BTHVN250 – A Obra Completa de Ludwig van Beethoven (1770-1827) – Integral das canções irlandesas [Beethoven’s Irish Songs Revisited – Staff and Alumni of the Dublin Conservatory of Music and Drama]

Eu realmente não esperava muitas reações acerca das centenas de canções folclóricas que Beethoven arranjou para George Thomson. Também, pudera: ingressar no capítulo mais volumoso e menos conhecido de sua obra não poderia suscitar reação outra, e eu sabia, enfim, que os comentários da essas postagens seriam quietos como criptas. Tamanha foi a indiferença a elas que eu poderia ter até terconfessado em qualquer delas um bárbaro crime, que eu jamais acabaria denunciado. Até Reginaldo Rossi, vejam só!, eu andei postando, sem que leitor-ouvinte algum por isso pedisse minhas entranhas.

Daria por encerrado este capítulo, portanto, não fosse a manifestação de um colega daqui do blog, que me falou com entusiasmo da descoberta que estas postagens lhe proporcionaram. Contou-me que lhe foi uma verdadeira revelação constatar a elegância e o respeito com que Beethoven, a personificação do gênio individualista e ensimesmado, foi capaz de tratar as melodias dos outros, e que revelavam seu imenso talento como arranjador. Esse mesmo colega, grande conhecedor das coisas da vida e, claro, das coisas da Música, contou-me que se permitiu a surpresa porque muito aprecia a melódica celta, e que por isso foi talvez a única pessoa no planeta a baixar as gravações que postei. Por fim, disse-me que gostara muito das canções irlandesas, mas que estranhara, até por conta de sua procedência, da pronúncia muito erudita do inglês nas gravações que encontrou.

Ele não está sozinho nessa queixa – e queixas, aliás, nunca faltaram acerca das edições de canções folclóricas feitas por George Thomson naquele início do século XIX. Mesmo que tenha encomendado os arranjos para um artista do calibre de Beethoven, e antes dele para gente como Hummel e Haydn, a maior parte de suas publicações acabou por encalhar. As críticas, claro, não se centravam sobre a música – os alvos eram suas letras, muitas das quais consideradas pífias, pouco afeitas à música e, por isso, nada atraentes para serem cantadas.

Thomson, no entanto, planos melhores para com as letras de suas edições. Assim como confiara as canções escocesas para a poesia de seu amigo Robert Burns (1759-1796), o bardo nacional da Escócia, ele convidara o poeta irlandês Thomas Moore (1779-1852) para fazer o mesmo com as canções da Ilha Esmeralda. Não teve sorte: Burns encontrou a morte bem antes de completar a encomenda de Thomson, e Moore, depois de muito relutar, acabou por recusar a proposta. E foi além: a convite de editores irlandeses, resolveu ele próprio compor poemas para canções folclóricas irlandesas com música de John Andrew Stevenson (1761-1833). Suas “Irish Melodies”, publicadas em dez volumes entre 1808 e 1834, foram um sucesso avassalador que assegurou a Moore, além de fortuna, a posição até hoje pouco discutida de poeta nacional da Irlanda.

Thomson, claro, acusou o golpe dessa puxada de tapete, mas quem mais o sentiu foram suas publicações, que, a despeito da música de Beethoven, tiveram acolhida morna não só nas ilhas britânicas, como também no continente – onde canções como “The Last Rose of Summer” e “The Minstrel Boy”, ambas entre as “Melodies” de Moore, eram ouvidas em todos os salões – e nos Estados Unidos, onde foram vendidas um milhão de cópias da primeira.

As edições de Thomson, mesmo esquecidas, seguiram carregando a pecha de sua poesia medíocre. Ainda assim, carregavam consigo também o ilustre nome de Beethoven, de modo que não faltaram ideias de relançá-las com outras letras. Somente dois séculos depois de sua publicação, em 2014, as canções folclóricas irlandesas arranjadas por Ludwig foram não só gravadas na íntegra pela primeira vez, como também foram ouvidas com poemas dignos de sua grande música.

Esta gravação que ora lhes apresento foi fruto da dedicação da vida inteira de um homem: Tomás Ó Suilleabháin (1919-2012), um funcionário público irlandês que manteve uma carreira musical paralela como barítono. Seu xodó, no entanto, sempre foi o projeto duma primeira edição e gravação completamente irlandesas dos arranjos que Beethoven fez das canções folclóricas de seu país. Como todo o resto da pequena fração do mundo que escutou esses arranjos, Ó Suilleabháin (melhor sobrenome!) era muito crítico às letras que Thomson conseguiu para elas. Assim, com a valiosa ajuda do professor Barry Cooper, grande estudioso da obra de Beethoven, e após diversos mergulhos nos arquivos da Biblioteca Estatal de Berlim, ele completou uma edição crítica e completa das canções irlandesas, quase só com poemas de Moore e de Burns, um pouco antes de falecer, em 2012.

A presente gravação, realizada por professores e alunos do Conservatório de Música e Drama da capital irlandesa, inclui não só as sessenta e quatro canções irlandesas arranjadas para Thomson, mas também oito versões originais que foram refeitas, a pedido do editor, por serem difíceis demais para pianistas amadores. Os leitores-ouvintes que conheceram as gravações que lhes apresentamos antes perceberão que, além das letras, há algumas pequenas diferenças musicais nos arranjos, essencialmente repetições ou alguns prolongamentos de notas, a fim de acomodar os novos poemas. Ó Suilleabháin preferiu limitar, sempre que possível, o acompanhamento ao piano, por considerar que as partes de violino e violoncelo detratavam um pouco a simplicidade requerida por algumas das canções. A maior diferença, no entanto, estará no nítido “sotaque” irlandês – que, se não literal, na pronúncia das letras, certamente é bem forte em outros aspectos da gravação. Se não se pode dizer que Beethoven realizou uma apropriação cultural, alheio que estava aos poemas e à cultura da Irlanda, por ter recebido apenas as melodias para harmonizar e arranjar, podemos afirmar que este projeto de muito fôlego é uma merecida reapropriação que os irlandeses fizeram de parte de sua cultura, com a esmerada contribuição dum renano genial.

 

Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)

Canções irlandesas, arranjadas para voz e conjuntos mistos, com acompanhamento de piano, violino e violoncelo, WoO 152-154, 157 (excertos) e 158 (excertos)
Originalmente publicadas entre 1814-16 com letras escolhidas por George Thomson (1757-1851)
Reeditadas com novas letras escolhidas por Tomás Ó Súilleabháin (1919-2012) e republicadas em 2019

Os números entre parênteses indicam a numeração original das canções no catálogo de Kinsky-Halm (WoO) ou de Willy Hess (Hess)

1- Go Where Glory Waits Thee (Air: Maid of the Valley – Thomas Moore)
(WoO 153/10)

2 – Though the Last Glimpse of Erin (Air: The Lady in the Desert – Thomas Moore)
(WoO 152/17)

3 -O Were My Love Yon Lilac Fair (Air: My Dear Eveleen, 1ª versão – Robert Burns)
(WoO 152/5)

4 – O Whistle an’ I’ll Come to Ye (Air: The Black Joke – Robert Burns)
(WoO 152/14)

5 – Ance Mair I Hail Thee (Air: Dermot – Robert Burns)
(WoO 152/16)

6 – When I Was a Maid (Air: Kitty Tyrrel – James Kenney)
(WoO 152/9)

7 – Row Gently Here (Thomas Moore)
(WoO 152/18)

8 – At Night (Air: The Snowy-Breasted Pearl – Thomas Moore)
(WoO 153/1)

9 – Silent, O Moyle (Air: My Dear Eveleen – Thomas Moore)
(WoO 152/6)

10 – When Through the Piazzetta (Air: Autumn Morn – Thomas Moore)
(WoO 152/3)

11 – Their Groves o’ Sweet Myrtle (Air: Paddy Whack – Robert Burns)
(WoO 152/12)

12 – The Catrine Woods (Air: Abigail Judge, 1 ª versão – Robert Burns)
(Hess 196)

13 – Tho’ Women’s Minds (Air: The Kerry Jig – Robert Burns)
(WoO 152/4)

14- Come, Take the Harp (Air: The Summer is Coming – Thomas Moore)
(WoO 152/2)

15 – What Can a Young Lassie (Air: Let Other Men Sing – Robert Burns)
(WoO 153/4)

16 – By Yon Castle Wa’ (Air: The Bold Dragon – Robert Burns)
(WoO 153/3)

17 – Young Jamie (Air: Paddy O’Rafferty – Robert Burns)
(WoO 153/14)

18 – How Dear to Me the Hour (Air: The Twisting of the Rope, 1ª versão – Thomas Moore)
(Hess 197)

19 – Oh! No—Not E’en When First We Loved (Air: Little Harvest Rose – Thomas Moore)
(WoO 152/7)

20 – Nights of Music (Air: The Legacy – Thomas Moore)
(WoO 152/23)

21 – Of A’ the Airts the Wind Can Blaw (Air: The Captivating Youth – Robert Burns)
(WoO 153/2)

22 – When Thro’ Life Unblest We Rove (Air: Lament for Owen Roe O’Neill – Thomas Moore)
(WoO 158/2/7)

23 – Ae Fond Kiss (Air: Lough Sheelin – Robert Burns)
(WoO 152/20)

24 – My Luve is Like a Red, Red Rose (Text: Robert Burns)
(WoO 152/8)

25 – The Small Birds Rejoice (Air: Young Terence McDonough – Robert Burns)
(WoO 152/1)

26 – I dream’d I lay (Air: O Molly, 1ª versão – Robert Burns)
(Hess 194)

27 – Lovely Young Jessie (Air: A Trip to the Dargle – Robert Burns)
(WoO 152/15)

28 – Farewell to the Highlands (Air: Paddy’s Resource – Robert Burns)
(WoO 152/24)

29 – Thou Emblem of Faith (Air: I would rather than Ireland – John Philpot Curran)
(WoO 152/11)

30 – They Came from a Land Beyond the Sea (Air: Peggy Bawn – Thomas Moore)
(WoO 152/13)

31 – At the Mid Hour of Night (Air: I Once Had a True Love, 1ª versão – Thomas Moore)
(WoO 152/25)

32 – If Sadly Thinking (Text: John Philpot Curran)
(WoO 152/10)

33 – Quick! We Have But a Second (Text: Thomas Moore)
(WoO 152/21)

34 – O Stay, Sweet Warbling Woodlark (Air: Garyone, 1ª versão  – Robert Burns)
(WoO 152/22)

35 – Go Then—‘Tis Vain to Hover (Air: The Pretty Girl Milking the Cows, 1ª versão – Thomas Moore)
(Hess 198)

36 – Those Evening Bells! (Text: Thomas Moore)
(WoO 152/19)

37 – Mary Morison (Air: My Dear Eveleen, 2ª versão – Robert Burns)
(Hess 192)

38 – The Catrine Woods (Air: Abigail Judge, 2ª versão – Robert Burns)
(WoO 153/12)

39 – How Dear to Me the Hour (Air: The Twisting of the Rope, 2ª versão – Thomas Moore)
(WoO 153/15)

40 – I dream’d I lay (Air: O Molly, 2ª versão – Robert Burns)
(WoO 153/5)

41 – The Girl I Love (Air: I Once Had a True Love, 2ª versão – J. J. Callanan)
(WoO 154/2)

42 – We May Roam Through This World (Air: Garyone, 2ª versão – Thomas Moore)
(WoO 154/7)

43 – Come, May, with All Thy Flowers (Air: The Pretty Girl Milking the Cows, 2ª versão  – Thomas Moore)
(WoO 154/9)

44 – Oh! Had We Some Bright Little Isle (Air: Síle Ní Ghadhra – Thomas Moore)
(WoO 154/6)

45 – As Vanquished Erin (Text: Thomas Moore)
(WoO 153/20)

46 – The Day Returns (Text: Robert Burns)
(WoO 153/16)

47 – Ah, Me! When Shall I Marry Me? (Air: The Humours of Ballamagairy – Oliver Goldsmith)
(WoO 153/8)

48 – The Kiss, Dear Maid (Text: Lord Byron)
(WoO 153/9)

49 – The Young Rose (Air: The Old Head of Denis – Thomas Moore)
(WoO 158/2/1)

50 – I’d Mourn the Hopes (Air: Killeavy – Thomas Moore)
(WoO 154/12)

51 – Oh! Breathe Not His Name (Air: The Brown Maid – Thomas Moore)
(WoO 154/11)

52 – When He Who Adores Thee (Air: The Fox’s Sleep – Thomas Moore)
(WoO 154/10)

53 – Fly Not Yet (Air: Planxty Kelly – Thomas Moore)
(WoO 154/1)

54 – Love’s Young Dream (Air: The Old woman – Thomas Moore)
(WoO 154/3)

55 – When Spring Begems the Dewy Scene (Air: St Patrick’s Day – Thomas Moore)
(WoO 154/4)

56 – Lesbia Hath a Beaming Eye (Air: Nora Creina – Thomas Moore)
(WoO 154/8)

57 – Avenging and Bright (Air: Cruachán na Féinne – Thomas Moore)
(WoO 154/5)

58 – O Bonie Was Yon Rosy Brier (Text: Robert Burns)
(WoO 153/7)

59 – When Thou Shalt Wander (Air: the Brown Thorn – Thomas Moore)
(WoO 153/18)

60 – Kate Kearney (Air: Kate Kearney/The Beardless Boy – Lady Morgan)
(WoO 153/17)

61 – Oh! Breathe Not His Name (Air: Castle O’Neill – Thomas Moore)
(WoO 158/2/2)

62 – Awa’ wi’ your Witchcraft (Air: The Fair-Haired Child, 1ª versão – Robert Burns)
(WoO 153/11)

63 – Come, Rest in This Bosom (Air: The Fair-Haired Child, 2ª versão – Thomas Moore)
(Hess 195)

64 – Thou Fair Eliza (Air: Sláinte Rí Philib – Robert Burns)
(WoO 153/19)

65 – Oh! Weep for the Hour (Air: The Pretty Girl of Derby O – Thomas Moore)
(WoO 157/11)

66 – Let Erin Remember (Air: The Red Fox – Thomas Moore)
(WoO 157/6)

67 – Kitty of Coleraine (Text: Traditional)
(WoO 157/8)

68 – The Minstrel Boy  (Air: The Moreen – Thomas Moore)
(WoO 157/2)

69 – Erin, O Erin! (Air: Táimse im’ Chodladh/Cauld Frosty Morning – Thomas Moore)
(WoO 158/2/5)

70 – Hark! The Vesper Hymn Is Stealing (Air: The Groves of Blarney – Thomas Moore)
(WoO 153/6)

71 – Farewell! – But Whenever (Air: Moll Roone – Thomas Moore)
(WoO 153/13, Hess 178)

72 – Erin! The Tear and the Smile in Thine Eyes (Air: Eibhlín a Rúin/Robin Adair – Thomas Moore)
(WoO 157/7)

Alunos e professores do Conservatory of Music and Drama of the Dublin Institute of Technology:
Sopranos: Colette Boushell, Shauna Buckingham, Sinéad Campbell-Wallace, Tara McSwiney, Aoife O’Sullivan e Edel Shannon
Mezzo-sopranos: Alison Browner e Leanne Fitzgerald
Tenores: Andrew Boushell, Niall Gallagher, Eamonn Mulhall e Lawrence Thackeray
Barítonos: David Howes e David Scott
Pianistas: Darina Gibson, Shirin Goudarzi-Tobin, Edward Holly, Roy Holmes, Mairéad Hurley, Catherina Lemoni-O’Doherty, David Mooney, Pádhraic Ó Cuinneagáin, Danusia Oslizlok, Aoife O’Sullivan-Hubbard,  Margaret O’Sullivan Farrell, Mary Scarlett, e Alison Thomas | www.dit.ie/conservatory/staff/alisonthomas Duo Chagall: Gillian Williams (violino) e Arun Rao (violoncelo)

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

#BTHVN250, por René Denon

Vassily

5 comments / Add your comment below

  1. Oi, Vassily!! Vim deixar pelo menos UM comentário, kkk – eu não baixei essas canções, pq já as tinha em outra gravação (que, confesso, só ouvi uma vez na vida para ter a “completude” da obra de Beethoven). O que me chamou a atenção (mas na minha gravação está incompreensível) é uma das canções adaptadas ser EM PORTUGUÊS… Chants d’origines diverses, WoO158 ~ No.12; Seus lindos olhos. Abraço!!

    1. Oi, Eduardo!
      Desde que a avistei numa lista de obras completas de Beethoven, “Seus lindos olhos” me levou a “maratonar” a série de arranjos de canções populares. Ela está, numa versão razoavelmente inteligível, na postagem de ontem.
      Agradeço por ter trazido o primeiro e, quiçá, único comentário para esta silenciosa cripta.
      Um abraço!

      1. Desculpe, sua postagem anterior (com “Seus Lindos Olhos”) tinha passado despercbida por mim! Realmente sua versão é um pouco mais inteligível que a que eu tinha, kkkk… Mais uma vez obrigado, e um abraço!!

  2. Não, o comentário acima não será o único: desta vez faço questão de registrar publicamente meu agrado & agradecimento por toda essa série de publicações – as seis anteriores e agora esta sétima “para descansar”.

    O Beethoven que encontramos aqui não é o mesmo das suas composições – ou é ainda outra faceta do mesmo, faceta essa que evidencia que o gênio era ainda mais rico e complexo do que estamos acostumados a pensar. Nesse sentido, essa série é uma epifania – uma revelação!

    Idolatradores de standards, que têm preguiça de dar os ouvidos a territórios sonoros não previamente consagrados pela adoração pública – desculpem, mas eu solenemente DESPREZO essa vossa pequenês de alma – essa forma refinada porém no fundo ainda meramente burguesa de se haverem com a produção artística & intelectual da humanidade!

  3. É a primeira vez que me comunico com Vassily PQP.
    Agradeço a paciência e o trabalho em disponibilizar todo esse rico e variado acervo.
    Com relação aos arranjos de Beethoven para as canções irlandesas acho que serei o “Segundão” a baixar.
    Alias essas postagens não convencionais é o que me atrai neste Blog.

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