Postagem restaurada – Ludwig van Beethoven (1770-1827) – Symphonies Nos. 3 & 4 – Bruno Walter – Leslie Howard #BTHVN250

61+AufDLfcLPUBLICADA ORIGINALMENTE POR FDP BACH EM 21/5/2014, RESTAURADO POR VASSILY EM 30/3/2020

Mais duas sinfonias de Beethoven, em sua versão original para orquestra e na versão transcrita para piano por Liszt. Desta vez temos a monumental Sinfonia nº 3, uma das mais belas páginas da história da música ocidental, que dispensa apresentações. Mesmo depois de tantos anos ouvindo-a constantemente, não me canso jamais de ouvi-la. Sua Marcha Fúnebre está com certeza entre as mais belas páginas já escritas na história da música.

frontA outra sinfonia é a de nº 4, um tanto quanto menosprezada, afinal estaria entre duas obras primas absolutas de Beethoven, a terceira e a quinta. Mas trata-se obviamente de um equívoco considerá-la uma obra menor do repertório sinfônico do gênio de Bonn. Não tem o mesmo impacto das acima citadas, mas precisamos colocá-la como uma obra de transição, um estudo que o compositor realizou para testar os limites do que poderia ser feito até chegar à uma fórmula ideal. Seu denso adagio inicial em um primeiro momento consegue esconder o que virá pela frente e sua explosão em um allegro vivace sempre me surpreende.

Symphony No.3 in E-flat Major, Op. 55 ‘Eroica’
I. Allegro con brio
II. Marcia funebre. Adagio assai
III. Scherzo. Allegro vivace
IV. Finale. Allegro molto

Leslie Howard – Piano
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Columbia Symphony Orchestra
Bruno Walter – Conductor
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01 – Symphonie Nr. 4 B-dur, Op. 60
I. Adagio. — Allegro vivace
II. Adagio
III. Allegro vivace. — Un poco meno allegro
IV. Allegro ma non troppo

Leslie Howard – Piano
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Columbia Symphony Orchestra
Bruno Walter – Conductor
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FDPBach

5 comments / Add your comment below

  1. Inicialmente, é importante ter em mente que a arte da transcrição é uma recriação: uma adaptação a determinada forma de expressão musical de obras originalmente concebidas para outra.
    Deve-se ter atentar para o fato de que os arranjos de Liszt para piano de obras de Bach para órgão são os que mais se aproximam de uma transcrição nota a nota. Na adaptação de obras orquestrais para piano, esse procedimento literal é impossível, para que a música surta o desejado efeito no novo meio de expressão. Embora se mantivesse fiel a melodias, ritmos e harmonias das sinfonias de Beethoven, por exemplo, Liszt tomava as necessárias liberdades na transposição das texturas orquestrais para o teclado.
    O total do catálogo de transcrições de Liszt abrange 368 peças; mas como há vários itens subdivididos (12 canções, 9 sinfonias, etc) o total real chega a mais do dobro.
    Um extraordinário empenho criativo, sem dúvida, que no entanto não raro lhe valeu mais censuras que cumprimentos. Uma lista tão grande poderia dar idéia de uma série infindável de obras sem interesse, produzidas com rapidez e mecânica facilidade. Mas não: as adaptações de obras de outros compositores são sempre cuidadosas e, vale frisar, altamente criativas em sim mesmas.
    Liszt integra uma das correntes mais ilustres no terreno da transcrição. Os precedentes mais conhecidos são Mozart e Bach, com suas recriações de obras de Vivaldi. Não devemos esquecer que o próprio Beethoven, transformou seu Concerto para Violino num Concerto para Piano.
    No século XV e início do XVI, eram comuns os arranjos de música vocal para alaúde, violas ou teclados. Na antologia da história da música de Arnold Schering, o madrigal para solista Amarilli, mia bella, de Caccini, publicado em Florença em 1602, é seguido de uma transcrição para virginais publicada por Peter Philips em Londres em 1603. É uma transcrição tão livre quanto qualquer uma das que saíram da pena de Liszt, e serve igualmente para ilustrar a idéia de um continuum entre a música antiga e a nova, do qual o próprio Liszt é apenas parte. Essa continuidade pode ser constatada de várias maneiras. Por exemplo: 1 – no século XIX, a Chacona para solo de violino em ré menor de Bach, transcrita para a mão esquerda no piano por Brahms; os arranjos de Bach e Paganini feitos por Schumann; o arranjo para orquestra de cordas de Mahler do Quarteto op. 95 de Beethoven; 2 – no século XX, as transcrições orquestrais de Ravel e Schoenberg.
    A grande maioria das adaptações do século XIX pertencia ao gênero do pot-pourri, mas Liszt nunca desceria a este nível.
    Busoni chamou atenção para a sutil utilização de seções contrastantes nas fantasias operísticas de Liszt, o gosto evidenciado na escolha de passagens e dos motivos usados na caracterização dramática, o emprego de ornamentação filigranada como elemento intrínseco das ‘fantasias’, e reconheceu a superioridade de Liszt em relação aos outros arranjadores contemporâneos.
    O monumento a Beethoven em Bonn deve muito ao empenho de Liszt; e ele por sua vez criou seu próprio monumento a Beethoven com as transcrições das nove sinfonias. Em 1851 foi publicado seu arranjo da Nona para dois pianos – adaptação admirada entre outros por Brahms e Clara Schumann, que a tocaram juntos. No ano de 1864, Liszt publica a segunda versão da Nona para um piano apenas.
    Como no caso da Symphonie fantastique, Liszt assinala minuciosamente a instrumentação de Beethoven, reproduzindo com exatidão ligaduras e fraseados. Sua grande habilidade está na criação de sonoridade apropriadas para as seções orquestrais que pareceriam fracas se fossem meramente transcrições nota por nota. Dentre muitos exemplos, temos a sutil redistribuição das texturas de acompanhamento no movimento lento da No. 4; os acordes arpejados no baixo profundo, evocando brilhantemente o terrível troar dos instrumentos graves na tempestade da Pastoral; e a freqüente combinação simultânea de diferentes texturas – tremolo, melodia em prolongado legato e acompanhamento em staccato, como no Adagio da Nona. A clareza de cada uma das vozes é mantida graças à cuidadosa notação das hastes das notas, para cima ou para baixo. Liszt estabelece frequentemente passagens com a indicação ossia, para soluções alternativas; e eventualmente inclui em pautas separadas certas vozes que não pôde incorporar aos dez dedos.
    Como no caso de Beethoven, também com Berlioz a preservação do ‘espírito do original’ é invariavelmente o objetivo de Liszt. A audácia do arranjo da Symphonie fantastique fica evidente não só na bem-sucedida transformação da orquestração em termos pianísticos como em sua qualidade pura e simplesmente como documento pianístico, como Schumann não deixou de observar:

    ‘Liszt empreendeu seu arranjo com tal talento e entusiasmo que ele pode ser considerado uma obra original, um résumé de seus estudos aprofundados, uma verdadeira escola prática de execução de partes orquestrais no piano. Essa arte da reprodução, tão diferente do empenho detalhista do virtuose, os diferentes tipos de toque que exige, o uso inteligente do pedal, a clara interpenetração das diferentes vozes, a compreensão global das massas orquestrais – em suma, a captação de recursos e possibilidades até agora ocultas no piano só pode ser obra de um Mestre.’
    Os parágrafos acima são citações do livro do professor Derek Watson sobre a obra lisztiana.
    Finalizando: Liszt GÊNIO ABSOLUTO da música ocidental!
    PS:
    1 – a integral de Liszt por Leslie Howard encontra-se disponível no blog Radio Me La Sudas.
    2 – são imperdíveis as gravações de Glenn Gould das transcrições da Quinta Sinfonia e do primeiro movimento da Pastoral, bem como, o registro da transcrição da Symphonie fantastique pela EXTRAORDINÁRIA pianista Idil Biret, que na minha modesta opinião é um dos monstros sagrados do piano da segunda metade do século XX.

  2. Beto, você se importaria se eu colocasse esse seu texto no corpo da próxima postagem, prevista pra sexta feira? Ele é muito esclarecedor, e pouca gente acessa os comentários. Claro que daremos todo o crédito.

  3. Entre tantas gravações de cada sinfonia de Beethoven, não é fácil escolher a melhor, para quem escolhe, evidentemente. Não creio haver ‘a melhor’ em absoluto e muito menos esta sinfonia, uma das mais menosprezadas, como diz o texto. Contudo, a 4ª pelo Bruno Walter seria a minha 4ª a levar para a ilha e, talvez, a 1ª a ser ouvida. Entre as minhas melhores nove, Bruno Walter coloca duas: a 4ª e a 6ª. Nenhum outro maestro consegue (mas acho que ninguém se importa muito 🙂

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