O maestro está nu

O centenário de Herbert von Karajan chega junto com uma nova avaliação do seu passado e da ligação com o regime nazista.

Se acontece um tsunami na Indonésia, Herbert von Karajan é o culpado. Se há um ataque terrorista na África do Sul, Herbert von Karajan é o culpado. Um terremoto no Japão? Karajan é o culpado. Caem os índices das bolsas? Karajan. Uma estrela explode numa galáxia distante? Karajan! Interessante percurso, o da biografia de Herbert von Karajan, nome incontornável da música de concerto do século passado. Morto em 1989, desde então a sua fama só fez decrescer e suas culpas só souberam aumentar. Num artigo publicado em janeiro deste ano a respeito do centenário do nascimento de Karajan, que acontece hoje, o crítico inglês Norman Lebrecht fez um apelo melodramático:

– Não transformem um monstro num mito.

Mas Lebrecht, o Diogo Mainardi da música, se enganou: o mito é que tem sido transformado em monstro.

A metamorfose de Karajan nesses últimos 20 anos tem muito a ver com a sua morte no momento em que ele havia se transformado numa caricatura bizarra de líder de orquestra. Nos seus inúmeros vídeos, produzidos por ele mesmo, os ângulos da orquestra são irreais e existem somente para a glorificação da imagem, para a criação de um halo santificador que envolve o perfil de Karajan, sempre de olhos fechados como se internalizasse a música por sopro divino – ou como se ele mesmo fosse a própria divindade. A par disso, há a coleção de automóveis velozes e os aviões pilotados pelo maestro para levá-lo de um lado para outro da fama internacional.

Tudo isso se colocou em contradição à figura austera de Ludwig van Beethoven, o compositor por cujas interpretações Karajan se tornou célebre. O maestro desapareceu no auge dessas idiossincrasias.

Enquanto viveu e mesmo nessa fase da caricatura, Karajan pôde torcer a seu gosto uma pedra de sua biografia – a sua associação com o regime nazista dos anos 1930. Foi com a evidência de seu casamento em outubro de 1942 com Anita Gütermann, neta de judeus, que Karajan atestava o seu descompromisso com aquele regime e protestava perseguições daqueles a quem serviu sem titubear. Os comitês de desnazificação compraram a história e ela serviu para deter as investigações que surgiam de tempos em tempos para tentar desmentir o maestro. A partir da morte de Karajan a encenação foi caindo por terra e sua biografia começou a ser reescrita e o mito se reconstruiu em monstro.

Muitos historiadores têm se debruçado sobre a música do período nazista. O canadense Michael H. Kater, um desses mergulhadores, reconstituiu todo o percurso que levou Herbert von Karajan de obscuro maestro do interior da Alemanha, em 1929, ao posto de mais jovem diretor de teatro de ópera alemão em Aachen em 1935 e à caracterização como “o fabuloso Karajan” num artigo do crítico Edwin von der Nüll (e não de Joseph Goebbels, como se diz às vezes) numa edição do Berliner Zeitung em 1938.

O arrivismo e o oportunismo estavam na ordem do dia naqueles anos de expurgo de músicos judeus. Karajan filiou-se ao partido nazista na primeira hora, já em 1933. Não bastassem os fatos biográficos, há também música para atestar a natureza desse comprometimento político: existem os registros sonoros dos anos do nazismo, inclusive uma gravação do prelúdio de Os Mestres Cantores de Nürnberg, de Wagner, feito em fevereiro de 1939 na presença de Adolf Hitler.

As credenciais nazistas de Herbert von Karajan são impecáveis, inclusive na associação com a música de Carl Orff como prova de seu comprometimento com a música “moderna”. É surpreendente que Karajan tenha conseguido ocultá-las imediatamente, assumindo a regência da Filarmônica de Londres já em 1948, coordenando músicos que haviam lutado na guerra, mas evidentemente do lado oposto ao do maestro. Feito após feito, sucesso após sucesso, extravagância após extravagância, a carreira pós-guerra de Karajan se solidificou quase sem fissuras: maestro vitalício da Filarmônica de Berlim em 1955, regente da Filarmônica de Viena em turnês mundiais, fundador do Festival de Páscoa de Salzburg em 1967, doutor honoris causa da Universidade de Oxford em 1978, regente da Missa da Coroação de Mozart no Vaticano diante do Papa João Paulo II em 1985. Àquela altura, a canonização parecia iminente.

Logo após a morte de Karajan, o seu legado caiu num esquecimento veloz e profundo. A música tinha tomado outros rumos, distanciando-se dos maestros personalistas. Também as grandes orquestras se viram prisioneiras da arapuca das interpretações com instrumentos originais e pouco a pouco muito do seu repertório lhes foi retirado: Beethoven, Berlioz, os barrocos sem nenhuma exceção e Bach acima de todos, Mozart, Haydn. De uma hora para outra, Karajan transformou-se de divindade em mito fora de moda.

Foi assim que o centenário de nascimento veio encontrá-lo e mais uma vez vem o muxoxo azedo de Norman Lebrecht:

– Levantar um maestro dos mortos não tem nenhum valor criativo, pois desperta nada mais valioso do que a adoração a heróis.

Os desvãos da biografia de Karajan atraem como um pólo magnético e invadem aquela área na qual, afinal, se encontra a razão de toda a sua celebridade – a música. O oportunismo político de Karajan não impede que Michael H. Kater avalie ter sido ele “de 1939 a 1945, o mais interessante e atrativo de toda uma geração de jovens maestros do Reich”. Então: é possível descontaminar a música de Karajan das suas posições políticas e do seu carreirismo, para avaliá-la como objeto real, como música-em-si? Não, isso não é possível. Se assim fizéssemos, estaríamos incorrendo naquilo sobre o que o musicólogo americano Richard Taruszkin discorreu quando nos visitou anos atrás: a cegueira diante da presença de elementos desconfortáveis na música.

Na sua conferência Stravinsky e Nós, Taruszkin discutiu a cegueira diante do anti-semitismo de Stravinsky expresso num dos textos da sua Cantata de 1952. Disse Taruszkin: “todos nós operamos sob a pressão de colocarmos o que chamamos de considerações artísticas na frente e no centro de qualquer discussão sobre arte e de resistirmos – na realidade, a desdenharmos – considerações de qualquer outro tipo.” No caso da obra de Stravinsky, o foco da consciência musical havia se deslocado do “objeto em si parta o objeto como ele é feito. Isto se fez às custas da exclusão de idéias extra-musicais na consideração da música ela própria. E este tabu nos tem custado caro.”

O caso da música de Karajan, levando em conta a necessária diferença entre compositores de música e intérpretes de música, é semelhante ao de Stravinsky. Também aqui não há como ouvir Karajan pela música em si mesma. Se num momento ela aparece invadida pelo colaboracionismo político, em outro momento ela se deixa ocultar pelos gestos mais trovejantes do colecionador de carros, o piloto de aviões. Mesmo assim, não há de sobrar pouco de toda a música feita por Karajan. Afinal de contas, um terço de todos os lucros da gravadora Deutsche Grammophon veio durante décadas dos registros do maestro, em áudio e em vídeo.

Há dois extremos na avaliação crítica do legado de Karajan. Numa ponta, existem aqueles que o consideram a melhor personificação de maestro do século 20, sem comparação a nenhum outro, seja ele Arturo Toscanini, Wilhelm Furtwängler ou Leonard Bernstein. Para eles, os registros de Karajan são definitivos no repertório em que os outros também foram mestres, na música de Beethoven, Wagner e Brahms. Na outra ponta, há Lebrecht – sempre ele – a maldizer a tendência de Karajan de homogeneizar a música, fazendo com que “ouvir Karajan em excesso seja como como passar um mês em um McDonalds, uma experiência engordante e insensibilizadora.” Provavelmente, para além desses extremos, exista algum meio-de-campo razoável, no qual colocar a música de Karajan e apreciá-la sob anestesia, já que não será possível apreciá-la sem estar anestesiado às considerações que a cercam e perpassam.

O centenário de Herbert von Karajan é muito mais do que uma efeméride a ser assinalada com um par de livros e um saco de confetes. Todos os elementos que construíram o mito Karajan convergem para construir uma visão muito específica da arte do século passado e de suas turbulências ideológicas, suas adesões e recusas, as cores fortes de suas contradições chocantes. Por isso, talvez o que melhor represente todos os registros sonoros de Karajan seja mesmo o grito lancinante que encerra a sua gravação expressionista da Cavalleria Rusticana de Mascagni. No seu desespero, ele vale mais do que a beleza calculada de qualquer uma de suas múltiplas gravações da Marcha Fúnebre da Eroica de Beethoven.

CELSO LOUREIRO CHAVES | Músico | Publicado hoje no Caderno de Cultura de Zero Hora

22 comments / Add your comment below

  1. A verdade é que Lebrecht faz da iconoclastia o seu modo de vida , à parte ser um grande conhecedor de música,eu já o havia citado pelo seu ódio a Mozart a quem acusa de ”fazer música de elevador” ou de ”sala de esperas ”;outra tirada de Lebrecht que também citei é o seu desprezo pela maior gravação do ”Triplo conceto de Beethoven” ,aquela com Karajan,Slava , Sv.Richter e Oistrach;Lebrecht diz que é uma merda….sua crítica que considero mais consistente é aquela que diz que a gravação de Karajan das ”Quatro Estações” funciona como se ele tivesse passando com um trator por cima do Prete Rosso,e também seria bom se Karajan tivesse esquecido Bach e Barrocos.
    Karajan por ter feito várias gravações, e nos últimos dez anos de vida criado sons e imagens irreais com suas pirotecnias, necessita ser ”Garimpado” ou seja precisamos localizar suas grandes gravações;quando assim feito ,não tenham dúvidas,estaremos diante do melhor possível,notadamente naquele terreno que domina, e que cobre justamente o período da músicaq narrativa ou seja dos Clássicos até os pós românticos,”sua praia”; outra grande especialidade sua é justamente o terreno operístico e realmente suas gravações ”veristas ” [ Cavaleria e Pagliacci] as quais também me referi a semana passada dizendo tê-las adquirido agora em dvd[ possuia as, em LD] são extraordinárias;sem contar seu Don Giovanni , La boheme, seus Verdis ….para mim também outras grandes referências .Acaba de sair em dvd ”O OURO DO RENO” uma raridade.Mahler é outra grande referência com ele e neste campo a briga dos seus adeptos com os de Bernstein é notável,justamente para saber quem é melhor; em Brahms, Bruckner e Beethoven, Karajan ”dá um banho” no Bernstein!
    Já nos modernos eu prefiro Boulez.
    No Tchai, Schumann , Mendelssohn …Karajan também é muito grande como já disse.

  2. Arte e política , desculpe o Celso , mas com ex-Marxista , ex-trotskista,sei que uma obra de arte não se mistura com o perfil ideológico do artista, aprendemos muito mais com Trotsky ,quando estava fora do poder claro…ahahah,que se misturou com o anarquista Breton . Hoje, como liberal , respeito mais ainda a obra do autor de uma forma pura mesmo e totalmente desvinculada do seu perfil ideológico;sei admirar Cèline, Wagner ou Furtwangler independente de terem sidos pessoas de ideologia abominável ;assim como é o ”delator” José Saramago ,só que Saramago escreve muito mal e e´panfletário e piegas,ou seja deixa sua obra se contaminar por sua ideologia; outro comunista como Lobo Antunes por exemplo , é muito melhor, milhões de vezes e não tem reconhecimento.
    Assim o grande problema é saber se o autor não deixa sua obra sofrer contaminação ideológica,coisa que não consigo sentir no melhor de Karajan.
    Lebrecht é muito mais competente que Mainardi, pelo amor de Deus;Mainardi é um imitador barato de Francis , sem ter seu glamour,vivência,cultura…começa que não conhece nada de música,uma paixão de Francis.
    Volatndo a Lebrecht ele tem um livro delicioso em que detona os maestros ,contando detalhes do dia a dia,vida pessoal ,fofocas e inclusive música…rsrsrs…o livro se chama ”O MITO DO MAESTRO” . A passagem da escolha do sucessor de Karajan, contada em detalhes , é divertidíssima, e mostra como muitos já tinham ”encomendado até o chopps” quando Abbado, com a carreira em declínio, ganhou .
    Abbado , comunista de carteirinha, é outro grande exemplo de que podemos não ter contaminação ideológica na obra de arte;em momento algum deixa-se transparecer sua ideologia,eu pelo menos não consigo enxergar!

  3. Quando digo que como ex-marxista aprendi a não misturar as coisas é porque os marxistas-leninistas misturavam muito , coisa que os Trotkistas não faziam e aliás faziam questão de deixar isto claro,até como forma de se diferenciar dos Partidões,forma carinhosa de como os chamávamos.
    Bem , trotskistas fora do poder,calro…ahahah…no poder , Trotsky ,chefe do exército vermelho, na repreensão da revolta anarquista de Kronstadt,quando marinheiros se rebelaram contra o novo regime bolchevique, deu a seguinte ordem para seus soldados: ”Não poupem balas” ….ahahahah….depois que Stalin o expulsou do poder ele se juntou a Breton,Rivera e cia ….mudou! ….ahahahah….essa vida!

  4. A alegação de que Karajan , Furtwangler , Céline, são nazistas e devem ser julgados por isso e não por sua obra é totalitária e reflete o mesmo pensamento Leninista-Stalinóide que dizimou com grandes artistas russos de todos os campos , do literário, pintura ,música….com a alegação de faziam obras para ”burgueses”; obras incompreensíveis para o proletariado;o raciocínio é o mesmo,invertido, na sua essência se encontra o pior de tudo, o totalitarismo,á esquerda ou à direita,pouco importa ,na verdade, lá na ponta eles praticamente se tocam , dão a volta para se encontrarem.
    Certa vez Pablo Picasso, filiado ao Partido Comunista Francês, foi abordado pelos camaradas devido a sua belíssima obra ”Noite de Pesca em Antibes”,hoje no MOMA de NY . Segue o diálogo:
    -Companheiro, os camaradas não entendem sua obra!
    -Picasso: então, que se danem os camaradas! -e devolveu sua carteirinha do Partido….ahahahah….
    Saudações à todos deste ex-marxista,que continua hoje marxista, ou seja aquele que adora os irmãos MARX; Groucho,Chico e Harpo…hahahah

  5. Muito interessante o artigo.

    Ousando um vôo talvez maior, acho intrigante o fato de o paradigma da música pura (Brahms e seguidores) ter permanecido em pólo oposto a Wagner – ícone do anti-semitismo – no século XIX, e, durante o século XX, esse mesmo argumento da apreciação da música-em-si (como diz o texto) ter sido utilizado em defesa não apenas de Wagner, mas de boa parte dos músicos envolvidos no regime nazista (vide também Richard Strauss).

    Perdões pela digressão.

  6. Bem Wagner nem conheceu o regime nazista, na verdade era só mais um dos nacionalistas que pipocavam naquela época,na sua última fase, porque na primeira ainda amigo de Nietzsche, carrega toda sua obra da ideologia ”anarquista” do amigo, ver o ciclo do anel.
    O ódio anti-semita é na verdade europeu, ou mais ainda, do mundo cristão como um todo, luteranos ,calvinistas ou católicos;mesmo nos EUA pré-guerra isto existia veja o livro de P. ROTH ”O COMPLÔ CONTRA A AMÉRICA”!
    Em absoluto tenho a maior admiração pelo povo judeu,para mim um dos berços da nossa civilização,mas querer jogar a culpa disto tudo somente em alguns escolhidos , é sacanagem!
    Quando Hitler torrava a cabeça apenas de judeus , toda a europa ria de escárnio,exceto alguns lúcidos como Churchill,e o querido Papa Pio XII , mais ainda;franceses colaboravam , italianos,espanhóis e austríacos idem e a rússia com o ”titio” Stalin ,havia feito um pacto de não agressão com Hitler;enfim estavam todos se danado para os judeus;quando a BESTA invadiu a Polônia , em 39, salvo engano, é que perceberam o tamanho da encrenca!
    Concordo com você Moses , que seu povo seja sofrido e tenha sido perseguido, mas desde muito tempo pelos cristão todos,este é um erro grande de todos,o mesmo erro que alguns sionistas fanáticos hoje cometem com o povo palestino, e o pior não percebem que fazendo isto estão repetindo o que foi feito com eles.
    George Steiner , judeu , e meu ídolo,diz em uma entrevista de um livro da Perspectiva,também de dono judeu[ ,J.Ginzburg ] que se os judeus tivessem lido Santo Agostinho eles teriam tido mais cuidado,pois,segundo ele, Agostinho teria dado ordens para se esparramar com os judeus , isto por volta de 390 DC ; este ódio é antigo,deve ser julgado como um erro do mundo cristão, não isoladamente com um ou outro!
    SDÇS!

  7. Caro Salinas,

    Válidas as tuas colocações, mas quero esclarecer que o foco do meu comentário é apenas o uso do argumento da “música pura” em diferentes momentos da história, em defesa de pólos ideológicos opostos. Não quero criticar ou defender ninguém, e não pretendo mexer no abelheiro do anti-semitismo, ainda que tangencialmente.

    Só postei porque acho curioso o fato de Wagner buscar uma “arte integral”, cênica, que descrevesse o mundo (ou algo assim) com suas óperas, em contraponto à “música pura” defendida por Brahms, no século XIX, e, já no século XX posterior à 2ª Guerra, ter-se passado a defender Wagner por ser “música pura”, independente do “mundo” que a concebeu (Daniel Barenboim o fez em Israel). Não sou fundamentamente pró nem contra nenhum dos mencionados, volto a destacar…

    Abraço

  8. A postura de Barenboim e Said é exemplo para o mundo todo;a orquestra Palestino-judaica é uma realidade e Barenboim mostrou sua grandeza ao reconhecer a beleza da música Wagneriana, apesar do mau-carater do homem, o que Wagner fez com Hans Von Bullow e Liszt é digno de cuspirmos na sua cara, no mínimo, mas sua música é extraordinária, só o Prelúdio de Tristão e Isolda já pagaria por tudo.
    A briga música pura x programática é bobagem,como disse um crítico, depois da Pastoral Beethoveniana, tudo é programático!
    De um lado Wagner, Mahler, Bruckner…do outro Brahms; outra briga boa foi ópera alemã x italiana;de um lado Wagner e cia e de outro Verdi;como se vê Wagner estava em todas e Verdi sucumbiu ao estilo Wagneriano,haja vista que suas últimas óperas,Otelo e Falstaff , são de estilo Wagneriano.
    Bom eu já tomei partido nestas brigas e hoje estou bem definido: fico com todos…eheheeh…afinal de contas ouvi estes dias de um amigo Wagneriano fanático:Você sabe que estou repensando e hoje acho Brahms maior que Wagner e Mahler!!!!????
    Fazer o quê?

  9. Karalhan foi um dos grandes. Quando o general acertava , pronto, o alvo ficava inutilizado, ninguém mais poderia superar. Mesmo naquela turma de viena, seja a velha ou a nova, Hérbete já dizia tudo. Mesmo no mundo italiano, o alemão mandava bem. La Boheme é de um frescor e riqueza sem igual. Tchaykovski só faz sentido com o velho maestro. Mas claro, não seria louco de confiar minha carteira ao cuidado dele, o homem não era de confiança.

  10. Toda essa celeuma sobre a figura e a efeméride de Karajan é um puta exagero. Karajan teve seus defeitos sim, e não foram poucos. Porém, foi um dos maestros mais influentes e cujas gravações, não todas, são referenciais. Eu sou um dos que apreciam muitas das gravações do maestro, mas não sou fanático a ponto de endeusa-lo. Dizer que ele foi maior (melhor) que Berstein, Böhm, Celi, Furtwangler, Toscanini, Klemperer etc. é no mínimo um erro. Equivale a dizer que Karajan foi o único a interpretar corretamente obras de compositores do Classismo-Romantismo-PósRomantismo-Modernismo e, portanto, o único que deve ser ouvido. Falácia absoluta.
    Como foi dito, Karajan foi um dos maiores intérpretes beethovenianos do século XX. Suas integrais são as mais conhecidas, sendo as melhores das décadas de 60 e 70. A última, de 80, é falha em vários aspectos. Na minha opinião, ele não tinha mais nada a dizer sobre Beethoven, portanto pra que mais uma integral? Ganhar dinheiro, claro! Taí um dos grandes defeitos do maestro: gravar para lucrar.
    Bem ou mal, Karajan faz parte do panteão dos grandes regentes. E isso é fato. Questionável, mas fato.

  11. Saudoso João Saldanha escalava o seu ataque preferido para uns jogos eliminatórios em 84 ou 85: Renato Gaucho , Serginho e Eder.
    Reportér : Tudo bem João, mas aí temos que levar junto a polícia federal!
    João:Olha eu quero classificar para a Copa, não é para casar com as minhas filhas,para casar com minhas filhas nenhum desses aí serve!

  12. Ola!

    PQP voce escolheu um excelente artigo.

    Entretanto, tenho que concordar contigo Principe: Não há como relacionar as ideologias com a musica per si.

    Agora alguns pontos que penso diferente do Salinas, como é natural e muito saudável.

    Eugenio Pacheli foi um homem admirável. Não sou católica. Sou espirita. Mas considero Pacheli (Papa Pio XII) um grande homem, considerado o papa da democratica. Ele conseguiu salvar milhares de vidas da sanha destruidora de Hitler, graças a um acordo que ele realizou com o mesmo em Asmertdã, utilizando-se do notavel João 23, o futuro papa alias.

    O principe deve ter lido “O Vigário”, um livro que saiu a alguns anos na europa reprochando a postura de Pio XII, acusando-o a sua atitude de não ter feitos esforços para salvar vidas de Judeus, poloneses, russos e outros povos da perseguição Nazista.

    Mas, esse ponto de vista abordado em “O vigário” é inteiramente questionável, credor de maior corroboração de fatos históricos.

  13. Claro que não li , prezada Laís,desculpe mas sou muiiiitissimo seletivo em tudo na vida e a medida em que envelheço, 51 anos , cada vez mais, pois nesta altura da vida tenho que fazer a ”Escolha de Sofia ” ; Pio XII foi inicialmente conivente com o massacre judaico assim como quase toda Europa Cristã, que sempre odiou o povo hebraico,veja Laís eu sou descendente de libaneses católicos cristãos [raro] de quatro avós;o ódio de Cristãos contra judeus é antigo e TEOLÓGICO;como você sabe o povo hebreu ainda espera pelo Messias, que só virá no final dos tempos, e portanto não acredita em Cristo,um judeu diga-se de passagem;diferente por exemplo dos muçulmanos que aceitam Cristo como um dos profetas, mas claro o profeta da revelação para eles é Maomé.
    Dito isto , de forma resumida claro, explica-se a simpatia da Europa com Muçulmanos e a sua ojeriza com judeus;temos que contar ainda que os Muçulmanos permaneceram durante 7 séculos na Europa, levando na época, medieval, depois que os ”bárbaros” tomaram Roma, o melhor da civilização para eles[ veja como é a vida].
    No seu maravilhoso livro ”ULISSES”, Joyce trata do assunto , já que seu personagem Leopold Bloom era judeu, como ele mesmo,segue o diálogo aproximado, já que, transcrevo de memória:
    -Pois é , na Irlanda não temos problemas com judeus.
    -Ah é ?
    -Sim, nós nem os deixamos entrar!

    O esperto PIO XII, assim como toda Europa, foi simplesmente oportunista , só acordaram quando já era tarde;Churchill tido como um ”trapalhão” até então, foi o grande visionário, o resto , desculpe prezada Laís, são todos hipócritas!

  14. Veja bem , prezada Laís, na década de trinta na Europa, houve uma reação grande ao avanço do então iniciante comunismo, capitaneando por trás disso, uma aliança católica-direita, não é coincidência que em Portugal assuma Salazar; na Espanha, Franco, ajudado pelos nazistas , Mussollini na Itália e Hitler na Alemanha-Austria.
    Hitler era conveniente para muitos europeus que o viam como uma barreira ou contraponto ao GRANDE URSO . Por trás de tudo o seu grande PAPA o tal do PIO XII. Para eles, quando era com judeus , uns a mais ou a menos pouco importava.
    Stalin tentando bancar o espertinho faz logo um tratado de não-agressão com Hitler,dando com os burros n’agua como veriamos.
    Nesta lambança totalitária bilateral, sobrou de lucidez , para variar os ingleses.O detalhe de Churchill é que ele estava ”em baixa” em 32 quando alertou para Hitler;veja bem se analisarmos dentro do contexto, estamos em 32, e Hitler era saudado como o novo salvador da pátria!
    Somente um adendo,quanto ao caso da guerra civil espanhola vencida por Franco;do outro lado estavam os ”republicanos” apoiados por STALIN e sua turma, ou seja pobre espanhóis estavam literalmente entre a cruz e a espada; como disse o grande jornalista português João Pereira Coutinho, que escreve na Folha de Sampa: Em alguns momentos não temos como optar;de um lado Franco e Hitler, do outro lado Stalin;ou seja qual totalitário você escolhe? Parafraseando Caetano Veloso: ”Entre o inseto e o inseticida”…

  15. Caro Principe,

    Esses pontos de vista são abordados no livro supracitado. Reitero a colocação que do ponto de vista historico essas referencias são altamente questionáveis. Não há um consenso que admita essas acusações ou hipoteses levantadas em torno da figura de Pacheli.

    Agora vamos aos fatos já comprovados: Pio XII salvou milhares de vidas das vascas do Nazismo.

    É sempre o problema de examinarmos as coisas fora do contexto. É dificil. Qualquer postura dúbia ou estranha, examinada nos dias atuais nos parece suspeita. O problema é que não vivemos naquela situação. Mas é muito dificil a analise atual fora do contexto da época.

    E isso nos remete novamente a Karajan e a outros. Como acusar Furtwangler e outros? Qual o nivel de implicação? Somente porque eles não deixaram a Alemanha, estariam de acordo com a estupidez do Holocausto? Será que eles tiveram muitas escolhas?

  16. PIO XII e o braço mais fanático da Igreja, a Opus Dei estavam de braços dados e atuaram com muita eficiência na guerra civil espanhola,pró Franco , claro ,além de outros locais europeus.
    BUNÜEL e Saura neles, LAÍS.

  17. Essa conversa de que PIO XII tenha escondido judeus é fiada, a igreja saiu com essa depois de ver o desastre que foi apoiar inicialmente Hitler e todos os nacionais-fascistas europeus, com medo de Stalin , claro;mas volto a dizer todas as duas opções eram muito ruim; sigamos o exemplo Inglês!
    Pio XII preferia ajudar o diabo do que judeus.
    João Paulo II , apesar de ser meio boçal e provinciano , certamente ajudou a derrubar o Grande Urso e libertar o leste europeu daquele pesadelo.

  18. Esse anti-karajanismo bacoco já enjoa, é de uma patetice confrangedora, e pronunciada por gentinha frustada que não entende nada de interpretação, hermenêutica, composição nem de estética musical. A única coisa de que é especialista é de crónicas dominicais que vão parar às lareiras das nossas casas juntamente com as listas telefónicas. O tempo, a posteridade, a História está-se literalmente a defecar para o que opinam ou deixam de opinar.

    Gostei do texto. Realço duas passagens:

    “O caso da música de Karajan, levando em conta a necessária diferença entre compositores de música e intérpretes de música, é semelhante ao de Stravinsky. Também aqui não há como ouvir Karajan pela música em si mesma.”

    Então não há? Os filmes da Riefensthal são os filmes da Riefensthal; a ideologia nazi é a ideologia nazi. Se as aguarelas de Hitler fossem belas eu diria as “as aguarelas de Hitler são belas”.
    Não me interessa se Tchaikovsky era pedófilo ou não; se Stravinsky ou Wagner eram anti-semitas ou não. As obras de Marques de Sade ou “Les onze mil verges” de Appolinaire são obras interessantes mesmo que os conteúdos sejam execráveis e tenham a sua (do autor ou do narrador, para aqui os conceitos da narratologia não interessam) aprovação.

    Para uma justa apreciação estética não me interessa o carácter de Karajan, se mesquinho, se arrogante, se tirano, podia ser o maior pulha do mundo.

    “”Provavelmente, para além desses extremos, exista algum meio-de-campo razoável, no qual colocar a música de Karajan e apreciá-la sob anestesia, já que não será possível apreciá-la sem estar anestesiado às considerações que a cercam e perpassam.”

    Com ruído de fundo, de facto, começa a ser difícil. Mas é suficiente escutar-mos as gravações ao vivo, sem as manipulações calculadas do estúdio, para quem tiver o mínimo de sensibilidade ficar rendido com o magnífico, extraordinário cuidado pela sonoridade, pela arquitectura da obra, pela sua musicalidade. No que respeita a este item ninguém o ultrapassou.
    Karajan dizia que era a união da fantasia de Furtwangler com o rigor e objectividade de Toscanini. Agora eu diria que o maestro ideal seria a emoção impulsiva de Bernstein (ou já agora o elemento telúrico de um Sviatoslav Richter) com a precisão de Karajan. Mas isso é um desafio para os alquimistas …

    Ainda sobre o pateta inglês, é curioso que a ignorância abunde tanto que até parece desconhecer o triplo disco que Karajan dedica à escola de Viena que mesmo sem ser um especialista em tal repertório (não foram tantas as vezes como se gostaria que abordou tal repertório) são de uma tal excelente qualidade, que ironicamente, na minha modesta apreciação, ainda não foi ultrapassada (nem as de Boulez de quem também naturalmente aprecio)

    Qual é o compositor que não gostaria de ter um Karajan a executar uma das suas obras?

    Hermes, o dos pés alados, também ele um deus, a trazer aos mortais, as mensagens do Olimpo.

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