.: interlúdio :. Miles Davis (1926-1991): Tutu (Deluxe Edition) 2CD (2011)

AB-SO-LU-TA-MEN-TE DES-CAR-TÁ-VEL!!!

Quando coloquei este CD no mp3 do carro, não demorou muito para o Prestes protestar:

— Ó, filho de Bach, esse troço é um lixo.
— Mas é Miles Davis.
— Não interessa, é um LIXO!

Logo depois, o Igor começou a teorizar, dizendo que poucos criadores e artistas sobreviveram ilesos ao mau gosto dos anos 80. Ambos têm razão. O Igor referiu-se à forma como a época imiscuiu-se na obra dos mais diversos criadores musicais com resultados quase sempre muitíssimo danosos e malcheirosos do ponto de vista artístico. Prestes disse que o álbum vermelho do conservador (do ponto de vista musical) Chico Buarque, lançado em 1984, possui coisas estranhas como aqueles sons — schuuupp, fiiiissst… — que acompanham a criançada se alimentando de luz. É verdade, não tinha me dado conta. Eu não sei o que houve naquela época. O disco, com suas baterias eletrônicas e seus tecladinhos com sons de estrelas tomaram conta do panorama de tal maneira que o melhor foi cobrir a cabeça com o travesseiro das músicas de qualquer outra época. Igor citou os Ramones como exemplo de dignidade e resistência ao ridículo. Miles Davis? Sim o grande Miles foi vitimado, soçobrando lamentavelmente.

(Neste momento, já em casa, minha filha revolta-se contra a versão a la Paul Mauriat ou André Rieu para Time after time (sim, de Cyndi Lauper) que está na faixa 7 do segundo CD.

— Pai, por que tu tens que ouvir essa droga?

Ah, se ela tivesse ouvido Human Nature… Eu estaria morto).

Bem, aqui temos dois CDs. O primeiro é o Tutu original. A única coisa que presta no disquinho é Tutu e Full Nelson, cujo nome correto deveria ser Full Prince, pois o anão de Minneapolis faz exatamente aquilo ali, só que muito melhor. O segundo CD é uma tentativa desesperada dos relançadores atuais de salvar a situação. É um álbum remasterizado de um concerto de Miles no Festival de Nice de 1986, nunca lançado antes. O CD é bom, as improvisações estão ali, mas não funciona. Era 1986 e há coisas de brochar qualquer vivente.

Tutu (uma homenagem a Desmond Tutu) foi lançado em dezembro daquele ano e, na verdade, deu nova feição à carreira de Miles. Para variar, a merda ganhou dois prêmios Grammy e recolocou o genial trompetista como uma grande estrela internacional. Nada mais imerecido. Como dizia minha mãe, que não costumava ouvir nunca porcarias, é MÚSICA PERECÍVEL. (Obrigado, Maria Luiza).

Quase todas as composições do disco são do baixista e produtor Marcus Miller. Aliás, como comentaram o Igor e o Prestes, foi uma tremenda sacanagem do cara. Ao lado de todo aquele mau gosto, de toda aquela distorção Bee Gees, há um baixo seguro e digno. Só. É Marcus Miller, que parece ter feito a bosta com a segunda intenção ser o único sobrevivente. Olha só: o trompete de Miles no Tutu original está sempre com surdina, as baterias são eletrônicas, os teclados abrem portais imaginários com fadinhas dentro. O único som humano é o do baixo e de um lá que outro sax. O resto está abaixo no nível do rio Mississipi, sob a água.

Mas foi um tremendo sucesso de público.

Eu acho engraçada a forma como é dividida a carreira do indiscutivelmente genial Miles Davis:

1 Juventude – de 1926 a 1944
2 Bebop e Birth of the Cool – de 1944 a 1955
3 Primeiro Grande Quinteto e Sexteto – de 1955 a 1958
4 Gravações com Gil Evans – de 1957 a 1963
5 Kind of Blue – de 1959 a 1964
6 Segundo Grande Quinteto – de 1964 a 1968
7 Elétrico Miles – de 1968 a 1975
8 Década Final – de 1981 a 1991 <– Ou seja, o grande equívoco, a MERDA que nem recebeu um título distinto da temporalidade que a caracterizasse.
9 Morte – 1991

Miles Davis — Tutu Remastered Album — Deluxe Edition (2011)

1. Tutu
2. Tomaas
3. Portia
4. Splatch
5. Backyard Ritual
6. Perfect Way
7. Don’t Lose Your Mind
8. Full Nelson

CD 2
Live At Nice Fest 1986

1. Opening Medley
2. New Blues
3. Maze
4. Human Nature
5. Portia
6. Splatch
7. Time After Time
8. Carnival

Miles Davis – trumpet
Marcus Miller – bass guitars, guitar, synthesizers, drum machine programming, bass clarinet, soprano sax, other instruments.
Jason Miles – synthesizer programming
Paulinho da Costa – percussion on “Tutu”, “Portia”, “Splatch”, Backyard Ritual”
Adam Holzman – synthesizer solo on “Splatch”
Steve Reid – additional percussion on “Splatch”
George Duke – all except percussion, bass guitar, and trumpet on “Backyard Ritual”
Omar Hakim – drums and percussion on “Tomaas”
Bernard Wright – additional synthesizers on “Tomaas” and “Don’t Lose Your Mind”
Michał Urbaniak – electric violin on “Don’t Lose Your Mind”
Jabali Billy Hart – drums, bongos

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

Um dos discos mais superestimados de todos os tempos, uma bosta
Um dos discos mais superestimados de todos os tempos, uma bosta

PQP

28 comments / Add your comment below

  1. Pensei que nunca alguém teria coragem de criticar esse cd do Miles. Desde a primeira vez que o ouvi, com exceção da faixa título, torci o nariz. Ah, é a genialidade do Miles, encarando um novo desafio, quebrando mais um paradigma, como era do feitio do genial trompetista, diziam os defensores do CD. Quem não gostou foi tachado de ignorante, ou insensível, de não estar vendo a genialidade do trompete com surdina de Miles. Mas esse CD, o os outros que vieram logo a seguir, sempre me irritou muito, principamente por causa daquelas baterias eletrônicas. Curioso é o próprio Miles ter aceito esse resultado. Vendo a lista dos músicos, vemos o nome de George Duke, um excelente músico que naqueles malfadados anos 80 produziu muita coisa ruim, e pior, levou muita gente boa junto, como o Stanley Clarke e o meu ídolo Herbie Hancock.
    Mas, caro PQP, eram os anos 80, em que a música se nivelou por baixo, com raríssimas excessões. Com todo respeito à genialidade de Miles Davis, que considero um dos maiores músicos do século XX, e que gravou clássicos como “Miles Ahead” e o melhor disco de jazz de todos os tempos, “Kind of Blue”, “Tutu” iniciou uma nova era no jazz, à qual quase todos os grandes músicos se renderam: à banalização, ao fácil, ao óbvio, à falta de criatividade. E lixos como Kenny G., com seus belos cachos cuidadosamente encaracolados graças à litros de laquês começaram a fazer sucesso.
    Pronto, falei… confesso que tinha isso engasgado na garganta desde os tempos em que o LP foi lançado.

  2. Gostei do diagnóstico: um pecado não só do Miles, mas de toda uma década. Outra vítima: o nosso Milton Nascimento. A moçada de hoje tem dificuldade de entender o quanto o Milton foi inovador, revolucionário, outsider, marginal, maldito, todas essas coisas, do surgimento até fins dos anos 70. Não por acaso a banda com que trabalhava era o “Som Imaginário”. Nos anos 80 ainda existem canções fantásticas, mas os teclados e eletrônica em geral fazem tudo naufragar numa pasta pesada e opaca que haja ouvido pra carregar. No meio disso tudo ainda consegue fazer-se um disco de beleza extraordinária – Encontros e Despedidas, de 1985 – que consegue capitalizar a tecladaiada e seus ruídos brancos para um resultado musical pra lá de sensível e tocante. Mas a maior parte da produção da década ficou dura de ouvir.

  3. O Raul Seixas tem uma música cuja letra bem define o que foram os anos 80: charrete que perdeu o condutor. Não digo que foi totalmente perdido porque, para quem gosta, é claro, houve o surgimento do movimento metaleiro na Inglaterra, que trouxe bandas como Iron Maiden, Saxon, para citar algumas. Lembro também que com o fim do Led Zeppelin, em 1979, e o ostracismo de outras grandes bandas, como o Deep Purple, The Who, e por que não dizer, os próprios Rolling Stones, aquele rockenroll dos anos 70 ficou órfão. O próprio Nazareth, que o Vanderson citou acima, caiu numa chatice só, com baladas bobas para uma banda que gravou um disco seminal como o “Razamanaz”. O próprio Rush fez algumas bobagens, metidos com teclados e sintetizadores, que descaracterizaram o som da banda.
    Vivi intensamente a década de 80, confesso. Fracassos, desilusões amorosas fazem parte da vida de um adolescente entrando na vida adulta. Mas boa parte desta frustração vinha da falta de oportunidades que aquela geração enfrentava. Estávamos saindo do governo militar, e nosso presidente era José Sarney… que esperança poderíamos ter? Plano cruzado, plano verão, plano Bresser.. e para coroar uma década perdida, a eleição do Collor no final da década. Quem tem mais de 40 anos sabe do que estou falando.
    Para que não haja confusão: quando falo de Kenny G. é óbvio que que não estou falando do Kenny Garrett, excepcional saxofonista que tocou com o Miles.

  4. Rapaz, genial mesmo é esse post. Estava aqui prestes a desligar o notebook depois de ter me enfadado com a mesmice de todos os blogs que visito, e eis que vejo o link sobre o Miles e venho conferir. “Portões que se abrem com fadinhas dentro”, hahahaha, é exatamente isso! Uma desiconização bem humorada e necessária. Até mesmo o grande Miles teve o seu período de merda. Devo confessar, contudo, que admiro tanto o cara que só o ouço até o On The Corner. Nada dos anos 70, e nem tão pouco dos anos posteriores.

    Como nunca sei quem dos filhos da puta escreveu o post, não sei a quem parabenizar.

    Abraços.

  5. Anos 80? Talvez o Metallica. Ou águas mais revoltas. Certamente não o que tocava nas FMs. No Brasil tinha Arrigo Barnabé (Clara Crocodilo ainda é o bicho), no início, e depois talvez Hermeto. Mais que isso, nessa noite chuvosa, é exigir demais da memória.

  6. Não ia escrever mas não resisti.

    Achava que era um dos poucos a não gostar dos anos 80. Não me lembro de muita coisa dos anos 70, mas o que conheço desta época, em termos de música e cinema (salvo exceções), prefiro à posterior década.

    F.D.P. Bach:
    Boa a lembrança do saudoso Rauzito, pena que ele nasceu 10.000 anos antes e foi-se embora, no Corcel 73, com os anos citados. Década maldita! começou com a morte do Lennon e do John “Bozo”, teve a pandemia de Aids, teve hiperinflação, o Reagan não conseguiu matar o Kadaffi, o metamorfose ambulante bateu as botas e Paulo Coelho não é consolo…
    Quando ao Led, caro FDP, pra mim a maior banda de rock, eles começaram a enfraquecer depois do “Houses of The Holy”.
    Você ainda deu-me uma ideia que iluminou minha mente romanceadora: e se o “bar 80” não fossem perdidos? Tivessem sido uma época de oportunidades? Se o Tancredo tivesse sido presidente? Nossas vidas seriam diferentes?

    Escutei um pouco do Tutu no Youtube e, já nos primeiros 30 segundos, atacou-me a referida repulsa aos anos 80. Embora adore Miles, o Kind é inesquecível!, o Tutu não vai, assim como o cacheado Kenny G., pra quem conheceu o Jazz de Miles, Thelonius, Art Blakey, Bud Powell, Mingus e Coltrane.

  7. Pqp, não lembro qual pergunta fiz… mas lembro de perguntar algo. De qualquer forma, quer me dar uma dica? O prato anda parado por que sozinho não tenho conseguido manter uma boa sequencia de posts. Sabe de pessoas legais que gostariam de entrar na equipe e postar comigo?

    Grande abraço do Amazonas,
    Átila PF

  8. Não costumo dar muitos ouvidos a críticas amargas e mal-humoradas (embora engraçadas), pois elas revelam mais sobre seu autor do que sobre a obra em sí. Senão eu jamais teria baixado esse disco, após ouvir o PQP esgrimir seu “esse TuTu do Miles Davis é uma merda”… “broxante”… “danoso e malcheiroso”. Mas em Deluxe Version, eu completaria…

    Percebí tambem que nenhum dos comentários aí acima exibiu alguma razão insofismável pra detestar o disco, apenas o FDP enumerou alguns “adjetivos subjetivos”. Coisa de opinião, tudo bem.

    Pois baixei o tal Tutu, artefato de cunho mercantilista e me divertí com algumas audições (depois de alguns Monks e outros Mingus) que não me causaram dano, pelo contrário me enrijeceram para a vida de melômano eclético… Eu raciocinei: “Esse é apenas um produto datado, feito pra vender. Mas não é tão desprezível assim!”. Bach tambem cometeu seus pecadinhos, seus crimes de natureza mercantilista e repetitiva… Mas o que fazer se a teuto-repetição é mais facilmente perdoada, né?

    Não vou deletar o disco, ele deu o que tinha que dar, vou aposentá-lo e ele repousará (talvez imerecidamente) entre “Kind of Blue”, “E.S.P” e tambem entre compositores “menores’, como Grieg, Elgar, Clementi e outros menosprezados pela “intelligentzia” empolada. Na verdade não gosto da expressão “compositor menor”, ela pode passar a excessiva idéia de que quem a profere é “maior” em alguma coisa.

    Ó, PQP! Mande mais!

    P.S.: Os anos 80 foram tão fracassados assim, segundo a quase unanimidade aquí presente? Não me lembro dessa forma, nunca tinha ouvido tal lampejo de idéia, muito pelo contrário! Entretanto, como tal epíteto foi decretado por nobres comentaristas, devemos conferir!

  9. fiquei feliz pelo Ranulfus citar Milton Nascimento. Quem já ouviu Clube da Esquina, Milagre dos Peixes, Courage entre outros sabe o que Milton fez.

  10. Fdp, vocês nunca pensaram em colocar alguns blues também?
    Miles tentou atingir a todos, mas a que custo?
    Ainda assim, sua criação nao deixa de ser admirável, merecendo ao menos o beneficio da duvida!

  11. Os sonzinhos estranhos no cd do Chico de 1984 não são mal utilizados, não. E aparecem com extrema parcimônia em uma única faixa, se bem me lembro. Aliás, aliás, acho que o Chico é mais interessante no início década de 80 que na de 70 (apesar de monumentos como Construção), e o Chico de 1984 é talvez ainda superior ao Almanaque, que já era um álbum impressionante (aquele moto contínuo é um negócio).

  12. Concordo, Itadakimasu. Não abomino tudo que é eletrônica, ruídos brancos etc. – tanto que tbm elogiei o Encontros e Despedidas do Milton. E vc tem razão: o Chico anos 80 é monumental, denso, sólido… O que no me gusta são: (1) textura opaca, empastada por excesso de sons: mil instrumentos fazendo mil vozes que não se ouvem distintas, apenas terminam por tapar tudo. (Sem desconsiderar que o órgão e a orquestra clássicos também podem incidir no mesmo pecado); (2) ainda pior: BATIDAS banais.

  13. Desculpem o comentário fora de contexto do post.
    Quinta/08.09 teve concerto da filarmônica de BH/MG no Teatro São Pedro em POA e eles tocaram no primeiro ato o CONCERTO PARA PIANO EM FORMAS BRASILEIRAS do Heckel Tavares.
    Não se sei alguém teve o prazer de assistir e ou conhece este compositor, mas foi muito interessante. Queria perguntar se ninguém com suas amplas discotecas não possui nenhum CD dele por ai?
    Caso sim já fica a sugestão para um post.
    Abraço!

  14. Meu pai tem o original em vinil. É um baixo da carreira do Davis sim, mais comercial do que propriamente experimental, mas gosto dele. Muito melhor do que alguns discos do próprio Marcus Miller, que se inclinou para o funk. A versão para Time after Time na verdade foi gravada num disco posterior ao Tutu, que foi o You´re Under Arrest, que é muito mais puxado para o rock, no entanto bem mais pop, diferente das influências psicodélicas dos anos 70. A gravação do hit da Lauper pode parecer oportunismo comercial, mas também reflete um pouco o pensamento de outros jazzistas, como o guitarrista Stanley Jordan, que, na época em que gravou seus primeiros discos, disse que os standards para ele eram as músicas da sua geração, tal como algumas que ele gravou nestes álbuns, como Angel do Jimmy Hendrix e Eleanor Rigby, dos Beatles. Sem bajulação, mas acho que somente ele pôde gravar aquela música e continuar soando como ele mesmo.

  15. Por três vezes tentei escrever ontem, mas o meu notebook está com problemas no teclado, então acabei desistindo.
    Minha cidade está sofrendo mais uma enchente, e estive sem energia elétrica durante todo o dia de ontem. Onde resido, um sítio, não sofremos maiores problemas, a lamentar apenas o desligamento da energia elétrica, por precaução, e o isolamento, devido ao fato de estarmos fora da cidade, e todos os acessos que levam ao centro estão embaixo dágua. Nosso contato com o mundo exterior durante o dia de ontem era através de um velho rádio a pilha, e por sorte, tinhamos pilha estocada desde as tragédias de 2008 aqui na região. Enfim, nestas horas, internet, celular, tudo estava sem comunicação. Apenas as boas e velhas ondas de rádio. Como o meu celular é mais simples, não tenho acesso à internet através dele. Agora a pouco, fui fazer algumas compras num supermercado, mas já fiquei alertado com o aviso na entrada: compras apenas à dinheiro e cheque pois as máquinas de cartão de crédito e débito não estavam funcionando. Felizmente, eu tinha um pouco de dinheiro no bolso, o que permitiu comprar apenas o necessário, nada de supérfluo.
    Fiz esse pequeno relato apenas para demonstrar como, no final das contas, somos vítimas da tecnologia. O que está deixando o pessoal informado aqui na região não é a internet, tv a cabo, redes sociais ou os celulares, ou até o telefone comum, mas o velho rádio á pilha, pois sem energia elétrica, não podemos fazer nada. Muitas vezes reclamo aqui mesmo no PQP que moro em um sítio, que a OI não consegue aumentar a velocidade de meu adsl devido à distância, etc. Mas nestas horas vejo como sou privilegiado. A água que consumimos é de nascente própria, não dependemos do serviço público de água e esgoto. Um sexto sentido talvez tenha estalado na cabeça dos antepassados de minha esposa quando adquiriram estas terras. A família mora aqui há mais de 70 anos, e enquanto toda a cidade fica embaixo dágua, nós aqui só temos a lamentar a falta de energia elétrica, e claro, o isolamento.

  16. Bem, agora posso fazer algumas considerações que considero oportunas após o desabafo sobre minha insatisfação com os anos 80. O disco do Miles Davis acabou servindo de bode expiatório, e está muito longe ele ser o grande vilão daquela década (basta lembrarmos da dupla Mili & Vanili, aquilo sim uma farsa). Talvez eu tenha me empolgado um pouco no comentário anterior. Com o perdão da banalidade e obviedade do comentário, cada um é cada um e cada um vive sua própria realidade, e de acordo com suas escolhas e possibilidades. As escolhas que fiz naquela época podem não ter sido as mais acertadas, mas às fiz de acordo com as possibilidades da realidade que me cercava.
    O Renan comentou acima sobre o Stanley Jordan, que considerei um gênio até o “Standards”, uma obra prima, sem dúvida. Não tenho nada contra a releitura dos Standards, adoro os Songbooks da Ella Fitzgerald, devo ter quase todos, e me ajoelho diante do talento da Diana Krall. O que me deixou insatisfeito com o Tutu, do Miles Davis, foram as escolhas que o Marcus Miller fez. Claro, quem sou eu para criticar o genial Miles. Mas gosto é gosto. Muitas vezes não conseguimos explicar o que nos leva a gostar ou não de determinada música, ou compositor, pois o que determina isso são os nossos instintos, pariculares e únicos, diga-se de passagem. Vai de nossas experiências de vida, de nossas escolhas (sempre elas… !)
    Não pretendo voltar a discutir isso. Acho que esgotei o tema. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é, como dizia o poeta.

  17. O fato de ser trompetista não me faz discordar – Tutu é um porre. E ao longo desses anos é um outro porre, em toda Jam que participo, ouvir pedidos para tocar… Tutu. Os bateristas adoram pois que se danam em acrobacias intermináveis e insuportáveis. A galera faz u-hu! e eles só faltam gozar. Miles Davis sem dúvida está acima de certas críticas pelo seu papel no jazz, sobretudo por ter criado, de certa forma, uma ponte sobre o império do rock entre os anos 60 e 80; não podendo vencê-los, juntou-se aos apetrechos eletrônicos, todavia, dando o tom a muitos que arrebanhou e fazendo-os ver que aquele negócio de fusion era a galinha dos ovos de ouro naquele momento. Embora prefira caras como Clark Terry e Booker Little, acho certas fazes de Miles formídáveis. A última, contudo, não fazia jus ao passado – e ele sabia muito bem disso.

  18. “No Brasil tinha Arrigo Barnabé (Clara Crocodilo ainda é o bicho), no início, e depois talvez Hermeto. Mais que isso, nessa noite chuvosa, é exigir demais da memória.”
    Na realidade os anos 80 no Brasil começou em 1975/1976, muita música de primeira qualidade Paulo Moura arrebentando na Estudantina, Hermeto, Flora Purin,Egberto etc….Badem já estava nos EUA..no Brasil a musica acontecia de todas as formas Luiz Gonzaga Jr. falava verdades enquanto Caetano e Chico estavam com medo da dita cuja da Ditadura.Dori Caymmi fazia trilha pra Rede Globo mostrando o Brasil em canções.
    Há por falar em Miles nessa época ele roubou a música Igrejinha do Hermeto..mais tudo bem o velho duende é um genio e nem ligou pra isso…
    Ps. num sou velho não é que desde pequeno meus pais me mostraram essa tal de música…..

  19. @Vanderson Agradeço muito seu apoio e fico feliz que tenha gostado. Eu tenho milhares de discos pra postar mas tenho pouco tempo – preciso de uma “equipe” e não sei onde encontrar esses voluntários.

  20. e o Doo Bop (1992) porqué nao entrou na palestra?? gostaría ler opiniões… pessoalmente gosto muito, justo antes de morir, toma la mano, el pulso de la música en ese momento y lanza el acid jazz… es una delicia de escuchar y saber como le importa un carajo asumir este riego de misturas, hip hop, funk, voces… haaaaaaa… buscar siempre, pretender, soñar, etc… ele nunca se apos – sentou … cool….. e Amandla???? prefiero tirarme a un vacío adelante y tratar de volar que sentarme…
    beijos… adoro vocés, seus debochados…

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