João Rodrigues Esteves (c.1700-Lisbon, after 1751): Missa a 8 vozes & Pinguis est panis & Christmas Responsoires

347h7xlJoão Rodrigues Esteves
c.1700-Lisboa, depois de 1751

 

O famoso Dicionário Biográfico de Músicos Portugueses de José Mazza, escrito provavelmente na segunda metade do século XVIII, assim refere-se a João Rodrigues Esteves: “João Rodrigues Esteves foi mandado pelo senhor El Rey D. João 5º estudar a Roma, foi mestre do real Seminário da Muzica de Lxa alem de varias que compos forao 2 Te Deus para se cantarem nas reaes presenças, em dia de S. Silvestre sendo hum dos ditos Te Deus a quatro coros, faleceo no século de 700”.

Esta notícia dada por Mazza, que foi também o responsável pelas parcas informações sobre muitos outros músicos do passado português (incluindo-se aí os primeiros artistas brasileiros), contém algumas informações importantes para bem aquilatar a importância que a música teve no reinado de D. João V.

A referência de ter sido o compositor mandado para Roma, para aprofundamento da formação musical, mostra a importância que o Rei dava à música de sua capela e a grande exigência de qualidade da produção musical na corte. O Rei, que era casado com D. Mariana da Áustria (filha do Imperador Leopoldo I, ele mesmo bom compositor), tudo fez para aumentar a importância da vida religiosa e artística de Portugal. Seu prestígio pessoal fez com que a arquidiocese de Lisboa fosse elevada ao grau de Patriarcado e que o arcebispo recebesse a púrpura de Cardeal, e seu desejo de criação de monumento religioso consubstanciou-se na construção do Convento de Mafra.

Ele tudo faria também para restabelecer a importância que a música havia tido na corte de D. João IV, não apenas mandando copiar os livros de coro usados no Vaticano, mas contratando artistas da capela pontifica. O ponto culminante deste esforço foi, certamente, a instalação em Lisboa, provavelmente desde 1719, do grande Domenico Scarlatti, então Mestre da Capella Giulia. Por esta época, o efetivo da capela real tinha entre 30 e 40 cantores e uma dúzia de instrumentistas. Desejando desde logo assegurar a presença de bons músicos nos conjuntos musicais, Dom João criou, já em 1713, um Seminário destinado à formação de jovens artistas, anexo à Capela real, célula inicial do que seria, pouco depois, o Seminário Patriarcal. O regulamento deste Seminário seguia de perto a estrutura do famoso Colégio dos Reis, de Vila Viçosa, que foi o principal centro português de formação musical do século XVII, durante e logo após o reinado de D. João IV.

Durante todo o reinado de Dom João V, foram muitos os jovens músicos enviados à Itália como pensionistas da Coroa, com o objetivo de aprimoramento de formação. João Rodrigues Esteves esteve em Roma entre 1718 e 1726. Voltando a Portugal, artistas como Antônio Teixeira e João Rodrigues Esteves desempenharam importantes funções na Capela Real, na Sé de Lisboa (Esteves foi Mestre de Capela da Sé a partir de 1729) e no Seminário Patriarcal, além de dedicarem-se também à composição de Óperas e de música de câmara.

8wb94zOs musicólogos portugueses (Gerhard Doderer, Ruy Vieira Nery, Manuel Carlos de Brito) destacam sempre a monumentalidade policoral, às vezes com acompanhamento instrumental, na obra dos principais compositores deste período, com destaque para o Te Deum de Antônio Teixeira, a Missa a 8 e o Magnificat de João Rodrigues Esteves, a grande Missa de Carlos Seixas e os motetos de Francisco Antônio de Almeida. É dentro desta monumentalidade policoral que situa-se o Te Deum a quatro coros citado por José Mazza, cantado no encerramento do ano civil (dia de São Silvestre) na presença do Rei. Deve-se lembrar que freqüência com que todos os compositores colocaram em música o hino Te Deum explica-se pela sua forte incidência no cerimonial religioso: o nono Responsório dos ofícios de Matinas das festas ditas de Primeira Classe era sempre este hino, que também era usado para encerramento de todas as cerimônias de destaque (não apenas as festividades do calendário litúrgico, mas também as efemérides reais, como nascimentos, batizados, casamentos, aclamações), assim como nos encerramentos do ano litúrgico (dia anterior ao primeiro domingo do Advento) e do ano civil (31 de dezembro).
(http://www.caliope.mus.br/musica_coral/artigos/artigos_Jose_Maria_Neves_2.php)

João Rodrigues Esteves (c.1700-Lisbon, after 1751)
01. Mass for 8 voices – 1. Kyrie
02. Mass for 8 voices – 2. Gloria
03. Mass for 8 voices – 3. Credo
04. Mass for 8 voices – 4. Sanctus
05. Mass for 8 voices – 5. Agnus Dei
06. Motet: Pinguis est panis
07. Christmas Responsories – 1. Hodie nobis cælorum Rex
08. Christmas Responsories – 2. Hodie nobis de cælo
09. Christmas Responsories – 3. Quem vidistis pastores dicite
10. Christmas Responsories – 4. O magnum mysterium
11. Christmas Responsories – 5. Beata Dei Genitrix
12. Christmas Responsories – 6. Sancta et immaculata
13. Christmas Responsories – 7. Beata viscera Maria
14. Christmas Responsories – 8. Verbum caro factum est

João Rodrigues Esteves – 1996
Christ Church Cathedral Choir, Oxford
Director: Stephen Darlington

Este CD é mais uma colaboração do maestro, compositor e musicólogo Harry Crowl Jr. Não tem preço!

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MP3 320 kbps -158,6 MB – 1,1 h
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Boa audição.

faceira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Avicenna

15 comments / Add your comment below

  1. Avicenna, nunca deixo de me impressionar com o seu acervo. Cara, o seu trabalho aqui no blog é impagável. Onde mais alguém poderia encontrar essas, verdadeiras, relíquias?!?!?!
    E não estou nem falando dessa postagem especificamente, mas de suas postagens como um todo.
    Parabéns!

  2. mt interessante o post! veio a calhar bem, pois estou muito interessado em música policoral. Se alguém tiver partituras e mp3 para oferecer, eu agradeceria muito!

    abraços a todos…

  3. Coisa mais linda, gente! Daquelas que me fazem me sentir em casa, como já andei dizendo aqui a respeito de certas coisas da renascença e barroco inicial. Porém… justamente: não é um tanto perturbador? Temos aí um compositor que nasceu quando Bach já passava dos 30 anos, viveu precisamente na primeira metade do século 18… e no entanto sua música parece provir de precisamente um século antes. Não que não seja GRANDE música, mas de certa forma fora de seu tempo. Assim já estava Portugal em 1700 e pouco, quando alguns séculos antes havia sido um polo de inovação (mesmo se não especificamente na música). Apesar de já ter visto algumas teorizações ou especulações sobre isso, acho que nunca deixará de me intrigar profundamente. Alguém tem algo a contribuir?

  4. ranulfus:

    vc atentou para um fato que eu nao me liguei. haha realmente! o bach já tinha nascido nessa época. eu tava com giovani gabrielli na cabeça.
    ao meu ver não tem nada de especial nisso. mesmo hoje em dia, há compositores que compõem como se compunham nos séculos anteriores e os motivos podem variar desde crenças pessoais até culturais. nesse caso ficaria difícil precisar.

    abraços

  5. Olá Neochanlee – você tem razão quanto a haver compositores “fora de época” por razão pessoal – mas de modo geral não é o caso quando se trata da história de Portugal e, embora com algumas diferenças, Espanha: parece haver uma defasagem sistemática em relação aos processos da Europa em geral. E há, sim, grandes processos históricos envolvidos – entre outros o papel da igreja depois do rompimento de Dom Manuel com a Ordem de Cristo (sucessora dos Templários, e que alguns dizem que constituía o próprio Estado português desde Dom Diniz até esse rompimento) e a ascensão dos Jesuítas logo depois. Mas esse é apenas um aspecto, com certeza há muito mais que isso. É um assunto que intriga bastante “ao monge Ranulfus”, por isso a provocação aos leitores… Abraços!

  6. Comparar a época desses compositores portugueses com Bach é um pouco fora de propósito. São universos muito distintos. Os países católicos, como Portugal e Espanha, estavam ligados à Itália e procuravam imitar aquilo que vinha de lá. Porém, não havia só uma única escola italiana. Durante o reinado de D.João V, foi descoberto ouro no Brasil. Com isso, o rei começou a mandar músicos portugueses a estudar em Roma, que ainda seguia uma tradição polifônica ligada a Palestrina. Havia a escola veneziana, de Gabrieli, que foi conhecida em Portugal através de D.João IV. Houve muita produção de música policoral portuguesa, que chegou inclusive à Bahia. O preceptor de D.João IV foi o compositor João Lourenço Rebelo (1660-1661) e por isso, tinha a facilidade de mandar vir da Itália qualquer música. Há alguns Cds de música de Lourenço Rebelo disponíveis. Infelizmente, no que diz respeito à Bahia, sabe-se que muita música policoral foi composta para a Catedral de Salvador, mas nenhuma foi encontrada. Há relatos sobre a atuação de compositores por lá. O principal foi o Frei Agostinho de Sta. Mônica. A escola italiana que irá predominar em toda a Europa, inclusive em Portugal, a partir de meados do Sec.XVIII é a napolitana. D.João V enviou vários jovens portugueses para estudar na Itália. João Rodrigues Esteves foi um dos primeiros. Nessa mesma época, também foram para lá António Teixeira (o do Te Deum) e António Francisco de Almeida, que compôs o oratório “La Giuditta”, em Roma, em 1726, e que foi gravado pelo Rene Jacobs. Os compositores portugueses misturavam estilo com muita facilidade, não se importando muito com essa ou aquela escola. Outros compositores da época como Haendel, Al. Scarlatti, Dom. Scarlatti escreviam música sacra em estilos claramente distintos. Esses portugueses são todos compositores seculares e não tiveram qualquer ligação com os jesuítas, cuja produção musical no Brasil (e Portugal) é praticamente desconhecida, ao contrário da região das Missões, de domínio espanhol. No final do sec. XVIII, compositores portugueses estavam escrevendo óperas e música sacra num estilo muito próximo ao de Haydn e Mozart. Isso, por que a influência italiana na Áustria também era muito grande. É pouco o que se divulgou de música portuguesa do sec. XVIII até o momento, mas esse é um universo que ainda tem muitas surpresas para nos oferecer.

  7. Comentários mais do que bem-vindos, Harry! Era precisamente isso o que eu queria: mais subsídios concretos para entender as particularidades do caso português em música.

    Não cheguei propriamente a comparar com Bach, apenas a chamar atenção para que existe ao mesmo tempo a diferença e a simultaneidade no tempo – justamente para nos instigar a ir atrás dos porquês, e isso não porque a história precise de explicação, mas porque através dessa busca enriquecemos nosso mapa mental de COMO a história se deu. Só como contra-exemplo, outro contemporâneo de Bach no mundo católico e mediterrâneo, que é Vivaldi, não nos parece pertencer a um mundo tão distante de Bach. Mas com isso definitivamente não quero fazer juízos de valor, apenas, como já disse, observar o COMO das coisas…

  8. A música sacra de Vivaldi é muito diferente da música de Bach, pois a liturgia era um condicionante fundamental. Bach faz um uso de contraponto muito particular e se preocupa primordialmente com o aspecto formal da obra, o que o torna um caso à parte. Suas influências são bem luteranas e norte européias, como a polifonia franco-flamenga e compositores luteranos como Schütz e Buxtehude (na música sacra). Em Vivaldi a questão teatral está muito mais presente, o que era o hábito da época, pois o período que convencionamos chamar de barroco, caracteriza-se principalmente pelos exageros dramáticos. Além da época em questão ser de uma complexidade enorme (transição do sec.XVII para o XVIII), há uma quantidade de práticas musicais se sobrepondo em várias regiões. Na Europa central, há uma evolução da música instrumental, o que não acontece na maior parte da Itália e nem nos outros países do sul. Mesmo em Portugal, pode-se perceber que há algo muito estranho se considerarmos que o Te Deum, do António Teixeira é contemporâneo dessas obras do João Rodrigues Esteves. Ambos tiveram a mesma formação. O próprio Te Deum apresenta estilos distintos dentro da mesma obra. Nessa época também, Domenico Scarlatti foi viver em Lisboa, e depois em Madrid, onde veio a falecer. A prática arcaizante da escola romana pode ser observada em obras como o Dixit Dominus, de Haendel, ou no Stabat Mater, de Dom. Scarlatti. Ambas compostas com a intenção de se conseguir um cargo junto à Capela Giulia. Haendel escreveu nos estilos romano, napolitano, francês (que não deixa de ser um tanto derivado do estilo veneziano) e ainda criou o estilo inglês baseado no francês. A questão é que ele criou essas obras em momentos diferentes, assim como Alessandro e Domenico Scarlatti. Como mencionei, há um outro português, Francisco António de Almeida, que compôs em Roma, em 1726, um oratório chamado “La Giuditta”, que poderia facilmente ser atribuído a Haendel, caso ele tenha escrito oratórios em italiano (só conheço as cantatas).
    A maior dificuldade para se contextualizar essas obras porém, está no fato de que a música sacra de Vivaldi, dos Scarlattis, dos portugueses, espanhóis, hispano-americanos, brasileiros coloniais, poloneses, tchecos, eslovacos, etc. deixou de ser tocada e ficou para ser descoberta somente em meados do sec.XX. Enquanto a música de Bach e Haendel nunca desapareceu por completo. Quando essas obras começaram a aparecer, a primeira tentativa foi a de compará-las com aquilo que já se conhecia. Isso levantou mais dúvidas do que esclarecimentos. Com o fim do regime absolutista português, em 1835, acabou-se a Capela Real e essa grande tradição musical. João Domingos Bontempo foi o último compositor importante português, antes do sec.XX. Talvez a maior parte da música produzida em Portugal tenha desaparecido no terremoto de Lisboa, em 1755 e depois, o descaso do sec.XIX por esse repertório acabou com mais uma parte considerável.

  9. Realmente, agora pude entender melhor o fato ocorrido. Interessante.. Ranulfus, vc saberia explicar (paralelamente) o porque de Beethoven e Mozart serem contemporâneos e ao mesmo tempo, terem estilos bem diferentes?

    abraços e obrigado

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