Claudio Monteverdi (1567-1643): Vespro della Beata Vergine – Paul McCreesh (ou: os 400 anos do Barroco)

Publicação original: 15.05.2010

Especialistas, se os houver por perto, podem começar a jogar pedras: há décadas discutem se estas “Vésperas de 1610” constituem uma das obras inaugurais do Barroco ou o canto-de-cisne da Renascença. Outros ainda podem dizer “Mas como! É óbvio que o barroco nasceu com a primeira ópera, a desaparecida Dafne, de Jacopo Peri, 13 anos antes. Ou com a primeira preservada, a Euridice do mesmo Peri, de 1600. Ou com o Orfeo do próprio Monteverdi, de 1607!”

Todos têm sua razão, é claro – mas o meu barroco nasceu em 1610 com esta coleção de 24 peças sacras usadas nos ofícios daquela inacreditável catedral emersa: São Marcos de Veneza.

Já os menos especialistas acostumados com Bach, Vivaldi, Händel, podem perguntar espantados: mas isto é barroco?! Pois bem: isto é, sim, o barroco – em sua brotação inicial: a música que, na comparação com as outras artes, mais merece o rótulo ‘barroco’!, e que envolve compositores como Schütz, Scheidt, Sweelinck, Frescobaldi. O barroco com que estamos acostumados, de 120, 140 anos mais tarde, é o fruto não apenas amadurecido mas já feito compota – da qual, deixo claro, me lambuzo!

Mas isto aqui… isto aqui pra mim nem é barroco nem nada: é uma viagem pra outro planeta. Quando ouvi a primeira vez já era acostumado com Schütz, uma coisa parecida – e linda – em sóbrias roupas marrons germânicas, pão de centeio em mesa de madeira… mas não conhecia nada dos ouros de Veneza, porto e porta do Oriente, e fiquei embasbacado diante do colorido intenso dos timbres, das vozes se lançando em arcos alucinados cheios de arabescos impossíveis, talvez último eco das glórias de Bizâncio…

Talvez vocês não achem nada disso – ainda mais que o efeito vai pegando aos poucos… – mas me permitam apontar uns highlights: Lauda Jerusalem (faixa 15): o que é isso, um negro spiritual?! Escutem as chamadas e respostas e as síncopes e me digam se não! Os ecos de metades de palavras que dialogam com a palavra original em Audi Coelum (39): gaudio/audio, orientalis/talis, solamen/amen – barroco é ISSO, senhores! O milagre de não só nos fazer acreditar em Deus (como se diz de Bach), mas até no “gracioso amor de Maria” no Ave Maris Stella (18); o Magnificat do começo ao fim (21-32), inclusive o mais espantoso Gloria Patri que já ouvi; e talvez mais que tudo o Duo Seraphim (36), com seu inusitado ornamento de notas repetidas em accelerando (canto de inhambu?!) e as imitações entre os dois serafins de Isaías, que viram três depois da intervenção do evangelista João afirmando a Trindade.

(Essa afirmação, que se dá sobretudo mediante o ‘Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto’ no fim de quase todas as peças, merece observação especial: um dos testemunhos que levaram o dramaturgo António José da Silva à fogueira da Inquisição em 1739 foi o de que teria sido ouvido recitando salmos sem o Gloria Patri cristianizante ao final – e isso era prova bastante de que se mantinha secretamente fiel ao judaísmo…)

Quanto a esta realização, acho que às vezes McCreesh se precipita um pouco, que podia respirar e contemplar um pouco mais, mas apesar disso acho que no conjunto ainda não ouvi melhor. Cabe advertir que ele buscou sugerir um ofício religioso real, mudando aqui e ali a ordem “de espetáculo” que se costuma dar às peças, e intercalando 12 passagens em gregoriano e 4 solos de órgão – estes emprestados dos contemporâneos Giovanni Paolo Cima, Ercole Pasquini e Adriano Banchieri, mais uma improvisação -, com o que as 24 peças viraram 40 faixas. Para facilitar, destaco as peças propriamente das Vésperas em negrito, nas listas abaixo.

Os textos se encontram no livreto postado junto com o CD1, que também traz entrevista de McCreesh. Por uma falha do escaneador, falta o da faixa 18, Ave Maris Stella, que pode ser consultado AQUI enquanto não resolvemos isso. E boa viagem!

MONTEVERDI: VESPRO DELLA BEATA VERGINE
(Vésperas de 1610)

01. Deus, in adiutorium meum intende (Salmo 69[70]:2)
02. Missus est angelus (gregoriano)
03. Dixit Dominus (Salmo 109[110])
04. Nigra sum (Cântico dos Cânticos 1:4, 2:3, 2:11-12)
05. Ave Maria gratia plena (gregoriano)
06. Laudate pueri (Salmo 112[113])
07. Canzon Quarta: La Pace (Cima)
08. Ne timeas Maria (gregoriano)
09. Laetatus sum (Salmo 121[122])
10. Toccata (Pasquini)
11. Dabit ei Dominus (gregoriano)
12. Nisi Dominus (Salmo 126[127])
13. Secondo Dialogo (Banchieri)
14. Ecce ancilla Domini (gregoriano)
15. Lauda Jerusalem (Salmo 147[147:12 ss])
16. Pulchra es (Cântico dos Cânticos 6:3-4)
17. Ecce virgo concipiet (gregoriano)
18. Ave Maris Stella (hino mariano medieval)
19. Ave Maria gratia plena (gregoriano)
20. Spiritus Sanctus (gregoriano)
21. Magnificat (Lucas 1:46 ss, até faixa 30)
22. Et exsultavit
23. Quia respexit
24. Quia fecit mihi magna
25. Et misericordia
26. Fecit potentiam
27. Deposuit potentes de sede
28. Esurientes implevit bonis
29. Suscepit Israel
30. Sicut locutus est (Lucas 1:55)
31. Gloria Patri
32. Sicut erat in principio
33. Sonata sopra Sancta Maria
34. Dominus vobiscum – Deus, qui de beatae Mariae (gregoriano)
35. Dominus vobiscum – Benedicamus Domino (gregoriano)
36. Duo seraphim (Isaias 6:3, I João 5:7-8)
37. Fidelium animae (gregoriano)
38. Organ improvisation
39. Audi caelum (poema mariano)
40. Divinum auxilium (gregoriano)

. . . . . BAIXE AQUI – download here

Gabrieli Consort & Players dirigidos por Paul McCreesh.
Tessa Bonner e Susan Hemington Jones, sopranos;
Joseph Cornwell e Charles Daniels, tenores; Peter Harvey, barítono.
Gravado na Tonbridge Chapel, Tonbridge, Inglaterra, em novembro de 2005

Ranulfus

11 comments / Add your comment below

  1. Olá Ranulfus.

    Muito boa a postagem! Concordo com você a respeito deste “Barroco em sua brotação inicial”. Pelo tempo que durou e o espaço que alcançou, especulo que não tenha havido um barroco e sim muitas variações do mesmo, creio até que esta variação é presumível considerando a duração e o espaço deste. Para opor um outro extremo à esta obra cito “J A Hasse – Sonaten der Galanten Zeit”, que baixei daqui, ainda barroco, mas um barroco extenuado, sem tantos floreios e sem música vocal, que nesta obra de Monteverdi é quase onipresente.

    Palestrina também pertence a este período?

    Até breve.

    1. Palestrina morreu em 1594, Adriano, então é um típico representante da Renascença. Quero dizer… a Renascença se mostra dividida entre um lado humanista, que se divertia em composições profanas experimentais, danças alegres, madrigais amorosos… e a exigência papal de um ‘retorno à sobriedade’ na música da igreja. Palestrina foi o executor desse projeto. Monteverdi chegou a compor missas ao estilo de Palestrina, mas nesta obra talvez se possa dizer que arrancou de novo a música sacra da camisa de força em que Palestrina havia aceitado colocá-la.

      Quanto aos “vários barrocos” você tem razão. Hasse foi justamente um dos últimos. Hoje mesmo eu descobri um gráfico fantástico sobre isso na Wikipedia em inglês, vai aqui o link geral do artigo, é preciso procurar a seção History. Acho que você vai gostar…

      http://en.wikipedia.org/wiki/Baroque_music

  2. Mônica, não sei se vai servir pra você: logado, eu não consigo baixar pelo RapidShare pois ele exige que eu tenha créditos. Se eu não estiver logado, faço download anônimo, um pouco mais lento, mas sem restrição nenhuma. Já tentou isso? Ou é outro tipo de dificuldade?

  3. Concordo em gênero , número e gral. Se a dramaticidade do Vespre não for a muda do Barroco , não sei o que mais seria. Além disso, a orquestração é belíssima e o coro da um ar místico oriental inigualável as peças. É ouvir e se transportar no tempo. Também possuo as versões de Jordi Savall e Eliot Gardiner.

  4. Caro Ranulfus , permita -me dizer que tal qual aconteceu com você também eu tive essa sensação de êxtase ao ouvir o Vespro pela primeira vez. Foi uma viagem , se na maionese não sei , mas o fato que nunca tinha ouvido algo tão rico , misterioso e oriental na música sacra ocidental. O Gloria Patri me transportou para um mundo de sedas , ouros , brocados, especiarias e vozes femininas misteriosas e angelicais. Parafraseando – o , uma viagem a um outro planeta. O planeta místico! Creio que esta obra mostrou -me o que é transcender de veras! A propósito, tenho uma versão executada por Jordi Savall (mestre dos magos) e o Hesperion XX .

  5. Antes de tudo, quero agradecer-lhe pelo fantástico trabalho.

    Tive dificuldade com o download. A resposta do RapidShare é que a permissão foi negada por quem fez o upload. Pode me ajudar?

  6. Desculpem pelo acidente!! O link desta postagem foi revalidado no último dia 10 (sendo que ela havia sido uma das primeiras postagens do monge Ranulfus no PQP Bach, em maio de 2010).

    Na hora de compactar o arquivo para a revalidação, ainda não sabemos como, uma das partes do material entrou duplicada, de modo que o arquivo a baixar ficou 170 MB maior do que precisava ser…

    Mas agora isso está corrigido, e está mais fácil apreciar esta instigante versão da Vésperas – que não posso dizer que seja a minha preferida, mas definitivamente está entre as que vale a pena ouvir – no mínimo porque, evitando a hipersolenização em que alguns figurões incorrem, não sei por quê, esta versão NÃO É CHATA!

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