Elomar Figueira Mello (1937): Na Quadrada das Águas Perdidas (1978)

Com esta postagem do trovador renascentista do sertão baiano sinto que completo um ciclo de explorações sobre “o clássico fora do clássico” – ciclo que incluiu a kora ou harpa africana de Toumani Diabaté, as elaborações de cantos indígenas de Marlui Miranda, um balé instrumental de Gilberto Gil, os grupos instrumentais Quinteto Armorial e Uakti.

Não se trata do mesmo conceito das postagens usualmente rotuladas como “interlúdio” neste blog, que incluem jazz, blues, algumas coisas da chamada MPB – coisas que a maior parte de nós sente, mesmo sem saber explicar por quê, serem uma outra arte, como que paralela ao “clássico”, embora não necessariamente de menor valor ou grandeza. E é do mesmo modo difícil de explicar que sinto que certas coisas deveriam ser reconhecidas como propriamente clássicas, embora venham de ou por fora fora da linhagem europeia a que se costuma atribuir a palavra.

A ideia de postar Elomar nesta série é antiga, mas – confesso – eu vinha adiando por medo de escrever sobre ele, cuja arte ao mesmo tempo me encanta e perturba, causa uma estranheza inquietante. Mas hoje, ao atender um pedido de revalidação do link do disco “Música Renascentista para Alaúdes, Vielas e Bandurra”, senti que não podia deixar passar a oportunidade: ouçam os dois discos, e acredito que “ouverão” que não foi sem razões sonoras que liguei Elomar ao rótulo “renascentista”.

Nem sem razões históricas que o liguei ao rótulo “trovador”: sugiro uma visita à sua página oficial e (mais rápido) uma lida na sua biografia na Wikipedia, de onde destaco: “Elomar, assim como Glauber Rocha e [seu primo] Xangai, é descendente direto do bandeirante e sertanista João Gonçalves da Costa, fundador em 1783 do Arraial da Conquista, hoje a cidade de Vitória da Conquista”. Além disso, embora formado em Arquitetura na UFBA – justo no período em que esta fez de Salvador um dos maiores polos de efervescência cultural do país – nosso artista sempre deu preferência a viver em uma ou outra das três fazendas que herdou.

Ou seja, engana-se quem o liga à palavra “menestrel” – na Idade Média e Renascença um cantador e entertainer pertencente às classes populares, geralmente itinerante: Elomar vincula-se literalmente à tradição dos trovadores, sempre “filhos de algo” (isto é: nobres, proprietários de terras) com condições de estudar e se dedicarem a experimentações artísticas sem preocupações de sobreviver disso. E seu uso da linguagem sertaneja não tem nada de brotação espontânea: trata-se de um projeto artístico-intelectual tanto quanto o de Guimarães Rosa.

Por favor: com isto não estou nem valorizando nem depreciando a arte e a pessoa de Elomar: estou apenas caracterizando, e isso numa dimensão que nada tem a ver com valor ou desvalor!

Termino com uma observação musical e uma literária facilitadas pela marcante canção “Arrumação” – tão marcante, aliás, que acrescentei no final mais três versões, além da original que constitui a faixa 5 do disco (sendo que a releitura pelo próprio Elomar, com coral, me parece a menos brilhante das três – aproveitando ainda pra confessar que não gosto muito das duas primeiras faixas do disco e peguei o hábito de começar a ouvir pela terceira – mas isso vai naturalmente do gosto de cada um!).

A observação musical: começo a suspeitar que boa parte da estranha pungência melódica de Elomar deriva do seu frequente uso da escala menor melódica, cujos 6º e 7º graus têm caráter de escala maior nas frases ascendentes e de menor nas descendentes – um recurso técnico do qual também Bach extraía efeitos de pungência.

A literária: não se confunda esta exploração literária do dialeto sertanejo por um estudado com um certo “fazer gênero ‘povo’ falando ‘errado'” – pois, antes de mais nada, quem estudou mesmo sabe que não há propriamente “errado” em línguas. Mas a coisa aqui vai além das variantes de classe social: está-se lidando com um falar que descende de um português migrado para o Brasil antes da codificação clássica da língua. Quem estudou um pouco de linguística românica sabe que há bem umas duas dezenas de falares derivados do latim além dos cinco oficializados como idiomas nacionais. E porque cargas d’água é chique quando um francês chama de ail (pronúncia “ái”) o tempero que em latim se chamava allium, e seria errado quando mãe Prudença pede a sua neta Jusefina “vai cuiê u ái, ái de tua vó”?

Pra mim, pelo menos, o que é é arrepiantemente belo.
E deixo vocês com Elomar.

Elomar Figueira Mello: NA QUADRADA DAS ÁGUAS PERDIDAS
LP duplo, 1978

1. A Meu Deus Um Canto Novo
2. Na Quadrada Das Aguas Perdidas
3. A Pergunta
4. Arrumacao
5. Deseranca
6. Chula No Terreiro
7. Campo Branco
8. Parcelada
9. Estrela Maga Dos Ciganos
10. Função
11. Noite De Santo Reis
12. Cantoria Pastoral
13. O Rapto De Joana Do Tarugo
14. Canto De Guerreiro Mongoio
15. Clariô
16. Bespa
17. Dassanta
18. Curvas Do Rio
19. Tirana
20. Puluxias
EXTRAS:
21. Arrumação – versão de 1989 (Elomar em Concerto)
22. Arrumação – versão de 1988 com Francisco Affa (Cantoria 2)
23. Arrumação – realização instrumental do grupo Uakti, 1996

. . . . . . . BAIXE AQUI – download here

Ranulfus

10 comments / Add your comment below

  1. Maravilhoso, PQP! Devemos valorizar nossa música brasileira. Gostaria de ver aqui, também, e baixar algo de Altamiro Carrilho.

  2. Puta merda, Ranulfus. Esse disco é lindo demais! Chego a marejar os olhos de lágrimas quando escuto esse disco. Por exemplo, a bela comovente “O rapto de Joana do Tarugo” é uma ária sertânica da mais alta sensibilidade. Belo post, Ranulfus!

  3. Valeu, amigos! E, Carlinus, é justo nesse álbum que eu o sinto mais puro & mais pleno – mais puro inclusive das tentações de parecer clássico, e POR ISSO um clássico 🙂

    Aliás, você não acha que Elomar e o projeto Armorial se integram perfeitamente? Eu não quis escrever isso porque, afinal, dizer que baianos e pernambucanos são a mesma coisa pode ser problemático… rsrsrs – mas eu realmente sinto como se fossem diferentes frentes de um mesmo grande impulso.

  4. Caro Ranulfus:

    Estou ouvindo Elomar agora, e estou achando “muito bonita” a música; para mim, é a trilha sonora dos contos de Guimarães Rosa, embora Elomar seja baiano (há então um Elomar mineiro?). E esta associação atiça meu apetite por outras obras do gênero, para mim, coisa nova, além da música sertaneja, hoje música-raíz, a qual não entendo.

    Ótima! Ótima! Ótima Postagem!!!

  5. Adriano, não sei se você reparou que numa canção do Elomar lá pelas tantas se ouve: “longe pro norte de Mina o relampo raiou” ? A gente costuma reparar na imensa divisa (linha de conversão de uma coisa na outra) entre São Paulo e Minas, e esquece que a entre Minas e Bahia é tão grande quanto, se não maior. Acho que há uma tranquila continuidade, metamorfose gradual, entre o sertão de Guimarães Rosa e o de Elomar. Aliás, com certeza este último está muito mais próximo daquele do que da cultura de Salvador e do Recôncavo – tão imenso país é a Bahia (assim como Minas!).

    Quanto a outras obras… além de mais alguns discos do próprio Elomar, existem os notáveis Cantoria 1 e 2, gravação de 2 shows com Elomar, Xangai, Geraldo Azevedo e Vital Farias. Todos maravilhosos – mas quando entra o Elomar sempre se destaca como, de certa forma… um clássico!

    No encarte do álbum em vinil há transcrições das letras, glossários, etc. Não sei na reedição em CD, que nunca vi. Ah, sim: vários dos discos estão à venda no site oficial do Elomar, linkado acima.

  6. Caro Ranulfus:
    Depois que lhe escrevi o texto, percebi que o que eu tinha me referido como “contos de Guimarães Rosa” é na verdade o sertão, então seria mais correto eu dizer “trilha sonora do sertão”! Acertada a sua indicação da proximidade dos sertões (olha outra faceta “euclidiana” deles) destes dois artistas. Mesmo agora considero que esta comparação é um convite à música e à literatura, no sertão metamorfoseado em arte. E a gente vai, por estas veredas, contemplando a paisagem, vendo as pessoas e ouvindo o cantador…

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