Caiu na Rede é Peixe

Por que publico isso? Porque alguns de nossos links — poucos, ainda — estão sumindo e eu estou meio deprimido. É uma guerra que eles já perderam. Até os artistas aprovam a difusão de seus trabalhos. Eles querem ser ouvidos da mesma forma que um escritor quer ser lido. Sabem que ganham com a exposição. Um amigo meu, sabendo de meu desânimo, mandou-me este e-mail ontem:

O intrigante é que as gravadoras nunca se importaram tanto com a defesa dos direitos autorais quando a vantagem era pro lado delas. CDs de compilação, em que músicas de artistas eram vendidas e o próprio não via um centavo de royalties é prática comum até hoje.

… E tem coisa muito pior, como relançamentos dos quais o artista nunca é informado, artista sendo engabelado a vender direitos autorais de suas próprias canções, ou acordos por fora entre gravadoras e canais de distribuição, incluindo aí vendas mascaradas, em que a gravadora tira uma graninha que nem os músicos, nem o Ministério da Fazenda, chegam a ver…

Então, direitos dos artistas é o cacete. Aconteceu a mesma coisa quando o K7 foi lançado, ou quando as rádios começaram a executar música. O que as gravadoras querem é manter o arbítrio unilateral e total sobre o comércio de música… A diferença é que dessa vez eles não estão sabendo cooptar o inimigo, como foi feito com as rádios.

Não é contra a pirataria. É sobre pilhar sozinho nos mares.

Felipe de Amorim

Outro e-mail:

No que concerne à pirataria devemos pensar que ela deve operar, claro que por dinâmicas sociais, junto com outros modos de combate às privatizações da criatividade. No fim, e todos sabemos disso, não há nada mais delicioso do que ser privatizado, se tal processo significa segurança financeira e voz, donde surge uma intensa dor, a de estar à venda sem que ninguém queira comprar. Por isso, julgo que a pirataria deve fazer parte, pelo menos devemos pensar no que fazer, de toda uma rede de novos movimentos criativos. No caso da pirataria da música erudita, devemos produzir movimentos de habitação das salas de concerto e exigência de custos mais baixos, novas disponibilidades. No caso da música popular, penso que o ostracismo deve ser desmontado pela re-povoamento do espaço público pela arte. No caso dos livros, as pequenas editoras devem surgir com tiragens menores, mas fomentando leituras não evidentes. Parece que a internet, no fim das contas, serve para que sejamos capazes de encontrar e agremiar as pequenas coisas. Claro, com uma política atenta! Existem muitas capturas. A pirataria, como outras coisas boas ou ruins, funciona meio que como ácido. Devemos saber o que esperamos ver derretido.

Cesar Kiraly

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Por Alexandre Sanches – Publicado em CartaCapital

Na noite do domingo 15, a equipe coordenadora da comunidade Discografias, do site de relacionamentos Orkut, jogou a toalha, decretou o fechamento de suas portas virtuais e apagou por conta própria todo o conteúdo acumulado em quase quatro anos por 920 mil integrantes.

O conteúdo era música, toneladas virtuais de música compartilhadas pelos participantes de modo gratuito. Ou era pirataria, ilegalidade, crime, de acordo com o argumento usado por corporações musicais que pressionavam a população da Discografias a parar de infringir direitos autorais de compositores, músicos, produtores, editoras e gravadoras.

Um aviso ficou no lugar do maior fórum brasileiro de troca de música: “Informamos a todos os membros da comunidade Discografias e relacionadas que encerramos as atividades, devido às ameaças que estamos sofrendo da APCM e outros órgãos de defesa dos direitos autorais”. APCM é a sigla para Associação Antipirataria Cinema e Música, criada há um ano pelas indústrias fonográfica e cinematográfica, e dirigida por um ex-delegado.

Em comunicado oficial, a APCM confirmou que havia meses acompanhava e solicitava a retirada de links. “Já estava claro que a comunidade se dedicava a disponibilizar músicas de forma ilegal, ignorando todos os canais legais de divulgação e uma cadeia produtiva de compositores, autores, cantores, produtores fonográficos, etc.” E acrescentou considerar um “avanço positivo” a exclusão da Discografias.

O episódio é apenas a ponta visível de um fenômeno mundial de enormes proporções, que transformou a internet num admirável mundo novo para usuários, tanto quanto um inferno para os produtores da cultura antes vendida no formato de CDs e DVDs. Por baixo da pequena multidão reunida numa comunidade do Orkut, há proliferação vertiginosa de blogs e outros recursos de internet dedicados majoritariamente a ofertar download instantâneo e gratuito de discos, filmes e livros.

Tudo está disponível ali para ser compartilhado em qualquer lugar do planeta, do recente filme Gomorra a Louco por Você, um disco cuja reedição é vetada há 48 anos por Roberto Carlos. No campo editorial, o Portal Detonando desenvolve o chamado Projeto Democratização da Leitura – Biblioteca Virtual Gratuita, de downloads de livros. “Compartilhar, nesses casos, é o equivalente a disponibilizar, que por sua vez é uma forma de distribuição. Conteúdo protegido por direito autoral só pode ser disponibilizado por seus titulares”, reage o diretor-executivo da APCM, Antonio Borges Filho.

Mas, à diferença do que aconteceu na fase da pirataria física, hoje não é uma máfia ou o crime organizado que desrespeitam os cânones do direito autoral. Os blogueiros, a maioria deles anônima, são em geral colecionadores de discos, DVDs e livros que descobriram nos blogs a chave para participar do processo cultural, compartilhando seus acervos privados com o resto do mundo.

Em grande medida, são cidadãos comuns (médicos, fotógrafos, técnicos de informática, estudantes), desacostumados aos holofotes da mídia e distantes, inclusive geograficamente, dos bastidores do mercado cultural. De cinco blogueiros ouvidos por CartaCapital, todos garantiram não ganhar nenhum centavo (ao contrário, dizem investir dinheiro na atividade). Portanto, não aceitam o termo “pirata” nem se consideram como tal.

Cada blogueiro demonstra construir uma ética própria, e às vezes critica o que considera “errado” no comportamento do vizinho, mas não em seu próprio. “Acho estranho jogar na rede o trabalho de alguém que ficou dez anos sem gravar e agora fez um disco. É sacanagem”, afirma Mauro Caldas, de 44 anos, integrante de banda punk no Rio de Janeiro dos anos 80, que hoje trabalha em informática e é o único dos blogueiros entrevistados a abrir publicamente sua identidade.

Ele usa o codinome Zeca Louro no Loronix, um dos mais atuantes e abrangentes blogs musicais do Brasil. Escrito em inglês, recebe em média 3,2 mil visitas por dia e já foi acessado em 191 países, segundo Caldas. “Loronix só publica o que é antigo, sem nenhuma possibilidade comercial. Essa distinção a indústria sabe fazer muito bem”, diz, para justificar o fato de nunca ter sido incomodado ou ameaçado. Ao contrário: “Gente da indústria vem até mim, pergunta se tenho determinado disco, pede a capa se vai relançar. Eu colaboro”.

Outro blogueiro, autoapelidado Eterno Contestador e especializado em compartilhar CDs que ainda não chegaram às lojas, defende sua atitude. Diz que não distribui nada de maneira ilegal ou pirata, apenas copia links existentes na rede. E insinua que esses são vazados por integrantes da própria indústria, como jogada de marketing.

O produtor musical Pena Schmidt, ex-executivo de gravadoras e atual diretor do Auditório Ibirapuera, tem argumento semelhante: “A indústria sempre deitou e rolou com o vazamento do novo disco do Roberto Carlos ou do Michael Jackson, sempre deu para poder vender. Na época do piano de rolo, Chiquinha Gonzaga e Zequinha de Abreu eram demonstradores de lojas, tocavam para chamar a atenção das pessoas. Gravadora tocava música de graça no rádio por quê? Para vender música”. A diferença é que antes os vazamentos podiam ser controlados e se dirigiam a uns poucos “formadores de opinião”. Hoje, basta uma cópia cair na rede e pronto, a obra é de todo mundo e não é mais de ninguém.

O produtor Marco Mazzola, dono da gravadora MZA, defende a estratégia punitiva: “Medidas radicais devem ser tomadas, punindo, prendendo os que praticam. Você fica três meses dentro de um estúdio criando com o artista um CD, gasta em músicos, estúdios, capa, marketing, e antes de o produto estar no mercado já está na rede”. Schmidt discorda: “A lei não se encontra com a realidade digital. Por causa de 22 pessoas, 50 milhões se transformaram em criminosos? Não é mais fácil refazer a legislação?”

Se as gravadoras se desesperam com a perda de valor do material plástico que as sustentava, nebulosa é a posição dos artistas e criadores. “A indústria alega a defesa do direito dos autores, mas não é verdade, é só discurso. É a defesa de um modelo de negócio. Não sabem fazer de outra maneira e querem que o resto do mundo todo pare”, diz Schmidt. “Autor não fala sobre o assunto, a não ser que seja diretor de sociedade arrecadadora, como Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Walter Franco.”

CartaCapital procurou ouvir os três citados, entre outros, mas não obteve respostas. Uma possível razão para o silêncio é dada indiretamente pelos blogueiros. Diz um deles, identificado como Fulano Sicrano: “Meu blog adquiriu notoriedade entre artistas e produtores e, atualmente, uma parte do que é publicado é fornecida por eles próprios, à busca de divulgação”. Fulano é mantenedor do Um Que Tenha, que põe na rede novidades musicais, e, segundo ele, recebe 14 mil visitas diárias. “Embora deseje que seu trabalho tenha o máximo de divulgação possível, o artista teme a indisposição com a gravadora, por isso o sigilo”, afirma.

O blogueiro diz receber também e-mails de gravadoras, produtores e artistas que solicitam a retirada de conteúdo. Afirma atendê-los prontamente. Seja repressor ou legitimador, o contato direto com músicos e outros fãs parece ser uma das recompensas pelas dez ou doze horas semanais dedicadas a blogar discos. “Pelo seu ângulo, pode até ser generosidade. Pelo meu, não. Eu me sinto tão bem publicando o UQT que isso passou a ser um ato de puro egoísmo.”

Zeca Louro também cita a notoriedade adquirida no meio musical: “O máximo que me aconteceu foi um ou dois casos de alguém comercialmente ligado a um artista dizer ‘poxa, seria legal você não ter mais o disco aí’. Imediatamente tirei, mas num dos casos o próprio artista reclamou, pediu para contornar. Tem artista que reclama de não ter nada no blog, pergunta se tenho alguma coisa contra ele. Muitos são avessos à tecnologia, eu ajudo”.

Nos bastidores, poucos admitem praticar pirataria virtual, mas há quem o propague aos quatro ventos, caso de Carlos Eduardo Miranda, produtor de grupos de rock e jurado dos programas de tevê Ídolos e Astros. “Sou fã dos blogs de música, muito mesmo. Sou usuário.” Em guerra retórica com a indústria, devolve aos acusadores as acusações de pirataria, roubo, crime: “Deveriam tomar vergonha na cara, porque estão vendendo a mesma música várias vezes, em vinil, depois em CD, depois em MP3. Já paguei, preciso pagar quantas vezes? Quando vão parar de me roubar? Se o artista se acha importante para a cultura, não pode fazer nada que impeça a circulação, senão ele é criminoso também”.

E desafia: “Compro 40 CDs por mês, poucos compram tanto como eu. Sou um criminoso? Os caras estão brigando com quem os sustentou a vida inteira. Deviam contratar os blogueiros para serem executivos deles”. Miranda antevê soluções futuras para o conflito: “Ninguém mais vai precisar guardar nada, e você vai ter acesso a todas as músicas do mundo. Vai ligar o botão como se fosse rádio e escolher. Que se pague uma mensalidade, como paga água e luz, e o problema vai acabar”.

A APCM confirma a pressão sobre os piratas, mas nega fazer “ameaças”. “Não estamos no campo da repressão, muito menos na área policial”, diz Borges Filho. “Fazemos a solicitação ao provedor, no caso o Google, para a retirada de conteúdo ou links.”

“Não aceitamos pressão da indústria fonográfica”, diz Felix Ximenes, diretor de comunicação local do Google, dono do Orkut e do gerador de blogs Blogger. “Nosso compromisso é com o usuário, com quem buscamos compartilhar responsabilidades.” O Google baseia-se na política de receber denúncias, verificar e tirar do ar se for o caso. “Antes, só tínhamos apagado links que levavam a produtos de copyright. O fechamento da Discografias foi um ato do próprio coordenador, que a desarticulou sob protesto, pelas ameaças da APCM. O Orkut é mais visível, eles preferem ir onde há volume.”

“Nunca recebi nenhum e-mail de censura, ameaças ou coisa parecida”, atesta Augusto TM, do Toque Musical, outro dos blogs recheados de raridades. “Isso se deve, acredito, à minha postura de não levar para o blog coisas que se encontram em catálogo nem fazer negócio, comércio ou propaganda.” No início do ano, o Toque Musical protagonizou comoção ao publicar a gravação caseira de uma sessão feita por João Gilberto em 1958, imediatamente antes da fama.

A fita fora vendida para japoneses e já não era propriedade brasileira, como acontece com todo o relicário musical pertencente às multinacionais do disco. Caiu na rede mundial, e o Toque Musical, com média diária de mil visitantes, foi fechado por algumas semanas. Mas isso ocorreu, segundo o blogueiro, devido a seu próprio temor de alguma reação negativa do cantor. Até hoje João Gilberto não reclamou.

11 comments / Add your comment below

  1. Caro PQP

    é uma lástima que ainda temo que viver a margem da arbitrariedade, todos sabem que as gravadores não tem interesse na disseminação cultural e sim veem na música um caçaníqueis,que na verdade o único prejudicado é o músico, ele não ganha quase nada, mas a reação virá, muitas empresas na europa já entendem que reprimir não é a saída e alguns músicos estão rompendo com as gravadores e disponibilizando suas músicas em sua página. Vi um programa na management tv onde um determinado músico depois de 20 anos na warner contabilizou que a gravadora ganhou com ele 174 milhões de libras e para ele foram apenas 20 milhões, resultado o contrato acabou e ele não renovou, pois segundo ele, ele lucraria mais e teria a liberdade de criar o que quissesse sem as pressões comerciais da gravadora, que é outro ponto da história.Então não me venham com essa cara de pau, como o fulano da reportagem postada que diz que gastam com os músicos e bla bla bla.
    Deiem-no compartilhar, abram os olhos, pois todos nós já gastamos e muito nosso quinhão com as gravadoras.

    abraço

  2. PQP, eu e o maestro da filarmônica aqui do Espírito Santo somos fãs e frequentadores assíduos do seu blog. Um dia a gente conversava sobre a época em que era uma dificuldade, especialmente aqui em Vitória, de se encontrar aquelas gravações cobiçadas dos grandes artistas e a maravilha que trabalhos como o de vocês são para nós que amamos e trabalhamos com a música de concerto.

    Daí ele me falou assim:

    – O pior não era quando eu não conseguia achar o disco que eu queria: era quando eu achava e não tinha o dinheiro pra comprar!

    Lembro também de um professor conhecido meu que era beatlemaníaco e tinha comprado duas vezes em vinil a discografia completa da banda. Uma era para ele ouvir e outra para guardar para o filho quando fosse grande… Huahuahauha! O moleque deve estar ouvindo hoje Malu Magalhães no Ipode.

    Um abraço a toda a família Bachiana, longa vida ao seu blog.

  3. Sempre que há uma mudança de paradigma, a parte prejudicada esperneia, como é o caso das gravadoras. Foi assim com a aristocracia perante a ascensão da burguesia.
    Ao invés de espernear, deveriam buscar novas formas de distribuir música, de maneira a atender as necessidades dos consumidores, que consomem sim, se for da maneira como lhes agrada, não como lhes é imposta. Long Live PQP Bach !

  4. A frase “- O pior não era quando eu não conseguia achar o disco que eu queria: era quando eu achava e não tinha o dinheiro pra comprar!” é comum a todos os melômanos.
    Horrível também é a postura de muitos colecionadores do tipo “só eu tenho e não faço cópia porque é ilegal”.
    Outra coisa muito ruim é o vendedor de “relíquias” e “raridades”, que pratica extorsão (ebay/Mercadolivre)sobre os apaixonados e impulsivos, que às vezes tiram dinheiro de onde não deviam para “aquele disco incrível”.
    Vivemos uma luta pelo direito à música. Passamos pelo Napster, Kazaa, eMule agora temos os Torrents e os Blogs.
    A luta deve continuar!
    Coisas como “apcm” existiram e existirão sempre. Não sei se essa é “é uma guerra que eles já perderam”. Nós amamos a música e a liberdade, eles agem com raiva,ódio. São “os gigolôs da música”. Se ainda não ameaçam, vão ameaçar assim que se tornarem uma máfia mais articulada.
    A luta deve continuar!

  5. Na verdade, a revolução da internet é uma revolução logística. As gravadoras existem porque existia uma lacuna não cultural, mas de *infra-estrutura* – gravação, distribuição, comercialização – tarefas muito caras e complexas e que poucas pessoas/empresas podem fazer.

    As gravadoras, mais emissoras de rádio, jornais, TVs, revistas, editoras de livros, estúdios de cinema etc – a mídia em geral, enfim – compõem uma indústria baseada nas enormes barreiras de entrada que existiam para se distribuir conteúdo. Um jornal, em última instância, não passa de uma gráfica com caminhões; uma TV não passa de um conjunto de câmeras, satélites e antenas; e assim por diante.

    A internet e a tecnologia reduziram essas barreiras de entrada a pó. Distribuir conteúdo tornou-se tarefa de criança. É barato, é fácil, todo mundo pode fazer isso. Além disso, na internet não há conteúdo melhor distribuído que outro. Não tem caminhão melhor, não tem antena mais potente, não tem uma rede de lojas maior. Todos distribuem em pé de igualdade. (Isso está no design mais essencial da internet, bolado há 20 anos pelo Berners Lee.)

    Os agregadores como mídia, gravadoras etc, não fazem mais sentido, pois o fato do conteúdo estar espalhado *não faz diferença alguma* no modo como ele é consumido. Nós não precisamos mais da Globo ou da Universal. (Continuamos precisando da Telefônica e da BrOi, mas essa é uma outra questão.)

    A questão agora é *gerar conteúdo*. É ter o que dizer, é ter relevância, é ter o que eu chamo de “espírito”.

    Tem a questão dos copyrights. Eu pessoalmente sou contra. Eles só existem para manter o negócio dos agregadores funcionando. Isso era bom para a sociedade pois precisávamos desses agregadores. Agora que não precisamos mais deles, os copyrights não fazem mais nenhum sentido.

    Para mim o trabalho intelectual irá se transformar em algo “performático”, ao estilo antigo, pré-“reprodutibilidade técnica”: autores de livros ganham o sustento como professores e palestrantes; músicos, inclusive compositores, vivem de concertos, shows e aulas; cineastas vivem dos ingressos (o cinema será “experiencial”, como um parque de diversões ou um ginásio de hóquei); e assim por diante. Existe também o mecenato puro e simples. E a publicidade (ilusão imaginar que gente como Ivete Sangalo viva dos CDs que vende…).

    Naturalmente iremos nos livrar dos copyrights. Tenho certeza disso. Será um mundo muito melhor – tanto para quem produz como para quem consome arte e cultura.

  6. PQP,FDP,Ciço e demais postadores e colaboradores do Blog, o que vemos hoje, é antes de mais nada a tentativa de uma espécie de dinossauro (as gravadoras)de sobreviver ao cataclisma que foi a internet no domínio deles. Na verdade este cataclisma começou com a invenção do compact disc que no principio era somente uma tecnologia de armazenamento que as gravadoras pretendiam com o tempo que substituisse os meios físicos analógicos de distribuição música. Mesmo assim, um cd antes de mais nada é um suporte físico, sua vantagem em termos físicos aos lp era o espaço reduzido, ou seja também baixava o custo de distribuição pois o espaço de lp dá para colocar 4 cd’s.
    O que as gravadoras não conseguiram vislumbrar é que o conteúdo digital do disco poderia ser armazenado e distribuido de forma eficiente e a custo baixíssimo e este é o cerne da questão. No Brasil o comércio de música legal na rede praticamente inexiste. Nos EUA e na zona do euro as gravadoras tornaram-se refens da Applestore. Um iPod por aqui (tirando o iPod shuffle) é um aparelho com preço proibitivo para a maioria da população. Antes que me questionem sobre isto, lembrem-se do valor do salário mínimo e o comparem com um iPod nano de 4Gb. Lá fora, até quem não tem onde cair morto tem iPod. O cataclisma que a internet representa para as gravadoras deveria sim servir de alerta para que se adaptassem a os novos tempos e comercilizassem as músicas de seus contratados/licenciados diretamente com os interessados, no caso nós que ainda compravamos cd’s, mas com preço convidativo, pois quem gastaria para armazenar fisicamente as músicas seriamos nós mesmos, o mesmo no que se refere a capa estojo para guardar o disco, mas ao invés disso, as gravadoras continuaram com a política de terceirizar o comércio de música, como se ainda precisássemos ir a uma loja de discos para comprar. O pior é que o preço da música em formato mp3 ou similar comercializada regularmente no Brasil as vezes custa mais caro do que um disco comprado em loja. Quer dizer as gravadoras perderam o bonde da história e estão tentando se defender com base numa legislação que também é da época do cretácio inferior.
    Agora, o que as gravadoras não se tocam é da oportunidade de relançar a custo baixissímo seu acervo de preciosidades. Um bom exemplo são os 3 primeiros discos do João Gilberto. A maioria das pessoas ignora que a EMI conseguiu perder a fita matriz original destes discos. Mas vejam como são as coisas: no final dos anos 80 esta gravadora relançou estes três discos (que são considerados a predra fundamental do movimento musical bossa nova)numa compilação intitulada “João Gilbrto – O mito”. O João Gilberto ficou indignado com som e foi a justiça para provar que adicionaram coisas estranhas as gravações originais, ganhou o processo. Além de uma indeização milionária, ele também coseguiu que o disco fosse recolhido. De fato, o que aconteceu foi o seguinte: estes três discos foram gravados em mono entre o final dos anos 50 e início dos anos 60, e não havia estúdios com equipamento multicanal estéreo e a compilação comercializda pela Emi estava em estéro. A gravadora disse na justiça que perdera os originais. Logo, quem hoje em dia possui os três primeiros discos deste artista, na verdade possui um original que nem tem preço. Legal, a Emi tem o catálogo dos Beatles, porque não cometeram tal descuido com os discos do quarteto de Liverpool? Hoje em dia se um blogueiro tem um dos lp’s citados do João Gilberto, e pacientemente o digitaliza e o disponibiliza na rede a gravadora pode ir a justiça alegando perda de receita de algo que ela não soube preservar. Não entendo, para mim é a justiça do avesso! Isto foi só um exemplo. Quantos discos postados aqui no blog estão fora de catálogo, ou então a um custo proibitivo? Lembro que um cd de JS Bach que o preço na amazon era acima de U$$2.000,00, deste disco até postei um comentário jocoso dizendo que o preço era caro porque foi o único cd que Bach autografou, isto quase 300 anos antes da invenção do cd. Enfim, isto demontra também que algumas músicas ou discos tem um valor comercial tão alto que chega a ser proibitivo a maioria dos interessados e não tem razão aparente. E esta a industria do entretenimento que deseja manter-se em pé, mas que está morrendo para o nosso bem ou o nosso mal. Os custos de gravação e produção de um disco existem e são caros quanto mais sofisticados os músicos e o estúdio, é certo. Mas com a internet, o artista pode (e deve) comercializar seu trabalho diretamente com o público, sem a necessidade de gravadora. Agora o problema fica em abrir espaço na mídia para divulgação do trabalho, e é aí que os artistas dever pensar em como se virar.

  7. heheh… a reportagem é bem peleguinha… fala dos caras politicamente corretos da net e se esquece da maioria dos caras que pirateiam mesmo. Mas calma galera, nós chegamos num estado em que a curto prazo seria impossível barrar esse fluxo de de informação da net e caso aconteça os danos seria muito grandes, todos nós (inclusive os artistas) sairíamos perdendo. E vale lembrar que do cinema à música os grandes lixos em geral são as coisas caras, a “cultura” perderia pouco sem o titanic ou nx zero.
    Eu acredito que que as coisas são dinâmicas mesmo e se assumir um pirateador ou democratizador de cultura, tanto faz, não é nada mais que se adentrar nessa onda, uma onda legal.
    O senhor Luciano falou uma coisa massa aí em cima acabar com as gravadoras, temos que entender que em breve ou a indústria toma conta conta desse nicho meio anárquico que é a internet, como fazem com tudo, de “Che” ao rap, hip hop, ou nós continuamos resistindo a ser cooptados por ela. hehe

    parabéns pelo blog
    contra burguês baixe mp3!!!

  8. mahla, uer,
    as gravadoras no contexto atual (por sua incapacidade de se adaptar a mudança de cenário na velocidade que o mundo agora exige) tornaram-se dinossauros, mas ainda não foram extintos.
    Nem todo artista/grupo ou músico tem capacidade de sozinho se bancar no inicio da vida profissional, é aí que as gravadoras entram. Claro, além de colocar os caras num estúdio, dão-lhes banho de loja e os colocam em programas de tv de gosto duvidoso, e isto ainda tem um preço e uma grande influência enquanto a tv tiver peso. O peso da tv diminuirá na medida em que as pessoas tiverem acesso à internet. O poder do rádio ainda é muito forte com adolescentes e camadas mais populares. Quem tem um pouco de discernimento liga o rádio para saber do noticiário enquanto não pode usar sua conexão à rede para isso. Mas e ouvir música para quem já sabe o que quer ouvir também não é garantia de audiencia fiel. Basta tocar alguma coisa que não gosta e o dial se mexe, e se não encontra algo que agrade, sempre há um cd ou mp3 à mão. Hoje em dia, é raro saber de alguém que deixa de sair para ficar em casa assistindo tv, mesmo se for tv a cabo, mas antigamente era comum algumas pessoas saírem no domingo, mas enfatizando que deveriam estar em casa para ver o “fantástico” ou coisa do gênero. Hoje, depois da queda crescente da qualidade da programação e da invenção do vhs, só se submete a ditadura da tv quem quiser.
    Falando do meio de divulgação ou sobrevivência dos músicos neste contexto, ainda há um certo experimentalismo como o de colocar músicas na rede e deixar o usuário pagar o quanto quiser. Se isto é algo que dará certo, acho que não, mas é um primeiro e importantíssomo passo, e uma caminhada começa com o primeiro passo, e que sem dúvida terá seus percalços. Mas evoluiremos, e quem não evoluir (as gravadoras) se extinguirão, a não ser que começem a respeitar nós compradores de cd’s ou eles nos tornarão (se já não tornaram) ex compradores de música.
    Luciano

  9. Bem!
    Todos já falaram e destrincharam o âmago dos problemas.
    Agora é a vez de serem estabelecidas as melhores estratégias para continuarmos vivos e não sermos devorados pela máquina que esmaga, sem qualquer pudor, tudo o que encontra ser obstáculo a seu domínio.
    Contudo, ela jamais poderá vencer se houver a resistência obstinada dos milhares de parceiros que acreditam no que fazem e no porque o fazem.
    A derrota é um problema que tem início e se conclui na alma. Não nos fatos em si.
    Dai a existência de vitórias imorredouras como as dos Desfiladeiros das Termópilas, as dos Davi e Golias, as dos Stalingrado da vida e as do cidadão comum que vence até a si mesmo.
    A alma que luta pelo que lhe é vital jamais defalece e, por isto, jamais poderá ser vencida.
    Edson

  10. O blog PQP colocou luz na escuridão da minha ignorância musical e tenho certeza que fez o mesmo por outros apreciadores de “bons sons”. O que deseja a indústria ?! Limitar o horizonte do conhecimento musical apenas aos endinheirados que podem pagar os absurdos cobrados pelos cds ?! A visão dessa gente é estreita demais… Não conseguem enxergar a força da divulgação por trás da ferramenta WEB, a capacidade de formar novos apreciadores do gênero e o tamanho desse espetacular mercado.

  11. Acho importante, neste momento de transitoriedade que culminará na derrocada definitiva do monopólio de bens culturais apropriado pela indústria fonográfica, repudiarmos o termo PIRATARIA, e adotarmos convictamente a idéia da DEMOCRATIZAÇÃO. Seria muito importante abandonar o termo pirataria até mesmo quando fazemos piadas de nós mesmos, pois esta é uma forma de cooptarmos com o inimigo que, lembrem-se, ainda possui algum poder.
    Entretanto, não há dúvidas de que a indústria fonográfica irá se readaptar, assim como fez a igreja católica após a perda de poder após as cruzadas. Preparem-se que ainda testemunharemos muitas peripécias na história dessa batalha chamada de “revolução digital”.
    NÃO A PIRATARIA – VIVA A DEMOCRATIZAÇÃO DA CULTURA!!!

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