José Siqueira (1907-1985) – Candomblé [Acervo PQPBach]

SEN-SA-CIO-NAL !!! 

(Postagem de maior sucesso do Bisnaga, colocada no ar originalmente em 6 de julho de 2012. Como tinha os arquivos em AIFF, reposto hoje em MP3 e FLAC – inclui algumas trocas de arquivos, corrigindo alguns defeitos das músicas “mordidas” e nova divisão, em 28 faixas, além de remasterização dos MP3)

2015: 30 anos sem José Siqueira

Fonogramas fantasticamente cedidos por Harry Crowl ! Não tem preço!

Senhoras e senhores, devo neste momento jogar minha modéstia de lado e confessar-lhes que já conheço um bom tanto de música erudita (não sou o melhor repertório mental daqui nem de longe, mas não faço feio…) e, por esse motivo, é difícil que eu fique embasbacado facilmente quando ouço uma música nova. Mas dessa vez meu queixo caiu e saiu quicando!

O motivo da queda foi esse ESTUPENDO (estupendo é o mínimo: estou sinceramente de boca aberta ainda, uma semana depois de ter contato com o arquivo) Candomblé do maestro José Siqueira! Do pouco que me foi possível conhecer de sua obra, já gostei, mas essa é a mais arrebatadora delas. Em sua música, José Siqueira retira o negro da senzala, como se apagasse seu passado de humilhações, e o eleva para o topo do pedestal. O negro aqui é nobre! Seu Candomblé é grandiloquente, vibrante, glorioso! E Siqueira consegue unir, com uma fluência embasbacadora, o erudito e o popular, o som de raiz e o som de concerto, numa formação de orquestra e coro grandiosa, e até megalômana. O Compositor Ricardo Tacuchiam conta o impacto que teve quando assistiu à estreia dessa peça:

Dentre os concertos, o que mais me chamou a atenção foi o de estréia mundial de seu Oratório Candomblé I (escrito em 1958), para coro misto, coro infantil, seis solistas vocais, conjunto de percussão afro-brasileira e orquestra sinfônica. A obra era toda baseada em cantos de Candomblé que o maestro colhera na Bahia. Várias lideranças afro-descendentes, algumas vestidas a caráter (com batas vistosas e turbantes, em plena platéia do teatro) estavam presentes, numa noite que mais parecia uma festa que um concerto. O teatro estava lotado e, naquela época, a cidade do Rio de Janeiro era realmente maravilhosa. José Siqueira e todos os artistas que participaram do evento receberam uma retumbante ovação (Depoimento extraído do blog do crítico musical Carlos Eduardo Amaral).

Candomblé é parte de um conjunto de quilate de obras de José Siqueira baseadas na cultura africana, resultados de incessantes pesquisas do compositor, professor e teórico da música:

Em um período em que o negro ainda era bastante discriminado e sua contribuição para a nossa cultura muito pouco reconhecida, José Siqueira criou uma série de peças orquestrais como o bailado Senzala, a cantata negra Xangô, gravada em Paris, a suíte Carnaval Carioca e, para Leonardo Sá [diretor educacional da Orquestra Sinfônica Brasileira], sua obra-referência: Candomblé.
— “Ele passou alguns meses freqüentando um terreiro em Salvador. Escreveu esse oratório dando sua visão musical do ritual. A gravação feita em Moscou é sensacional [foi isso que escrevi no começo, e é essa gravação que estamos posto hoje] — conta. — Essa peça tem a marca da sua irreverência e é ousada para a época. Pegou uma forma católica de expressão para falar de um ritual afro-brasileiro. Mas juntava a essa temática seus conhecimentos sobre compositores modernos como Stravinsky (João Pimentel, Segundo Caderno, O Globo, 26/02/2007).

E sim, além de se embeber dos sons mais chãos que encontrava em solo brasileiro, ele seguia os cânones mais contemporâneos da música mundial. Nessa obra você poderá ver tudo isso. Se a cantata Xangô (aqui) te agradou, essa aqui vai te deixar em êxtase (eu ainda estou)! Apenas aviso que, infelizmente, por ter sido passada de vinil para cassete e de cassete para mp3, há alguns trechos curtos em que parece que o som foi “mordido” e ficou comprometido, mas o todo compensa qualquer dessas falhas. Em tempo, como as músicas apresentavam divisões muito distintas, acabei por fazer uma divisão em 28 faixas, diferente das 13 originais (não se preocupe: está tudo ali e nada se perdeu)

Em Candomblé, José Siqueira pirou com essas fusões sonoras, mas ele sabia pirar (e saber pirar é pra poucos)! Sua condução é excepcional frente a uma orquestra de peso e faz com que até os solistas soviéticos sejam fluentes cantando em língua nagô. Alice Ribeiro destaca-se com uma belíssima e envolvente interpretação. Há trechos eloquentes, vibrantes, melancólicos, suaves, sonhadores, delicados, em um espantoso equilíbrio. Em suma, é uma grande ode ao povo negro, a nossa cultura e ao Brasil! Me sinto extremamente honrado de disponibilizá-la.

Ah, é IM-PER-DÍ-VEL !!!

Uma joalheria inteira! Ouça!  Ouça! Ouça!

Como sou um anjo, deixo 4 palhinhas pra vocês morrerem de vontade de baixar:

Xangô:

Oração aos deuses:

Orixá – parte 3:

Orixá – introdução:

 

José Siqueira (1907-1985)
Candomblé, Oratório fetichista para Grande Orquestra, seis solistas, dois coros mistos a seis vozes, coro infantil e Orquestra de Percussão (1958)

01. Introdução
02. Ogum
03. Oxóssi
04. Xangô – Introdução
05. Xangô
06. Três Cantos a Xangô – Canto 1
07. Três Cantos a Xangô – Canto 2
08. Três Cantos a Xangô – Canto 3
09. Oração aos Orixás – Parte 1
10. Oração aos Orixás – Parte 2
11. Oxum – Parte 2
12. Oxum – Parte 2
13. Iansã – Introdução
14. Iansã – Parte 1
15. Iansã – Parte 2
16. Três Cantos a Iansã – Canto 1
17. Três Cantos a Iansã – Canto 2
18. Três Cantos a Iansã – Canto 3
19. Obaluaiê – parte 1
20. Obaluaiê – parte 2
21. Obaluaiê – parte 3
22. Obaluaiê – parte 4
23. Orixá – Introdução
24. Orixá – parte 1
25. Orixá – parte 2
26. Orixá – parte 3
27. Oração aos Deuses – Introdução
28. Oração aos Deuses

Alice Ribeiro, soprano
Solistas do Coro Estatal
Orquestra e Coros Adulto e Infantil da Rádio e TV Estatal Soviética
José Siqueira, regente
Moscou, URSS, 1975

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FLAC  (160Mb)
MP3  (365Mb) – Remasterizado por Rogério Dec.

Partituras e outros que tais? Clique aqui
Quer saber um pouco mais sobre José Siqueira? Veja este blog.
Há ainda uma dissertação de mestrado sobre ele! Baixe!

UPDATE: O bonito é que muita gente se engaja e acaba nos ajudando. O Rogério Dec remasterizou o MP3 pra gente e deixou o áudio muito mais equilibrado. O áudio corrigido por ele já é o que está acima disponível para download. Aproveitem!
Abaixo, a descrição do esplendoroso Rogério Dec do trabalho realizado com as faixas:

Percebi que já haviam feito algum trabalho de correções sobre o seu áudio original, entretanto senti falta de uma melhor sonoridade.

Portanto resolvi submeter as 28 faixas a uma nova remasterização, onde dentre vários trabalhos, cito alguns que apliquei sobre as faixas:
Submeti todas as faixas a uma compressão dinâmica e puxei um pouco mais os graves pois estavam muito fracos;
Aumentei a “espacialização” dos canais, distribuindo mais amplamente as frequências nos canais esquerdo e direito; algumas faixas inclusive tocavam apenas no canal esquerdo;
Criei uma equalização analógica e destaquei um pouco mais os agudos, um pouco apagados no áudio original;
Maximizei o áudio a um nível um pouco maior diminuindo os contrastes excessivos nas dinâmicas;
Atenuei vários ruídos de fundo (chiados, cliques, pops, etc);
Todo o trabalho de masterização foi executado em arquivos WAV 32 bits, mas gerei os arquivos finais normalizados e renderizados em formato final MP3 em Variable Bit Rate (VBR) equivalente a 192 Kbps, onde não há perdas audíveis e ainda gera um arquivo pequeno de excelente qualidade final.
Dediquei várias horas a este trabalho, mas faço voluntariamente como uma forma de gratidão pelo fantástico trabalho de resgate de Harry Crowl, sem o qual não teríamos acesso a este e outros magníficos compositores.

Ouça! Deleite-se! … Mas, antes ou depois disso, deixe um comentário…

“Ôxe! Mas esse rapaz José Siqueira é arretado mesmo!”

Bisnaga

39 comments / Add your comment below

  1. Ainda não deu tempo de baixar, mas tenho algo a confessar: estava pensando “ih, gravação de orquestra brasileira anterior a 1990… a obra pode ser ótima mas… vamos ficar dizendo ‘pena que…'”

    Até que vi com alívio que a orquestra é russa. Que ironia, Xangô, que ironia…

    1. A gravação feita na Rússia explica-se em barte, lendo no http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Lima_Siqueira. Em 1969 ele foi aposentado pela ditadura militar “por defender o regime comunista. Proibido de lecionar, gravar e reger no Brasil, encontrou abrigo na extinta União Soviética, onde regeu a Orquestra Filarmônica de Moscou e participou como jurado de grandes concursos de música internacionais. Também foi em Moscou que boa parte de sua obra foi editorada e preservada enquanto que no Brasil o estúpido governo militar cuidava de alijá-lo da história.”

      1. Um pequeno equívoco nas datas… a gravação russa de muitas partes, como do “Canto aos Orixas”, é de 1958, anterior ao golpe civil-militar. Siqueira tinha enorme circulação internacional, Eua, Canada, Europa… e também na antiga União Soviética. Essa aproximação com o regime comunista foi uma das justificativas de Siqueira ter sido precocemente aposentado. Impedido como maestro, professor, acadêmico, entregou-se ao autoexílio na União Soviética, em 1968. Lá, não só teve tranquilidade de realizar-se profissionalmente, como, também, teve a oportunidade de atuar como regente da Orquestra Sinfônica de Moscou, que tem a fama de ser uma das mais disciplinadas do mundo. José Siqueira Voltou ao Brasil e faleceu, ironicamente, no dia 22 de abril, do ano (vejam, outra ironia) de 1985, da abertura política do país.

  2. Fiquei encantado com José Siqueira desde que ouvi pela primeira vez Ciranda, tocada pela orquestra da Unicamp numa gravação que caiu na prova de percepção do vestibular para os cursos de música. Desde então procuro por peças dele.

    1. Ê, PQP, mas você ainda é o sumo-sacerdote…
      Mas que o blog tomou uma proporção gigante, realmente, não? Hoje já somos mais que um time de futebol. E todos são mentes interenssantíssimas, que têm muito ainda pra contribuir.

  3. Obrigado a todos vocês, pessoal.
    Realmente, acho que esta foi uma das postagens que mais me encheu de orgulho. Conheço pouco de José Siqueira. aliás, como é difícil encontrar obras dele… Arretadíssimo o cara!

    Agradeçam ao Harry Crowl que jogou esse tesouro de hoje no nosso colo!

    1. Agradeço de fato ao Harry Crowl, fiquei sabendo desta matéria no pelo post dele Facebook.
      Desde então não paro de ouvir esta obra, muitas vezes…
      Fabuloso!
      Deveríamos promover um concerto com esta obra em sua homenagem.

  4. Estupendo…gosto muito de musicas com elementos do candomblé…Mesmo não sendo adepto a religião tenho muita admiração pelos ritmos e cultura . A obra é fantástica, vale muito a pena .!

  5. Além de me apaixonar pela música do José Siqueira eu me apaixonei por sua mulher( que voz…)
    Dois gigantes juntos só poderiam resultar em algo tão lindo e mágico.

    Abraços e desejos sinceros de felicidade para os realizadores desse blog que tanta felicidade já me deu…

    1. Ruan, nas trÊs quintas que virão teremos, nessa ordem, dois álbuns da Alice Ribeiro (ambos com músicas de José Siqueira) e um do José Siqueira. Aguarde e Delicie-se.

  6. Oi gente. Devo dizer que poucas obras me arrebataram da maneira como esta obra, especialmente a “Oração aos Orixás”, o fez. Bem, palavras não bastam para descrever, né? Por isso, me limito a escrever apenas a frase da “Oração aos Orixás” acima.

    Aproveito este post para perguntar do contato de quem disponibilizou esta obra para vocês. Pergunto isto pois estou atrás de mais informações a respeito desta obra, já que ela pode me nortear na minha pós-graduação em música!
    Agradeço,
    André

    1. Oi, André.

      Quem nos enviou esta obra foi o compositor Harry Crowl, que vive em Curitiba.
      Essa gravação tem problemas porque foi passada de um LP russo (foi gravada na ex-URSS) para fita, e de fita para o formato digital.
      Considero o José Siqueira um dos melhores compositores brasileiros do século XX e o mais negligenciado do período. Ele foi muito perseguido pelo regime militar.
      As suas obras estão na biblioteca da Faculdade de Música da UFRJ. Foram doadas por sua família para a escola onde ele lecionou.
      Existe comunidade no facebook sobre o maestro: https://www.facebook.com/maestrojosesiqueira
      Há um blog sobre ele, o http://maestrojosesiqueira.blogspot.com.br/
      O blog é mantido, organizado pela neta dele, a Mirella San Martini Siqueira, uma entusiasta (com toda a razão) da obra do avô. Ela pode te ajudar muito. O e-mail dela é msanmartini@uol.com.br (tá lá no blog).

      Espero que ajude, e que conheçamos cada vez mais e melhor a obra deste grande compositor barsileiro.

      Um abraço

  7. Belíssimo oratório, de um lirismo arrebatador, e nos mostra como é possível fazer música consonante de extrema qualidade, mesmo estando no século XX.
    Caso raro esse, num tempo em que as vanguardas musicais dominavam praticamente todo o cenário musical e impunham seus ditames estéticos. Vale a pena ouvir duas, três , mil vezes.

  8. Nossa, que postagem maravilhosa. Infelizmente a cultura negra no Brasil foi muito reprimida, e apesar de ter diminuído, ela ainda sofre certo preconceito por boa parte da população. Obras como essa valorizam a cultura negra e dão vida à ela, além disso, mostra que a música erudita não é só para eruditos, mas tão incrível que pode assimilar as mais variadas inspirações de culturas, pensamentos e paixões humanas. Muito obrigado bisnaga!

    1. Lendo um puco sobre José Siqueira, vi que ele tinha o afã de que a música clássica chegasse a todos, a preços populares ou de graça, em suas palavras, ele queria que “toda a população tivesse acesso à música fina e elaborada”. Por isso mesmo, além de ser um criador de inúmeras orquestras, ele fundiu como poucos os elementos da música popular na música de concerto, creio que para mostrar que não há diferença entre ambas.

    1. Caro Lontra,
      Você não sabe como é boa também a tranquilidade de ter casa própria… O PQPShare tem suas instabilidades, mas não é traiçoeiro e é a gente que faz as regras.
      Show de bola de nosso desenvolvedor!

  9. Que maravilha ver tantas obras de Siqueira por aqui e saber que tem mais gente conhecendo esse gênio da música brasileira!!
    Muito obrigada por compartilhar essas maravilhas conosco, Bisnaga! De coração! Já baixei tudo de Siqueira que eu ainda não tinha.

    Sou uma grande admiradora do trabalho dele e por essa razão faço mestrado na UFPB tendo a obra “Recitativo, Ária e Fuga” para cello e orquestra de cordas como objeto da minha pesquisa. Algumas gravações que você postou aqui eu estava atrás há muito tempo.

    Por acaso você tem partituras de alguma obra dele?

    Parabéns pelo blog. Show de bola! 🙂

    Grande abraço,
    Roberta.

    1. Olá, Roberta,

      Você não tem ideia de como a gente se sente feliz e realizado por ver as obras que aqui postamos sendo utilizadas para pesquisa e para o conhecimento mais aprofundado da nossa música!
      Infelizmente eu não tenho nenhuma partitura do José Siqueira: sei que quase tudo está arquivado e catalogado na Escola de Música da UFRJ e na Biblioteca Nacional.

      Não perca: amanhã de manhã sai a postagem d’A Compadecida, dele. Muito legal!

      Um abração

  10. Tive a grande felicidade de conhecer as obras de José Siqueira graças a Harry Crowl.

    Percebi que já haviam feito algum trabalho de correções sobre o seu áudio original, entretanto senti falta de uma melhor sonoridade.

    Portanto resolvi submeter as 28 faixas a uma nova remasterização, onde dentre vários trabalhos, cito alguns que apliquei sobre as faixas:
    Submeti todas as faixas a uma compressão dinâmica e puxei um pouco mais os graves pois estavam muito fracos;
    Aumentei a “espacialização” dos canais, distribuindo mais amplamente as frequências nos canais esquerdo e direito; algumas faixas inclusive tocavam apenas no canal esquerdo;
    Criei uma equalização analógica e destaquei um pouco mais os agudos, um pouco apagados no áudio original;
    Maximizei o áudio a um nível um pouco maior diminuindo os contrastes excessivos nas dinâmicas;
    Atenuei vários ruídos de fundo (chiados, cliques, pops, etc);
    Todo o trabalho de masterização foi executado em arquivos WAV 32 bits, mas gerei os arquivos finais normalizados e renderizados em formato final MP3 em Variable Bit Rate (VBR) equivalente a 192 Kbps, onde não há perdas audíveis e ainda gera um arquivo pequeno de excelente qualidade final.
    Dediquei várias horas a este trabalho, mas faço voluntariamente como uma forma de gratidão pelo fantástico trabalho de resgate de Harry Crowl, sem o qual não teríamos acesso a este e outros magníficos compositores.

    Segue: https://drive.google.com/file/d/0B81wA4UHCedmQ1J0LVd0eGIxQVE/view?usp=sharing

    Um grande abraço.

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