A Sinfonia Nº 10, Op. 93, de Dmitri Shostakovich é uma das obras mais pessoais, enigmáticas e poderosas do compositor. Ela foi concluída após a morte de Stalin (março de 1953), que havia perseguido Shostakovich e outros artistas. É vista como uma reação emocional a esse período de terror e à esperança de liberação artística. Shostakovich declarou que a obra representa — referindo-se ao segundo movimento — “Stalin e os anos stalinistas”, embora seu significado vá muito além. A sinfonia tem quatro movimentos. Inicia por um Moderato, um movimento lento, vasto e sombrio, que constrói uma tensão quase insuportável. Representa a opressão e a solidão do indivíduo sob o regime totalitário. Depois temos o tal Allegro, um scherzo brutal, frenético e violento. É frequentemente interpretado como um retrato musical de Stalin — mecânico, implacável e esmagador. Um dos movimentos mais agressivos já escritos por Shostakovich. Segue-se um Allegretto – Largo que finalmente e pela primeira vez introduz o motivo musical DSCH, as notas correspondentes às iniciais do seu nome em alemão: D. SCHostakovich). É como uma assinatura musical, afirmando sua identidade artística após anos de silêncio forçado. O clima é pesado, melancólico e introspectivo. Finaliza com um Andante – Allegro que começa de forma sombria, mas evolui para uma conclusão triunfante. O motivo DSCH retorna com força, simbolizando, talvez, a vitória pessoal do compositor. Bem, mas por que esta sinfonia é tão importante? Ora, porque captura a essência do terror stalinista e o alívio pós-morte do psicopata. Também, pela primeira vez, Shostakovich “assina” uma obra de forma clara com o motivo DSCH, o qual é repetido inúmeras vezes, insistentemente MESMO. É uma obra magistral e emocionalmente devastadora. A estreia (dezembro de 1953) foi controvertida. Autoridades soviéticas acharam a obra “pessimista”, enquanto que outros a viram como um grito de liberdade. Tornou-se um símbolo da resistência artística. Não é apenas música, mas um ato de coragem política e pessoal, onde Shostakovich transforma sua angústia em arte universal. Uma obra obrigatória para entender o século XX. Só mesmo um tolo como Osvaldo Colarusso, no pasquim curitibano de extrema direita Gazeta do Povo, teve a pachorra de chamar Shosta de “covarde e egoísta”. Ele talvez quisesse que Shosta enfrentasse seus algozes de frente e morresse cedo como um herói olaviano? Não vou colocar o link aqui para não ajudar na audiência do jornal, que é um lixo. Ah, voltando ao CD: a regência de Mariss Jansons e a orquestra de Filadélfia dispensam elogios.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 10 / Modest Mussorgsky (1839-1881): Canções e Danças da Morte (Philadelphia Orch, Jansons)
Symphony No. 10, Op. 93 Composed By – Dmitri Shostakovich
1 I. Moderato 21:49
2 II. Allegro 4:19
3 III. Allegretto 12:03
4 IV. Andante – 4:24
5 __ Allegro 8:35
Songs And Dances Of Death Composed By – Modest Mussorgsky Orchestrated By – Dmitri Shostakovich Text By – Count Arseni Golenishchev-Kutuzov
6 I. Cradle Song 4:40
7 II. Serenade 5:02
8 III. Trepak 4:44
9 IV. The Field-Marshall 5:44
Bass Vocals – Robert Lloyd (4) (tracks: 6-9)
Conductor – Mariss Jansons
Orchestra – The Philadelphia Orchestra
Um baita disco. Dois Quartetos alegres e sarcásticos… O Quarteto Nº 2 foi composto logo após a Segunda Guerra Mundial, no mesmo período da Nona Sinfonia. É uma obra de transição: o otimismo oficial do pós-guerra se choca com a desilusão pessoal de Shostakovich. Ainda não havia a repressão aberta de 1948 (com o Decreto Jdanov), mas o clima já era de cautela. É uma “sinfonia de guerra” em miniatura, mas dizendo muito: é feliz, mas parece focar mais no custo humano do que na vitória. O terceiro movimento é um scherzo grotesco, típico do estilo de Shostakovich. Já o Nº 5 foi escrito durante o auge do Decreto Jdanov, que acusou Shostakovich de “formalismo burguês”. Sua música mais pública (sinfonias, concertos) era censurada, então ele canalizou sua voz mais autêntica para a música de câmara. É uma obra estruturalmente perfeita e, como sempre, carregada de subtexto emocional. Tratou-se de uma válvula de escape artística; nele, Shostakovich fala sem as restrições da música sinfônica oficial. Podemos dizer que o Nº 3 é um documento histórico emocional da experiência traumática do século XX. É Shostakovich como cronista da guerra e da memória. E o Nº 5 seria um testemunho da resistência artística.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Quartetos Nº 2 e 5 (Éder Quartet)
String Quartet No. 3 In F, Op. 73
1 Allegretto 6:52
2 Moderato Con Moto 4:59
3 Allegro Non Troppo 4:08
4 Adagio 5:26
5 Moderato 9:02
String Quartet No. 5 In B Flat, Op. 92
6 Allegro Non Troppo 10:11
7 Andante 9:20
8 Moderato – Allegretto 10:08
Éder Quartet:
Cello – György Éder
Viola – Sándor Papp
Violin – György Selmeczi, Péter Szüts*
Há muitos anos acredito que os 15 quartetos de Shostakovich rivalizam com suas 15 sinfonias em qualidade. Sinto-me instado a ouvi-los sempre com a mesma ou maior atenção que dou às sinfonias. São certamente obras mais íntimas, mas quem disse que o intimismo deva ser menos considerado que os grandes painéis?
Esta é a quinta série completa que conheço. Tenho as dos quartetos Fitzwilliam, Borodin, Shostakovich e Éder (Naxos) e, olha, somando e pesando as qualidades de todos, acho que ficou com o Emerson, apesar do fundamental 8º Quarteto não ser tão DEVASTADOR quanto eu gostaria. Mas a musicalidade do grupo e seu grande senso de estilo dão-lhe o título provisório de campeões. Abaixo, algumas anotações que fiz ao longo dos anos. Não comento todos os quartetos. Minha escolha não significa que goste mais dos que comentei e menos dos outros, é puramente casual.
Quarteto de Cordas Nº 2, Op. 68 (1944)
Este trabalho em quatro movimentos foi escrito em menos de três semanas. A abertura é uma melodia de inspiração folclórica, tipicamente russa. O grande destaque é o originalíssimo segundo movimento, Recitativo e Romance: Adagio. O primeiro violino canta (ou fala) seu recitativo enquanto o trio restante o acompanha como se estivessem numa ópera ou música sacra barroca. O Romance parece música árabe, mas não suficientemente fundamentalista a ponto que a Al Qaeda comemore. Segue-se uma pequena valsa no mesmo estilo. O quarto movimento é um Tema com variações que fecha brilhantemente o quarteto.
É curioso que neste quarteto, talvez por ter sido composto rapidamente, há uma musicalidade simples, leve e nada forçada. Talvez nem seja uma grande obra como os Quartetos Nros. 8 e 12, mas é dos que mais ouço. Afinal, esta é uma lista pessoal e as excentricidades valem, por que não?
Quarteto de Cordas Nº 6, Op. 101 (1956)
Talvez apenas aficionados possam gostar deste esquisito quarteto. Ele tem quatro movimentos, dos quais três são decepcionantes ou descuidados. O intrigante nesta música é o extraordinário terceiro movimento Lento, uma passacaglia barroca que é anunciada solitariamente pelo violoncelo. É de se pensar na insistência que alguns grandes compositores, em seus anos maduros, adotam formas bachianas. Os últimos quartetos e sonatas para piano de Beethoven incluem fugas, Brahms compôs motetos no final de sua vida e Shostakovich não se livrou desta tendência de voltar ao passado comum de todos. Enfim, este quarteto vale por seu terceiro movimento e, com certa boa vontade, pelo Lento – Allegretto final.
Quarteto de Cordas Nº 7, Op. 108 (1960)
Mais um quarteto de Shostakovich com um lindíssimo movimento lento, desta vez baseado no monólogo de Boris Godunov (ópera de Mussorgski baseada em Puchkin), e mais um finale construído em forma de fuga, utilizando temas do primeiro movimento. Uma pequena e curiosa jóia de onze minutos.
Quarteto de Cordas Nº 8, Op. 110 e Sinfonia de Câmara, Op. 110a – Arranjo de Rudolf Barshai (1960)
Na minha opinião, o melhor quarteto de cordas de Shostakovich. Não surpreende que tenha recebido versões orquestrais. Trata-se de uma obra bastante longa para os padrões shostakovichianos de quarteto; tem cinco movimentos, com a duração total ficando entre os 20 minutos (na versão para quarteto de cordas) e 26 (na versão orquestral). O quarteto abre com um comovente Largo de intenso lirismo, o qual é seguido por um agitado Allegro molto, de inspiração folclórica e que fica muito mais seco na versão para quarteto. O terceiro movimento (Allegretto) é uma surpreendente valsinha sinistra a qual é respondida por outra valsa, muito mais lenta e com um acompanhamento curiosamente desmaiado. O quarteto é finalizado por dois belos temas ; o primeiro sendo pontuado por agressivamente por um motivo curto de três notas e o segundo formado por mais uma fuga a quatro vozes utilizando temas dos movimentos anteriores.
Os quartetos de números 9, 10 e 11 são semelhantes em estrutura e espírito. São os três muito bons e têm em comum o fato de manterem por todo o tempo a alternância entre movimentos rápidos e lentos, sendo tais contrastes ampliados pelo fato de o nono e o décimo primeiro serem compostos por movimentos executados sem interrupções. O décimo ainda separa os primeiros movimentos, porém o Alegretto final surge de dentro de um Adágio. A postura de fazer com que surjam movimentos antagônicos um de dentro do outro é uma particularidade que torna estes quartetos ainda mais interessantes, sendo que o décimo primeiro é um inusitado quarteto de 17 minutos com sete movimentos; isto é, Shostakovich brinca com a apresentação de temas que fazem surgir de si outros muito diversos em estilo, como se o compositor estivesse sofrendo de uma incontrolável superfetação (*). É, no mínimo, desafiador ao ouvinte. Melodicamente são muito ricos, e exploram com insistência incomum os ostinatos, os quais são sempre no máximo belíssimos e no mínimo curiosos. Merecem inteiramente o lugar que modernamente obtiveram no repertório dos quartetos de cordas. É curioso como é fácil confundi-los. Estou ouvindo-os enquanto escrevo e noto quando o CD passa de um para outro, pois têm personalidades muito próprias, mas nunca sei se o que estou ouvindo é o nono ou o décimo. Certamente é uma limitação minha! Já no décimo primeiro, o paroxismo da criação de melodias chega a tal ponto, seus ostinatos são tão alucinados, que é mais fácil reconhecê-lo.
Aliás, o décimo primeiro apresenta aqueles finais tranquilos que constituíram-se uma das assinaturas do Shostakovich final. Esqueçam o gran finale. Sem fazer grande pesquisa, sei que os finais quietos, nada grandiosos, podem ser encontrados na 13ª, 14ª e 15ª sinfonias, neste quarteto e no sensacional Concerto para Violoncelo.
(*) Palavra pouco utilizada, não? Significa a concepção que ocorre quando, no mesmo útero, já há um feto em desenvolvimento.
Quarteto Nº 13, Op. 138 (1970)
Um pouco menos funéreo que a Sinfonia Nº 14, este quarteto foi escrito nos intervalos do tratamento ortopédico que conseguiu devolver-lhe do parte do movimento das mãos e antes do segundo ataque cardíaco. O décimo-terceiro quarteto é um longo e triste adágio de cerca de vinte minutos. O quarteto foi dedicado ao violista Vadim Borisovsky, do Quarteto Beethoven, e a viola não somente abre o quarteto como é seu instrumento principal. Trata-se de um belo quarteto cuja tranquilidade só é quebrada por um pequeno scherzando estranhamente aparentado do bebop (sim, isso mesmo).
Quarteto de Cordas Nº 14, Op. 142 (1972-73)
Este é quase um quarteto para violoncelo solo e trio de cordas, tal é a proeminência dada àquele instrumento. É um quarteto inspiradíssimo, escrito em três movimentos (Allegretto – Adagio – Allegretto), e que tem seu centro dramático em um dilacerante adagio de 9 minutos. Não consigo imaginar uma audição deste quarteto sem a audição em seqüência do Nº 15. Eles, que costumam aparecer juntos, seja em vinil ou em CD, formam, em minha imaginação, uma só música.
Quarteto de Cordas Nº 15, Op. 144 (1974)
Este trabalho, assim como a Sonata para Viola, são tidas como obras-primas e seriam os dois principais “réquiens privados” de Shostakovich. Concordo.
O que dizer de um obra escrita em seis movimentos, em que quatro deles são adagio e os outros dois são adagio molto, sendo que, destes dois últimos, um é uma marcha funeral e outro um epílogo…? Ora, no mínimo que é lenta. Porém, como estamos falando do Shostakovich final, estamos falando de uma obra que tem como fundo a morte. Há três movimentos realmente notáveis nesta música: a Serenata: Adagio, a Marcha Fúnebre – Adagio Molto e o musicalmente espetacular Epílogo – Adagio Molto. O Epílogo recebeu vários arranjos sinfônicos e costuma aparecer — separadamente ou não do resto do quarteto — em gravações orquestrais.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral dos Quartetos de Cordas (Emerson String Quartet)
CD 1: String Quartet No.1 in C major, Op.49
1. 1. Moderato [3:56]
2. 2. Moderato [3:59]
3. 3. Allegro molto [2:23]
4. 4. Allegro [3:44] String Quartet No.2 in A major, Op.68
5. 1. Overture (Moderato con moto) [7:58]
6. 2. Recitative & Romance (Adagio) [9:05]
7. 3. Valse (Allegro) [5:29]
8. 4. Theme & Variations [10:44] String Quartet No.3 in F major, Op.73
9. 1. Allegretto [6:52]
10. 2. Moderato con moto [4:22]
11. 3. Allegro non troppo [3:50]
12. 4. Adagio [4:44]
13. 5. Moderato [8:19]
CD 2: String Quartet No.4 in D major, Op.83
1. 1. Allegretto [3:51]
2. 2. Andantino [6:23]
3. 3. Allegretto [4:35]
4. 4. Allegretto [9:31] String Quartet No.5 in B flat major, Op.92
5. 1. Allegro non troppo [11:19]
6. 2. Andante [8:29]
7. 3. Moderato [10:22] String Quartet No.6 in G major op.101
8. 1. Allegretto [6:44]
9. 2. Moderato con moto [4:59]
10. 3. Lento – attacca: [3:58]
11. 4. Lento – Allegretto – Andante – Lento [6:33]
CD 3: String Quartet No.7 in F sharp minor, Op.108
1. 1. Allegretto [3:42]
2. 2. Lento [2:49]
3. 3. Allegro [5:06] String Quartet No.8 in C minor, Op.110
4. 1. Largo [4:34]
5. 2. Allegro molto [2:38]
6. 3. Allegretto [4:05]
7. 4. Largo [4:46]
8. 5. Largo [3:34] String Quartet No.9 in E flat major, Op.117
9. 1. Moderato con moto [4:24]
10. 2. Adagio [3:47]
11. 3. Allegretto [4:02]
12. 4. Adagio [3:00]
13. 5. Allegro [9:29] String Quartet No.10 in A flat major, Op.118
14. 1. Andante con moto [4:13]
15. 2. Allegretto furioso [3:58]
16. 3. Adagio [4:49]
17. 4. Allegretto – Andante [8:41]
Repertório raro e interessante. Martinu lembra muito Hindemith com sua música altamente contrapontística e bem humorada. Gostei muito, ainda mais depois de saber que ele foi expulso do Conservatório de Praga por sua “incorrigível negligência”. Ele foi violinista, mas os muitos amantes da viola que nos frequentam podem deliciar-se com seus Três Madrigais para Violino e Viola. Atenção também para as outras duas peças que colocamos aí em cima, no título. Baita disco!
Ah, e La Revue de Cuisine (Jornal de Cozinha, não?) é música felicíssima e GENIAL. Confira!
Bohuslav Martinu (1890-1959): Música de Câmara: La Revue de Cuisine + Noneto + um monte de Madrigais e outras peças (The Dartington Ensemble)
Five Madrigal Stanzas
1-1 Part 1
1-2 Part 2
1-3 Part 3
1-4 Part 4
1-5 Part 5
Four Madrigals
1-6 Part 1
1-7 Part 2
1-8 Part 3
1-9 Part 4
Three Madrigals
1-10 Part 1
1-11 Part 2
1-12 Part 3
Madrigal Sonata
1-13 Madrigal Sonata
Nonet (1959)
2-1 I Poco Allegro
2-2 II Andante
2-3 III Allegretto
Trio In F
2-4 I Poco Allegretto
2-5 II Adagio
2-6 Andante – Allegretto Scherzando
Sonatina For 2 Violins & Piano
2-7 Part 1
2-8 Part 2
2-9 Part 3
2-10 Part 4
La Revue De Cuisine (1927) 14:40
2-11 I Prologue: Allegretto (Marche) 3:57
2-12 II Tango (Lento) 4:10
2-13 III Charleston (Poco A Poco Allegro) 2:52
2-14 IV Finale: Tempo Di Marcia 3:29
Bassoon – Graham Sheen
Cello – Michael Evans*
Clarinet – David Campbell (6)
Double Bass – Nigel Amherst
Ensemble – The Dartington Ensemble
Flute – William Bennett (3)
Horn – Richard Watkins
Oboe – Robin Canter
Piano – John Bryden
Trumpet – Barry Collarbone
Viola – Patrick Ireland
Violin – Oliver Butterworth
Um belo álbum duplo com músicas de meu irmão mais velho. Excelente orquestra e solista idem. Era o filho predileto de papai. Era um gênio, mas muito indisciplinado. Para sua educação musical papai escreveu o Clavierbüchlein. Mas, já viram, deixava todos os empregos estáveis para tentar a vida boêmia de músico itinerante, chegando em muitas ocasiões a enfrentar dificuldades financeiras, quando era obrigado a vender bens pessoais e manuscritos paternos recebidos em herança para poder subsistir. O PUTO VENDEU PARTITURAS DE JOHANN SEBASTIAN BACH QUE JAMAIS FORAM REENCONTRADAS. ELE PERDEU MAIS DE 100 CANTATAS. Também dizem que foi um renomado alcoolista que sugou boa parte do álcool produzido em sua Turíngia natal. Mas era um grande músico, apreciado por sua capacidade de improvisar e deixou boa quantidade de música para teclado de excelente qualidade, cujas características antecipam a tensão e emocionalismo do Romantismo. Confiram aí e bebam à vontade.
Wilhelm Friedemann Bach (1710-1784): Todos os Concertos para Cravo (Astronio, Harmonices Mundi)
CD1
1. Concerto in F Minor (c. 1767): I. Allegro di molto 6:33
2. Concerto in F Minor (c. 1767): II. Andante 8:23
3. Concerto in F Minor (c. 1767): III. Prestissimo 3:25
4. Concerto in F, F. 44 (1740-45): I. Allegro ma non troppo 9:56
5. Concerto in F, F. 44 (1740-45): II. Molto adagio 10:31
6. Concerto in F, F. 44 (1740-45): III. Presto 5:51
7. Concerto in E Minor, F. 43 (c. 1767): I. Allegretto 9:23
8. Concerto in E Minor, F. 43 (c. 1767): II. Adagio 9:15
9. Concerto in E Minor, F. 43 (c. 1767): III. Allegro assai 5:59
CD2
1. Concerto in D, F. 41 (1735-40): I. Allegro 6:18
2. Concerto in D, F. 41 (1735-40): II. Andante 5:14
3. Concerto in D, F. 41 (1735-40): III. Presto 4:36
4. Concerto in A Minor, F. 45 (1735-40): I. – 5:17
5. Concerto in A Minor, F. 45 (1735-40): II. Larghetto 4:07
6. Concerto in A Minor, F. 45 (1735-40): III. Allegro ma non molto 5:34
7. Concerto in F, F. 10 for 2 harpsichords (c. 1740): I. Allegro moderato 8:54
8. Concerto in F, F. 10 for 2 harpsichords (c. 1740): II. Andante 6:05
9. Concerto in F, F. 10 for 2 harpsichords (c. 1740): III. Presto 3:54
10. Concerto in E-Flat, F. 46 for 2 harpsichords (c. 1745): I. Un poco allegro 11:18
11. Concerto in E-Flat, F. 46 for 2 harpsichords (c. 1745): II. Cantabile 3:28
12. Concerto in E-Flat, F. 46 for 2 harpsichords (c. 1745): III. Vivace 8:09
Harmonices Mundi
Claudio Astronio, cravo e regência
O Quarteto Nº 14 é particularmente fascinante porque Shostakovich estava experimentando uma estrutura incomum de movimentos encadeados dentro de uma linguagem musical moderna. É um espécime muito curioso. E bonito. E aquele movimento final com o tema judeu… Lembrem que ele usou temas klezmer em outras obras também, como no Trio para Piano nº 2. Sabiam que isso era uma forma de protesto silencioso contra o anti-semitismo soviético? Já o Quarteto Nº 15 é outra história completamente diferente – seis adágios consecutivos! Isso é beeeem radical. É impressionante como Shostakovich conseguiu criar tanta variedade dentro de um único andamento. São obras de um gênio, digamos, crepuscular. Ele sofria de uma doença cardíaca, também de outra enfermidade degenerativa, havia sobrevivido aos expurgos stalinistas, à Segunda Guerra Mundial e a décadas de opressão soviética. Essas obras são uma meditação sobre a mortalidade, o sofrimento e a resignação.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Quartetos Nº 14 e 15 (Éder Quartet)
String Quartet No. 14 in F-Sharp Major, Op. 142
1 I. Allegretto 08:48
2 II. Adagio – 08:59
3 III. Allegretto 08:22
String Quartet No. 15 in E-Flat Minor, Op. 144
4 I. Elegy: Adagio – 12:50
5 II. Serenade: Adagio – 05:42
6 III. Intermezzo: Adagio – 01:29
7 IV. Nocturne: Adagio – 04:47
8 V. Funeral March: Adagio molto – 04:44
9 VI. Epilogue: Adagio – Adagio molto 06:14
Meu jesuiscristinho, que gravação das Sonatas e Partitas de Bach que faz a francesa Amandine Beyer! Beyer é do time da música com instrumentos originais, mas há uma diferença fundamental sobre a imensa maioria. Ela toca com emoção, verve e ritmo, não é um metrônomo. Cada movimento foi pensado profunda e criativamente, de modo a experimentar novas fluências. E é um registro vibrato-free, quente e claro!!! Talvez esta seja a primeira gravação destas obras onde podemos bater o pezinho e balançar a cabeça. Basta pensar que tudo aqui deriva da música de dança. Chega de funerais! Arte impecável, execução perfeita e belo som.
Esta gravação é considerada uma das interpretações mais originais e impactantes das últimas décadas no universo da música barroca. É marcada por uma fluidez quase vocal. Como disse, ela prioriza a dança. Amandine também foi elogiada pela clareza polifônica (o “diálogo” entre vozes no violino solo é excepcionalmente claro). Ela desconstrói a grandiosidade monumental das Sonatas e Partitas, transformando-as em uma experiência íntima e humana. Não é uma versão “fácil” ou imediatamente cativante, mas que recompensa o ouvinte com camadas de significado e beleza singular. Amandine Beyer enfatiza a voz interior de Bach em vez do virtuosismo exterior. Sua gravação é um marco que dialoga com a história, sem ser museológica. Para muitos, tornou-se uma versão de referência do século XXI. Para quem busca uma interpretação que una intelecto, coração e autenticidade histórica, esta é uma bela escolha.
Como um bônus, ela inclui um trabalho solo fascinante, onde Pisendel homenageia Bach. E mais não digo porque amo Amandine, mas sou casado com outra violinista.
J. S. Bach (1685-1750): Sonatas e Partitas para Violino Solo BWV 1001-1006 / Pisendel (1687-1755): Sonata a Violino Solo senza Basso (Beyer)
CD1 #01 – Partita, BWV 1002: I. Allemanda
CD1 #02 – Partita, BWV 1002: II. Double
CD1 #03 – Partita, BWV 1002: III. Corrente
CD1 #04 – Partita, BWV 1002: IV. Double, Presto
CD1 #05 – Partita, BWV 1002: V. Sarabande
CD1 #06 – Partita, BWV 1002: VI. Double
CD1 #07 – Partita, BWV 1002: VII. Tempo di borea
CD1 #08 – Partita, BWV 1002: VIII. Double
CD1 #09 – Sonata BWV 1003: I. Grave
CD1 #10 – Sonata BWV 1003: II. Fuga
CD1 #11 – Sonata BWV 1003: III. Andante
CD1 #12 – Sonata BWV 1003: IV. Allegro
CD1 #13 – Partita, BWV 1004: I. Allemanda
CD1 #14 – Partita, BWV 1004: II. Corrente
CD1 #15 – Partita, BWV 1004: III. Sarabanda
CD1 #16 – Partita, BWV 1004: IV. Giga
CD1 #17 – Partita, BWV 1004: V. Ciaccona
CD2 #01 – Sonata BWV 1005: I. Adagio
CD2 #02 – Sonata BWV 1005: II. Fuga
CD2 #03 – Sonata BWV 1005: III. Largo
CD2 #04 – Sonata BWV 1005: IV. Allegro assai
CD2 #05 – Sonata BWV 1001: I. Adagio
CD2 #06 – Sonata BWV 1001: II. Fuga, Allegro
CD2 #07 – Sonata BWV 1001: III. Siciliana
CD2 #08 – Sonata BWV 1001: IV. Presto
CD2 #09 – Partita, BWV 1006: I. Preludio
CD2 #10 – Partita, BWV 1006: II. Loure
CD2 #11 – Partita, BWV 1006: III. Gavotte en rondeaux
CD2 #12 – Partita, BWV 1006: IV. Menuet I – Menuet II
CD2 #13 – Partita, BWV 1006: V. Bourée
CD2 #14 – Partita, BWV 1006: VI. Gigue
Johann Georg Pisendel: Sonata a Violino Solo senza Basso
CD2 #15 – Sonata a violino solo senza basso: I.
CD2 #16 – Sonata a violino solo senza basso: II. Allegro
CD2 #17 – Sonata a violino solo senza basso: III. Giga
CD2 #18 – Sonata a violino solo senza basso: IV. Variatione
Mais um excelente disco de música sacra vindo do ateu Herreweghe. Não se enganem, este não é o Oratório de Natal formado por 6 Cantatas, são outras Cantatas Também natalinas. O ponto alto é, sem dúvida, o Magnificat que fecha o CD duplo. É uma interpretação emocionante. Uma combinação matadora de solistas de primeira linha, canto coral incomparável e trabalho impecável da orquestra de instrumentos de época. O disco foi Editor`s Choice da revista Gramophone. Não é para menos.
J. S. Bach (1685-1750): Cantatas de Natal (Herreweghe, Mields, Collegium Vocale Gent)
CD 1
1. Cantata No. 91, ‘Gelobet seist su, Jesu Christ,’ BWV 91 (BC A9): Choral
2. BWV 91 (BC A9): Recitativo: Der Glanz der höchsten Herrlichkeit
3. BWV 91 (BC A9): Aria: Gott, dem der Erden Kreis zu klein
4. BWV 91 (BC A9): Recitativo: O Christenheit!
5. BWV 91 (BC A9): Aria: Die Armut, so Gott auf sich nimmt
6. BWV 91 (BC A9): Choral: Das hat er alles uns getan
7. Cantata No. 121, ‘Christum wir sollen loben schon,’ BWV 121 (BC A13): Choral
8. BWV 121 (BC A13): Aria: O du von Gott erhöhte Kreatur
9. BWV 121 (BC A13): Recitativo: Der Gnade unermeßlichs Wesen
10. BWV 121 (BC A13): Aria: Johannis freudenvolles Springen
11. BWV 121 (BC A13): Recitativo: Doch wie erblickt es dich in deiner Krippen
12. BWV 121 (BC A13): Choral: Lob, Ehr und Dank sei dir gesagt
13. Cantata No. 133, ‘Ich freue mich in dir,’ BWV 133 (BC A16): Choral
14. BWV 133 (BC A16): Aria: Getrost! es faßt ein heileiger Leib
15. BWV 133 (BC A16): Recitativo: Ein Adam mag sich voller Schrecken
16. BWV 133 (BC A16): Aria: Wie lieblich klingt es in den Ohren
17. BWV 133 (BC A16): Recitativo: Wohlan! Des Todes Furcht und Schmerz
18. BWV 133 (BC A16): Choral: Wohlan, so will ich
CD 2
1. Cantata No. 63, ‘Christen, ätzet diesen Tag,’ BWV 63 (BC A8): Choral
2. BWV 63 (BC A8): Recitativo: O selger Tag! O ungermeines Heute
3. BWV 63 (BC A8): Aria: Gott, du hast es wohl gefüget
4. BWV 63 (BC A8): Recitativo: So kehret sich nun heut
5. BWV 63 (BC A8): Aria: Ruft und fleht den Himmel an
6. BWV 63 (BC A8): Recitativo: Verdoppelt euch demnach
7. BWV 63 (BC A8): Choral: Höchster, schau in Gnaden an
8. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Magnificat anima mea
9. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Et exultavit spiritus meus
10. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Vom Himmel
11. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Quia respexit humilitatem
12. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Omnes generationes
13. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Quia fecit mihi magna
14. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Freut euch und jubiliert
15. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Et misericordia
16. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Fecit potentiam
17. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Gloria in excelsis Deo
18. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Deposuit potentes
19. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Esurientes implevit bonis
20. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Virga Jesse floruit
21. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Suscepit Israel
22. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Sicut locutus est
23. Magnificat, BWV 243a (BC E14): Gloria Patri
Dorothee Blotzky-Mields: soprano
Carolyn Sampson: soprano
Ingeborg Danz: alto
Mark Padmore: tenor
Peter Kooy: bass
Sebastian Noack: bass
Philippe Herreweghe (cond.)
Collegium Vocale Gent
Total playing time: 117:09
Recorded 2001-2002 | Released 2003
Recording:
December 2001, Salle Philharmonique de Liège, Belgium (CD1)
December 2002, Arsenal de Metz, France (CD2)
Esta gravação foi “Editor`s Choice” da Gramophone em 2011, “Gravação recomendada” pela ClassicFM e depois, em 2016, foi considerada a melhor gravação do Concerto de Mendelssohn, novamente pela Gramophone. Tá bom?
Aclamado como “o Jascha Heifetz dos nossos dias”, o violinista James Ehnes é considerado um dos artistas mais perfeitos e musicais da música erudita. Talvez seja o melhor violinista em atividade atualmente. Ele já se apresentou em mais de 30 países, atuando e gravando com as melhores orquestras e regentes. A extensa discografia de Ehnes inclui desde sonatas para violino de Bach a Road Movies, de John Adams. Desde que Vladimir Ashkenazy ganhou destaque no cenário mundial na Competição Chopin de 1955 em Varsóvia, ele construiu uma carreira extraordinária de pianista. A regência tomou a maior parte de suas atividades nas últimas duas décadas, e ele mantém um relacionamento de longa data com a Philharmonia Orchestra, da qual foi nomeado regente em 2000.
O Concerto para Violino, Op. 64, de Mendelssohn passou a ser visto como um degrau inescapável na carreira de todo violinista que almejasse o sucesso, multiplicando-se seus recitais e gravações. Hoje é considerado uma das principais composições de Mendelssohn e um dos mais importantes exemplos de seu gênero, continuando a desfrutar de grande popularidade.
Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847): Concerto para Violino e Orq., Op. 64 / Octeto
Violin Concerto In E Minor Op.64 (26:37)
1 I Allegro Molto Appassionato 12:45
2 II Andante 8:16
3 III Allegretto Non Troppo – Allegro Molto Vivace 5:35
Octet In E Flat Op.20 (30:44)
4 I Allegro Moderato Ma Con Fuoco 13:49
5 II Andante 6:31
6 III Scherzo 4:29
7 IV Presto 5:53
Cello – Edward Arron (tracks: 4 to 7), Robert deMaine (tracks: 4 to 7)
Conductor – Vladimir Ashkenazy (tracks: 1 to 3)
Orchestra – Philharmonia Orchestra (tracks: 1 to 3)
Viola – Cynthia Phelps* (tracks: 4 to 7), Richard O’Neill (tracks: 4 to 7)
Violin – Andrew Wan (tracks: 4 to 7), Augustin Hadelich (tracks: 4 to 7), Erin Keefe (tracks: 4 to 7), James Ehnes
Este é um maravilhoso CD duplo onde o pianista canadense Marc-André Hamelin brilha notavelmente. Hamelin é conhecido por sua habilidade demoníaca, mas eu o defendo com convicção — ele também tem muita sensibilidade e creio que eu, na minha idade e com minha vivência de ouvinte, saiba reconhecer um virtuose vazio quando ele dobra lá longe na esquina. Hamelin não é nada vazio, dá cara própria a cada uma das peças de Bolcom e estas são pra lá de boas!
Nas generosas notas do CD, o próprio compositor estadunidense apresenta o repertório, explicando como sua descoberta da música de Scott Joplin — que havia caído na obscuridade após a morte do compositor — levou-o a explorar o gênero no final dos anos 1960, justo em um momento em que a ópera Treemonisha ressurgia e o ragtime em geral, estava sendo revivido. Os elementos do ragtime tradicional de Joplin são evidentes nos rags de Bolcom – o DNA musical de síncope e swing que Hamelin captura perfeitamente – mas Bolcom se permite desviar para territórios mais incomuns, como, por exemplo, em Rag-Tango, que alterna a sensualidade do tango argentino, com suas harmonias picantes, e elementos de rags tradicionais. Eu desconhecia Bolcom e acho que este disco deve ser um bom ponto de partida. É uma audição maravilhosa, reveladora e, acima de tudo, muito agradável do início ao fim.
William Bolcom (1938): The Complete Rags (Hamelin)
1-1 Eubie’s Luckey Day 5:00
1-2 Epithalamium 4:57
1-3 Tabby Cat Walk 5:41
1-4 Knockout ‘A Rag’ 3:57
1-5 Rat-Tango 8:43
The Garden Of Eden (18:38)
1-6 Old Adam 2:18
1-7 The Eternal Feminine 5:47
1-8 The Serpent’s Kiss 5:32
1-9 Through Eden’s Gates 4:57
1-10 California Porcupine Rag 3:27
1-11 The Gardenia 5:07
1-12 The Brooklyn Dodge 4:47
1-13 Contentment 7:38
Three Ghost Rags (15:34)
2-1 Gracefull Ghost Rag 4:35
2-2 The Poltergeist 3:31
2-3 Dream Shadows 7:26
2-4 Raggin’ Rudi 3:54
2-5 Epitaph For Louis Chauvin 5:07
2-6 Seabiscuits Rag 3:44
2-7 Estella ‘Rag Latino’ 5:12
2-8 Fields Of Flowers 5:47
2-9 Incineratorag 3:11
2-10 Knight Hubert 3:57
2-11 Lost Lady Rag 6:32
2-12 Glad Rag 3:40
2-13 Last Rag 4:58
2-14 Brass Knuckles
Written-By [Written In Collaboration With] – William Albright
3:25
O Éder dispensa apresentações. Já postamos vários quartetos com os caras e eles são espetaculares. Vamos às obras?
Os Quartetos Nº 2 e 12 de Shostakovich parecem nascer em extremos opostos — mas ambos revelam o compositor em momentos de rara intensidade. O Quarteto Nº 2 (1944) é uma ferida aberta. Escrito em plena guerra, mistura um lirismo tenso com explosões de desespero. Seu grande arco narrativo — sim, narrativo: da simplicidade inicial ao final devastado — soa como se Shostakovich tentasse organizar o caos do mundo apenas para perceber que a dor sempre retorna mais profunda. Já o Quarteto Nº 12 (1968) abre outra porta: mais austero, mais introspectivo, com harmonias que parecem deslizar para regiões sombrias e abstratas. Aqui, Shostakovich escreve como quem conversa consigo mesmo — um diálogo carregado de verdade. Se o primeiro é um grito, o segundo é um murmúrio. Se um olha o mundo em chamas, o outro olha para dentro. Juntos, mostram duas faces do mesmo artista — sempre dividido entre coragem e medo, entre resistência e esgotamento, entre a necessidade de falar e o risco de ser ouvido (ou censurado).
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Quartetos Nº 2 e 12 (Éder Quartet)
String Quartet No. 2 In A Major, Op. 68
1 Overture: Moderato Con Moto 8:18
2 Recitativo And Romance: Adagio 8:58
3 Valse: Allegro 5:43
4 Theme With Variations: Adagio – Moderato Con Moto 11:02
String Quartet No. 12 In D Flat Major, Op. 133
5 Moderato – Allegretto 6:37
6 Allegretto 19:43
Éder Quartet:
Cello – György Éder
Viola – Sándor Papp
Violin – György Selmeczi, Péter Szüts
Nhé, não é um grande CD, longe disso, mas, pô, é da família! Vale pela sinfonia de mano mais velho W.F., que era mesmo muito bom, meio deprimido e salva o CD. Como sabemos, o mano J.C. tem o mérito de ter inventado o estilo de Mozart, é o perfeito Mozart-sem-talento e sua música chega a ser agradável se não prestarmos muita atenção a ela. O J.C.F. não merecia a atenção que papai lhe deu. Era tão sem inspiração quanto eu. A Accademia Bizantina é apenas OK e leva as obras até seus finais sem grandes surpresas. Se você baixar este CD, a família agradece sem entusiasmo. Ah, já que o iPod já foi quase todo postado, vou copiar para ele o Réquiem de Verdi para depois postar, OK? Mas ainda falta um Villa-Lobos, um Nono e uma coisinha de jazz.
Johann Christian Bach (1735-1782) / Johann Christoph Friedrich Bach (1732-1795) / Wilhelm Friedemann Bach (1710-1784): Sinfonias (Chiarappa, Accademia Bizantina)
J. C. Bach – Londoner Sinfonietta N°1 in A-dur 1. Allegro
2. Rondò Grazioso
J. C. Bach – Londoner Sinfonietta N°2 in D-dur 3. Andante
4. Minueto
J. C. Bach – Londoner Sinfonietta N°3 in C-dur 5. Allegro
6. Rondò Grazioso
J. C. F. Bach – Symphonie in d-moll 7. Allegro
8. Andante Amoroso
9. Allegro Assai
W. F. Bach – Symphonie in F-dur 10. Vivace
11. Adagio
12. Allegro
13. Andante <—- Uma joia
14. Allegro
15. Minueto 1
16. Minueto 2
Grande CD duplo com os três quartetos do polonês Górecki. Eu prefiro os dois primeiros, mas jamais jogaria fora o terceiro. O Kronos Quartet encomendou as obras e as estreou. O que talvez jamais imaginasse é que, poucos anos depois, viria um Royal String Quartet, da Polônia — bem, o fato de serem poloneses não chega a ser surpreendente — e faria gravações bem melhores das obras. Bem, acontece, a gente bota as coisas no mundo e perde o controle sobre elas. A música de Górecki é algo extraordinário neste CD que recebi com o maior entusiasmo. Parabéns à Hyperion inglesa por nos trazer tais obras-primas. O Arioso do Quarteto Nº 2 é de chorar de tão lindo!
Henryk Górecki (1933-2010): Os Três Quartetos de Cordas (Royal String Quartet)
Disc: 1
1-1 Already It Is Dusk (String Quartet No 1) Op 62 (15:43)
Quasi Una Fantasia (String Quartet No 2) Op 64 (33:02)
1-2 Largo Sostenuto – Mesto 7:49
1-3 Deciso – Energico Marcatissimo Sempre 6:57
1-4 Arioso: Adagio Cantabile Ma Molto Espressivo E Molto Appassionato 8:00
1-5 Allegro Sempre Con Grande Passione E Molto Marcato 10:16
Disc: 2
… Songs Are Sung (String Quartet No 3) Op 67 (55:54)
2-1 Adagio – Molto Andante – Cantabile 11:11
2-2 Largo Cantabile 12:55
2-3 Allegro Sempre Ben Marcato 4:51
2-4 Deciso – Espressivo Ma Ben Tenuto 12:24
2-5 Largo – Tranquillo 14:31
Já que temos duas excelentes gravações dos quartetos de Bartók e também dos últimos de Beethoven, nada como dialogar com mano CDF postando os dois primeiros quartetos do polonês Górecki: o primeiro plenamente bartokiano, o segundo indiscutivelmente beethoveniano.
Não creio que as grandes influências recebidas por Górecki desconsiderar o polaco. Burrice seria pensar que um quarteto de cordas pode ser escrito sem a referência destes gigantes. O primeiro quarteto é eslavo até a raiz dos cabelos, com lentos corais e danças furiosas de sabor mais bartokiano do que shostakovichiano. O segundo quarteto, principalmente no Arioso: Adagio Cantabile faz referências aos últimos quartetos de Beethoven, com a utilização de um tema curto levado ao paroxismo. Neste “Quasi una Fantasia” também há muito do minimalismo. Um bom disco!
Sobre o Kronos… Bem, não vou repetir o que os mais antigos no blog já sabem: acho-os o máximo!
Górecki (1933-2010): Quartetos de Cordas Nros. 1 e 2
1. Already It Is Dusk String Quartet No. 1, Op. 62
2. Quasi Una Fantasia String Quartet No. 2, Op. 64: Largo Sostenuto – Mesto
3. Quasi Una Fantasia String Quartet No. 2, Op. 64: Deciso – Energico; Furioso, Tranquillo – Mesto
4. Quasi Una Fantasia String Quartet No. 2, Op. 64: Arioso: Adagio Cantabile
5. Quasi Una Fantasia String Quartet No. 2, Op. 64: Allegro – Sempre Con Grande Passion E Molto Marcato; Lento – Tranquillissimo
O CD Victor Biglione e Marcos Ariel, Duo #1 é uma joia da música instrumental brasileira que merece ser celebrado. Lançado em 1994, captura um diálogo íntimo entre violão e piano em arranjos sofisticados. Victor Biglione (violão de 7 cordas) e Marcos Ariel (piano) são mestres em unir musicalidade e leveza, criando um som ao mesmo tempo acessível. Biglione traz harmonias ricas e baixos marcantes enquanto Ariel responde com linhas melódicas fluidas no piano e improvisos cheios de classe. Bom disco para fãs de Ralph Towner e Egberto Gismonti (universalidade acústica), de Tom Jobim (sofisticação harmônica) e Yamandu Costa (raiz e virtuosismo). Para tardes chuvosas, jantares elegantes ou quando a alma pede beleza sem pressa. O disco foi gravado quase ao vivo (poucos overdubs), capturando a cumplicidade rara do duo. Biglione e Ariel já colaboravam há anos em trilhas sonoras e shows – a sintonia é orgânica.
.: interlúdio :. Victor Biglione e Marcos Ariel: Duo #1
1 Viola Enluarada
2 Bala Com Bala
3 Invitation
4 Lua Branca
5 Elegia Aos Pássaros II (Sanhaço)
6 Easy Living
7A Concerto De Aranjuez
7B Canto de Ossanha
8 Inútil Paisagem
9 São Jorge
10 Baleia Azul
11 Poema Brasileiro
12 Chuva Em Ipanema
O Ballo delle Ingrate (Dança das Ingratas) é uma obra-prima de Claudio Monteverdi, composta em 1608 para as núpcias do duque Francesco Gonzaga com Margarida de Saboia, em Mantova. Pertence ao gênero do balletto dramático, uma forma que mistura canto, dança, teatro e música instrumental, típica das esplêndidas festas da corte no início do Barroco. Com libreto de Ottavio Rinuccini, a obra apresenta uma alegoria moralizante. Vênus e Cupido descem ao Inferno para confrontar Plutão, queixando-se de que as mulheres de Mântua se tornaram “ingratas” ao amor, rejeitando os ardores dos seus pretendentes. Plutão, então, liberta temporariamente as almas das “ingratas” (condenadas por sua frigidez em vida) para que dancem num balé solene e trágico, servindo de aviso às mulheres presentes na plateia sobre as consequências de rejeitar o amor. É algo altamente erótico…
O Combattimento di Tancredi e Clorinda (1624) é uma obra revolucionária e um marco absoluto na história da música ocidental. Mais do que uma simples peça, é uma “ação dramático-musical” que redefine os limites da expressão e inaugura recursos que ecoariam por séculos. O libreto é do próprio Monteverdi e baseia-se num célebre episódio do poema épico Gerusalemme Liberata (1575), de Torquato Tasso. Durante as Cruzadas, o cavaleiro cristão Tancredi enfrenta um guerreiro muçulmano em combate noturno. Após feri-lo mortalmente, descobre, ao descer o elmo, que seu oponente é Clorinda, a mulher que ele secretamente ama. Clorinda, antes de morrer, pede o batismo, e Tancredi, dilacerado, lhe concede a água, que seria da pia batismal ou algo do gênero com seu próprio elmo.
Claudio Monteverdi foi um vanguardista, alguém efetivamente revolucionário. A gente ouve isso e acha muito antigo, só que tudo o que ele fazia era pela primeira vez. Ele não foi o inventor técnico da ópera, mas foi, sem dúvida, o pai fundador da ópera como a conhecemos — aquele que lhe deu profundidade dramática, força emocional e uma linguagem musical perene. Claudinho merece o nosso respeito.
Claudio Monteverdi (1567-1643): Ballo Delle Ingrate / Combattimento di Tancredi e Clorinda (Vartolo)
Ballo delle ingrate
1 Ballo delle ingrate 49:23
Vaccari, Patrizia (soprano)
Banditelli, Gloria (mezzo-soprano)
Abete, Antonio (bass)
Pederzoli, Maura (soprano)
Scabini, M. Ernesta (alto)
Goethem, Michel van (tenor)
Carmignani, Alessandro (tenor)
Abbondanza, Roberto (baritone)
San Petronio Cappella Musicale Orchestra (Orchestra)
Vartolo, Sergio (Conductor)
Combattimento di Tancredi e Clorinda
2 Combattimento di Tancredi e Clorinda 25:48
Abbondanza, Roberto (baritone)
Banditelli, Gloria (mezzo-soprano)
Carmignani, Alessandro (tenor)
San Petronio Cappella Musicale Orchestra (Orchestra)
Vartolo, Sergio (Conductor)
Uma joia! Belas Cantatas levadas com toda a delicadeza e musicalidade que merecem. Bem, este CD reúne duas cantatas comparativamente tardias de Bach: a dramática e intensa Ich hatte viel Bekümmernis, BWV 21 e a serena e luminosa Am Abend aber desselbigen Sabbats, BWV 42. Juntas, oferecem um contraste sutil entre o desalento existencial e a esperança pacificadora — uma espécie de arco emocional que demonstra a profundidade espiritual e artística de Bach. Herreweghe faz uma abordagem de velocidade contida, equilíbrio entre as vozes, orquestração de câmara e uma sonoridade que respeita a clareza. A interpretação da BWV 21 é especialmente tocante — a dor, a angústia, a súplica ganham corpo com seriedade, sem histrionismos, mas com grande poder expressivo. Na BWV 42, Herreweghe enfatiza a serenidade reflexiva, a doçura da esperança pós–Páscoa. A orquestração e os solistas trazem a paz prometida pelo texto, com suavidade e elegância. O som limpo, com bom uso da instrumentação e a interpretação vocal refinada evita excessos e privilegia a clareza do contraponto, o que torna o discurso de Bach acessível, humano e, por assim dizer, confiável. Este CD é não somente uma gravação de “cantatas quaisquer”, mas como uma pequena obra-prima de Bach sob a comando de Herreweghe.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Cantatas BWV 21 & 42 (Philippe Herreweghe, La Chapelle Royale and Collegium Vocale Gent)
Ich Hatte Viel Bekümmernis BWV 21
1 Sinfonia 2:54
2 Chorus: Ich Hatte Viel Bekümmernis 3:55
3 Aria (S): Seufzer, Tränen 4:16
4 Recitativo (T): Wie Hast Du Dich, Mein Gott 1:36
5 Aria (T): Bäche Von Gesalznen Zähren 6:24
6 Chorus: Was Betrübst Du Dich, Meine Seele 3:29
7 Recitativo (S, B): Ach Jesu, Meine Ruh 1:28
8 Aria. Duetto (S, B): Komm, Mein Jesu 3:55
9 Chorus: Sei Nun Wieder Zufrieden, Meine Seele 4:22
10 Aria (T): Erfreue Dich, Seele 2:57
11 Chorus: Das Lamm, Das Erwürget Ist 3:02
Am Abend Aber Desselbigen Sabbats BWV 42
12 Sinfonia 6:43
13 Recitativo (T): Am Abend Aber Desselbigen Sabbats 0:33
14 Aria (A): Wo Zwei Und Drei Versammlet Sind 10:12
15 Choral. Duetto (S, T): Verzage Nicht, O Häuflein Klein 2:19
16 Recitativo (B): Mann Kann Hiervon Ein Schön Exempel Sehen 0:46
17 Aria (B): Jesus Ist Ein Schild Der Seinen 3:23
18 Choral: Verleih Uns Frieden Gnädiglich 2:09
Alto Vocals – Gérard Lesne
Alto Vocals [Choir] – Betty Van Den Berghe, Martin Van Der Zeijst, Rik Jacobs, Steve Dugardin
Bass Vocals – Peter Harvey (tracks: 1 to 11), Peter Kooy* (tracks: 12 to 18)
Bass Vocals [Choir] – Frits Vanhulle, Jan Depuydt, Paul Van Den Berghe, Pieter Coene, Vincent Bouchot
Bassoon – Kate Van Orden (2)
Bassoon [Continuo] – Kate Van Orden (2)
Cello – Ageet Zweistra, Harmen Jan Schwitters*
Cello [Continuo] – Ageet Zweistra
Choir – Collegium Vocale
Conductor – Philippe Herreweghe
Double Bass – Jonathan Cable
Double Bass [Continuo] – Jonathan Cable
Ensemble – La Chapelle Royale
Oboe – Marcel Ponseele, Michel Henry (tracks: 12 to 18)
Positive Organ – Jan Willem Jansen
Positive Organ [Continuo] – Jan Willem Jansen
Soprano Vocals – Barbara Schlick
Soprano Vocals [Choir] – Anne Mopin, Annelies Coene, Brigitte Verkinderen, Caroline Pelon, Delphine Collot, Dominique Verkinderen, Gundula Anders
Tenor Vocals – Howard Crook
Tenor Vocals [Choir] – Joël Suhubiette, Philippe Van Isacker, Raphaël Boulay, Ulrik Loens
Timbales – Jean Chamboux (tracks: 1 to 11)
Trumpet – Jonathan Impett (tracks: 1 to 11), Léon Petré (tracks: 1 to 11), Stephen Keavy (tracks: 1 to 11)
Viola – Christine Angot (2), Galina Zinchenko
Violin – Adrian Chamorro, Martha Moore (2), Myriam Gevers, Nicolette Moonen, Peter Van Boxelaere, Roy Goodman, Ryo Terakado
Eu amo Hermeto. Certa vez, soube que ele se apresentaria em Pelotas (RS) e dei um jeito para que meu chefe me mandasse pra lá na data. Visitei algumas pessoas, fiz contatos, justifiquei minha ida e fui fazer o que precisava realmente fazer. Também jamais perdi um show dele na decadente Porto Alegre, hoje bolsonarista. Eu e Eles é um disco em que o músico transforma o mundo inteiro em parceiro de criação. Cada faixa soa como uma conversa diferente — ora com o jazz, ora com o forró, ora com a pura invenção que só Hermeto dominava. Aqui, ele desmonta fronteiras musicais com alegria e ousadia, misturando sopros, teclas, ruídos e silêncios em um laboratório sonoro que parece, ao mesmo tempo, festa e poesia. É um álbum que celebra a liberdade total: “eu” é Hermeto em sua imaginação sem limite, “eles” somos todos nós, tocados por essa música que brinca, provoca e reinventa o que achávamos que já conhecíamos.
.: interlúdio :. Hermeto Pascoal: Eu e Eles
Chorinho MEC 3:51
Viva Jackson Do Pandeiro 2:22
Caminho Do Sol 1:20
A Sua Benção Brasil 3:39
Fauna Universal 3:33
Vai Um Chimarrão, Tchê (para Borghettinho) 4:14
Miscelânia Vanguardiosa 5:09
Linguagens & Costumes 3:29
Mercosom 4:26
Boiada 3:57
Capelinha & Lembranças 5:36
Parquinho Do Passado, Presente E Futuro 3:01
Este é um disco bem mexido e alegre de Vivaldi. Os temas talvez fossem larga e merecidamente utilizados em cenas teatrais abertas. Mas este é outro Vivaldi, um praticamente sem movimentos lentos, só com coisas francamente felizes, às vezes marciais. Sardelli respeita fielmente os andamentos e as instruções do compositor e isto é muito bem-vindo e desejável. Para alcançar seus bons resultados, Sardelli encontra um suporte orquestral altamente competente no Modo Antiquo, que se funde com ele em um brilhante exercício de compreensão, proporcionando um som pleno, colorido e retumbante. Sim, outro Vivaldi está sendo servido. Provem-no, senhores.
Antonio Vivaldi (1678-1741): Sinfonias dos Dramas para Música (Sardelli)
La Fida ninfa, opera in 3 acts, RV 714
1 Allegro molto – Presto 01:16
Arsilda, regina di Ponto, opera in 3 acts, RV 700
2 Allegro 01:47
3 Andante – Allegro 03:24
Giustino, opera in 3 acts, RV717
4 [Allegro] 02:33
5 [Andante] – Allegro 03:36
Bajazet (Il Tamerlano), pasticcio opera (“tragedia per musica”) in 3 acts, RV703
6 Allegro 02:20
7 Andante molto – Allegro 04:05
L’ Olimpiade, opera in 3 acts, RV 725
8 Allegro 02:12
9 Andante – Allegro 03:37
La Senna festeggiante, serenata à tre for chorus & continuo, RV 693
10 Allegro 02:22
11 Andante molto – Allegro molto 04:15
12 Adagio – Presto – [Adagio] 02:40
13 Allegro molto 01:05
Griselda, opera in 3 acts, RV 718
14 Allegro 01:57
15 Andante – Allegro 04:06
Teuzzone, pasticcio opera in 3 acts, RV 736
16 Allegro 01:52
17 Andante – Allegro 03:38
Ottone in Villa, opera in 3 acts, RV 729
18 Allegro 02:45
19 Larghetto – [Allegro] 01:55
Farnace, opera in 3 acts, RV 711
20 [Allegro] 01:53
21 Andante – [Presto] 03:12
L’ Incoronazione di Dario, opera, RV 719
22 Allegro 02:21
23 [Andante] – Presto 02:48
Armida al camp d’Egitto, opera in 3 acts (act 2 lost), RV 699 A/D
24 Allegro 01:43
25 [Andante] – Allegro 03:10
Dorilla in Tempe (I), opera (“melodramma erioco-pastorale”) in 3 acts, RV 709
26 3. Allegro 00:35
Difícil de comentar. O CD “Charles Mingus’s Finest Hour” é uma compilação da série Finest Hour da gravadora Verve Records, que selecionaria o que há de “mais essencial” na carreira de artistas lendários. Neste caso, não chegou nem perto de uma boa amostragem. Há coisas maravilhosas e outras que francamente… Não servem nem como uma porta de entrada para conhecer Mingus: é uma mistureca de registros antigos e mais novos. A presença de obras-primas junto a gravações bem comuns baixam o nível de tudo. OK, pode ser ótimo para entender a força musical de Mingus como baixista, compositor e líder de banda, pela larga temporalidade variada das peças selecionadas. Enfim, é uma compilação de diferentes fases de Mingus — que não demonstra a enorme força de seu lirismo, fúria e complexidade.
Charles Mingus – Charles Mingus’s Finest Hour
1 Charles Mingus– Jump Monk
Written-By – Charles Mingus
2:49
2 Lionel Hampton and his Orchestra– Mingus Fingers
Written-By – Charles Mingus
3:06
3 Charles Mingus– Theme For Lester Young (aka Goodbye Pork Pie Hat)
Written-By – Charles Mingus
5:50
4 Charlie Parker and his Orchestra– If I Love Again
Written-By – Ben Oakland, Jack Murray*
2:25
5 Charles Mingus– Bemoanable Baby
Written-By – Charles Mingus
4:23
6 Charles Mingus– Weird Nightmare
Written-By – Charles Mingus
3:37
7 Charles Mingus– Zoo-Baba-Da-Oo-Ee
Written-By – Charles Mingus
2:35
8 Mingus*– Old Portrait
Written-By – Charles Mingus
3:45
9 Charles Mingus– Prayer For Passive Resistance
Written-By – Charles Mingus
3:50
10 Charles Mingus– Consider Me
Written-By – Charles Mingus
3:19
11 Charles Mingus– Freedom
Written-By – Charles Mingus
5:10
12 Quincy Jones and his Orchestra– A Sleepin’ Bee
Written-By – Harold Arlen, Truman Capote
4:39
13 Charles Mingus– Group Dancers
Written-By – Charles Mingus
7:20
14 Charles Mingus– Better Get Hit In Yo’ Soul
Written-By – Charles Mingus
6:28
Um belo disco de música antiga, modernizada pelo excelente L`Arpeggiata. Às vezes, parece música popular bem mais recente. É tudo muito lindo. Vamos falar sério: a improvisação sempre foi uma parte significativa da música dos séculos XVI e XVII. Então, por que nossa época deveria preocupar-se em fazer interpretações exatinhas e matemáticas? Curtam, é um baita CD.
O poema da primeira faixa é este:
O come t’inganni
Se pensi che gli anni
non hann’da finire,
bisogna morire.
E’ un sogno la vita
Che par si gradita,
è breve il gioire
bisogna morire.
Non val medicina
Non giova la China,
non si può guarire,
bisogna morire.
Non vaglion sberate,
minarie, bravate
che caglia l’ardire,
bisogna morire.
Dottrina che giova,
parola non trova
che plachi l’ardire,
bisogna morire.
Non si trova modo
di scioglier’sto nodo,
non val il fuggire,
bisogna morire.
Commun’è il statuto,
non vale l’astuto
‘sto colpo schermire,
bisogna morire.
Si more cantando,
si more sonando
la Cetra, o Sampogna,
morire bisogna.
Si more danzando,
bevendo, mangiando;
con quella carogna
morire bisogna.
La Morte crudele
a tutti è infedele,
ogn’uno svergogna,
morire bisogna.
E’ pur ò pazzia
o gran frenesia,
par dirsi menzogna,
morire bisogna.
I Giovani, i Putti
e gl’Huomini tutti
s’hann’a incenerire,
bisogna morire.
I sani, gl’infermi,
i bravi, gl’inermi,
tutt’hann’a finire
bisogna morire.
E quando che meno
ti pensi, nel seno
ti vien’a finire,
bisogna morire.
Se tu non vi pensi
Hai persi li sensi,
sei morto e puoi dire:
bisogna morire.
E sua tradução pelo Google:
Oh, como você se engana!
Se pensa que os anos
nunca acabam,
você deve morrer.
A vida é um sonho
Que parece tão agradável,
A alegria é breve,
você deve morrer.
Nenhum remédio
da China serve para nada,
você não pode se curar,
você deve morrer.
Nenhum tiro,
palavras ameaçadoras, bravatas
que azedam sua coragem,
você deve morrer.
Doutrina não serve para nada,
palavras não encontram
que acalmem sua coragem,
você deve morrer.
Não há como
desatar este nó,
é inútil fugir,
você deve morrer.
O estatuto é o mesmo,
este golpe astuto
de defesa não serve para nada,
você deve morrer.
Morre-se cantando,
morre-se tocando
cítara ou sampogna,
morre-se.
Morre-se dançando,
bebendo, comendo;
Com essa carniça,
morre-se.
A Morte Cruel
é infiel a todos,
desgraça a todos,
um deve morrer.
É loucura
ou grande frenesi,
fingir que se conta uma mentira,
um deve morrer.
Jovens, crianças
e todos os homens
devem ser incinerados,
um deve morrer.
Os saudáveis, os doentes,
os corajosos, os indefesos,
todos devem acabar,
um deve morrer.
E quando você menos
pensa nisso, chega ao fim em seu coração,
um deve morrer.
Se você não pensa nisso,
você perdeu a consciência,
você está morto e pode dizer:
um deve morrer.
Stefano Landi (1587-1639): Homo fugit velut umbra… (L’Arpeggiata)
1. Passacalli della vita (‘Homo fugit velut umbra’)
2. Augelin
3. Sinfonia à 3
4. Invan lusinghi
5. Altri amor fugga
6. Canzona detta La Pozza, for lute, theorbo & harp
7. T’amai gran tempo
8. A che più l’arco tendere
9. Alla guerra d’amor
10. Balletto delle Virtù
11. Canta la cicaleta
12. Dirindin
13. Quando Rinaldo
14. Quest’Acqua
15. Amarillide, deh vieni
Christina Pluhar
Johannette Zomer
Stephan Van Dyck
Alain Buet
Marco Beasley
L`Arpeggiata
Juntar o sérvio Tickmayer, o belga Franck e o georgiano Kancheli é fácil, o problema é aguentar Franck no meio deles. OK, o segundo movimento de seu Quinteto para Piano é bonito, mas o resto é complicado.
Tickmayer começou a escrever seus Eight Hymns em dezembro de 1986, ao saber da morte de seu cineasta favorito, Andrei Tarkovsky e tocou a obra em formato solo em seus concertos por vários anos. Ele o revisou em 2003, depois de trabalhar com os músicos da Kremerata — “os mensageiros ideais”, devido às suas origens no Leste Europeu — nesse luto musical. Tickmayer é eclético, estudou com Kurtág desde meados dos anos 90 e também colaborou com músicos de rock, como Chris Cutler, Fred Frith e Peter Kowald.
Gidon Kremer e Giya Kancheli têm uma longa associação que já resultou em várias gravações, incluindo o soberbo Music of Mourning in Memory of Luigi Nono (gravado em 1998) e Time… and Again (1999) e ainda na peça V & V (2000) do álbum In l’istesso tempo. Silent Prayer foi composta por ocasião do 80º aniversário de Mstislav Rostropovich e do 60º aniversário de Gidon Kremer em 2007. É dedicada a estes dois grandes músicos, ambos amigos próximos de Kancheli. Depois que Rostropovich morreu, o compositor intitulou a obra recém-terminada como Silent Prayer (Oração Silenciosa). A estreia mundial teve lugar a 7 de Outubro de 2007 no Festival de Violoncelo de Kronberg, que foi dedicado à memória do Rostrô, interpretado por Gidon Kremer e a Kremerata Baltica. Esse georgianos…. QUE MÚSICA, MEUS AMIGOS! É como uma névoa de lentidão infinita. Kremer cria linhas finas flutuando das alturas, como se fosse um guia para uma paisagem etérea. Kancheli foi um gênio, não se enganem, trata-se de um notável compositor, do porte de Pärt.
E dentro deste luto todo, aparece o muy coqueto Franck. Os amantes do belga podem achar esta obra um monumento, mas eu acho uma grande chateação romântica.
Tickmayer / Frank / Kancheli: Hymns And Prayers
Stevan Kovacs Tickmayer (1963)– Eight Hymns In Memoriam of Andrei Tarkovsky
Composed By – Stevan Kovacs Tickmayer
Conductor – Roman Kofman
Ensemble – Kremerata Baltica
Piano – Khatia Buniatishvili
Vibraphone – Andrei Pushkarev
(11:47)
1.1 – Calmo
1.2 – Tranquillo
1.3 – Pesante
1.4 – Sereno
1.5 – Molto Tranquillo
1.6 – Pregando
1.7 – Dolce
1.8 – Molto Semplice
César Franck (1822-1890) — Piano Quintet In f Minor
Composed By – César Franck
Piano – Khatia Buniatishvili
Viola – Maxim Rysanov
Violin – Marija Nemanytė*
Violoncello – Giedrė Dirvanauskaitė*
(36:20)
2 – Molto Moderato Quasi Lento. Allegro 15:55
3 – Lento, Con Molto Sentimento 10:45
4 – Allegro Non Troppo, Ma Con Fuoco 8:40
5 Giya Kancheli (1935-2019) — Silent Prayer
Composed By – Giya Kancheli
Ensemble – Kremerata Baltica
Vibraphone – Andrei Pushkarev
Violin – Gidon Kremer
Violoncello – Giedrė Dirvanauskaitė*
Voice [Voice On Tape] – Sofia Altunashvili
(26:40)
IM-PER-DÍ-VEL !!! SÉRIE IM-PER-DÍ-VEL !!! E MAIS UMA SÉRIE FINALIZADA !!!
CD 25
Os quartetos de números 9, 10 e 11 são semelhantes em estrutura e espírito. São os três muito bons e têm em comum o fato de manter por todo o tempo a alternância entre movimentos rápidos e lentos, sendo tais contrastes ampliados pelo fato de o nono e o décimo primeiro serem compostos por movimentos executados sem interrupções. O décimo ainda separa os primeiros movimentos, porém o Alegretto final surge de dentro de um o Adágio. A postura de fazer com que surjam movimentos antagônicos um de dentro do outro é uma particularidade que torna estes quartetos ainda mais interessantes, sendo que o décimo primeiro é um quarteto de 17 minutos com sete movimentos; isto é, Shostakovich brinca com a apresentação de temas que fazem surgir de si outros muito diversos em estilo, como se o compositor estivesse sofrendo de uma incontrolável superfetação (*). É, no mínimo, desafiador ao ouvinte. Melodicamente, são muito ricos, e exploram com insistência incomum os ostinatos, os quais são sempre belíssimos e curiosos. Merecem inteiramente o lugar que modernamente obtiveram no repertório dos quartetos de cordas. É curioso como é fácil confundi-los. Estou ouvindo-os enquanto escrevo e noto quando o CD passa de um para outro, pois têm personalidades muito próprias, mas nunca sei se o que estou ouvindo é o nono ou o décimo. Pode ser uma limitação minha! Já no décimo primeiro, o paroxismo da criação de melodias chega a tal ponto, seus ostinatos são tão alucinados, que é mais fácil reconhecê-lo.
Aliás, o décimo primeiro apresenta aqueles finais tranquilos que constituíram-se uma das assinaturas do Shostakovich final. Esqueçam o gran finale. Sem fazer grande pesquisa, sei que eles podem ser encontrados na 13ª, 14ª e 15ª sinfonias, neste quarteto e no sensacional Concerto para Violoncelo que será comentado a seguir.
(*) Palavra pouco utilizada, não? Significa a concepção que ocorre quando, no mesmo útero, já há um feto em desenvolvimento.
String Quartet No. 5 in B flat major Op. 92 (1952)
1. Allegro non troppo 10:44
2. Andante 10:41
3. Moderato 10:25
String Quartet No. 12 in D flat major Op. 133 (1968)
11. Moderato 6:41
12. Allegretto 20:29
Total: 76:15
Rubio Quartet
Dirk van de Velde, violin I
Dirk van den Hauwe, violin II
Marc Sonnaert, viola
Peter Devos, cello
CD 26
Talvez apenas aficionados possam gostar do esquisito Quarteto Nº 6. Ele tem quatro movimentos, dos quais três são decepcionantes ou descuidados. O intrigante nesta música é o extraordinário terceiro movimento Lento, uma passacaglia barroca que é anunciada solitariamente pelo violoncelo. É de se pensar na insistência que alguns grandes compositores, em seus anos maduros, adotam formas bachianas. Os últimos quartetos e sonatas para piano de Beethoven incluem fugas, Brahms compôs motetos no final de sua vida e Shostakovich não se livrou desta tendência de voltar ao passado comum de todos. Enfim, este quarteto vale por seu terceiro movimento e, com certa boa vontade, pelo Lento – Allegretto final.
String Quartet No. 4 in D major Op. 83 (1949)
1. Allegretto 4:27
2. Andantino 6:35
3. Allegretto 4:07
4. Allegretto 10:28
String Quartet No. 6 in G major Op. 101 (1956)
5. Allegretto 6:42
6. Moderato con motto 4:56
7. Lento 5:57
8. Lento-allegretto 7:44
String Quartet No. 10 in A flat major Op. 118 (1964)
9. Andante 4:32
10. Allegretto furioso 4:16
11. Adagio 6:13
12. Allegretto 9:08
Total: 75:18
Rubio Quartet
Dirk van de Velde, violin I
Dirk van den Hauwe, violin II
Marc Sonnaert, viola
Peter Devos, cello
CD 27
Quarteto de Cordas Nº 14, Op. 142 (1972-73)
Este é quase um quarteto para violoncelo solo e trio de cordas, tal é a proeminência dada àquele instrumento. É um quarteto inspiradíssimo, escrito em três movimentos (Allegretto – Adagio – Allegretto), e que tem seu centro dramático num dilacerante adagio de 9 minutos. Não consigo imaginar uma audição deste quarteto sem a audição em sequência do Nº 15. Eles, que costumam aparecer juntos, seja em vinil ou em CD, formam, em minha imaginação, uma obra só.
Quarteto de Cordas Nº 15, Op. 144 (1974)
Este trabalho, assim como a sonata a seguir, são tidas como obras-primas e seriam os dois principais “réquiens privados” de Shostakovich. Concordo com esta opinião.
O que dizer de um obra escrita em seis movimentos, em que quatro deles são adagio e os outros dois deles são adagio molto, sendo que, destes dois últimos, um é uma marcha funeral e outro um epílogo…? Ora, no mínimo que é lenta. Porém, como estamos falando do Shostakovich final, estamos falando de uma obra que tem como fundo a morte. Há três movimentos realmente notáveis nesta música: a Serenata: Adagio, a Marcha Fúnebre – Adagio Molto e o musicalmente espetacular Epílogo – Adagio Molto. O Epílogo recebeu vários arranjos sinfônicos e costuma aparecer – separadamente ou não do resto do quarteto – em gravações orquestrais.
String Quartet No.1 in C major Op. 49 (1935)
1. Modearto 3:57
2. Moderato 4:43
3. Allegro molto 2:12
4. Allegro 3:03
String Quartet No.14 in f sharp major Op.142 (1973)
5. Allegretto 8:22
6. Adagio 10:57
7. Allegretto 8:44
String Quartet No.15 in E flat minor Op. 144 (1974)
8. Elegy (adagio) 12:23
9. Serenade (adagio) 5:15
10. Intermezzo (adagio) 1:49
11. Nocturne (adagio) 4:54
12. Funeral March (adagio molto) 4:38
13. Epilogue (adagio) 6:40
Total: 78:00
Rubio Quartet
Dirk van de Velde, violin I
Dirk van de Hauwe, violin II
Marc Sonnaert, viola
Peter Devos, cello
Shostakovich felicita seu filho Maxim após a apresentação do “Concertino” para dois pianos, op. 94, na Sala Maly da Filarmônica de Leningrado, em 15 de janeiro de 1955.
O Quarteto Americano é uma ótima composição. Gosto dele. Mas o destaque deste CD chama-se Alexandr Borodin e seu esplêndido Quarteto Nº 2. Aqui, o compositor acertou em cheio, escrevendo música sublime de ponta a ponta. Idem para o Shosta que fecha o disco. o nº 8 é o mais famoso de seus quartetos e é muito do caraglio. Repertório de primeira, boas interpretações, você vai querer mais o quê? Uma cerveja artesanal, um chocolatinho, um harém feminino ou masculino (não temos problemas com gênero), o rebaixamento do Grêmio, a prisão dos Bolsonaro, mais Tarcísio, Zema, Castro, Ciro, Nikolas, o quê?
Dvořák | String Quartet op.96 »American«
1. String Quartet No. 12 in F major (‘American’), B. 179 (Op. 96): 1. Allegro ma non troppo
2. String Quartet No. 12 in F major (‘American’), B. 179 (Op. 96): 2. Lento
3. String Quartet No. 12 in F major (‘American’), B. 179 (Op. 96): 3. Molto vivace
4. String Quartet No. 12 in F major (‘American’), B. 179 (Op. 96): 4. Finale: Vivace ma non troppo
Borodin | String Quartet No.2
5. String Quartet No. 2 in D major: 1. Allegro moderato
6. String Quartet No. 2 in D major: 2. Scherzo: Allegro
7. String Quartet No. 2 in D major: 3. Notturno: Andante
8. String Quartet No. 2 in D major: 4. Finale: Andante – Vivace
Shostakovich | String Quartet No.8 op.110
9. String Quartet No. 8 in C minor, Op. 110: 1. Largo
10. String Quartet No. 8 in C minor, Op. 110: 2. Allegro molto
11. String Quartet No. 8 in C minor, Op. 110: 3. Allegretto
12. String Quartet No. 8 in C minor, Op. 110: 4. Largo
13. String Quartet No. 8 in C minor, Op. 110: 5. Largo
Para um brasileiro, é complicado caracterizar o Madredeus. O grupo está posicionado entre o erudito e o popular, mas jamais na posição e breguice que tantas vezes assola o prog rock. Aliás, está muito longe do prog rock porque é 100% acústico, explora canções relativamente curtas e é tudo tranquilo e sem bateria. New age? De jeito nenhum. Para mim, está quase dentro do fado, mas também com um pé fora. É folclórico? Sim, sem dúvida. O nome do grupo assusta um ateu como eu, mas há razões para o nome; as canções parecem antigas, mas são inovadoras; as letras são antiquadas; a cantora (fantástica) é quase uma cantora lírica, das que hoje cantam música barroca. Adorei ouvir este CD quando de seu lançamento e, ao voltar a ouvi-lo, noto que ele não perdeu seu encanto. O grupo formado em 1985 acabou em 2010 e é famoso no mundo inteiro. Seus fundadores foram Pedro Ayres Magalhães (guitarra clássica), Rodrigo Leão (teclados), Francisco Ribeiro (violoncelo) falecido em Setembro de 2010, Gabriel Gomes (acordeão) e Teresa Salgueiro (voz). Magalhães e Leão formaram o grupo em 1985, Ribeiro e Gomes juntaram-se a eles em 1986. Na sua busca por uma vocalista, descobriram Teresa Salgueiro numa casa noturna de Lisboa, quando cantava alguns fados numa reunião informal de amigos. Teresa foi convidada para uma audição e aí surgia o grupo, o qual ainda não tinha um nome. A proposta inicial era a de uma oficina criativa, à qual todos os músicos levariam suas ideias e comporiam em conjunto os temas e arranjos. Em 1987, o local de trabalho do grupo, o Teatro Ibérico (antiga igreja do Convento das Xabregas, num bairro de Lisboa chamado Madredeus) serviu de estúdio de gravação para mais de quinze temas reunidos à época em um LP duplo, depois convertido para o formato de CD. Chamaram-no de Os Dias da MadreDeus e daí viria o nome do grupo. O caráter inovador do álbum fez com que os Madredeus se tornasse um fenômeno instantâneo de popularidade em Portugal na época. Wim Wenders, impressionado com a música do grupo, tinha-os convidado para musicarem um filme sobre Lisboa, chamado Lisbon Story (no Brasil, O Céu de Lisboa), do qual o grupo participou também como personagens. A trilha sonora deu ao grupo ainda maior projeção internacional. Este CD, O Paraíso (1997) é mais ou menos desta época e traz canções lindas como Haja o que houver, Não muito distante e outras. Vale muito a pena ouvir.
Madredeus: O Paraíso
1 Haja O Que Houver 4:30
2 Os Dias São À Noite 4:31
3 A Tempestade 5:14
4 A Andorinha Da Primavera 3:04
5 Claridade 5:25
6 A Praia Do Mar 3:25
7 O Fim Da Estrada 3:53
8 Agora (Canção Aos Novos) 9:23
9 À Margem 4:43
10 Carta Para Ti 3:49
11 Coisas Pequenas 5:25
12 Não Muito Distante 4:10
13 O Sonho 5:07
14 O Paraíso 6:49
Acoustic Bass – Fernando Júdice
Classical Guitar – José Peixoto, Pedro Ayres Magalhães
Lyrics By, Music By – Pedro Ayres Magalhães (faixas: 1, 2, 8, 9, 11 to 14)
Synthesizer – Carlos Maria Trindade
Vocals – Teresa Salgueiro