Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – A Décima-primeira (CD 9 de 11)

A Sinfonia Nº 11, Op. 103 – O Ano de 1905 (1957) talvez seja a maior obra programática já composta. Há grandes exemplos de músicas descritivas tais como As Quatro Estações de Vivaldi, a Sinfonia Pastoral de Beethoven , a Abertura 1812 de Tchaikovski, Quadros de uma Exposição de Mussorgski e tantas outras, mas nenhuma delas liga-se tão completa e perfeitamente ao fato descrito do que a décima-primeira sinfonia de Shostakovich.

Alguns compositores que assumiram o papel de criadores de “coisas belas”, vêem sua tarefa como a produção de obras tão agradáveis quanto o possível. Camille Saint-Saëns dizia que o artista “que não se sente feliz com a elegância, com um perfeito equilíbrio de cores ou com uma bela sucessão de harmonias não entende a arte”. Outra atitude é tomada por Shostakovich, que encara vida e arte como se fosse uma coisa só, que vê a criação artística como um ato muito mais amplo e que inclui a possibilidade do artista expressar – ou procurar expressar – a verdade tal como ele a vê. Esta abordagem foi adotada por muitos escritores, pintores e músicos russos do século XIX e, para Shostakovich, a postura realista de seu ídolo Mussorgsky foi decisiva. A décima primeira sinfonia de Shostakovich tem feições inteiramente mussorgkianas e foi estreada em 1957, ano do quadragésimo aniversário da Revolução de Outubro. Contudo, ela se refere a eventos ocorridos antes, no dia 9 de janeiro de 1905, um domingo — o Domingo Sangrento –, quando tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo. O protesto, feito após a missa e com a presença de muitas crianças, tinha a intenção de entregar uma petição — sim um papel — ao czar, exatamente esta aqui, solicitando coisas como redução do horário de trabalho para oito horas diárias, assistência médica, melhor tratamento, liberdade de religião, etc. A resposta foi dada pela artilharia, que matou mais de cem trabalhadores e feriu outros trezentos.

Bloodysu

O primeiro movimento descreve a caminhada dos trabalhadores até o Palácio de Inverno e a atmosfera soturna da praça em frente, coberta de neve. O tema dos trabalhadores aparecerá nos movimentos seguintes, porém, aqui, a música sugere uma calma opressiva.

250px Bloody Sunday

O segundo movimento mostra a multidão abordar o Palácio para entregar a petição ao czar, mas este encontra-se ausente e as tropas começam a atirar. Shostakovich tira o que pode da orquestra num dos mais barulhentos movimentos sinfônicos que conheço, apesar de que Haitink supera em muito Kondrashin neste movimento.

Bloodysunday1c

O terceiro movimento, de caráter fúnebre, é baseado na belíssima marcha de origem polonesa Vocês caíram como mártires (Vy zhertvoyu pali) que foi cantada por Lênin e seus companheiros no exílio, quando souberam do acontecido em 9 de janeiro.

Img0005

O final – utilizando um bordão da época – é a promessa da vitória final do socialismo e um aviso de que aquilo não ficaria sem punição.

CD 9

SYMPHONY No.11 in G Minor, Op.103
1. The Palace Square (Adagio)
2. January 9th (Allegro)
3. In Memoriam (Adagio)
4. Tocsin (Allegro non troppo)

Recorded: September 7, 1973
Moscow Philharmonic Orchestra
Kirill Kondrashin, Conductor
Total time 56:54

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

4 comments / Add your comment below

  1. Bom dia.
    conheci este blog a 1 semana e estou maravilhado. Baixei freneticamente as Missas do Bach e as Obras para Piano do Beethoven.

    gostaria de vos fazer um pedido.
    Vcs tem as Bagatelas e as outras peças menores para Piano que o Beethoven compôs na última fase? e de preferencia com o Pollini?
    são obras um pouco difíceis de se achar. Ficaria grato se fossem postadas.

    Um abraço

  2. Aos blogueiros de opinioes sapientes…
    Shostakóvitch
    Vida, Música, Tempo
    Coelho, Lauro Machado (autor)
    Poucos compositores refletiram com tanta força a época em que viveram e os tormentos políticos de seu país quanto Dmítri Dmítrievitch Shostakóvitch. Mas o fascínio pela sua obra não se extinguiu com o fim da União Soviética.
    Hoje, que nos aproximamos da comemoração de seu centenário de nascimento, é cada vez maior o interesse pela produção desse que foi não só um dos grandes inovadores da linguagem musical contemporânea, como um dos maiores sinfonistas do século XX. Neste livro, da coleção Signos Música, o jornalista e pesquisador Lauro Machado Coelho – autor da coleção História da Ópera, que vem sendo publicada pela editora Perspectiva – trança o relato da biografia de Shostakóvitch, e a análise de sua criação musical, com a evolução dos fatos históricos na URSS, em que ele viveu de 1906 a 1975, na tentativa de compreender as razões para esse crescente prestígio. Na verdade, em sua música, Shostakóvitch registrou, com enorme compaixão, mas sem qualquer tipo de sentimentalismo, sofrimentos do ser humano, sob qualquer regime opressivo, que são universais e intemporais, e falam, com enorme eloqüência, a nossas emoções mais íntimas.
    Aprimorem seus conhecimentos e comentem.

Deixe um comentário