Uma bela gravação de obras fundamentais do século XX.
A Sinfonia Nº 5, Op. 47, composta em 1937, é considerada como uma obra de ambiguidade radical, escrita sob a pressão direta do regime stalinista após a condenação pública do compositor. Oficialmente apresentada como “a resposta criativa de um artista soviético a críticas justas”, a sinfonia adota uma linguagem mais acessível e uma forma clássica aparente, mas essa superfície de clareza esconde dramas. O primeiro movimento é marcado por uma tensão contínua entre contenção e explosão emocional. O Largo, com sua escrita quase litúrgica para cordas, expõe um lamento coletivo de rara intensidade. O final, embora triunfal em aparência, soa forçado, pesado, quase brutal. Esta duplicidade — entre o que se ouve e o que se sente — faz da Quinta uma das obras mais perturbadoras e discutidas do século XX.
Já a Sinfonia Nº 9, Op. 70, escrita em 1945, desconcertou profundamente as autoridades soviéticas ao frustrar expectativas de uma obra grandiosa que celebrasse a vitória na Segunda Guerra Mundial. Em vez de um monumento heroico à maneira de Beethoven, Shostakovich veio com uma sinfonia breve, irônica e deliberadamente leve, com traços de sarcasmo quase mozartiano. O tom aparentemente despreocupado do primeiro movimento contrasta com passagens sombrias e grotescas, especialmente no movimento lento e no uso expressivo do fagote, que parece comentar a música com humor ácido e melancolia contida. A Nona funciona, assim, como um gesto de resistência estética: ao recusar o retórica triunfal (e oficial), Shostakovich afirma uma liberdade que se manifesta não no grito, mas na ironia.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nº 5 e 9 (Rahbari)
Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47
1 I. Moderato 16:32
2 II. Allegretto 05:43
3 III. Largo 16:37
4 IV. Allegro non troppo 10:45
Symphony No. 9 in E-Flat Major, Op. 70
5 I. Allegro 05:12
6 II. Moderato 08:54
7 III. Presto 02:47
8 IV. Largo 03:29
9 V. Allegretto 06:13
Belgian Radio and Television Philharmonic Orchestra
Alexander Rahbari

PQP