João Baptista Siqueira (1906-1992) – Cangerê, Cantata em Tupi [link atualizado 2017]

IM-PER-DÍ-VEL !!! (mais uma vez!)

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Para fazer ponte com Xangô, a cantata negra do genial José Siqueira, postada na semana passada (aqui), que tal ouvir agora Cangerê, a cantata em Tupi escrita pelo fabuloso (não vou usar meias palavras: é fabuloso, sim!) e desconhecido João Baptista Siqueira?
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Confesso que ando com uma certa raiva de mim mesmo por conhecer pouco de José Siqueira e uma raiva ainda maior por desconhecer completamente a existência de Baptista Siqueira até há pouco tempo atrás. São dois nomes que o regime militar fez questão de colocar no ostracismo e que foram importantíssimos para a música brasileira.
João Baptista Siqueira, nosso homenageado de hoje, nasceu em Princesa, na Paraíba, em 1906. Não estranhe os sobrenome igual: ele era irmão, um ano mais velho, de José Siqueira, ambos filhos de um maestro de banda e com quem aprenderam as primeiras notas. Os dois rapazes, João Baptista e José, vieram para o Rio de Janeiro para prestarem serviço militar e integraram, ambos, a banda do regimento. João só conseguiu ingressar no Instituto Nacional de Música (hoje Escola de Música da UFRJ) aos 23 anos e lá foi aluno de grandes mestres como Francisco Braga e Francisco Mignone. Em pouco tempo passaria a integrar o corpo docente do Instituto onde seria um professor e teórico destacado. Enquanto José Siqueira tinha uma atuação mais empreendedora, plantando orquestras pelo país, João Baptista atuava mais com registros da música local e com a teoria: foi crítico musical do jornal A Coluna do Rio de Janeiro e publicou vários livros, dentre os quais Folclore Humorístico. Influên­cia Ameríndia na Música do Nordeste, Modinhas do Passado, Pentamodalismo e Ernesto Nazareth. Baptista Siqueira percebia claramente que era preciso conhecer melhor a nossa música. Dessa maneira, como não poderia deixar de ser, suas composições são fortemente influenciadas pelos cantos da terra: são concertos, cantatas, modinhas uma missa e uma ópera que, via de regra, se baseiam nas formas melódicas e rítmicas dos negros, índios, caiçaras e caipiras do Brasil:  um nacionalista de mão cheia!

Na cantata que ora apresentamos, Cangerê, bilíngue (em tupi e português), Baptista Siqueira consegue com primor marcar os elementos sonoros indígenas em música coro-orquestral de grande qualidade. Aqui percebe-se que, além de tudo, ele era um grande melodista: sua música é muito bonita. A execução também é valorizada pela bela voz de sua cunhada, Alice Ribeiro, e pela regência do mano José Siqueira (percebe-se que essa gravação foi uma reunião do pessoal do Instituto Nacional de Música).

O encarte do LP nos conta um pouco mais sobre a obra e como a obra foi feita:
A palavra Cangerê foi registrada pela primeira vez no século XVI por Jean de Lery em sua famosa obra “Viagem á Terra do Brasil”, quando trata da “religião dos selvagens”. A obra de Jean de Léry é da mais alta significação para nosso pais, seja no domínio histórico. etnológico ou musical: fornece termos, ritmos e até mesmo contos dos Tupinambás e Tamoios do tempo colonial, anteriores à chegada do elemento negro ao solo do Brasil. O viajante do século XVI que nos fornece tão precioso acervo Intelectual é, entretanto. um simples missioná­rio ealvinIsta que viera ao Brasil ajudar Villegagnon na cons­trução da malograda França Antártica.
Em 1956 foi iniciado o trabalho de composição da Cantata Cangerê, na base do sistema que o autor chamou de Pentamodalismo Nordestino, divulgado em obra especializada. O pro­cesso pentamodal se orienta em cinco escalas modais encon­tradas na temática popular do alto sertão, notadamente nos Estados da Paraíba, Ceará e Pernambuco. A forma estrutural das sete Catiras que compõem a Cantata Cangerê obedece ao corte da canção popular brasileira, incluindo-se, obrigatoria­mente, duas idéias temáticas contrastantes. O ambiente harmônico nasce das próprias escalas utilizadas na construção me­lódica. Os modos em que foram escritos os cantos sagrados, ou Catiras, têm caráter místico determinado. Nascem dai grupos rítmicos que sintetizam o conjunto de circunstâncias que estão, por seu turno, ligados às celebrações rituais de povos silvícolas. É necessário frisar, todavia, que os ameríndios faziam seus festivais sagrados sob a direção de Caraíbas, empregando, de preferência, coros e instrumentos suaves e não as buzinas estridentes que usavam nos momentos de combate ou nos poracés.
Nesta cantata, o autor evoca certos motivos da Teogonia Tupi na lingua geral, através de dados obtidos nas distantes regiões do Brasil Central e instrumentos originais dos indígenas brasileiros, tais como: inké (instrumento de invocação de Iara); iuxé (instrumento de invocação do caboclo Cachoeira); arremedo de Inambu e da Jacutinga.

Em tempo (1): há menos de 20 dias seu acervo foi doado para a Biblioteca Alberto Nepomuceno, da escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pela dona Zilma Siqueira, viúva do compositor, e está sendo organizado.

Em tempo (2): semana que vem teremos aqui no PQP a sinfonia Nordeste de Baptista Siqueira, ainda mais bonita que esta Cangerê!

Bom, chega de lenga-lenga! Pode se jogar de cabeça que a música de Baptista Siqueira é muito boa!
Mais uma joia! Ouça!

João Baptista Siqueira (1906-1992)
Cangerê, Cantata em tupi para soprano, coro e orquestra (1958)

1. Evocação a Tupã
2. Evocação a Iara
3. Defumação
4. Ritual do Cangerê
5. Exaltação à terra
6. Confraternização
7. Encerramento

Alice Ribeiro, soprano
Orquestra e Coro do Instituto Nacional de Música da Universidade do Brasil (provável: não foi identificada no encarte)
Murillo de Carvalho, regente do coro
José Siqueira, regente

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE (51Mb)

Partituras e outros que tais? Clique aqui

Ouça! Deleite-se! … Mas, antes ou depois disso, deixe um comentário, purfa…

Bisnaga

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  1. Cara, só para dizer que o site é sensacional! Graças a ele, estou sempre ouvindo peças novas e usufruindo o prazer decorrente disso. Valeu! Mesmo. Um abraço. Carlos.

  2. Não ouvi a obra, vou apreciá-la sim.
    Acho interessante que tanto se fala em música moderna e diversos conjuntos procuram sua divulgação a todo custo. A OSESP tem um “compositor em residência” todos os anos, trazem obras horrorosas e, em alguns casos, exacradas pela crítica expecializada (veja o caso do argentino Oswaldo sei lá do quê no ano passado). É justo e pertinente a divulgação de música moderna, mas porque não se faz isso com peças de compositores brasileiros, tão perto, tão merecido, tão esquecidos…
    Um abraço.

    Hélio.

  3. Nossa, Hélio, o Osvaldo Golijov (compositor argentino) foi execrado pela crítica paulistana? Internacionalmente ele é bastante elogiado… Temos, inclusive uma postagem da Passión Según San Marcos, dele, aqui no blog. Bastante interessante.
    Eu concordo em partes com você: devemos, sim, divulgar mais, muito mais da música aqui produzida, mas não podemos nos fechar e precisamos ver o que se faz de música fora daqui também. Mas que a porcentagem de músicas de brasileiros em nossos concertos poderia e deveria ser maior, ah, isso deveria. Quanto à OSESP, ela tem feito um belo trabalho de registro de compositores nossos, gravou Cláudio Santoro, Francisco Braga, Camargo Guarnieri, os hinos nacionais, e tem apresentado compositores brasileiros com frequência, talvez não na frequência que desejamos, mas numa quantidade louvável.

  4. Valeu Bisnaga! Mais um bom compositor resgatado do desaparecimento total por nossos heróis do pqp! Acho que este não estará “disponivel na Amazon”, não é mesmo?

  5. A OSESP gravou obras de compositores brasileiros por que isso era um projeto do Neschling. Mesmo os CDs que continuam saindo foram gravados naquela época. O Golijov é famoso por que a música dele é fácil e crossover e isso agrada muito, especialmente nos EUA. Mas, já estive em festivais de música contemporânea na Europa que a platéia foi saindo aos poucos do concerto e os que ficaram, inclusive eu, foi por consideração aos músicos. Atualmente, a OSESP não parece ter qualquer critério de scolha dos compositores atuais, a não ser o gosto pessoal e interesse político do diretor artístico. Quanto aos irmãos José Siqueira e Baptista Siqueira, eles estavam em lados opostos durante a ditadura militar. O José Siqueira foi perseguido e parece que quase teve a sua obra destruida por ordem de algum comandante militar. Ouvi dizer lá no Rio, que uma funcionária, não sei se da Biblioteca Nacional ou da Escola de Música da UFRJ, desconfiada de que isso pudesse acontecer, mudou os manuscritos de lugar e eles não foram encontrados.

  6. Bom, por mim, música é música, não importa a nacionalidade do compositor (e acho que vocês também devem pensar assim, com certeza). Devo admitir que não sou nacionalista, embora, é lógico, goste do nosso Brasil, já que nasci aqui. A música de cada povo tem características diferentes, e isso é interessante. Por isso acho que a OSESP, enfim, todas as orquestras, dispostas não só a tocar clássicos, como também música erudita moderna, deveriam incluir no seu catálogo obras de compositores de vários países, sem querer mostrar um certo “favoritismo” por compositores nacionais.

  7. Pois é, o nome do cara é Golijov, veja uma parte do artigo do artigo do João Marcos Coelho:
    “Golijov tenta fazer música popular como Piazzolla ou Tom Jobim fizeram. Só que o que sai de sua pena é música popular rala, rala – numa palavra, requentada. Melhor ouvir os originais ou mesmo os que hoje fazem música popular de verdade. ”
    O texto completo está aqui:
    http://www.concerto.com.br/textos.asp?id=166

    No mais as palavras do Sr Harry Crowl são precisas (grande compositor, música difícil, longe muito longe das superfialidades do argentino), quem dera se a OSESP o colocasse como compositor em residência por uma vez, ou outros bons por aí (Amaral Vieira, Marlos Nobre, Villani-Côrtes, etc).

  8. Senhores, gosto muito quando há assunto e polêmica nos comentários do PQPBach. Acho que esse espaço é também para isso: para discutirmos ideias sobre a música.
    Depois das informações do Crowl percebi que as críticas positivas que vi sobre o Golijov foram parciais e que daria pra ter ido mais a fundo e ver melhor as críticas negativas sobre ele e sim, apesar de eu gostar de algumas peças que conheço dele, não dá nem pra dizer que ele chega aos pés do Piazolla, seu conterrâneo. Ó, tô esticando o braço aqui e dando pra vocês torcerem.
    Da OSESP, como eu disse, gostaria que houvesse uma porcentagem maior de compositores nacionais, mesmo a orquestra executando obras de brasileiros em quantidade maior que outras grandes corporações nacionais. Há lá um espaço que vem mostrando novos compositores, mas talvez seja necessário executar obras de alguns anteriores também. Hoje é difícil imaginar a OSESP executando José Siqueira, por exemplo, ou Nepomuceno ou mesmo imaginando-a com novas obras do Guarnieri, sem contar os contemporâneos Amaral Vieira, Marlos Nobre, Villani-Côrtes citados pelo Hélio e o próprio Harry Crowl (e nem pedi os antigos, barrocos e classicistas)…
    Obrigado pelas valorosas contribuições de vocês.

  9. Claro que a música é universal (um lá é maior em qualquer idioma!), no entanto a música depende de ser divulgada para se estabelecer no repertório, veja o exemplo do violinista Joseph Joachim que fez o concerto de Brahms (e dizem até mesmo o de Beethoven) ser conhecido e respeitado pelo público. A falta de execuções das óperas de Carlos Gomes tornaram o compositor esquecido. Caso a divulgação de compositores brasileiros não ocorram por orquestras nacionais, o que é mais natural, ficarão esquecidos pois é muito mais difícil algum músico de fora se incursar em uma cultura da qual não conhece.

    1. Sim, Hélio. Na verdade, concordo com o Bisnaga. O que eu quis dizer (talvez não tenha sido entendido numa primeira leitura) é que as orquestras, ao passo que executam músicas de compositores modernos brasileiros, também devem executar músicas de compositores modernos de outros países, sem, contudo, deixar que o número de compositores nacionais exceda o de outros países.

  10. Agardeço as palavras de apoio dos colegas. Queria dizer que transcrevi para mp3, ontem, o Oratório Candomblé, do José Siqueira, gravado na URSS, em 1975. Gostaria de disponibilizá-lo. Para quem posso mandar o link do yousendit? Já o enviei para o Avicenna.

    1. Olá, Harry Crowl.
      Antes de mais nada, cedo aqui todos os meus elogios pela digitalização dessa peça, importantíssima para conhecermos mais do José Siqueira. Você sabe como poucos a dificuldade de encontrarmos material sobre esse brilhante compositor.
      Se quiser, pode enviar para o bisnagapqpbach@yahoo.com.br ? Como o Avicenna já tem, aí vemos juntos que se responsabiliza por colocar o Oratório Candomblé disponível aqui no PQP.

      Obrigado

        1. Eai Bisnaga, teremos este oratório na próxima Quinta?
          Estou bastante curioso pelas obras do José, principalmente depois que tomei nota da Cantata que você disponibilizou (mesmo está do Baptista sendo deveras bonita).
          Espero, e mais uma vez obrigado pelo trabalho feito neste blog.

          1. Prado, se tudo der certo (internet, e essas coisas temperamentais) teremos, sim o José Siqueira de Volta na quinta que vem com essa obra grandiosa que o Harry Crowl nos cedeu gentilmente. Segure ansiedade aí mais cinco dias, só e prepare-se: o oratório é fabuloso!
            Harry, agradeço aqui pela 12687943ª vez!

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