barítono, mas seu registro mais baixo não tem extensão suficiente para evitar a necessidade de ajustes. Guitarras com maior número de cordas (acrescentadas na região do baixo) têm sido usadas ultimamente. Agora Schmidt usando uma guitarra de dez cordas estabelece uma nova referência com este magnífico álbum’. Realmente, é necessário ouvir para crer.
S. L. Weiss
O repertório que se considera música para alaúde de Bach se agrupa sob a classificação de BWV 995 até BWV 1000, mais a Suíte BWV 1006a e a maioria destas obras estão relacionadas com a música escrita para violino ou violoncelo solo. O fato é que Bach conheceu e conviveu com grandes alaudistas, apesar de que em seus dias, o instrumento já estava caindo em desuso. O mais famoso e prolífico deles foi Silvius Leopold Weiss, praticamente de mesma idade de Bach. Eles teriam se conhecido através de Wilhelm Friedmann, o filho mais velho de Bach. Outros dois compositores e alaudistas desta época são Johann Kropfgang e Ernest Gottlieb Baron. Além destes compositores, Bach teve dois alunos que dominavam o alaúde (e tudo indica que o próprio Bach sabia como fazer soar a tal coisa, desde que esta estivesse afinada). Estes alunos eram Rudolf Straube e Johann Ludwig Krebs. Bach tinha Krebs em alta estima. Como era chegado a um trocadilho, Bach dizia que Johann era o único caranguejo (Krebs) em seu ribeirão (Bach). Eu sei que é difícil acreditar, mas todo mundo naquela época morria de rir sempre que ele dizia isto. Vocês sabem, humor depende da época e da cultura…
Krebs achando o máximo as brincadeiras com seu sobrenome…
O que temos aqui? Bom, muita música excelente. O disco começa com a Suíte em mi maior, BWV 1006a, que como a numeração já indica, é uma adaptação da Partita para Violino em mi maior, BWV 1006. Esta foi fácil. Depois a Suíte em dó menor, BWV 997 e a Suíte em mi bemol maior, BWV 998 – que tem apenas três movimentos: prelúdio, fuga e allegro.
Chegamos então ao que eu considero a parte mais bonita do álbum, a Suíte em sol menor, BWV 995 – a peça que mais se beneficia das extras cordas da guitarra, pois esta é uma adaptação da Suíte para Violoncelo em dó menor, BWV 1011.
Ah, ia quase me esquecendo, tem mais uma Suíte em mi menor, BWV 996. A principal fonte desta peça é uma cópia feita por Johann Gottfried Walther e que foi encontrada em uma coleção de manuscritos pertencente a Johann Ludwig Krebs, depois de sua morte. Walther era um primo de Bach e a sua letra deixa dúvida sobre o instrumento para o qual a peça foi escrita. No título lê-se o que poderia ser aufs Lauten Werck ou Lautenwerck.
Para arrematar, fechando o cortejo, temos duas peças avulsas, uma fuga e um prelúdio.
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Suíte para alaúde em mi maior, BWV 1006a
Preludio
Loure
Gavotte em rondeau
Menuet I – II
Bourre
Gigue
Partita para alaúde em dó menor, BWV 997
Preludio
Fugue
Sarabande
Gigue
Double
Prelúdio, Fuga e Allegro para alaúde em mi bemol maior, BWV 998
Se você não tiver muito tempo, ouça pelo menos a suíte em sol menor, BWV 995. Mas, se tiver menos tempo ainda, pode avaliar o todo pelas duas lindas peças que fecham o álbum – uma Fuga em sol menor, BWV 1000 e o lindíssimo Prelúdio em dó menor, BWV 999. Se seu coração não se derreter, então…
Na outra postagem mencionei como dramaticamente mudou a situação social e política do mundo durante a vida de Rachmaninov. A partir de 1918 ele passou a viver nos Estados Unidos e esta mudança demandou que o compositor desse lugar ao intérprete. Ele já tinha composto três concertos para piano, comporia apenas mais seis obras de vulto.
Local da composição co RACH#3
O RACH #3 foi composto em 1910, ainda na mãe Rússia, durante sua estadia na idílica Ivanovka. Quem não comporia tão inspirado concerto em um lugar lindo como este? O Quarto Concerto é de 1926, mas passou por várias modificações.
Entre estas seis últimas obras, vale mencionar as (famosas) Variações sobre um tema de Paganini, de 1934. Esta peça foi composta durante as férias de verão (do hemisfério norte), passadas na Suíça.
Rachmaninov era fisicamente muito alto e tinha mãos imensas. Certamente passava muito tempo ao piano e a carga de concertos e viagens custaram caro. O final de sua vida foi extenuante e buscando clima mais ameno a família mudou-se para Beverly Hills, na California. Morava próximo a Horowitz, que o visitava com frequência. Tocavam duetos…
As circunstâncias da vida devidamente influenciaram suas composições, que além de legiões de admiradores também atraíram ácidas críticas.
Camisa usada enquanto escrevia estas mal traçadas…
Em 1954, um famoso dicionário de música e músicos disse que sua música era ‘de textura monótona … consistindo principalmente de melodias artificiais e exageradas’, predizendo que seu sucesso seria efêmero. Para contrabalancear tal afirmação, Harold C. Schonberg escreveu em um de seus livros dizendo: “Esta é a mais ultrajante, esnobe e mesmo estúpida afirmação a ser encontrada em um trabalho que deveria ser uma referência objetiva”.
No entanto, o que importa é a música e isto temos de sobra no disco desta postagem. É claro, RACH #3 ofusca o irmão caçula, mas o mesmo tem muito a oferecer. Acredito que os concertos de Rachmaninov são mais vulneráveis a uma interpretação apenas mediana do que concertos de outros compositores (talvez por ele ter sido tão excelente intérprete). As gravações de Martha Argerich (ao vivo, acompanhada da Orquestra da Rádio de Berlim, regida por Riccardo Chailly) do RACH #3 e de Arturo Benedetti Michelangeli (acompanhado da Philharmonia Orchestra, regida por Ettore Gracis, em dobradinha com o Concerto em sol maior, de Ravel) do Quarto Concerto muito fizeram pela reputação destes concertos. Talvez a gravação de Arturo Benedetti Mochelangeli, do Quarto Concerto, tenha sido ainda mais importante, pois o RACH #3 tinha Horowitz e vários outros grandes intérpretes, incluindo (é claro) o próprio compositor.
Sergei Rachamninov (1873 – 1943)
Concerto para Piano No. 3 em ré menor, Op. 30
Allegro ma non tanto
Intermezzo (Adagio)
Finale
Concerto para Piano No. 4 em sol menor, Op. 40
Allegro vivace (alla breve)
Largo
Allegro vivace
Leif Ove Andsnes, piano
London Symphony Orchestra
Antonio Pappano
Gravações de 2009/2010, Abbey Road Studio 1, Londres
Leif contando para a turma do PQP Bach tudo sobre sua última pescaria nos fiordes noruegueses
Na minha opinião, um andamento fluente desde as primeiras notas é a chave para o sucesso da interpretação de concertos onde bravado e pirotecnia abundam. Isto não faltará a estas gravações. Digam-me vocês, depois…
Concertos para piano são as peças que eu ouço com mais frequência e entre eles os famosos RACH #2 e RACH #3.
Era só uma questão de tempo e eu começaria a postar estas maravilhas. Esta é a primeira de uma série de duas postagens com os quatro concertos para piano do Sergei interpretados pelo espetacular Leif Ove Andsnes. Inicialmente os dois primeiros, onde ele é acompanhado pela estelar Berliner Philharmoniker regida por Antonio Pappano. Para dar uma extra dose de eletricidade ao disco, o RACH #2 foi gravado ao vivo!
Prepare então o pendrive e aumente o som, pois o romantismo tardio vai invadir a sua sala. Se depois de você ouvir esta gravação, assim, umas dezenove vezes e insistir que não gosta de Rachmaninov, então eu me rendo. Pode voltar para suas outras partituras.
Antes de falarmos um pouco sobre a música do disco, uma palavra sobre o compositor. Rachmaninov nasceu enquanto Brahms, Liszt e Wagner eram ainda vivos. Durante sua vida o mundo passou por duas guerras mundiais e seu país viveu a revolução de 1917. Menciono isto apenas para dizer o quanto o mundo mudou durante a sua vida. Ele mudou da Rússia para os Estados Unidos da América. Tchaikovosky aplaudiu sua primeira ópera e Copland dizia não suportar a sua música. E isso é para que possamos colocar a sua obra em perspectiva.
O que importa é a música e os concertos de Rachmaninov estão no repertório dos grandes pianistas.
O Primeiro Concerto nasceu como obra de juventude, quando Rachmaninov tinha ainda 17 anos. O primeiro movimento foi composto e apresentado acompanhado da orquestra do conservatório com grande êxito. Mas em 1917, para esquecer um pouco dos problemas do país, Rachmaninov fez uma grande revisão no concerto, inclusive compondo um novo final. Nesta forma o concerto foi apresentado novamente no dia 28 de janeiro de 1919, mas agora em Nova Iorque. O concerto é brilhante, ainda guarda o frescor da juventude com suas ousadias e tem um bom débito com o concerto de Grieg. É claro que este concerto, assim como o Quarto, é relativamente eclipsado pelos dois poderosos RACH #2 e #3, mas ambos têm muitos méritos, especialmente quando interpretados por artistas do calibre de Andsnes.
Há pelo menos mais duas gravações que considero excelentes deste primeiro concerto. Uma delas com o solista Krystian Zimerman, num disco de repertório exatamente igual a este. Outra é com Mikhail Pletnev, neste caso o disco é completado pelas Variações sobre um tema de Paganini.
A xícara onde tomava meu café enquanto escrevia estas mal traçadas…
No caso desta postagem, segue uma interpretação absolutamente vibrante do Rach # 2. Este concerto veio ao mundo a fórceps. Rachmaninov, entusiasmado com o sucesso de sua primeira ópera, Aleko, compôs sua Primeira Sinfonia, que foi (mal) apresentada por Glazunov, que não nutria grande simpatia pela sinfonia e (ah, as más línguas) estava embriagado durante a apresentação. O fiasco foi tamanho que Rachmaninov sofreu um processo depressivo que o manteve incapaz de compor por três anos. Finamente ele recorreu aos cuidados do Dr. Nikolai Dahl que lançou mão de hipnose para ajudar o compositor a vencer suas barreiras: ‘Você começará a escrever seu concerto… Você trabalhará com muita facilidade… o concerto será de excelente qualidade!’
Não é que funcionou? Aos 27 anos Rachmaninov estava de volta ao sucesso e agora retumbante e duradouro. Basta vocês ouvirem esta gravação até o fim e ouvir como o pessoal presente gostou e aplaudiu!
Rach #2 tem tudo que se precisa para um concerto para piano que seja um autêntico ‘cavalo de batalha’. Lindíssimas melodias, orquestração primorosa (escola russa…) e todos os truques técnicos para fazer brilhar o pianista virtuose.
Sergei Rachmaninov (1873 – 1943)
Concerto para Piano No. 1 em fá sustenido menor, Op. 1
Leif indo ao encontro da turma do PQP Bach para um papo sobre o RACH #2
Uma das gravações mais famosas deste concerto é de Sviatoslav Richter, postada aqui há pouco tempo, em companhia do PRKFV #5. A interpretação do Andsnes é diferente, inicia em um andamento mais fluente, o que mostra outra possibilidade. Caso você tenha chegado até aqui e goste deste tipo de música, compare as duas gravações e depois me conte. Pode usar o link ‘LEAVE A COMMENT’. Ele fica no alto da página, logo abaixo do cabeçalho.
Aproveite
RD
PS: Concertos Nos. 3 e 4 em muito breve estará também disponível no seu distribuidor PQP-Bach mais próximo.
Uma grande xícara de café após um almoço de bolinhos de arroz e aipim frito certamente deixa qualquer um com enorme predisposição para música. No meu caso, música que envolva piano. Uma coisa leva a outra e lembrei-me de um dos ‘Meus CDs Mais Queridos’: Concertos para Piano de compositores russos interpretados por um dos mais famosos pianistas russos: Sviatoslav Richter. Ele foi um pianista fantástico, mas absolutamente não convencional. Tinha um repertório vastíssimo, mas não gostava de gravações em estúdios. Por isso, temos uma imensidão de gravações suas, mas muitas de sofrível qualidade.
Outro aspecto de sua arte é que ele não se interessava em gravar ciclos completos ou integrais disto ou daquilo. Eu tenho relativamente poucas gravações dele, mas esta certamente é especial.
O disco foi gravado em 1959/1960, provavelmente em Varsóvia, mas isto não está explicitamente escrito no libreto. No entanto, sabemos que é uma coprodução da DG com a Polskie Nagrania, a Orquestra é de Varsóvia e o nome dos regentes têm mais consoantes do que vogais.
Eu cheguei a este disco pelo Concerto de Rachmaninov, esta gravação é muito considerada pelos fãs do imenso compositor. Mas, com o passar das décadas, o concerto que ouço com mais frequência é exatamente o Quinto de Prokofiev. Richter foi quem estabeleceu este concerto como uma das obras primas do Século XX e manteve uma relação de amizade com Prokofiev por toda a vida. Conta-se que a tristeza que Richter demonstrou ao tocar piano durante o enterro de Stalin era por ter perdido o amigo Prokofiev, falecido no mesmo dia.
Há uma diferença imensa na concepção e no estilo destes dois concertos e só mesmo um músico genial conseguiria trazê-los à luz e com similar maestria.
Outras gravações do Rach#2 que gosto começam a um paço mais acelerado do que esta e somente um pianista do calibre de Richter é capaz de iniciar assim sem fazer com que a música toda desmorone.
O movimento lento é espetacularmente feito e o último movimento começa a com muita velocidade. Temos assim, muita dinâmica neste que talvez seja o mais romântico dos concertos românticos para piano.
O Quinto Concerto de Prokofiev tem aqui a sua melhor gravação. Ponto. Quer mais?
Sviatoslav Richter é um grande nome da música e é muito bom poder conhecer um pouco mais a pessoa que habitava a lenda. No final de sua vida ele protagonizou um documentário – L’Insoumis – The Enigma – feito por Bruno Monsaigeon, que também redigiu um livro sobre ele. Você poderá começar lendo dois artigos do jornalista Paul Moor que o conheceu e entrevistou algumas vezes, acessando este blog aqui e aqui.
Um interessante resumo sobre ele está na resenha escrita por Arnaldo Cohen, que você poderá ler aqui. De qualquer forma, baixe o disco e depois me escreva, usando o link ‘LEAVE A COMMENT’, que está logo abaixo do cabeçalho desta postagem, de qual dos concertos você gostou mais…
Chapéu 1
Sergei Rachmaninov (1873 – 1943)
Concerto para Piano No. 2 em dó menor, Op. 18
Moderato
Adagio sostenuto
Allegro scherzando
Chapéu 2
Serge Prokofiev (1891 – 1953)
Concerto para Piano No. 5 em sol maior, Op. 55
Allegro con brio
Moderato bem accentuato
Toccata – Allegro com fuoco (più presto che la prima volta)
Richter era famoso por seus comentários (nem sempre lisonjeiros) sobre outras personalidades musicais. Sobre certo maestro-pianista argentino ele disse: ‘Um grande talento preocupado em parecer profundo. Acaba ficando chato’.
Um dos muitos talentos deste músico e pianista extraordinário que foi Paul Jacobs era a sua facilidade de escrever sobre a música que interpretava. Os textos dos livretos dos seus discos são escritos por ele. São textos claros e profundos e refletem seu amor pela música que interpretava. É um privilégio ter acesso a mais este legado.
No libreto do disco que já postamos, com os Études, ele explica a importância da música de Debussy e Schoenberg no cenário musical do início do Século XX. Esta importância reside na maneira inovadora como eles passaram a compor. Ouso traduzir um de seus parágrafos:
‘A complexidade estrutural da música de Debussy provem em grande parte do fato que, diferentemente da música germânica em particular, ela inerentemente não se baseia em desenvolvimentos, e não depende de transformações e expansões melódicas. Em vez disto, o papel da melodia é reduzido a uma função identificadora localizada, enquanto outros parâmetros de identificação – timbre, cor harmônica ou algum ‘objeto sonoro’, como uma nota ou um acorde – assumem maior importância. Ao ampliar sua paleta de cores musicais, Debussy esboçou livremente com ritmos de danças, estilo de cabaré e vários modos e escalas derivados da música oriental ou arcaica’.
Segundo Manuel Bandeira, Debussy é
Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Um novelozinho de linha . . .
Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Oscila no ar pela mão de uma criança
(Vem e vai . . .)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
— Psiu . . . —
Para cá, para lá . . .
Para cá e . . .
— O novelozinho caiu.
Paul Jacobs diz que as obras deste disco são as quatro mais importantes composições para piano da primeira metade da carreira de Debussy: Images [1894], Estampes [1903] e Images Series I e II [1905 e 1907]. Sendo que os Études, que você poderá ouvir se clicar aqui, e os Préludes, que em breve estarão disponíveis no seu fornecedor PQP Bach mais próximo, constituem os enormes monumentos produzidos na parte final de sua vida.
As Images [1894] não foram publicadas durante a vida do compositor e mostram um estágio inicial da maneira que Debussy passaria a compor. Mas são muito significativas. Nelas ele usa pela primeira vez a palavra Images, que lhe seria muito cara, além de apresentar o formato tripartido, onde as duas primeiras peças têm caráter mais introspectivo e a última é uma brilhante tocata.
Se você se dá ao trabalho de seguir minhas postagens, sabe o quanto este tipo de música é importante para mim. Postei há algum tempo um disco com um repertório bem próximo deste, o qual acho espetacular. O pianista lá é Ivan Moravec e o som, talvez, um pouco melhor. Mas com uma interpretação como esta, em segundos o ouvido se ajusta e o prazer não diminui.
Compare os discos, ambos são excelentes. Veja como crítico Terry Barfoot inicia sua resenha sobre o álbum desta postagem: ‘Algumas das melhores e mais sutis músicas para piano de Debussy estão reunidas aqui, numa performance que capta exatamente o tom correto. Paul Jacobs observa escrupulosamente as indicações da partitura de Debussy, e o resultado é particularmente agradável’
Já disse antes, mas não canso de repetir: prazer a mais encontrarás na poesia dos nomes das peças. Vale a pena conferir.
Na minha opinião, MB compôs o poema ao ouvir ‘Et la lune descend sur le temple qui fût’. Por favor, leia o poema e ouça a peça. Depois, acione o link ‘LEAVE A COMMENT’, que se encontra escondido bem abaixo do cabeçalho da postagem e mande o seu pitaco.
Em dez de cada dez listas que mencionam melhores gravações de música clássica aparece a gravação da Quinta Sinfonia de Beethoven feita por Carlos Kleiber regendo a Wiener Philharmoniker e lançada pelo selo amarelo. Em umas seis ou sete delas, ela aparece em primeiro lugar. É por isso que esta gravação não poderia faltar nas nossas postagens comemorativas do #BTHVN 2020.
Esta gravação de 1974 foi relançada pela DG reunida em um CD com a gravação da Sétima Sinfonia, pelos mesmos protagonistas, na série DG-Originals. Como este CD já foi postado aqui pelo nosso intenso colaborador FDP Bach, fazemos oportunamente a nova editação como um PQP-Originals! Além do que o link da postagem anterior já estava inativo.
Aqui está o texto da postagem original, que foi ao ar em 19 de setembro de 2014:
Falar o que dessa gravação, cara pálida? Que é a melhor gravação destas sinfonias? Para não repetir o óbvio, só direi que com certeza este cd está entre os Top Ten de minha lista, e na lista de muita gente. Esqueça Karajan, esqueça Jochum, esqueça Celibidache, esqueça qualquer outro que lhe venha a cabeça. Carlos Kleiber é o nome a ser batido nesse repertório.
Carlos Kleiber não era uma pessoa de fácil convivência. Segundo relatos de músicos que estiveram sob sua direção, ele chegava a ser tirânico, humilhando seus músicos, para que se atingisse o seu ideal de perfeição. E isso dirigindo orquestras do nível da Filarmônica de Viena, de Berlim, do Concertgebow de Amsterdam …
E a sonoridade que ele conseguiu extrair da Filarmônica de Viena ao executarem esses dois pilares da música ocidental até hoje ninguém conseguiu. Ouçam e tirem suas conclusões.
Vejam os comentários do Penguin Guide que atribuiu ao disco uma Roseta ֍, uma honra que os editores da publicação costumam dar a um seletíssimo conjunto de CDs:
‘Se alguma vez houve uma gravação lendária, será esta de Carlos Kleiber […].’ As comparações mencionam Giulini e Klemperer e termina dizendo: ‘…esta é sem dúvida uma das maiores performances desta obra que já foi colocada em disco’. Eu acredito que o comentário continua atualíssimo.
Da gravação da Sétima Sinfonia a menção de ‘charme da dança’ nos diz tudo. Portanto, não demore e baixe os arquivos!
Vocês sabem, eu sou completamente dependente de música para piano. Ultimamente tenho ouvido alternadamente música de Beethoven, pelo #BTHVN250, música de Bach (é claro…) e música dos compositores franceses, tudo para piano ou com piano.
Este disco com peças de Ravel já está na minha playlist há alguns meses e hoje chegou o dia de dividi-lo com vocês.
Tenho me interessado bastante pelo trabalho de pianistas orientais e encontrado gratas surpresas. Algumas delas acabo trazendo para o blog, incluindo esta daqui.
A pianista Akiko Ebi nasceu em Osaka e estudou na Universidade de Belas Artes de Tokyo. Posteriormente estudou em Paris e a sua carreira internacional decolou ao ganhar o Grand Prix na Competição Internacional Long/Thibaudet. Ela também foi finalista da Competição Internacional Fryderyk Chopin, de Varsóvia. Descobri que Martha Argerich foi sua mentora só depois de gostar muito deste disco… Além de Martha, Aldo Ciccolini e Vlad Perlemuter contribuíram em sua formação. Buscando outros discos da Akiko Ebi, descobri que ela contribuiu para a gravação da obra completa de Chopin pelo Instituo Chopin de Varsóvia. Veja a capa do disco com os Prelúdios na ilustração da postagem. Ela também foi a solista dos Concertos para Piano na versão com instrumentos de época, usando um piano Erard, acompanhada pela Orchestra of the 18th Century regida por Frans Brüggen.
O repertório do disco incluiu as principais peças para piano de Ravel, como Le Tombeau de Couperin e Gaspard de la Nuit.
Ondine
A peça mais difícil do disco é realmente o tríptico Gaspard de la Nuit. A peça foi inspirada em versos do poeta Aloysuis Bertrand, que remetem a histórias de fadas, mistérios e fantasmas. A literatura certamente inflamou a imaginação de Ravel. As três peças que compõem a obra têm em parte o estilo rápido-lento-rápido, com a primeira e a última muito virtuosísticas, enquanto a peça central, Le Gibet, descreve uma cena assustadora, com a figura de um enforcado na paisagem. Tudo isto em uma das mais difíceis partituras para piano de toda a literatura. Você pode descobrir mais informações sobre esta obra clicando aqui ou aqui.
Gaspard de la Nuit é famosa por sua dificuldade e isto se deve ao fato de Ravel ter tentado fazer de Scarbo uma peça ainda mais difícil do que a espinhosíssima Islamey, de Balakiriev. Em breve postaremos um disco com peças para piano russas, Islamey entre elas. Você então poderá tirar as suas próprias conclusões, pelo menos sob a perspectiva do ouvinte. Enquanto isso, aproveite!