Cantigas da Corte de Dom Dinis

Os arquivos deste post foram compartilhados com CVL por Ranulfus antes de entrar para a equipe. Os comentários também, mas com licença do CVL foram revisados hoje, pois evidentemente um Ranulfus pós-PQP só pode ser outra pessoa…

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Já se falou que professores costumam ter um “beijo da morte”, com que tornam tediosos até os assuntos mais tesudos. Acho que na escola poucos de nós tiveram a sorte de ver trovadorismo, cantigas d’amigo e cantigas d’amor de forma estimulante, sem falar de Dom Dinis, na verdade um dos governantes mais instigantes da História em respeitos tão diferentes como agricultura e sociedades secretas, passando pela poesia e música.

Música? Sim, é evidente que aqueles textos cheios de repetições eram letra de música, não “poesia pura”. Vem já daí o nosso “se você teve uma idéia incrível / é melhor fazer uma canção”.

Mas ao contrário dos diversos cancioneiros espanhóis preservados, ressuscitados e presentes em gravações, a música em galego-português arcaico parecia se resumir às Cantigas de Santa Maria, atribuídas… a um rei da Espanha!

Mas, aleluia!, há poucos anos descobriu-se a notação de sete das cantigas de Dom Dinis. Manoel Pedro Ferreira escreveu todo um livro sobre isso, Cantus Coronatus, inteiro disponível em http://bit.ly/a5ol62

E aí Paul Hillier, que fez nome oferecendo interpretações de música supostamente impregnadas de teatralidade com o grupo (justamente) Theatre of Voices, juntou essas sete cantigas com sete de outros autores da época, e fez um CD que tinha tudo para ser um acontecimento – mas sobretudo no que tange a Dom Dinis me foi uma grande decepção. É verdade que as cantigas de trovador não eram coisa de rua, eram obras de certa forma eruditas, cerebrais – mas, francamente, me parece impossível soassem tão monótonas. Ou será que eram ouvidas e foram registradas só por serem do rei?

Minha aposta é diferente: desconfio que faltou a Hillier envolvimento orgânico com a alma lusa, e ibérica em geral, para saber quê movimentos de alma – e de voz – realmente se escondem por trás dos lembretes frios da notação.

Apesar disso, a gravação é um acontecimento histórico para a cultura lusófona, e merece, sim, ser conhecida.

No mínimo porque algumas das cantigas são satíricas e às vezes impagáveis: “Un cavalo non comeu” ouve-se igual “un cavalo non como eu”. E “Non quer’eu donzela fea que ant’a mia porta pea” é nada menos que “não quero donzela feia que peide na minha porta”.

Ou quem sabe para alguém de nós se animar a tentar uma nova leitura (alô grupo Carmina? Que tal?).

Ou porque vocês talvez adorem, e o chato seja eu! (Ranulfus)

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Cantigas from the Court of Dom Dinis

01. Porque ben Santa María sabe os seus dões dar
(Cantiga de Santa María 327 – atribuída a D. Alfonso X o Sábio)

02. Par Deus ai dona Leonor (cantiga d’amor – Roi Paes de Ribela)

03. Un cavalo non comeu (cantiga de escárnio – Joan Garcia de Guilhade)

04. Non quer’eu donzela fea (cantiga de mal-dizer, atribuída a D. Alfonso X o Sábio)

05. Fois’o meu amigo a cas d’elrei (cantiga d’amigo – Joan Airas de Santiago)

06. Quand’eu vejo las ondas (cantiga d’amigo – Roi Fernandes de Santiago)

07. Muitas vezes volv’ o demo
(Cantiga de Santa María 198 – Atribuída a D. Alfonso X o Sábio)

. . . . AS SETE CANTIGAS D’AMOR DE DOM DINIS . . . .

08. I. Pois que vos Deus, amigo, quer guisar (cantiga d’amor de Don Dinis)

09. II. A tal estado m’adusse, senhor (cantiga d’amor de Don Dinis)

10. III. O que vos nunca cuidei a dizer (cantiga d’amor de Don Dinis)

11. IV. Que mui gran prazer que eu ei, senhor (cantiga d’amor de Don Dinis)

12. V. Senhor fremosa, non poss’eu osmar (cantiga d’amor de Don Dinis)

13. VI. Non sei como me salv’a mha senhor (cantiga d’amor de Don Dinis)

14. VII. Quix ben, amigos, e quer’e querrei (cantiga d’amor de Don Dinis)

Theatre of VoicesPaul Hillier (voz e direção), Margriet Tindemans (viela) e outros

BAIXE AQUI

CVL

10 comments / Add your comment below

  1. Ai, CVL, como vc mesmo disse eu ainda não era membro da equipe, e tava pisando em ovos quando escrevi isso. TÁ MUUUUITO CHATO!! Me permite editar, mudar? Juro que não alongo, só “des-chatifico” um pouco…

      1. Hahahah… E não foi de uma bolha suspensa sobre um píncaro… Bom, acho que se eu estivesse aí no calor, também não tinha ficado em casa, mas essa noite aqui… brrrrrr

    1. Bom dia, Fausto. Para não haver nenhum mal-entendido, quero deixar claro que os textos das 14 cantigas do CD, e mais algumas páginas de apresentação, devem se encontrar como imagens JPG dentro do próprio arquivo de download. Pelo menos se encontrava no material que enviei ao CVL. (Alô, CVL, você postou o scan do booklet junto com os mp3? – Eita, que linguagem a minha!)

      Ou seja, simplesmente para os textos das cantigas, você não deve precisar acessar o livro Cantus Coronatus.

      Mas se o seu interesse é propriamente no livro, aí o que posso dizer é o seguinte: esse endereço remete à capa do livro no Google Books, a partir da qual se pode navegar em todas as páginas que tiverem sido disponibilizadas. Eu naveguei um pouco, inclusive nas páginas finais, e TIVE A IMPRESSÃO DE QUE ERA INTEGRAL. Mas não posso afirmar, pois realmente não folheei o livro inteiro.

      Caso a versão do livro que está no Googlegroups não seja integral… aí sei tanto quanto você, sobre como chegar a ele. Talvez o único jeito seja comprar, o que não é mole, né? Pessoalmente digo eu já fiquei encantado com o fato de encontrar tanto dele disponível na net; eu realmente não esperava encontrar!

      Boa sorte – e, se achar mais algo, não achamos ruim se também compartilhar com a gente!

      1. O texto integral nunca é liberado no Google Books, mas o link que o Fausto mandou tem muita coisa, Ranulfus.

        Quanto ao seu arquivo, só fiz baixá-lo e renomeá-lo: não tirei nem pus nada nele.

  2. Adorei o tal “beijo da morte”…rs. Quando era aluna “vi” Trovadorismo na escola (e parcamente!). Hoje, já como professora, queria que meus alunos tivessem contato com algo além das típicas definições de cantigas lírico-amorosas e cantigas satíricas. Levei Martin Codax para que ouvissem (não o trovador, mas o grupo galego homônimo). Adoraram. Foi legal ver a carinha deles como que pensassem “Putz, poesia não nasceu poesia, nasceu cantiga!”

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