Ludwig van Beethoven (1770-1827): Integral dos Quartetos de Cordas (Kodály) (CD 9 de 9)


IM-PER-DÍ-VEL !!!

Enfim, chegamos ao final de mais uma série! O Op. 135 é menor em tamanho e nele há temas que aparecem acenar ao Op. 64 de Haydn, principalmente no primeiro movimento. Mas quando pensamos que Beethoven tornou-se mais clássico na forma, ele ataca novamente com seus temas curtos e afirmativos no segundo movimento e volta a expor uma longa reflexão no terceiro movimento. Mesmo assim, acho que nossos leitores-ouvintes, não ficariam escandalizados se eu dissesse que o Op. 135 é a Oitava Sinfonia deste grupo final. É menor e mais relaxado.

O mesmo não se pode dizer do Op. 131. Cheio de abismos e de contrastes, traz grande parte daquilo que Shostakovich faria depois. É. Confiram! Não estou dizendo que falte originalidade à Shosta, estou apenas comentando que ele foi à melhor fonte para fazer a melhor música. Alguns bebem de fontes mais impuras; Shosta caiu de cabeça na melhor delas. Porém, tergiverso. Analisando rapidamente temos um L-R-R-L-R-L-R (L=Lento, R=Rápido). Sim, sim, o homem estava escrevendo novamente em chinês e este quarteto deve ter sido detestadíssimo pelo público. Concordas, Flávio? (Quem trouxe o chinês à baila foste tu!) Na verdade, estou meio divagativo e fico pensando na impressão que aquele público da década de 20 do século XIX teve de um quarteto como este… Sorrio para o monitor como se estivesse vendo suas caras de pasmo ou talvez de indignação. Mal sabiam eles que estavam vendo o futuro. Se os movimentos fossem mais curtos e as mudanças de humor mais constantes, eles estariam DENTRO futuro e Beethoven seria internado.

Não obstante esta apresentação irônica, trata-se de música seríssima e adorada por mim. Sugiro uma audição muito atenta do Andante ma non troppo e molto cantabile. Há algo naquele violoncelo que parece negar toda a tranquilidade ao movimento. Acompanhem-no. É como se Beethoven, inteiramente neurótico como qualquer cidadão de nossa época, nos dissesse: a calma e a beleza, qualquer calma e beleza, meus amigos, são absolutamente falsas.

O Op. 131 é a música que perpassa todo o belíssimo filme "O Último Quarteto" de Yaron Zilberman
O Op. 131 é a música que perpassa todo o belíssimo filme “O Último Concerto” de Yaron Zilberman

Ludwig van Beethoven

String Quartet No. 16 in F major, Op. 135
I. Allegretto 00:06:01
II. Vivace 00:03:14
III. Lento assai, cantante e tranquillo 00:06:39
IV. Grave ma non troppo tratto – Allegro 00:07:03

String Quartet No. 14 in C sharp minor, Op. 131
I. Adagio ma non troppo e molto espressivo 00:08:01
II. Allegro molto vivace 00:03:00
III. Allegro moderato 00:00:50
IV. Andante ma non troppo e molto cantabile 00:13:43
V. Presto 00:05:19
VI. Adagio quasi un poco andante 00:02:02
VII. Allegro 00:07:06

Kodaly Quartet

Total Playing Time: 01:02:58

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Beethoven dando uma voltinha pelas redondezas
Beethoven dando uma voltinha pelas redondezas

PQP

12 comments / Add your comment below

  1. (risos) Concordo inteiramente contigo PQP! Aliás, tenho aprendido muito com você, bem como os comentários de FDP, Clara e BlueDog.

    Estou gostando ainda mais (se isso é possivel), do op.132: Seu preferido.

    Não sei se acrescentaria mais nada do que você já disse, mas o op.135 e o op.131 formam uma antítese interessante. Ah! A grande dicotomia em toda a obra de Beethoven: Luz e escuridão; exaltação e introspecção!

    O op.135 me parece uma verdadeira comédia, cheio de sutilezas, de humor, e de sagacidade psicologica.

    Você tem razão que Beethoven nessa obra, parece resgatar o Espírito de Haydn, principalmente na forma. Novamente os quatro movimentos; e foi o quarteto que ele demorou menos tempo para compor: cerca de 4 meses! É interessante porque há realmente o resgate da forma sonata no primeiro e ultimo movimento. Há um autor que considera essa obra “nostálgica”, outros acham que é uma paródia espiritual do periodo classico, uma verdadeira evocação do mundo artistico de Haydn e Mozart. Sem duvida a obra se aproxima do “galant”.

    Mas isso é a superfície. Por detras disso, há muita coisa nova nesse quarteto. A frase de abertura por exemplo, não tem precedentes em epocas anteriores. Essa figura da viola, laconica, instila na mente do ouvinte do começo ao fim. Além disso, é fora da tonica Fá maior. Tambem delineia o acorde “Es muss sein”, que estará presente no final. A famosa frase “É necessário?” “Sim! é necessário!”, com que beethoven brinca no ultimo movimento.

    O primeiro movimento como toda a obra é cheio de momentos inesperados e estranhos que tem estimulado analises profundas que nao cabem aqui. A figura de abertura abre espaço para um fugato…. O scherzo é outro exemplo de humor mordaz de beethoven.

    Enfim… para nao ficar muito longo. Kundera, um autor chamou o op.135 de “a insustentável leveza do ser”, envolvida entre a brincadeira e a parabola do humor cotidiano… Em seus4 movimentos podemos dizer que prevalecem 4 categorias de sentimentos:

    1. Perspicacia, engenho, deslocamentos
    2. Energia tumultuada e comica
    3. Reflexão lirica.
    4. Dialética da escuridão e da luz, seguido pela resolução alegre e brilhante.

    Beethoven, seguindo Shakespeare – que admirava -, afirma que a comédia não é uma forma inferior à tragédia… ambas celebram o espirito humano.

  2. Já o op. 131, que coisa linda! É o meu preferido PQP!

    Parece-me o oposto polar do op.135!

    É o quarteto mais concentrado, e introspectivo de todos. Wagner dizia que era o quarteto mais interiorizado e penetrante.

    No conteúdo e na forma, é tambem excessivamente inovador!

    A obra inteira, principalmente o primeiro e ultimo movimento, exploram emoções profundas.

    Os amigos certamente já prestaram a atenção para o primeiro movimento! É uma fuga extraordinaria! Um fuga que quase se arrasta, silenciosa…

    Beethoven nem sequer viu a apresentação pública desse quarteto, que foi considerado dificilimo, impraticavel. Entretanto Joseph Bohm e seu quarteto, ensaiou-o para beethoven em sua residencia.

    Schubert, antes de morrer, pediu que tocassem esse quarteto em novembro de 1828. Foi seu ultimo pedido antes da morte.

    Não tenho condições, nem conhecimento musical, para examinar a extraordinaria fuga do primeiro movimento… Existem tratados, e tratados, para isso… Mas digo que o tratamento do sujeito (tema da fuga), é considerado genial, preenchendo amplamente o “espaço do registro” (o que é isso?)

    Não há, segundo os teoricos, nada semelhante na historia da musica, de que se poderia inferir que Beethoven sofreu influencia… Em que ele se baseou, ou se inspirou, pra escrever esse primeiro movimento? A unica coisa que parece ter uma certa similaridade é a fuga 24 do livro 1 de “O cravo bem temperado” de Bach.

    O que falar mais desse quarteto maravilhoso, senão que ele passa nessa concentração, com uma unidade de pensamento, e um senso de continuidade – movimento a movimento – impressionante?

    Essa energia concentrada e mantida, irá explodir em uma admiravel fuga no movimento final. O movimento final tem claras afinidades com o primeiro movimento. Esse final ancora e equilibra a obra como um todo tonal, formal, cíclico e psicologico.

    A fúria do allegro final libera a energia contida que é tão controlada nos movimentos anteriores. É claro que o scherzo tinha uma certa energia, mas ali é diferente. Ha mais humor e sagacidade do que realmente a catarse necessaria!

    E notem bem! Esse final não pode ser comparado com outros finais heroicos de beethoven, como da quinta sinfonia, da apassionata, etc… Aki, ha uma afirmação mais profunda, ouso dizer, espiritual, uma tragédia na forma mais elevada!

    Abraços!

  3. Resolvi fazer uma experiência: coloquei a Grande Fuga tocando para minha irmã (que não conhece muito sobre música erudita, mas não é completamente ignorante no assunto) sem apresentação prévia, e perguntei de qual período ela era. A resposta foi modernismo! Não “romantismo desvairado”, modernismo mesmo.
    Depois disso sou obrigado a concordar inteiramente com PQP Bach: esses quartetos estavam quase 100 anos a frente de seu tempo. impressionante.

  4. O sexto e último movimento da terceira sinfonia de Mahler, “Was Mir die Liebe Erzahlt” (O que me diz o Amor) me lembra muito o movimento lento do op.135 de Beethoven.

  5. Logo no início desse movimento de Mahler há uma boa semelhança, melódica até, com o movimento lento de Beethoven. Em seguida, a sinfonia segue caminhos próprios, mas a orquestração continua a lembrar o clima que Beethoven cria no terceiro movimento do op. 135. A orquestra parece atuar como um quarteto de cordas. Chega um ponto, porém, que a sinfonia de Mahler fica mais intensa, há a entrada dos metais, dos sopros, e a semelhança já não existe mais.

    Óbvio que isso tudo foi uma impressão que tive e não consegui mais tirá-la da cabeça.

    Abraço

  6. Llegue un poco tarde a este post de la integral de los cuartetos de Beethoven. Realmente es sorprendente esta coleccion. De ser posible ¿puedes volver a subir los 3 primeros cds (CD 1-3) con links pqp? Los actuales estan por rapidshare y quisiera poder disfrutar la integral completa. Felicidades por este esfuerzo titanico de compartir esta maravillosa musica con nosotros. Saludos afectuosos.

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