Michael Daugherty (1954 – ): Metropolis Symphony

Quando um compositor não tem referências culturais em sua infância e junto a isso, uma vida entediante e normal, dificilmente sua obra terá características próprias e originais. Por outro lado, na nossa sociedade descartável, muitos compositores negam suas origens por vergonha mesmo. Que compositor teria coragem de colocar em suas obras traços influenciados pelas bailarinas do chacrinha ou da égua pocotó? Mas ao negar sua origem, o compositor abusa de referências alemãs serialistas e sonoridades stockhausianas. Por isso a música deste tipo de compositor soa travestida, esse mundo ele não viveu.
O compositor americano Daugherty não se acovarda, além de não esconder suas referências culturais, ele as homenageia. Fã do super-homem desde menino, escreveu uma sinfonia em comemoração aos cinquenta anos (1988) da criação deste personagem. Eu já tive a oportunidade de ver está a sinfonia Metropolis ser apresentada na Holanda. Todo o público ficou satisfeito com a riqueza orquestral, mas o melhor de tudo, e o público sabia disso, aquele mundo era nosso. Os movimentos sinfônicos estão nesta ordem: 1 – Lex, referencia ao super vilão Lex Luthor, aqui representado por um violino endiabrado; 2 – Krypton, o planeta destruído do super-homem. O movimento é sombrio, os detalhes percussivos são riquíssimos; 3 Mxyzptlk, o duende da quinta dimensão. Pelas firulas das flautas, este movimento representa o scherzo da sinfonia. 4- Oh Lois! é um movimento alucinante, um pequeno concerto para orquestra em 5 minutos. Referência óbvia à jornalista Lois Lane. 5 – Red Cape Tango, o último movimento, a trágica batalha do super-homem com Doomsday, o canto medieval Dies Irae é desenvolvido, assim como no final da sinfonia fantástica de Berlioz, para dá o tom fúnebre ao destino do super-homem.
Já a outra obra do disco, Deus Ex Machina (2007) para piano e orquestra, é um concerto dedicado aos trens. O concerto tem o padrão rápido-lento-rápido dos concertos clássicos, mas a orquestra e piano estão em pé de igualdade, podemos dizer que está peça está mais para uma sinfonia concertante para piano e orquestra. Muito empolgante.

Faixas:
1. Metropolis Symphony: I. Lex
2. Metropolis Symphony: II. Krypton
3. Metropolis Symphony: III. Mxyzptlk
4. Metropolis Symphony: IV. Oh, Lois!
5. Metropolis Symphony: V. Red Cape Tango
6. Deus ex Machina: I. Fast Forward (Di andata veloce)
7. Deus ex Machina: II. Train of Tears
8. Deus ex Machina: III. Night Steam

Orchestra Nashville Symphony
Conductor by Giancarlo Guerrero

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  1. Adorei a idéia de uma sinfonia baseada no gosto do compositor por história em quadrinhos. depois de ler seu post fui no youtube e adorei o som mais do que a idéia. É muito bom, vale a pena baixar! Também gostei do seu elogio à audácia dele em não negar suas influências culturais, fez uma análise bem perspicaz de como essa negação “esvazia” a música. Parabéns pelo blog.

  2. Gostei muito a idéia de uma sinfonia baseada no gosto do compositor por história em quadrinhos. depois de ler seu post fui no youtube e adorei o som mais do que a idéia. É muito bom, vale a pena baixar! Também gostei do seu elogio à audácia dele em não negar suas influências culturais, fez uma análise bem perspicaz de como essa negação “esvazia” a música. Parabéns pelo blog.

  3. Muito bom, só creio que a noção de “música travestida” comporta exceções. O Arrigo Barnabé tem uma influência forte do serialismo alemão, mas consegue fazer o Schoenberg soar brasileiro (não é o mesmo Brasil do Quinteto Armorial, mas São Paulo também é Brasil).

  4. Não discordo, Gardel… mas acho que o Itamar Assunção dos primeiros tempos incorporava essas influências com mais ginga e feeling que o seu amigo Arrigo…

  5. Concordo, Ranulfus, mesmo porque acredito que a intenção do Arrigo passava longe da ginga… mesmo porque, se tentasse, ele é que soaria “travestido”, não autêntico.

    O Itamar estava provavelmente no mesmo nível, mas com outra linguagem, menos cifrada e mais “na veia”, mesclando muito mais influências. Mais para Kurt Weil do que para Schoenberg, arrisco (adoro os dois, digo, os quatro).

    Aliás, o próprio Itamar ficava bem raivoso quando diziam que ele não fazia música popular. O Arrigo Barnabé é bem mais resignado nesse sentido, ele sabe que vai sempre chocar a maioria dos ouvintes. E mesmo assim tinha fãs da estatura de Tom Jobim.

    Quanto a “feeling”, confesso que não sou fã dessa expressão tão subjetiva. No final, até Ivete Sangalo tem “feeling”, o que não muda muita coisa. Ginga, não, ginga é importante, é bom.

    Mas, no final, realmente me identifico mais com o Arrigo. Provavelmente porque também me falta alguma ginga.

  6. joachim, eu também não consegui baixar a musica apesar de varias tentativas. e olha que fiquei muito curioso´, aliás, continuo curioso. alguem pode nos ajudar, eu e joachim?

  7. O essencial do trabalho do Daugherty está baseada realmente no que se considera como sendo a cultura pop norte-americana, ou no imaginário dessa cultura. Nesse aspecto, é homólogo a alguns trabalhos do nosso querido Gilberto Mendes, ressalvando-se o fato de que, em minha opinião, a obra do brasileiro faz menos concessões ao ouvinte. Vale a pena sondar, entre outras obras, a ópera Jackie O., UFO e Motown Metal, cujos títulos são auto explicativos. Além, claro, daquela que eu acho a mais inspirada obra dele: Elvis Everywhere, para quarteto de cordas, sons gravados e sósias do Elvis Presley. Divertida, no mínimo…

      1. Hmm…
        O Filepost está me pedindo pra baixar um aplicativo, um “download manager” pra poder ter acesso ao arquivo.
        Desculpem amolar, mas é isso mesmo? Sem chateações depois?

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