Creio que seja inevitável que em determinado momento de nossas vidas as lembranças comecem a dominar nossos pensamentos, ainda mais quando nos tornamos sexagenários. Quando crianças essa idade nos parece tão longínqua, e sou de uma geração que nem imaginava que viveria tanto.
Mas essa pequena introdução serve apenas para dar uma certa ‘motivação’ para esta postagem, como se isso fosse necessário. Eu ainda estava nos meus vinte e poucos anos quando conheci a Concerto para Piano nº 4 de Beethoven, com Claudio Arrau e o Colin Davis em Dresden. Na verdade, foi esse LP que me apresentou os Concertos para Piano de Beethoven. Até um ano antes, eu morava no interior do Paraná, longe da capital, e longe das lojas de discos. Então me mudei para a capital catarinense, e ali conheci uma loja de discos com um setor inteiro dedicado a música clássica, e com um gerente que conhecia muito do assunto. E foi ele quem me apresentou esse LP, recém lançado. Fui ansioso para casa e o coloquei para tocar no velho Philips 3×1. A partir de então entendi o porque se reverenciava tanto Beethoven. Comecei a procurar os outros concertos, com outros intérpretes e regentes. Ali iniciou minha obsessão pela música, no sentido de procurar outras interpretações, outras leituras. E esse mundo me cativou, e desde então, vivo imerso nele. Não sei quantas vezes ouvi esses concertos, com os mais diversos músicos. E era curioso também observar como um mesmo pianista, por exemplo, poderia ter versões diferentes das mesmas obras. Claro que depois entendi que a maturidade os incentivava a isso.
Um exemplo claro do que vos falo é Alfred Brendel. Li uma crítica de sua integral com Simon Rattle onde o crítico questionava isso, para que diabos lançar outra integral, se já tinha outras já consagradas, como a minha favorita, com o mesmo Colin Davis em Londres. No mesmo texto, o crítico justificava exatamente dessa forma: Brendel precisava ‘corrigir’ alguma coisa que não o deixara satisfeito nas outras gravações. Haveria necessidade? Talvez não, mas talvez tenha entrado na conversa alguma cláusula contratual que o obrigou a isso. Não sei, nem me interessa saber. O importante é que são registros gravados em épocas diferentes de sua vida, e só isso já me responde satisfatoriamente a pergunta do crítico.
Quando gravou essa integral que ora vos trago, Claudio Arrau já estava com oitenta e poucos anos de idade. E é a maturidade que se destaca aqui. Ele já havia gravado e tocado esses concertos inúmeras vezes, mas resolveu encarar novamente o desafio. Veio a falecer alguns anos depois, em 1991. Mas o que quero destacar aqui é a tranquilidade e serenidade que o velho mestre imprime à sua interpretação. Maturidade, com a certeza de que não precisa provar mais nada.
Espero que apreciem. Gosto muito destas gravações.
CD 1
Klavierkonzert Nr.1 In C-Dur , Op.15
1 Allegro Con Brio
2 Largo
3 Rondo (Allegro Scherzando)
Klavierkonzert Nr. 2 B-Dur, Op.19
4 Allegro Con Brio
5 Adagio
6 Rondo (Molto Allegro)
CD 2
Klavierkonzert Nr. 3 C-Moll, Op.37
1 Allegro Con Brio
2 Rondo (Allegro)
3 Rondo (Molto Allegro)
4 Piano sonata No. 6 op 10 No. 2 – 1. Allegro
5 Piano sonata No. 6 op 10 No. 2 – 2. Allegretto
6.Piano sonata No. 6 op 10 No. 2 – 3. Presto
CD 3
Klavierkonzert Nr. 4 G-Dur, Op.58
1 Allegro Moderato
2 Andante Con Moto
3 Rondo Vivace
4 32 Variationen über ein eigenes Thema c-moll
Klavierkonzert Nr. 5 Es-Dur, Op.73 “
1 Allegro
2 Adagio Con Poco Mosso
3 Rondo (Allegro)
Claudio Arrau – Piano
Staatskapelle Dresden
Colin Davis – Conductor