Compostas entre 2019 e 2024, as obras da mexicana Gabriela Ortiz recebem aqui um tratamento luxuoso da Filarmônica de Los Angeles que, aliás, há muitos anos já vem se dedicando fortemente à música contemporânea: basta lembrar que sob a direção de Salonen eles estrearam a 4ª e última Sinfonia de Lutoslawski em 1993 e, já com Dudamel, eles estrearam True Fire, de Saariaho. Lembremos ainda que, após 17 anos, Dudamel estará se despedindo do cargo como regente principal em L.A., em uma temporada 2025–26 com o apelido “Gracias Gustavo,” temporada que inclui uma estreia do venezuelano Ricardo Lorenz além de uma nova orquestração da já famosa obra para piano “O povo unido jamais será vencido”, de Rzewski (1938-2021).
Assim como a obra de Rzewski, as de Ortiz são politicamente engajadas. O pdf que acompanha o álbum explica a temáticas de resistência contra a escravidão na América espanhola (Yanga, com momentos de percussão que poderiam facilmente ser confundidos com música negra brasileira) e de cavernas mexicanas com uma rica biodiversidade incluindo pássaros e onças (Dzonot, para violoncelo e orquestra).
É essa última obra que mais me impressionou. A música contemporânea de concerto, como sabemos, muitas vezes tem dificuldades de encontrar um grande público que a abrace com entusiasmo. Os concertos para solista e orquestra, em muitos casos, conseguiram se fazer entender por plateias não tão entendidas sobre os detalhes teóricos que diferenciam música serial, cromática ou atonal livre. Me refiro por exemplo aos concertos para violoncelo de Ginastera, Lutoslawski, Dutilleux, Penderecki, compositores já falecidos mas ainda próximos de nós em vários sentidos. Também os Concertos para violino n° 1 de Gubaidulina, o de Vasks e o de Saariaho tiveram papel importante para que esses três nomes ganhassem fama lá pelas décadas de 1980, 90 e 2000.
Talvez a explicação seja a seguinte: os detalhes de orquestração de infinita sutileza de obras orquestrais desses compositores às vezes passa despercebidos por parte do público, mas quando um solista no pódio dialoga com a orquestra – seja esse diálogo muito inovador ou mais pautado por padrões musicais conhecidos – esse diálogo, em si, é compreendido mais facilmente. Ouçam o Concerto Dzonot de Ortiz e reparem…
Gabriela Ortiz (1964):
1. Yanga, para coro, percussão e orquestra
Tambuco Percussion Ensemble, Los Angeles Master Chorale
2-5. Dzonot – Concerto para violoncelo e orquestra
Alisa Weilerstein cello
I. Luz vertical
II. El ojo del Jaguar
III. Jade
IV. El vuelo de Toh
6-11. Seis piezas a Violeta, para piano e orquestra
Joanne Pearce Martin piano
I. Preludio Andino
II. Geometría Austral
III. Ritmo Genésico
IV. Canto del Angelito
V. Danza Esdrújula
VI. Amen
Los Angeles Philharmonic, Gustavo Dudamel
