Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) – A Flauta Mágica (Die Zauberflöte) – ópera

Era agosto ou setembro de 2008. O período da estiagem estava atingindo o seu ponto mais crítico no Centro-Oeste. Nestes meses, Brasília se transforma num Saara brasileiro por conta do clima. A umidade do ar atinge níveis muito baixos. O calor é escaldante. Todavia, parece existir uma recompensa por conta desses rigores. Os dias quentes proporcionam fins de tardes fenomenais. Os ocasos são verdadeiros partos piscodélicos. A tintura vermelha do sol derrama-se por todos os lados. As nuvens no céu são como gases ensaguentadas. A vegetação seca. Uma névoa leitosa , empoeirada e espessa envolve todas as coisas. Esse era o cenário aqui em Brasília. Chovera em maio. Ou seja, o Planalto estava há três meses sem sentir o alívio da chuva. Por este tempo fiquei sabendo que a ópera A Flauta Mágica de Mozart seria apresentada no gramado da Esplanada dos Ministérios. Fiquei profundamente entusiasmado com a notícia. A regência seria do memorável maestro Silvio Barbato, morto em maio de 2009, ou seja, há quase 1 ano no vôo da Air France, infelizmente. Tive a oportunidade de ver o Barbato em outros eventos à frente da Sinfônica do Teatro Nacional aqui em Brasília regendo Mozart, Mahler e Brahms. O maestro era um empreendedor nesse sentido. Em 2006, quando da ocasião da comemoração dos 250 anos do nascimento de Mozart, Barbato resolveu homenagear o compositor promovendo 12 horas seguidas de música do gênio austríaco. Em outras ocasiões, quando era o regente titular da Sinfônica do Teatro Nacional, promovia concertos itinerantes pela cidades-satélites – Gama, Sobradinho, Ceilândia, Taguatinga. Isso consituía um ato de excelência no sentido de democratizar a música clássica. Mas voltemos ao evento que teria A Flauta Mágica. Era um sábado à noite. Um palco foi montado e um extraordinário cenário foi erguido para representação da obra. O público eclético estava nas arquiancadas. Barbato que um ano antes regera Carmen de Bizet, fez a devida apresentação da obra mozartiana. A orquestra fazia o seu trabalho, Barbato regia, os cantores no palco misturavam vozes com encenações teatrais; dois telões foram montados, mostrando o que acontecia no palco e ao mesmo tempo a tradução da obra que era cantada em alemão. Fantástico. Estava embasbacado. Uma estupefação tomava conta de mim, pois esta é uma das obras de Mozart que mais ouvi e gosto. Não costumo ouvir óperas, mas esta é diferente. Possui árias belíssimas. Uma temática mística que impressiona. O fato é que quando os cantores entoavam as árias mais suaves de A Flauta Mágica, eu me sentia preso àquela musicalidade. Mas o inusitado aconteceu: após três meses sem chuva, uma garoa fina começou a cair, levantando o cheiro de terra molhada. O maestro foi resistente aos primeiros pingos. Mas como a orquestra estava tocando ao ar livre, Barbato acabou explicando a necessidade de parar o concerto. Fiquei imensamente triste com aquilo. Tentei me refugiar em algum lugar. De repente, um milagre: a chuva parou. Todavia, a maioria do público abandonou o espetáculo. Barbato decidiu dar continuidade à obra. Novas sucessões de cantos extraordinárias. Até que a Rainha da Noite apareceu, cantou e a chuva tornou-se firme e aí Barbato com sua voz peculiar avisou: “Gente, infelizmente não dá para continuar. Temos aqui na orquestra instrumentos delicadíssimos e caros. Expô-los a água é perigoso, pois são imensamente sensíveis”. Aquilo me constenou. Como que fica sem chover por três meses e a chuva reaparece justamente naquela ocasião, quando a beleza estava sendo desvelada? São as ironias da natureza. Os segredos inopinados das horas, dos dias, do tempo. Aquela foi a última ocasião em que vi Silvio Barbato regendo. Que pena! Mas fica aqui a certeza de uma extraordinária peça. A Flauta Mágica é, se não estou enganado, a penúltima ópera de Mozart, posto que a última é A Clemência de Tito, de 1791. Ou seja, o ano da morte do compositor. A ópera acontece em dois atos. Abbado fica engarregado por conduzir esta gravação à frente da Mahler Chamber Orchestra. Foi realizada em 2006 em homenagem aos 250 anos do nascimento de Mozart. Comemoração mais que merecida. Não deixe de ouvir esta gravação e se deliciar com os elementos variados dessa, que é uma das maiores óperas de todos os tempos – alegria, amor, tristeza, ambição, poder, mistérios maçônicos, mitologia. Tudo isso pode ser encontrado nesta obra. Boa apreciação!

Para saber mais sobre a obra AQUI:

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) – A Flauta Mágica (Die Zauberflöte)

CD 1

01. Ouverture
02. Nr. 1 Introduktion »Zu Hilfe! Zu Hilfe!« (Tamino, Die drei Damen)
03. Nr. 2 Arie »Der Vogelfanger bin ich ja« (Papageno)
04. »Papageno!« – »Ah! Das geht mich an!« (Die drei Damen, Papageno, Tamino)
05. Nr. 3 Arie »Dies Bildnis ist bezaubernd schon« (Tamino)
06. »Freue dich und fasse Mut, schoner Jungling!« (Die drei Damen, Tamino)
07. Nr. 4 Rezitativ und Arie »O zittre nicht, mein lieber Sohn!« (Königin der Nacht)
08. Nr. 5 Quintett »Hm, hm, hm« (Papageno, Tamino, Die drei Damen)
09. »Ha, ha, ha!« – »Pst, pst!« (Die drei Slaven)
10. Nr. 6 Terzett »Du feines Taubchen, nur herein!« (Monostatos, Pamina, Papageno)
11. »Bin ich nicht ein Narr« (Papageno, Pamina)
12. Nr. 7 Duett »Bei Mannern, welche Liebe fuhlen« (Pamina, Papageno)
13. Nr. 8 Finale »Zum Ziele fuhrt dich diese Bahn« (Die drei Knaben, Tamino, Priester, Sprecher, Chor)
14. »Wie stark ist nicht dein Zauberton« (Tamino)
15. »Schnelle Fube, rascher Mut« (Pamina, Papageno, Monostatos, Sklaven, Chor)
16. »Es lebe Sarastro! Sarastro soll leben!« (Chor, Pamina, Sarastro, Monostatos, Tamino)
17. Nr. 9 Marsch der Priester
18. »Ihr, in dem Weisheitstempel« (Sarastro, Zweiter Priester, Sprecher, Dritter Priester)
19. Nr. 10 Arie mit Chor »O Isis und Osiris« (Sarastro, Chor)
20. »Eine schreckliche Nacht!« (Tamino, Papageno, Sprecher, Zweiter Priester)
21. Nr. 11 Duett »Bewahret euch vor Weibertucken!« (Erster Priester, Zweiter Priester)

CD 2

01. Nr. 12 Quintett »Wie Wie Wie Ihr an diesem Schreckensort« (Die drei Damen, Papageno, Tamino, Priester
02. »Heil dir, Jüngling! Dein standhaft männliches Betragen« (Sprecher, Zweiter Priester, Papageno)
03. Nr. 13 Arie »Alles fühlt der Liebe Freuden« (Monostatos)
04. Nr. 14 Arie »Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen« (Königin der Nacht)
05. »Morden soll ich« (Pamina, Monostatos, Sarastro)
06. Nr. 15 Arie »In diesen heil’gen Hallen« (Sarastro)
07. »Hier seid ihr euch beide alleine überlassen« (Sprecher, Zweiter Priester, Papageno)
08. Nr. 16 Terzett »Seid uns zum zweitenmal willkommen« (Die drei Knaben)
09. »Tamino, wollen wir nicht speisen« (Papageno) – »Tamino! Du hier« (Pamina)
10. Nr. 17 Arie »Ach, ich fühl, es ist verschwunden« (Pamina)
11. »Nicht wahr, Tamino, ich kann auch schweigen« (Papageno)
12. Nr. 18 Chor der Priester »O Isis und Osiris (Chor)
13. »Prinz, dein Betragen war bis hieher männlich und gelassen« (Sarastro, Pamina)
14. Nr. 19 Terzett »Soll ich dich, Teurer, nicht mehr seh’n« (Pamina, Sarastro, Tamino)
15. »Tamino! Tamino! Willst du mich denn gänzlich verlassen« (Papageno, eine Stimme, Die drei Priester)
16. Nr. 20 Arie »Ein Mädchen oder Weibchen wünscht Papageno sich!« (Papageno)
17. »Da bin ich schon, mein Engel!« (Das alte Weib, Papageno)
18. Nr. 21 Finale »Bald prangt, den Morgen zu verkünden« (Die drei Knaben, Pamina)
19. »Der, welcher wandert diese Straße voll Beschwerden« (Die Geharnischten, Tamino, Pamina)
20. »Papagena! Papagena! Papagena! Weibchen! Täubchen!« (Papageno, Die drei Knaben, Papagena)
21. »Nur stille, stille, stille, stille!« (Monostatos, Königin der Nacht, Die drei Damen)

Mahler Chamber Orchestra
Claudio Abbado, regente
Arnold Schoenberg Chor
Sarastro—————René Pape
Rainha da Noite——–Erika Miklósa
Pamina—————-Dorothea Röschmann
Tamino—————-Christoph Strehl
Papageno————–Hanno Müller-Brachmann
Papagena————–Julia Kleiter
Sprecher————–Georg Zeppenfeld
Monostatos————Kurt Azesberger
3 Damen————–Caroline Stein, Heidi Zehder, Anne-Carolyn Schlüter
3 Knaben————-Alexander Lischke, Frederic Jost, Niklas Mallmann

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Carlinus

14 comments / Add your comment below

  1. Ah, não, tu tens de nos avisar antes de largar um torpedo desses! Fiquei até constrangido de minha próxima postagem.

    Sensacional.

  2. Adoro A Flauta Mágica.. é a minha ópera favorita.. tenho uma gravação do Colin Davis já há muitos anos, e o primeiro disco inclusive já riscou. E o Abbado, bem, sem comentários. Como vinho, quanto mais velho, melhor.

  3. Não tenho o hábito de escutar óperas. Creio que é um espetáculo que exige a apreciação auditiva e visual. Por isso, o que eu conheço são apenas algumas árias. A propósito disso, certa vez eu escutei uma ária dessa ópera de Mozart que me deixou realmente espantado. Finalmente eu poderia escutá-la novamente! Obrigado, Carlinus!

    A história da chuva é realmente trágica! Essa semana eu passei por algo parecido. Eu pretendia assistir uma ópera de Verdi aqui em Belo Horizonte. Porém, quando fui comprar os ingressos, não havia mais nenhum. Droga!

  4. Sou réu confesso por assim dizer o grande apreço que tenho pelo mundo lírico a qual conheço um pouco nas primavera de minha permanência neste plano. Gioachino Rossini,Giaccomo Puccini,Gaetano Donizetti,Giuseppe Verdi, são nomes indispensável ao ouvinte atento bem como referencia básica de qualquer coleção.Mas Wolfgang Amadeus Mozart é aquela pérola cuja o valor em relação ao mercado não tem preço e sua existência traz um brilho único de um compositor de varias frentes de sua criação.A Flauta Mágica abriu uma nova maneira de ouvir ópera.Distribuiu idéias e colocou a maneira de pensar lírica no centro da obra, fugindo do ostracismo contido de suas anterioras.Como visitante deste respeitado espaço fica a duvida?.Não sei se baixo o arquivo ou fico na espera de poemas ou sonetos misturados com dissertações das próximas postagens.Brincadeira e parabéns pela iniciativa de trazer o mundo lírico as portas de nossos ouvidos.

  5. Olá, Carlinus.
    Sou o maior fã de Mozart que possa existir, tanto é que quando tiver meu segundo filho ele terá o mesmo nome (o primeiro terá o nome de Bach, hehehe). Como também moro aqui nesse deserto que é Brasília, fui à fatídica apresentação pensando comigo mesmo que seria uma apresentação meia-boca. Mas qual foi minha surpresa quando os cantores começaram a cantar, o nível técnico estava muito além do que eu previra. Foi muito bom mesmo. E olha que se estragassem Mozart eu seria a pessoa mais irada da platéia. Inclusive liguei para minha mãe em Minas na hora da famosa ária da vingança, da Rainha da Noite, ela até chorou, querendo estar lá. Mas… Veio a chuva e estragou tudo, fiquei impressionado porque aqui não chove mesmo. Por causa da secura tive até que tomar uma benzetacil hoje, porque minha garganta está muito ruim. Deixa pra lá. Só postei para dizer que você não foi o único que ficou com raiva de São Pedro.
    Até mais.

  6. Ahhh WAM …

    oh Papageno, oh Papagena, oh Monostatos (que baritono), o coro dos sacerdotes é musica de outro mundo … L I T E R A L M E N T E … a aria da Rainha da Noite ainda vou conseguir toca-la na flauta …

    e já que falamos de WAM … so pra distonar um pouco …. o “quarteto dissonante” do Gottlieb (Amadeus/Theophilus) é a melhor musica de camara que ja ouvi.

  7. Olá pessoal do PQP Bach. Tenho entrado com certa frequência na página de vcs e tenho simplesmente adorado. Vocês têm me socorrido bastante, já que dou aulas de História da Música e algumas vezes preciso de uma ou outra obra em especial e não tenho em casa o cd sobre aquela obra em si… Daí, em alguns cliques consigo exemplificar um ou outro estilo, diferenciar árias de um e de outro compositor, etc. É muito bom saber que existem outros loucos apaixonados por música erudita dispostos a dividir material por aí. Muito obrigada pela ajuda,e, qdo precisarem de algo, e eu tiver o material, é só mandara sinal de fumaça.
    Abraços.

  8. já visito o blog há bastante tempo, mas nunca me pronunciei…
    hoje eu senti uma urgência absurda em me manifestar para marcar um espaço aqui nos comments e convencer algum internauta que está na dúvida de baixar este cd ou não…

    e digo: esta versão é de chorar de alegria! é muito, muito boa! os cantores são ótimos! as árias estão incríveis. é de lascar!

    já tinha outras 2 versões da flauta mágica (não me perguntem com quem) mas essa é absurda!

    “downloadeie” já!

    abração,

    Rodrigo

  9. sem falar na orquestra que está imbatível!
    abbado. ok. já virou uma referência pra mim nesse mundo sempre cheio de novidades dos clássicos .

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