Para conhecer e gostar da música clássica brasileira

Nosso ouvinte Gabriel Cezar perguntou ao Bisnaga quais as principais obras ele deve ouvir para conhecer e gostar da música clássica brasileira.

A resposta foi tão boa que a compartilho aqui:

Eu, particularmente, de uns anos pra cá, tenho me viciado cada vez mais em música erudita brasileira: consigo ver movimentos e expressões de nosso país, nossas sonoridades e me sinto representado nelas.

Mas há que se começar e, pra isso, vou pensado aqui pra você em obras belas, melodiosas e que são fáceis, que agradarão na primeira audição.

– Se você gosta de música instrumental, sem vozes, indico o Episódio Sinfônico (Francisco Braga), a Sinfonia em Sol (Alberto Nepomuceno), as aberturas de Maria Tudor e Odaléa (Carlos Gomes), o Noturno de Odaléa (Carlos Gomes), as aberturas Zemira e Abertura em Ré (Padre José Maurício Nunes Garcia), o Despertar da Montanha (Eduardo Moura), a Alvorada da ópera Lo Schiavo (Carlos Gomes) e o maravilhoso, estupendo Concerto para Piano e Orquestra em Formas Brasileiras (Hekel Tavares).

– Ainda somente instrumental, mas de formação menor, para orquestras de câmara: a genial Sonata em Ré (Carlos Gomes), o Concerto para Harpa (Radamés Gnatali).

– Se você gosta de música do século XX, precisa conhecer Villa-Lobos, um dos grandes compositores do mundo nesse século. Recomendo dele: A Floresta do Amazonas (inteira), Choros nº10, Bachianas Brasileiras, especialmente as de nº 4, 5, 7 e 8, o Canto do Cisne Negro, o Concerto para Harmônica (gaita) e Orquestra e as Sinfonias 10 e 11, além dos 5 concertos para piano e Orquestra. Nossa, não poderia me esquecer do Estudo nº1 para Violão dele, é o toque do meu celular…Tem outras obras de compositores do século XX (ou da virada do XIX pro XX) que misturaram ritmos e sonoridades populares aos cânones clássicos, e saiu muita coisa boa como Mourão (César Guerra-Peixe), Maracatu do Chico Rei (Francisco Mignone), Congada (idem), Batuque (Alberto Nepomuceno), Batuque (Lorenzo Fernandez), Kyrie da Missa Armorial (Cussy de Almeida), o Capricho Medonho (Marcílio Onofre), a Missa de Alcaçuz (Danilo Guanais) e a sublime Ave Maria de Jorge Armando.

– Se gosta de solos vocais e ópera, comece com Il Guarany, Lo Schiavo e Maria Tudor, todas de Carlos Gomes. Veja primeiro os solos de soprano de Gomes, que são, a meu ver, os mais bonitos.

– Se, por fim, a sua praia for música com coral/sacra, ouça As Costureiras (Villa-Lobos), o Invitatório das Matinas de Natal (Pe. João de Deus de Castro Lobo – de arrepiar até os cabelos da nuca), o Credo (Inácio Parreira Neves), o Gloria da Missa a 5 Vozes (André da Silva Gomes), o estupendo Salmo 150 (Ernani Aguiar), o Requiem e a Missa de Santa Cecília (Padre Maurício Nunes Garcia), o Magnificat (Manoel Dias de Oliveira) e a portentosa Missa em Aclamação a Dom João VI (Neukomm).

Ainda pulei vários compositores bons, como Lobo de Mesquita, Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro e muitos, mas muitos outros!

Dê uma olhada em parte disso. Você vai mudar de ideia. Se não quiser sair baixando tudo, veja no youtube: tem boa parte. Querendo baixar, tudo isso tem aqui no P.Q.P.Bach ou no Música Brasileira de Concerto.

Espero ter te ajudado a desvendar esse universo imenso e maravilhoso da música brasileira. Ainda tem muita coisa pra gente tomar conhecimento…

Abraço e boa sorte,

Bisnaga

28 comments / Add your comment below

    1. Lucas, realmente não avancei pra turma do século XXI… Tens uns caras muito bons, mas aí me falta repertório, mesmo (vergonha…) e também é música mais difícil, entra eletrônico, atonalismo, coisas que não são fáceis de assimilar.

  1. Bela lista, Bisnaga!

    Duas lacunas grandes: Camargo Guarnieri – superior a todos, menos Villa-Lobos; para quem gosta de Bartók, Prokofiev e os neoclássicos é um prato cheio – e Marlos Nobre, para quem gosta dos pós-serialistas. (E tem também o Almeida Prado, que tem muita coisa boa.)

    1. Realmente, José Eduardo.
      Escrevi aquela lista toda em 10 minutos. Tem lacunas (e essas três que você citou são, realmente, imperdoáveis), mas ajuda a começar.
      Agradeço a você e a todos que estão acrescentando outros nomes e obras na lista.

  2. Belíssimo roteiro inicial, Avicenna e Bisnaga.

    E no que se refere às partituras para teclado seria bom ouvir tambem a obra para piano solo de Villa-Lobos, Alberto Nepomuceno, Henrique Oswald, Francisco Braga e Francisco Mignone.

    Todos eles têm páginas bem atraentes que certamente irão atingir a sensibilidade de iniciantes, e não só deles.

  3. Bela seleção!
    Permito-me apenas acrescentar uma pequena, pequeníssima, mas maravilhosa pérola de menos de 4 minutos, da música barroca mineira: o “Maria mater gratiae”, do Marcos Coelho Neto. Ouçam a gravação dessa delicadeza tocante no cd “Armonico Tributo”!

  4. Amigos, alguém sabe me dizer em que cd (se é que existe?) onde encontrar essa obra “Invitatório das Matinas de Natal” (Pe. João de Deus de Castro Lobo), essa de arrepiar? Grato!

    1. Pedro, é sério. Eu arrepiei ao ouvir essa peça, e não foi só na primeira vez. É daquelas coisas que Deus desceu na terra pra dizer pro Castro Lobo: “escreve assim, filho, que vai ficar bom”… Depende do dia e do humor, ela ainda me eriça os fios de cabelo da nuca.

  5. Me sinto meio esquisito querendo falar de música feita “ontem” com tantos fãs de música tão antiga por aqui, que eu também adoro, claro; mas de qualquer forma, aqui vai uma seleção de peças eletroacústicas de compositores BEM jovens: http://soundcloud.com/nmelindo

    São curtas, ideais pra se ter uma pequena idéia desse universo musical. Minha preferida é Sobre a flor da terra, do Mannis, uma colagem feita a partir de três versões de “O que será?”. Milton, Caetano e Chico juntos numa música nova e velha ao mesmo tempo.

  6. Srs, aproveito o gancho para reforçar a idéia sobre a música de concerto, prefiro esse termo ao Música Erudita, acho-o meio agressivo, espanta as pessoas, parece que só intelectuais e eruditos podem ouvi-la, o que não é verdade. Comecei a gostar desse tipo de música aos 15 anos, em 1965, quando ia dormir colocava um Vivaldi e acertei em cheio. Repeti as sessões, com Bach, Chopin e fui progredindo. Veja só, morava em Arapiraca, interior de Alagoas. O porquê da idéia? Não sei, gostava de ouvir os ensaios dos conjuntos da época e fui estudar clarinete. Um amigo de família rica, tinha uma coleção de discos em casa, da Abril, e foi me emprestando e daí, tornei-me, até hoje, aos 64 anos um ouvinte fiel e feliz. Achei na OSESP esse panfleto, achei-o de bom gosto e estou enviando, sem intenção nenhuma, apenas uma contribução.Abs

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    Se você está começando a frequentar salas de concerto, seja muito bem-vindo.
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    POR QUE SILÊNCIO?

    O QUE VESTIR?

    QUANDO APLAUDIR?

    E SE EU CHEGAR ATRASADO?

        1. Valeu, pessoal.

          Eu ainda quero fazer essa postagem ampliada e com os respectivos links das obras, com os acréscimos dos compositores que pulei.

          Também é uma boa publicar aqui no PQPBach essas noções de música clássica, pois tem muita gente começando a ouvir os clássicos que se depara com o site.

          Abraços fraternos e animados

      1. Obrigado a vc pelo espaço para nossas discussão em torno da Música de Concerto, tema quase extinto das salas de reuniões, da mídia, inimiga número um do bom gosto lítero-musical. Obrigado por todas as postagens de altíssima qualidade. Abs

  7. Deveriam mudar o nome do Blog, já que não tem mais relação com a Música Clássica de qualidade tocada pelas grandes orquestras.

  8. Escribo en español sabiendo que todos los seguidores de este sitio lo comprenderán sin problemas. PQP es un verdadero amigo fiel, en particular los post de música del Brasil, de una riqueza notable.
    Me permito pedir alguna grabación de un compositor poco difundido: Hubertus Hofmann. La “Sonatina breve-aguda” y el “Divertimento” (1985) obras muy atractivas, son las únicas grabaciones que tengo. Me gustaría tener otras obras.
    Bravo! por PDQ
    Cordiales saludos desde Buenos Aires.

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